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Full text of "Coleção Os Pensadores - 1ª Edição. Abril Cultural, 1973/1974. [Convertido E Comprimido Para Preto & Branco]"

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OS PENSADORES 


XXXI 


AUGUSTE COMTE 


CURSO DE 
FILOSOFIA POSITIVA 


Tradução de JOSE ARTHUR GIANNOTTI 


AUGUSTE COMTE 


CURSO DE 
FILOSOFIA POSITIVA 


DISCURSO SOBRE 
O ESPÍRITO POSITIVO 


CATECISMO POSITIVISTA 


ÉMILE DURKHEIM 


— ASREGRAS 
DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 
E * 
OUTROS TEXTO 


EDITOR: VICTOR CIVITA 


Títulos originais: 


Textos de Comte — Cours de philosophie positive — 
Discours sur Vesprit positif — Catéchisme positiviste ou sommaire 
exposition de la religion universelle. 

Textos de Durkheim — De la division du travail social — 

Les rêgles de la mêthode sociologique — 

Le suicide — Les formes êlémentaires de la vie religieuse. 


1.º edição — outubro 1973 


& — Copyright desta edição, 1973, Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. 
Traduções publicadas sob licença de: 

Editorial Presença Ltda., Lisboa (As Regras do Método Sociológico; O Suicídio.) 
Direitos exclusivos sobre as traduções do Curso de Filosofia Positiva; 
Discurso sobre o espírito positivo; Da divisão do trabalho social 
e As Formas Elementares da Vida Religiosa, 

1973, Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. 

A tradução, por Miguel Lemos, do Catecismo Positivista que figura neste volume 
foi gentilmente cedida à Abril S.A. Cultural e Industrial 
para esta edição pela Igreja Positivista do Brasil, detentora dos direitos autorais. 


Sumário 


AUGUSTE COMTE 
CGURS QUDE:FILOSO EIA POSTEIVA£O 2 ao coa eq e GAR pa SP q a A a a 7 
DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO lc 47 
CATECISMO: POSITIVISTA esc sunita a om tg donde Pc DAE SD Rd RE a ale a ERR ND 101 
ÉMILE DURKHEIM 
DA DIVISÃO. DO TRABALHO SOCIAL. Esses 8 o o ee PO a AE a RR RN 303 
AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO ll 373 
EESTICIDIO sa ent on fura a po prata AND ag qe NO e RO ES E 20 RR E RS DR SR 465 
AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA ....cc 505 


PRIMEIRA LIÇAO 


Exposição da finalidade deste curso, ou considerações gerais 
sobre a natureza e a importância da filosofia positiva 


SUMÁRIO: I — Objeto da primeira lição: definir o objetivo e a natureza da filosofia positiva. II — Lei dos 
três estados: teológico, metafísico, positivo; características de cada um desses estados. III — Demonstração 
da lei dos três estados: 1.º provas históricas; 2.º provas teóricas. IV —— Natureza da filosofia positiva: prin- 
cípio das leis; as explicações positivas. V — Breve histórico do positivismo. VI — Situação atual; resta fun- 
dar apenas a física social. VII — Necessidade de uma sistematização das ciências; papel e espírito da filoso- 
fia positiva nesta reorganização do conjunto dos conhecimentos. VII — Vantagens de semelhante trabalho: 
1.º descoberta racional das leis do espírito humano; crítica do mêtodo subjetivo em psicologia; 2.º reorgani- 
zação dos métodos de educação; 3.º contribuição ao progresso das ciências especiais; 4.º reorganização da 


sociedade. IX — Resumo. X — Impossibilidade de reduzir a uma lei única a explicação de todos os 
fenômenos. 
I — O objetivo desta primeira lição é expor nitidamente a finalidade do curso, a 


saber, determinar exatamente o espírito no qual serão considerados os diversos ramos 
fundamentais da filosofia natural, indicados pelo programa sumário que lhes apresentei. 

Sem dúvida, a natureza deste curso não poderia ser completamente apreciada, de 
maneira a propiciar uma opinião definitiva, a não ser quando as diversas partes fossem 
sucessivamente desenvolvidas. Tal é o inconveniente ordinário das definições relativas a 
sistemas de idéias muito extensos, quando estas precedem a exposição. Mas as generali- 
dades podem ser concebidas sob dois aspectos, quer como vistas duma doutrina a estabe- 
lecer, quer como resumo duma doutrina estabelecida. Se é somente deste último ponto de 
vista que adquirem todo o seu valor, não deixam de possuir, ao menos já sob o primeiro, 
extrema importância, caracterizando desde a origem o assunto a considerar. A circuns- 
crição geral do campo de nossas investigações, traçada com toda severidade possível. 
constitui, para o nosso espírito, preliminar particularmente indispensável num estudo tão 
vasto e até aqui pouco determinado, como aquele de que vamos nos ocupar. É a fim de 
obedecer a essa necessidade lógica que eu creio dever indicar-lhes, desde este momento, 
“a série de considerações fundamentais que deram nascimento a este novo curso, e que 
serão, de resto, especialmente desenvolvidas em seguida, com toda a extensão que recla- 
ma a alta importância de cada uma delas. 

Il — Para explicar convenientemente a verdadeira natureza e o caráter próprio da 
filosofia positiva, é indispensável ter, de início, uma visão geral sobre a marcha progres- 
siva do espírito humano, considerado em seu conjunto, pois uma concepção qualquer só 
pode ser bem conhecida por sua história. 

Estudando, assim, o desenvolvimento total da inteligência humana em suas diversas 
esferas de atividade, desde seu primeiro vôo mais simples até nossos dias, creio ter desco- 
berto uma grande lei fundamental, a que se sujeita por uma necessidade invariável. e que 
me parece poder ser solidamente estabelecida, quer na base de provas racionais forneci- 


10 COMTE 


das pelo conhecimento de nossa organização, quer na base de verificações históricas 
resultantes dum exame atento do passado. Essa lei consiste em que cada uma de nossas 
concepções principais, cada ramo de nossos coiihecimentos, passa sucessivamente por 
três estados históricos diferentes: estado teológico oti fictício, estado metafísico ou abs- 
trato, estado científico ou positivo. Em outros termos, o espírito humano, por sua nature- 
za, empregã sucessivamente, em cada uma de suas investigações, três métodos de filoso- 
far, cujo caráter é essencialmente diferente e mesmo radicalmente oposto: primeiro, o 
método teológico, em seguida, o método metafísico, finalmente, o método positivo. Daí 
três sortes de filosofia, ou de sistemas gerais de concepções sobre o conjunto de fenôme- 
nos, que se excluem mutuamente: à primeira é o ponto de partida necessário da inteli- 
gência humana; a terceira, seu estado fixo e definitivo; a segunda, unicamente destinada 
a servir de transição. 

No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente suas investigações 
para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os efeitos que o 
tocam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, apresenta os fenômenos como 
produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numero- 
sos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo. 

No estado metafísico, que no fundo nada mais é do que simples modificação geral 
do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras 
entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebi- 
das como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados, cuja 
explicação consiste, então, em determinar para cada um uma entidade correspondente. 

Enfim, no estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de 
obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer 
as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao 
uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas rela- 
ções invariáveis de sucessão e de similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a 
seus termos reais, se resume de agora em diante na ligação estabelecida entre os diversos 
fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número o progresso da ciência tende 
cada vez mais a diminuir. 

O sistema teológico chegou à mais alta perfeição de que é suscetível quando substi- 
tuiu, pela ação providencial de um ser único, o jogo variado de numerosas divindades 
independentes, que primitivamente tinham sido imaginadas. Do mesmo modo, o último 
termo do sistema metafísico consiste em conceber, em lugar de diferentes entidades parti- 
culares, uma única grande entidade geral, a natureza, considerada como fonte exclusiva 
de todos os fenômenos. Paralelamente, a perfeição do sistema positivo à qual este tende 
sem cessar, apesar de ser muito provável que nunca deva atingi-la, seria poder repre- 
sentar todos os diversos fenômenos observáveis como casos particulares dum único fato 
geral, como a gravitação o exemplifica. 

HI — Aqui não é o lugar de demonstrar especialmente esta lei fundamental do 
desenvolvimento do espírito humano e deduzir dela as consequências mais importantes. 
Trataremos disso diretamente, com toda a extensão conveniente, na parte deste curso 
relativa ao estudo dos fenômenos sociais. Só a considero agora para determinar com pre- 
cisão o verdadeiro caráter da filosofia positiva, em oposição às duas outras filosofias, 
que dominaram sucessivamente, até os últimos séculos, todo o nosso sistema intelectual. 
Presentemente, a fim de não deixar por inteiro sem demonstração uma lei dessa impor- 
tância, cujas aplicações se apresentarão frequentemente em toda a extensão deste curso, 
devo limitar-me a uma indicação rápida dos motivos gerais mais sensíveis que podem 
constatar sua exatidão. 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 1 


Em primeiro lugar, basta, parece-me, enunciar tal lei para que sua justeza seja 
imediatamente verificada por todos aqueles que possuam algum conhecimento aprofun- 
dado da história geral das ciências. Não ê&xiste uma única, com efeito, que, tendo chega- 
do hoje ao estado positivo, não possa set facilmente representada por qualquer pessoa 
como essencialmente composta, no passado, de abstrações metafísicas e, se se remontar 
ainda mais no tempo, como inteiramente dominada por concepções teológicas. Teremos, 
infelizmente, mais de uma ocasião formal de reconhecer, nas diversas partes deste curso, 
que as ciências mais aperfeiçoadas conservam, ainda hoje, alguns traços muito sensíveis 
desses dois estados primitivos. 

Essa revolução geral do espírito humano pode ser facilmente constatada hoje, duma 
maneira sensível embora indireta, considerando o desenvolvimento da inteligência indivi- 
dual. O ponto de partida sendo necessariamente o mesmo para a educação do indivíduo 
e para a da espécie, as diversas fases principais da primeira devem represeritar as épocas 
fundamentais da segunda. Ora, cada um de nós, contemplando sua própria história, não 
se lembra de que foi sucessivamente, no que concerne às noções mais importantes, teó- 
logo em sua infância, metafísico em sua juventude e físico em sua virilidade? Hoje é fácil 
esta verificação para todos os homens que estão ao nível de seu século. 

No entanto, além da observação direta, geral ou individual, que prova a exatidão 
dessa lei, devo sobretudo, nesta indicação sumária, mencionar as considerações teóricas 
que fazem sentir sua necessidade. 

A mais importante dessas considerações, recolhida na própria natureza do assunto, 
consiste na necessidade, em todas as épocas, duma teoria qualquer para ligar os fatos, 
necessidade combinada com a impossibilidade evidente, para o espírito humano em sua 
origem, de formar teorias a partir de observações. 

Todos os bons espíritos repetem, desde Bacon, que somente são reais os conheci- 
mentos que repousam sobre fatos observados. Essa máxima fundamental é evidente- 
mente incontestável, se for aplicada, como convém, ao estado viril de nossa inteligência. 
Mas, reportando-se à formação de nossos conhecimentos, não é menos certo que o espí- 
rito humano, em seu estado primitivo, não podia nem devia pensar assim. Pois, se de um 
lado toda teoria positiva deve necessariamente fundar-se sobre observações, é igualmente 
perceptível, de outro, que, para entregar-se à observação, nosso espírito precisa duma 
teoria qualquer. Se, contemplando os fenômenos, não os vinculássemos de imediato a 
algum princípio, não apenas nos seria impossível combinar essas observações isoladas e, 
por conseguinte, tirar daí algum fruto, mas seríamos inteiramente incapazes de retê-los; 
no mais das vezes, os fatos passariam despercebidos aos nossos olhos. 

Pressionado entre a necessidade de observar para formar teorias reais e a necessi- 
dade, não menos imperiosa, de criar algumas teorias para poder entregar-se a observa- 
ções seguidas, o espírito humano, em seu nascimento, encontrava-se fechado num círculo 
vicioso, de que nunca teria meios de sair, se não lhe fosse felizmente aberta uma porta 
natural, graças ao desenvolvimento espontâneo das concepções teológicas, que apresen- 
taram um ponto de aproximação desses esforços e forneceram um alimento à sua ativida- 
de. Tal é, independentemente das altas considerações sociais que a isso se vinculam e que 
não devo nem mesmo indicar neste momento, o motivo fundamental que demonstra a 
necessidade lógica do caráter puramente teológico da filosofia primitiva. 

Essa necessidade se torna ainda mais sensível tendo em vista a perfeita conve- 
niência da filosofia teológica com a própria natureza das pesquisas em que o espírito hu- 
mano em sua infância concentra, de modo tão eminente, toda a sua atividade. É bem 
notável, com efeito, que as questões mais radicalmente inacessíveis a nossos meios — a 


12 COMTE 


natureza íntima dos seres, a origem e o fim de todos os fenômenos — sejam precisa- 
mente aquelas que nossa inteligência se propõe acima de tudo neste seu estado primitivo, 
todos os problemas verdadeiramente solúveis sendo quase tomados como indignos de sé- 
rias meditações. Concebe-se facilmente a causa, pois somente a experiência pode nos ofe- 
recer a medida de nossas forças. E, se o homem não tivesse começado tendo delas uma 
opinião exagerada, estas nunca teriam adquirido todo o desenvolvimento de que são 
suscetíveis. Assim o exige nossa organização. Mas, seja como for, representemo-nos, na 
medida do possível, essa disposição tão universal e tão pronunciada, perguntemo-nos 
qual seria a acolhida que receberia nessa época, se já estivesse formada, a filosofia positi- 
va, cuja mais alta ambição é descobrir as leis dos fenômenos e cujo primeiro caráter pró- 
prio é precisamente considerar proibidos necessariamente à razão humana todos esses 
sublimes mistérios, que a filosofia teológica explica, ao contrário, com tão admirável 
facilidade, até em seus mínimos pormenores. 

O mesmo acontece considerando, sob o ponto de vista prático, a natureza das inves- 
tigações que ocupam primitivamente o espírito humano. Dessa óptica, atraem energica- 
mente o homem oferecendo-lhe um império ilimitado sobre o mundo exterior, tomado 
então como inteiramente destinado a nosso uso como se apresentasse, em todos os seus 
fenômenos, relações íntimas e contínuas com nossa existência. Ora, essas esperanças 
quiméricas, essas idéias exageradas da importância do homem no universo, que a filoso- 
fia teológica faz nascer e que a primeira influência da filosofia positiva destrói para sem- 
pre, constituem, na origem, estimulante indispensável, sem o qual não se poderia certa- 
mente conceber que o espírito humano se consagrasse primitivamente a penosos 
trabalhos. 

Estamos hoje de tal modo afastados dessas disposições primeiras, ao menos quanto 
a maioria dos fenômenos, que temos dificuldade em nos representar exatamente a potên- 
cia e a necessidade de considerações semelhantes. A razão humana está agora suficiente- 
mente madura para que empreendamos laboriosas investigações científicas, sem ter em 
vista algum fim estranho, capaz de agir fortemente sobre a imaginação, como aquele que 
se propunham os astrólogos e os alquimistas. Nossa atividade intelectual estimula-se 
suficientemente com a pura esperança de descobrir as leis dos fenômenos, com o simples 
desejo de confirmar ou infirmar uma teoria. Mas isto não poderia ocorrer na infância do 
espírito humano. Sem as atrativas quimeras da astrologia, sem as enérgicas decepções da 
alquimia, por exemplo, onde teriamos haurido a constância e o ardor necessários para 
coletar as longas séries de observações e experiências que mais tarde serviram de funda- 
mento para as primeiras teorias positivas de uma e de outra classe de fenômenos?” 

Essa condição de nosso desenvolvimento intelectual foi vivamente sentida desde há 
muito por Kepler, quanto à astronomia, e justamente apreciada, em nossos dias, por 
Berthollet, quanto à química. 

Percebe-se, pois, graças a este conjunto de considerações, que, se a filosofia positiva 
ê o verdadeiro estado definitivo da inteligência humana, aquele para o qual sempre ten- 
deu progressivamente, não deixou de precisar, no início e durante uma longa série de sé- 
culos, quer como método, quer como doutrina provisória. da filosofia teológica; filosofia 
cujo caráter é ser espontânea e, por isso mesmo, a única possível na origem, a única tam- 
bém capaz de oferecer a nosso espírito nascente o devido interesse. É hoje muito fácil 
perceber que, para passar da filosofia provisória para a filosofia definitiva, o espírito hu- 
mano necessita naturalmente adotar, como filosofia transitória, os métodos e as doutri- 
nas metafísicos. Esta última consideração é indispensável para completar a vista geral da 
grande lei indicada. 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 13 


Concebe-se sem pena que nosso entendimento, forçado a caminhar apenas por 
graus quase insensíveis, não podia passar, bruscamente e sem intermediários, da filosofia 
teológica para a filosofia positiva. A teologia e a física são de tal modo incompatíveis, 
suas concepções possuem caracteres tão radicalmente opostos, que, antes de renunciar a 
umas para empregar exclusivamente outras, a inteligência humana precisou servir-se de 
concepções intermediárias, de caráter bastardo, adequadas, por isso mesmo, para operar 
gradualmente a transição. Tal é o destino natural das concepções metafísicas, não pos- 
suem outra utilidade real. Substituindo, no estudo dos fenômenos, a ação sobrenatural 
diretriz por uma entidade correspondente e inseparável, apesar de esta ser no início pen- 
sada apenas como emanação da primeira, o homem habituou-se pouco a pouco a consi- 
derar tão-somente os próprios fatos. As noções desses agentes metafísicos volatilizaram- 
se gradualmente a ponto de se transformarem, aos olhos de todo espírito reto, em nomes 
abstratos de fenômenos. É impossível imaginar por que outro processo nosso entendi- 
mento pudesse ter passado das considerações francamente sobrenaturais às considera- 
ções puramente naturais, do regime teológico ao regime positivo. 

IV — Depois de ter assim estabelecido, tanto quanto o posso fazer sem entrar numa 
discussão especial que estaria deslocada neste momento, a lei geral do desenvolvimento 
do espírito humano, tal como a concebo, nos será mais fácil determinar com precisão a 
própria natureza da filosofia positiva, o objeto essencial deste discurso. 

Vemos, pelo que precede, que o caráter fundamental da filosofia positiva é tomar 
todos os fenômenos como sujeitos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta precisa e 
cuja redução ao menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esfor- 
ços, considerando como absolutamente inacessível e vazia de sentido para nós a investi- 
gação das chamadas causas, sejam primeiras, sejam finais. É inútil insistir muito sobre 
um princípio, hoje tão familiar a todos aqueles que fizeram um estudo um pouco apro- 
fundado das ciências de observação. Cada um sabe que, em nossas explicações positivas, 
até mesmo as mais perfeitas, não temos de modo algum a pretensão de expor as causas 
geradoras dos fenômenos, posto que nada mais faríamos então além de recuar a dificul- 
dade. Pretendemos somente analisar com exatidão as circunstâncias de sua produção e 
vinculá-las umas às outras, mediante relações normais de sucessão e de similitude. 

Assim, para citar o exemplo mais admirável, dizemos que os fenômenos gerais do 
universo são explicados, tanto quanto o podem ser, pela lei de gravitação newtoniana; 
porque, de um lado, essa bela teoria nos mostra toda a imensa variedade dos fatos astro- 
nômicos, como constituindo apenas um único e mesmo fato considerado de diversos 
pontos de vista: a tendência constante de todas as moléculas umas em relação às outras 
na razão direta de suas massas e na razão inversa do quadrado das distâncias. Enquanto, 
de outro lado, esse fato geral se nos apresenta como simples extensão de um fenômeno 
eminentemente familiar e que, por isso mesmo, o consideramos como particularmente 
conhecido, a gravidade dos corpos na superficie da terra. Quanto a determinar o que são 
nelas próprias essa atração e essa gravidade, quais são suas causas são questões que 
consideramos insolúveis, não pertencendo mais ao domínio da filosofia positiva, e que 
abandonamos com razão à imaginação dos teólogos ou à sutileza dos metafísicos. A 
prova manifesta da impossibilidade de obter tais soluções reside em que, todas as vezes 
que se procurou dizer a esse propósito algo verdadeiramente racional, os maiores espíri- 
tos só puderam definir um dos princípios pelo outro, dizendo, no que respeita à atração, 
não ser outra coisa que a gravidade universal e, em seguida, no que respeita à gravida- 
de, consistir simplesmente na atração terrestre. Tais explicações. que fazem sorrir tão 
logo alguém pretenda conhecer a natureza íntima das coisas e o modo de geração dos 


14 COMTE 


fenômenos, constituem, porém, tudo o que podemos obter de mais satisfatório, mostran- 
do-nos como idênticas duas ordens de fenômenos, que por muito tempo foram tomados 
como não tendo nenhuma relação entre eles. Nenhum espírito justo procura hoje ir mais 
longe. 

Seria fácil multiplicar exemplos, inúmeros durante o andamento deste curso, por- 
quanto este é o espírito que agora dirige exclusivamente as grandes combinações intelec- 
tuais. Para citar apenas neste momento um único dentre os trabalhos contemporâneos, 
escolherei a bela série de pesquisas do Sr. Fourier sobre a teoria do calor. Oferece-nos a 
verificação muito sensível das observações gerais precedentes. Neste trabalho, cujo cará- 
ter filosófico é tão eminentemente positivo, as leis mais importantes e precisas dos fenô- 
menos termológicos se encontram desvendadas, sem que o autor tenha inquirido uma 
única vez sobre a natureza íntima do calor, sem que tenha mencionado, a não ser para 
indicar sua vacuidade, a tão agitada controvérsia entre os partidários da matéria calórica 
e aqueles que fazem consistir o calor em vibrações dum éter universal. No entanto, tra- 
ta-se nessa obra das mais altas questões, muitas das quais nunca nem mesmo tinham 
sido colocadas, prova capaz de que o espírito humano, sem se lançar em problemas 
inalcançáveis, e restringindo-se a investigações de ordem inteiramente positiva, pode 
encontrar aí alimento inesgotável para sua atividade mais profunda. 

Y — Depois de ter caracterizado, tão exatamente quanto me é permitido fazê-lo 
nesta visão panorâmica, o espírito da filosofia positiva, tarefa que o curso inteiro está 
destinado a desenvolver, devo agora examinar que época de sua formação atingiu hoje 
essa filosofia, e o que resta a fazer para completar sua constituição. 

Para isso é preciso, de início, considerar que os diferentes ramos de nossos conheci- 
mentos não necessitaram percorrer com igual velocidade as três grandes fases de seu 
desenvolvimento indicadas acima, nem, por conseguinte, chegar simultaneamente ao es- 
tado positivo. Existe, a esse respeito, uma ordem invariável e necessária que nossos 
diversos gêneros de concepções seguiram e tiveram de seguir em sua progressão, e cuja 
consideração exata é o complemento indispensável da lei fundamental precedentemente 
enunciada. Essa ordem será o assunto especial da próxima lição. Basta-nos, por hora, 
saber que se conforma com a natureza diversa dos fenômenos e que se determina por seu 
grau de generalidade, de simplicidade e de independência recíprocas, três considerações 
que, embora distintas, concorrem ao mesmo fim. Desse modo, primeiro os fenômenos 
astronômicos, como sendo os mais gerais, simples e independentes de todos, e, sucessiva- 
mente, pelas mesmas razões, os fenômenos da fisica terrestre propriamente ditos, os da 
química, e enfim os fenômenos fisiológicos foram conduzidos às teorias positivas. 


É impossível determinar a origem precisa dessa revolução, pois é possível dizer com 
exatidão, como de todos os outros grandes acontecimentos humanos, que se processou 
constante e gradativamente desde, de modo particular, os trabalhos de Aristóteles e da 
escola de Alexandria e, em seguida, desde a introdução das ciências naturais na Europa 
ocidental pelos árabes. No entanto, já que convém fixar uma época para impedir a diva- 
gação das idéias, indicarei a data do grande movimento impresso ao espírito humano, há 
dois séculos, pela ação combinada dos preceitos de Bacon, das concepções de Descartes 
e das descobertas de Galileu, como o momento em que o espírito da filosofia positiva 
começou a pronunciar-se no mundo, em oposição evidente ao espírito teológico e metafi- 
sico. É então que as concepções positivas se desprenderam nitidamente do amálgama 
supersticioso e escolástico que encobria, de certo modo, o verdadeiro caráter de todos os 
trabalhos anteriores. 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA I5 


VI — Desde essa época memorável, o movimento de ascensão da filosofia positiva 
e o movimento de decadência da filosofia teológica e metafísica foram extremamente 
realçados. Pronunciaram-se, enfim, de tal modo que hoje se tornou impossível, a todos os 
observadores conscientes de seu século, desconhecer a destinação final da inteligência 
humana para os estudos positivos, assim como seu afastamento, de agora em diante irre- 
vogável, destas vãs doutrinas e destes métodos provisórios, que só poderiam convir a 
seus primeiros passos. Essa revolução fundamental se cumprirá, assim, necessariamente 
em toda a sua extensão. Se lhe resta ainda alguma conquista a fazer, algum ramo princi- 
pal do domínio intelectual a invadir, podemos estar certos de que a transformação se 
operará do mesmo modo por que se efetuou em todos os outros. Pois seria evidentemente 
contraditório supor que o espírito humano, tão disposto à unidade de método, conser- 
vasse indefinidamente, para uma única classe de fenômenos, sua maneira primitiva de 
filosofar, quando uma vez chegou a adotar para todo o resto novo andamento filosófico, 
de caráter absolutamente oposto. 

Tudo se reduz, pois, a uma simples questão de fato. A filosofia positiva, que, nos 
dois últimos séculos, tomou gradualmente tão grande extensão, abraça hoje todas as or- 
dens de fenômenos? É evidente que isto não ocorre e, por conseguinte, resta ainda uma 
grande operação científica a executar para dar à filosofia positiva este caráter de univer- 
salidade indispensável à sua constituição definitiva. 

Nas quatro categorias principais de fenômenos naturais, enumeradas há pouco, 
fenômenos astronômicos, físicos, químicos e fisiológicos, notamos uma lacuna essencial 
relativa aos fenômenos sociais que, embora compreendidos implicitamente entre os fisio- 
lógicos, merecem, seja por sua importância, seja pelas dificuldades próprias a seu estudo, 
formar uma categoria distinta. Essa última ordem de concepções, que se reporta a fenó- 
menos mais particulares, mais complicados e mais dependentes de todos os outros, teve 
necessariamente por isso de aperfeiçoar-se mais lentamente do que todos os precedentes, 
mesmo sem levar em conta os obstáculos mais especiais que consideraremos mais tarde. 
Seja como for, é evidente que ainda não entrou no domínio da filosofia positiva. Os mé- 
todos teológicos e metafísicos que, relativamente a todos os outros gêneros de fenôme- 
nos, não são mais agora empregados por ninguém, quer como meio de investigação, quer 
até mesmo como meio de argumentação, são ainda utilizados, nesta ou naquela direção, 
em tudo o que concerne aos fenômenos sociais, a despeito de essa insuficiência já ser per- 
cebida por todos os bons espíritos, cansados de vãs contestações intermináveis entre o 
direito divino e a soberania do povo. 

Eis a grande mas, evidentemente, única lacuna que se trata de preencher para cons- 
tituir a filosofia positiva. Já agora que o espírito humano fundou a fisica celeste; a física 
terrestre, quer mecânica, quer química; a fisica orgânica, seja vegetal, seja animal, resta- 
lhe, para terminar o sistema das ciências de observação, fundar a física social. Tal é hoje, 
em várias direções capitais, a maior e mais urgente necessidade de nossa inteligência. Tal 
é, ouso dizer, o primeiro objetivo deste curso, sua meta especial. 

As concepções, que tentarei apresentar a respeito do estudo dos fenômenos sociais 
e de que espero fazer com que este discurso já deixe entrever o germe, não poderiam pre- 
tender dar imediatamente à física social o mesmo grau de perfeição que possuem os 
ramos anteriores da filosofia natural, o que seria evidentemente quimérico, porquanto 
estas já apresentam entre elas, a esse propósito, extremas desigualdades, aliás, inevitá- 
veis. Mas serão destinadas a imprimir a essa última classe de nossos conhecimentos o 
caráter positivo que todas as outras já tomaram. Se essa condição for uma vez realmente 
preenchida, o sistema filosófico dos modernos estará fundado, enfim, em seu conjunto, 


16 COMTE 


pois nenhum fenômeno observável poderia evidentemente deixar de entrar numa das 
cinco grandes categorias, desde já estabelecidas: fenômenos astronômicos, físicos, quími- 
cos, fisiológicos e sociais. Homogeneizando-se todas as nossas concepções fundamen- 
tais, a filosofia constituir-se-á definitivamente no estado positivo. Sem nunca mais poder 
mudar de caráter, só lhe resta desenvolver-se indefinidamente, graças a aquisições sem- 
pre crescentes, resultantes inevitáveis de novas observações ou de meditações mais pro- 
fundas. Tendo adquirido com isso o caráter de universalidade que lhe falta ainda, a filo- 
sofia positiva se tornará capaz de substituir inteiramente, com toda a superioridade 
natural, a filosofia teológica e a filosofia metafísica, as únicas a possuir realmente hoje 
essa universalidade. Estas, privadas do motivo de sua preferência, não terão para os nos- 
sos sucessores além de uma existência histórica. 

VII — Exposta, assim, a meta especial deste curso, é fácil compreender seu segundo 
objetivo, seu fim geral, aquilo que faz dele um curso de filosofia positiva e não apenas 
um curso de física social. 

Posto que a fundação da física social completa o sistema das ciências naturais, tor- 
na-se possível e mesmo necessário resumir os diversos conhecimentos adquiridos, que 
atingiram, então, um estado fixo e homogêneo, a fim de coordená-los, apresentando-os 
como diferentes ramos dum tronco único, ao invés de continuar considerando-os apenas 
como vários corpos isolados. Para esse fim, antes de proceder ao estudo dos fenômenos 
sociais, considerarei sucessivamente, na ordem enciclopédica anunciada mais acima, as 
diferentes ciências positivas já formadas. 

É supérfluo, penso eu, advertir que não poderia ser questão aqui duma série de cur- 
sos especiais sobre os ramos principais da filosofia natural. Sem falar da duração mate- 
rial duma empresa semelhante, está claro que tal pretensão seria insustentável de minha 
parte e, creio poder acrescentar, da parte de qualquer outro, no estado atual da educação 
humana. Muito ao contrário, um curso desta natureza exige, para ser convenientemente 
ouvido, uma série prévia de estudos especiais sobre as diversas ciências a serem aqui 
consideradas. Sem essa condição, é bem difícil perceber e impossível julgar as reflexões 
filosóficas de que essas ciências são o objeto. Numa palavra, é um Curso de Filosofia 
Positiva e não de ciências positivas que me proponho realizar. Trata-se unicamente aqui 
de considerar cada ciência fundamental em suas relações com o sistema positivo inteiro 
e no que respeita ao espirito que a caracteriza, a saber, sob a dupla relação de seus méto- 
dos essenciais e de seus resultados principais. Muito frequentemente deverei apenas me 
limitar a mencionar estes últimos, conforme conhecimentos especiais, para tratar de 
apreciar sua importância. 

A fim de resumir as idéias relativas à dupla meta deste curso, devo fazer notar que 
os dois objetos, um especial, outro geral, que me proponho, apesar de serem distintos em 
si mesmos, são necessariamente inseparáveis. Pois, de um lado, seria impossível conce- 
ber um curso de filosofia positiva sem a fundação da física social, já que lhe faltaria, 
então, um elemento essencial. Isto, por isso mesmo, faria com que as concepções não 
possuíssem esse caráter de generalidade, que deve ser seu principal atributo, e distingue 
nosso estudo atual da série de estudos especiais. De outro lado, como proceder com segu- 
rança no estudo positivo dos fenômenos sociais, se o espírito não for antes preparado 
pela consideração aprofundada dos métodos positivos já comprovados para os fenôme- 
nos menos complicados? Se não for equipado, além do mais, com o conhecimento das 
leis principais dos fenômenos anteriores, leis-que influenciam, de maneira mais ou menos 
direta, Os fatos sociais? 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 17 


Se bem que todas as ciências fundamentais não inspiram aos espíritos vulgares 
igual interesse, não há nenhuma que deva ser negligenciada num estudo como o que nós 
empreendemos. Quanto à sua importância para a felicidade da espécie humana, todas 
são certamente equivalentes quando consideradas de maneira profunda. Aquelas cujos 
resultados apresentam, num primeiro momento, menor interesse prático, recomendam-se 
eminentemente, seja pela maior perfeição de seus métodos, ou como constituindo o fun- 
damento indispensável de todas as outras. Esta é uma consideração a que terei especial- 
mente oportunidade de voltar na próxima lição. 

Para prevenir, tanto quanto possível, todas as falsas interpretações, legítimas de 
temer sobre a natureza de um curso tão novo como este, devo acrescentar sumariamente 
as explicações precedentes algumas considerações diretamente relativas à universalidade 
de conhecimentos especiais. Juízes irrefletidos poderiam olhar essa universalidade como 
a tendência deste curso, quando ela é considerada, com justa razão, inteiramente contrá- 
ria ao verdadeiro espírito da filosofia positiva. Essas considerações terão a vantagem 
mais importante de apresentar este espírito sob novo ponto de vista, adequado para ter- 
minar de esclarecer sua noção geral. 

No estado primitivo de nossos conhecimentos, não existe nenhuma divisão regular 
em nossos trabalhos intelectuais. Todas as ciências são cultivadas simultaneamente pelos 
mesmos espíritos. Esse modo de organização dos estudos humanos, no início inevitável 
e mesmo indispensável, como teremos ocasião de constatar mais tarde, altera-se pouco a 
pouco, na medida em que diversas ordens de concepções se desenvolvem. Por uma lei 
cuja necessidade é evidente, cada ramo do sistema científico se separa insensivelmente do 
tronco, desde que cresça suficientemente para comportar uma cultura isolada, isto é, 
quando chega ao ponto de poder ser a ocupação exclusiva da atividade permanente de 
algumas inteligências. É a essa repartição de diversas espécies de pesquisas entre diferen- 
tes ordens de sábios que devemos, evidentemente, o desenvolvimento tão notável que 
tomou, enfim, em nossos dias, cada classe distinta dos conhecimentos humanos e que 
torna manifesta a impossibilidade, entre os modernos, dessa universalidade de pesquisas 
especiais, tão fácil e tão comum nos tempos antigos. Numa palavra, a divisão do traba- 
lho intelectual, aperfeiçoada progressivamente, é um dos atributos característicos mais 
importantes da filosofia positiva. 

Embora reconhecendo os prodigiosos resultados dessa divisão, vendo de agora em 
diante nela a verdadeira base fundamental da organização geral do mundo dos cientistas, 
“é impossível não se aperceber dos inconvenientes capitais que engendra em seu estado 
atual, em virtude da excessiva particularidade das idéias de que se ocupa exclusivamente 
cada inteligência individual. Este incômodo defeito é, até certo ponto, sem dúvida inevi- 
tável, como inerente ao próprio princípio da divisão. Por isso, medida alguma nunca nos 
permitirá igualar, a esse respeito, os antigos, entre os quais tal superioridade advinha 
sobretudo do parco desenvolvimento de seus conhecimentos. Podemos, todavia, parece- 
me, por meios convenientes, evitar os mais perniciosos efeitos da especialidade exagera- 
da, sem prejudicar a influência vivificadora da separação das pesquisas. É urgente ocu- 
par-se com isso de modo sério, pois tais inconvenientes que, por sua natureza, tendem a 
crescer sem parar, começam a vir a ser muito sensíveis. Todos o admitem, as divisões, 
estabelecidas para a maior perfeição de nossos trabalhos, nos diversos ramos da filosofia 
natural, são por fim artificiais. Não esqueçamos que, a despeito dessa afirmação, já é 
bem pequeno, no mundo dos cientistas, o número de inteligências cujas concepções abar- 
cam o conjunto duma ciência única, a qual, por sua vez. nada mais é do que parte de um 
grande todo. A maioria já se limita inteiramente à consideração isolada duma secção 


18 COMTE 


mais ou menos extensa duma ciência determinada, sem muito se preocupar com a rela- 
ção desses trabalhos particulares com o sistema geral dos conhecimentos positivos. 
Apressemo-nos em remediar o mal, antes que se agrave. Receemos que o espírito huma- 
no acabe por se perder nesses trabalhos de pormenor. Não dissimulemos que aí está 
essencialmente o lado fraco, pelo qual os partidários da filosofia teológica e da filosofia 
metafísica podem ainda atacar, com alguma esperança de sucesso, a filosofia positiva. 


O verdadeiro meio de cessar a influência deletéria que parece ameaçar o porvir inte- 
lectual, em consequência duma demasiada especialização das pesquisas individuais, não 
poderia ser, evidentemente, voltar a essa antiga confusão de trabalhos, que tenderia a 
fazer retroceder o espírito humano e que se tornou hoje, felizmente, impossível. Consiste, 
ao contrário, no aperfeiçoamento da própria divisão de trabalho. Basta fazer do estudo 
das generalidades científicas outra grande especialidade. Que uma classe nova de cientis- 
tas, preparados por uma educação conveniente, sem se entregar à cultura especial de 
algum ramo particular da filosofia natural, se ocupe unicamente, considerando as diver- 
sas ciências positivas em seu estado atual, em determinar exatamente o espírito de cada 
uma delas, em descobrir suas relações e seus encadeamentos, em resumir, se for possível, 
todos os seus princípios próprios num número menor de princípios comuns, conforman- 
do-se sem cessar às máximas fundamentais do método positivo. Ao mesmo tempo, ou- 
tros cientistas, antes de entregar-se a suas especialidades respectivas, devem tornar-se 
aptos, de agora em diante, graças a uma educação abrangendo o conjunto dos conheci- 
mentos positivos, a tirar proveito das luzes propagadas por esses cientistas votados ao 
estudo de generalidades e, reciprocamente, a retificar seus resultados, estado de coisas de 
que os cientistas atuais se aproximam cada vez mais. Uma vez cumpridas essas duas 
condições — é evidente que o podem ser —, a divisão do trabalho nas ciências será leva- 
da, sem qualquer perigo, tão longe quanto o desenvolvimento dessas diversas ordens de 
conhecimento o exigir. Existindo uma classe distinta, incessantemente controlada por 
todas as outras, tendo por função própria e permanente ligar cada nova descoberta parti- 
cular ao sistema geral, não cabe mais temer que demasiada atenção seja dada aos porme- 
nores, impedindo de perceber o conjunto. Numa palavra, a organização moderna do 
mundo dos cientistas estará, então, completamente fundada, podendo desenvolver-se 
indefinidamente, ao mesmo tempo que conserva o mesmo caráter. 

Formar, assim, do estudo de generalidades científicas uma seção distinta do grande 
trabalho intelectual é simplesmente estender a aplicação do mesmo princípio de divisão 
que, sucessivamente, separou as diversas especialidades. Enquanto as diferentes ciências 
positivas foram pouco desenvolvidas, suas relações mútuas não podiam possuir bastante 
importância para dar lugar, ao menos duma maneira permanente, a uma classe particu- 
lar de trabalho, ao mesmo tempo que a necessidade desse novo estudo era muito menos 
urgente. Mas hoje cada uma dessas ciências tomou separadamente extensão suficiente 
para que o exame de suas relações mútuas possa dar lugar a trabalhos contínuos, ao 
mesmo tempo que essa nova ordem de estudos torna-se indispensável para previnir a dis- 
persão das concepções humanas. 

Tal é a maneira pela qual concebo o destino da filosofia positiva no sistema geral 
das ciências positivas propriamente ditas. Tal é, ao menos, a finalidade deste curso. 

VIII — Agora que tentei determinar, tão exatamente quanto pude, nesta primeira 
visão geral, todo o espírito dum curso de filosofia positiva, creio dever, para imprimir a 
este quadro todo seu caráter, assinalar rapidamente as principais vantagens gerais que 
pode ter esse trabalho, se as condições essenciais forem convenientemente preenchidas, 
quanto ao progresso do espírito humano. Reduzirei esta última ordem de considerações 
à indicação de quatro propriedades fundamentais. 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 19 


Primeiramente, o estudo da filosofia positiva, considerando os resultados da ativi- 
dade de nossas faculdades intelectuais, fornece-nos o único verdadeiro meio racional de 
pôr em evidência as leis lógicas do espírito humano, que foram procuradas até aqui por 
caminhos tão pouco próprios a desvendá-las. 

Para explicar convenientemente meu pensamento a esse respeito, devo primeiro 
lembrar uma concepção filosófica da mais alta importância, exposta pelo Sr. De Blain- 
ville na bela introdução de seus Princípios Gerais de Anatomia Comparada. Consiste em 
que todo ser ativo, especialmente todo ser vivo, pode ser estudado, em todos os seus fenô- 
menos, de duas ópticas fundamentais, a estática e a dinâmica, isto é, como apto a agir e 
como agindo efetivamente. É claro que todas as considerações que se podem apresentar 
entrarão num ou noutro modo. Apliquemos essa luminosa máxima fundamental ao estu- 
do das funções intelectuais. 

Se consideramos essas funções sob o ponto de vista estático, seu estudo só pode 
consistir na determinação das condições orgânicas de que dependem. Forma, assim, 
parte essencial da anatomia e da fisiologia. Considerando sob o ponto de vista dinâmico, 
tudo se reduz a estudar a marcha efetiva do espírito humano em exercício, graças ao 
exame dos processos realmente empregados para obter os diversos conhecimentos exatos 
que já adquiriu, o que constitui essencialmente o objeto geral da filosofia positiva. assim 
como o defini neste discurso. Numa palavra, considerando todas as teorias científicas 
como diferentes grandes fatos lógicos, é unicamente pela observação aprofundada desses 
fatos que se pode atingir o conhecimento das leis lógicas. 


Tais são, evidentemente, as duas únicas vias gerais, uma complementar à outra, 
pelas quais se pode chegar a algumas noções racionais verdadeiras sobre os fenômenos 
intelectuais. Percebe-se que de nenhuma perspectiva há lugar para essa psicologia ilusó- 
ria, última transformação da teologia, que se tenta em vão reanimar hoje e que, sem per- 
turbar nem o estudo fisiológico de nossos órgãos intelectuais, nem a observação dos pro- 
cessos racionais que dirigem efetivamente nossas diversas pesquisas científicas. pretende 
chegar à descoberta das leis fundamentais do espírito humano, contemplando-o ele pró- 
prio, a saber, fazendo completa abstração das causas e dos efeitos. 

A preponderância da filosofia positiva se afirmou como tal desde Bacon. Ganhou 
hoje indiretamente tão grande ascendência sobre os espíritos — até mesmo aqueles que 
permaneceram mais estranhos a seu imenso desenvolvimento — que os metafísicos, 
entregues ao estudo de nossa inteligência, não podem esperar frear a decadência de sua 
pretensa ciência, a não ser mudando de opinião. Devem apresentar suas doutrinas como 
também fundando-se na observação dos fatos. Para este fim, imaginaram, nos últimos 
tempos, distinguir, graças a uma sutileza singular, duas espécies de observações de igual 
importância, uma exterior, outra interior, a última unicamente destinada ao estudo dos 
fenômenos intelectuais. Não é aqui o lugar de entrar na discussão especial desse sofisma 
fundamental. Devo limitar-me a indicar a consideração principal que prova claramente 
que essa pretensa contemplação direta do espírito por si mesmo é pura ilusão. 

Há muito pouco tempo atrás, acreditava-se explicar a visão dizendo que a ação 
luminosa dos corpos determina na retina quadros representativos das formas e das cores 
exteriores. A isto os fisiologistas objetaram, com razão, que, se as impressões luminosas 
agissem como imagens, seria mister outro olho para enxergá-las. Não acontece o mesmo, 
de modo ainda mais forte, no caso presente? 

É perceptível que, por uma necessidade invencível, o espírito humano pode observar 
diretamente todos os fenômenos, exceto os seus próprios. Pois quem faria a observação? 
Concebe-se, quanto aos fenômenos morais, que o homem possa observar a si próprio no 


20 COMTE 


que concerne às paixões que o animam, por esta razão anatômica: que os órgãos, em que 
residem, são distintos daqueles destinados às funções observadoras. Ainda que cada um 
tivesse a ocasião de fazer sobre si tais observações, estas, evidentemente, nunca poderiam 
ter grande importância científica. Constitui o melhor meio de conhecer as paixões sem- 
pre observá-las de fora. Porquanto todo estado de paixão muito pronunciado, a saber, 
precisamente aquele que será mais essencial examinar, necessariamente é incompatível 
com o estado de observação. No entanto, quanto a observar da mesma maneira os fenó- 
menos intelectuais durante seu exercício, há uma impossibilidade manifesta. O indivíduo 
pensante não poderia dividir-se em dois, um raciocinando enquanto o outro o visse racio- 
cinar. O órgão observado e o órgão observador sendo, neste caso, idênticos, como pode- 
ria ter lugar a observação? 

Este pretenso método psicológico é, pois, radicalmente nulo em seu princípio. Do 
mesmo modo, consideremos a que processos profundamente contraditórios conduz de 
imediato. De um lado, recomenda-se que vós vos isoleis, tanto quanto possível, de toda 
sensação exterior; é preciso, então, impedir-vos todo trabalho intelectual; pois, se vós vos 
ocupásseis unicamente em fazer o cálculo mais simples, no que se converteria a observa- 
ção interior? De outro lado, depois de ter, enfim, à força de precauções, atingido este es- 
tado perfeito de sono intelectual, vós devíeis vos ocupar em contemplar as operações que 
se executariam em vosso espírito, quando aí nada mais se passasse. Nossos descen- 
dentes verão sem dúvida, um dia, encenadas tais pretensões. 

Os resultados duma maneira tão estranha de proceder são perfeitamente conformes 
ao princípio. Há dois mil anos que os metafísicos cultivam assim a psicologia, e não 
puderam até agora concordar com uma única proposição inteligível e solidamente firma- 
da. Estão até hoje divididos numa multidão de escolas que disputam incessantemente 
sobre os primeiros elementos de suas doutrinas. A observação interior engendra quase 
tantas opiniões divergentes quantos indivíduos há que acreditam a ela se entregar. 

Os verdadeiros cientistas, homens votados aos estudos positivos, pedem, ainda em 
vão, a esses psicólogos para citar uma única descoberta real, grande ou pequena, que 
provenha desse método tão elogiado. Não vale dizer com isso que todos os seus traba- 
lhos ficaram absolutamente sem qualquer resultado, no que respeita aos progressos ge- 
rais de nossos conhecimentos, independentemente do serviço eminente que prestaram, 
sustentando a atividade de nossa inteligência numa época em que não podia ter alimento 
mais substancial. Mas podemos afirmar que tudo aquilo que, em seus escritos, não con- 
siste, segundo a judiciosa expressão dum ilustre filósofo positivo (Sr. Cuvier), em metáfo- 
ras tomadas por raciocínios, mas apresenta alguma noção verdadeira, em vez de provir 
de seu suposto método, foi obtido graças a observações efetivas sobre a marcha do espi- 
rito humano, que o desenvolvimento das ciências fez nascer de tempos em tempos. Além 
do mais, essas noções tão ralas, proclamadas com tanta ênfase e que provêm exclusiva- 
mente da infidelidade dos psicólogos a seu suposto método, encontram-se o mais das 
vezes muito exageradas ou muito incompletas, bastante inferiores às observações já fei- 
tas pelos cientistas, sem qualquer ostentação, a respeito dos processos que empregam. 
Seria fácil citar exemplos flagrantes, se não temesse estender aqui essa discussão: vede, 
entre outros. o que aconteceu com a teoria dos signos. 

As considerações que acabo de indicar, relativamente à ciência lógica, tornam-se 
ainda mais patentes quando são transportadas para a arte lógica. 

Quando se trata não apenas de saber o que seja o método positivo, mas de ter dele 
um conhecimento bastante nitido e profundo para usá-lo efetivamente, é mister conside- 
rá-lo em ação. São as diversas grandes aplicações já verificadas e efetuadas pelo espírito 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 21 


humano que convém estudar. Numa palavra, a isto só é possível chegar evidentemente 
mediante o exame filosófico das ciências. O método não é suscetível de ser estudado 
separadamente das investigações em que se emprega; ou, ao menos, este é apenas um es- 
tudo morto, incapaz de fecundar o espírito que a ele se entrega. Tudo o que se pode dizer 
de real, quando o tomamos abstratamente, se reduz a generalidades de tal modo vagas 
que não poderiam ter qualquer influência sobre o regime intelectual. Quando estabele- 
cemos firmemente, como tese lógica, que todos os nossos conhecimentos devem fundar- 
se em observações, que devemos proceder quer dos fatos aos princípios, quer dos princi- 
pios aos fatos, e quaisquer outros aforismos parecidos, conhecemos muito menos 
nitidamente o método do que quem estudou duma maneira pouco aprofundada uma 
única ciência positiva, mesmo sem intenção filosófica. É por ter desconhecido esse fato 
essencial que nossos psicólogos foram conduzidos a tomar por ciência seus próprios 
sonhos, acreditando compreender o método positivo por ter lido os preceitos de Bacon 
ou o discurso de Descartes. 

Ignoro se, mais tarde, será possível fazer a priori um verdadeiro curso de método 
inteiramente independente do estudo filosófico das ciências, mas estou bem convencido 
que isto é inexequível hoje, já que os grandes procedimentos lógicos não podem ainda ser 
explicados com precisão suficiente, separadamente de suas aplicações. Ouso acrescentar, 
ademais, que, quando tal empresa puder realizar-se mais tarde (isto é possível de conce- 
ber), será somente graças ao estudo das aplicações regulares dos procedimentos cienti- 
ficos que se chegará a formar um bom sistema de hábitos intelectuais, o que é, entretanto, 
a meta essencial do método. Não tenho necessidade de insistir mais, neste momento, 
sobre um assunto que voltará frequentemente durante este curso, e a respeito do qual 
apresentarei especialmente novas considerações na próxima lição. 

Tal deve ser o primeiro grande resultado direto da filosofia positiva, a manifestação 
pela experiência das leis que nossas funções intelectuais seguem em suas realizações, e, 
por conseguinte, o conhecimento preciso das regras gerais convenientes para proceder de 
modo seguro na investigação da verdade. 

Uma segunda consequência, não menos importante e de interesse muito mais urgen- 
te, necessariamente destinada a produzir hoje o estabelecimento da filosofia positiva defi- 
nida neste discurso, é presidir à reforma geral de nosso sistema de educação. 

Já os bons espíritos reconhecem unanimemente a necessidade de substituir nossa 
educação européia, ainda essencialmente teológica, metafísica e literária, por uma educa- 
ção positiva, conforme ao espírito de nossa época e adaptada às necessidades da civiliza- 
ção moderna. Tentativas variadas se multiplicaram progressivamente desde há um sécu- 
lo, particularmente nestes últimos tempos, para propagar e aumentar incessantemente a 
instrução positiva, e às quais hoje os diversos governos europeus sempre se associam 
com empenho, quando eles próprios não tomaram a iniciativa. Tentativas que testemu- 
nham suficientemente que, em todas as partes, desenvolve-se o sentimento espontâneo 
dessa necessidade. Mas, a despeito de secundar tanto quanto possível essas úteis empre- 
sas, não se deve dissimular que, no estado presente de nossas idéias, não são de modo 
algum suscetíveis de atingir seu fim principal, a saber, a regeneração fundamental da 
educação geral. Pois a especialidade exclusiva, o isolamento demasiadamente pronun- 
ciado que caracterizam ainda nossa maneira de conceber e de cultivar as ciências 
influenciam necessariamente, em alto grau, a maneira de expó-las no ensino. Se um bom 
espírito quiser hoje estudar os principais ramos da filosofia natural a fim de formar-se 
um sistema geral de idéias positivas, será obrigado a estudar separadamente cada um 
deles, seguindo o mesmo modo e o mesmo pormenor como se pretendesse vir a ser espe- 


a A ese 


22 COMTE 


cialmente astrônomo ou químico, etc. Isto torna tal educação quase impossível e neces- 
sariamente imperfeita, até mesmo para as mais altas inteligências, situadas nas mais 
favoráveis circunstâncias. Tal maneira de proceder seria, pois, totalmente quimérica 
quanto à educação geral. No entanto, esta exige absolutamente um conjunto de concep- 
ções positivas sobre todas as grandes classes de fenômenos naturais. É tal conjunto que 
deve converter-se, de agora em diante, em escala mais ou menos extensa, até mesmo 
entre as massas populares, na base permanente de todas as combinações humanas, base 
que, numa palavra, deve constituir o espírito geral de nossos descendentes. Para que a 
filosofia natural possa terminar a regeneração, já tão preparada, de nosso sistema inte- 
lectual, é, pois, indispensável que as diferentes ciências de que se compõe, presentes para 
todas as inteligências como diversos ramos dum tronco único, se reduzam de início ao 
que constitui seu espírito, isto é, seus métodos principais e seus mais importantes resulta- 
dos. Somente assim o ensino das ciências pode constituir para nós a base duma nova 
educação geral verdadeiramente racional. Que a essa instrução fundamental se acres- 
centem em seguida os diversos estudos científicos especiais, que devem suceder à educa- 
ção geral, isto não pode evidentemente ser posto em dúvida. Mas a consideração essen- 
cial que quis indicar aqui consiste em que todas essas especialidades, embora 
acumuladas penosamente, seriam necessariamente insuficientes para renovar realmente o 
sistema de nossa educação, se não repousassem sobre a base prévia deste ensino geral, 
resultado direto da filosofia positiva definida neste discurso. 


Não somente o estudo especial das generalidades científicas se destina a reorganizar 
a educação, mas deve, ainda, contribuir para o progresso particular das diversas ciências 
positivas, o que constitui a terceira propriedade fundamental que me proponho assinalar. 

As divisões que estabelecemos entre nossas ciências, sem serem arbitrárias, como 
alguns o crêem, são, com efeito, essencialmente artificiais. Na realidade, o assunto de 
nossas investigações é uno; nós o dividimos com o fito de separar as dificuldades para 
melhor resolvê-las. Resulta daí mais de uma vez que, contrariamente a nossas repartições 
clássicas, questões importantes exigiram certa combinação de vários pontos de vista 
especiais, a qual não pode ocorrer na constituição atual do mundo científico. Isto abre a 
possibilidade de esses problemas permanecerem sem solução mais tempo do que seria 
necessário. Tal inconveniente deve apresentar-se sobretudo para as doutrinas mais essen- 
ciais de cada ciência positiva em particular. Pode-se citar facilmente exemplos muito 
salientes, o que farei cuidadosamente, na medida em que o desenvolvimento natural deste 
curso nos apresentar a ocasião. 

Poderia citar, no passado, um exemplo eminentemente memorável, considerando a 
admirável concepção de Descartes relativa à geometria analítica. Esta descoberta funda- 
mental, que mudou a face da ciência matemática, e na qual se deve ver o verdadeiro 
germe de todos os grandes progressos ulteriores, que é mais do que o resultado duma 
aproximação estabelecida entre duas ciências, concebidas até então de maneira isolada? 
Mas a observação será mais decisiva fazendo-a cair sobre questões ainda pendentes. 

Limitar-me-ei a escolher na química a teoria tão importante das proporções defini- 
das. Certamente, a memorável discussão que se levanta hoje, quanto ao princípio funda- 
mental dessa teoria, não poderia ainda, sejam quais forem as aparências, ser considerada 
como irrevogavelmente terminada. Pois não é apenas, parece-me, uma questão de quími- 
ca. Creio poder avançar que, para obter a esse propósito uma decisão verdadeiramente 
definitiva, isto é, para determinar se devemos olhar como lei da natureza que as molécu- 
las se combinem necessariamente em número fixo, será indispensável reunir o ponto de 
vista químico com o ponto de vista fisiológico. O que o indica, na versão dos próprios 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 28 


químicos ilustres que contribuiram mais potentemente para a formação dessa doutrina, é, 
podemos dizer, no máximo, que se verifica constantemente na composição dos corpos 
inorgânicos; mas falha ao menos nas composições orgânicas e até aí parece até agora 
inteiramente impossível estendê-la. Ora, antes de erigir essa teoria como princípio real- 
mente fundamental, não seria preciso dar conta dessa imensa exceção? Não provirá ela 
desse mesmo caráter geral, próprio a todos os corpos orgânicos, que faz com que em ne- 
nhum de seus fenômenos haja lugar para conceber números invariáveis? Seja como for, 
uma ordem inteiramente nova de considerações, pertencendo igualmente à química e à 
fisiologia, torna-se evidentemente necessária para decidir finalmente, duma maneira 
qualquer, essa grande questão de filosofia natural. 

Creio ser conveniente indicar ainda um segundo exemplo de mesma natureza, mas 
que, reportando-se a um assunto de pesquisa muito mais particular, é ainda mais conclu- 
dente, para mostrar a importância especial da filosofia positiva na solução de questões, 
exigindo a combinação de várias ciências. Tomo-o também da química. Trata-se da 
questão, ainda indecisa, que consiste em determinar se o azoto deve ser tomado, no esta- 
do presente de nossos conhecimentos, como corpo simples ou composto. Vós sabeis por 
que considerações puramente químicas o ilustre Berzelius chegou a comover a opinião de 
quase todos os químicos atuais quanto à simplicidade deste gás. Mas não devo negligen- 
ciar, particularmente, de notar a influência exercida a esse propósito sobre o espirito do 
Sr. Berzelius, como ele próprio o admite de modo preciso, por esta observação fisioló- 
gica: os animais que se alimentam de matérias não azotadas conservam na composição 
de seus tecidos tanto azoto quanto os animais carnívoros. Dai se torna claro que, para 
decidir realmente se o azoto é ou não corpo simples, será necessário fazer intervir a físio- 
logia e combinar, com as considerações químicas propriamente ditas, uma série de pes- 
quisas novas sobre a relação entre a composição dos corpos vivos e seu modo de 
alimentação. 

Seria agora supérfluo multiplicar ainda mais os exemplos desses problemas de natu- 
reza múltipla, que só poderiam ser resolvidos pela íntima combinação de várias ciências, 
cultivadas hoje duma maneira totalmente independente. Os que acabo de citar bastam 
para fazer perceber, em geral, a importância da função que deve cumprir, no aperfeiçoa- 
mento de cada ciência natural em particular, a filosofia positiva, imediatamente desti- 
nada a organizar, duma maneira permanente, tais combinações, incapazes de formar-se 
convenientemente sem ela. 

Por fim, devo notar desde agora uma quarta e última propriedade fundamental do 
que chamei de filosofia positiva. Esta deve, sem dúvida, merecer, mais do que qualquer 
outra, atenção especial, por ser hoje a mais importante para a prática. Só a filosofia posi- 
tiva pode ser considerada a única base sólida da reorganização social, que deve terminar 
o estado de crise no qual se encontram, há tanto tempo, as nações mais civilizadas. A úl- 
tima parte deste curso será especialmente consagrada a estabelecer essa proposição, 
desenvolvendo-a em toda a sua amplitude. Mas no esboço geral do grande quadro, que 
me propus indicar neste discurso, faltaria um de seus elementos mais característicos, se 
negligenciasse de assinalar aqui uma consideração tão essencial. 


Algumas reflexões muito simples. bastarão para justificar o que tal qualificação 
parece, de início, apresentar de demasiadamente ambicioso. 

Não é aos leitores desta obra que acreditaria dever provar que as idéias governam 
e subvertem o mundo, em outros termos, que todo o mecanismo social repousa final- 
mente sobre opiniões. Sabem eles sobretudo que a grande crise política e moral das socie- 
dades atuais provém, em última análise, da anarquia intelectual. Nosso mais grave mal 


Dem 


24 COMTE 


consiste nesta profunda divergência entre todos os espíritos quanto a todas as máximas 
fundamentais, cuja fixidez é a primeira condição duma verdadeira ordem social. 
Enquanto as inteligências individuais não aderirem, graças a um assentimento unânime, 
a certo número de idéias gerais capazes de formar uma doutrina social comum, não se 
pode dissimular que o estado das nações permanecerá, de modo necessário, essencial- 
mente revolucionário, a despeito de todos os paliativos políticos possíveis de serem ado- 
tados — comportando realmente apenas instituições provisórias. É igualmente certo que, 
se for possível obter essa reunião dos espíritos numa mesma comunhão de princípios, as 
instituições convenientes daí decorrerão necessariamente, sem dar lugar a qualquer abalo 
grave, posto que a maior desordem já foi dissipada por este único feito. É, pois, para aí 
que deve dirigir-se principalmente a atenção de todos aqueles que percebem a impor- 
tância dum estado de coisas verdadeiramente normal. 

Agora, do ponto de vista elevado em que nos colocaram gradualmente as diversas 
considerações indicadas neste discurso, é fácil, ao mesmo tempo, caracterizar nitida- 
mente, em sua intima profundidade, o estado presente das sociedades e deduzir a possível 
via de mudá-lo essencialmente. Reportando-me a lei fundamental enunciada no começo 
deste discurso, creio poder resumir exatamente todas as observações relativas à situação 
atual da sociedade dizendo simplesmente que a desordem atual das inteligências vincu- 
la-se, em última análise, ao emprego simultâneo de três filosofias radicalmente incompa- 
tíveis: a filosofia teológica, a filosofia metafísica e a filosofia positiva. É claro que se uma 
qualquer dessas três filosofias obtivesse, na realidade, preponderância universal e com- 
pleta, haveria uma ordem social determinada, pois o mal consiste sobretudo na ausência 
de toda verdadeira organização. É a coexistência dessas três filosofias opostas que impe- 
de absolutamente de estender-se sobre algum ponto essencial. Ora, se essa maneira de ver 
é exata, não se trata mais de saber qual das três filosofias pode e deve prevalecer pela 
natureza das coisas. Todo homem sensato deverá em seguida, sejam quais forem as opi- 
niões particulares que manteve antes da análise da questão, esforçar-se para concorrer a 
seu triunfo. Uma vez reduzida a investigação a esses termos simples, não parece ela 
dever conservar-se por muito tempo incerta. É evidente, em virtude de algumas das prin- 
cipais razões de toda sorte que indiquei neste discurso, que a filosofia positiva é a única 
destinada a prevalecer, conforme o curso ordinário das coisas. Só ela, desde uma longa 
série de séculos, constantemente progrediu, enquanto suas adversárias estiveram 
constantemente em decadência. Que isto seja justo ou injusto pouco importa; o fato geral 
é incontestável e basta. É possível deplorar, mas não destruí-lo nem, por conseguinte, 
negligenciá-lo, sob pena de entregar-se tão-somente a especulações ilusórias. Essa revolu- 
ção geral do espírito humano está hoje quase inteiramente realizada. Nada mais resta, 
como indiquei, além de completar a filosofia positiva, introduzindo nela o estudo dos 
fenômenos sociais e, em seguida, resumi-la num único corpo de doutrina homogênea. 
Quando este duplo trabalho estiver suficientemente avançado, o triunfo definitivo da filo- 
sofia positiva ocorrerá espontaneamente e restabelecerá a ordem na sociedade. A prefe- 
rência tão pronunciada que quase todos os espíritos, desde os mais elevados até os mais 
vulgares, atribuem hoje aos conhecimentos positivos sobre as concepções vagas e místi- 
cas anuncia suficientemente a acolhida que receberá essa filosofia, quando adquirir a 
única qualidade que ainda lhe falta, um caráter de generalidade conveniente. 

IX — Em resumo, a filosofia teológica e a filosofia metafísica disputam entre si a 
tarefa, muito superior às forças de cada uma, de reorganizar a sociedade. Sob esse aspec- 
to, só elas permanecem lutando. A filosofia positiva interveio até agora na contestação 
apenas para criticar a ambas, e nisto se saiu suficientemente bem para desacreditá-las 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 25 


inteiramente. Cologquemo-la, enfim, no estado de desempenhar um papel ativo, sem nos 
inquietar por mais tempo com debates que se tornaram inúteis. Completando a vasta 
operação intelectual iniciada por Bacon, por Descartes e por Galileu, construamos dire- 
tamente o sistema de idéias gerais que esta filosofia, de agora em diante, está destinada 
a fazer prevalecer na espécie humana, e a crise revolucionária, que atormenta os povos 
civilizados, estará essencialmente terminada. 

Tais são os quatro pontos de vista principais sobre os quais, como acreditei dever 
indicar desde já, se exerce a influência salutar da filosofia positiva, isto a fim de servir de 
complemento essencial à definição geral que tentei expor. 

X — Antes de terminar, desejo por um instante chamar a atenção sobre uma última 
reflexão que me parece conveniente para evitar, tanto quanto possível, a formação prévia 
de uma opinião errônea da natureza deste curso. 

Ao determinar como finalidade da filosofia positiva resumir num só corpo de dou- 
trina homogênea o conjunto de conhecimentos adquiridos, relativos as diferentes ordens 
de fenômenos naturais, estava longe do meu pensamento querer proceder ao estudo geral 
desses fenômenos, considerando-os como efeitos diversos dum princípio único, como 
sujeitos a uma única e mesma lei. Embora deva tratar especialmente deste problema na 
próxima lição, desde já creio dever esclarecê-lo, a fim de prevenir os reproches muito mal 
fundados que poderiam dirigir-me aqueles que, a partir duma falsa visão sinóptica, 
classificassem este curso entre as tentativas de explicação universal a que cotidianamente 
assistimos proliferar da parte de espíritos essencialmente estranhos aos métodos e aos 
conhecimentos científicos. Aqui não se trata de nada semelhante, e o desenvolvimento 
deste curso fornecerá a prova manifesta a todos aqueles dentre os quais os esclareci- 
mentos contidos neste discurso puderam deixar ainda alguma dúvida. 

Conforme profunda convicção pessoal, considero essas empresas de explicação uni- 
versal de todos os fenômenos por uma lei única como eminentemente quiméricas, mesmo 
quando são tentadas pelas mais competentes inteligências. Acredito que os meios do 
espírito humano são muito fracos, o universo muito complicado para que tal perfeição 
científica esteja um dia ao nosso alcance. Penso, ademais, que se faz geralmente uma 
idéia muito exagerada das vantagens que daí resultariam necessariamente, se isso fosse 
possível. Em todo caso, parece-me evidente que, tendo em vista o estado atual de nossos 
conhecimentos, estamos muitíssimo longe disso, para que tais tentativas sejam viáveis, 
antes de um lapso de tempo considerável. Pois, se pudéssemos esperar chegar a elas, isto 
só poderia acontecer, creio eu, vinculando todos os fenômenos naturais à mais geral das 
leis positivas que conhecemos, a lei de gravitação, que já liga todos os fenômenos astro- 
nômicos a uma parte dos fenômenos da física terrestre. Laplace expôs efetivamente uma 
concepção pela qual se veria nos fenômenos químicos tão-somente simples efeitos mole- 
culares da atração newtoniana, modificada pela figura e posição mútua dos átomos. 
Mas, além da indeterminação na qual permaneceria provavelmente para sempre essa 
concepção, por causa da ausência dos dados essenciais sobre a constituição intima dos 
corpos, é quase certo que a dificuldade de aplicá-la seria tão grande que nos obriga- 
ramos a manter, de modo artificial, a divisão hoje estabelecida como natural entre a 
astronomia e a química. Também Laplace apenas apresentou essa idéia como simples 
jogo filosófico, incapaz de exercer realmente alguma influência útil no progresso da ciên- 
cia química. Acresce ainda que, mesmo supondo vencida essa insuperável dificuldade, 
não teríamos ainda atingido a unidade científica. Seria, em seguida, preciso tentar unir à 
mesma lei o conjunto dos fenômenos fisiológicos, o que por certo não seria a parte 
menos difícil da empresa. No entanto, a hipótese que acabamos de percorrer seria, se a 
considerarmos com cuidado, a mais favorável a essa unidade tão desejada. 


O E SEDESEEISE 


26 COMTE 


Não preciso de maiores pormenores para terminar por convencer que a finalidade 
deste curso não é, de modo algum, apresentar todos os fenômenos naturais como sendo, 
no fundo, idênticos, em que pese a variedade de circunstâncias. A filosofia positiva seria, 
sem dúvida, mais perfeita se isto fosse possível. Mas essa coridição não é, de maneira 
alguma, necessária para sua formação sistemática, não mais do que para a realização 
das grandes e felizes consegiências que a vemos destinada a produzir. A única unidade 
indispensável é a unidade do método, que pode e deve evidentemente existir e já se ericor- 
tra, na maior parte, estabelecida. Quanto à doutrina, não é necessário set una, basta que 
seja homogênea. É, pois, sob o duplo ponto de vista da unidade dos métodos e da homo- 
geneidade das doutrinas que consideraremos, neste curso, as diferentes classes de teorias 
positivas. Tendendo a diminuir, o mais possível, o número das leis gerais necessárias 
para a explicação positiva dos fenômenos naturais, o que é, com efeito, a meta filosófica 
da ciência, consideraremos, entretanto, como temerário aspirar um dia, ainda que para 
um futuro muito afastado, a reduzi-las rigorosamente a uma só. 

Tentei, neste discurso, determinar, tão exatamente quanto esteve em meu poder, a 
meta, o espírito e a influência da filosofia positiva. Marquei, pois, o alvo para o qual 
sempre tenderam e tenderão incessantemente todos os meus trabalhos, seja neste curso. 
seja de qualquer outra maneira. Ninguém está mais profundamente convencido do que eu 
da insuficiência de minhas forças intelectuais, fossem elas mesmo muito superiores a seu 
valor real, para responder a uma tarefa tão vasta e tão elevada. Mas o que não pode ser 
feito por um único espírito ou durante uma única vida, um só pode propôó-lo nitidamente. 
Tal é toda minha ambição. 

Tendo exposto a verdadeira finalidade deste curso, a saber, fixado o poiito de vista 
a partir do qual considerarei os diversos ramos principais da filosofia natural, completa- 
rei, na próxima lição, estes prolegômenos gerais, passando à exposição de seu plano, isto 
é, determinando a ordem enciclopêdica que convém estabelecer entre as diversas classes 
de fenômenos naturais e, por conseguinte, entre as ciências positivas correspondentes. 


SEGUNDA LIÇAO 


Exposição do plano deste curso, ou considerações 
gerais sobre a hierarquia das ciências positivas 


SUMÁRIO: i — As classificações das ciências propostas até o momento fracassaram; causas desses fracas- 
sos: 1.º incompetência dos filósofos; 2.º caráter prematuro de suas tentativas. II — As circunstâncias são 
favoráveis ao positivismo, já que os filósofos deram o modelo das classificações. II — Distinção dos conhe- 
cimentos em teóricos e práticos; relações entre a especulação e a ação. IV — Distinção entre as ciências abs- 
tratas e as ciências concretas. Y — Qualquer classificação das ciências é necessariamente artificial: obriga- 
ção que tem o filósofo de combinar a exposição histórica com a exposição dogmática. VI — Princípio da 
hierarquia dos conhecimentos ho positivismo: simplicidade e generalidade decrescente, dependência cres- 


am. 


organizados ou física orgânica. VHI — Divisão e subdivisão da física inorgânica. IX — Divisão da física 
orgânica. X — Resumo da classificação das ciências e plano do curso. XI — Notas gerais sobre as proprie- 
dades desta classificação: 1.º sua conformidade com a partilha espontânea do trabalho científico; 2.º sua 
conformidade com a história das ciêricias; 3.º a hierarquia positivista indica exatamente o grau de perfeição 
relativa de cada ordem de conhecimento. Distinção entre a precisão e a certeza; 4.º determinação do plano 
de uma educação racional. XII — A ciência iriatemática. 


Caracterizamos, tão exatamente quanto possível, na lição precedente, as considera- 
ções a serem apresentadas neste curso sobre todos os ramos principais da filosofia natu- 
ral. É preciso determinar agora o plano que devemos seguir, isto é, a classificação racio- 
nal mais conveniente a ser estabelecida entre as diferentes ciências positivas 
fundamentais, a fim de estudá-las sucessivamente sob o ponto de vista que fixamos. Esta 
segunda discussão geral é indispensável para fazer com que o verdadeiro espírito deste 
curso seja por fim conhecido desde a origem. 

I — Concebe-se facilmente de início que não se trata aqui de fazer a crítica, infeliz- 
mente muito fácil, das numerosas classificações, propostas sucessivamente, desde há dois 
séculos, para o sistema geral dos conhecimentos humanos, formados em toda a sua 
extensão. Estamos hoje totalmente convencidos de que todas as escalas enciclopédicas 
constituídas, como as de Bacon e de D'Alembert, na base de uma distinção qualquer das 
diversas faculdades do espírito humano, são por isso mesmo radicalmente viciadas, 
ainda quando esta distinção, como acontece muitas vezes, seja mais sutil do que real. 
Pois, em cada uma dessas esferas de atividades, nosso entendimento emprega simulta- 
neamente todas as suas faculdades principais. Quanto a todas as outras classificações 
propostas, basta observar que as diferentes discussões levantadas a esse propósito tive- 
ram por resultado definitivo mostrar, em cada uma, vícios fundamentais. Por isso nenhu- 
ma pôde obter assentimento unânime, existindo a esse respeito tantas opiniões quantos 
indivíduos. Essas diversas tentavivas foram mesmo, em geral, tão mal concebidas, que 
desencadearam involuntariamente, na maioria dos bons espíritos, uma prevenção desfa- 
vorável contra toda empresa deste gênero. 

Sem nos demorar mais num fato bem constatado, é mais essencial procurar sua 
causa. Ora, pode-se facilmente explicar a profunda imperfeição dessas tentativas enciclo- 
pédicas, frequentemente renovadas até agora. Não preciso observar que, desde o descré- 


ama ant] 


28 COMTE 


dito geral em que caíram os trabalhos dessa natureza, em consegiiência da pouca solidez 
dos primeiros projetos, essas classificações apenas são concebidas muitas vezes por espí- 
ritos quase inteiramente alheios ao conhecimento dos objetos a serem classificados. Sem 
atentar para essa consideração pessoal, existe outra muito mais importante, colhida na 
própria natureza do assunto, e que mostra claramente por que não foi possível, até aqui, 
chegar a uma concepção enciclopédica verdadeiramente satisfatória. Consiste no defeito 
de homogeneidade que sempre existiu, até nestes últimos tempos, entre as diferentes par- 
tes do sistema intelectual, umas chegando a ser positivas sucessivamente, enquanto ou- 
tras permaneceram teológicas ou metafísicas. Num estado de coisas tão incoerente, é 
evidentemente impossível estabelecer alguma classificação racional. Como chegar a dis- 
por, num sistema único, concepções tão profundamente contraditórias? É uma dificul- 
dade contra a qual fracassaram necessariamente todos os classificadores, sem que algum 
deles a tenha sentido distintamente. Era bem perceptível, entretanto, para quem quer que 
conheça a verdadeira situação do espírito humano, que tal empresa era prematura e não 
podia ser tentada com sucesso, a não ser quando todas as nossas concepções principais 
se tornassem positivas. 

Essa condição fundamental pode agora ser considerada preenchida, segundo as 
explicações dadas na lição precedente; é, então, possível proceder a uma disposição 
verdadeiramente racional e durável dum sistema em que todas as partes, enfim, venham 
a ser homogêneas. 

Il — Por outro lado, a teoria geral das classificações, estabelecida nos últimos 
tempos pelos trabalhos filosóficos dos botânicos c dos Zo0logos. permite esperar um 
sucesso real para --melhante trabalho, oferecendo-nos um guia certo, graças ao verda- 
deiro princípio fur::iumental da arte de classificar, que até agora nunca tinha sido conce- 
bido distintamente. Este princípio é consequência necessária da única aplicação direta do 
método positivo à própria questão das classificações, que, como qualquer outra, deve ser 
tratada pela observação, em vez de ser resolvida por considerações a priori. Consiste em 
que a classificação deve provir do próprio estudo dos objetos a serem classificados. 
sendo determinada pelas afinidades reais do encadeamento natural apresentado por eles. 
de sorte que essa classificação seja ela própria a expressão do fato mais geral, manifes- 
tado pela comparação aprofundada dos objetos que abarca. 

Aplicando essa regra fundamental ao caso presente, é, pois, segundo a dependência 
mútua, ocorrendo efetivamente entre as diversas ciências positivas, que devemos proce- 


der à s!. classificação. Essa dependência, para ser real, só pode resultar da dependência 
dos fem... | os correspondentes. 

HI Mas, antes de efetuar, com tal espírito de observação, essa importante opera- 
ção enc: isvédica, é indispensável, a fim de não nos perder num trabalho muito extenso, 


circunsc. ..vsr com mais precisão do que fizemos até aqui o assunto próprio da classifi- 
cação provosta. 

Todos os trabalhos humanos são especulações ou ações. Assim a divisão mais geraí 
de nossos conhecimentos reais consiste em distingui-los em teóricos e práticos. Se consi- 
derarmos de início esta primeira divisão, é evidente que somente os conhecimentos teóri- 
cos devem ser tratados num curso da natureza deste, pois não cabe observar o sistema 
inteiro das noções humanas, mas unicamente o das concepções fundamentais, sob as 
diversas ordens dos fenômenos, que fornecem uma base sólida para todas e quaisquer de 
nossas combinações, e que não estão, por sua vez, fundadas sobre algum sistema intelec- 
tual antecedente. Ora, neste trabalho só a especulação é que deve ser considerada, não a 
aplicação, esta última apenas enquanto esclarecer a primeira. Isto provavelmente enten- 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 29 


dia Bacon, embora muito imperfeitamente, por essa filosofia primeira, que ele indica ser 
extraída do conjunto das ciências, e que foi tão diversa e sempre tão estranhamente con- 
cebida pelos metafísicos que se propuseram a comentar seu pensamento. 

Sem dúvida, ao tomar o conjunto completo de toda sorte dos trabalhos da espécie 
humana, deve-se conceber o estudo da natureza, destinando-se a fornecer a verdadeira 
base racional da ação do homem sobre ela. O conhecimento das leis dos fenômenos, cujo 
resultado constante é fazer com que sejam previstos por nós, evidentemente pode nos 
conduzir, de modo exclusivo, na vida ativa, a modificar um fenômeno por outro, tudo 
isso em nosso proveito. Nossos meios naturais e diretos para agir sobre os corpos que 
nos rodeiam são extremamente fracos e inteiramente desproporcionados às nossas neces- 
sidades. Todas as vezes que chegamos a exercer uma grande ação, é somente porque o 
conhecimento das leis naturais nos permite introduzir, entre as circunstâncias determi- 
nadas sob a influência das quais se realizam os diversos fenômenos, alguns elementos 
modificadores que, em que pese a sua própria fraqueza, bastam, em certos casos, para 
fazer reverter, em nosso proveito, os resultados definitivos do conjunto das causas exte- 
riores. Em resumo, ciência, daí previdência; previdência, daí ação: tal é a fórmula muito 
simples que exprime, duma maneira exata, a relação geral da ciência e da arte, tomando 
essas duas expressões em sua acepção total. 

Mas, a despeito da importância capital dessa relação, que nunca deve ser desconhe- 
cida, seria formar das ciências uma idéia bem imperfeita concebê-las somente como base 
das artes. A isto infelizmente todos hoje se inclinam demasiado. Sejam quais forem os 
imensos serviços prestados à indústria pelas teorias científicas (embora, segundo a 
expressão enérgica de Bacon, a potência seja proporcional ao conhecimento), não deve- 
mos esquecer que as ciências possuem, antes de tudo, destinação mais direta e mais ele- 
vada, a saber, a de satisfazer à necessidade fundamental, sentida por nossa inteligência, 
de conhecer as leis dos fenômenos. Para perceber quanto essa necessidade é profunda e 
imperiosa, basta pensar um instante nos efeitos fisiológicos do espanto, e considerar ser 
a sensação mais terrível que podemos sentir aquela que se produz todas as vezes que um 
fenômeno nos parece ocorrer de modo contraditório às leis naturais, que nos são familia- 
res. A necessidade de dispor os fatos numa ordem que podemos conceber com facilidade 
(o que é o objeto próprio de todas as teorias científicas) é de tal maneira inerente a nossa 
organização que, se não chegássemos a satisfazê-la com concepções positivas, volta- 
riamos inevitavelmente às explicações teológicas e metafísicas, às quais primitivamente 
deu nascimento, como já expus na última lição. 

Acreditei dever assinalar expressamente, desde este momento, uma consideração 
que se reproduzirá frequentemente em toda a série deste curso, a fim de indicar a necessi- 
dade de premunir-se contra a grande influência dos hábitos atuais, tendentes a impedir 
que se formem idéias justas e nobres sobre a importância e o destino das ciências. Se a 
potente preponderância de nossa organização não corrigisse, mesmo involuntariamente, 
no espírito dos cientistas, o que há a esse respeito de incompleto na tendência geral de 
nossa época, a inteligência humana, reduzida a ocupar-se apenas de investigações susce- 
tíveis duma utilidade prática imediata, encontrar-se-ia por isso, como justamente obser- 
vou Condorcet, inteiramente impedida em seu progresso, mesmo a propósito dessas apli- 
cações a que teria imprudentemente sacrificado os trabalhos puramente especulativos. 
Pois as aplicações mais importantes derivam constantemente de teorias formadas com 
simples intenção científica, e que muitas vezes foram cultivadas durante vários séculos 
sem produzir resultado prático algum. Pode-se disso citar um exemplo bem notável. 
tomando as belas especulações dos geômetras gregos sobre as seções cônicas que, depois 


30 COMTE 


duma longa série de gerações, serviram, determinando a renovação da astronomia, para 
conduzir finalmente a arte da navegação ao grau de aperfeiçoamento que atingiu nos úl- 
timos tempos, ao qual nunca teria chegado sem os trabalhos tão puramente teóricos de 
Arquimedes e de Apolonius. Por isso Condorcet pode dizer com razão: “O marinheiro, 
o qual uma exata observação da longitude preserva do naufrágio, deve a vida a uma teo- 
ria conhecida dois mil anos antes, por homens de gênio que tinham em vista simples 
especulações geométricas”. 

É, pois, evidente que, depois de ter concebido, de maneira geral, o estudo da natu- 
reza como servindo de base racional à ação sobre ela, o espírito humano deva proceder 
a pesquisas teóricas, fazendo completamente abstração de toda consideração prática; 
porquanto nossos meios para descobrir a verdade são de tal modo fracos que, se não os 
concentrássemos exclusivamente neste fim, se, na procura desta verdade nos impusés- 
semos, ao mesmo tempo, a condição estranha de encontrar nela uma utilidade prática 
imediata. quase nos seria sempre impossível chegar a ela. 

Seja como for, é certo que o conjunto de nossos conhecimentos sobre a natureza e 
o dos procedimentos que daí deduzimos para modificá-la em nosso proveito formam dois 
sistemas essencialmente distintos em si mesmos, sendo conveniente conceber e cultivá- 
los separadamente. Além do mais, o primeiro sistema forma a base do segundo, de sorte 
que evidentemente convém considerá-lo, no início, um estudo metódico, mesmo quando 
nos propusermos abarcar a totalidade dos conhecimentos humanos, relativos à aplicação 
e à especulação. Esse sistema teórico me parece dever constituir exclusivamente hoje o 
tema de um curso verdadeiramente racional de filosofia positiva; é assim que, pelo 
menos, o concebo. Sem dúvida, seria possível imaginar um curso mais extenso, abran- 
gendo ao mesmo tempo generalidades teóricas e práticas. Mas não penso que tal empre- 
sa, mesmo independentemente de sua extensão, possa ser tentada convenientemente no 
estado presente do espírito humano. Parece-me, com efeito, exigir previamente um traba- 
lho muito importante, e de natureza muito particular, que até agora não foi feito, isto é, 
formar, conforme teorias científicas propriamente ditas, as concepções especiais destina- 
das a servir de bases diretas aos procedimentos gerais da prática. 

No grau de desenvolvimento ja atingido por nossa inteligencia. não é de imediato 
que as ciências se aplicam às artes, pelo menos, nos casos mais perfeitos. Existe entre 
essas duas ordens de idéias uma ordem mediana que, ainda mal determinada em seu 
caráter filosófico, é mais perceptível quando se considera a classe social que dela se 
ocupa especialmente. Entre os cientistas propriamente ditos e os diretores efetivos dos 
trabalhos produtivos, começa a formar-se, em nossos dias, uma classe intermediária, a 
dos engenheiros, cuja destinação especial é organizar as relações entre a teoria e a práti- 
ca. Sem ter, de modo algum, em vista o processo dos conhecimentos científicos, ela os 
considera em seu estado presente para daí deduzir as aplicações industriais de que são 
suscetíveis. Tal é, ao menos, a tendência natural das coisas, embora ainda exista a esse 
respeito muita confusão. O corpo de doutrina próprio a essa nova classe, e que deve 
constituir as teorias verdadeiras e diretas de diferentes artes, poderia sem dúvida dar 
lugar a considerações filosóficas de grande interesse e importância real. Mas um trabalho 
que as abrangesse juntamente com aquelas, fundadas sobre as ciências propriamente 
ditas, seria hoje totalmente prematuro, pois essas doutrinas intermediárias entre a teoria 
pura e a prática direta não estão ainda formadas. Delas existem apenas, até agora, alguns 
elementos imperfeitos relativos às ciências e às artes mais avançadas e que permitem 
somente conceber a natureza e a possibilidade de semelhantes trabalhos para o conjunto 
das operações humanas. É assim, para citar aqui o exemplo mais importante, que se deve 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 31 


considerar a bela concepção de Monge, quanto à geometria descritiva, que é apenas uma 
teoria geral das artes de construção. Terei o cuidado de indicar sucessivamente o peque- 
no número de idéias análogas já formadas, e de fazer apreciar sua importância, na medi- 
da em que o desenvolvimento natural do curso no-las apresentar. Mas é claro que 
concepções, até agora tão incompletas, não devem entrar como parte essencial num 
curso de filosofia positiva que só há de compreender, tanto quanto possível, doutrina já 
possuindo caráter fixo e nitidamente determinado. 

Conceber-se-á melhor a dificuldade de construir essas doutrinas intermediárias que 
acabo de indicar se se considerar que cada arte não só depende duma certa ciência 
correspondente mas, ao mesmo tempo, de várias, de modo que as artes mais importantes 
se socorrem diretamente de quase todas as diversas ciências principais. É assim que a 
verdadeira teoria da agricultura, para me limitar ao caso mais essencial, exige íntima 
combinação de conhecimentos fisiológicos, químicos, físicos e, até mesmo, astronômicos 
e matemáticos — e o mesmo ocorre com as belas-artes. Percebe-se facilmente, conforme 
essa consideração, por que tais teorias não puderam ainda ser formadas, porquanto 
supõem o desenvolvimento prévio de todas as diferentes ciências fundamentais. Resulta 
daí igualmente novo motivo de não integrar tal ordem de idéias num curso de filosofia 
positiva. Longe de contribuir para a formação sistemática dessa filosofia, as teorias ge- 
rais próprias às diferentes artes principais devem, ao contrário, como o vemos, constituir 
mais tarde, provavelmente, uma das consegiiências mais úteis de sua construção. 

Em resumo, não devemos considerar neste curso a não ser teorias científicas e de 
modo nenhum suas aplicações. Mas, antes de proceder à classificação metódica de suas 
diferentes partes, resta-me expor, quanto às ciências propriamente ditas, uma distinção 
importante, que terminará de circunscrever nitidamente o assunto próprio do estudo que 
empreendemos. 

IV — É preciso distinguir, em relação a todas as ordens de fenômenos, dois gêneros 
de ciências naturais: umas, abstratas, gerais, tendo por objeto a descoberta de leis que 
regem as diversas classes de fenômenos e que consideram todos os casos possíveis de 
conceber; outras, concretas, particulares, descritivas, designadas algumas vezes sob o 
nome de ciências naturais propriamente ditas, e que consistem na aplicação dessas leis à 
história efetiva dos diferentes seres existentes. As primeiras são, pois, fundamentais, 
sendo a elas que neste curso nossos estudos se limitarão. As outras, seja qual for sua 
importância, são de fato apenas secundárias e não devem, por conseguinte, fazer parte 
dum trabalho cuja extensão extrema nos obriga a reduzir ao minimo seu desenvolvi- 
nento possivel. 

A distinção precedente não pode apresentar qualquer obscuridade aos espíritos que 
possuem algum conhecimento especial das diferentes ciências positivas, pois equivale 
aproximadamente à distinção, que se enuncia de ordinário, em quase todos os tratados 
científicos, comparando a física dogmática com a história natural propriamente dita. Al- 
guns exemplos bastarão, de resto, para tornar sensível essa divisão, cuja importância não 
é ainda apreciada de modo conveniente. 

Poder-se-á de início percebê-la muito nitidamente comparando, duma parte, a fisio- 
logia geral, e, de outra, a zoologia e a botânica propriamente dita. São evidentemente 
dois trabalhos de caráter distinto, estudar em geral as leis da vida, ou determinar o modo 
de existência de cada corpo vivo em particular. Este segundo estudo. ademais. funda-se 
necessariamente no primeiro. 

O mesmo acontece com a química em relação à mineralogia; a primeira é evidente- 
mente a base racional da segunda. Na quimica, consideram-se todas as combinações 


32 COMTE 


possíveis de moléculas, em todas as circunstâncias imagináveis; na mineralogia. conside- 
ram-se somente aquelas combinações que se encontram realizadas na constituição efeti- 
va do globo terrestre, sob a influência das únicas circunstâncias que lhe são próprias. 
Isto mostra claramente a diferença do ponto de vista químico e do ponto de vista minera- 
lógico, embora as duas ciências se dirijam aos mesmos objetos. A maioria dos fatos 
abrangidos pela primeira possui apenas existência artificial, de sorte que um corpo, como 
o cloro ou o potássio, poderá possuir extrema importância para a química, graças à 
extensão e à energia de suas afinidades, enquanto não terá quase nenhuma em mineralo- 
gia. Reciprocamente, um composto, como o granito ou quartzo, sobre o qual se reporta 
a maior parte das considerações mineralógicas, só terá, para a química, um interesse 
muito medíocre. 

O que torna em geral mais sensível ainda a necessidade lógica dessa distinção 
fundamental entre as duas grandes seções da filosofia natural é que não apenas cada 
seção da física concreta supõe a cultura prévia da seção correspondente da fisica abstra- 
ta, mas exige ainda o conhecimento das leis gerais relativas a todas as ordens de fenôme- 
nos. Assim, por exemplo, o estudo especial da terra, considerada sob todos os pontos de 
vista que pode efetivamente apresentar, não apenas exige o conhecimento prévio da física 
e da química, mas não se estabelece convenientemente sem introduzir, duma parte, 
conhecimentos astronômicos, doutra parte, até mesmo conhecimentos fisiológicos, de 
sorte que mobiliza todo o sistema das ciências fundamentais. O mesmo acontece com 
cada uma das ciências naturais propriamente ditas. É precisamente por esse motivo que 
a física concreta fez até agora tão poucos progressos reais, pois só começou a ser estuda- 
da, duma maneira verdadeiramente racional, depois da fisica abstrata, quando todos os 
diversos ramos principais desta tomaram caráter definitivo, o que só teve lugar em nos- 
sos dias. Até então, a esse respeito, só foi possível recolher materiais mais ou menos 
incoerentes, além de serem incompletos. Os fatos conhecidos não serão coordenados de 
maneira a formar verdadeiras teorias especiais dos diferentes seres do universo, a não ser 
quando a distinção fundamental, lembrada acima, for mais aprofundadamente percebida 
e mais regularmente organizada; quando, por conseguinte, os cientistas, particularmente 
os entregues ao estudo das ciências naturais propriamente ditas, tiverem reconhecido a 
necessidade de fundar suas investigações num conhecimento aprofundado de todas as 
ciências fundamentais, condição que ainda hoje está muito longe de ser conveniente- 
mente cumprida. 

O exame dessa condição confirma nitidamente por que devemos, neste curso de 
filosofia positiva, reduzir nossas considerações ao estudo das ciências gerais, sem abra- 
çar ao mesmo tempo as ciências descritivas ou particulares. Assistimos aqui ao nasci- 
mento duma nova propriedade essencial deste estudo próprio das generalidades da física 
abstrata: fornecer a base racional duma física concreta verdadeiramente sistemática. 
Assim, no estado presente do espírito humano, haveria uma espécie de contradição em 
querer reunir, num único e mesmo curso, duas ordens de ciências. Pode-se dizer, ade- 
mais, que, quando a física concreta atingir o grau de perfeição da física abstrata, sendo 
possível, então, num curso de filosofia positiva abranger ao mesmo tempo uma e outra, 
caberá ainda de modo evidente começar pela seção abstrata, que permanecerá a base 
invariável da outra. É claro, de resto, que só o estudo das generalidades das ciências 
fundamentais é suficientemente amplo por si mesmo para que importe afastar dele, quan- 
to possível, todas as considerações que não sejam indispensáveis. Ora, aquelas relativas 
às ciências secundárias serão sempre, aconteça o que acontecer, de gênero distinto. A 
filosofia das ciências fundamentais, apresentando um sistema de concepções positivas 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 


O) 
98) 


sobre todas as nossas ordens de conhecimentos reais, basta, por isso mesmo, para consti- 
tuir essa filosofia primeira que Bacon procurava e que, sendo destinada a servir de agora 
em diante de base permanente para todas as especulações humanas, deve ser cuidadosa- 
mente reduzida à mais simples expressão possível. 

Não preciso insistir mais, neste momento, em tal discussão, que terei. naturalmente. 
várias ocasiões de reproduzir nas diversas partes deste curso. A explicação precedente é 
bastante desenvolvida para justificar a maneira pela qual circunscrevi o assunto geral de 
nossas considerações. 

Assim, resultando de tudo o que acabo de expor nesta lição, vemos: 1) que a ciência 
humana se compondo, em seu conjunto, de conhecimentos especulativos e conheci- 
mentos de aplicação, é somente dos primeiros que devemos nos ocupar aqui; 2) que os 
conhecimentos teóricos ou as ciências propriamente ditas, dividindo-se em ciências ge- 
rais € ciências particulares, devemos considerar aqui apenas a primeira ordem, limitan- 
do-nos à física abstrata, em que pese o interesse que possa nos apresentar a física 
concreta. 

Já que o assunto próprio deste curso está com isto exatamente circunscrito, é fácil 
agora proceder a uma classificação racional verdadeiramente satisfatória das ciências 
fundamentais. o que constitui a questão enciclopédica. objeto especial desta lição. 

V — É preciso, antes de tudo, começar por reconhecer que, por mais natural que 
possa ser tal classificação, sempre encerrará necessariamente algo, se não arbitrário, ao 
menos artificial, de maneira a apresentar uma verdadeira imperfeição. 

A finalidade principal que se deve ter em vista em todo trabalho enciclopédico é. 
com efeito, dispor as ciências na ordem de seu encadeamento natural, seguindo sua 
dependência mútua, de tal sorte que se possa expó-las sucessivamente, sem nunca cair no 
menor círculo vicioso. Ora, essa condição me parece impossível de ser preenchida de 
maneira totalmente rigorosa. Que me seja permitido dar aqui algum desenvolvimento a 
esta reflexão, em cuja importância creio, para caracterizar a verdadeira dificuldade da 
pesquisa que nos ocupa atualmente. Essa consideração, de resto, me dará a oportunidade 
de estabelecer, quanto à exposição de nossos conhecimentos, um princípio geral de que 
terei mais tarde de apresentar frequentes aplicações. 

Toda ciência pode ser exposta mediante dois caminhos essencialmente distintos: o 
caminho histórico e o caminho dogmático. Qualquer outro modo de exposição não será 
mais do que sua combinação. 

Pelo primeiro procedimento, expomos sucessivamente os conhecimentos na mesma 
ordem efetiva, segundo a qual o espírito humano os obteve realmente, adotando, tanto 
quanto possível, as mesmas vias. 

Pelo segundo, apresentamos o sistema de idéias tal como poderia ser concebido hoje 
por um único espirito que, colocado numa perspectiva conveniente e provido de conheci- 
mentos suficientes, ocupar-se-ia de refazer a ciência em seu conjunto. 

O primeiro modo é evidentemente aquele pelo qual começa, com toda necessidade, 
o estudo de cada ciência nascente, pois apresenta a propriedade de não exigir, para a 
exposição dos conhecimentos, nenhum novo trabalho distinto daquele de sua formação. 
Toda a didática se resume, então, em estudar sucessivamente, na ordem cronológica, as 
diversas obras originais que contribuiram para o progresso da ciência. 

O modo dogmático, supondo, ao contrário, que todos esses trabalhos particulares 
foram refundidos num sistema geral, a fim de serem apresentados segundo uma ordem 
lógica mais natural, aplica-se apenas a uma ciência ja suficientemente desenvolvida em 
alto grau. Mas, na medida em que a ciência progride, a ordem histórica de exposição tor- 


34 COMTE 


na-se cada vez mais impraticável, por causa da longa série de intermediários que obriga- 
ria O espírito a percorrer, enquanto a ordem dogmática torna-se cada vez mais possível, 
ao mesmo tempo que necessária, porque novas concepções permitem apresentar as 
descobertas anteriores de um ponto de vista mais direto. 

Assim, por exemplo, a educação dum geômetra da Antiguidade consistia simples- 
mente no estudo sucessivo de pequeníssimo número dos tratados originais, produzidos 
até então, referentes às diversas partes da geometria, que se reduziam essencialmente aos 
escritos de Arquimedes e de Apolonius. Ao contrário, um geómetra moderno termina 
comumente sua educação sem ter lido uma só obra original, exceto relativamente às 
descobertas mais recentes, que só podem ser conhecidas por esse meio. 

A tendência constante do espírito humano, quanto à exposição dos conhecimentos, 
é, pois, substituir progressivamente a ordem histórica pela ordem dogmática, a única 
conveniente ao estado aperfeiçoado de nossa inteligência. 

O problema geral da educação intelectual consiste em fazer com que, em poucos 
anos, um único entendimento, muitas vezes mediocre, chegue ao mesmo ponto de desen- 
volvimento atingido, durante uma longa série de séculos, por um grande número de gê- 
nios superiores, que aplicaram, sucessivamente, durante a vida inteira, todas as suas for- 
ças ao estudo de um mesmo assunto. É claro, com isto, que, apesar de ser infinitamente 
mais fácil e mais curto aprender do que inventar, seria certamente impossível atingir o 
fim proposto se pretendêssemos sujeitar cada espírito individual a percorrer sucessiva- 
mente os mesmos passos intermediários que teve de seguir necessariamente o gênio cole- 
tivo da espécie humana. Daí a necessidade indispensável da ordem dogmática, tão 
perceptível hoje entre as ciências mais avançadas, cujo modo ordinário de exposição não 
mais apresenta traço algum da filiação efetiva de seus pormenores. 

É preciso, entretanto, acrescentar, para prevenir todo exagero, que o modo real de 
exposição é, inevitavelmente, certa combinação da ordem dogmática com a ordem histó- 
rica, na qual somente a primeira deve dominar constante e progressivamente. A ordem 
dogmática não pode, com efeito, ser seguida de maneira inteiramente rigorosa, pois para 
isso exige nova elaboração dos conhecimentos adquiridos. Não se aplica assim, em cada 
época da ciência, às partes recentemente formadas, cujo estudo só comporta uma ordem 
essencialmente histórica. Esta não apresenta, de resto, neste caso, os inconvenientes prin- 
cipais que, em geral, provocam sua rejeição. 


A única imperfeição fundamental que se poderia censurar ao modo dogmático é dei- 
xar ignorar a maneira por que se formaram os diversos conhecimentos humanos. Esta, 
apesar de ser distinta da própria aquisição de conhecimentos, desperta em si o mais alto 
interesse em todo espírito filosófico. Tal consideração teria, a meus olhos, muito peso, se 
fosse realmente motivo em favor da ordem histórica. Mas é fácil ver que existe apenas 
uma relação aparente entre estudar uma ciência segundo o modo chamado histórico e 
conhecer verdadeiramente a história efetiva dessa ciência. 

Não somente as diversas partes de cada ciência, que somos levados a separar na 
ordem dogmática, desenvolveram-se na realidade simultaneamente e sob a influência 
recíproca umas das outras — o que tenderia a fazer preferir a ordem histórica —, mas, 
considerando em seu conjunto o desenvolvimento efetivo do espírito humano, vê-se, além 
disso, que as diferentes ciências foram, de fato, aperfeiçoadas ao mesmo tempo e imbri- 
cadas. Vê-se, ainda, que o progresso das ciências e o das artes dependeram um do outro, 
em virtude de inumeráveis influências recíprocas e, enfim, que todos estiveram estreita- 
mente ligados ao desenvolvimento geral da sociedade humana. Este vasto encadeamento 
é de tal modo real que, muitas vezes, para conceber a geração efetiva duma teoria cienti- 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA a 


8) 


fica, o espirito foi levado a considerar o aperfeiçoamento de alguma arte que não manti- 
nha com ela nenhuma ligação racional, ou até mesmo algum progresso particular na 
organização social, sem o qual essa descoberta não teria podido ocorrer. Disso veremos 
em seguida numerosos exemplos. Resulta, assim, que não se conhece a verdadeira histó- 
ria de cada ciência, isto é, a formação real das descobertas de que se compõe, a não ser 
estudando, de maneira geral e direta, a história da humanidade. Por isso todos os docu- 
mentos recolhidos até agora sobre a história da matemática, da astronomia, da medicina, 
etc., embora preciosos, só podem ser tomados como materiais. 

A suposta ordem histórica de exposição, ainda quando pudesse ser seguida rigoro- 
samente nos pormenores de cada ciência em particular, já seria puramente hipotética e 
abstrata, sob as Ópticas mais importantes, se fosse considerada isolada do desenvolvi- 
mento de cada ciência. Bem longe de pór em evidência a verdadeira história da ciência, 
tenderia a fazer com que se fizesse dela uma opinião muito falsa. 

Estamos por certo convencidos de que o conhecimento da história das ciências é da 
mais alta importância. Penso, ainda, que não conhecemos completamente uma ciência se 
não conhecemos sua história. Mas este estudo deve ser concebido inteiramente separado 
do estudo próprio e dogmático da ciência, sem o qual essa história não seria inteligível. 
Consideraremos, pois, com muito cuidado, a história real das ciências fundamentais que 
serão o tema de nossas meditações, mas isto acontecerá somente na última parte deste 
curso, a relativa ao estudo dos fenômenos sociais, que trata do desenvolvimento geral da 
humanidade, em que a história das ciências constitui a parte mais importante, embora 
até aqui a mais negligenciada. No estudo de cada ciência, as considerações históricas 
incidentes que se apresentarem terão caráter nitidamente distinto, de maneira a não alte- 
rar a própria natureza de nosso trabalho principal. 

A discussão precedente, de resto, como se vê, a ser mais tarde especialmente desen- 
volvida, tende a precisar ainda mais, tomando-o sob novo ponto de vista, o verdadeiro 
espírito deste curso. Mas, sobretudo a propósito da questão atual, resulta na determina- 
ção exata das condições que nos impomos e esperamos justamente cumprir na constru- 
ção duma escala enciclopédica das diversas ciências fundamentais. 

Percebe-se, com efeito, em que pese a perfeição suposta, que essa classificação não 
poderia estar rigorosamente conforme ao encadeamento histórico das ciências. Seja qual 
for nosso modo de agir, não podemos evitar totalmente apresentar (como anterior) uma 
ciência que terá necessidade, sob algum ângulo particular mais ou menos importante, de 
tomar emprestadas noções de outra ciência classificada num lugar posterior. É preciso 
cuidar somente que tal inconveniente não ocorra quanto às concepções características de 
cada ciência, pois então a classificação seria totalmente viciosa. 

Assim, por exemplo, parece-me incontestável que, no sistema geral das ciências, a 
astronomia deve ser colocada antes da física propriamente dita, e, todavia, vários ramos 
desta, sobretudo a óptica, são indispensáveis para a exposição completa da primeira. 

Tais defeitos secundários, estritamente inevitáveis, não poderiam prevalecer contra 
uma classificação que cumprisse, de resto, convenientemente, as condições principais. 
Concernem ao que há de necessariamente artificial em nossa divisão do trabalho 
intelectual. 

No entanto, apesar de, conforme às explicações precedentes, não dever tomar a 
ordem histórica por base de nossa classificação, não posso deixar de indicar de antemão, 
como propriedade essencial da escala enciclopédica que vou propor, sua conformidade 
geral com o conjunto da história científica. Isto num sentido que, a despeito da simulta- 
neidade real e continua do desenvolvimento das diferentes ciências. aquelas que serão 


36 COMTE 


classificadas como anteriores serão, com efeito, as mais antigas e constantemente mais 
adiantadas do que as apresentadas como posteriores. É o que deve ocorrer inevitavel- 
mente se, na realidade, tomamos, como há de ser, por princípio de classificação o enca- 
deamento lógico natural das diversas ciências, pois o ponto de partida da espécie é neces- 
sariamente o mesmo que o do indivíduo. 

Para acabar de determinar, com toda precisão possível, a dificuldade exata da ques- 
tão enciclopédica a ser resolvida, creio útil introduzir uma consideração matemática sim- 
ples, que resumirá rigorosamente o conjunto dos raciocínios expostos até aqui nesta 
lição. Vejamos no que consiste. 

Propomo-nos classificar as ciências fundamentais. Ora, veremos logo que, tudo bem 
considerado, não é possivel distinguir menos de seis; a maioria dos sábios admite prova- 
velmente ainda maior número. Posto isto, sabemos que seis objetos comportam setecen- 
tas e vinte disposições diferentes. As ciências fundamentais poderiam, pois, dar lugar a 
setecentas e vinte classificações distintas, dentre as quais se trataria de escolher a classifi- 
cação necessariamente única, que melhor satisfizesse às principais condições do proble- 
ma. Vê-se que, a despeito do grande número de escalas enciclopédicas sucessivamente 
propostas até o presente, a discussão abrangeu pequena parte das disposições possíveis. 
Creio, no entanto, poder afirmar sem exagero que, examinando cada uma dessas setecen- 
tas e vinte classificações, não haveria talvez uma única em favor da qual se pudesse fazer 
valer alguns motivos plausíveis. Observando as diversas disposições que foram efetiva- 
mente propostas, notam-se entre elas as mais extremas diferenças. As ciências colocadas 
por uns no início do sistema enciclopédico são remetidas por outros para a extremidade 
oposta, e reciprocamente. É, pois, nesta escolha duma única ordem verdadeiramente 
racional, dentre o número muito considerável dos sistemas possíveis, que consiste a difi- 
culdade precisa da questão proposta. 

VI — Abordando agora de maneira direta essa grande questão, lembremos, pri- 
meiro, que para obter uma classificação natural e positiva das ciências fundamentais é 
preciso procurar seu princípio na comparação das diversas ordens de fenômenos, cujas 
leis elas têm por finalidade descobrir. Queremos determinar a dependência real entre os 
diversos estudos científicos. Ora, essa dependência só pode resultar da dependência dos 
fenômenos correspondentes. 

Considerando sob este ponto de vista todos os fenômenos observáveis, veremos ser 
possível classificá-los num pequeno número de categorias naturais, dispostas de tal 
maneira que o estudo racional de cada categoria funde-se no conhecimento das leis prin- 
cipais da categoria precedente, convertendo-se no fundamento do estudo da seguinte. 
Essa ordem é determinada pelo grau de simplicidade ou, o que vale o mesmo, pelo grau 
de generalidade dos fenômenos, donde resulta sua dependência sucessiva e, por conse- 
guinte, a facilidade maior ou menor de seu estudo. 

É claro, a priori, que os fenômenos mais simples, aqueles que menos se complicam 
com os outros, são também necessariamente os mais gerais, pois o que se observa na 
maioria dos casos se desprende, por isso mesmo, o mais possível das circunstâncias pró- 
prias de cada caso separado. É, portanto, do estudo de fenômenos mais gerais ou mais 
simples que é preciso começar, procedendo em seguida sucessivamente até atingir os 
fenômenos mais particulares ou mais complicados; isto se quisermos conceber a filosofia 
natural de maneira verdadeiramente metódica, pois essa ordem de generalidade ou de 
simplicidade, determinando necessariamente o encadeamento racional das diversas ciên- 
cias fundamentais por meio da dependência sucessiva de seus fenômenos. fixa o seu grau 
de facilidade. 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA Su 


Ao mesmo tempo, em virtude duma consideração auxiliar que acredito importante 
notar aqui e que converge exatamente com todas as precedentes, os fenômenos mais ge- 
rais ou mais simples, sendo necessariamente os mais estranhos ao homem, devem, por 
isso mesmo, ser estudados numa disposição de espírito mais calma e racional, o que 
constitui novo motivo para que as ciências correspondentes se desenvolvam de modo 
mais rápido. 

VII — Tendo assim indicado a regra fundamental que deve presidir à classificação 
das ciências, posso passar imediatamente à construção da escala enciclopédica, segundo 
a qual o plano deste curso deve determinar-se e que cada um poderá facilmente apreciar 
com o auxílio das considerações precedentes. 

Uma primeira contemplação do conjunto dos fenômenos naturais nos leva a dividi- 
los primeiramente, conforme o princípio que acabamos de estabelecer, em duas grandes 
classes principais, a primeira compreendendo todos os fenômenos dos corpos brutos, a 
segunda todos aqueles dos corpos organizados. 

Estes últimos são evidentemente mais complicados e particulares do que os outros; 
dependem dos precedentes que, ao contrário, deles não dependem de modo algum. Daí a 
necessidade de estudar os fenômenos fisiológicos depois dos fenômenos dos corpos inor- 
gânicos. Seja qual for a maneira por que se expliquem as diferenças dessas duas sortes de 
seres, é certo que se observam nos corpos vivos todos os fenômenos, sejam mecânicos, 
sejam químicos, que têm lugar nos corpos brutos, acrescidos duma ordem muito espe- 
cial, a dos fenômenos vitais propriamente ditos, aqueles que dizem respeito à organiza- 
ção. Não se trata aqui de examinar se as duas classes de corpos possuem a mesma natu- 
reza ou não são constituídos por ela, questão insolúvel que se ventila demasiadamente 
em nossos dias, por causa dum resto de influência de hábitos teológicos e matafísicos. 
Tal questão não é do domínio da filosofia positiva, que formalmente faz profissão de 
ignorar absolutamente a natureza de qualquer corpo. Mas não é de modo algum indis- 
pensável considerar os corpos brutos e os corpos vivos como de naturezas essencial- 
mente diferentes para reconhecer a necessidade da separação de seus estudos. 

Sem dúvida, as idéias não estão ainda suficientemente fixadas a propósito da manei- 
ra geral de conceber os fenômenos dos corpos vivos. Mas, seja qual for o partido que se 
tome a esse respeito, em consequência dos progressos ulteriores da filosofia natural, a 
classificação que estabelecermos não será por isso afetada. Suponhamos, com efeito, 
demonstrado, o que se pode apenas entrever no estado presente da fisiologia, que os fenó- 
menos fisiológicos sejam fenômenos mecânicos, elétricos e químicos, modificados pela 
estrutura e composição próprias aos corpos organizados; nem por isso deixaria de sub- 
sistir nossa divisão fundamental. Pois permanece sempre verdadeiro, mesmo sob essa 
hipótese, que os fenômenos gerais devem ser estudados antes de se proceder ao exame 
das modificações especiais que sofrem em certos seres do universo, em virtude duma 
disposição particular das moléculas. Assim, a divisão, que hoje é considerada fundada, 
para a maioria dos espíritos esclarecidos, sobre a diversidade das leis é de natureza a 
manter-se indefinidamente, por causa da subordinação dos fenômenos e dos estudos, em 
que pese a aproximação que se possa alguma vez estabelecer solidamente entre as duas 
classes de corpos. 

Não é aqui lugar de desenvolver, em suas diversas partes essenciais, a comparação 
geral entre os corpos brutos e os corpos vivos, que será objeto especial dum exame apro- 
fundado na seção fisiológica deste curso. Basta por ora reconhecer, em princípio, a 
necessidade lógica de separar a ciência relativa aos primeiros da ciência relativa aos 
segundos, só procedendo ao estudo da física orgânica depois de ter estabelecido as leis 
gerais da física inorgânica. 


38 COMTE 


VIII — Passemos agora para a determinação da subdivisão principal de que é 
suscetível, conforme a mesma regra, cada uma das duas grandes metades da filosofia 
natural. 

Para a fisica inorgánica vemos, primeiro, conformando-nos sempre à ordem de 
generalidade e de dependência dos fenômenos, que deve ser dividida em duas seções dis- 
tintas, segundo considera os fenômenos gerais do universo ou, em particular, aqueles 
apresentados pelos corpos terrestres — donde a física celeste, ou astronomia, quer 
geométrica, quer mecânica; e a física terrestre. A necessidade desta divisão é exatamente 
parecida com a precedente. 

Sendo os fenômenos astronômicos os mais gerais, os mais simples, os mais abstra- 
tos de todos, é por seu estudo evidentemente que deve começar a filosofia natural. Isto 
porque as leis a que se sujeitam influenciam as leis de todos os outros fenômenos, sendo 
ao contrário essencialmente independentes destas últimas. Em todos os fenômenos da fi- 
sica terrestre observam-se de início os efeitos gerais da gravitação universal, acrescidos 
de alguns outros efeitos que lhes são próprios e que modificam os primeiros. Segue-se 
que, quando se analisa o fenômeno terrestre mais simples, não só tomando um fenômeno 
químico mas escolhendo ainda um fenômeno puramente mecânico, encontra-se aquele 
sempre de modo mais composto do que o fenômeno celeste mais complicado. Assim é, 
por exemplo, que o simples movimento de um corpo pesado, mesmo quando se trata ape- 
nas de um sólido, configura realmente, quando se quer levar em conta todas as circuns- 
tâncias determinantes, um tema de pesquisa mais complicado do que a questão astronó- 
mica mais dificil. Tal consideração mostra claramente como é indispensável separar niti- 
damente a fisica celeste da física terrestre, somente procedendo ao estudo da segunda 
depois do da primeira, sua base racional. 

A fisica terrestre, por sua vez, subdivide-se, conforme o mesmo princípio, em duas 
partes muito distintas, segundo considera os corpos sob o ponto de vista mecânico ou 
sob o ponto de vista químico. Donde a física propriamente dita e a química. Esta, para 
ser concebida duma maneira verdadeiramente metódica, supõe evidentemente o conheci- 
mento prévio da outra. Pois todos os fenômenos químicos são necessariamente mais 
complicados do que os fenômenos fisicos; dependem deles sem os influenciar. Cada um 
de nós sabe, com efeito, que toda ação química se submete, primeiro, à influência da gra- 
vidade, do calor, da eletricidade, etc., e apresenta, além do mais, alguma coisa de próprio 
que modifica a ação de seus agentes precedentes. Essa consideração, que mostra eviden- 
temente a química só podendo caminhar depois da física, apresenta-a ao mesmo tempo 
como ciência distinta, porquanto seja qual for a opinião adotada sobre as afinidades qui- 
micas, ainda que não se vejam nelas, como é possível de ser concebido, modificações da 
gravitação geral produzidas pela figura e pela disposição mútua dos átomos, permanece 
incontestável que a necessidade de atentar continuamente para essas condições especiais 
não permite tratar a química como simples apêndice da física. Seremos, pois, obrigados, 
em todos os casos, embora seja apenas para facilitar o estudo, a manter a divisão e o 
encadeamento que se tomam hoje como provenientes da heterogeneidade dos fenômenos. 

Tal é a distribuição racional dos principais ramos da ciência geral dos corpos bru- 
tos. Uma divisão análoga se estabelece, da mesma maneira, na ciência geral dos corpos 
organizados. 

IX — Todos os seres vivos apresentam duas ordens de fenômenos essencialmente 
distintos, os relativos ao indivíduo e os concernentes à espécie, sobretudo quando esta é 
sociável. É principalmente em relação ao homem que esta distinção é fundamental. A úl- 
tima ordem de fenômenos é evidentemente mais complicada e mais particular do que a 
primeira, depende dela sem a influenciar. Daí duas grandes seções da física orgânica: a 
fisiologia propriamente dita e a física social, fundada na primeira. 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 39 


Em todos os fenômenos sociais observa-se, primeiramente, a influência das leis 
fisiológicas do indivíduo e, ademais, alguma coisa de particular que modifica seus efeitos 
e que provêm da ação dos indivíduos uns sobre os outros, algo que se complica particu- 
larmente na espécie humana por causa da ação de cada geração sobre aquela que lhe 
segue. É, pois, evidente que, para estudar convenientemente os fenômenos sociais, é pre- 
ciso partir de início do conhecimento aprofundado das leis relativas à vida individual. 
Por outro lado, essa subordinação necessária dos dois estudos não prescreve, de modo 
algum, como certos fisiologistas de primeira ordem foram levados a crer, a necessidade 
de ver ha física social simples apêndice da fisiologia. A despeito de os fenômenos serem 
por certo homogêneos, não são idênticos, e a separação das duas ciências é duma impor- 
tância verdadeiramente fundamental. Pois seria impossível tratar o estudo coletivo da 
espécie como pura dedução do estudo do indivíduo, porquanto as condições sociais. que 
modificam a ação das leis fisiológicas, constituem precisamente a consideração mais 
essencial. Assim, a física social deve fundar-se num corpo de observações diretas que lhe 
seja próprio, atentando, como convém, para sua íntima relação necessária com a fisiolo- 
gia propriamente dita. 

Poder-se-ia facilmente estabelecer uma simetria perfeita entre a divisão da física 
orgânica e aquela acima exposta para a física inorgânica, lembrando a distinção vulgar 
da fisiologia propriamente dita em vegetal e animal. Seria fácil, com efeito, vincular essa 
subdivisão ao princípio de classificação que seguimos constantemente, já que os fenôme- 
nos da vida animal se apresentam, em geral ao menos, como mais complicados e mais 
especiais do que os da vida vegetal. Mas a investigação dessa simetria precisa teria algu- 
ma coisa de pueril se levasse a desconhecer ou a exagerar as analogias reais ou as dife- 
renças efetivas dos fenômenos. Ora, é certo que a distinção entre fisiologia vegetal e físio- 
logia animal, de grande importância para o que chamei de física concreta, não possui 
quase nenhuma na fisica abstrata, a única de que se trata aqui. O conhecimento das leis 
gerais da vida, que deve constituir, a nossos olhos, o verdadeiro objeto da fisiologia, 
exige a consideração simultânea de toda a série orgânica, sem distinção de vegetais e ani- 
mais, distinção que, de resto, se apaga dia a dia, na medida em que os fenômenos são 
estudados de maneira mais aprofundada. 

Persistiremos, pois, em considerar apenas uma única divisão na física orgânica, 
apesar de termos acreditado dever estabelecer duas partes sucessivas na física 
inorgânica. 

X — Como resultado dessa discussão, a filosofia positiva se encontra, pois, natu- 
ralmente dividida em cinco ciências fundamentais, cuja sucessão é determinada pela 
subordinação necessária e invariável, fundada, independentemente de toda opinião hipo- 
tética, na simples comparação aprofundada dos fenômenos correspondentes: a astrono- 
mia, a física, a química, a fisiologia e, enfim, a física social. A primeira considera os 
fenômenos mais gerais, mais simples, mas abstratos e mais afastados da humanidade, e 
que influenciam todos os outros sem serem influenciados por estes. Os fenômenos consi- 
derados pela última são, ao contrário, os mais particulares, mais complicados, mais con- 
cretos e mais diretamente interessantes para o homem; dependem, mais ou menos, de 
todos os precedentes, sem exercer sobre eles influência alguma. Entre esses extremos, os 
graus de especialidade, de complicação e de personalidade dos fenômenos vão gradual- 
mente aumentando, assim como sua dependência sucessiva. Tal é a íntima relação geral 
que a verdadeira observação filosófica, convenientemente empregada, ao contrário de 
vãs distinções arbitrárias, nos conduz a estabelecer entre as diversas ciências fundamen- 
ais. Este deve ser, portanto, o plano deste curso. 


40 COMTE 


Aqui só pude esboçar a exposição das considerações principais sobre as quais 
repousa essa classificação. Para concebê-la completamente, seria mister agora, depois de 
a ter tomado de um ponto de vista geral, examiná-la relativamente a cada ciência funda- 
mental em particular. É o que faremos cuidadosamente começando o estudo especial de 
cada parte do curso. A construção dessa escala enciclopédica, retomada assim sucessiva- 
mente a partir de cada uma das cinco grandes ciências, fará com que adquira maior exa- 
tidão e, sobretudo, porá plenamente em evidência sua solidez. Essas vantagens serão 
tanto mais sensíveis quanto virmos então a distribuição interior de cada ciência estabele- 
cer-se naturalmente conforme ao mesmo princípio, o que apresentará todo o sistema dos 
conhecimentos humanos decomposto, até seus pormenores secundários, segundo uma 
consideração única constantemente seguida, a do grau de abstração maior ou menor das 
concepções correspondentes. Mas trabalhos deste gênero, além de nos arrastar muito 
longe agora, estariam por certo deslocados nesta lição, em que nosso espírito deve man- 
ter-se no ponto de vista mais geral da filosofia positiva. 

XI — No entanto, para fazer apreciar tão completamente quanto possível, desde 
este momento, a importância dessa hierarquia fundamental, de que farei, na sequência 
deste curso, aplicações contínuas, devo assinalar rapidamente aqui suas propriedades ge- 
rais mais essenciais. 

Cabe de início observar, como verificação muito decisiva do caráter exato desta 
classificação, sua conformidade essencial com a coordenação, de algum modo espontá- 
nea, que os cientistas admitem implicitamente ao se dedicarem ao estudo dos diversos 
ramos da filosofia natural. 

Uma condição ordinariamente negligenciada pelos construtores de escalas enciclo- 
pédicas é apresentar como distintas ciências que a marcha efetiva do espírito humano 
conduziu, sem desígnio premeditado, a serem cultivadas separadamente, estabelecendo 
entre elas uma subordinação conforme as relações positivas que seu desenvolvimento 
cotidiano manifesta. Entretanto, tal acordo constitui evidentemente o índice mais seguro 
duma boa classificação, pois as divisões que se introduzem espontaneamente no sistema 
científico só puderam ser determinadas pelo sentimento, por muito tempo experimen- 
tado, das verdadeiras necessidades do espírito humano, sem perder-se em generalidades 
viciosas. 

Embora a classificação proposta acima cumpra inteiramente essa condição, o que 
seria supérfluo provar, disso não se poderia concluir que os hábitos geralmente estabele- 
cidos hoje, graças às experiências dos cientistas, tornariam inútil o trabalho enciclo- 
pédico que acabamos de executar. Apenas tornaram possível essa operação que apre- 
senta a diferença fundamental duma concepção racional em contraposição a uma 
classificação puramente empírica. Falta tão-somente que esta classificação seja ordina- 
riamente concebida e sobretudo seguida com toda precisão necessária e que sua impor- 
tância seja convenientemente apreciada. Bastaria, para disso se convencer, considerar as 
graves infrações todos os dias cometidas contra esta lei enciclopédica, em grande pre- 
juízo do espírito humano. 

Um segundo caráter muito essencial de nossa classificação é o de conformar-se 
necessariamente à ordem efetiva do desenvolvimento da filosofia natural. Isto é verifi- 
cado por tudo o que se sabe da história das ciências, particularmente nestes dois últimos 
séculos, quando podemos seguir sua marcha com mais exatidão. 

Concebe-se, com efeito, que o estudo racional de cada ciência fundamental, exi- 
gindo a cultura prévia de todas aquelas que a precedem em nossa hierarquia enciclopé- 
dica, não pode fazer progressos reais e tomar seu verdadeiro caráter a não ser depois 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 41 


dum grande desenvolvimento das ciências anteriores, relativas a fenômenos mais gerais. 
mais abstratos, menos complicados e independentes dos outros. É, pois, nesta ordem que 
a progressão, embora simultânea, necessitou ter ocorrido. 

Essa consideração me parece de tal importância que não creio ser possível 
compreender a história do espírito humano sem levá-la em conta. A lei geral que domina 
toda essa história, exposta por mim na lição precedente, não pode ser convenientemente 
entendida se não a combinarmos, na aplicação, com a fórmula enciclopédica que acaba- 
mos de estabelecer. Porquanto é seguindo a ordem enunciada por essa fórmula que as 
diferentes teorias humanas atingiram, sucessivamente, primeiro o estado teológico, de- 
pois o estado metafísico e, por fim, o estado positivo. Se no uso da lei não levarmos em 
conta essa progressão necessária, encontraremos frequentemente dificuldades que pare- 
cerão insuperáveis, pois é claro que o estado teológico ou o estado metafísico de certas 
teorias fundamentais tiveram temporariamente de coincidir, algumas vezes coincidindo. 
com efeito, com o estado positivo daquelas que lhes são anteriores em nosso sistema 
enciclopédico, o que tende a lançar sobre a verificação da lei geral uma obscuridade que 
não pode ser dissipada a não ser pela classificação precedente. 

Em terceiro lugar, essa classificação apresenta a propriedade muito notável de mar- 
car exatamente a perfeição relativa das diferentes ciências, a qual consiste essencial- 
mente no grau de precisão dos conhecimentos e de sua coordenação mais ou menos 
intima. 

É fácil perceber que, quanto mais os fenômenos são gerais, simples e abstratos. 
menos dependem dos outros, mais ainda os conhecimentos que a eles se dirigem podem 
ser precisos, ao mesmo tempo que sua coordenação pode ser mais completa. Assim, os 
fenômenos orgânicos só comportam um estudo ao mesmo tempo menos exato e menos 
sistemático que os fenômenos dos corpos brutos. Do mesmo modo, na física inorgânica, 
os fenômenos celestes, tendo em vista sua maior generalidade e sua independência em 
relação a todos os outros, deram lugar a uma ciência muito mais precisa e muito mais 
amalgamada do que a dos fenômenos terrestres. 

Essa observação, tão flagrante no estudo efetivo das ciências, e que propiciou mui- 
tas vezes esperanças quiméricas ou injustas comparações, explica-se, pois, completa- 
mente pela ordem enciclopédica que estabeleci. Terei, naturalmente, a oportunidade de 
dar toda sua extensão na próxima lição, mostrando que a possibilidade de aplicar a aná- 
lise matemática ao estudo dos diversos fenômenos (o que é meio de trazer para esse estu- 
do o mais alto grau possível de precisão e de coordenação) encontra-se exatamente deter- 
minada pelo lugar que ocupam esses fenômenos em minha escala enciclopédica. 


Nao devo passar a outra consideração sem advertir ao leitor que um erro grave, em- 
bora muito grosseiro, é ainda extremamente comum. Consiste em confundir o grau de 
precisão que nossos diferentes conhecimentos comportam com seu grau de certeza, 
donde resulta o preconceito muito perigoso de que, se o primeiro é evidentemente muito 
desigual, assim deve acontecer com o segundo. Fala-se muitas vezes também, embora 
menos do que outrora, da desigual certeza das diversas ciências, o que tende diretamente 
a desencorajar a cultura das ciências mais difíceis. É claro, entretanto, que a precisão e 
a certeza são duas qualidades em si muito diferentes. Uma proposição inteiramente 
absurda pode ser extremamente precisa, como se disséssemos, por exemplo, que a soma 
dos ângulos de um triângulo é igual a três retos; e uma proposição muito certa pode com- 
portar precisão medíocre, como quando se afirma, por exemplo, que todo homem morre- 
rá. Se, conforme a explicação precedente, as diversas ciências devem necessariamente 
apresentar uma precisão muito desigual. não resulta daí, de modo algum, sua certeza. 


42 COMTE 


Cada uma pode oferecer resultados tão certos como qualquer outra, desde que saiba 
encerrar suas conclusões no grau de precisão que os fenômenos correspondentes compor- 
tam, condição nem sempre fácil de cumprir. Numa ciência qualquer, tudo o que é 
simplesmente conjetural é apenas mais ou menos provável, não está aí seu domínio 
essencial; tudo o que é positivo, isto é, fundado em fatos bem constatados, é certo — não 
há distinção a esse respeito. 

Enfim, a propriedade mais interessante de nossa fórmula enciclopédica, por causa 
da importância de suas múltiplas aplicações imediatas possíveis, é determinar direta- 
mente o verdadeiro plano geral duma educação científica inteiramente racional. É o que 
resulta, de imediato, da mera composição da fórmula. 

Percebe-se, com efeito, que, antes de empreender o estudo metódico de alguma das 
ciências fundamentais, é preciso preparar-se por meio do exame daquelas referentes aos 
fenômenos anteriores, em nossa escala enciclopédica, posto que estes influenciam sem- 
pre, de maneira preponderante, aqueles de que se procura conhecer as leis. Essa conside- 
ração é de tal modo flagrante que, a despeito de sua extrema importância prática, não 
tenho necessidade de insistir mais, neste momento, sobre um princípio que, mais tarde, se 
reproduzirá, aliás inevitavelmente, em relação a cada ciência fundamental. Limitar -me-ei 
somente a fazer observar que, se se aplica eminentemente à educação geral, aplica-se 
também, de modo particular, à educação especial dos cientistas. 

Assim os físicos que não estudaram de antemão astronomia, ao menos de um ponto 
de vista geral; os químicos que, antes de se ocuparem com sua própria ciência, não estu- 
daram previamente astronomia e, depois, a fisica; os fisiologistas que não se prepararam 
para seus trabalhos especiais, graças ao estudo preliminar da astronomia, da física e da 
química, desrespeitaram todos eles uma das condições fundamentais de seu desenvolvi- 
mento intelecutal. O mesmo acontece, de forma evidente, com os espíritos que pretendem 
entregar-se ao estudo positivo dos fenômenos sociais sem antes ter adquirido um conhe- 
cimento geral da astronomia, da física, da química e da fisiologia. 

Como tais condições são muito raramente cumpridas hoje, como nenhuma institui- 
ção regular está organizada para preenchê-las, podemos dizer que não existe ainda para 
o cientista educação verdadeiramente racional. Essa consideração tem, a meus olhos, tão 
grande importância que não temo atribuir em parte a este vício de nossas educações 
atuais o estado de imperfeição extrema em que vemos ainda as ciências mais difíceis, es- 
tado verdadeiramente inferior ao que prescreve, com efeito, a natureza mais complicada 
dos fenômenos correspondentes. 

Quanto à educação geral, essa condição é ainda muito mais necessária. Acredito ser 
de tal modo indispensável que vejo o ensino científico incapaz de realizar os resultados ' 
gerais mais essenciais que se destina a produzir em nossa sociedade, a fim de renovar o 
sistema intelectual, se os diversos ramos principais da filosofia natural não forem estuda- 
dos na ordem conveniente. Não esqueçamos que, em quase todas as inteligências, mesmo 
as mais elevadas, as idéias permanecem ordinariamente encadeadas segundo a ordem de 
sua aquisição primeira, sendo, por conseguinte, um mal muitas vezes irremediável não 
ter começado pelo começo. Cada século conta apenas com um número muito pequeno de 
pensadores capazes, na época de sua virilidade, como Bacon, Descartes e Leibniz, de 
fazer verdadeiramente tabula rasa, a fim de reconstruir por completo todo o sistema de 
suas idéias já adquiridas. 

A importância de nossa lei enciclopédica para servir de base à educação científica 
não pode ser convenientemente apreciada a não ser considerando-a também em relação 
ao método, em vez de tomá-la somente, como acabamos de fazer, quanto à doutrina. 


CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 43 


Sob esse novo ponto de vista, uma execução conveniente do plano geral de estudos, 
que determinamos, deve ter como resultado necessário dar-nos um conhecimento perfeito 
do método positivo, o que não poderia ser obtido de nenhuma outra maneira. 

Já que os fenômenos naturais foram classificados de tal modo que os realmente 
homogêneos permaneçam sempre enfeixados num mesmo estudo, enquanto aqueles sub- 
metidos a estudos diferentes sejam efetivamente heterogêneos, deve necessariamente 
resultar daí que o método positivo geral será constantemente modificado, de maneira 
uniforme, na extensão duma mesma ciência fundamental, sofrendo sem cessar modifica- 
ções diferentes e cada vez mais compostas, ao passar duma ciência a outra. Teremos, 
assim, a certeza de considerá-la em todas as variedades reais de que é suscetível, o que 
não poderia ter acontecido se tivéssemos adotado uma fórmula enciclopédica que não 
cumprisse as condições essenciais postas acima. 

Essa nova consideração é de importância verdadeiramente fundamental. Se vimos, 
em geral, na última lição, a impossibilidade de conhecer o método positivo separada- 
mente de seu emprego, devemos acrescentar hoje que não podemos fazer dele uma idéia 
nítida e exata a não ser estudando, sucessivamente e na ordem conveniente, sua aplica- 
ção a todas as diversas classes principais de fenômenos naturais. Uma única ciência não 
basta para atingir essa finalidade, mesmo escolhendo-a do modo mais judicioso possível. 
Porquanto, embora o método seja essencialmente o mesmo em todas, cada ciência desen- 
volve especialmente este ou aquele de seus procedimentos característicos, cuja influência, 
muito pouco pronunciada em outras ciências, passaria despercebida. Assim, por exem- 
plo, em certos ramos da filosofia, é a observação propriamente dita; em outros, é a expe- 
riência, e esta ou aquela natureza de experiências, que constituem o principal meio de 
exploração. Do mesmo modo, tal preceito geral, que faz parte integrante do método, foi 
primitivamente fornecido por uma certa ciência e, se bem que possa ter sido em seguida 
transportado para outras, precisa ser estudado em sua fonte para ser bem conhecido, 
como, por exemplo, a teoria das classificações. 

Limitando-se ao estudo duma única ciência, seria preciso, sem dúvida, escolher a 
mais perfeita para ter um sentimento mais profundo do método positivo. Ora, a mais per- 
feita sendo ao mesmo tempo a mais simples, teríamos assim um conhecimento bem 
incompleto do método, pois não aprenderiamos as modificações essenciais que deve so- 
frer para adaptar-se aos fenômenos mais complicados. Cada ciência fundamental tem, 
assim, desta perspectiva, vantagens que lhe são próprias, o que prova claramente a neces- 
sidade de considerar todas elas, sob pena de formar exclusivamente concepções muito 
estreitas e hábitos insuficientes. Essa consideração, devendo reproduzir-se muitas vezes 
em seguida, é inútil desenvolvê-la ainda mais neste momento. 

Devo, entretanto, aqui, sempre no que respeita ao método, insistir especialmente na 
necessidade, para bem conhecê-lo, não apenas de estudar filosoficamente todas as diver- 
sas ciências fundamentais, mas de o fazer segundo a ordem enciclopédica estabelecida 
nesta lição. Que pode produzir de racional, a menos que possua extrema superioridade 
natural, um espírito que se ocupe desde o início com o estudo dos fenômenos mais 
complicados, sem ter previamente aprendido a conhecer, graças ao exame de fenômenos 
mais simples, o que seja uma lei, o que seja observar, o que seja uma concepção positiva. 
o que seja, até mesmo, um raciocínio encadeado? Tal é, contudo, ainda hoje o caminho 
ordinário de nossos jovens fisiologistas, que iniciam imediatamente o estudo dos corpos 
vivos sem ter, o mais das vezes, sido preparados a não ser pela educação preliminar redu- 
zida ao estudo de uma ou duas línguas mortas, e possuindo, no máximo. um conheci- 
mento muito superficial da física e da química, conhecimento quase nulo no que respeita 


44 CURSO DE FILOSOFIA POSITIVA 


ao método, porque não foi obtido comumente de maneira racional e partindo do verda- 
deiro início da filosofia natural. Concebe-se quanto importa reformar um plano de estu- 
dos tão vicioso. Do mesmo modo, no que concerne aos fenômenos sociais, ainda mais 
complicados, não seria dar um grande passo para o retorno das sociedades modernas a 
um estado verdadeiramente normal ter reconhecido a necessidade lógica de proceder ao 
estudo desses fenômenos só depois de ter preparado sucessivamente o órgão intelectual 
graças ao exame filosófico aprofundado de todos os fenômenos anteriores? Pode-se, 
mesmo, dizer com precisão que aí reside toda a dificuldade principal. Pois há poucos 
bons espíritos que não estejam convencidos hoje da necessidade de estudar tais fenôme- 
nos sociais segundo o método positivo. Aqueles que se ocupam desse estudo não sabem 
e não podem saber exatamente em que consiste esse método, por falta de o ter examinado 
em suas aplicações anteriores, de sorte que essa máxima permaneceu até agora estéril 
para a renovação das teorias sociais, que não sairam ainda do estado teológico ou estado 
metafísico, a despeito dos esforços dos pretensos reformadores positivos. Esta considera- 
ção será, mais tarde, especialmente desenvolvida. Devo aqui limitar-me a indicá-la uni- 
camente para salientar todo o alcance da concepção enciclopédica que propus nesta 
lição. 

Tais são, pois, os quatro pontos de vista principais, aos quais tive de me reportar, 
a fim de dar relevo à importância geral da classificação racional e positiva, estabelecida 
acima para as ciências fundamentais. 

XII — Para completar a exposição geral do plano deste curso, resta-me agora 
considerar uma lacuna imensa e capital que, de propósito, deixei em minha fórmula 
enciclopédica, e que o leitor, sem dúvida, já notou. Não marcamos, com efeito, em nosso 
sistema científico, o lugar da ciência matemática. 

O motivo dessa omissão voluntária reside na própria importância dessa ciência, tão 
vasta e fundamental. A próxima lição será inteiramente consagrada à determinação 
exata de seu verdadeiro caráter geral e, por conseguinte, à fixação precisa de seu lugar 
enciclopédico. Mas, para não deixar incompleto, num item tão capital, o grande quadro 
que me propus esboçar nesta lição, devo indicar aqui sumariamente, por antecipação, os 
resultados gerais do exame que empreenderemos na lição seguinte. 

No estado atual do desenvolvimento de nossos conhecimentos positivos, convém, 
acredito eu, olhar a ciência matemática menos como parte constituinte da filosofia natu- 
ral propriamente dita do que sendo, desde Descartes e Newton, a verdadeira base funda- 
mental de toda essa filosofia, embora, para falar exatamente, seja ao mesmo tempo uma 
e outra. Hoje, a ciência matemática possui muito menos importância em virtude de seus 
conhecimentos muito reais e precisos, de que se compõe diretamente, do que como cons- 
tituindo o instrumento mais poderoso que o espírito humano pode empregar na investiga- 
ção das leis dos fenômenos naturais. 

Para apresentar a esse propósito uma concepção perfeitamente distinta e rigorosa- 
mente exata, veremos ser preciso dividir a ciência matemática em duas grandes ciências, 
cujo caráter é essencialmente diferente: a matemática abstrata ou o cálculo, tomando a 
palavra em sua grande extensão, e a matemática concreta, que se compõe, duma parte, 
da geometria geral, de outra, da mecânica racional. A parte concreta necessariamente se 
funda na parte abstrata, tornando-se por sua vez a base direta de toda a filosofia natural, 
que considera tanto quanto possível todos os fenômenos do universo como geométricos 
ou mecânicos. 

A parte abstrata é a única puramente instrumental, não sendo outra coisa além de 
uma imensa extensão admirável da lógica natural a uma certa ordem de deduções. A 


COMTE 45 


geometria e a mecânica devem, ao contrário, ser tomadas como verdadeiras ciências 
naturais, fundadas, assim como todas as outras, na observação, embora, por causa da 
extrema simplicidade de seus fenômenos, comportem um grau infinitamente mais per- 
feito de sistematização. Isto pode algumas vezes levar a desconhecer o caráter experi- 
mental de seus primeiros princípios. Mas essas duas ciências físicas se particularizam 
porque, no estado atual do espírito humano, já são e sempre serão empregadas cada vez 
mais como método, muito mais do que como doutrina direta. 

É, de resto, evidente que, colocando a ciência matemática no topo da filosofia posi- 
tiva, apenas estamos estendendo ainda mais a aplicação desse princípio de classificação, 
fundado na dependência sucessiva das ciências, resultante do grau de abstração de seus 
fenômenos respectivos, que nos forneceu a série enciclopédica, estabelecida nesta lição. 
Nada mais fazemos agora do que restituir a essa série seu primeiro termo, cuja impor- 
tância própria exigia um exame especial mais desenvolvido. Vê-se que os fenómenos 
geométricos e mecanicos são, entre todos, os mais gerais, os mais simples, os mais abs- 
tratos, os mais irredutíveis e os mais independentes de todos os outros, de que consti- 
tuem, ao contrário, a base. Concebe-se paralelamente que seu estudo seja preliminar 
indispensável ao estudo de todas as outras ordens de fenômenos. A ciência matemática 
deve, pois, constituir o verdadeiro ponto de partida de toda educação científica racional, 
seja geral, seja especial, o que explica o uso universal, que se estabeleceu desde ha muito 
a esse propósito, duma maneira empírica, embora não tenha primitivamente outra causa 
que sua maior ancianidade relativa. Devo me limitar, neste momento, a uma indicação 
muito rápida dessas diversas considerações, que serão o objeto especial da lição seguinte. 

Determinamos exatamente nesta lição, não conforme vãs especulações arbitrárias, 
mas como assunto dum verdadeiro problema filosófico, o plano racional que nos deve 
guiar constantemente no estudo da filosofia positiva. Como resultado definitivo temos a 
matemática, a astronomia, a física, a química, a fisiologia e a fisica social; tal é a fór- 
mula enciclopédica que, dentre o grande número de classificações que comportam as seis 
ciências fundamentais, é a única logicamente conforme à hierarquia natural e invariável 
dos fenômenos. Não preciso lembrar a importância desse resultado, com que o leitor 
deve familiarizar-se para dele fazer, em toda a extensão deste curso, uma aplicação 
contínua. 

À conseqgiiência final dessa lição, expressa sob a forma mais simples, consiste, pois, 
na explicação e justificação do grande quadro sinótico posto no início desta obra. Em 
sua construção me esforcei por seguir, tão rigorosamente quanto possível, para a distri- 
buição interior de cada ciência fundamental, o mesmo princípio de classificação que 
acaba de nos fornecer a série geral das ciências. 


AUGUSTE COMTE 


DISCURSO SOBRE 
O ESPÍRITO POSITIVO" 


Tradução de JOsE ARTHUR GIANNOTTI 


* Este discurso servia de introdução ao Tratado Filosófico de Astronomia Popular. Foi publicado em 1844, 
e figura como obra de divulgação do conjunto do sistema de Comte. 


PRIMEIRA PARTE 


O espírito positivo é mais apto para organizar a harmonia mental 
do que o espírito teológico-metafísico 


Sumário: | — Estudo do estado teológico e de suas fases: o fetichismo, o politeismo e o monoteísmo. IL — 
O estado metafísico é intermediário entre a teologia e o positivismo. Do ponto de vista intelectual, é pura- 
mente crítico. Do ponto de vista histórico, tem por função dissolver a ordem existente. HI — O estado posi- 
tivo tem por caráter o estabelecimento de leis naturais invariáveis e a subordinação da imaginação à observa- 
ção. É relativo à nossa organização e à evolução social. Pôe como fim da ciência a previsão racional fundada 
em leis. IV — O espírito positivo está apto para constituir a harmonia mental. Realiza a unidade em cada 
entendimento, tornando nossas concepções contínuas e homogêneas. Essa unidade não poderia ser objetiva, 
como queria o materialismo: só pode ser subjetiva, sendo nós que a efetuamos relacionando todas as nossas 
concepções à Humanidade. Y — Estudo das relações entre a ciência e a arte. A ciência dirige a ação racional 
sobre a natureza, tanto inorgânica e orgânica quanto política e moral. A relação à Humanidade. como fim. 
orienta, torna precisa e ativa a procura das leis. O desenvolvimento do regime industrial favorece a substitui- 
ção da teologia pelo positivismo. VI — A ciência é incompatível com a teologia, do ponto de vista da lógica 
e da doutrina. É o progresso da ciência que fez a Humanidade passar do politeísmo ao monoteísmo. Caráter 
provisório da transação metafísica, que pretendia conciliar as leis da natureza com a onipotência divina. 
Substituição da doutrina das causas finais pelo princípio das condições de existência. VII —— Caracteres 
distintivos do espírito positivo: realidade, utilidade, certeza, precisão, aptidão orgânica, relatividade. VII — 
Relações do espírito positivo com o bom senso universal. O bom senso universal fornece os primeiros princi- 
pios das especulações positivas. O espírito positivo desenvolveu-se por extensão da influência da razão 
comum, concreta, sobre a razão teórica, abstrata. A harmonia entre a ciência e o bom senso universal termi- 
na pela fundação da sociologia e da moral positiva, e pela sistematização do conjunto das concepções 
positivas. 


I — O conjunto dos conhecimentos astronômicos, considerado até aqui muito 
isoladamente, a partir de agora deve constituir apenas um dos elementos indispensáveis 
do novo sistema indivisível da filosfia geral, sistema gradualmente preparado pelo con- 
curso espontâneo de todos os grandes trabalhos científicos próprios aos últimos três sé- 
culos, e que chegou finalmente hoje à sua verdadeira maturidade abstrata. Em virtude 
dessa íntima conexão, ainda muito pouco compreendida, a natureza e o destino desse tra- 
tado não poderiam ser suficientemente apreciados, se este preâmbulo necessário não 
fosse sobretudo consagrado a definir convenientemente o verdadeiro espírito funda- 
mental dessa filosofia, cuja instalação universal deve, no fundo, tornar-se a meta essen- 
cial de tal ensino. Como ela se distingue principalmente por uma contínua preponde- 
rância, ao mesmo tempo lógica e científica, do ponto de vista histórico ou social, devo 
primeiramente, para caracterizá-la melhor, relembrar sumariamente a grande lei que 
estabeleci, em meu Sistema de Filosofia Positiva, sobre toda a evolução intelectual da 
Humanidade, lei à qual, aliás, nossos estudos astronômicos em seguida frequentemente 
recorrerão. 

Conforme essa doutrina fundamental, quaisquer de nossas especulações estão inevi- 
tavelmente sujeitas, quer no indivíduo, quer na espécie, a passar sucessivamente por três 
estados teóricos diferentes. que as denominações habituais de teológico, metafísico e 
positivo poderão aqui qualificar suficientemente, ao menos para aqueles que tenham bem 


50 COMTE 


compreendido o verdadeiro sentido geral. Embora no início em todos os aspectos indis- 
pensável, o primeiro estado deve, de agora em diante, ser sempre concebido como pura- 
mente provisório e preparatório; o segundo, que do primeiro constitui apenas uma modi- 
ficação dissolvente, comporta apenas uma simples destinação transitória, a fim de 
conduzir gradualmente ao terceiro; este, o único plenamente normal, constitui, em todos 
os géneros, o regime definitivo da razão humana. Em seu primeiro impulso, necessaria- 
mente teológico, todas as nossas especulações manifestam espontaneamente uma predile- 
ção característica por questões mais insolúveis, assuntos mais radicalmente inacessíveis 
a toda investigação decisiva. Graças a um contraste que, em nossos dias, deve parecer de 
início inexplicável, mas que, no fundo, está em plena harmonia com a verdadeira situa- 
ção inicial de nossa inteligência, num tempo em que o espírito humano está ainda aquém 
dos mais simples problemas científicos, este espírito procura, avidamente e duma manei- 
ra quase exclusiva, a origem de todas as coisas, as causas essenciais, quer primeiras, quer 
finais, dos diversos fenômenos que o tocam, e seu modo fundamental de produção. Em 
uma palavra, conhecimentos absolutos. Esta necessidade primitiva se encontra natural- 
mente satisfeita — tanto quanto o exige tal situação e, do mesmo modo, tanto quanto 
isso possa chegar a sê-lo — por nossa tendência inicial a transportar para todos os luga- 
res o tipo humano, assimilando todos os fenômenos, quaisquer que eles sejam, àqueles 
que produzimos nós mesmos e que, a esse título, começam por nos parecer bastante 
conhecidos, segundo a intuição imediata que os acompanha. Para bem compreender o 
espírito puramente teológico, proveniente do desenvolvimento, cada vez mais sistemá- 
tico, desse estado primordial, não se deve limitar a considerá-lo em sua última fase. Esta 
termina, sob nossos olhos, nas populações mais avançadas, mas não é, vista de perto, a 
mais característica. Torna-se, assim, indispensável ter uma visão verdadeiramente filosó- 
fica sobre o conjunto de sua marcha natural, a fim de apreciar sua identidade funda- 
mental sob as três formas principais que sucessivamente lhe são próprias. 

A mais imediata e mais pronunciada constitui o fetichismo propriamente dito. Este 
consiste sobretudo em atribuir a todos os corpos exteriores vida essencialmente análoga 
à nossa, apesar de quase sempre mais enérgica, segundo sua ação ordinariamente mais 
potente. A adoração dos astros caracteriza o grau mais elevado dessa primeira fase teo- 
lógica que, no início, apenas difere do estado mental em que param os animais superio- 
res. Embora essa primeira forma de filosofia teológica se encontre com evidência na his- 
tória intelectual de todas as nossas sociedades, hoje não mais predomina diretamente, a 
não ser entre as menos numerosas das três grandes raças que compõem nossa espécie. 

Sob a segunda fase essencial, sob o verdadeiro politeísmo, muito frequentemente 
confundido pelos modernos com o estado precedente, o espírito teológico configura niti- 
damente a livre preponderância especulativa da imaginação, enquanto até então o ins- 
tinto e os sentimentos tinham prevalecido nas teorias humanas. A filosofia inicial sofre, 
pois, a mais profunda transformação que pode comportar o conjunto de seu destino real, 
na medida em que a vida é por fim retirada dos objetos materiais, para ser misteriosa- 
mente transportada para seres fictícios diversos, habitualmente invisíveis. A intervenção 
ativa e contínua destes torna-se agora a fonte direta de todos os fenômenos exteriores e, 
em seguida, até mesmo dos fenômenos humanos. É durante essa fase característica, hoje 
mal apreciada, que é preciso estudar principalmente o espírito teológico, que nele se 
desenvolve com plenitude e homogeneidade ulteriormente impossíveis. Esse tempo é, sob 
todos os aspectos, o de sua maior ascendência, ao mesmo tempo mental e social. A maio- 
ria de nossa espécie ainda não saiu de tal estado, que persiste hoje entre as mais numero- 
sas das três raças humanas, além da elite da raça negra e a parte menos avançada da 
raça branca. 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 3 


Na terceira fase teológica, o monoteísmo propriamente dito, começa o inevitável 
declínio da filosofia inicial que, a despeito de conservar por longo tempo grande 
influência social, ainda mais aparente do que real, sofre então rápido decréscimo intelec- 
tual, consegiência espontânea dessa simplificação característica, onde a razão vem res- 
tringir cada vez mais o domínio anterior da imaginação, deixando gradualmente desen- 
volver o sentimento universal, até então quase insignificante, da sujeição necessária de 
todos os fenômenos naturais a leis invariáveis. Sob formas muito diversas, até mesmo 
radicalmente inconciliáveis, esse extremo modo do regime preliminar persiste ainda, com 
energia muito desigual, na imensa maioria da raça branca. No entanto, apesar de serem 
de observação tão fácil, essas mesmas preocupações pessoais levantam hoje obstáculo 
muito frequente à sua judiciosa apreciação, na falta duma comparação bastante racional 
e bastante imparcial com os dois modos precedentes. 

Seja qual for a imperfeição que pareça atinjir essa maneira de filosofar, importa 
sobremaneira ligar indissoluvelmente o estado presente do espírito humano ao conjunto 
de seus estados anteriores, reconhecendo convenientemente ter sido ela por muito tempo 
tanto inevitável quanto indispensável. Limitando-nos à simples apreciação intelectual, 
seria de início supérfluo insistir sobre a tendência involuntária que, até mesmo hoje, nos 
conduz a todos, de modo evidente, as explicações essencialmente teológicas. Isto logo 
que pretendemos penetrar diretamente no mistério inacessível do modo fundamental de 
produção de quaisquer fenômenos e, sobretudo, daqueles cujas leis reais ainda ignora- 
mos. Os mais eminentes pensadores podem constatar sua própria disposição natural 
para o mais ingênuo fetichismo, quando essa ignorância se encontra momentaneamente 
combinada com alguma paixão pronunciada. Se, pois, todas as explicações teológicas 
sofreram, entre os modernos ocidentais, uma dessuetude crescente e decisiva, é unica- 
mente porque as misteriosas investigações que tinham em vista foram progressivamente 
afastadas como radicalmente inacessíveis à nossa inteligência. Esta se habituou gradual- 
mente a substituí-las irrevogavelmente por estudos mais eficazes e harmonizados com 
nossas verdadeiras necessidades. Até mesmo num tempo em que o verdadeiro espírito 
filosófico prevalecia em relação aos fenômenos mais simples, e tratando de um assunto 
tão fácil como a teoria elementar do choque, o memorável exemplo de Malebranche lem- 
brará sempre a necessidade de recorrer à intervenção direta e permanente duma ação 
sobrenatural todas as vezes que se tenta remontar à causa primeira de um acontecimento 
qualquer. Ora, de uma parte, tais tentativas, embora possam justamente hoje parecer 
pueris, constituíam certamente o único meio primitivo de fazer crescer o impulso contí- 
nuo das especulações humanas, depurando espontaneamente nossa inteligência do cír- 
culo profundamente vicioso em que está no início necessariamente envolvida pela oposi- 
ção radical de duas condições igualmente imperiosas. Porquanto, se os modernos 
deveram proclamar a impossibilidade de fundar qualquer teoria sólida, a não ser graças 
ao concurso suficiente de observações convenientes, não é menos incontestável que o 
espirito humano nunca poderia combinar, nem mesmo recolher, esses materiais indispen- 
sáveis, sem estar sempre dirigido por algumas visões especulativas previamente estabele- 
cidas. Desse modo, essas concepções primordiais só podiam, evidentemente, resultar 
duma filosofia desprovida, por sua natureza, de toda preparação longa, e suscetível, 
nunia palavra, de surgir espontaneamente, sob o único impulso de um instinto direto, a 
despeito Jc caráter quimérico que deveriam possuir especulações tão carentes de todo 
fundamento real. Tal é o feliz privilégio dos princípios teológicos, sem os quais, podemos 
assegurar, nossa inteligência nunca poderia sair de seu torpor inicial. Eles foram os úni- 
cos que puderam permitir, dirigindo sua atividade especulativa, a preparação gradual de 


52 COMTE 


um melhor regime lógico. Essa aptidão fundamental foi. de resto, secundada potente- 
mente pela predileção, originária do espírito humano, por questões insolúveis, que perse- 
guia sobretudo essa filosofia primitiva. Só poderiamos medir nossas forças mentais e, 
por conseguinte, circunscrever sabiamente sua destinação depois de tê-las suficiente- 
mente exercido. Ora, esse exercício indispensável nunca podia ser no início determinado, 
sobretudo nas mais fracas faculdades de nossa natureza, sem a enérgica estimulação ine- 
rente a tais estudos, onde tantas inteligências mal cultivadas persistem ainda em procurar 
a mais pronta e a mais completa solução de questões diretamente usuais. Foi mesmo 
necessário, durante muito tempo, a fim de vencer suficientemente nossa inércia nativa, 
recorrer também a potentes ilusões, que suscitava espontaneamente tal filosofia, sobre o 
poder quase indefinido do homem para modificar, à sua vontade, um mundo concebido 
então como essencialmente ordenado para seu uso, e que nenhuma grande lei poderia 
subtrair à arbitrária supremacia das influências sobrenaturais. Faz apenas três séculos 
que, na elite da Humanidade, as esperanças astrológicas e alquimistas, último vestígio 
científico desse espírito primordial, realmente cessaram de servir à acumulação cotidiana 
das observações correspondentes, como Kepler e Berthollet respectivamente indicaram. 

O concurso decisivo desses diversos motivos intelectuais seria, ademais, potente- 
mente fortificado, se a natureza desse tratado me permitisse assinalar suficientemente a 
influência irresistível das altas necessidades sociais, que convenientemente apreciei na 
obra fundamental mencionada no início desse Discurso. Pode-se, primeiramente, 
demonstrar plenamente como o espírito teológico foi por muito tempo indispensável à 
combinação permanente das idéias morais e políticas, ainda mais especialmente do que 
às outras, seja em virtude da complicação superior destas, seja porque os fenômenos 
correspondentes, primitivamente muito pouco pronunciados, só poderiam adquirir 
desenvolvimento característico depois de um crescimento muito prolongado da civiliza- 
ção humana. É uma estranha inconsegiiência, apenas escusável por causa da tendência 
cegamente crítica de nosso tempo, reconhecer, para os antigos, a impossibilidade de filo- 
sofar sobre os mais simples assuntos, a não ser segundo o modo teológico, desconhe- 
cendo, entretanto, sobretudo entre os politeístas, a necessidade insuperável de um regime 
análogo em relação às especulações sociais. Mas é preciso perceber, além disso, embora 
não possa ser estabelecido aqui, que essa filosofia inicial não foi menos indispensável ao 
crescimento preliminar de nossa sociabilidade do que ao de nossa inteligência, seja para 
constituir primitivamente algumas doutrinas comuns, sem as quais o vínculo social não 
poderia adquirir nem extensão nem consistência, seja suscitando espontaneamente a 
única autoridade espiritual possível de surgir. 

Il — Apesar do caráter sumário, que devem ter aqui essas explicações gerais sobre 
a natureza provisória e o destino preparatório da única filosofia, que com efeito foi 
conveniente à infância da Humanidade, elas fazem sentir facilmente que esse regime ini- 
cial difere de modo muito profundo, sob todos os aspectos, daquele que veremos corres- 
ponder à virilidade mental para que a passagem gradual de um a outro pudesse originaí- 
mente se operar, no indivíduo ou na espécie, sem a assistência crescente duma espécie de 
filosofia intermediária, essencialmente limitada a esse ofício transitório. Tal é a partici- 
pação especial do estado metafísico propriamente dito na evolução fundamental de nossa 
inteligência. Esta, antipática a toda mudança brusca, pode assim elevar-se, quase de 
maneira insensível, do estado puramente teológico ao estado francamente positivo. em- 
bora essa situação equívoca se aproxime, no fundo, muito mais do primeiro do que do úl- 
timo. As especulações dominantes nele conservaram o mesmo caráter essencial de ten- 
dência habitual aos conhecimentos absolutos. Só a solução sofreu uma transformação 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 53 


notável, capaz de melhor facilitar o crescimento das concepções positivas. Como a teolo- 
gia, a metafísica tenta, antes de tudo, explicar a natureza íntima dos seres, a origem e o 
destino de todas as coisas, o modo essencial de produção de todos os fenômenos. Mas, 
em vez de empregar para isso agentes sobrenaturais propriamente ditos, ela os substitui 
progressivamente por essas entidades ou abstrações personificadas, cujo uso, verdadeira- 
mente característico, permitiu muitas vezes designá-las sob o nome de ontologia. É muito 
fácil observar hoje tal maneira de filosofar que, embora preponderando sobre os fenôme- 
nos mais complicados, apresenta cotidianamente, até mesmo nas teorias mais simples e 
menos atrasadas, tantos traços apreciáveis de sua longa dominação. A eficácia histórica 
dessas entidades resulta diretamente de seu caráter equívoco, pois, em cada um desses 
seres metafísicos, inerente ao corpo correspondente, sem confundir-se:com ele, o espírito 
pode à vontade, conforme esteja mais perto do estado teológico ou do estado positivo, 
ver ou uma verdadeira emanação da potência sobrenatural, ou uma simples denomina- 
ção abstrata do fenômeno considerado. Não é mais a pura imaginação que domina, em- 
bora não seja ainda a verdadeira observação. Mas o raciocínio adquire muita extensão e 
se prepara confusamente para o exercício verdadeiramente científico. Deve-se, de resto, 
notar que sua parte especulativa se encontra primeiramente muito exagerada, em virtude 
dessa tendência obsessiva de argumentar em lugar de observar, que, em todos os gêneros, 
caracteriza habitualmente o espírito metafísico, mesmo entre os seus mais eminentes ór- 
gãos. Uma ordem de concepções tão flexível, que de modo algum comporta a consis- 
tência própria durante tanto tempo ao sistema teológico, deve chegar, aliás muito mais 
rapidamente, à unidade correspondente, graças à subordinação gradual das diversas enti- 
dades particulares a uma única entidade geral, a natureza, destinada a determinar o fraco 
equivalente metafísico da vaga ligação universal resultante do monoteísmo. 

Para melhor compreender, sobretudo em nossos dias, a eficácia histórica de tal apa- 
relho filosófico, importa reconhecer que, por sua natureza, só é espontaneamente susce- 
tível duma simples atividade crítica ou dissolvente, até mesmo mental e com maior razão 
social, sem nunca poder organizar algo que lhe seja próprio. Radicalmente inconse- 
quente, esse espírito equívoco conserva todos os princípios fundamentais do sistema 
teológico, retirando-lhe entretanto cada vez mais o vigor e a fixidez indispensáveis à sua 
autoridade efetiva. É numa alteração semelhante que consiste, com efeito, sob todos os 
aspectos, sua principal utilidade passageira, quando o regime antigo, por muito tempo 
progressivo para o conjunto da evolução humana, encontra-se inevitavelmente neste grau 
de prolongamento abusivo, em que tende a perpetuar indefinidamente o estado de infan- 
cia que, no início, tinha dirigido de modo tão feliz. A metafísica não é, no fundo, mais do 
que uma espécie de teologia gradualmente inervada por simplificações dissolventes, que 
the tiram espontaneamente o poder direto de impedir o crescimento especial das concep- 
ções positivas, conservando-lhe, entretanto, a aptidão provisória de manter certo exerci- 
cio indispensável para o espírito de generalização, até que ele possa enfim receber melhor 
alimento. Conforme seu caráter contraditório, o regime metafísico ou ontológico se 
encontra sempre nesta inevitável alternativa de tender a uma restauração vã do estado 
teológico, para satisfazer às condições da ordem, ou de conduzir a uma situação pura- 
mente negativa, a fim de escapar ao império opressivo da teologia. Essa oscilação neces- 
sária, que agora só é observada em relação às mais difíceis teorias, do mesmo modo exis- 
tiu outrora a respeito das mais simples, enquanto durou a idade metafísica, em virtude da 
impotência orgânica sempre própria a uma tal maneira de filosofar. Se a razão pública 
não a tivesse desde há muito afastado no que respeita a certas noções fundamentais, não 
deveriamos temer assegurar que as dúvidas insensatas que suscitou, há vinte séculos, 


54 COMTE 


sobre a existência dos corpos exteriores, subsistiriam ainda essencialmente, porquanto 
nunca as dissipou por meio de qualquer argumentação decisiva. Podemos, pois, final- 
mente considerar o estado metafísico como uma espécie de doença crônica, naturalmente 
inerente à nossa evolução mental, individual ou coletiva, entre a infância e a virilidade. 

As especulações históricas quase nunca retrocedem, entre os modernos, além dos 
tempos politéicos. O espírito metafísico deve parecer-lhes aproximadamente tão antigo 
como o próprio espírito teológico, o qual necessariamente presidiu, embora duma manei- 
ra implícita, a transformação primitiva do fetichismo em politeísmo, a fim de já suple- 
mentar a atividade puramente natural que, retirada assim diretamente de cada corpo 
particular, devia deixar aí espontaneamente alguma entidade correspondente. No entan- 
to, como essa primeira revolução teológica não póde, então, promover qualquer discus- 
são verdadeira, a contínua intervenção do espírito ontológico só começou a tornar-se ple- 
namente característica na revolução seguinte, na redução do politeísmo em monoteísmo, 
de que teve de ser o órgão natural. Sua crescente influência deveria primeiro aparecer 
orgânica, enquanto permanecia subordinado ao impulso teológico. Mas sua natureza 
essencialmente dissolvente teve, em seguida, de se manifestar cada vez mais, quando ten- 
tou gradualmente levar a simplificação da teologia até mesmo além do monoteismo vul- 
gar, que constituía, necessariamente, a extrema fase verdadeira possível da filosofia ini- 
cial. Assim é que, durante os cinco últimos séculos, o espírito metafísico secundou 
negativamente o crescimento fundamental de nossa civilização moderna, decompondo 
pouco a pouco o sistéma teológico, transformado finalmente em retrógrado, desde que a 
eficácia social do rêgime monotéico se tinha essencialmente gasto no fim da Idade 
Média. Infelizmente, depois de ter realizado, em cada gênero, esse ofício indispensável 
mas passageiro, a ação muito prolongada das concepções ontológicas necessitou sempre 
tender a impedir também qualquer outra organização real do sistema especulativo; de 
sorte que o mais perigoso obstáculo à instalação final duma verdadeira filosofia resulta, 
com efeito, hoje, desse mesmo espírito, que muitas vezes se atribui ainda o privilégio 
quase exclusivo das meditações filosóficas. 

HI — Essa longa sucessão de preâmbulos necessários conduz, enfim, nossa inteli- 
gência, gradualmente emancipada, a seu estado definitivo de positividade racional, que 
deve aqui ser caracterizado duma maneira mais especial do que os-dois estados prelimi- 
nares. Já que tais exercícios preparatórios constataram espontaneamente a inanidade 
radical das explicações vagas e arbitrárias, próprias da filosofia inicial, teológica ou 
metafísica, de agora em diante o espírito humano renuncia de vez às pesquisas absolutas, 
que só convinham à sua infância. Circunscreve seus esforços ao domínio, que agora pro- 
gride rapidamente, da verdadeira observação, única base possível de conhecimentos 
verdadeiramente acessíveis, sabiamente adaptados a nossas necessidades reais. A lógica 
especulativa tinha até então consistido em raciocinar, de maneira mais ou menos sutil, 
conforme princípios confusos que, não comportando qualquer prova suficiente, suscita- 
vam sempre debates sem saída. Reconhece de agora em diante, como regra fundamental, 
que toda proposição que não seja estritamente redutível ao simples enunciado de um 
fato, particular ou geral, não pode oferecer nenhum sentido real e inteligível. Os princi- 
pios que emprega são apenas fatos verdadeiros, somente mais gerais e mais abstratos do 
que aqueles dos quais deve formar o elo. Seja qual for, porém, o modo, racional ou expe- 
rimental, de proceder à sua descoberta, é sempre de sua conformidade, direta ou indireta, 
com os fenômenos observados que resulta exclusivamente sua eficácia científica. A pura 
imaginação perde assim irrevogavelmente sua antiga supremacia mental, e se subordina 
necessariamente à observação, de maneira a constituir um estado lógico plenamente nor- 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 5 


mal, sem cessar, entretanto, de excercer, nas especulações positivas, ofício capital e ines- 
gotável, para criar ou aperfeiçoar os meios de ligação definitiva ou provisória. Numa 
palavra, a revolução fundamental, que caracteriza a virilidade de nossa inteligência, con- 
siste essencialmente em substituir em toda parte a inacessível determinação das causas 
propriamente ditas pela simples pesquisa das leis, isto é, relações constantes que existem 
entre os fenômenos observados. Quer se trate dos menores quer dos mais sublimes efei- 
tos, do choque ou da gravidade, do pensamento ou da moralidade, deles só podemos 
conhecer as diversas ligações mútuas próprias à sua realização, sem nunca penetrar no 
mistério de sua produção. 


Nossas pesquisas positivas devem essencialmente reduzir-se, em todos os gêneros, à 
apreciação sistemática daquilo que é, renunciando a descobrir sua primeira origem e seu 
destino final; importa, ademais, sentir que esse estudo dos fenômenos, ao invés de poder 
de algum modo tornar-se absoluto, deve sempre permanecer relativo à nossa organização 
e à nossa situação. Reconhecendo, sob esse duplo aspecto, a imperfeição necessária de 
nossos diversos meios especulativos, percebe-se que, longe de poder estudar completa- 
mente alguma existência efetiva, de modo algum poderíamos garantir a possibilidade de 
constatar assim, ainda que muito superficialmente, todas as existências reais, cuja maior 
parte talvez deva nos escapar totalmente. Se a perda de um sentido importante basta para 
nos esconder radicalmente uma ordem inteira de fenômenos naturais, cabe pensar, 
reciprocamente, que a aquisição de um sentido novo nos desvendaria uma classe de 
fatos, de que não temos agora idéia alguma, a menos de crer que a diversidade dos senti- 
dos, tão diferentes entre os principais tipos de ânimalidade, se encontre levada, em nosso 
organismo, ao mais alto grau que possa exigir a exploração total de nosso mundo exte- 
rior, suposição evidentemente gratuita e quase ridícula. Nenhuma ciência pode manifes- 
tar melhor do que a astronomia essa natureza necessariamente relativa de todos os nos- 
sos conhecimentos reais, porquanto nela a investigação dos fenômenos, não podendo 
realizar-se por um único sentido, facilmente aprecia as consequências especulativas da 
supressão ou da simples alteração de um deles. Não existiria astronomia alguma para 
uma espécie cega, fosse qual fosse a inteligência que lhe supuséssemos, nem existe astro- 
nomia dos astros obscuros, que são talvez os mais numerosos, nem ainda se a atmosfera 
através da qual observamos os corpos celestes permanecesse sempre e em toda parte 
nebulosa. O curso inteiro desse tratado nos oferecerá frequentes ocasiões de apreciar 
espontaneamente, de maneira menos equivoca, essa íntima dependência, onde o conjunto 
de nossas condições próprias, exteriores ou interiores, afeta inevitavelmente cada um de 
nossos estudos positivos. 

Para caracterizar suficientemente essa natureza necessariamente relativa de todos 
os nossos conhecimentos reais, importa perceber, ademais, de um ponto de vista mais 
filosófico, que, se quaisquer de nossas concepções devam ser consideradas como tantos 
fenômenos humanos, tais fenômenos não são simplesmente individuais, mas também e 
sobretudo sociais, porquanto resultam, com efeito, duma evolução coletiva e continua, de 
cujos elementos e fases são essencialmente conexos. Se portanto, sob o primeiro aspecto, 
se reconhece que nossas especulações devem sempre depender das diversas condições 
essenciais de nossa existência individual, é preciso igualmente admitir, sob o segundo, 
que não estão menos subordinadas ao conjunto da progressão social, de maneira a nunca 
poder comportar essa fixidez absoluta que os metafísicos supuseram. Ora, a lei geral do 
movimento fundamental da Humanidade consiste, a esse respeito, em que nossas teorias 
tendem, cada vez mais, a representar exatamente os assuntos exteriores de nossas cons- 
tantes investigações, sem que entretanto a verdadeira constituição de cada um deles 


56 COMTE 


possa, em caso algum, ser plenamente apreciada. A perfeição científica deve limitar-se à 
aproximação desse limite ideal, tanto quanto o exigem nossas diversas necessidades 
reais. Esse segundo gênero de dependência, próprio das especulações positivas, se mani- 
festa tão claramente como o primeiro em todo o curso dos estudos astronômicos, ao 
considerar, por exemplo, a seglência das noções cada vez mais satisfatórias, obtidas 
desde a origem da geometria celeste, sobre a figura da Terra, sobre a forma das órbitas 
planetárias, etc. Assim, de uma parte, a despeito de as doutrinas científicas serem neces- 
sariamente duma natureza bastante móvel para dever afastar delas toda pretensão ao 
absoluto, de outra, suas variações graduais não apresentam qualquer caráter arbitrário 
que possa motivar um ceticismo mais perigoso. Cada mudança sucessiva conserva, de 
resto espontaneamente, para as teorias correspondentes, uma aptidão indefinida para 
representar fenômenos que lhes serviram de base, ao menos enquanto não se deva ultra- 
passar o grau primitivo de precisão efetiva. 

Desde que a subordinação constante da imaginação à observação foi unanimemente 
reconhecida como a primeira condição fundamental de toda especulação científica sadia, 
uma viciosa interpretação muitas vezes levou a abusar muito deste grande princípio lógi- 
co, fazendo degenerar a ciência real numa espécie de estéril acumulação de fatos incoe- 
rentes, que não poderia oferecer outro mérito essencial além da exatidão parcial. Impor- 
ta, pois, bem sentir que o verdadeiro espírito positivo não está menos afastado, no fundo, 
do empirismo do que do misticismo. É entre essas duas aberrações, igualmente funestas, 
que se deve sempre caminhar. A necessidade de tal atitude de reserva continua, tão dificil 
como importante, bastaria aliás para verificar, conformemente a nossas explicações ini- 
ciais, quanto a verdadeira positividade deve ser maduramente preparada, de maneira a 
não poder de modo algum convir ao estado nascente da Humanidade. Nas leis dos fenó- 
menos consiste realmente a ciência, à qual os fatos propriamente ditos, em que pese a sua 
exatidão e a seu número, não fornecem mais do que os materiais indispensáveis. Ora, 
considerando a destinação constante dessas leis, pode-se dizer, sem exagero algum, que 
a verdadeira ciência, longe de ser formada por simples observações, tende sempre a dis- 
pensar, quanto possível, a exploração direta, substituindo-a por essa previsão racional 
que constitui, sob todos os aspectos, o principal caráter do espírito positivo, como o con- 
junto dos estudos astronômicos nos fará sentir claramente. Tal previsão, consequência 
necessária das relações constantes descobertas entre os fenômenos, não permitirá nunca 
confundir a ciência real com essa vã erudição, que acumula maquinalmente fatos sem 
aspirar a deduzi-los uns dos outros. Esse grande atributo de todas as nossas especulações 
sadias não interessa menos à sua utilidade efetiva do que à sua própria dignidade; pois 
a exploração direta dos fenômenos acontecidos não bastará para nos permitir modificar- 
lhes o acontecimento, se não nos conduzisse a prevê-los convenientemente. Assim, o ver- 
dadeiro espirito positivo consiste sobretudo em ver para prever, em estudar o que é, a fim 
de concluir disso o que será, segundo o dogma geral da invariabilidade das leis naturais. 

Esse princípio fundamental de toda filosofia positiva, sem contudo estender-se 
suficientemente por completo ao conjunto dos fenômenos, começa felizmente, desde três 
séculos, a se nos tornar de tal modo familiar que, em consequência dos hábitos absolutos 
anteriormente enraizados, passamos quase sempre a desconhecer até agora sua verda- 
deira fonte, esforçando-nos, segundo uma vã e confusa argumentação metafísica, por 
representar como uma espécie de noção inata, ou ao menos primitiva, o que só pôde 
resultar certamente duma lenta indução gradativa, ao mesmo tempo coletiva e indivi- 
dual. Não somente qualquer motivo racional, independente de toda exploração exterior, 
não nos indica de início a invariabilidade das relações físicas, mas é incontestável, ao 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 57 


contrário, que o espírito humano sente, durante sua longa infância, uma tendência muito 
viva em desconhecê-la, justamente onde uma observação imperfeita já lhe manifestaria 
tal invariabilidade, se não fosse arrastado, então, por sua tendência necessária a reportar 
todos e quaisquer acontecimentos, sobretudo os mais importantes, a vontades arbitrárias. 
Em cada ordem dos fenômenos existem, sem dúvida, alguns assaz simples e assaz fami- 
liares para que sua observação espontânea tenha sempre sugerido o sentimento confuso 
e incoerente duma certa regularidade secundária; de sorte que o ponto de vista pura- 
mente teológico nunca póde ser rigorosamente universal. Mas essa convicção parcial e 
precária se limita por muito tempo aos fenômenos menos numerosos e mais subalternos, 
não permitindo, pois, evitar as frequentes perturbações atribuídas à intervenção prepon- 
derante dos agentes sobrenaturais. O princípio da invariabilidade das leis naturais só co- 
meça realmente a adquirir alguma consistência filosófica quando os primeiros trabalhos 
verdadeiramente científicos puderam manifestar exatidão essencial a respeito de uma 
ordem inteira de grandes fenômenos, o que só poderia resultar, de modo suficiente, da 
fundação da astronomia matemática, durante os últimos séculos do politeísmo. A partir 
dessa introdução sistemática, esse dogma fundamental sem dúvida tendeu a estender-se, 
por analogia, a fenômenos mais complicados, antes mesmo de que suas leis próprias 
pudessem ser de algum modo conhecidas. No entanto, além de sua esterilidade efetiva. 
essa vaga antecipação lógica tinha nesse momento pouca energia para resistir convenien- 
temente à ativa supremacia mental que as ilusões teológico-metafísicas conservavam 
ainda. Um primeiro esboço especial do estabelecimento de leis naturais em relação a 
cada ordem principal de fenómenos foi, em seguida, indispensável para conferir a tal 
noção essa força inquebrantável que começa a apresentar nas ciências mais avançadas. 
Essa convicção não poderia tornar-se bastante firme enquanto uma elaboração parecida 
não fosse verdadeiramente ampliada a todas as especulações fundamentais, devendo a 
incerteza deixada pelas mais complicadas afetar progressivamente cada uma das outras. 
Não se pode reconhecer essa reação tenebrosa, mesmo hoje, quando, por causa da igno- 
rância ainda habitual das leis sociológicas, o princípio da invariabilidade das relações fi- 
sicas permanece algumas vezes sujeito a graves alterações, até mesmo nos estudos pura- 
mente matemáticos, quando os vemos, por exemplo, preconizar cotidianamente um 
pretenso cálculo do acaso, que supõe implicitamente a ausência de toda lei real a respeito 
de certos acontecimentos, sobretudo quando o homem neles intervém. Quando, porém. 
essa extensão universal foi enfim suficientemente esboçada, condição agora preenchida 
para os espíritos mais avançados, esse grande princípio filosófico adquire logo plenitude 
decisiva, ainda que as leis efetivas na maioria dos casos particulares devam permanecer 
ignoradas por muito tempo; porquanto uma analogia irresistível leva a aplicar de ante- 
mão a todos os fenômenos de cada ordem o que apenas foi constatado para alguns dentre 
eles, desde que tenham importância conveniente. 

Depois de ter considerado o espírito positivo relativamente aos objetos exteriores de 
nossas especulações, é preciso terminar de caracterizá-lo, apreciando também sua desti- 
nação interior, para a satisfação continua de nossas próprias necessidades, quer digam 
respeito a vida contemplativa, quer à vida ativa. 

IV — Apesar de as necessidades mentais serem sem dúvida as menos enérgicas de 
todas aquelas inerentes à nossa natureza, é incontestável sua existência direta e perma- 
nente em todas as inteligências. Constituem elas o primeiro estímulo indispensável a nos- 
sos diversos esforços filosóficos, atribuídos demasiadamente sobretudo aos impulsos 
práticos que. se na verdade os desenvolvem muito, não seriam capazes de fazê-los nascer. 
Essas exigências intelectuais, relativas, como todas as outras, ao exercicio regular das 


58 COMTE 


funções correspondentes, reclamam sempre uma feliz combinação de estabilidade e de 
atividade, donde resultam as necessidades simultâneas de ordem e progresso, ou de liga- 
ção e extensão. Durante a longa infância da Humanidade somente as concepções teológi- 
co-metafísicas poderiam, segundo nossas explicações anteriores, satisfazer provisoria- 
mente a essa dupla condição fundamental, embora duma maneira extremamente 
imperfeita. Mas quando a razão humana por fim amadureceu, renunciando francamente 
às pesquisas inacessíveis e circunscrevendo sabiamente sua atividade ao domínio verda- 
deiramente apreciável por nossas faculdades, a filosofia positiva lhe traz certamente uma 
satisfação muito mais completa, sob todos os aspectos, ao mesmo tempo que mais real, 
desses dois carecimentos elementares. Tal é evidentemente, com efeito, sob esse novo 
aspecto, a destinação direta das leis que descobre sobre os diversos fenômenos e da pre- 
visão racional, que lhe é inseparável. No que respeita a cada ordem de acontecimentos, 
essas leis devem ser distinguidas em duas espécies, conforme ligam por similitude aque- 
les que coexistem ou — por filiação — os que se sucedem. Essa indispensável distinção 
corresponde essencialmente, para o mundo exterior, aquela que este nos oferece esponta- 
neamente entre os dois estados correlatos de existência e de movimento. Daí resulta, em 
toda ciência real, uma diferença fundamental entre apreciação estática e apreciação diná- 
mica de um assunto qualquer. Os dois gêneros de relações contribuem igualmente para 
explicar os fenômenos e, paralelamente, conduzem à sua previsão, apesar de as leis da 
harmonia parecerem sobretudo destinar-se à explicação, e as leis de sucessão à previsão. 
Quer se trate de explicar, quer de prever, tudo sempre se reduz a ligar. Toda ligação real, 
estática ou dinâmica, descoberta entre dois fenómenos quaisquer, permite ao mesmo 
tempo explicar e prevê-los um depois do outro, pois a previsão científica convém eviden- 
temente ao presente, assim como ao passado e ao futuro. Esta consiste, sem cessar, em 
conhecer um fato independentemente de sua exploração direta, em virtude de suas rela- 
ções com outros já dados. Assim, por exemplo, a assimilação demonstrada entre a gravi- 
tação celeste e a gravidade terrestre levou, a partir das variações acentuadas da primeira, 
a prever as fracas variações da segunda, que a observação imediata não podia desvendar 
suficientemente, embora as tenha logo em seguida confirmado. Do mesmo modo, em sen- 
tido inverso, a correspondência antigamente observada entre o período elementar das 
marés e o dia lunar foi explicada logo que se reconheceu a elevação das águas em cada 
ponto resultando da passagem da lua pelo meridiano local. Todas as nossas verdadeiras 
necessidades lógicas convergem, pois, essencialmente para essa destinação comum: 
consolidar, quanto possível, graças a nossas especulações sistemáticas, a unidade espon- 
tânea de nosso entendimento, constituindo a continuidade e a homogeneidade de nossas 
diversas concepções, de maneira a satisfazer igualmente às exigências simultâneas da 
ordem e do progresso, fazendo com que reencontremos a constância no meio da varieda- 
de. Ora, é evidente que, sob esse aspecto fundamental, a filosofia positiva comporta, 
necessariamente, entre os espíritos preparados, uma aptidão muito superior aquela que 
alguma vez pôde oferecer a filosofia teológico-metafísica. Ainda que esta seja conside- 
rada na época de sua maior ascendência ao mesmo tempo mental e social, isto é, no esta- 
do politéico, a unidade intelectual se encontrava certamente constituída duma maneira 
muito menos completa e estável que vai lhe permitir proximamente a preponderância 
universal do espírito positivo, quando se estenderá, por fim, habitualmente às mais emi- 
nentes especulações. Então reinará com efeito, por toda parte, sob diversos modos e dife- 
rentes graus, essa admirável constituição lógica, cujos estudos mais simples hoje apenas 
podem nos dar uma idéia justa, onde a ligação e a extensão. cada uma plenamente garan- 
tida, se encontrem, além do mais, espontaneamente solidárias. Esse grande resultado filo- 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 59 


sófico não exige, aliás, outra condição necessária a não ser a obrigação permanente de 
restringir todas as nossas especulações às pesquisas verdadeiramente acessíveis, conside- 
rando essas relações reais, seja de similitude, seja de sucessão, como não podendo consti- 
tuir para nós a não ser simples fatos gerais que devem sempre sofrer a tendência de redu- 
zi-los ao menor número possível, sem que o mistério de sua produção nunca possa ser de 
maneira alguma penetrado. Isto conforme o caráter fundamental do espírito positivo. 
Mas, se essa constância efetiva das ligações naturais é a única que verdadeiramente apre- 
ciamos, ela também satisfaz a nossas verdadeiras necessidades de contemplação ou de 
direção. 

Importa, entretanto, reconhecer em princípio que, sob o regime positivo, a harmonia 
de nossas concepções se encontra necessariamente limitada, em certo grau, pela obriga- 
ção fundamental de sua realidade, a saber, duma suficiente conformidade a tipos inde- 
pendentes de nós. Em seu cego instinto de ligação, nossa inteligência aspira quase a 
poder sempre ligar entre si dois fenômenos quaisquer, simultâneos ou sucessivos. Mas o 
estudo do mundo exterior demonstra, ao contrário, que muitas dessas aproximações se- 
riam puramente quiméricas. Uma multidão de acontecimentos ocorre continuamente 
sem verdadeira dependência mútua, de sorte que essa inclinação indispensável tem tanta 

necessidade como qualquer outra de ser regulada por uma sadia apreciação geral. Por 
muito tempo habituado a uma espécie de unidade de doutrina, embora vaga e ilusória, 
sob o império de ficções teológicas e de entidades metafísicas, o espírito humano, pas- 
sando ao estado positivo, tentou primeiro reduzir todas as diversas ordens de fenômenos 
a uma única lei comum. Mas todas as tentativas realizadas durante os dois últimos sécu- 
los para obter uma explicação universal da natureza apenas chegaram a desacreditar 
radicalmente tal empreendimento, a partir de agora abandonado a inteligências mal for- 
madas. Uma judiciosa exploração do mundo exterior o apresentou muito menos ligado 
que supõe ou deseja nosso entendimento, cuja fraqueza o predispõe ainda mais a multi- 
plicar relações favoráveis a seu andamento e, sobretudo, a seu repouso. As seis catego- 
rias fundamentais, que distinguiremos abaixo entre os fenômenos naturais, não poderiam 
certamente ser todas elas enfeixadas sob única lei universal. Cabe, ainda, assegurar que 
a unidade de explicação, apesar de procurada por tantos espíritos sérios em relação a 
cada uma dessas categorias tomada à parte, nos está finalmente proibida, mesmo nesse 
domínio muito mais restrito. A astronomia fez nascer, a esse respeito, esperanças muito 
empíricas, que nunca poderiam ser realizadas para os fenômenos mais complicados, não 
só quanto à física propriamente dita, cujos cinco ramos principais permanecerão sempre 
distintos, em que pese a suas incontestáveis relações. Frequentemente nos predispomos a 
exagerar muito os inconvenientes lógicos de tal dispersão necessária, porque apreciamos 
mal as vantagens reais que apresenta a transformação das induções em deduções. No 
entanto, é preciso francamente reconhecer essa impossibilidade direta de enfeixar tudo 
sob uma única lei positiva como grave imperfeição, consequência inevitável da condição 
humana, que nos força a aplicar uma inteligência muito fraca a um universo muito 
complicado. 

Essa incontestável necessidade, porém, que importa reconhecer a fim de evitar todo 
vão desperdício das forças mentais, não impede de modo algum a ciência real de com- 
portar, sob outro aspecto, suficiente unidade filosófica, equivalente aquela constituída 
passageiramente pela teologia ou pela metafísica, que lhe é, de resto, muito superior, 
tanto em estabilidade como em plenitude. Para perceber sua possibilidade e apreciar sua 
natureza, é mister antes de tudo recorrer à luminosa distinção geral esboçada por Kant 
entre os dois pontos de vista objetivo e subjetivo, peculiares a qualquer estudo. Conside- 


60 COMTE 


rada sob o primeiro aspecto, isto é, quanto à destinação exterior de nossas teorias, como 
exata representação do mundo real, nossa ciência não é certamente suscetível duma 
plena sistematização, em virtude duma inevitável diversidade dos fenômenos fundamen- 
tais. Nesse sentido, não devemos procurar outra unidade além da unidade do método 
positivo considerado em seu conjunto, sem pretender chegar a uma verdadeira unidade 
científica, aspirando somente à homogeneidade e à convergência das diferentes doutri- 
nas. A situação é diferente noutro aspecto, isto é, quanto à fonte interior das teorias 
humanas, ao serem consideradas como resultados naturais de nossa evolução mental, ao 
mesmo tempo individual e coletiva, e destinadas à satisfação normal de nossas próprias 
necessidades, sejam elas quais forem. Assim reportados, não ao universo, mas ao 
homem, ou melhor, à Humanidade, nossos conhecimentos reais tendem, ao contrário, 
com evidência espontânea, para uma inteira sistematização, tanto científica quanto lógi- 
ca. Não se deve, então, conceber, no fundo, mais do que uma ciência, a ciência humana, 
ou mais exatamente social, ao mesmo tempo princípio e fim de nossa existência, e à qual 
naturalmente vem se fundir o estudo racional do mundo exterior, a duplo título de ele- 
mento necessário e preâmbulo fundamental, igualmente indispensável quanto ao método 
e quanto à doutrina, como explicarei abaixo. Somente assim nossos conhecimentos posi- 
tivos podem formar um verdadeiro sistema, de maneira a oferecer caráter plenamente 
satisfatório. A própria astronomia, embora objetivamente mais perfeita do que outros 
ramos da filosofia natural, por causa de sua simplicidade superior, só o é sob esse aspec- 
to humano; pois o conjunto deste tratado fará nitidamente perceber que ela deveria, ao 
contrário, ser julgada muito imperfeita se fosse reportada ao universo e não ao homem. 
Todos os nossos estudos reais necessariamente são, pois, limitados ao nosso mundo que, 
no entanto, constitui apenas um mínimo elemento do universo, cuja exploração nos é 
essencialmente proibida. Essa é, pois, a disposição geral que deve finalmente prevalecer 
numa filosofia verdadeiramente positiva, não somente quanto a teorias diretamente rela- 
tivas ao homem e à sociedade, mas também quanto aquelas que concernem aos fenôme- 
nos mais simples, mas afastados, na aparência, desta apreciação comum: conceber todas 
as nossas especulações como produtos de nossa inteligência, destinadas a satisfazer a 
nossas diversas necessidades essenciais, nunca se apartando do homem, a não ser para 
voltar a ele, depois de ter estudado os outros fenômenos enquanto indispensáveis a seu 
conhecimento para desenvolver nossas forças ou apreciar nossa natureza e nossa condi- 
ção. Podemos, então, perceber como a noção preponderante da Humanidade deve neces- 
sariamente instaurar, no estado positivo, plena sistematização mental, ao menos equiva- 
lente aquela que por fim havia comportado a idade teológica, a partir da grande 
concepção de Deus, substituída tão fracamente, em seguida, a esse respeito, durante a 
transição metafísica, pelo vago pensamento da natureza. 

Depois de ter assim caracterizado a aptidão espontânea do espirito positivo em 
constituir a unidade final de nosso entendimento, torna-se fácil completar essa explica- 
ção fundamental, estendendo-a do indivíduo para a espécie. Essa indispensável extensão 
era até agora essencialmente impossível aos filósofos modernos que, não tendo logrado 
sair suficientemente do estado metafísico, nunca se instalaram no ponto de vista social. 
o único suscetível entretanto duma plena realidade, seja científica, seja lógica, pois o 
homem não se desenvolve isolada mas coletivamente. Afastando, como radicalmente 
estéril, ou melhor, profundamente nociva, essa viciosa abstração de nossos psicólogos ou 
ideólogos, a tendência sistemática que acabamos de apreciar no espírito positivo adquire 
enfim toda a sua importância porque ela indica nele o verdadeiro fundamento filosófico 
da sociabilidade humana. enquanto ao menos essa depender da inteligência, cuja 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 61 


influência capital, apesar de não ser exclusiva, não poderia ser contestada. É o mesmo 
problema humano, com efeito, constituir a unidade lógica de cada entendimento isolado 
ou estabelecer uma convergência durável entre entendimentos distintos, cujo número não 
poderia influir essencialmente, a não ser na rapidez da operação. Assim, em todos os 
tempos, aquele que conseguiu tornar-se suficientemente consequente adquiriu, por isso 
mesmo, a faculdade de reunir gradualmente os outros, segundo a similitude fundamental 
de nossa espécie. A filosofia teológica foi, durante a infância da Humanidade, a única 
adequada para sistematizar a sociedade, unicamente porque era então a fonte exclusiva 
duma certa harmonia mental. Se, pois, o privilégio da coerência lógica passou, a partir 
de agora, ao espírito positivo, o que não pode ser seriamente contestado, cabe então reco- 
nhecer também nele o único princípio efetivo dessa grande comunhão intelectual. Esta, 
vem a ser a base necessária de toda verdadeira associação humana, quando for conve- 
nientemente ligada a duas outras condições fundamentais, uma conformidade suficiente 
de sentimentos e uma certa convergência de interesses. A deplorável situação filosófica 
da elite da Humanidade bastaria hoje para dispensar a esse respeito toda discussão, pois 
não mais observamos a verdadeira comunidade de opiniões, a não ser sobre assuntos já 
submetidos às teorias positivas, os quais, infelizmente, não são de longe os mais impor- 
tantes. Uma apreciação direta e especial, que estaria aqui deslocada, faz aliás perceber 
facilmente que a filosofia positiva é a única capaz de realizar gradualmente esse nobre 
projeto de associação universal, que o catolicismo tinha, na Idade Média, prematura- 
mente esboçado, mas que era, no fundo, necessariamente incompatível — como a expe- 
riência constatou plenamente — com a natureza teológica de sua filosofia, a qual insti- 
tuía uma coerência lógica muito fraca para comportar essa eficácia social. 

V — A aptidão fundamental do espírito positivo está, desde agora, suficientemente 
caracterizada em relação à vida especulativa. Resta-nos apenas apreciá-la em relação à 
vida ativa que, sem poder mostrar nele alguma propriedade verdadeiramente nova, mani- 
festa, duma maneira muito mais completa e sobretudo mais decisiva, o conjunto dos atri- 
butos que nele reconhecemos. As concepções teológicas foram, até mesmo sob esse 
aspecto, por muito tempo necessárias para despertar e sustentar o ardor do homem, gra- 
ças à esperança indireta duma espécie de um império ilimitado; é sobre isso, entretanto, 
que o espírito humano necessitou, primeiramente, testemunhar sua predileção final para 
os conhecimentos reais. É, sobretudo, como base racional da ação da Humanidade sobre 
o mundo exterior que o estudo positivo da natureza começa hoje a ser universalmente 
estimado. Nada mais sábio, no fundo, do que esse juízo vulgar e espontâneo, pois tal 
destinação, quando convenientemente apreciada, lembra necessariamente, por meio do 
mais feliz resumo, todos os grandes caracteres do verdadeiro espírito filosófico, tanto no 
que concerne à racionalidade quanto no que concerne à positividade. A ordem natural 
resultante, em cada caso prático, do conjunto das leis dos fenômenos correspondentes, 
deve evidentemente nos ser, de início, bem conhecida, a fim de que possamos modificá- 
la, para vantagem nossa ou, ao menos, adaptar-lhe nossa conduta, no caso de toda inter- 
venção humana ser então impossível, como ocorre com acontecimentos celestes. Tal 
explicação é sobretudo conveniente para tornar familiarmente apreciável essa previsão 
racional que vimos constituir, sob todos os aspectos, o principal caráter da verdadeira 
ciência. A pura erudição, onde os conhecimentos, reais, mas incoerentes, consistem em 
fatos e não em leis, não poderia evidentemente bastar para dirigir nossa atividade. Seria 
supérfluo insistir aqui numa explicação tão pouco contestável. É verdade que a prepon- 
derância exorbitante consagrada agora aos interesses materiais muitas vezes levou a 
compreender essa ligação necessária de modo a comprometer gravemente o futuro cienti- 


62 COMTE 


fico, tendendo a restringir as especulações positivas às únicas pesquisas de utilidade ime- 
diata. Mas essa cega disposição resulta apenas duma maneira falsa e estreita de conceber 
a grande relação da ciência com a arte, na falta de se ter suficiente e profundamente apre- 
ciado uma e outra. O estudo da astronomia é de todos o mais conveniente para retificar 
essa tendência, seja porque sua simplicidade superior permite apreender melhor seu con- 
junto, seja em virtude da espontaneidade mais íntima das aplicações correspondentes, 
que, há vinte séculos, se encontram evidentemente ligadas às mais sublimes especulações, 
como salientará nitidamente este tratado. Mas importa sobretudo bem reconhecer, a esse 
respeito, que a relação fundamental entre a ciência e a arte não pôde ser até agora conve- 
nientemente concebida, até mesmo pelos melhores espíritos, em consequência necessária 
da extensão insuficiente da filosofia natural, que permanece ainda estranha às pesquisas 
mais importantes e mais difíceis, aquelas pesquisas que diretamente concernem à socie- 
dade humana. Com efeito, a concepção racional da ação do homem sobre a natureza 
ficou essencialmente limitada ao mundo inorgânico, donde resultou uma excitação cien- 
tífica demasiadamente imperfeita. Quando essa imensa lacuna for suficientemente preen- 
chida, como hoje começa a ser feito, poder-se-á perceber a importância fundamental 
dessa grande destinação prática para estimular habitualmente, e até mesmo muitas vezes 
para melhor dirigir, as mais eminentes especulações, sob a única condição normal duma 
constante positividade. Pois a arte não será mais então unicamente geométrica, mecânica 
ou química, etc., mas também e sobretudo política e moral. A principal ação exercida 
pela Humanidade deve, sob todos os aspectos, consistir no aprimoramento contínuo de 
sua própria natureza, individual ou coletiva, dentre os limites que indicam, do mesmo 
modo que em todos os outros casos, o conjunto das leis reais. Quando essa solidariedade 
espontânea da ciência com a arte puder ser convenientemente organizada, não podemos 
então duvidar de que, ao invés de tender a restringir as sadias especulações filosóficas, 
ela lhes designaria, ao contrário, um ofício muito superior a seu alcance efetivo. Isto se 
de antemão não tivermos reconhecido, como princípio geral, a impossibilidade de jamais 
tornar a arte puramente racional, a saber, de elevar nossas previsões teóricas ao verda- 
deiro nível de nossas necessidades práticas. Nas próprias artes mais simples e perfeitas, 
um desenvolvimento direto e espontâneo permanece constantemente indispensável, sem 
que as indicações científicas possam, em algum caso, suplementá-las completamente. 
Seja qual for o grau de satisfação, por exemplo, que tenham obtido nossas previsões 
astronômicas, sua precisão é ainda, e provavelmente sempre o será, inferior às nossas 
justas exigências práticas, como terei ocasião muitas vezes de indicar. 

Essa tendência espontânea a constituir diretamente uma inteira harmonia entre a 
vida especulativa e a vida ativa deve ser finalmente olhada como o privilégio mais feliz 
do espírito positivo. Nenhuma outra sua propriedade pode tão bem manifestar o verda- 
deiro caráter e facilitar a ascendência real. Nosso ardor especulativo se encontra assim 
mantido, e mesmo dirigido, por uma potente estimulação contínua, sem a qual a inércia 
natural de nossa inteligência o predisporia a satisfazer muitas vezes a nossas necessi- 
dades teóricas com explicações fáceis, mas insuficientes, enquanto o pensamento da ação 
final lembra sempre a condição duma precisão conveniente. Ao mesmo tempo, essa gran- 
de destinação prática completa e circunscreve, em cada caso, a prescrição fundamental 
relativa à descoberta de leis naturais, tendendo a determinar, segundo as exigências da 
explicação, o grau de precisão e a extensão de nossa previdência racional, cuja justa me- 
dida não poderia, em geral, ser fixada de outra maneira. Se, de uma parte, a perfeição 
científica não poderia ultrapassar tal limite, sob o qual, ao contrário, ela sempre se 
encontrará realmente, não poderá, de outra parte, ultrapassá-la sem logo cair numa apre- 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 63 


ciação muito minuciosa, não menos quimérica do que estéril, que comprometeria final- 
mente todos os fundamentos da verdadeira ciência. Isto porque nossas leis nunca podem 
representar os fenômenos a não ser com certa aproximação, além da qual seria perigoso 
e inútil levar nossas investigações. Ao ser essa relação fundamental da ciência com a arte 
convenientemente sistematizada, tenderá algumas vezes, sem dúvida, a desacreditar ten- 
tativas teóricas, cuja esterilidade radical seria incontestável. Mas, longe de oferecer 
inconveniente real, essa inevitável disposição tornar-se-á muito favorável a nossos verda- 
deiros interesses especulativos, prevenindo este vão desperdício de nossas fracas forças 
mentais, que resulta muitas vezes hoje duma cega especialização. Na evolução prelimi- 
nar do espírito positivo, este necessitou ligar-se em toda parte a quaisquer questões que 
se lhe tornassem acessíveis, sem muito perguntar da sua importância final, derivada da 
relação com o conjunto que no início não poderia ser percebida. Mas esse instinto provi- 
sório, sem o qual a ciência teria carecido de alimento conveniente, deve terminar por 
subordinar-se habitualmente a uma justa apreciação sistemática, isso logo que a plena 
maturidade do estado positivo tivesse permitido, de modo suficiente, apreender sempre as 
verdadeiras relações essenciais de cada parte com o todo, de maneira a oferecer constan- 
temente uma destinação ampla às mais eminentes pesquisas, evitando contudo toda espe- 
culação pueril. 

A respeito dessa intima harmonia entre ciência e arte, importa enfim observar espe- 
cialmente a feliz tendência, que dela resulta, para desenvolver e consolidar a ascendência 
social da sã filosofia, graças a uma série espontânea da preponderância crescente que, 
evidentemente, obtém a vida industrial em nossa civilização moderna. A filosofia teoló- 
gica não poderia realmente convir a não ser a esses tempos necessários de sociabilidade 
preliminar, quando a atividade humana há de ser essencialmente militar, a fim de prepa- 
rar gradualmente uma associação normal e completa, impossível de início, segundo a 
teoria histórica que estabeleci em outro lugar. O politeísmo se adaptava sobretudo ao sis- 
tema de conquista da Antiguidade, e o monoteismo à organização defensiva da Idade 
Média. Fazendo prevalecer cada vez mais a vida industrial, a sociabilidade moderna 
deve, pois, poderosamente secundar a grande revolução mental, que hoje eleva definitiva- 
mente nossa inteligência do regime teológico ao regime positivo. Não só essa ativa ten- 
dência cotidiana para a melhoria prática da condição humana é necessariamente pouco 
compatível com as preocupações religiosas, sempre relativas, sobretudo sob o mono- 
teísmo, a uma destinação de outra espécie. Mas, além disso, tal atividade é de natureza 
a suscitar finalmente uma oposição universal, tão radical quanto espontânea, a toda filo- 
sofia teológica. De uma parte, com efeito, a vida industrial é, no fundo, diretamente con- 
trária a todo otimismo providericial, porquanto supõe necessariamente que a ordem natu- 
ral seja bastante imperfeita para exigir sem cessar a intervenção humana, enquanto a 
teologia apenas admite logicamente, como meio de modificá-la, a solicitação de um 
apoio sobrenatural. Em segundo lugar, essa oposição, inerente ao conjunto de nossas 
concepções industriais, reproduz-se continuadamente, sob as mais variadas formas, no 
término especial de nossas operações, quando devemos considerar o mundo exterior não 
dirigido por uma vontade qualquer, mas submetido a leis suscetíveis de permitir-nos sufi- 
ciente previsão, sem a qual nossa atividade prática não comportaria qualquer base racio- 
nal. Assim, a mesma correlação fundamental, que torna a vida industrial tão favorável à 
ascendência filosófica do espírito positivo, imprime-lhe, sob outro aspecto, uma tendên- 
cia antiteológica mais ou menos pronunciada, inevitável porém mais cedo ou mais tarde, 
sejam quais forem os esforços contínuos da sabedoria sacerdotal para conter ou tempe- 
rar O caráter antiindustrial da filosofia inicial, com a qual a vida guerreira era a única 


64 COMTE 


suficientemente conciliável. Tal é a íntima solidariedade que faz involuntariamente todos 
os espíritos modernos, até mesmo os mais grosseiros e rebeldes, participar na substitui- 
ção gradual da antiga filosofia teológica por uma filosofia plenamente positiva, a única 
suscetível, de agora em diante, de uma verdadeira ascendência social. 

VI — Somos levados a completar, enfim, a apreciação direta do verdadeiro espírito 
filosófico, mediante uma última explicação que, embora sendo sempre negativa, torna-se 
hoje realmente indispensável, para terminar de caracterizar, de modo suficiente, a natu- 
reza e as condições da grande renovação mental agora necessária à elite da Humanidade. 
Salientaremos diretamente a incompatibilidade final das concepções positivas com todas 
as opiniões teológicas, quaisquer que sejam elas, monotéicas, politéicas ou fetichistas. As 
diversas considerações indicadas neste Discurso mostraram já implicitamente a impossi- 
bilidade de qualquer conciliação durável entre as duas filosofias, tanto no que respeita ao 
método quanto no que respeita à doutrina; de sorte que toda incerteza a esse propósito 
pode ser facilmente dissipada. Sem dúvida, a ciência e a teologia não estão no início em 
oposição aberta, posto que não se propõem as mesmas questões. Isto permitiu durante 
muito tempo o florescimento parcial do espírito positivo, apesar da ascendência geral do 
espírito teológico e, até mesmo, sob muitos aspectos, debaixo de sua tutela prévia. Mas, 
quando a positividade racional, limitada primeiramente a humildes investigações mate- 
máticas, que a teologia tinha desprezado especialmente, começou a estender-se ao estudo 
direto da natureza, sobretudo por meio das teorias astronômicas, tornou-se inevitável a 
colisão, embora latente. Isto em virtude do contraste fundamental, ao mesmo tempo cien- 
tífico e lógico, que se desenvolveu progressivamente entre as duas ordens de idéias. Os 
motivos lógicos pelos quais a ciência se proíbe radicalmente os misteriosos problemas de 
que a teologia se ocupa essencialmente são de natureza a desacreditar, mais cedo ou 
mais tarde, para todos os bons espíritos, as especulações que descartarmos, na qualidade 
de necessariamente inacessíveis à razão humana. Além do mais, a sábia reserva, com que 
o espírito positivo procede gradualmente em relação a assuntos muito fáceis, deve levar 
indiretamente à apreciação da louca temeridade do espírito teológico a respeito das mais 
dificeis questões. No entanto, é sobretudo por meio das doutrinas que a incompatibi- 
lidade das duas filosofias deve manifestar-se para a maior parte das inteligências, muito 
pouco atingidas ordinariamente por simples dissidências de método, embora essas sejam 
no fundo as mais graves, como sendo a fonte necessária de todas as outras. Ora, sob esse 
novo aspecto, não se pode desconhecer a oposição radical das duas ordens de concep- 
ções, onde os mesmos fenômenos são de um lado atribuídos a vontades diretoras, de 
outro reportados a leis invariáveis. A mobilidade irregular, naturalmente inerente a toda 
idéia de vontade, não pode de modo algum conciliar-se com a constância das relações 
reais. Assim, na medida em que as leis físicas se tornaram conhecidas, o império das 
vontades sobrenaturais se estreitou cada vez mais, exercendo-se apenas nos fenômenos 
cujas leis permaneciam ignoradas. Tal incompatibilidade se torna diretamente evidente 
quando opomos a previsão racional, que constitui o principal caráter da verdadeira ciên- 
cia, à adivinhação por revelação especial, que a teologia deve apresentar como ofere- 
cendo o único meio legítimo de conhecer o futuro. É verdade que o espírito positivo, che- 
gando à sua inteira maturidade, também tende a subordinar a própria vontade a 
verdadeiras leis, cuja existência está, com efeito, pressuposta tacitamente pela razão vul- 
gar, já que os esforços práticos para modificar e prever as vontades humanas não pode- 
riam ter, sem isso, qualquer fundamento razoável. Mas tal noção não conduz de modo 
algum a conciliar ambos os modos opostos, segundo os quais ciência e teologia conce- 
bem necessariamente a direção efetiva dos diversos fenômenos. Pois semelhante previsão 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 65 


e a conduta que daí resulta exigem evidentemente profundo conhecimento real do ser no 
seio do qual as vontades se produzem. Ora, esse fundamento prévio só poderia provir de 
um ser menos igual, julgado também por semelhança; não o podemos conceber da parte 
de um inferior e a contradição aumenta com a desigualdade da natureza. Assim, a teolo- 
gia sempre recusou a pretensão de penetrar de algum modo nos desígnios providenciais, 
da mesma forma que seria absurdo supor os últimos animais dotados da faculdade de 
prever as vontades dos homens ou dos outros animais superiores. É, entretanto, a essa 
louca hipótese que seríamos necessariamente conduzidos se pretendêssemos conciliar 
finalmente o espírito teológico com o espírito positivo. 

Historicamente considerada, esta oposição radical, aplicável a todas as fases essen- 
ciais da filosofia inicial, desde longo tempo tem sido geralmente admitida em relação às 
fases completamente ultrapassadas pelas populações mais avançadas. É mesmo certo 
que, a esse respeito, exagera-se muito tal incompatibilidade, por causa desse absoluto 
desdém, que cegamente inspiram nossos hábitos monotéicos, para os dois estados ante- 
riores do regime teológico. A sã filosofia, sempre obrigada a apreciar o modo necessário 
segundo o qual cada uma das grandes fases sucessivas da Humanidade efetivamente con- 
correu para nossa evolução fundamental, retificará cuidadosamente estes injustos 
preconceitos, que impedem toda verdadeira teoria histórica. No entanto, a despeito de o 
politeísmo e mesmo de o fetichismo terem de início secundado realmente o florescimento 
espontâneo do espírito de observação, cabe reconhecer que não poderiam ser verdadei- 
ramente compatíveis com o sentimento gradual da invariabilidade das relações físicas, 
logo que este pôde adquirir certa consistência sistemática. Devemos, assim, conceber 
essa inevitável oposição como a principal fonte secreta das diversas transformações que 
sucessivamente decompuseram a filosofia teológica, reduzindo-a cada vez mais. Aqui 
vale completar, a esse respeito, a indispensável explicação indicada no início deste Dis- 
curso, quando essa dissolução gradual foi especialmente atribuída ao estado metafísico 
propriamente dito, que, no fundo, disso não podia ser mais do que simples órgão e nunca 
o verdadeiro agente. É preciso, com efeito, observar que o espírito positivo, em conse- 
giência da falta de generalidade característica de sua lenta evolução parcial, não podia 
convenientemente formular suas próprias tendências filosóficas, que se tornaram apenas 
sensíveis diretamente durante os últimos séculos. Daí resultava a necessidade especial da 
intervenção metafísica, a única que poderia sozinha sistematizar convenientemente a 
oposição espontânea da ciência nascente com a antiga teologia. Apesar de tal ofício ter 
exagerado muito a importância efetiva deste espírito transitório, é fácil, entretanto, reco- 
nhecer que o progresso natural dos conhecimentos reais era o único a dar consistência 
séria à sua atividade rumorosa. Esse progresso contínuo, que de início havia mesmo 
determinado no fundo a transformação do fetichismo em politeísmo, constituiu em segui- 
da, sobretudo, a fonte essencial da redução do politeísmo ao monoteísmo. Devendo a 
colisão operar-se principalmente mediante teorias astronômicas, este tratado há de me 
fornecer a ocasião natural para caracterizar o grau preciso de seu desenvolvimento, a 
que cabe atribuir, em realidade, a irrevogável decadência mental do regime politéico, que 
reconheceremos então logicamente incompatível com a fundação decisiva da astronomia 
matemática pela escola de Tales. 

O estudo racional dessa oposição demonstra claramente que não podia limitar-se à 
teologia antiga, devendo estender-se em seguida ao próprio monoteismo, embora sua 
energia tenha necessitado decrescer, na medida em que o espirito teológico continuava a 
decair em virtude do mesmo progresso espontâneo. Sem dúvida, essa extrema fase da 
filosofia inicial era muito menos contrária do que as precedentes ao florescimento dos 


66 COMTE 


conhecimentos reais, que não mais reencontravam a cada passo a perigosa concorrência 
duma explicação sobrenatural especialmente formulada. Assim, é sobretudo sob o regi- 
me monotéico que deveu realizar-se a evolução preliminar do espírito positivo. Mas a 
incompatibilidade, por ser menos explicita e mais tardia, no fim não permanecia menos 
inevitável, mesmo antes do tempo em que a nova filosofia viesse a ser bastante geral para 
tomar caráter verdadeiramente orgânico, substituindo irrevogavelmente a teologia, tanto 
em seu ofício social quanto em sua destinação mental. Como o conflito teve ainda que se 
operar sobretudo pela astronomia, demonstrarei aqui com precisão que evolução mais 
avançada estendeu necessariamente sua oposição radical atê o mais simples mono- 
teísmo, antes apenas limitada ao politeismo propriamente dito. Reconheceremos então 
que essa inevitável influência resulta da descoberta do duplo movimento da Terra, logo 
seguida pela fundação da mecânica celeste. No estado presente da razão humana, pode- 
mos assegurar que O regime monotéico, por muito tempo favorável ao florescimento pri- 
mitivo dos conhecimentos reais, entrava profundamente a marcha sistemática que eles 
devem tomar de agora em diante, impedindo o sentimento fundamental da invariabi- 
lidade das leis físicas de adquirir, enfim, sua indispensável plenitude filosófica. Pois o 
pensamento continuo duma súbita perturbação arbitrária na economia natural deve sem- 
pre permanecer inseparável, ao menos virtualmente, de toda e qualquer teologia, ainda 
que reduzido quanto for possível. Sem tal obstáculo, com efeito só possível de ser ultra- 
passado com a inteira dessuetude do espírito teológico, o espetáculo cotidiano da ordem 
real já teria determinado uma adesão universal ao princípio fundamental da filosofia 
positiva. 


Muitos séculos antes de o florescimento científico permitir apreciar diretamente 
essa oposição radical, a transição metafísica tentara, sob um impulso secreto, restringir, 
no próprio seio do monoteísmo, a ascendência da teologia, fazendo abstratamente preva- 
lecer, no último período da Idade Média, a célebre doutrina escolástica, que submeteu a 
ação efetiva do motor supremo a leis invariantes, que este teria estabelecido primitiva- 
mente determinando-se depois jamais alterá-las. Mas essa espécie de transação espon- 
tânea entre o princípio teológico e o princípio positivo não comportava, evidentemente, 
a não ser uma existência passageira, própria a facilitar ainda mais o declínio continuo de 
um e o triunfo gradual de outro. Seu império limitava-se essencialmente aos espíritos 
cultivados, pois, enquanto a fé persistiu realmente, o instinto popular sempre teve de 
rejeitar, com energia, uma concepção que, no fundo, tendia a anular o poder providen- 
cial, condenando-o a uma inércia sublime, que deixava toda atividade habitual à grande 
entidade metafísica. A natureza associava-se assim regularmenté ao govemo universal, a 
título de ministro devedor e responsável, a que se deveria endereçar então a maior parte 
das queixas e dos votos. Percebe-se que, sob todos os aspectos essenciais, essa concepção 
parece muito com aquela que a situação moderna fez cada vez mais prevalecer, no que 
respeita ao reinado constitucional. A analogia não é de modo algum fortuita, porquanto 
o tipo teológico forneceu, com efeito, a base racional do tipo político. Essa doutrina 
contraditória, que arruína a eficácia social do princípio teológico, sem consagrar a 
ascendência fundamental do princípio positivo, não poderia corresponder a nenhum esta- 
do verdadeiramente normal e duradouro; ela consiste somente no mais potente dos meios 
de transição adequados ao último ofício necessário do espírito metafísico. : 

Finalmente, a incompatibilidade necessária da ciência com a teologia teve de mani- 
festar-se também sob outra forma geral, especialmente adaptada ao estado monotéico, 
fazendo cada vez mais salientar a imperfeição radical da ordem real, assim oposta ao 
inevitável otimismo providencial. Esse otimismo teve, sem dúvida, de permanecer por 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 67 


muito tempo compatível com o florescimento espontâneo dos conhecimentos positivos, 
já que uma primeira análise da natureza devia então inspirar, por toda parte, uma admi- 
ração ingênua pelo modo de realização dos principais fenômenos que constituam a 
ordem efetiva. Mas essa disposição inicial tende em seguida a desaparecer não menos 
necessariamente, na medida em que o espírito positivo, tomando um caráter cada vez 
mais sistemático, substitui paulatinamente ao dogma das causas finais o princípio das 
condições de existência. Este lhe oferece, num grau mais alto, todas as propriedades lógi 
cas, sem apresentar qualquer um de seus graves perigos científicos. Paramos então de 
estranhar que a constituição dos seres naturais se encontre, em cada caso, disposta de 
maneira a permitir a realização final de seus fenômenos efetivos. Estudando com cuida- 
do essa inevitável harmonia, com o único propósito de compreendê-la melhor, termina- 
mos em seguida por observar as profundas imperfeições que apresenta, sob todos os 
aspectos, a ordem real, quase sempre inferior em sabedoria à economia artificial, estabe- 
lecida por nossa fraça intervenção humana em seu domínio limitado. Como esses vícios 
naturais devem ser um tanto maiores quando se trata de fenômenos mais complicados, as 
indicações irrecusáveis que nos oferecerá, sob esse aspecto, o conjunto da astronomia 
bastarão aqui para levar ao pressentimento de quanto tal apreciação deve estender-se, 
com nova energia filosófica, a todas as outras partes essencias da ciência real, Mas 
importa sobretudo. compreender, em geral, a propósito de tal crítica, que não tem somen- 
te um destino passageiro,a título do meio antiteológico. Liga-se, de maneira mais intima 
e durável, ao espírito. fundamental da filosofia positiva, na relação geral entre espeçula- 
ção e ação. Se, de outra parte, nossa ativa intervenção permanente repousa, antes de 
tudo, no conhecimento exato da economia natural, de que nossa economia artificial não 
deve constituir, sob todos os aspectos,senão a progressiva melhoria,não é menos certo, de 
outra parte, que assim supomos a imperfeição necessária dessa ordem espontânea, cuja 
modificação gradual constitui o fim cotidiano de nossos esforços individuais ou coleti- 
vos. Abstração feita de toda crítica passageira, a justa apreciação dos diversos inçonve- 
nientes, próprios à constituição efetiva do mundo real, deve pois ser concebida, de agora 
em diante, como inerente ao conjunto da filosofia positiva, mesmo no que concerne aos 
casos inacessíveis a nossos fracos meios de aperfeiçoamento, a fim de melhor conhecer, 
seja nossa condição. fundamental, seja a destinação essencial de nossa atividade 
contínua. 

VII — O concurso espontâneo das diversas considerações gerais, indicadas neste 
Discurso, basta agora para caracterizar aqui, sob todos os aspectos principais, O verda- 
deiro espírito filosófico que, depois, duma lenta evolução preliminar, atinge hoje seu esta- 
do, sistemático. Tendo em vista a evidente obrigação em que nos encontramos agora de 
qualificá-lo habitualmente por uma curta denominação especial, tive de preferir aquela a 
que a preparação universal atribuiu progressivamente, durante os últimos três séculos, a 
preciosa propriedade de resumir, da melhor maneira possivel, o conjunto de seus atribu- 
tos fundamentais. Como todos os termos vulgares elevados assim gradualmente à digni- 
dade filosófica, a palavra positivo oferece, em nossas linguas ocidentais, várias acepções 
distintas, mesmo afastando o sentido grosseiro, que de início se vincula a ela entre os 
espíritos mal cultivados. Mas importa notar aqui que todas essas diversas significações 
convêm igualmente à nova filosofia geral, indicando-lhe alternativamente diferentes 
propriedades características. Assim, esta aparente ambiguidade não mais oferecerá qual- 
quer inconveniente real. Seria preciso ver nisso, ao contrário, um dos principais, exem- 
plos dessa admirável condensação de fórmulas que, nas populações avançadas, reúne, 
sob uma única expressão usual, vários atributos distintos, quando a razão pública chega 
a reconhecer sua ligação permanente. 


68 COMTE 


Considerada de início em sua acepção mais antiga e comum, a palavra positivo 
designa real, em oposição a quimérico. Desta óptica, convém plenamente ao novo espi- 
rito filosófico, caracterizado segundo sua constante dedicação a pesquisas verdadeira- 
mente acessíveis à nossa inteligência, com exclusão permanente dos impenetráveis misté- 
rios de que se ocupava, sobretudo em sua infância. Num segundo sentido, muito vizinho 
do precedente, embora distinto, esse termo fundamental indica o contraste entre útil e 
ocioso. Lembra então, em filosofia, o destino necessário de todas as nossas especulações 
sadias para aperfeiçoamento contínuo de nossa verdadeira condição individual ou coleti- 
va, em lugar da vã satisfação duma curiosidade estéril. Segundo uma terceira significa- 
ção usual, essa feliz expressão é frequentemente empregada para qualificar a oposição 
entre a certeza e a indecisão. Indica assim a aptidão característica de tal filosofia para 
constituir espontaneamente a harmonia lógica no indivíduo, e a comunhão espiritual na 
espécie inteira, em lugar dessas dúvidas indefinidas e desses debates intermináveis que 
devia suscitar o antigo regime mental. Uma quarta acepção ordinária, muitas vezes con- 
fundida com a precedente, consiste em opor o preciso ao vago. Este sentido lembra a ten- 
dência constante do verdadeiro espírito filosófico a obter em toda parte o grau de preci- 
são compatível com a natureza dos fenômenos e conforme às exigências de nossas 
verdadeiras necessidades; enquanto a antiga maneira de filosofar conduzia necessaria- 
mente a opiniões vagas, comportando apenas uma indispensável disciplina, baseada 
numa repressão permanente e apoiada numa autoridade sobrenatural. 

É preciso, enfim, observar especialmente uma quinta aplicação, menos usada que as 
outras, embora igualmente universal, quando se emprega a palavra positivo como con- 
trária a negativo. Sob esse aspecto, indica uma das mais eminentes propriedades da ver- 
dadeira filosofia moderna, mostrando-a destinada sobretudo, por sua própria natureza, 
não a destruir, mas a organizar. Os quatro caracteres gerais que acabamos de lembrar 
distinguem-na ao mesmo tempo de todos os modos possíveis, quer teológicos, quer meta- 
físicos, próprios à filosofia inicial. Essa última significação, indicando aliás uma tendên- 
cia continua no novo espírito filosófico, oferece hoje uma importância especial para 
caracterizar diretamente uma de suas principais diferenças, não mais com o espírito 
teológico, que foi por muito tempo orgânico, mas com o espírito metafísico propriamente 
dito, que nunca foi mais do que crítico. Seja qual for, com efeito, a ação dissolvente da 
ciência real, essa influência foi sempre nela puramente indireta e secundária. Seu defeito 
de sistematização impedia até agora que fosse possível ser de modo diferente, e o grande 
ofício orgânico que lhe cabia então se oporia a tal atribuição acessória, que tende, de 
resto, a tornar-se supérflua. A sã filosofia afasta radicalmente, é verdade, todas as ques- 
tões necessariamente insolúveis, mas, motivando sua rejeição, evita nada negar a seu res- 
peito, o que seria contraditório com essa dessuetude sistemática, pela qual devem apa- 
gar-se todas as opiniões verdadeiramente indiscutíveis. Em relação a cada uma delas, 
tendo em vista sua comum indiferença, mais imparcial e mais tolerante do que podem 
demonstrar os partidários opostos, preocupa-se em apreciar historicamente sua 
influência respectiva, as condições de sua duração e os motivos de sua decadência, sem 
nunca pronunciar alguma negação absoluta, mesmo quando se trata das doutrinas mais 
antipáticas ao estado presente da razão humana, nas populações de elite. Assim, faz 
escrupulosa justiça tanto aos diversos sistemas de monoteísmo, diferentes daquele que 
expira hoje entre nós, quanto às crenças politéicas ou mesmo fetichistas, reportando-os 
sempre às fases correspondentes da evolução fundamental. Sob o aspecto dogmático, 
professa aliás que qualquer concepção de nossa imaginação, quando sua natureza as 
torna necessariamente inacessíveis a toda observação, deixam de ser, então, suscetíveis 
de negação ou de afirmação verdadeiramente decisivas. Ninguém, sem dúvida, demons- 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 69 


trou logicamente a não-existência de Apolo, de Minerva, etc., nem das fadas orientais ou 
das diversas criações poéticas, o que não impediu de modo algum o espírito humano de 
abandonar irrevogavelmente os dogmas antigos quando, enfim, cessaram de convir ao 
conjunto de sua situação. 

O único caráter essencial do novo espírito filosófico, não ainda indicado direta- 
mente pela palavra positivo, consiste em sua tendência necessária a substituir, em todos 
os lugares, absoluto por relativo. Mas esse grande atributo, ao mesmo tempo científico e 
lógico, é de tal modo inerente à natureza fundamental dos conhecimentos reais que sua 
consideração geral não tardará a ligar-se intimamente aos diversos aspectos já combina- 
dos por essa fórmula, quando o moderno regime intelectual, atê aqui parcial e empírico, 
passar comumente ao estado sistemático. A quinta acepção que acabamos de apreciar é 
sobretudo conveniente para determinar essa última condensação da nova linguagem filo- 
sófica, então plenamente constituída, segundo a evidente afinidade de ambas as pro- 
priedades. Concebe-se, de fato, que a natureza absoluta das antigas deutrinas, teoló- 
gicas ou metafísicas, determinasse necessariamente cada uma delas a tornar-se negativa 
em relação a todas as outras, sob pena de ela própria degenerar num absurdo ecletismo. 
É, ao contrário, em virtude de seu gênio relativo que a nova filosofia pode sempre apre- 
ciar o valor próprio das teorias que lhe são mais opostas, sem contudo chegar a uma vã 
concessão, suscetivel de alterar a nitidez de suas vistas ou a firmeza de suas decisões. 
Cabe, portanto, presumir, conforme o conjunto de tal apreciação especial, que a fórmula 
empregada aqui para qualificar habitualmente essa filosofia definitiva lembrará, de agora 
em diante, a todos os bons espíritos a total combinação efetiva de suas diversas proprie- 
dades características. 

VIII — Quando se procura a origem fundamental dessa maneira de filosofar, não se 
tardará em reconhecer que sua espontaneidade elementar coincide realmente com os pri- 
meiros exercícios práticos da razão humana, pois o conjunto dessas explicações indica- 
das neste Discurso demonstra claramente que todos os seus atributos principais são, no 
fundo, os mesmos que os do bom senso universal. A despeito da ascendência mental da 
mais grosseira teologia, a conduta cotidiana da vida ativa sempre teve de suscitar, diante 
de cada ordem de fenômenos, certo esboço das leis naturais e das previsões correspon- 
dentes, em algum caso particular, que somente pareciam então secundários ou excepcio- 
nais. Ora, tais são com efeito os germes necessários da positividade, que deveria perma- 
necer por muito tempo empírica, antes de poder vir a ser racional. Importa muito 
perceber que, sob todos esses aspectos essenciais, o verdadeiro espírito filosófico consiste 
sobretudo na extensão sistemática do simples bom senso a todas as especulações verda- 
deiramente acessíveis. Seus domínios são radicalmente idênticos, já que as maiores ques- 
tões da sã filosofia sempre se reportam aos fenômenos mais vulgares, diante dos quais os 
casos artificiais constituem apenas uma preocupação mais ou menos indispensável. Pos- 
suem, lado a lado, o mesmo ponto de partida experimental, o mesmo fim de ligar e preve- 
nir, a mesma preocupação continua da realidade, a mesma intenção final de utilidade. A 
diferença essencial entre eles reside na generalidade sistemática de um, mantendo sua 
abstração necessária, oposta à incoerência especializada do outro, sempre ocupado com 
o concreto. 

Vista sob o aspecto dogmático, essa conexão fundamental representa a ciência 
propriamente dita como simples prolongamento metódico da sabedoria universal. Desse 
modo, muito longe de pôr em questão o que esta verdadeiramente decidiu, as sãs especu- 
lações filosóficas devem sempre tomar emprestado da razão comum suas noções iniciais, 
para lhes fazer adquirir, graças à elaboração sistemática, um grau de generalidade e de 
consistência que não poderiam obter espontaneamente. Durante todo o curso de tal 


70 COMTE 


elaboração, o controle permanente dessa vulgar sabedoria conserva de resto alta impor- 
tância, a fim de prevenir tanto quanto possível as diversas aberrações, por negligência ou 
ilusão, que suscita frequentemente o estado contínuo de abstração indispensável à ativi- 
dade filosófica. A despeito de sua afinidade necessária, o bom senso propriamente dito 
deve sempre permanecer antes de tudo preocupado com a realidade e com a utilidade, 
enquanto o espírito especialmente filosófico tende a apreciar muito mais a generalidade 
e a ligação, de sorte que sua dupla reação cotidiana vem:a ser igualmente favorável a 
ambos, consolidando-lhes as qualidades fundamentais que naturalmente seriam altera- 
das. Essa relação indica logo quanto são necessariamente ocas e estéreis as investigações 
especulativas dirigidas, a respeito de um assunto qualquer, aos primeiros princípios que, 
devendo sempre surgir da sabedoria vulgar, nunca pertencem ao domínio verdadeiro da 
ciência, de que constituem, ao contrário, os fundamentos espontâneos e, por conseguinte, 
indiscutíveis. Isto descarta radicalmente uma multidão de controvérsias, ociosas ou peri- 
gosas, que nos legou o antigo regime mental. Podemos igualmente perceber assim a pro- 
funda inanição final de todos os estudos prévios relativos à lógica abstrata, quando se 
trata de apreciar o verdadeiro método filosófico isoladamente de qualquer aplicação a 
uma ordem qualquer de fenômenos. Os únicos princípios verdadeiramente gerais que 
podem ser estabelecidos a esse respeito se reduzem necessariamente, como é fácil de veri- 
ficar nos mais célebres desses aforismos, a algumas máximas incontestáveis mas eviden- 
tes, emprestadas da razão comum, e que nada acrescentam verdadeiramente de essencial 
às indicações, resultantes, para todos os bons espíritos, de um simples exercício espontã- 
neo. Quanto à maneira de adaptar essas regras universais às diversas ordens de nossas 
especulações positivas, o que constituiria a verdadeira dificuldade e a utilidade real de 
tais preceitos lógicos, só poderia comportar apreciação válida, depois duma análise espe- 
cial dos estudos correspondentes, conforme à natureza própria dos fenômenos considera- 
dos. A sã filosofia nunca separa, pois, a lógica da ciência, o método e a doutrina só 
podendo em cada caso ser bem julgados segundo suas verdadeiras relações mútuas. Não 
é pois possível, em última instância, dar nem à lógica nem à ciência caráter universal por 
meio de concepções puramente abstratas, independentes de todos os fenômenos determi- 
nados. Tentativas desse gênero indicam ainda a secreta influência do espírito absoluto 
inerente ao regime teológico-metafísico. 

Considerada agora sob o aspecto histórico, esta íntima solidariedade natural entre 
o gênio próprio da verdadeira filosofia e o simples bom senso universal mostra a origem 
espontânea do espírito positivo, resultante, em toda parte, duma reação especial da razão 
prática sobre a razão teórica, cujo caráter inicial se modificou assim sempre progressiva- 
mente. Mas essa transformação gradual, como já sabemos, não podia operar-se, ao 
mesmo tempo, nem sobretudo com igual velocidade, nas diversas classes de especulações 
abstratas, todas primitivamente teológicas, como nós o reconhecemos. Esse constante 
impulso concreto nelas só poderia fazer penetrar o espírito positivo segundo uma ordem 
determinada, conforme à complicação crescente dos fenômenos, a ser diretamente expli- 
cada logo abaixo. A positividade abstrata, nascida necessariamente nos mais simples 
estudos matemáticos e propagando-se em seguida por via de afinidade espontânea ou 
imitação instintiva, só poderia, pois, oferecer de início caráter especial e, sob vários 
aspectos, empírico. Isto deveria por muito tempo dissimular, para a maioria de seus 
promotores, quer sua incompatibilidade inevitável com a filosofia inicial, quer sobretudo 
sua tendência radical para fundar novo regime lógico. Seus progressos contínuos, sob o 
impulso crescente da razão vulgar, apenas podiam então, determinar diretamente o triun- 
fo prévio do espírito metafísico, destinado, por sua generalidade espontânea, a servir-lhe 
de órgão filosófico durante os séculos escoados entre a preparação mental do mono- 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO N 


teísmo e sua plena instalação social. Depois disso, o regime ontológico, tendo obtido 
toda a ascendência que comportava sua natureza, tornou-se logo opressivo para o flores- 
cimento científico, que tinha até então secundado. Também o espírito positivo só pôde 
manifestar suficientemente sua própria tendência filosófica quando se encontrou afinal 
levado, por essa opressão, a lutar especialmente contra o espírito metafísico, com o qual 
por muito tempo parecia confundir-se. Eis por que a primeira fundação sistemática da 
filosofia positiva não poderia ir além da memorável crise em que o conjunto do regime 
ontológico começou a sucumbir, em todo o Ocidente europeu, sob o concurso espon- 
tâneo de dois admiráveis impulsos mentais: um, científico, emanado de Kepler e Galileu; 
outro, filosófico, proveniente de Bacon e Descartes. A imperfeita unidade metafísica 
constituída no fim da Idade Média foi então irremediavelmente dissolvida, do mesmo 
modo que a ontologia grega já tinha destruído para sempre a grande unidade teológica 
correspondente ao politeismo. Desde essa crise verdadeiramente decisiva, o espírito posi- 
tivo, crescendo muito mais em dois séculos do que o póde fazer durante sua longa car- 
reira anterior, não deixou outra unidade mental possível a não ser a que resultasse de sua 
própria ascendência universal. Cada novo domínio sucessivamente conquistado por ele 
nunca mais pôde voltar à teologia nem à metafísica, em virtude da consagração defini- 
tiva que essas conquistas crescentes encontravam cada vez mais na razão vulgar. É 
somente por essa sistematização que a sabedoria teórica emprestou verdadeiramente à 
sabedoria prática um equivalente digno, em generalidade e em consistência, ao ofício 
fundamental que dela recebeu, em realidade e eficácia, durante sua lenta iniciação gra- 
dual. Porquanto, as noções positivas obtidas nos dois últimos séculos são, vale dizer na 
verdade, muito mais preciosas como materiais ulteriores duma nova filosofia geral do 
que por seu valor direto e especial, a maioria dentre eles não tendo podido ainda adquirir 
seu caráter definitivo, nem científico nem mesmo lógico. 

O conjunto de nossa evolução mental, e sobretudo o grande movimento realizado 
na Europa ocidental desde Descartes e Bacon, não deixa, pois, a partir de agora, outra 
saída possível a não ser constituir enfim, depois de tantos preâmbulos necessários, o esta- 
do verdadeiramente normal da razão humana. Traz assim para o espírito positivo a ple- 
nitude e a racionalidade que lhe faltam ainda, de maneira a estabelecer, entre o gênio filo- 
sófico e o bom senso universal, uma harmonia que de forma suficiente nunca pôde 
existir. Ora, estudando estas duas condições simultâneas, de complementaridade e de 
sistematização, que a ciência real hoje deve cumprir para elevar-se à dignidade duma 
verdadeira filosofia, não tardaremos em reconhecer que coincidem finalmente. De um 
lado, a grande crise inicial da positividade moderna só deixou essencialmente fora do 
movimento científico propriamente dito teorias morais e sociais, largadas então a um 
isolamento irracional, sob a estéril dominação do espírito teológico-metafísico. Consiste, 
pois, em levá-las também, em nossos dias, ao estado positivo, a última prova do verda- 
deiro espírito filosófico, cuja extensão sucessiva a todos os outros fenômenos fundamen- 
tais já se encontrava suficientemente esboçada. Mas, de outro lado, essa última expansão 
da filosofia natural tendia espontaneamente a sistematizá-la logo, constituindo o único 
ponto de vista, científico ou lógico, que pode dominar o conjunto de nossas especulações 
reais, sempre necessariamente redutíveis ao aspecto humano, isto é, social, o único susce- 
tível duma ativa universalidade. Tal é a dupla finalidade filosófica da elaboração funda- 
mental, ao mesmo tempo especial e geral, que tentei empreender na grande obra indicada 
no início deste Discurso. Os mais eminentes pensadores contemporâneos a julgam assim 
suficientemente realizada para ter já posto as verdadeiras bases diretas da total renova- 
ção mental projetada por Bacon e Descartes, mas cuja execução decisiva estava reser- 
vada ao nosso século. 


SEGUNDA PARTE 


O espírito positivo é mais apto que o espírito teológico-metafísico 
para organizar a sociedade e sistematizar a moral 


Sumário: IX — As escolas políticas atuais são impotentes para conciliar a ordem e o progresso: as revolu- 
ções de 1789 e de 1830, a política negativa e a política retrógrada, enfim, a política estacionária, igualmente 
fracassaram. X — O positivismo faz da ordem a condição do progresso e do progresso a meta da ordem. 
Assegura a ordem e garante o progresso. XI — Valor moral do positivismo: a moral está atualmente 
comprometida, porque permanece solidária com um sistema de crenças votado à ruína total. XII — No 
entanto, a moral pública melhorou, graças ao desenvolvimento do espirito positivo e ao bom senso universal; 
a organização do jesuitismo mostra que os teólogos perderam a esperança de reconquistar sua ascendência 
sobre os espíritos. XIII — Necessidade de novo poder espiritual. XIV — Caráter egoista da moral teológi- 
co-metafísica. XV — Altruísmo da moral positivista. 

Para que essa sistematização final das concepções humanas seja hoje assaz caracterizada, não basta 
apreciar, como acabamos de fazer, seu destino teórico; também é preciso considerar aqui, de maneira dis- 
tinta, embora sumária, sua aptidão necessária para constituir a única saída intelectual que possa realmente 
abranger a imensa crise social desenvolvida, desde meio século, no conjunto do Ocidente europeu e sobre- 
tudo em França. 


IX — Enquanto se processava gradualmente, durante os cinco últimos séculos, a ' 
dissolução irrevogável da filosofia teológica, o sistema político de que formava a base 
mental sofria cada vez mais uma decomposição não menos radical, igualmente presidida 
pelo espirito metafísico. Esse duplo movimento negativo tinha por órgãos essenciais e 
solidários, de uma parte, as universidades, primeiramente emanadas do poder sacerdotal 
mas logo rivais dele; de outra parte, as diversas corporações de legistas, gradualmente 
hostis aos poderes feudais. Só na medida em que a ação crítica se disseminava, seus 
agentes, sem mudar de natureza, tornavam-se mais numerosos e mais subalternos; de 
sorte que, no século XVIII, a principal atividade revolucionária teve de passar, na ordem 
filosófica, dos doutores propriamente ditos aos simples literatos e, em seguida, na ordem 
política, dos juízes aos advogados. A Grande Crise final necessariamente começou quan- 
do essa decadência comum, primeiro espontânea e depois sistemática, a que aliás todas 
e quaisquer classes da sociedade moderna tinham concorrido diversamente, chegou, 
enfim, ao ponto de tornar universalmente irrecusável a impossibilidade de conservar o 
antigo regime e a necessidade crescente duma ordem nova. Desde sua origem essa crise 
sempre tendeu a transformar, num vasto movimento orgânico, o movimento crítico dos 
cinco últimos séculos, apresentando-se como destinada sobretudo a operar diretamente a 
regeneração social, da qual todos os preâmbulos negativos se encontravam então 
suficientemente realizados. Mas essa transformação decisiva, embora cada vez mais 
urgente, teve de permanecer atê agora essencialmente impossível, na falta duma filosofia 
verdadeiramente adequada para fornecer-lhe base intelectual indispensável. Ao mesmo 
tempo que a realização suficiente da prévia decomposição exigia a dessuetude das doutri- 
nas puramente negativas, que a haviam dirigido, uma fatal ilusão, nesse momento inevi- 
tável, conduziu, ao contrario, a conferir espontaneamente ao espírito metafísico, único 
ativo durante esse longo preâmbulo, a presidência geral do movimento de reorganização. 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 73 


Quando uma experiência plenamente decisiva constatou para sempre, aos olhos de todos, 
a total impotência orgânica dessa filosofia, a ausência de qualquer outra teoria não per- 
mitiu satisfazer, de início, às necessidades da ordem que já prevaleciam a não ser por 
uma espécie de restauração passageira desse mesmo sistema, mental e social, cuja irrepa- 
rável decadência tinha levado à crise. Enfim, o desenvolvimento dessa reação retrógrada 
determinou, em seguida, uma manifestação memorável, que nossas lacunas filosóficas ti- 
nham tornado tão indispensável quanto inevitável, a fim de demonstrar de modo irrevo- 
gável que o progresso constitui, como a ordem, uma das duas condições fundamentais da 
civilização moderna. 

O concurso natural dessas duas provas irrecusáveis, cuja renovação se tornou agora 
tanto impossível como inútil, nos conduziu hoje a essa estranha situação, em que nada 
verdadeiramente grande pode ser empreendido, nem para a ordem, nem para o progresso, 
por falta duma filosofia realmente adaptada ao conjunto de nossas necessidades. Todo 
sério esforço de reorganização logo cessa diante dos temores de retrogradação, que ele 
próprio naturalmente deve inspirar, num tempo em que as idéias de ordem emanam 
ainda essencialmente do tipo antigo, hoje antipático às populações atuais. Do mesmo 
modo, as tentativas de aceleração direta da progressão política não tardam em ser radi- 
calmente entravadas pelas inquietudes muito legítimas, suscitadas pela iminência da 
anarquia, enquanto as idéias de progresso permanecerem sobretudo negativas. Como 
antes da crise, a luta aparente continua ainda desenvolvendo-se entre o espírito teológico, 
reconhecidamente incompatível com o progresso que é levado a negar dogmaticamente, 
e o espírito metafísico, que, depois de resultar, na filosofia, na dúvida universal. só pode 
tender, em política, a continuar a desordem ou um estado equivalente de desgoverno. No 
entanto, depois do sentimento unânime de sua comum insuficiência, nem um nem outro 
podem agora inspirar, nos governantes ou nos governados, profundas convicções ativas. 
Seu antagonismo continua, entretanto, alimentando-os mutuamente, sem que um deles 
possa comportar quer uma dessuetude verdadeira, quer um triunfo decisivo. Isto porque 
nossa situação intelectual os torna ainda indispensáveis para representar, duma maneira 
qualquer, as condições simultâneas da ordem e do progresso, até que uma única filosofia 
possa satisfazê-las igualmente, de maneira a tornar enfim igualmente inúteis a escola 
retrógrada e a escola negativa, na situação moderna em que uma se destina sobretudo a 
impedir a total predominância da outra. No entanto, as inquietações opostas, relativas a 
ambas dominações contrárias, deverão naturalmente persistir ao mesmo tempo enquanto 
durar esse interregno mental, em consegiiência inevitável dessa cisão irracional entre as 
duas faces inseparáveis do grande problema social. Com efeito, cada uma das escolas, 
em virtude de sua preocupação exclusiva, não é mesmo capaz de conter de agora em 
diante, de modo suficiente, as aberrações inversas de seu adversário. A despeito de sua 
tendência antianárquica, a escola teológica mostrou-se, em nossos dias, radicalmente 
impotente para impedir a avalancha de opiniões subversivas que, depois de se terem 
desenvolvido sobretudo durante sua principal restauração, frequentemente são propaga- 
das por ela na base de frívolos cálculos dinásticos. Do mesmo modo, seja qual for o ins- 
tinto anti-retrógrado da escola metafísica, não possui mais hoje toda força lógica que exi- 
giria seu simples ofício revolucionário, posto que sua inconseglência característica a 
obriga a admitir os princípios essenciais do próprio sistema, de que ataca, sem cessar, as 
verdadeiras condições de existência. 

Essa deplorável oscilação entre duas filosofias opostas, que se tornaram igualmente 
vãs e que só se extinguirão ao mesmo tempo, deveria suscitar o desenvolvimento duma 
espécie de escola intermediária, essencialmente estacionária, destinada sobretudo a lem- 


74 COMTE 


brar diretamente o conjunto da questão social, proclamando, enfim, como igualmente 
necessárias, as duas condições fundamentais que isolavam as duas opiniões ativas. Mas, 
por falta duma filosofia capaz de realizar essa grande combinação do espírito da ordem 
com o espírito do progresso, esse terceiro impulso permanece ainda logicamente mais 
impotente do que os dois outros, já que sistematiza a inconsegiência, consagrando 
simultaneamente os princípios retrógrados e as máximas negativas, a fim de poder 
neutralizá-los mutuamente. Longe de tender a terminar a crise, tal disposição só poderia 
eternizá-la, opondo-se diretamente a toda verdadeira preponderância de um sistema qual- 
quer, se não a limitássemos a uma simples destinação passageira para satisfazer empiri- 
camente às mais graves exigências de nossa situação revolucionária, até o advento deci- 
sivo das únicas doutrinas que possam de agora em diante convir ao conjunto de nossas 
necessidades. Mas, assim concebido, esse expediente provisório se tornou hoje tão indis- 
pensável como inevitável. Sua rápida ascendência prática, reconhecida implicitamente 
por ambos os partidos ativos, constata cada vez mais, nas populações atuais, o amorteci- 
mento simultâneo das convicções e paixões anteriores, retrógradas ou críticas , gradual- 
mente substituídas por um sentimento universal, real apesar de confuso, da necessidade 
e mesmo da possibilidade duma conciliação permanente entre o espírito de conservação 
e o espírito de melhoramento, igualmente apropriados ao estado normal da Humanidade. 
A tendência correspondente dos homens de Estado a impedir hoje, tanto quanto possível, 
todo grande movimento político encontra-se aliás espontaneamente conforme as exigên- 
cias fundamentais de uma situação que só comportará realmente instituições provisórias, 
enquanto uma verdadeira filosofia geral não vincular suficientemente as inteligências. 
Desconhecida pelos poderes atuais, essa resistência instintiva colabora para facilitar a 
verdadeira solução, ajudando a transformar uma estéril agitação política numa ativa 
progressão filosófica, de maneira a seguir, enfim, a marcha prescrita pela natureza, ade- 
quada à reorganização final, que deve primeiro ocorrer nas idéias para passar em segui- 
da aos costumes e, finalmente, às instituições. Tal transformação, que já tende a predo- 
minar em França, deverá naturalmente desenvolver-se cada vez mais em toda parte, 
tendo em vista a necessidade crescente, em que se encontram colocados hoje nossos 
governos ocidentais, de manter a grandes custos a ordem material no meio da desordem 
intelectual e moral, necessidade que pouco a pouco deve absorver essencialmente seus 
esforços cotidianos, conduzindo-os a renunciar implicitamente a toda presidência séria 
da reorganização espiritual, cedida assim à livre atividade dos filósofos que se mostra- 
rem dignos de dirigi-la. Essa disposição natural dos poderes atuais está em harmonia 
com a tendência espontânea das populações para uma aparente indiferença política, 
motivada pela impotência radical das diversas doutrinas em circulação e que há sempre 
de persistir enquanto os debates políticos continuarem, por falta de impulso conveniente, 
a degenerar em vãs lutas pessoais, cada vez mais miseráveis. Esta é a feliz eficácia prá- 
tica que o conjunto de nossa situação revolucionária traz momentaneamente a uma esco- 
la essencialmente empírica que, sob o aspecto teórico, nunca pode produzir mais do que 
um sistema radicalmente contraditório, não menos absurdo e perigoso, em política, do 
que, na filosofia, o ecletismo correspondente, também inspirado pela vã intenção de con- 
ciliar, sem princípios próprios, opiniões incompatíveis. 

X — Conforme o sentimento, cada vez mais desenvolvido, de igual insuficiência so- 
cial que hoje oferecem o espírito teológico e o espírito metafísico, os únicos até agora a 
disputar ativamente um lugar ao sol, a razão pública deve encontrar-se implicitamente 
disposta a acolher atualmente o espírito positivo como a única base possível para uma 
verdadeira resolução da profunda anarquia intelectual e moral, que caracteriza sobrema- 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 15 


neira a grande crise moderna. Mantendo-se ainda estranha a tais questões, a escola posi- 
tiva gradualmente preparou-se para elas, constituindo, quanto possível, durante a luta 
revolucionária dos três últimos séculos, o verdadeiro estado normal de todas as classes 
nais simples de nossas especulações reais. Ancorada por tais antecedentes científicos e 
lógicos, livre, aliás, das diversas aberrações contemporâneas, apresenta-se hoje adqui- 
rindo por fim a total generalidade filosófica que lhe faltava até aqui. Ousa então 
empreender, por sua vez, a solução ainda intata do grande problema, transportando 
convenientemente aos estudos finais a mesma regeneração que sucessivamente já operou 
no domínio dos diferentes estudos preliminares. 

Não se pode primeiramente desconhecer a aptidão espontânea dessa filosofia a 
constituir diretamente a conciliação fundamental, ainda procurada de tão vas maneiras, 
entre as exigências simultâneas da ordem e do progresso. Basta-lhe, para isso, estender 
até os fenômenos sociais uma tendência plenamente conforme à sua natureza e que tor- 
nou agora muito familiar em todos os outros casos essenciais. Num assunto qualquer, o 
espirito positivo leva sempre a estabelecer exata harmonia elementar entre as idéias de 
existência e as idéias de movimento, donde resulta mais especialmente, no que respeita 
aos corpos vivos, a correlação permanente das idéias de organização com as idéias de 
vida e, em seguida, graças a uma última especialização peculiar ao organismo social, a 
solidariedade contínua das idéias de ordem com as idéias de progresso. Para a nova filo- 
sofia, a ordem constitui sem cessar a condição fundamental do progresso e, reciproca- 
mente, o progresso vem a ser a meta necessária da ordem; como no mecanismo animal, 
o equilíbrio e a progressão são mutuamente indispensáveis, a título de fundamento ou 
destinação. Especialmente considerado, em seguida, no que respeita à ordem, o espírito 
positivo apresenta-lhe hoje, em sua extensão social, poderosas garantias diretas, não 
somente científicas mas também lógicas, que poderão logo ser julgadas muito superiores 
às vãs pretensões duma teologia retrógrada, que cada vez mais se degenera, desde vários 
séculos, num ativo elemento de discórdias, individuais ou nacionais, incapaz, a partir de 
agora, de conter as divagações subversivas de seus próprios adeptos. Atacando a desor- 
dem atual em sua verdadeira fonte, necessariamente mental, constitui, tão profunda- 
mente quanto possível, a harmonia lógica, regenerando, de início, os métodos antes das 
doutrinas, por uma tripla conversão simultânea da natureza das questões dominantes, da 
maneira de tratá-las e das condições prévias de sua elaboração. Demonstra, com efeito, 
de uma parte, que as principais dificuldades sociais não são hoje essencialmente políti- 
cas, mas sobretudo morais, de sorte que sua solução possível depende realmente das opi- 
niões e dos costumes, muito mais do que das instituições, o que tende a extinguir uma ati- 
vidade perturbadora, transformando a agitação política em movimento filosófico. Sob 
outro aspecto, considera sempre o estado presente como resultado necessário do con- 
Junto da evolução anterior, de modo a fazer constantemente prevalecer a apreciação 
racional do passado no exame atual dos negócios humanos — o que logo afasta as 
tendências puramente críticas, incompatíveis com toda sadia concepção histórica. Final- 
mente, em lugar de deixar a ciência social no vago e estéril isolamento em que a situam 
a teologia e a metafísica, vincula-a irrevogavelmente a todas as outras ciências funda- 
mentais, que constituem gradualmente, para esse estudo final, vários preâmbulos indis- 
pensáveis, onde nossa inteligência adquire, ao mesmo tempo, os hábitos e as noções sem 
os quais não se pode abordar, de modo útil, as mais eminentes especulações positivas. 
Isto já institui uma verdadeira disciplina mental, apropriada a melhorar radicalmente 
essas discussões, de agora em diante racionalmente proibidas a uma multidão de entendi- 
mentos mal organizados ou mal preparados. Essas grandes garantias lógicas são, aliás, 


16 COMTE 


logo em seguida plenamente confirmadas e desenvolvidas pela apreciação científica 
propriamente dita, que, diante dos fenômenos sociais e de todos os outros, sempre repre- 
senta nossa ordem artificial como devendo consistir sobremaneira num simples prolon- 
gamento judicioso, primeiramente espontâneo, depois sistemático, da ordem natural 
resultante, em cada caso, do conjunto das leis reais, cuja ação efetiva é ordinariamente 
modificável por nossa sábia intervenção, entre limites determinados, tanto mais afasta- 
dos quanto os fenômenos sejam mais elevados. O sentimento elementar da ordem é, 
numa palavra, naturalmente inseparável de todas as especulações positivas, constante- 
mente dirigidas para a descoberta dos meios de ligação entre as observações, cujo princi- 
pal valor resulta de sua sistematização. 

Isto é ainda mais evidente no que concerne ao progresso que, a despeito de vãs 
pretensões ontológicas, encontra hoje, no conjunto dos estudos científicos, sua mais 
incontestável manifestação. Segundo sua natureza absoluta e, por conseguinte, essencial- 
mente imóvel, a metafísica e a teologia não poderiam comportar, uma não mais do que 
a outra, verdadeiro progresso, a saber, uma progressão contínua na direção de um alvo 
determinado. Suas transformações históricas incorrem sobretudo, ao contrário, numa 
constante dessuetude, mental ou social, sem que as questões agitadas tenham podido 
algum dia dar um passo real, em virtude propriamente de sua insolubilidade radical. É 
fácil reconhecer que as discussões ontológicas das escolas gregas se reproduziram essen- 
cialmente, sob outras formas, com os escolásticos da Idade Média, e encontramos hoje 
seus equivalentes em nossos psicólogos e ideólogos. Nenhuma das doutrinas controver- 
sas, durante esses vinte séculos de debates estéreis, pôde resultar em demonstrações deci- 
sivas, não apenas no que respeita à existência dos corpos exteriores, ainda tão problemá- 
tica para os argumentadores modernos quanto para seus mais antigos predecessores. 
Evidentemente a marcha contínua dos conhecimentos positivos inspirou, há dois séculos, 
na célebre fórmula filosófica de Pascal, a primeira noção racional de progresso humano, 
necessariamente estranha a toda a filosofia antiga. Estendida em seguida à evolução 
industrial e mesmo estética, mas permanecendo ainda muito confusa no domínio do 
movimento social, tende hoje vagamente para uma sistematização decisiva, que só pode 
emanar do espírito positivo, que por fim se generalizou convenientemente. Em suas espe- 
culações cotidianas reproduz espontaneamente o ativo sentimento elementar, sempre 
retomando a extensão e o aperfeiçoamento de nossos conhecimentos reais como a meta 
essencial de nossos diversos esforços teóricos. Sob o aspecto mais sistemático, a nova 
filosofia indica diretamente, como destino necessário de toda nossa existência, ao mesmo 
tempo pessoal e social, o melhoramento contínuo de nossa condição e, sobretudo. de 
nossa natureza, enquanto comportar, em todas as esferas, o conjunto das leis reais exte- 
riores ou interiores. Elevando assim a noção de progresso a dogma verdadeiramente 
fundamental da sabedoria humana, seja prática, seja teórica, imprime-lhe o caráter mais 
nobre e, ao mesmo tempo, o mais completo, sempre representando o segundo gênero de 
aperfeiçoamento como superior ao primeiro. De uma parte, a ação da Humanidade sobre 
o mundo exterior, ao depender sobremaneira das disposições do agente, é sua melhoria 
que deve constituir nosso principal recurso. De outra parte, sendo os fenômenos huma- 
nos individuais ou coletivos dentre todos os mais modificáveis, é em relação a eles que 
nossa intervenção racional comporta naturalmente maior eficácia. O dogma do pro- 
gresso só pode vir a ser suficientemente filosófico depois duma exata apreciação geral do 
que constitui sobremaneira esse melhoramento contínuo de nossa própria natureza, prin- 
cipal objeto da progressão humana. Ora, a esse respeito, o conjunto da filosofia positiva 
demonstra plenamente, como se pode ver na obra indicada no início deste Discurso, que 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO Ga 


esse aperfeiçoamento consiste essencialmente, tanto para o indivíduo como para a espé- 
cie, em fazer predominar de modo progressivo os eminentes atributos que distinguem a 
mais nobre humanidade da simples animalidade, a saber, de uma parte, a inteligência, de 
outra, a sociabilidade, faculdades naturalmente solidárias que mutuamente se servem de 
meio e de fim. Apesar de o curso espontâneo da evolução humana, pessoal ou social, 
desenvolver sempre sua comum influência, sua ascendência combinada não poderia, 
entretanto, chegar ao ponto de impedir que nossa principal atividade derivasse habitual- 
mente de tendências inferiores, que nossa constituição real torna muito mais enérgicas. 
Assim, essa ideal preponderância de nossa humanidade sobre nossa animalidade cumpre 
naturalmente as condições essenciais dum verdadeiro tipo filosófico caracterizando um 
limite determinado, de que nossos esforços devem sempre nos aproximar constante- 
mente, sem poder entretanto jamais atingir. 

Essa dupla indicação da aptidão fundamental do espírito positivo a sistematizar 
espontaneamente as sadias noções simultâneas de ordem e de progresso basta aqui para 
assinalar sumariamente a alta eficácia social própria à nova filosofia geral. Seu valor, a 
esse respeito, depende, antes de tudo, de sua plena realidade científica, a saber, da exata 
harmonia que estabelece hoje, tanto quanto possível, entre os princípios e os fatos, no 
que concerne aos fenômenos sociais e a todos os outros. A reorganização total, a única 
capaz de terminar a grande crise moderna, consiste, com efeito, sob o aspecto mental que 
de início deve prevalecer, em constituir uma teoria sociológica apropriada a explicar 
convenientemente o conjunto do passado humano. Tal é o modo mais racional de pôr a 
questão essencial, a fim de melhor afastar dela toda paixão perturbadora. É assim que a 
superioridade necessária da escola positiva sobre as diversas escolas atuais pode então 
ser apreciada mais nitidamente. Pois o espírito teológico e o espírito metafísico são 
ambos conduzidos, em virtude de sua natureza absoluta, a considerar apenas a porção 
do passado em que cada um deles dominou de modo preponderante. O que precede e o 
que segue lhes parecem apenas uma tenebrosa confusão e uma desordem inexplicável, 
cuja ligação com essa estreita parte do grande espetáculo histórico não pode, a seus 
olhos, resultar senão duma intervenção miraculosa. Por exemplo, o catolicismo sempre 
mostrou, a respeito do politeísmo antigo, uma tendência tão cegamente crítica como a 
que hoje lhe censura justamente o espírito revolucionário propriamente dito. Uma verda- 
deira explicação do conjunto do passado, conformemente às leis constantes de nossa 
natureza individual ou coletiva, é pois necessariamente impossível para as diversas esco- 
las absolutas que ainda dominam, nenhuma delas tendo suficientemente tentado estabele- 
cê-la. O espírito positivo, em virtude de sua natureza eminentemente relativa, é o único 
a poder representar convenientemente todas as grandes épocas históricas, como tantas 
fases determinadas duma mesma evolução fundamental, onde cada uma resulta da prece- 
dente e prepara a seguinte, segundo leis invariáveis que fixam sua participação especial 
na progressão comum, de maneira a sempre permitir, sem maior inconseglência do que 
parcialidade, fazer exata justiça filosófica a qualquer sorte de cooperação. Apesar de 
esse incontestável privilégio da positividade racional dever, no início, parecer puramente 
especulativo, os verdadeiros pensadores nisso logo reconhecerão a primeira fonte neces- 
sária da ativa ascendência social reservada finalmente à nova filosofia. Porquanto se 
pode assegurar hoje que a doutrina que vier a explicar suficientemente o conjunto do pas- 
sado obterá inevitavelmente, por causa dessa única prova, a presidência mental do 
futuro. 

Tal indicação das altas propriedades sociais que caracterizam o espírito positivo 
não seria ainda bastante decisiva se não lhe fosse acrescentada uma sumária apreciação 


78 COMTE 


de sua aptidão espontânea para, enfim, sistematizar a moral humana, o que sempre cons- 
tituirá a principal aplicação de toda verdadeira teoria da Humanidade. 

XI — No organismo politéico da Antiguidade, a moral, radicalmente subordinada 
à política, nunca podia adquirir nem a dignidade nem a universalidade convenientes à 
sua natureza. Sua independência fundamental e até mesmo sua ascendência normal 
resultaram enfim, quanto o era possível então, do regime monotéico próprio à Idade 
Média. Esse imenso serviço social, devido sobretudo ao catolicismo, sempre formará seu 
principal título ao eterno reconhecimento do gênero humano. Somente desde essa indis- 
pensável separação, sancionada e completada pela divisão necessária das duas potências, 
a moral humana póde realmente começar a tomar caráter sistemático, estabelecendo, ao 
abrigo de impulsos passageiros, regras verdadeiramente gerais para o conjunto de nossa 
existência, pessoal, doméstica e social. Mas as profundas imperfeições da filosofia mono- 
téica, que então presidia essa grande operação, alteraram muito sua eficácia, chegando a 
comprometer gravemente sua estabilidade, logo suscitando fatal conflito entre o floresci- 
mento intelectual e o desenvolvimento moral. Ligada assim a uma doutrina que não 
podia por muito tempo permanecer progressiva, a moral havia em seguida de encontrar- 
se cada vez mais afetada pelo descrédito crescente que necessariamente iria sofrer uma 
teologia que, a partir de então retrógrada, se tornaria enfim radicalmente antipática à 
razão moderna. Exposta desde esse momento à ação dissolvente da metafísica, a moral 
teórica sofreu, com efeito, durante os últimos cinco séculos, em cada uma de suas três 
partes essenciais, assaltos cada vez mais perigosos, que nem sempre puderam reparar, 
para a prática, a retidão e a moralidade naturais do homem, em que pese o feliz desenvol- 
vimento contínuo que lhes deveria trazer o curso espontâneo de nossa civilização. Se a 
ascendência necessária do espírito positivo não vinha, enfim, pôr termo a essas anár- 
quicas divagações, por certo imprimia mortal flutuação a todas as noções um pouco deli- 
cadas da moral usual, não apenas social mas também doméstica e até mesmo pessoal, 
deixando por toda parte subsistir apenas as regras relativas aos casos mais grosseiros, 
que a apreciação vulgar poderia diretamente garantir. 

Em tal situação deve parecer estranho que somente a filosofia que hoje pode conso- 
lidar a moral se encontre, ao contrário, tachada a esse respeito de incompetência radical 
pelas diversas escolas atuais, desde os verdadeiros católicos até os simples deístas, que, 
no meio de seus debates ociosos, se pôem de acordo antes de tudo para proibir-lhe essen- 
cialmente o acesso a essas questões fundamentais, na base deste motivo único de que seu 
gênio muito parcial até agora se tinha limitado a assuntos mais simples. O espírito meta- 
físico, que tão frequentemente tendeu a dissolver ativamente a moral, e o espírito teoló- 
gico, que desde muito tempo perdeu a força de preservá-la, persistem, entretanto, em 
fazer dela um apanágio eterno e exclusivo, sem que a razão pública tenha ainda conve- 
nientemente julgado essas pretensões empíricas. Deve-se reconhecer, é- verdade, que em 
geral a introdução de qualquer regra moral teve por toda parte de operar-se primeira- 
mente sob inspirações teológicas, então profundamente incorporadas a todo sistema de 
nossas idéias, sendo as únicas suscetíveis de constituir opiniões suficientemente comuns. 
Mas o conjunto do passado demonstra igualmente que essa solidariedade primitiva sem-. 
pre decresceu com a própria ascendência da teologia. Os preceitos morais, como todos 
os outros, foram, cada vez mais, levados a uma consagração puramente racional, na me-. 
dida em que o vulgo se tornou capaz de apreciar a influência real de cada conduta sobre 
a existência humana, individual ou social. Separando irrevogavelmente a moral da políti- 
ca, o catolicismo necessitou desenvolver muito essa tendência contínua, posto que a 
intervenção sobrenatural se reduziu, então, diretamente à formação de regras gerais, cuja 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 79 


aplicação particular estava essencialmente confiada à sabedoria humana. Dirigindo-se a 
populações mais avançadas, entregou à razão pública uma multidão de prescrições espe- 
ciais que os antigos sábios acreditaram nunca poder dispensar das injunções religiosas, 
como pensam ainda os doutores politéicos da Índia, por exemplo, quanto à maioria das 
práticas higiênicas. Pode-se ainda observar, mesmo três séculos depois de São Paulo, as 
sinistras predições de vários filósofos ou magistrados pagãos sobre a iminente imorali- 
dade que iria acarretar necessariamente a próxima revolução teológica. As declamações 
atuais das diversas escolas monotéicas não impedirão o espírito positivo de terminar 
hoje, sob condições convenientes, a conquista prática e teórica do domínio moral, já 
espontaneamente entregue cada vez mais à razão humana, da qual não nos resta outra 
coisa a fazer senão sistematizar enfim as inspirações particulares. Por certo a Humani- 
dade não poderia permanecer indefinidamente condenada a só poder fundar suas regras 
de conduta sobre motivos quiméricos, de maneira a eternizar uma desastrosa oposição, 
até agora passageira, entre as necessidades intelectuais e as necessidades morais. 

XII — Bem longe de a assistência teológica ser para sempre indispensável aos pre- 
ceitos morais, a experiência demonstra, ao contrário, que, para os modernos, tornou-se 
cada vez mais nociva, fazendo com que estes inevitavelmente participem, em conse- 
quência dessa funesta aderência, da decomposição crescente do regime monotéico, sobre- 
tudo durante os três últimos séculos. Primeiramente, essa fatal solidariedade devia de 
modo direto enfraquecer, na medida em que a fé se extinguia, a única base em que po- 
diam ainda repousar as regras que, muitas vezes expostas a graves conflitos com impul- 
sos muito enérgicos, precisam ser cuidadosamente preservadas de toda hesitação. A anti- 
patia crescente que o espirito teológico inspirava justamente à razão moderna afetou 
gravemente muitas importantes noções morais, não somente relativas às maiores rela- 
ções sociais, mas também concernentes à simples vida doméstica, e até mesmo à exis- 
tência pessoal. Um cego ardor de emancipação mental levou, de resto, de maneira exage- 
rada, a erigir algumas vezes o desdém passageiro por essas máximas salutares em uma 
espécie de louco protesto contra a filosofia retrógrada, donde pareciam emanar exclusi- 
vamente. Até entre aqueles que conservavam a fé dogmática, essa funesta influência 
fazia-se diretamente sentir, porque a autoridade sacerdotal, depois de ter perdido sua 
independência política, via também decrescer cada vez mais a ascendência social indis- 
pensável à sua eficácia moral. Além dessa impotência crescente em proteger as regras 
morais, O espírito teológico também lhes foi frequentemente nocivo duma maneira ativa, 
por causa das divagações que suscitou, desde que deixou de ser disciplinável, sob o inevi- 
tável florescimento do livre exame individual. Exercendo-se desse modo, realmente inspi- 
rou ou secundou muitas aberrações anti-sociais, que o bom senso, deixado a si mesmo, 
teria espontaneamente evitado ou rejeitado. As utopias subversivas que hoje parecem ter 
crédito, seja contra a propriedade, seja quanto à família, etc., quase nunca saíram de 
inteligências plenamente emancipadas, nem foram acolhidas por elas, a despeito de suas 
lacunas fundamentais; foram-no, aliás, por aquelas que perseguiam ativamente uma 
espécie de restauração teológica, fundada sobre um vago e estéril deismo, ou sobre um 
protestantismo equivalente. Enfim, essa antiga aderência à teologia se tornou também 
necessariamente funesta à moral, sob um terceiro aspecto geral, opondo-se à sua sólida 
reconstrução sobre bases puramente humanas. Se esse obstáculo consistisse apenas em 
cegas declamações, muitas vezes oriundas das diversas escolas atuais teológicas ou 
metafísicas, contra o pretenso perigo de tal operação, os filósofos positivos poderiam 
limitar-se a rejeitar odiosas insinuações, graças ao irrecusável exemplo de sua própria 
vida cotidiana, pessoal, doméstica e social. Mas essa oposição é, infelizmente, muito 


80 COMTE 


mais radical, pois resulta da incompatibilidade necessária entre essas duas maneiras de 
sistematizar a moral. Os motivos teológicos devendo naturalmente oferecer aos olhos do 
crente intensidade muito superior à de todos os outros, nunca poderiam eles vir a ser sim- 
ples auxiliares dos motivos puramente humanos. Não podem conservar qualquer eficácia 
real logo que deixem de dominar. Não existe, pois, nenhuma alternativa duradoura entre 
fundar, enfim, a moral sobre o conhecimento positivo da Humanidade e deixá-la repou- 
sar sobre injunções sobrenaturais. As convicções racionais puderam secundar as crenças 
teológicas, ou melhor, substituí-las gradualmente, na medida em que a fé se extinguia. 
Mas a combinação inversa constitui apenas uma utopia contraditória, onde o principal 
estaria subordinado ao acessório. 

Uma judiciosa exploração do verdadeiro estado da sociedade mederna configura, 
pois, como cada vez mais desmentida pelo conjunto dos fatos cotidianos a pretensa 
impossibilidade de dispensar de agora em diante toda teologia para consolidar a moral. 
Posto que essa ligação perigosa veio a ser, desde o fim da Idade Média, triplamente 
funesta à moral, seja desfibrando ou desacreditando suas bases intelectuais, seja nelas 
suscitando perturbações diretas, seja, ainda, impedindo sua melhor sistematização. Se, a 
despeito dos ativos princípios da desordem, a moralidade prática melhorou realmente, 
este feliz resultado não poderia ser atribuído ao espirito teológico, que se degenerava 
então num perigoso dissolvente. Ele é causado de modo essencial pela crescente ação do 
espírito positivo, já eficaz sob sua forma espontânea, a saber, o bom senso universal, 
cujas sábias inspirações secundaram o impulso natural de nossa civilização progressiva, 
para combater utilmente as diversas aberrações, sobretudo aquelas que emanavam das 
divagações religiosas. Quando, por exemplo, a teologia protestante tendia a alterar gra- 
vemente a instituição do casamento pela consagração formal do divórcio, a razão pú- 
blica neutralizava seus funestos efeitos, impondo quase sempre o respeito prático dos 
costumes anteriores, os únicos conformes ao verdadeiro caráter da sociabilidade moder- 
na. Irrecusáveis experiências provaram, aliás, ao mesmo tempo, em vasta escala, no seio 
das massas populares, que o pretenso privilégio exclusivo das crenças religiosas para 
determinar os grandes sacrifícios ou devotamentos ativos podia igualmente pertencer a 
opiniões diretamente opostas, ligando-se em geral a toda convicção profunda, fosse qual 
fosse sua natureza. Esses numerosos adversários do regime teológico que, há meio sécu- 
lo, garantem com tanto heroismo nossa independência nacional contra a coalizão retró- 
grada, não mostram sem dúvida menor abnegação plena e constante do que os bandos 
supersticiosos que, no seio de França, secundaram a agressão exterior. 

Para acabar de apreciar as pretensões atuais da filosofia teológico-metafísica de 
conservar a sistematização exclusiva da moral usual, basta considerar diretamente a 
doutrina perigosa e contraditória que o inevitável progresso da emancipação mental logo 
forçou a estabelecer a esse propósito, consagrando em toda parte, sob formas mais ou 
menos explícitas, uma espécie de hipocrisia coletiva, análoga âquela que se supõe, de 
modo canhestro, ter sido habitual entre os antigos, embora não tenha comportado a não 
ser um sucesso precário e passageiro. Não podendo impedir o livre florescimento da 
razão moderna entre os espíritos cultivados, propós-se, assim, obter deles, em vista do 
interesse público, o respeito aparente a antigas crenças, a fim de manter, para o vulgo, a 
autoridade julgada indispensável. Essa transação sistemática não é de modo algum parti- 
cular aos jesuítas, embora constitua no fundo a parte essencial de sua tática. O espírito 
protestante também lhe imprimiu, à sua maneira, uma consagração ainda mais íntima, 
mais extensa, e, sobretudo, mais dogmática. Os metafísicos propriamente ditos a adota- 
ram tanto quanto os próprios teólogos. O maior deles, a despeito de sua alta moralidade 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 81 


ser verdadeiramente digna de sua eminente inteligência, foi levado a sancioná-la essen- 
cialmente, estabelecendo, de uma parte, que quaisquer opiniões teológicas não compor- 
tam nenhuma verdadeira demonstração, e, de outra, que a necessidade social força a 
manter indefinidamente seu império. Apesar de tal doutrina tornar-se respeitável entre 
aqueles que não vinculam a ela qualquer ambição pessoal, não deixa de tender a viciar 
todas as fontes da moralidade humana, fazendo com que repouse necessariamente sobre 
um estado contínuo de falsidade, e até mesmo de desprezo, dos superiores em relação aos 
inferiores. Enquanto aqueles que deveriam participar dessa dissimulação sistemática 
permaneceram pouco numerosos, sua prática foi possível, embora precária. Mas se tor- 
nou tão ridícula quanto odiosa, no momento em que a emancipação estendeu-se suficien- 
temente a ponto de essa espécie de piedosa conspiração dever abranger, como seria preci- 
so hoje, a maioria dos espíritos ativos. Enfim, ainda supondo essa quimérica extensão, 
esse pretenso sistema deixa subsistir toda dificuldade a respeito das inteligências libertas, 
cuja própria moralidade se encontra, assim, abandonada à sua pura espontaneidade, já 
justamente reconhecida insuficiente na classe submissa. Se for preciso também admitir a 
necessidade duma verdadeira sistematização moral entre esses espíritos emancipados, só 
poderá desde então repousar sobre bases positivas, que finalmente serão assim julgadas 
indispensáveis. Quanto a limitar sua destinação à classe esclarecida, além de que essa 
restrição não poderia mudar a natureza dessa grande construção filosófica, seria eviden- 
temente ilusória num tempo em que a cultura mental, suposta por essa liberação fácil, já 
se tornou muito comum, ou quase universal, ao menos em França. Assim, o expediente 
empírico, sugerido pelo vão desejo de manter a todo preço o antigo regime intelectual, só 
pode finalmente resultar em deixar a maioria dos espíritos ativos indefinidamente despro- 
vida de toda doutrina moral, como se vê fregientemente hoje. 

XII — É, pois, sobretudo em nome da moral que é preciso, de agora em diante, 
trabalhar ardentemente para constituir enfim a ascendência universal do espírito positi- 
vo, substituindo assim um sistema decaído que, já impotente, já perturbado, exigiria cada 
vez mais a compressão mental como condição permanente da ordem moral. A nova filo- 
sofia é a única a poder estabelecer hoje, a propósito de nossos diversos deveres, convic- 
ções profundas e ativas, verdadeiramente suscetíveis de sustentar com energia o choque 
das paixões. Conforme à teoria positiva da Humanidade, irrecusáveis demonstrações, 
apoiadas sobre a imensa experiência que agora possui nossa espécie, determinarão exata- 
mente a influência real, direta ou indireta, privada ou pública, adequada a cada ato, a 
cada hábito e a cada tendência ou sentimento, de onde resultarão naturalmente, como 
tantos inevitáveis corolários, as regras da conduta, quer gerais, quer especiais, mais con- 
formes à ordem universal e que, por conseguinte, deverão se dar ordinariamente como as 
mais favoráveis à felicidade individual. Apesar da extrema dificuldade desse grande 
assunto, ouso assegurar que, tratado convenientemente, comporta conclusões tão certas 
como as da própria geometria. Nunca se pode esperar sem dúvida tornar suficientemente 
acessíveis a todas as inteligências essas provas positivas de várias regras morais destina- 
das, entretanto, à vida comum. Isto, no entanto, já ocorre para diversas prescrições mate- 
máticas, que são aplicadas sem hesitação nas mais graves ocasiões, quando, por exem- 
plo, nossos marinheiros arriscam cotidianamente suas existências, baseados na fé de 
teorias astronômicas que não compreendem de modo algum. Por que igual confiança não 
seria também atribuída a noções mais importantes? É, de resto, incontestável que a eficá- 
cia normal de tal regime exige, em cada caso, além do potente impulso, resultante natu- 
ralmente dos preconceitos públicos, a intervenção sistemática, ativa ou passiva, duma 
autoridade espiritual, destinada a relembrar com energia as máximas fundamentais e 


82 COMTE 


dirigir sabiamente suas aplicações, como especialmente já expliquei na obra indicada 
acima. Cumprindo assim o grande ofício social que o catolicismo não mais exerce, esse 
novo poder moral utilizará cuidadosamente a feliz aptidão da filosofia correspondente 
para incorporar espontaneamente a sabedoria de todos os diversos regimes anteriores, 
segundo a tendência ordinária do espírito positivo a respeito de um assunto qualquer. 
Quando a astronomia moderna afastou irrevogavelmente os princípios astrológicos, não 
deixou de conservar preciosamente todas as noções verdadeiras obtidas sob seu domínio 
— o mesmo aconteceu com a química em relação à alquimia. 

XIV — Sem poder empreender aqui a apreciação moral da filosofia positiva, cabe 
entretanto assinalar a tendência contínua que resulta diretamente de sua própria consti- 
tuição, científica ou lógica, para estimular e consolidar o sentimento de dever, sempre 
desenvolvendo o espírito de conjunto que a ela se encontra naturalmente ligado. Esse 
novo regime mental dissipa espontaneamente a fatal oposição que, desde o fim da Idade 
Média, existe cada vez mais entre as necessidades intelectuais e as necessidades morais. 
De agora em diante, ao contrário, todas as especulações reais, convenientemente siste- 
matizadas, sem cessar concorrerão a constituir, tanto quanto possível, para a universal 
preponderância da moral, posto que o ponto de vista social virá a ser necessariamente o 
vínculo científico e o regulador lógico de todos os outros aspectos positivos. É impos- 
sível que tal coordenação, desenvolvendo familiarmente as idéias de ordem e de harmo- 
nia sempre ligadas à Humanidade, não tenda a moralizar profundamente, não apenas os 
espíritos de elite, mas também a massa das inteligências, que deverá participar, em 
menor ou maior grau, dessa grande iniciação, conforme um sistema conveniente de edu- 
cação universal. 

Uma apreciação mais íntima e mais extensa, ao mesmo tempo prática e teórica, 
representa o espírito positivo como sendo, por natureza, o único suscetível de desen- 
volver diretamente o sentimento social, primeira base necessária de toda moral sadia. O 
antigo regime mental não podia estimulá-lo a não ser com o auxílio de penosos artifícios 
indiretos, cujo sucesso real deveria ser imperfeito, tendo em vista a tendência essencial- 
mente pessoal dessa filosofia, quando a sabedoria sacerdotal não continha a influência 
espontânea. Essa necessidade é agora reconhecida, ao menos empiricamente, para o espi- 
rito metafísico propriamente dito, que não pode resultar, no caso da moral, em outra teo- 
ria efetiva além do desastroso sistema do egoísmo, tão empregado hoje, em que pesem 
tantas declamações contrárias. Mesmo as seitas ontológicas que protestaram seriamente 
contra semelhante aberração em seu lugar deixaram apenas vagas ou incoerentes noções, 
incapazes de eficácia prática. Uma tendência tão deplorável e, contudo, tão constante, 
deve ter raízes mais profundas do que se supõe comumente. Ela resulta, sobretudo, da 
natureza essencialmente pessoal dessa filosofia que, sempre limitada à consideração do 
indivíduo, nunca pôde realmente abranger o estudo da espécie, por causa duma conse- 
quência inevitável de seu fútil princípio lógico, essencialmente reduzido à intuição 
propriamente dita, que não comporta evidentemente qualquer aplicação coletiva. Suas 
fórmulas ordinárias apenas traduzem ingenuamente seu espírito fundamental. Para cada 
um de seus adeptos, o pensamento dominante é o do eu; todas e quaisquer outras existên- 
cias, mesmo humanas, são confusamente envolvidas numa única concepção negativa, e 
seu vago conjunto constitui o não-eu, a noção do nós não podendo encontrar nenhum 
lugar direto e distinto. Mas, examinando esse assunto ainda mais profundamente, cabe 
reconhecer que, a esse respeito, como a todos os outros, a metafísica deriva, tanto dog- 
mática quanto historicamente, da própria teologia, de que só poderia constituir uma 
modificação dissolvente. Com efeito, esse caráter de personalidade constante pertence 


e) 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 8 


sobretudo, com energia mais direta, ao pensamento teológico, sempre preocupado, em 
cada crente, com interesses essencialmente individuais, cuja imensa preponderância 
absorve necessariamente qualquer outra consideração, sem que o mais sublime devota- 
mento possa inspirar a verdadeira abnegação, considerada justamente então como peri- 
gosa aberração. Só a oposição frequente desses interesses quiméricos com os interesses 
reais forneceu à sabedoria sacerdotal um potente meio de disciplina moral, que muitas 
vezes conduziu, em proveito da sociedade, a admiráveis sacrifícios, que entretanto o 
eram apenas na aparência e sempre se reduziam a uma prudente ponderação de interes- 
ses. Os sentimentos benevolentes e desinteressados, próprios da natureza humana, deve- 
ram sem dúvida manifestar-se mediante tal regime e mesmo, sob certos aspectos, sob seu 
impulso indireto. Mas, a despeito de seu florescimento não poder ter sido assim compri- 
mido, seu caráter necessitou receber dele grave alteração, que provavelmente não nos 
permite ainda conhecer plenamente sua natureza e sua intensidade, por falta de um exer- 
cício próprio e direto. Cabe presumir, de resto, que esse hábito contínuo de cálculos pes- 
soais a respeito dos mais caros interesses do crente desenvolveu no homem, mesmo no 
que concerne a outras coisas, por via de afinidade gradual, um excesso de circunspecção, 
de previdência e, finalmente, de egoísmo, que sua organização fundamental não exigia e 
que poderá então diminuir um dia sob melhor regime moral. Seja qual for o sentido dessa 
conjetura, permanece incontestável que o pensamento teológico é, por sua natureza, 
essencialmente individual, nunca diretamente coletivo. Aos olhos da fé, sobretudo da fé 
monotéica, a vida social não existe por falta duma meta que lhe seja própria. A socie- 
dade humana só pode, então, surgir imediatamente como simples aglomeração de indivi- 
duos, cuja reunião é quase tão fortuita como passageira, os quais, ocupados cada um 
com sua própria salvação, não concebem a participação na salvação de outrem, a não 
ser como meio poderoso de melhor merecer a sua, obedecendo às prescrições supremas 
que impuseram essa obrigação. Nossa respeitosa admiração sempre será devida por 
certo à prudência sacerdotal que, sob o feliz impulso dum instinto público, soube retirar 
por muito tempo uma alta utilidade prática duma filosofia tão imperfeita. Mas esse justo 
reconhecimento não poderia ir até prolongar artificialmente esse regime inicial além de 
sua destinação provisória, quando finalmente veio a época duma economia mais con- 
forme ao conjunto de nossa natureza intelectual e afetiva. À 

XV — O espírito positivo, ao contrário, é diretamente social, tanto quanto possível, 
e sem nenhum esforço, precisamente por causa de sua realidade característica, Para ele, 
o homem propriamente dito não existe, existindo apenas a Humanidade, já que nosso 
desenvolvimento provém da sociedade, a partir de qualquer perspectiva que se o conside- 
re. Se a idéia de sociedade parece ainda uma abstração de nossa inteligência, é sobretudo 
em virtude do antigo regime filosófico, porquanto, a bem dizer, é à idéia de indivíduo que 
pertence tal caráter, ao menos em nossa espécie. O conjunto da nova filosofia sempre 
tenderá a salientar, tanto na vida ativa quanto na vida especulativa, a ligação de cada um 
a todos, sob uma multidão de aspectos diferentes, de maneira a tornar involuntariamente 
familiar o íntimo sentimento de solidariedade social, convenientemente desdobrado para 
todos os tempos e todos os lugares. Não somente a ativa procura do bem público será, 
sem cessar, considerada como o modo mais próprio de assegurar comumente a felicidade 
privada graças a uma influência ao mesmo tempo mais direta e mais pura e, finalmente, 
mais eficaz; o mais completo exercício possível das tendências gerais tomar-se-á a prin- 
cipal fonte da felicidade pessoal, ainda que não devesse trazer excepcionalmente outra 
recompensa além de uma inevitável satisfação interior. Pois se, como não caberia disso 
duvidar, a felicidade resulta sobremaneira duma sábia atividade, deve então depender 


84 COMTE 


principalmente de instintos simpáticos, a despeito de nossa organização não lhes atribuir 
ordinariamente energia preponderante. Isto porque os sentimentos benevolentes são os 
únicos que podem desenvolver-se livremente no estado social, que naturalmente os esti- 
mula progressivamente e lhes abre um campo indefinido, enquanto em compensação 
exige, necessariamente, certa repressão permanente dos diversos impulsos pessoais, cujo 
florescimento espontâneo suscitaria conflitos contínuos. Nesta vasta expansão social, 
cada um reencontrará a satisfação normal dessa tendência a eternizar-se, que só poderia 
então ser satisfeita com o auxílio de ilusões, de agora em diante incompatíveis com nossa 
evolução mental. Podendo prolongar-se unicamente por meio da espécie, o indivíduo 
será assim impulsionado a nela se incorporar o mais completamente possível, ligando-se 
profundamente a toda sua existência coletiva, não apenas atual, mas também passada e, 
antes de tudo, futura, de maneira a obter toda a intensidade de vida que comporta, em 
cada caso, o conjunto das leis reais. Tanto essa grande identificação poderá vir a ser 
mais íntima e melhor sentida quanto a nova filosofia designar necessariamente a ambas 
as espécies de vida um mesmo destino fundamental e mesma lei de evolução, consistindo 
sempre, para o indivíduo e para a espécie, na progressão continua, cujo fim principal foi 
acima caracterizado, isto é, a tendência de fazer, de uma e de outra parte, com que preva- 
leça, quanto possível, o atributo humano, ou a combinação da inteligência com a socia- 
bilidade, em prejuízo da animalidade propriamente dita. Quaisquer de nossos senti- 
mentos só se desenvolvem pelo exercício direto e contínuo, sendo mais indispensáveis 
quando são no início menos enérgicos. 

Por isso seria aqui supérfluo insistir ainda mais, diante de alguém que possua, em- 
bora empiricamente, um verdadeiro conhecimento do homem, no sentido de demonstrar 
a superioridade necessária do espírito positivo sobre o antigo espírito teológico-meta- 
físico, no que respeita ao florescimento próprio e ativo do instinto social. Essa proemi- 
nência é de natureza de tal modo sensível que, sem dúvida, a razão pública a reconhecerá 
suficientemente muito antes que as instituições correspondentes tenham podido realizar 
convenientemente suas felizes propriedades. 


TERCEIRA PARTE 


Condições do estabelecimento do regime positivo 


Sumário: XVI — As atuais condições são favoráveis ao advento do regime positivo; os obstáculos vêm dos 
teólogos, dos metafísicos e dos sábios. XVII -— Necessidade duma educação universal para regenerar o espí- 
rito científico por meio de estudos positivos. XVIII — A educação universal se destina essencialmente aos 
proletários; afinidades entre a classe dos proletários e a dos filósofos. XIX — A política popular segundo o 
positivismo; programa social dos proletários: a educação normal e o trabalho regular. XX — Papel do 
governo. XXI — Necessidade de seguir uma ordem nos estudos positivos; condições impostas a essa ordem. 


XXII — Hierarquia das ciências. XXIII — A lei enciclopédica completa a lei dos três estados, garante a 
independência e a realidade dos diversos elementos científicos. XXIV — Conclusão; importância da astro- 
nomia na educação popular. 


XVI — Conforme o conjunto das indicações precedentes, a superioridade espon- 
tânea da nova filosofia sobre algumas que hoje disputam a supremacia encontra-se agora 
tanto caracterizada sob o aspecto social quanto o era já do ponto de vista mental, ao 
menos quanto comporta esse Discurso, descontando as indicações indispensáveis à obra 
citada. Terminando essa apreciação sumária, importa observar a feliz correlação que se 
estabelece naturalmente entre tal espírito filosófico e as disposições, sábias mas empíri- 
cas, que a experiência contemporânea faz progressivamente prevalecer nos governados e 
nos governantes. Substituindo diretamente a estéril agitação política por um imenso 
movimento mental, a escola positiva explica e sanciona, conforme um exame sistemá- 
tico, a indiferença ou a repugnância que a razão pública e a prudência dos governos con- 
cordam em manifestar hoje em relação a toda elaboração séria e direta das instituições 
propriamente ditas, num tempo em que essas só podem existir eficazmente em caráter 
puramente provisório ou transitório, na falta de qualquer base racional suficiente, isto 
enquanto durar a anarquia intelectual. Destinada a, enfim, dissipar essa desordem funda- 
mental pelas únicas vias capazes de superá-la, essa nova escola necessita, antes de tudo, 
da manutenção contínua da ordem material, tanto interior como exterior, sem a qual 
nenhuma grave meditação social poderia ser acolhida convenientemente, nem mesmo 
suficientemente elaborada. Tende, pois, a justificar e a secundar a preocupação muito 
legítima que inspira hoje, em toda parte, o único grande resultado político imediatamente 
compatível com a situação atual. Essa situação, aliás, lhe dá um valor especial, tendo em 
vista as graves dificuldades que suscita, sempre colocando o problema, insolúvel a longo 
prazo, de manter uma certa ordem política no meio duma profunda desordem moral. 
Além de seus trabalhos para o futuro, a escola positiva se associa imediatamente a essa 
importante operação, graças à sua tendência direta a desacreditar radicalmente as diver- 
sas escolas atuais, já cumprindo melhor que cada uma delas os ofícios opostos que lhes 
restam ainda, e que somente ela combina espontaneamente, de maneira a mostrar-se logo 
mais orgânica do que a escola teológica e mais progressiva do que a escola metafísica. 
sem nunca poder comportar os perigos de retrocesso ou de anarquia que lhes são peculia- 
res respectivamente. Desde que os governos renunciaram essencialmente, embora de 


86 COMTE 


maneira implícita, a toda séria restauração do passado e as populações renunciaram a 
toda subversão grave das instituições, a nova filosófia só pode pedir a ambas as partes as 
disposições naturais que, no fundo, todos estão preparados para dar-lhe (ao menos em 
França, onde deve sobretudo realizar-se primeiro a elaboração sistemática), isto é, liber- 
dade e atenção. Sob essas condições naturais, a escola positiva tende, de um lado, a con- 
solidar todos os poderes atuais, sejam quais forem seus possuidores; de outro, a impor- 
lhes obrigações morais cada vez mais conformes às verdadeiras necessidades dos povos. 

Essas disposições incontestáveis parecem não deixar hoje à nova filosofia outros 
obstáculos essenciais além dos que resultarem da incapacidade ou da incúria de seus 
diversos promotores. Uma apreciação mais madura mostra, ao contrário, que deve 
encontrar enérgicas resistências em quase todos os espíritos atualmente ativos, em virtu- 
de da difícil renovação que exigiria deles, a fim de associá-los diretamente à sua principal 
elaboração. Se essa inevitável oposição devesse limitar-se aos espíritos essencialmente 
teológicos ou metafísicos, ofereceria então pouca gravidade real, posto que lhe restaria o 
potente apoio daqueles que se consagram sobretudo ao estudo positivo, e cujo número e 
influência crescem dia a dia. Mas, por uma fatalidade facilmente explicável, é destes que 
a nova escola deva talvez esperar a menor assistência e a maioria dos entraves. Uma filo- 
sofia diretamente oriunda das ciências encontrará provavelmente seus mais perigosos ini- 
migos naqueles que as cultivam hoje. A principal fonte desse deplorável conflito consiste 
na especialização cega e dispersiva que caracteriza profundamente o espírito científico 
atual, segundo sua formação necessariamente parcial, acrescida da complicação cres- 
cente dos fenômenos estudados, como indicarei expressamente abaixo. Essa marcha 
provisória, que uma perigosa rotina acadêmica se esforça hoje por eternizar, sobrema- 
neira entre os geômetras, desenvolve a verdadeira positividade em cada inteligência; no 
entanto, atingindo uma fraca porção do sistema mental, deixa todo o resto sob o vago re- 
gime teológico-metafísico, ou abandona-o a um empirismo ainda mais opressivo. Por 
isso, o verdadeiro espírito positivo, que corresponde ao conjunto dos diversos trabalhos 
científicos, se encontra, no fundo, na impossibilidade de ser plenamente compreendido 
por aqueles que assim o prepararam naturalmente. Cada vez mais submetidos a essa 
inevitável tendência, os sábios propriamente ditos são ordinariamente conduzidos, em 
nosso século, a manter uma insuperável aversão contra toda idéia geral, ficando na 
impossibilidade total de apreciar realmente alguma concepção filosófica. Perceber-se-á 
melhor, de resto, a gravidade dessa oposição observando que, oriunda de hábitos men- 
tais, essa filosofia teve de estender-se em seguida até os diversos interesses correspon- 
dentes, que nosso regime científico vincula, profundamente, sobretudo em França, a essa 
desastrosa especialidade, como já demonstrei cuidadosamente na obra citada. Assim, a 
nova filosofia, que exige diretamente o espírito de conjunto, e que faz prevalecer para 
sempre, sobre todos os estudos hoje constituídos, a ciência nascente do desenvolvimento 
social, encontrará necessariamente uma íntima antipatia, ao mesmo tempo ativa e passi- 
va, nos preconceitos e paixões da única classe que poderia diretamente oferecer-lhe um 
ponto de apoio especulativo, e da qual ela só pode esperar por muito tempo adesões 
puramente individuais, talvez mais raras aí do que em outras partes. 

XVII — Para vencer convenientemente esse concurso espontâneo das diversas 
resistências que lhe apresenta hoje a massa especulativa propriamente dita, a escola posi- 
tiva não poderia encontrar outro recurso geral além de organizar um apelo direto e maci- 
ço ao bom senso universal, esforçando-se, a partir de agora, em propagar sistematica- 
mente, na massa ativa, Os principais estudos científicos adequados para constituir a base 
indispensável de sua grande elaboração filosófica. Esses estudos preliminares, natural- 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 87 


mente dominados até agora por esse espírito de especialidade empírica que preside as 
ciências correspondentes, são sempre concebidos e dirigidos como se cada pessoa deves- 
se preparar-se para a única profissão exclusiva; o que evidentemente impede a possibili- 
dade, mesmo entre aqueles que possuiriam mais lazer, de abraçar várias ou, ao menos, 
tantas quantas exigisse a formação ulterior de sadias concepções gerais. Isto não aconte- 
cerá mais, entretanto, quando essa instrução for diretamente destinada à educação uni- 
versal, mudando necessariamente seu caráter e sua direção, a despeito de toda tendência 
contrária. O público, com efeito, que não quer vir a ser nem geômetra, nem astrônomo, 
nem químico, etc., sempre carece simultâneamente de todas as ciências fundamentais, 
cada uma reduzida a suas noções essenciais. Precisa, conforme a expressão de nosso 
grande Moliêre, de clareza de tudo. Essa simultaneidade necessária não existe apenas 
para ele, quando considera seus estudos em sua destinação abstrata e geral, como a única 
base racional do conjunto das concepções humanas. Encontra-a ainda, embora menos 
diretamente, até mesmo nas diversas aplicações concretas, cada uma das quais, no 
fundo, ao invês de reportar-se exclusivamente a um certo ramo da filosofia natural, tam- 
bém depende, em maior ou menor grau, de todas as outras. Desse modo, a propagação 
universal dos principais estudos positivos não se destina hoje unicamente a satisfazer 
uma necessidade já muito pronunciada no público. Cada vez mais este sente que as ciên- 
cias não são exclusivamente reservadas aos sábios, mas existem antes de tudo para ele. 
Por uma feliz reação espontânea, tal destinação, quando for convenientemente desenvol- 
vida, deverá melhorar radicalmente o espírito científico atual, despojando-o de sua espe- 
cialidade cega e dispersiva, de maneira a fazer com que adquira, pouco a pouco, o verda- 
deiro caráter filosófico, indipensável à sua principal missão. Essa vida é, ademais, a 
única que pode, em nossos dias, constituir gradualmente, fora da classe especulativa 
propriamente dita, um vasto tribunal espontâneo , tão imparcial como irrecusável, for- 
mado pela massa dos homens sensatos, diante do qual virão se extinguir, irrevogavel- 
mente, muitas das falsas opiniões científicas, cujas visões, adequadas à elaboração preli- 
minar dos dois últimos séculos, vieram misturar-se profundamente às doutrinas 
verdadeiramente positivas, alteradas necessariamente enquanto tais discussões não fica- 
rem por fim submetidas ao bom senso universal. Num tempo em que só se pode esperar 
eficácia imediata de medidas sempre provisórias, bem adaptadas à nossa situação transi- 
tória, a organização necessária de tal ponto de apoio geral para o conjunto dos trabalhos 
filosóficos converte-se, a meus olhos, no principal resultado social que pode hoje produ- 
zir a total vulgarização dos conhecimentos reais. O público dará à nova escola um equi- 
valente pleno dos serviços que essa organização lhe prestar. 

Esse grande resultado não poderá ser suficientemente obtido se esse ensino contínuo 
permanecer destinado a uma única classe, seja ela qual for, por maior que seja sua exten- 
são. É preciso, sob pena de abortamento, ter sempre em vista a universalidade das inteh- 
gências. No estado normal que este movimento deve preparar, todas, sem qualquer dis- 
tinção ou exceção, sentirão a mesma necessidade fundamental dessa filósofia primeira, 
resultante do conjunto das noções reais, e que deve então vir a ser a base sistemática da 
sabedoria humana, tanto ativa como especulativa. Ela desempenha assim, mais conve- 
nientemente, O indispensável ofício social que antigamente cumpria a instrução universal 
dos cristãos. Muito importa, pois, que, desde sua origem, a nova escola filosófica desen- 
volva, tanto quanto possível, este grande caráter elementar de universalidade social que, 
finalmente, no que respeita à sua principal destinação, constituirá hoje sua maior força 
contra as diversas resistências que deve encontrar. 

XVIII — A fim de melhor marcar essa tendência necessária, uma íntima convicção, 
no início instintiva e depois sistemática, determinou-me, já há muito tempo, a sempre 


88 COMTE 


configurar o ensino exposto neste tratado como dirigindo-se sobretudo à classe mais 
numerosa. Nossa situação a deixa desprovida de toda instrução regular, por causa da 
dessuetude crescente da instrução puramente teológica. Esta foi substituída provisoria- 
mente, apenas para os letrados, por uma certa instrução metafísica e literária, mas não 
pode ter, sobretudo em França, um equivalente parecido para a massa popular. A impor- 
tância e a novidade de tal disposição constante, meu vivo desejo de que seja conveniente- 
mente apreciada e, até mesmo, ouso dizer, imitada obrigam-me a indicar aqui os princi- 
pais motivos desse contato espiritual, que a nova escola filosófica deve especialmente 
instituir hoje com os proletários, sem fazer com que seu ensino venha a excluir uma clas- 
se qualquer. A despeito de alguns obstáculos que a falta de zelo ou de grandeza de alma 
possam realmente opor, de ambas as partes, a tal aproximação, é fácil reconhecer em 
geral que, de todas as partes da sociedade atual, o povo propriamente dito deve estar no 
fundo melhor predisposto, em virtude das tendências e das necessidades que resultam de 
sua situação característica, a acolher favoravelmente a nova filosofia. Esta finalmente 
deve encontrar aí seu principal apoio tanto mental como social. 

Uma primeira consideração, que importa aprofundar, apesar de sua natureza sobre- 
tudo negativa, resulta duma judiciosa apreciação do que, à primeira vista, poderia pare- 
cer oferecer uma grave dificuldade, isto é, a ausência atual de toda cultura especulativa. 
Sem dúvida, é lamentável, por exemplo, que este ensino popular da filosofia astronômica 
não encontre ainda, entre todos aqueles a que antes de tudo se destina, alguns estudos 
preliminares de matemática já feitos. Estes tornariam tal ensino ao mesmo tempo mais 
eficaz e mais fácil, além de que são necessariamente supostos por mim. Mas a mesma la- 
cuna seria também encontrada na maior parte das outras classes atuais, num momento 
em que a instrução positiva permanece, em França, limitada a certas profissões espe- 
ciais, vinculadas essencialmente à Escola Politécnica ou às escolas de medicina. Nada 
há, pois, aí que seja verdadeiramente particular a nossos proletários. Quanto ao defeito 
habitual dessa sorte de cultura regular, recebida hoje pelas classes letradas, não temo em 
cair em exagero filosófico afirmando que, para os espíritos populares, isto resulta em 
notável vantagem ao invês dum inconveniente real. Não voltemos a uma crítica infeliz- 
mente muito fácil, demasiadamente levada a cabo há muito tempo e que a experiência 
cotidiana confirma cada vez mais aos olhos da maioria dos homens sensatos. Mas seria 
difícil imaginar uma preparação mais irracional, e no fundo mais perigosa, para a condu- 
ta ordinária da vida real, ativa e até mesmo especulativa, do que aquela que resulta dessa 
va instrução, que se faz, primeiro, na base de palavras, depois, de entidades, e em que se 
perdem ainda tantos anos preciosos de nossa juventude. Na maior parte daqueles que a 
recebem inspira atualmente um desgosto quase insuperável por todo trabalho intelectual, 
isto durante todo o curso de sua carreira. Mas esses perigos se tornam muito mais graves 
para aqueles que se entregaram especialmente a ele. A inaptidão para a vida real, o des- 
dém pelas profissões vulgáres, a impotência para apreciar convenientemente alguma con- 
cepção positiva e a antipatia contra ela que disso tudo logo resulta os predispõem muito 
frequentemente hoje a secundar uma estéril agitação metafísica. Inquietas pretensões pes- 
soais, desenvolvidas por essa desastrosa educação, não tardam em transformá-la em 
perturbações políticas, sob a influência direta duma viciosa erudição histórica que, 
fazendo prevalecer uma falsa noção do tipo social próprio da Antiguidade, impede-os 
comumente de compreender a sociabilidade moderna. Considerando que, sob diversos 
aspectos, quase todas as pessoas que agora dirigem os negócios humanos foram prepara- 
das para isso, não poderíamos ficar surpreendidos com a vergonhosa ignorância que 
manifestam muito amiúde sobre os menores assuntos, até mesmo materiais, nem com sua 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 89 


frequente disposição em negligenciar o fundo em benefício da forma. Colocam acima de 
tudo a arte de bem dizer, apesar de sua aplicação vir a ser contraditória ou perniciosa. 
Nem nos surpreenderíamos, enfim, com a tendência especial de nossas classes letradas a 
acolher avidamente todas as aberrações que surgem cotidianamente de nossa anarquia 
mental. Tal apreciação predispõe, ao contrário, a estranhar que esses diversos desastres 
não sejam ordinariamente mais extensos, e conduz a admirar profundamente a retidão e 
a sabedoria naturais do homem que, sob o feliz impulso adequado ao conjunto de nossa 
civilização, contêm espontaneamente, em grande parte, as perigosas consequências de 
um absurdo sistema de educação geral. Desde o fim da Idade Média, esse sistema tem 
sido, como ainda o é, o principal ponto de apoio social do espírito metafísico, primeiro 
contra a teologia, segundo também contra a ciência. Daí conceber-se facilmente que as 
classes que não foram envolvidas por ele devam encontrar-se, por isso mesmo, muito 
menos afetadas por essa filosofia transitória e, em consequência, melhor predispostas ao 
estado positivo. Ora, tal é a importante vantagem que a ausência de educação escolástica 
traz hoje a nossos proletários e os torna, no fundo, menos acessíveis do que a maioria 
dos letrados aos diversos sofismas perturbadores. Isto conforme à experiência cotidiana 
e a despeito duma contínua excitação sistematicamente dirigida contra as paixões relati- 
vas à sua condição social. Os proletários necessitaram outrora estar sob o domínio pro- 
fundo da teologia, notadamente católica; durante sua emancipação mental, a metafísica 
apenas pôde infiltrar-se neles, por não encontrar uma cultura especial em que repou- 
sasse; somente a filosofia positiva poderá de novo tomá-los radicalmente. As condições 
prévias, tão recomendadas pelos primeiros pais dessa filosofia final, devem aí encontrar, 
pois, seu cumprimento melhor do que em qualquer outra parte. Se a célebre tabula rasa 
de Bacon e de Descartes fosse plenamente realizável, isto se daria por certo entre os 
proletários atuais, principalmente em França, os quais estão muito mais próximos que 
qualquer outra classe do tipo ideal dessa disposição preparatória para a positividade 
racional. 

Examinando, sob um aspecto mais íntimo e mais durável, essa inclinação natural 
das inteligências populares para a sã filosofia, reconhecer-se-á facilmente que sempre 
deve resultar da solidariedade fundamental que, segundo nossas explicações anteriores, 
vincula diretamente o verdadeiro espírito filosófico ao bom senso universal, sua primeira 
fonte necessária. Apenas este bom senso, tão justamente preconizado por Descartes e por 
Bacon, deve hoje encontrar-se mais puro e mais enérgico nas classes inferiores, em virtu- 
de precisamente desta feliz carência de cultura escolástica, que os torna menos acessíveis 
aos hábitos vagos ou sofísticos. A essa diferença passageira, que uma melhor educação 
das classes letradas dissipará gradualmente, cabe ainda acrescentar outra, necessaria- 
mente permanente, relativa à influência mental das diversas funções sociais próprias às 
duas ordens de inteligências, segundo o caráter respectivo dos trabalhos habituais. Desde 
que a ação real da Humanidade sobre o mundo exterior começou com os modernos a 
organizar-se espontaneamente, ela exige a combinação contínua de duas classes distin- 
tas, muito desiguais em número mas igualmente indispensáveis: de uma parte, os 
empreendedores propriamente ditos, sempre pouco numerosos, que, possuindo diversos 
materiais convenientes, mais o dinheiro e o crédito, dirigem o conjunto de cada opera- 
ção, assumindo, pois, a principal responsabilidade de quaisquer resultados; de outra, os 
operadores diretos, visando a um salário periódico e formando a imensa maioria dos 
trabalhadores. que executam, numa espécie de intenção abstrata, cada um dos atos 
elementares. sem especialmente preocupar-se com seu concurso final. Esses últimos são 
os únicos às voltas imediatamente com a natureza, enquanto os primeiros se ocupam 


90 COMTE 


sobretudo da sociedade. Em consequência necessária dessas diversidades fundamentais, 
a eficácia especulativa, que reconhecemos inerente à vida industrial para desenvolver 
involuntariamente o espírito positivo, deve ordinariamente ser melhor percebida entre os 
operadores do que entre os empreendedores, porquanto seus próprios trabalhos oferecem 
caráter mais simples, fim mais nitidamente determinado, resultados mais próximos e 
condições mais imperiosas. A escola positiva deverá, pois, encontrar aí naturalmente um 
acesso mais fácil para seu ensino universal e uma simpatia mais viva para sua renovação 
filosófica, quando puder convenientemente penetrar neste vasto meio social. Aí deverá 
também encontrar, ao mesmo tempo, afinidades morais não menos preciosas do que 
essas harmonias mentais, segundo essa comum indiferença para as coisas materiais, que 
aproxima espontaneamente nossos proletários da verdadeira classe contemplativa, ao 
menos quando esta desenvolver, enfim, os costumes correspondentes a seu destino social. 
Essa feliz disposição, tão favorável à ordem universal quanto à verdadeira felicidade pes- 
soal, adquirirá um dia muita importância normal, conforme a sistematização das rela- 
ções gerais que devem existir entre ambos os elementos extremos da sociedade positiva. 
Mas, a partir deste momento, pode facilitar essencialmente sua união nascente, suple- 
mentando o pouco lazer que as ocupações cotidianas deixam a nossos proletários para 
sua instrução especulativa. Se, em algum caso excepcional de extrema sobrecarga, esse 
obstáculo continuo pareça, com efeito, dever impedir todo florescimento mental, é 
ordinariamente compensado por este caráter de sábia imprevidência que, em cada inter- 
mitência natural de trabalhos obrigados, confere ao espírito plena disponibilidade. O ver- 
dadeiro lazer só deve faltar habitualmente na classe que se acredita especialmente dotada 
dele, pois, por causa precisamente de sua fortuna e de sua posição, permanece comu- 
mente preocupada com inquietações ativas que quase nunca comportam verdadeira 
calma intelectual e moral. Esse estado deve-ser fácil, ao contrário, para os pensadores e 
para os operadores, conforme seu comum desprendimento espontâneo dos cuidados rela- 
tivos ao emprego de capitais e independentemente da regularidade natural de suas vidas 
cotidianas. 

Quando essas diferentes tendências mentais e morais tiverem agido conveniente- 
mente, é, pois, entre os proletários que deverá melhor realizar-se a universal propagação 
da instrução positiva, condição indispensável para o cumprimento gradual da renovação 
filosófica. É também entre eles que o caráter contínuo de tal estudo poderá tornar-se 
mais puramente especulativo, pois se encontrará assim mais isento dessas visões interes- 
sadas que lhe trazem mais ou menos diretamente as classes superiores, quase sempre 
preocupadas com cálculos ávidos ou ambiciosos. Depois de procurar nele o fundamento 
universal de toda sabedoria humana, aí virão haurir em seguida, como nas belas-artes, 
uma doce diversão habitual ao conjunto de suas penas cotidianas. Posto que sua inevi- 
tável condição social deva lhes tornar muito mais preciosa tal diversão, quer científica, 
quer estética, seria estranho que as classes dirigentes quisessem ver nisso, ao contrário, 
um motivo fundamental para mantê-los essencialmente privados dela, recusando siste- 
maticamente a única satisfação que pode ser infinitamente partilhada entre aquelas que 
devem renunciar sabiamente aos prazeres menos comunicativos. Para justificar tal recu- 
sa, frequentemente ditada pelo egoísmo e pela irreflexão, tem-se objetado, na verdade, 
que a vulgarização especulativa tenderia a agravar profundamente a desordem atual, 
desenvolvendo a funesta disposição, já tão pronunciada, ao desregramento universal. 
Mas esse temor natural, única objeção séria que a esse respeito mereceria uma verda- 
deira discussão, resulta hoje, na maioria dos casos de boa fé, duma irracional confusão 
da instrução positiva, ao mesmo tempo estética e científica, com a instrução metafísica 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 91 


e literária, a única atualmente organizada. Esta, a que reconhecemos o exercício duma 
ação social muito perturbadora para as classes letradas, tornar-se-ia muito mais perigosa 
se fosse estendida aos proletários, onde desenvolveria, além do desgosto pelas ocupações 
materiais, ambições exorbitantes. Mas felizmente eles estão em geral muito menos dis- 
postos a reclamá-la do que se está a fornecer-lhes. Quanto aos estudos positivos, sabia- 
mente concebidos e convenientemente dirigidos, não comportam de modo algum tal 
influência. Aliando-se e aplicando-se por sua natureza a todos os trabalhos práticos, ten- 
dem, ao contrário, a confirmar ou mesmo inspirar o gosto por eles, quer enobrecendo seu 
caráter habitual, quer adoçando suas consequências penosas. Conduzindo, de resto, a 
uma sadia apreciação das diversas posições sociais e das necessidades correspondentes, 
predispõem a perceber que a felicidade real é compatível com todas e quaisquer condi- 
ções, desde que sejam desempenhadas com honra e aceitas convenientemente. A filosofia 
geral que daí resulta representa o homem, ou melhor, a Humanidade, como o primeiro 
dos seres conhecidos, destinado, para o conjunto das leis reais, a sempre aperfeiçoar, 
tanto quanto possível e sob todos os aspectos, a ordem natural, tornando-a ao abrigo de 
toda inquietação quimérica, o que tende a revelar profundamente o ativo sentimento uni- 
versal da dignidade humana. Ao mesmo tempo, tempera espontaneamente o orgulho 
exaltado que esse sentimento poderia suscitar, mostrando, sob todos os aspectos e com 
familiar evidência, quanto devemos permanecer sem cessar abaixo da meta e do tipo 
assim caracterizados, seja na vida ativa, seja até mesmo na vida especulativa, onde 
percebemos, quase a cada passo, que nossos sublimes esforços não podem nunca ultra- 
passar senão uma pequena parte de nossas dificuldades fundamentais. 

A despeito da alta importância dos diversos motivos precedentes, considerações 
ainda mais poderosas determinarão, antes de tudo, que as inteligências populares secun- 
dem hoje a ação filosófica da escola positiva, por causa de seu ardor contínuo em propa- 
gar universalmente os estudos reais. Tais estudos reportam-se às principais necessidades 
coletivas adequadas à condição social dos proletários e podem ser resumidos nesta 
proposição geral: não foi possível até agora uma política especialmente Ena só a 
nova filosofia pode constituí-la. 

XIX — Desde o início da grande crise moderna, o povo só interveio como simples 
auxiliar nas principais lutas políticas, com a esperança, sem dúvida, de obter com elas al- 
guma melhoria de sua situação geral, mas não conforme uma óptica e um fim que lhe 
fossem realmente próprios. Todos os debates habituais permaneceram essencialmente 
concentrados nas diversas classes superiores ou médias, já que se vinculavam sobretudo 
à posse do poder. Ora, o povo não podia por muito tempo interessar-se diretamente por 
tais conflitos, porquanto a natureza de nossa civilização impede evidentemente os prole- 
tários de esperar e até mesmo desejar alguma participação importante.no poder político 
propriamente dito. Além do mais, depois de ter essencialmente realizado todos os resul- 
tados sociais que poderiam esperar da substituição provisória pelos metafísicos e legistas 
da antiga preponderância política das classes sacerdotais e feudais, tornam-se hoje cada 
vez mais indiferentes ao estéril prolongamento dessas lutas mais e mais miseráveis, atual- 
mente quase reduzidas a vãs rivalidades pessoais. Sejam quais forem os esforços cotidia- 
nos da agitação metafísica para fazê-los intervir neste debate frivolo, por meio do engodo 
chamado direitos políticos, o instinto popular já compreendeu, sobremaneira em França, 
quanto seria ilusória e pueril a posse de tal privilégio que, mesmo em seu grau atual de 
disseminação, não inspira habitualmente qualquer interesse verdadeiro à maioria daque- 
les que o gozam de modo exclusivo. O povo só pode interessar-se essencialmente pelo 
uso efetivo do poder, onde quer que resida, e não por sua conquista especial. Logo que 


92 COMTE 


as questões políticas, ou melhor, a partir de agora sociais, se reportarem ordinariamente 
à maneira pela qual o poder deve ser exercido para melhor atender a seu destino geral, 
principalmente relativa, para os modernos, à massa proletária, não tardaremos a reco- 
nhecer que o desdém atual não se vincula de modo algum a uma perigosa indiferença. 
Até lá a opinião popular permanecerá estranha a esses debates que, aos olhos dos bons 
espíritos, aumentando a instabilidade de todos os poderes, tendem especialmente a retar- 
dar essa indispensável transformação. Numa palavra, o povo está naturalmente disposto 
a desejar que a vã e tempestuosa discussão dos direitos seja enfim substituída por uma 
fecunda e salutar apreciação dos diversos deveres essenciais, quer gerais, quer especiais. 
Tal é o princípio espontâneo da íntima conexão, que, cedo ou tarde pressentida, ligará 
necessariamente o instinto popular à ação social da filosofia positiva; pois essa grande 
transformação equivale evidentemente aquela outra, acima motivada pelas mais altas 
considerações especulativas, que faz do movimento político atual simples movimento 
filosófico. Seu primeiro e principal resultado social consistirá em formar solidamente 
uma ativa moral universal, prescrevendo a cada agente, individual ou coletivo, as regras 
de conduta mais conformes à harmonia fundamental. Quanto mais meditarmos sobre 
essa relação natural, tanto melhor se reconhecerá que essa mutação decisiva, só prove- 
niente do espírito positivo, não encontra hoje um sólido apoio, a não ser o povo propria- 
mente dito, o único disposto a bem compreendê-la e por ela se interessar profundamente. 
Os preconceitos e as paixões, próprios às classes superiores ou médias, se opõem conjun- 
tamente a que essa relação seja primeiramente percebida de modo suficiente, porque 
devemos ser ordinariamente mais tocados pelas vantagens inerentes à posse do poder do 
que pelos perigosos resultados de seu exercício vicioso. Se o povo está agora e deve per- 
manecer a partir desse momento indiferente à posse direta do poder político, nunca pode 
renunciar à sua indispensável participação contínua no poder moral. Este é o único 
verdadeiramente acessível a todos, sem perigo algum para a ordem universal, muito pelo 
contrário: traz-lhe grandes vantagens cotidianas, autorizando cada um, em nome duma 
comum doutrina fundamental, a chamar convenientemente as mais altas potências a seus 
diversos deveres essenciais. Na verdade, os preconceitos inerentes ao estado transitório 
ou revolucionário tiveram que encontrar também algum acesso em nossos proletários 
alimentando, com efeito, inoportunas ilusões sobre o alcance indefinido das medidas 
políticas propriamente ditas. Impedem de apreciar quanto a justa satisfação dos grandes 
interesses populares depende hoje muito mais das opiniões e dos costumes do que das 
próprias instituições, cuja verdadeira regeneração, atualmente impossível, exige, antes de 
tudo, uma reorganização espiritual. No entanto, podemos assegurar que a escola positiva 
terá muito maior facilidade em fazer penetrar este salutar ensino nos espíritos populares 
que em qualquer outra parte, seja porque a metafísica negativa aí não pode enraizar-se 
tanto, seja, sobretudo, por causa do impulso constante das necessidades sociais inerentes 
à sua situação necessária. Essas necessidades se reportam essencialmente a duas condi- 
ções fundamentais, uma espiritual, outra temporal de natureza profundamente conexa. 
Trata-se, com efeito, de assegurar convenientemente a todos, primeiro, uma educação 
normal, depois o trabalho regular. Tal é, no fundo, o verdadeiro programa social dos 
proletários. Não pode mais existir verdadeira popularidade a não ser para uma política 
que tenda necessariamente para esse duplo destino. Ora, tal é evidentemente o caráter 
espontâneo da doutrina social peculiar à nova escola filosófica. Nossas explicações ante- 
riores devem aqui dispensar a esse respeito qualquer outro esclarecimento, aliás reser- 
vado para a obra tantas vezes indicada neste Discurso. Importa somente acrescentar que 
a concentração necessária de nossos pensamentos e de nossa atividade sobre a vida real 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 93 


da Humanidade, afastando toda vá ilusão, tenderá especialmente a fortificar muito a ade- 
são moral e política do povo propriamente dito à verdadeira filosofia moderna. Com efei- 
to, seu judicioso instinto aí logo perceberá um motivo potente e novo para dirigir sobre- 
tudo a prática social para o sábio aperfeiçoamento contínuo de sua própria condição 
geral. As quiméricas esperanças inerentes à antiga filosofia levaram demasiadamente, ao 
contrário, a negligenciar com desdém tais progressos, ou a afastá-los por uma espécie de 
adiamento contínuo, segundo a mínima importância relativa que naturalmente devia lhes 
deixar essa eterna perspectiva, imensa compensação espontânea de todas e quaisquer 
misérias. 

XX — Essa sumária apreciação basta para assinalar, sob os diversos aspectos 
essenciais, a afinidade necessária das classes inferiores com a filosofia positiva que, tão 
logo o contato possa plenamente estabelecer-se, encontrará aí seu principal apoio natu- 
ral, ao mesmo tempo mental e social. A filosofia teológica não mais convém senão às 
classes superiores, de que tende a eternizar a preponderância política. E a filosofia meta- 
física se endereça sobretudo às classes médias, de que secunda a ativa ambição. Todo 
espírito meditativo deve compreender, enfim, a importância verdadeiramente funda- 
mental que apresenta hoje uma sábia vulgarização sistemática dos estudos positivos, des- 
tinada essencialmente aos proletários, a fim de neles preparar uma sadia doutrina social. 
Os diversos observadores que podem libertar-se, ainda que de momento, do turbilhão 
cotidiano concordam agora em deplorar, e por certo com muita razão, a anárquica 
influência exercida em nossos dias por sofistas e professores de retórica. Mas essas quei- 
xas justas permanecerão inevitavelmente vazias enquanto não percebermos melhor a 
necessidade de sair, enfim, duma situação mental em que a educação oficial só pode ter- 
minar, de ordinário, formando professores de retórica e sofistas, que em seguida tendem 
espontaneamente a propagar o mesmo espírito, por meio do triplo ensino proveniente dos 
Jornais, dos romances e dos dramas, entre as classes inferiores. A instrução regular não 
evita o contágio metafísico, que essas classes recusam apenas por causa de sua razão 
natural. Embora devamos esperar, a esse respeito, que os governos atuais percebam logo 
quanto a propagação universal dos conhecimentos reais pode secundar cada vez mais 
seus esforços contínuos para a difícil manutenção duma ordem indispensável, não nos 
cabe esperar deles, nem mesmo desejar, uma cooperação verdadeiramente ativa nesta 
grande preparação racional, que por muito tempo deve resultar sobretudo de um zelo 
livre e privado, inspirado e sustentado por verdadeiras convicções filosóficas. A imper- 
feita conservação duma grosseira harmonia política, sem cessar comprometida no meio 
de nossa desordem mental e moral, absorve muito justamente a solicitude cotidiana des- 
ses governos e até os coloca numa posição muito inferior para que possam dignamente 
compreender a natureza e as condições de tal trabalho, cuja importância é preciso ape- 
nas que entrevejam. Se, por um zelo intempestivo, hoje tentassem dirigi-lo, só poderiam 
ser levados a alterá-lo profundamente, de maneira a comprometer muito sua principal 
eficácia, não o vinculando a uma filosofia assaz decisiva, o que o faria logo degenerar 
numa incoerente acumulação de especialidades superficiais. Assim, a escola positiva, 
resultante dum ativo concurso voluntário de espíritos verdadeiramente filosóficos, terá 
que pedir por muito tempo a nossos governos ocidentais, a fim de que possa cumprir 
convenientemente seu grande ofício social, apenas a liberdade plena de exposição e de 
discussão, equivalente aquela de que já gozam a escola teológica e a escola metafísica. A 
primeira pode, cada dia, em suas mil tribunas sagradas, preconizar a seu bel-prazer a 
excelência absoluta de sua eterna doutrina, e votar todos e quaisquer adversários à dana- 
ção irrevogável. A segunda, em numerosas cátedras que lhe asseguram a munificência 


94 COMTE 


nacional, pode cotidianamente desenvolver, diante de imensos auditórios, a universal efi- 
cácia de suas concepções ontológicas e a proeminência indefinida de seus estudos literá- 
rios. Sem pretender tais vantagens, que só o tempo deve trazer, a escola positiva pede 
apenas essencialmente hoje o simples direito de asilo regular nos locais municipais, para 
aí fazer diretamente com que seja apreciada sua aptidão fina! para a satisfação simul- 
tânea de todas as nossas grandes necessidades sociais, propagando com sabedoria a 
única instrução sistemática que pode de agora em diante preparar uma verdadeira 
reorganização, primeiro mental, depois moral e, por fim, política. Desde que esse livre 
acesso lhe permaneça sempre aberto, o zelo voluntário e gratuito de seus raros promoto- 
res, secundado pelo bom senso universal, sob o impulso crescente da situação fundamen- 
tal, nunca temerá sustentar, mesmo a partir desse momento, uma ativa concorrência filo- 
sófica com os numerosos e potentes órgãos, atê mesmo quando reunidos, das duas 
escolas antigas. Não cabe mais recear que, de agora em diante, os homens de Estado se 
afastem gravemente, a esse respeito, da moderação imparcial cada vez mais inerente à 
sua própria indiferença especulativa. A escola positiva pode, a esse propósito, contar 
com a benevolência habitual dos mais inteligentes dentre eles, não somente em França, 
mas ainda em todo nosso Ocidente. Sua vigilância contínua desse livre ensino popular 
logo se limitará a apenas prescrever a condição permanente duma verdadeira positivi- 
dade, afastando, com inflexível severidade, a introdução, ainda muito iminente, das espe- 
culações vagas ou sofísticas. Mas, a esse respeito, as necessidades essenciais da escola 
positiva juntar-se-ão diretamente com os deveres naturais dos governos, pois, se estes 
devem rejeitar tal abuso, em virtude de sua tendência anárquica, aquela, além deste justo 
motivo, o julga plenamente contrário à destinação fundamental de tal ensino, como rea- 
nimando esse mesmo espírito metafísico onde vê hoje o principal obstáculo ao advento 
social da nova filosofia. Sob esse aspecto, assim como sob todos os outros, os filósofos 
positivos se sentirão sempre quase tão interessados quanto os poderes atuais na dupla 
manutenção contínua da ordem interior e da paz exterior, pois vêem nisso a condição 
mais favorável para uma verdadeira renovação mental e moral. Somente do ponto de 
vista que lhes é próprio devem perceber mais longe o que poderia comprometer ou conso- 
lidar esse grande resultado político do conjunto de nossa situação transitória. 


XXI -— Já caracterizamos suficientemente, sob todos os aspectos, a importância 
capital que apresenta hoje a propagação universal dos estudos positivos, notadamente 
entre os proletários, para constituir de agora em diante um indispensável ponto de apoio, 
ao mesmo tempo mental e social, para a elaboração filosófica que deve determinar 
gradualmente a reorganização espiritual das sociedades modernas. Mas essa apreciação 
permaneceria ainda incompleta, e até mesmo insuficiente, se o fim deste Discurso não 
estivesse diretamente destinado a estabelecer a ordem fundamental que convém a essa 
série de estudos, de maneira a fixar a verdadeira posição a ser ocupada, em seu conjunto, 
pelo estudo de que este tratado em seguida se ocupará exclusivamente. Este arranjo didá- 
tico não é quase indiferente, como nosso vicioso regime científico o faz muitas vezes 
supor, podemos assegurar; muito ao contrário, é dele que sobretudo depende a principal 
eficácia, intelectual ou social, desta grande preparação. Existe, aliás, intima solidarie- 
dade entre a concepção enciclopédica, donde resulta, e a lei fundamental de evolução, 
que serve de base à nova filosofia geral. 

Tal ordem deve, por sua natureza, preencher duas condições essenciais, uma 
dogmática, outra histórica, de que é preciso de início reconhecer a convergência necessá- 
ria. À primeira consiste em ordenar as ciências segundo sua dependência sucessiva, de 
sorte que cada uma repouse sobre a precedente e prepare a seguinte. A segunda prescreve 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO e 


sua disposição conforme a marcha de sua formação efetiva, passando sempre das mais 
antigas para as mais recentes. Ora, o equivalente espontâneo dessas duas vias enciclopé- 
dicas provém em geral da identidade fundamental que existe inevitavelmente entre a evo- 
lução individual e a evolução coletiva, as quais, tendo origem parecida, semelhante desti- 
no e um mesmo agente, devem sempre oferecer fases correspondentes, salvo as únicas 
diferenças de duração, intensidade e velocidade, inerentes à desigualdade dos dois orga- 
nismos. Esse concurso necessário permite, pois, conceber os dois modos como dois 
aspectos correlativos dum único princípio enciclopédico, de maneira a poder habitual- 
mente empregar aquele que, em cada caso, manifeste melhor as relações consideradas, 
com a preciosa faculdade de poder constantemente verificar por meio de um o que resul- 
tará de outro. 

A lei fundamental dessa ordem comum de dependência dogmática e sucessão histó- 
rica foi completamente estabelecida na grande obra acima indicada, e que determina o 
plano geral. Consiste em classificar as diferentes ciências segundo a natureza dos fenó- 
menos estudados, conforme sua generalidade e sua dependência decrescente ou sua 
complicação crescente, donde resultam especulações cada vez menos abstratas e mais 
difíceis, mas também progressivamente eminentes e completas, em virtude de sua relação 
mais intima com o homem, ou melhor, com a Humanidade, objeto final de todo sistema 
teórico. Essa classificação tira seu principal valor filosófico, quer científico, quer lógico, 
da identidade constante e necessária existente entre todos esses diversos modos de 
comparação especulativa dos fenômenos naturais. Daí resultam todos esses teoremas 
enciclopédicos cuja explicação e uso pertencem à obra citada. Sob a perspectiva da ação, 
esta acrescenta ainda a importante relação geral de que os fenômenos se tornam cada vez 
mais modificáveis, oferecendo um domínio cada vez mais vasto para a intervenção 
humana. Basta aqui indicar sumariamente a aplicação deste grande princípio à determi- 
nação racional da verdadeira hierarquia dos estudos fundamentais, diretamente concebi- 
dos, de agora em diante, como diferentes elementos essenciais duma única ciência, a da 
Humanidade. 

XXI — Esse objeto final de todas as nossas especulações reais exige, evidente- 
mente, por sua natureza, ao mesmo tempo científica e lógica, um duplo preâmbulo indis- 
pensável, relativo, duma parte, ao homem propriamente dito, de outra parte, ao mundo 
exterior. Não se poderia, com efeito, estudar racionalmente os fenômenos estáticos ou 
dinâmicos da sociabilidade se, primeiramente, não se conhecesse suficientemente o agen- 
te especial que os opera e o meio geral em que se realizam. Daí resulta, pois, a divisão 
necessária da filosofia natural, destinada a preparar a filosofia social, em dois grandes 
ramos, um orgânico, outro inorgânico. Quanto à disposição relativa desses dois estudos 
igualmente fundamentais, todos os motivos essenciais, quer científicos, quer lógicos, con- 
correm para prescrever, na educação individual e na evolução coletiva, começar pela 
segunda, cujos fenômenos, mais simples e mais independentes, por causa de sua generali- 
dade superior, são os únicos a comportar de início uma apreciação verdadeiramente 
positiva, enquanto suas leis, diretamente relativas à existência universal, exercem em 
seguida uma influência necessária sobre a existência especial dos corpos vivos. A astro- 
nomia constitui, necessariamente, sob todos os aspectos, o elemento mais decisivo dessa 
teoria prévia do mundo exterior, já como a mais suscetível de plena positividade, já 
enquanto caracterizando o meio geral de todos os nossos fenômenos, quaisquer que 
sejam, e manifestando, sem outra complicação, a simples existência matemática, isto é, 
geométrica ou mecânica, comum a todos os seres reais. No entanto, ainda quando 
condensamos o mais possível as verdadeiras concepções enciclopédicas, não poderíamos 


96 COMTE 


reduzir a filosofia inorgânica a esse elemento principal, porque permaneceria então 
completamente isolada da filosofia orgânica. Seu elo fundamental, científico e lógico, 
consiste sobretudo no ramo mais complexo da primeira, o estudo dos fenômenos de 
composição e de decomposição, os mais eminentes daqueles que comporta a existência 
universal e os mais próximos do mundo vital propriamente dito. É assim que a filosofia 
natural, considerada como o preâmbulo necessário da filosofia social, decompondo-se no 
início em dois estudos extremos e um estudo intermediário, compreende sucessivamente 
essas três grandes ciências, a astronomia, a química e a biologia, das quais a primeira 
toca imediatamente na origem espontânea do verdadeiro espírito científico e a última em 
seu destino essencial. O florescimento inicial respectivo se reporta, historicamente, à 
Antiguidade grega, à Idade Média, e à época moderna. 

Tal apreciação enciclopédica não preencheria ainda de modo suficiente as condi- 
ções indispensáveis de continuidade e espontaneidade adequadas a tal assunto. De uma 
parte, deixa uma lacuna capital entre a astronomia e a química cuja ligação não poderia 
ser direta; de outra, não indica assaz a verdadeira fonte desse sistema especulativo, como 
simples prolongamento abstrato da razão comum, cujo ponto de partida científico não 
poderia ser diretamente astronômico. Mas, para completar a fórmula fundamental, basta, 
em primeiro lugar, inserir entre a astronomia e a química a física propriamente dita, que 
somente assumiu uma existência distinta com Galileu; em segundo lugar, colocar no iní- 
cio deste vasto conjunto a ciência matemática, o único berço necessário da positividade 
racional, tanto para o indivíduo como para a espécie. Se, por uma aplicação mais espe- 
cial de nosso princípio enciclopédico, decompusermos por sua vez essa ciência inicial em 
seus três grandes ramos (cálculo, geometria e mecânica), determinamos, enfim, com a úl- 
tima precisão filosófica, a verdadeira origem de todo sistema científico. Este primeira- 
mente nasce, com efeito, das especulações puramente numéricas que, sendo entre todas 
as mais gerais, simples e abstratas e independentes, quase se confundem com o impulso 
espontâneo do espírito positivo nas inteligências mais vulgares, como o confirma ainda, 
sob nossos olhos, a observação cotidiana do crescimento individual. 

Chegamos, assim, gradualmente a descobrir a invariável hierarquia, ao mesmo 
tempo histórica e dogmática, igualmente científica e lógica, das seis ciências fundamen- 
tais, matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia. A primeira constitui 
necessariamente o ponto de partida exclusivo, e a última a única meta essencial de toda 
filosofia positiva, considerada de agora em diante como formando, por sua natureza, um 
sistema verdadeiramente indivisível, em que toda decomposição é radicalmente artificial, 
- sem ser aliás, de modo algum, arbitrária, já que tudo se reporta finalmente à Humani- 
dade, única concepção plenamente universal. O conjunto dessa fórmula enciclopédica, 
exatamente conforme às verdadeiras afinidades dos estudos correspondentes, e que de 
resto compreende evidentemente todos os elementos de nossas especulações reais, permi- 
te, enfim, a cada inteligência renovar a seu bel-prazer a história geral do espírito positivo, 
passando, de maneira quase insensível, das menores idéias matemáticas aos mais altos 
pensamentos sociais. Está claro, com efeito, que cada uma das quatro ciências interme- 
diárias se confunde, por assim dizer, com a precedente, quanto a seus mais simples fenó- 
menos, e com a seguinte, quanto aos mais eminentes. Essa perfeita continuidade espon- 
tânea tornar-se-ã sobremaneira irrecusável a todos aqueles que reconhecerem, na obra 
acima indicada, que o mesmo princípio enciclopédico também fornece a classificação 
racional das diversas partes constituintes de cada estudo fundamental, de sorte que os 
graus dogmáticos e as fases históricas podem aproximar-se, tanto quanto exige a preci- 
são das comparações ou a facilidade das transições. 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 97 


No estado presente das inteligências, a aplicação lógica dessa grande fórmula é 
ainda mais importante que seu uso científico; é o método em nossos dias mais essencial 
do que a doutrina, sendo o único, aliás, suscetível de plena regeneração. Sua principal 
utilidade consiste hoje, pois, em determinar rigorosamente a marcha invariável de toda 
educação verdadeiramente positiva, no meio de preconceitos irracionais e de hábitos 
viciados, só adequados ao desenvolvimento preliminar do sistema científico. Este se 
forma gradualmente mediante teorias parciais e incoerentes, cujas relações mútuas de- 
viam permanecer despercebidas por seus fundadores sucessivos. Todas as classes atuais 
de cientistas hoje violam, com igual gravidade, embora a diversos títulos, essa obrigação 
fundamental. Limitamo-nos aqui a indicar os dois casos extremos. Os geômetras, justa- 
mente orgulhosos de estarem colocados na verdadeira fonte da positividade racional, 
obstinam-se cegamente em reter o espírito humano neste grau puramente inicial do ver- 
dadeiro nascimento da especulação, sem nunca considerar seu único fim necessário. Os 
biólogos, ao contrário, preconizam, com razão, a dignidade superior de seu assunto, 
imediatamente vizinho dessa grande destinação, mas persistem em conservar seus estu- 
dos num isolamento irracional, desfazendo-se arbitrariamente da difícil preparação que 
exige sua natureza. Essas disposições opostas, mas igualmente empíricas, conduzem 
muitíssimas vezes hoje alguns a um vão desperdício de esforços intelectuais, de agora em 
diante consumidos, na maior parte, em pesquisas cada vez mais pueris; e outros a uma 
instabilidade continua das diversas noções essenciais, por falta dum encaminhamento 
verdadeiramente positivo. Sob este último aspecto sobretudo devemos observar, com 
efeito, que os estudos sociais não são os únicos que agora permanecem ainda exteriores 
ao sistema plenamente positivo, sob a estéril dominação do espírito teológico-metafísico. 
No fundo, os próprios estudos biológicos, notadamente dinâmicos, apesar de estarem 
constituídos do ponto de vista acadêmico, não atingiram até agora uma verdadeira posi- 
tividade, já que nenhuma doutrina capital foi ainda esboçada, de sorte que o campo 
das ilusões e dos malabarismos permanece quase indefinido. Ora, esse deplorável prolon- 
gamento de tal situação se deve, essencialmente, em ambos os casos, ao cumprimento 
insuficiente das grandes condições lógicas determinadas por nossa lei enciclopédica. Por- 
quanto ninguém mais contesta, desde há muito tempo, a necessidade de um encaminha- 
mento positivo, mas todos desconhecem sua natureza e suas obrigações, cuja caracte- 
rística só pode fornecer a verdadeira hierarquia científica. O que esperar, seja a respeito 
dos fenômenos sociais, seja, ainda, a respeito do estudo mais simples da vida industrial, 
duma cultura que aborda diretamente especulações tão complexas, sem estar dignamente 
preparada por uma sadia apreciação dos métodos e das doutrinas relativas aos diversos 
fenômenos menos complicados e mais gerais, de maneira a não poder conhecer suficien- 
temente nem a lógica indutiva — no estado rudimentar caracterizada principalmente 
pela química, pela física e, de início, pela astronomia —, nem mesmo a lógica dedutiva 
ou a arte elementar do raciocínio decisivo que só a iniciação matemática pode desen- 
volver convenientemente? 

Para facilitar o uso habitual de nossa fórmula hierárquica, convém muito, quando 
não se tem necessidade duma grande precisão enciclopédica, agrupar os termos dois a 
dois, de maneira a reduzila a três pares, um inicial, matemático-astronômico, outro 
final, biológico-sociológico, separados e reunidos pelo par intermediário, físico-químico. 
Essa feliz condensação resulta duma apreciação irrecusável, porquanto existe, com efei- 
to, maior afinidade natural, seja científica, seja lógica, entre os dois elementos de cada 
par do que entre os próprios pares consecutivos, como confirma muitas vezes a dificul- 
dade que se tem em separar nitidamente a matemática da astronomia, a fisica da quími- 


98 COMTE 


ca, em consegliência dos hábitos vagos que dominam ainda todos os pensamentos de 
conjunto. A biologia e a sociologia, em particular, continuam a quase se confundir para 
a maioria dos pensadores atuais. Sem nunca ir até essas viciosas confusões, que altera- 
riam radicalmente as transições enciclopédicas, seria frequentemente útil reduzir assim a 
hierarquia elementar das especulações reais a três pares essenciais, cada um podendo ser 
aliás brevemente designado por seu elemento mais especial, que é sempre efetivamente o 
mais característico e o mais próprio para definir as grandes fases da evolução positiva, 
individual ou coletiva. 

XXIII — Essa sumária apreciação basta para indicar o destino e assinalar a impor- 
tância de tal lei enciclopédica, em que finalmente reside uma das duas idéias mestras, 
cuja íntima combinação espontânea constitui necessariamente a base sistemática da 
nova filosofia geral. O término deste longo Discurso, onde o verdadeiro espírito positivo 
foi caracterizado sob todos os aspectos essenciais, aproxima-se assim de seu início, por- 
quanto essa teoria da classificação deve ser considerada, em último lugar, como natural- 
mente inseparável da teoria da evolução exposta primeiramente. De sorte que o discurso 
atual forma ele próprio um verdadeiro conjunto, imagem fiel, apesar de contraída, de um 
vasto sistema. É fácil compreender, com efeito, que a consideração habitual de tal hierar- 
quia deve tornar-se indispensável, seja para aplicar convenientemente nossa lei inicial 
dos três estados, seja para dissipar suficientemente as únicas objeções sérias que pode 
comportar. A frequente simultaneidade histórica das três grandes fases mentais diante de 
especulações diferentes constituiria, de outra maneira, uma inexplicável anomalia, mas 
se resolve, ao contrário, espontaneamente, graças à nossa lei hierárquica, relativa tanto 
à sucessão quanto à dependência dos diversos estudos positivos. Concebe-se paralela- 
mente, em sentido inverso, que a regra da classificação supõe essa evolução, já que 
todos os motivos essenciais da ordem assim estabelecida resultam, no fundo, da rapidez 
desigual de tal desenvolvimento nas diferentes ciências fundamentais. 

A combinação racional dessas duas idéias mestras, constituindo a unidade neces- 
sária do sistema científico, cujas partes concorrem progressivamente a um mesmo fim, 
assegura também, de outra parte, a justa independência dos diversos elementos princi- 
pais, muitíssimas vezes alterados ainda por aproximações viciosas. No seu despertar ini- 
cial, o único que até agora foi realizado, o espírito positivo deve estender-se gradual- 
mente dos estudos inferiores aos estudos superiores; por isso estes últimos ficaram 
inevitavelmente expostos à opressiva invasão dos primeiros, contra a ascendência dos 
quais sua indispensável originalidade não encontrava de início outra garantia a não ser 
o prolongamento exagerado da tutela teológico-metafísica. Essa deplorável flutuação, 
muito sensível ainda nas ciências dos corpos vivos, caracteriza hoje o que, no fundo, con- 
têm de real as longas controvérsias, de resto tão inócuas a todos os outros propósitos, 
entre o materialismo e o espiritualismo. Representam, de maneira provisória, sob formas 
igualmente viciosas, as necessidades igualmente graves, apesar de infelizmente opostas 
entre si até este momento, da realidade e da dignidade de quaisquer de nossas especula- 
ções. Chegando finalmente à sua maturidade sistemática, o espírito positivo dissipa ao 
mesmo tempo as duas ordens de aberrações, terminando esses conflitos estéreis, graças 
à satisfação simultânea de ambas as condições viciosamente contrárias, como logo indi- 
ca nossa hierarquia científica, combinada com nossa lei de evolução, porquanto cada 
ciência não pode chegar a uma verdadeira positividade a não ser que a originalidade de 
seu próprio caráter seja plenamente consolidada. 

XXIV — Uma aplicação direta dessa teoria enciclopédica, ao mesmo tempo cienti- 
fica e lógica, nos conduz, enfim, a determinar exatamente a natureza e a destinação do 


DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO 99 


ensino especial a que este tratado se consagra. Resulta, com efeito, das explicações 
precedentes que a principal eficácia, primeiro mental, depois social, a ser hoje procurada 
numa sábia propagação universal dos estudos positivos depende necessariamente duma 
estrita observância didática da lei de hierarquia. Para cada rápida iniciação individual, 
como para uma lenta iniciação coletiva, permanecerá sempre indispensável que o espi- 
rito positivo, desenvolvendo seu regime na medida em que amplia seu domínio, eleve-se 
pouco a pouco do estado matemático inicial ao estado sociológico final, percorrendo 
sucessivamente os quatro graus intermediários, astronômico, físico, químico e biológico. 
Nenhuma superioridade pessoal pode verdadeiramente dispensar essa gradação funda- 
mental, a respeito da qual temos demasiadas ocasiões de constatar hoje, nas mais altas 
inteligências, uma irreparável lacuna, que às vezes tem neutralizado eminentes esforços 
filosóficos. Tal marcha deve, pois, tornar-se ainda mais indispensável na educação uni- 
versal, onde as especialidades possuem pouca importância, e cuja principal utilidade, 
mais lógica do que científica, exige essencialmente plena racionalidade, sobretudo quan- 
do se trata de constituir, enfim, o verdadeiro regime mental. Assim esse ensino popular 
deve hoje reportar-se principalmente ao par científico inicial, até que se encontre conve- 
nientemente vulgarizado. É aí que todos devem primeiramente colher as verdadeiras 
noções elementares de sua positividade geral, adquirindo os conhecimentos que servem 
de base a todas as outras especulações reais. A despeito de essa estrita obrigação condu- 
zir necessariamente a colocar no início os estudos puramente matemáticos, é preciso, 
contudo, considerar que não se trata ainda de estabelecer uma sistematização direta e 
completa da instrução popular, mas somente de dirigir de modo conveniente o impulso 
filosófico que aí deve desembocar. Daí reconhecer-se facilmente que tal movimento deve 
sobretudo depender dos estudos astronômicos que, por sua natureza, oferecem necessa- 
riamente a plena manifestação do verdadeiro espírito matemático, de que constituem, no 
fundo, a principal destinação. Há tanto menos inconvenientes atuais em caracterizar 
assim o par inicial unicamente pela astronomia quanto os conhecimentos matemáticos 
verdadeiramente indispensáveis à sua judiciosa vulgarização já estão bastante divulga- 
dos ou são bastante fáceis de adquirir, para que se possa hoje limitar-se a supó-los prove- 
nientes duma preparação espontânea. 

Essa preponderância necessária da ciência astronômica na primeira programação 
sistemática da iniciação positiva está plenamente conforme à influência histórica de tal 
estudo, até aqui principal motor das grandes revoluções intelectuais. O sentimento funda- 
mental dé invariância das leis naturais deveria, com efeito, desenvolver-se primeiramente 
com respeito aos fenômenos mais simples e mais gerais, cuja regularidade e grandeza 
superiores nos manifestam a única ordem real completamente independente de toda 
modificação humana. Antes mesmo de comportar qualquer caráter verdadeiramente 
científico, essa classe de concepções determinou sobretudo a passagem decisiva do feti- 
chismo ao politeísmo, em toda parte resultando do culto dos astros. Seu primeiro esboço 
matemático, nas escolas de Tales e de Pitágoras, constituiu em seguida a principal fonte 
mental de decadência do politeísmo e da ascendência do monoteísmo. Enfim, o floresci- 
mento sistemático da positividade moderna, tendendo abertamente a um novo regime 
filosófico, resultou essencialmente da grande renovação astronômica iniciada por Copér- 
nico, Kepler e Galileu. Não cabe, pois, admirar-se de que a universal iniciação positiva, 
sobre a qual deve apoiar-se o advento direto da filosofia definitiva, também se encontre 
na dependência inicial de tal estudo, segundo a conformidade necessária da educação 
individual com a evolução coletiva. Este é, sem dúvida, o último ofício fundamental que 
lhe deve ser peculiar no desenvolvimento geral da razão humana que, uma vez atingindo 


100 COMTE 


para todos uma verdadeira positividade, deverá marchar em seguida sob novo impulso 
filosófico, diretamente emanado da ciência final, desde agora investida para sempre de 
suas prerrogativas normais. Tal é a eminente utilidade, tanto social quanto mental, que 
aqui se trata de retirar, enfim, duma judiciosa exposição popular do sistema atual dos sã- 
bios estudos astronômicos. 


AUGUSTE COMTE 


CATECISMO 
POSITIVISTA 


Tradução e notas de MIGUEL LEMOS 


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PREFÁCIO 


“Em nome do passado e do futuro, os servidores teóricos e os servidores práticos da 
humanidade vêm tomar dignamente a direção geral dos negócios terrestres, para cons- 
truir, enfim, a verdadeira providência, moral, intelectual e material; excluindo irrevoga- 
velmente da supremacia política todos os diversos escravos de Deus, católicos, protes- 
tantes ou deístas, como sendo, ao mesmo tempo, atrasados e perturbadores.” Tal foi a 
declaração decisiva com que terminei, no Palais Cardinal, no domingo, 19 de outubro de 
1851, após um resumo de cinco horas, meu terceiro Curso Filosófico sobre a História 
Geral da Humanidade. Depois desse memorável encerramento, a publicação do segundo 
tomo do meu Sistema de Política Positiva acaba de comprovar diretamente quanto con- 
vém semelhante destino social à filosofia capaz de inspirar a teoria mais sistemática da 
ordem humana. 

Vimos, pois, abertamente libertar o Ocidente de uma democracia anárquica e de 
uma aristocracia retrógrada, para constituirmos, tanto quanto possível, uma verdadeira 
sociocracia, que faça concorrer sabiamente para a regeneração comum todas as forças 
humanas, aplicadas sempre conforme a natureza de cada uma. Com efeito, nós, sociocra- 
tas, não somos nem democratas, nem aristocratas. Aos nossos olhos, a massa respeitável 
destes dois partidos opostos representa empiricamente, de um lado, a solidariedade, do 
outro, a continuidade, entre as quais o positivismo estabelece profundamente uma subor- 
dinação necessária, que substitui enfim o antagonismo deplorável que as separava. Mas, 
conquanto nossa política se eleve igualmente acima destas duas tendências incompletas 
e incoerentes, estamos longe de aplicar hoje a mesma reprovação aos dois partidos 
correspondentes. Trinta anos há que dura minha carreira filosófica e social e sempre 
senti um profundo desprezo pelo que se tem chamado, sob nossos diversos regimes, a 
oposição, e uma secreta afinidade pelos construtores quaisquer. Aqueles mesmos que 
queriam construir com materiais evidentemente gastos pareceram-me sempre preferíveis 
aos meros demolidores, num século em que a reconstrução geral se torna por toda parte 
a principal necessidade. Apesar do atraso de nossos conservadores oficiais, nossos puros 
revolucionários se me afiguram ainda mais afastados do verdadeiro espírito de nosso 
tempo. Estes prolongam obcecadamente, pelo meio do século XIX, a direção negativa 
que só podia convir ao XVIII, sem resgatarem esta estagnação pelos sentimentos genero- 
sos de renovação universal que caracterizaram seus predecessores. 

Por isso, se bem que as inclinações populares permaneçam espontaneamente favo- 
ráveis a eles, o poder passa sempre às mãos de seus adversários, que, pelo menos, reco- 
nheceram a incompetência orgánica das doutrinas metafísicas, e procuram alhures prin- 
cípios de reconstrução. Na maior parte destes, a retrogradação não é, no fundo, senão 
um último recurso provisório, em falta de coisa melhor, sem nenhuma convicção teoló- 


104 ; COMTE 


gica verdadeira, contra uma anarquia iminente. Posto que todos os estadistas pareçam 
pertencer agora a esta escola, pode-se assegurar que ela apenas lhes fornece as fórmulas 
indispensáveis à coordenação de suas vistas empíricas, enquanto esperam pela concate- 
nação mais real e mais estável dimanada de uma nova doutrina universal." 

Tal é certamente o único chefe temporal verdadeiramente eminente de que nosso 
século pode até aqui honrar-se, o nobre czar que, fazendo expandir-se seu império imen- 
so tanto quanto sua situação atual comporta, preserva-o, com enérgica sabedoria, de 
uma vã fermentação. Seu judicioso empirismo compreendeu que o Ocidente era o único 
investido da gloriosa e difícil missão de fundar a regeneração humana, de que o Oriente 
deve em seguida, pacificamente, apropriar-se, à medida que ela surja. Ele me parece 
mesmo ter sentido que esta imensa elaboração se achava especialmente reservada para o 
grande centro ocidental, cuja espontaneidade necessariamente desordenada deve apenas 
ser sempre respeitada, como profundamente indispensável à solução comum. A agitação 
habitual de todo o restante do Ocidente, embora mais dificil de ser contida que a do 
Oriente, é, no fundo, quase tão nociva ao curso natural da reorganização final, de que ela 
tende a deslocar inutilmente o principal foco, quanto ao conjunto do passado fixado em 
França. 

Nossa situação ocidental exclui por tal modo o ponto de vista puramente revolucio- 
nário que ela reserva ao campo oposto a produção das máximas mais características. 
Sem embargo da memorável fórmula prática devida a um democrata, afortunadamente 
iletrado,? foi entre os puros conservadores que surgiu a mais profunda sentença política 
do século XIX: Só se destrói o que se substitui. O autor desta admirável máxima, tão 
bem expressa quanto bem pensada, não oferece, entretanto, nada de eminente sob o 
aspecto intelectual. Ele só se recomenda verdadeiramente por uma rara combinação das 
três qualidades práticas, a energia, a prudência e a perseverança. Mas o ponto de vista 
orgânico tende hoje por tal forma a alargar as concepções, que ele basta, numa situação 
favorável, para inspirar a um espírito superficial sara princípio realmente profundo, que o 
positivismo adota e desenvolve sistematicamente.? 

Seja como for, a natureza retrógrada das doutrinas exaustas que os nossos conser- 
vadores empregam provisoriamente deve torná-las essencialmente impróprias para diri- 
gir a política real no meio de uma anarquia que teve sua primeira origem na impotência 
final das antigas crenças. A razão ocidental não pode mais deixar-se guiar por opiniões 
evidentemente indemonstráveis, e até radicalmente quiméricas, como todas as que são 
inspiradas por uma teologia qualquer, ainda mesmo reduzida ao seu dogma fundamen- 


* De conformidade com o conselho dado por Augusto Comte a um dos seus discípulos ingleses, John Fis- 


her, que então tentava traduzir este Catecismo, suprimimos o parágrafo relativo ao Czar Nicolau I. 

A título de documento, reproduzimos aqui, conforme a cópia autêntica que nos remeteu Jorge Lagarrigue, o 
trecho da carta em que Fisher comunica a Henry Edger essa resolução do Mestre: “Manchester 18th Aristo- 
tles 69. My dear Sir and Confrêre. Let me first complete a duty — with reference to the translation of the 
Catechism. I have received the command of our reverend Master to make the following alterations: The 
paragraph commencing “Tel est certainement”, p. 7 and ending with the words “fixe en France”, p. 8, is to 
be left out of the next edition, consequently out of any translations”. 

2 Alude a Caussidiêre, prefeito de polícia do governo da Revolução de 1848. A máxima é esta: “Precisamos 
fazer ordem com desordem”. 

3 É por engano que Augusto Comte atribui aqui e alhures a máxima citada a Luís Bonaparte, depois Napo- 
leão II. Este, com efeito, empregou semelhante frase numa carta política dirigida ao General Piat, pouco 
tempo antes da composição deste Catecismo. Não há dúvida, porém, de que tal sentença já havia sido formu- 
lada, provavelmente por Danton, como se infere do seguinte trecho da Biographie des Ministres de la Révo- 
lution, obra publicada em 1825: “Danton parecia estar convencido deste princípio político, que só se destrói 
verdadeiramente o que é substituído, e ele fazia consistir neste sistema toda a revolução”. 


CATECISMO POSITIVISTA 105 


tal.* Todos reconhecem hoje que a nossa atividade prática deve cessar de consumir-se 
em hostilidades mútuas, para fomentar na paz o aproveitamento comum do planeta 
humano. Menos ainda podemos persistir neste estado de infância intelectual e moral em 
que a nossa conduta não assenta senão sobre motivos absurdos e degradantes. Sem 
nunca repetir o século XVIII, deve o século XIX continuá-lo sempre, realizando enfim o 
nobre voto de uma religião demonstrada dirigindo uma atividade pacífica. 

Desde que a situação afasta toda tendência puramente negativa, as únicas escolas 
filosóficas do último século que caíram em verdadeiro descrédito são as seitas inconse- 
quentes, cujo predomínio não podia deixar de ser efêmero. Os demolidores incompletos, 
como Voltaire e Rousseau, que julgavam poder derrubar o altar conservando o trono, ou 
vice-versa, estão irrevogavelmente decaídos, depois de terem dominado, segundo o desti- 
no normal que lhes cabia, as duas gerações que prepararam e que levaram a termo a 
explosão revolucionária. Desde, porém, que a reconstrução está na ordem do dia, a aten- 
ção pública volta-se cada vez mais para a grande e imortal escola de Diderot e Hume, 
que há de realmente caracterizar o século XVIII, ligando-o ao anterior por Fontenelle e 
ao seguinte por Condorcet. Igualmente emancipados em religião e em política, esses 
poderosos pensadores tendiam necessariamente para uma reorganização total e direta, 
por mais confusa que devesse ser então a noção de semelhante reforma. Todos eles abra- 
cariam hoje a única doutrina que, fundando o futuro sobre o passado, assenta, enfim, as 
bases inabaláveis da regeneração ocidental. É de uma tal escola que me honrarei sempre 
de descender imediatamente, por intermédio de meu precursor essencial, o eminente Con- 
dorcet. Pelo contrário, nunca esperei senão óbices, espontâneos ou propositais, por parte 
dos atrasados destroços das seitas superficiais e imorais oriundas de Voltaire e de 
Rousseau. 

Mas a essa grande estirpe histórica sempre referi o que os nossos últimos adversá- 
rios, quer teológicos, quer metafísicos, ofereceram de realmente grande. Hume constitui 
meu principal precursor filosófico, Kant se acha a ele acessoriamente ligado; a concep- 
ção fundamental deste não foi verdadeiramente sistematizada e desenvolvida senão pelo 
positivismo. Do mesmo modo, sob o aspecto político, foi necessário que eu completasse 
Condorcet por De Maistre, de quem assimilei, logo no começo de minha carreira, todos 
os princípios essenciais, que não são mais agora apreciados senão na escola positiva. 
Tais são, com Bichat e Gall, como precursores científicos, os seis predecessores imedia- 
tos que hão de me religar sempre aos três pais sistemáticos da verdadeira filosofia 
moderna, Bacon, Descartes e Leibniz. Em virtude desta nobre filiação, a Idade Média, 
intelectualmente resumida por Santo Tomás de Aquino, Rogério Bacon e Dante, subor- 
dina-me diretamente ao principe eterno dos verdadeiros pensadores, o incomparável 
Aristóteles. 

Remontando até esta origem normal, sente-se profundamente que, desde a suficiente 
extensão do domínio romano, as populações de elite procuram em vão a religião univer- 
sal. A experiência demonstrou cabalmente que este voto final não pode ser satisfeito por 
nenhuma crença sobrenatural. Dois monoteísmos incompatíveis aspiraram igualmente a 
essa universalidade necessária, sem a qual a humanidade não poderia seguir o seu desti- 
no natural. Mas os esforços opostos de um e outro apenas conseguiram neutralizar-se 
mutuamente, de modo que semelhante atributo ficou reservado as doutrinas demons- 
tráveis e discutíveis. Há mais de cinco séculos que o islamismo desistiu de dominar o 


* Deus. 


De COMTE 
Ocidente, e o catolicismo abandonou ao seu eterno antagonista o túmulo de seu pretenso 
fundador. * 

Estas vãs aspirações espirituais nem sequer puderam abarcar todo o território do 
antigo domínio temporal, que ficou repartido quase igualmente entre os dois mono- 
teísmos inconciliáveis. 

O Oriente e o Ocidente devem, pois, procurar, fora de toda teologia ou metafísica, 
as bases sistemáticas de sua comunhão intelectual e moral. Esta fusão tão esperada, e 
que deverá estender-se em seguida gradualmente a totalidade de nossa espécie, não pode 
evidentemente provir senão do positivismo, isto é, de uma doutrina caracterizada sempre 
pela combinação da realidade com a utilidade. Suas teorias, por muito tempo limitadas 
aos fenômenos mais simples, produziram aí as únicas convicções realmente universais 
que têm existido até hoje. Mas este privilégio natural dos métodos e das doutrinas positi- 
vas não podia ficar sempre circunscrito ao domínio matemático e físico. Desenvolvido 
primeiramente quanto à ordem material, ele abraçou em seguida a ordem vital, de onde 
acaba enfim de estender-se até a ordem humana, coletiva ou individual. Esta plenitude 
decisiva do espírito positivo desvanece agora todos os pretextos para a conservação fac- 
tícia do espírito teológico, que se tornou, no Ocidente moderno, tão perturbador quanto 
o espírito metafísico, que dele se origina histórica e dogmaticamente. Por outro lado, 
havia muito, aliás, que a degradação moral e política do sacerdócio correspondente des- 
truira toda a esperança de atalhar, como na Idade Média, os vícios da doutrina pela 
sabedoria instintiva de seus melhores intérpretes. 

De hoje em diante, abandonada espontaneamente à sua corrupção natural, a crença 
monotéica, cristã ou muçulmana, merece cada vez mais a reprovação que seu advento 
inspirou, pelo espaço de três séculos, aos mais nobres práticos e teóricos do mundo 
romano. Não podendo, então, julgar o sistema senão pela doutrina, eles não hesitavam 
em repelir, como inimiga do gênero humano, uma religião provisória que fazia consistir 
a perfeição num isolamento celeste. O instinto moderno reprova ainda mais uma moral 
que proclama as inclinações benévolas como alheias à nossa natureza, que desconhece a 
dignidade do trabalho, a ponto de fazê-lo derivar de uma maldição divina, e que erige a 
mulher como fonte de todo mal. Tácito e Trajano não podiam prever que, durante alguns 
séculos, a sabedoria sacerdotal, auxiliada por uma situação favorável, haveria de conter 
suficientemente os vícios naturais de tais doutrinas para delas tirar, provisoriamente, 
admiráveis resultados sociais. Desde que o sacerdócio ocidental se tomou irremedia- 
velmente retrógrado, sua crença, entregue a si mesma, tende a desenvolver sem peias o 
caráter imoral inerente à sua natureza anti-social. Ela só mereceu os resguardos dos 
conservadores prudentes enquanto foi impossível substituir-lhe uma concepção melhor 
do mundo e do homem, a qual só podia resultar de uma lenta ascensão do espírito positi- 
vo. Mas esta laboriosa iniciação estando agora terminada, o positivismo elimina irrevo- 
gavelmente o catolicismo, como qualquer outro teologismo, em virtude mesmo da adyni- 
rável máxima social acima citada. 

Depois de ter plenamente satisfeito a inteligência e a atividade, a religião positiva, 
sempre impulsionada por sua realidade característica, estendeu-se convenientemente até 
o sentimento, que doravante forma seu domínio principal e se torna a base de sua unida- 
de. Não receamos, pois, que os verdadeiros pensadores, teóricos ou práticos, possam 
hoje, como no começo do catolicismo, desconhecer a superioridade de uma fé real e com- 
pleta, que, longe de ser fortuitamente social, se mostra tal por sua própria natureza. 


* Para Augusto Comte, São Paulo é o verdadeiro fundador do catolicismo. 


CATECISMO POSITIVISTA 107 


Compete, aliás, à conduta moral e política de seu sacerdócio nascente, e de todos os seus 
verdadeiros adeptos, o fazer apreciar empiricamente a excelência da nova fé, mesmo por 
aqueles que não puderem julgar diretamente os princípios dela. Uma doutrina que há de 
desenvolver sempre todas as virtudes humanas, pessoais, domésticas e cívicas será em 
breve respeitada por todos os seus adversários honestos, qualquer que seja a vã predile- 
ção destes por uma síntese absoluta e egoísta oposta à síntese relativa e altruísta. 

“A fim de instituir, porém, esta concorrência decisiva, cumpria primeiro condensar 
assaz o positivismo para que ele se pudesse tornar verdadeiramente popular. Tal é o des- 
tino especial deste opúsculo excepcional, por cuja causa interrompo, durante algumas 
semanas, minha grande construção religiosa, da qual só está terminada até agora a pri- 
meira metade. º A princípio julguei que este precioso episódio teria de ser adiado até o 
completo acabamento daquele imenso trabalho. Mas, depois de ter escrito, em janeiro de 
1851, a teoria positiva da unidade humana, senti-me bastante adiantado para fazer suce- 
der este intermédio ao volume cujo primeiro e principal capítulo consta dessa teoria. 
Crescendo cada vez mais, à medida que eu elaborava esse tomo decisivo, semelhante 
esperança tornou-se completa quando escrevi seu prefácio final. Realizo-a hoje, antes de 
começar a construção da sociologia dinâmica, que caracterizará, no ano próximo, o ter- 
ceiro volume do meu Sistema de Politica Positiva. 

Devido à maturidade inesperada de minhas concepções principais, esta resolução 
foi muito fortalecida pela crise feliz que acaba de abolir o regime parlamentar e de insis- 
tuir a república ditatorial, duplo preâmbulo de toda verdadeira regeneração. ' Sem dúvi- 
da, esta ditadura não oferece ainda o caráter essencial explicado em meu curso positi- 
vista de 1847. Falta-lhe sobretudo conciliar-se suficientemente com uma plena liberdade 
de exposição, e mesmo de discussão, diretamente indispensável à reorganização espiri- 
tual, e que é, aliás, a garantia única contra toda tirania retrógrada. Mas este comple- 
mento necessário não tardará muito em realizar-se de um modo qualquer, que infeliz- 
mente me parece supor, como as fases precedentes, uma última crise violenta. Obtido que 
seja este complemento, seu advento empírico deverá determinar em breve a pacífica evo- 
lução do triunvirato sistemático que caracteriza a ditadura temporal, apresentada, no 
curso a que acima aludi, como peculiar à transição orgânica. Sem esperar, porém, por 
estas duas novas fases do empirismo revolucionário, a situação ditatorial permite já a 
propagação direta das meditações regeneradoras. A liberdade de exposição que ela 
proporciona espontaneamente a todos os verdadeiros construtores, quebrando, enfim, o 
vão domínio dos palradores, devia especialmente convidar-me a dirigir imediatamente os 
pensamentos femininos e proletários para a renovação fundamental. 

Este trabalho episódico fornecendo dignamente uma base sistemática à propagação 
ativa do positivismo, auxilia necessariamente minha construção principal, trazendo a 
nova religião para o seu verdadeiro meio social. Por mais sólidos que sejam os fun- 


º Refere-se ao Sistema de Política Positiva, do qual só estavam então publicados os dois primeiros volumes. 
7 Alude ao golpe de Estado de 2 de dezembro de 1851. Cumpre observar que, se este mereceu a aprovação 
de Augusto Comte, porque abolia o regime parlamentar e inaugurava a ditadura republicana, por ele aconse- 
lhada à França desde 1847, não deixou o nosso Mestre de reprovar a restauração do Império. Lembraremos, 
a este propósito, um fato muito pouco conhecido e completamente esquecido pelos historiadores: o único 
senador da República que votou contra semelhante restauração foi Viellard, aderente filósofico e político do 
nosso Mestre desde 1822. 

8 Cumpre completar e retificar o que aqui se diz acerca do advento do triunvirato sistemático, com a mar- 
cha que para tal advento traçou depois Augusto Comte, no último capítulo do tomo IV de seu Sistema de 
Política Positiva e no Apelo aos Conservadores. 


108 COMTE 


damentos lógicos e científicos da disciplina intelectual que a filosofia positiva institui, 
esse regime severo é demasiado antipático aos espíritos atuais para que ele possa prevale- 
cer jamais sem o apoio irresistível das mulheres e dos proletários. A necessidade de tal 
regime não pode ser somente apreciada senão nesta dupla massa social, que, alheia a 
toda pretensão doutoral, é a única que pode impor a seus chefes sistemáticos as condi- 
ções enciclopédicas exigidas pelo ofício social deles. Eis por que não receio popularizar 
aqui alguns termos filosóficos realmente indispensáveis, que o positivismo não inventou, 
mas cuja concepção foi por ele sistematizada, e cujo emprego ele desenvolveu. Tais são 
nomeadamente dois pares essenciais de fórmulas características: primeiro estático e 
dinâmico, em seguida objetivo e subjetivo, sem os quais minha exposição ficaria insufi- 
ciente. Quando estes termos são definidos com propriedade de uma vez por todas, sobre- 
tudo segundo uma acepção invariável, o judicioso emprego deles facilita muito as expli- 
cações filosóficas, em vez de as tornar menos inteligíveis. Não hesito em consagrar aqui 
expressões que a religião positiva deve fazer passar desde já na circulação universal, 
atenta à alta importância de seu uso intelectual e também moral. 

Levado, assim, a compor um verdadeiro catecismo para a religião da humanidade, 
tive, em primeiro lugar, que examinar sistematicamente a forma dialógica, sempre adota- 
da em tais exposições. Não tardei em achar aí um novo exemplo do atilado instinto com 
que a sabedoria prática antecipa muitas vezes as sãs indicações da teoria. Tendo acaba- 
do de construir especialmente a teoria positiva da linguagem humana, senti logo que, 
devendo a expressão ter sempre por objeto final a comunicação, sua forma natural con- 
siste no diálogo. E como, por outro lado, toda combinação, mesmo fisica, e sobretudo ló- 
gica, é binária, tal conversação não comporta, sob pena de ser confusa, senão um único 
interlocutor. O monólogo só pode realmente convir à concepção, cuja marcha ele se limi- 
ta a formular, como se a pessoa pensasse em voz alta, sem cuidar de nenhum ouvinte. 
Quando o discurso não tem somente por fim assistir às investigações do raciocínio, mas 
dirigir a comunicação dos resultados deste, ele exige uma nova elaboração, especial- 
mente adaptada a essa transmissão. É necessário, então, considerar o estado peculiar do 
ouvinte, e prever as modificações que semelhante exposição há de suscitar em sua mar- 
cha espontânea. Em uma palavra, a simples narrativa deve assim transformar-se numa 
verdadeira conversação. E nem as condições essenciais desta podem ser suficientemente 
preenchidas senão supondo um interlocutor único e claramente determinado. Se, porém, 
este tipo for bem escolhido, poderá ele, no uso ordinário do diálogo, representar suficien- 
temente qualquer leitor; pois que, por outro lado, não é possível variar o modo de exposi- 
ção segundo as diversas conveniências individuais, como no caso da verdadeira 
conversação. 

O discurso plenamente didático deveria, portanto, diferir essencialmente do simples 
discurso lógico, em que o pensador segue desimpedido sua própria marcha sem levar em 
nenhuma conta as condições naturais de uma comunicação qualquer. Todavia, a fim de 
evitar uma laboriosa refusão, limitamo-nos quase sempre a transmitir os pensamentos 
como eles foram a princípio concebidos, posto que este modo grosseiro de exposição 
muito contribua para a pouca eficácia da maior parte das leituras. A forma dialógica, 
peculiar a toda verdadeira comunicação, é reservada para explicar as concepções que 
são, ao mesmo tempo, assaz importantes e assaz amadurecidas. É por isso que o ensino 
religioso foi em todos os tempos efetuado por via de conversação e não de narrativa. 
Longe de denunciar uma incúria, que só seria desculpável nos casos secundários, esta 
forma, quando bem instituída, constitui, pelo contrário, o único modo de exposição 
verdadeiramente didático: convém igualmente a todas as inteligências. Mas as dificul- 


CATECISMO POSITIVISTA 109 


dades próprias da nova elaboração que o diálogo exige fazem justamente que se desista 
dele nas comunicações ordinárias. Seria pueril procurar esta perfeição num ensino desti- 
tuído de interesse fundamental. Por outro lado, esta transformação didática só é reali- 
zável em relação a doutrinas bastante elaboradas para permitir comparar nitidamente as 
diversas maneiras de expor o conjunto delas e prever com facilidade as objeções que elas 
hão de suscitar. 

Se eu houvesse de indicar aqui todos os princípios gerais que convêm à arte de 
comunicar, ainda caracterizaria o aperfeiçoamento relativo ao estilo. Dedicados sobre- 
tudo à expressão dos sentimentos, os poetas reconheceram sempre quanto os versos são 
para isso preferíveis à prosa, a fim de tornar mais estética a linguagem artificial, aproxi- 
mando-a mais da linguagem natural. Ora, os mesmos motivos seriam também aplicáveis 
à comunicação dos pensamentos, se a esta se devesse ligar igual importância. A concisão 
do discurso e a assistência das imagens, duplo caráter essencial da verdadeira versifica- 
ção, seriam tão adequados a aperfeiçoar a exposição como a efusão. Assim, a comunica- 
ção perfeita não exigiria tão-somente a substituição do diálogo pelo monólogo, mas tam- 
bém a da prosa pelo verso. Todavia, este segundo melhoramento didático deve ainda ser 
mais excepcional que o primeiro, por causa dos novos cuidados que requer. Ele supõe, 
até, maior maturidade nas concepções correspondentes, não só no intérprete, mas tam- 
bém no auditório, tendo este de suprir logo, por um trabalho espontáneo, as lacunas da 
concisão poética. Por isso é que muitos poemas admiráveis ainda jazem escritos em 
prosa, apesar da imperfeição de semelhante forma, desculpável, então, por se tratar de 
um domínio muito pouco familiar. Um motivo análogo foi ainda maior impedimento 
para que se versificasse qualquer catecismo religioso. Mas a realidade e a espontaneidade 
que distinguem as crenças positivas permitirão um dia dotar sua exposição popular com 
este último aperfeiçoamento, quando elas começarem a se difundir assaz para compor- 
tarem uma concisão imaginosa. É só provisoriamente, portanto, que nos devemos limitar 
aí a substituir o monólogo pelo diálogo. 

Fundado nesta teoria especial da forma didática, fui levado não só a justificar o uso 
anterior, mas também a melhorá-lo no que se refere ao interlocutor. A indeterminação 
total do ouvinte tornava essencialmente vago o modo dialógico que assim até ficava 
quase ilusório. Tendo sistematizado a instituição empírica do diálogo, senti logo que ela 
ficaria incompleta, e, portanto, insuficiente, enquanto o interlocutor não fosse nele com 
clareza definido, ao menos para o autor. É só tendo em vista uma comunicação real, em- 
bora atualmente ideal, que se podem desenvolver bastante todas as vantagens essenciais 
de semelhante forma. Institui-se, então, uma verdadeira conversação, em vez de uma nar- 
rativa dialogada. 

Aplicando logo este princípio evidente, não podia eu deixar de espontaneamente 
escolher a angélica interlocutora que, após um único ano de influência objetiva, se acha, 
há mais de seis, subjetivamente associada a todos os meus pensamentos como a todos os 
meus sentimentos. Graças a ela tornei-me, enfim, para a humanidade um órgão verdadei- 
ramente duplo, como todo aquele que experimentou de modo digno o ascendente femini- 
no. Sem ela nunca eu teria podido fazer suceder ativamente a carreira de São Paulo a de 
Aristóteles, fundando a religião universal sobre a sã filosofia, depois de ter tirado esta da 
ciência real. A constante pureza de nosso laço excepcional e também a superioridade 
admirável do anjo menosprezado já são, aliás, assaz apreciadas pelas almas de elite. 
Quando, há quatro anos, por ocasião da publicação de meu Discurso sobre o Conjunto 
do Positivismo, revelei esta incomparável inspiração, ela não podia a princípio ser julga- 
da senão pelos seus resultados intelectuais e morais, desde então manifestos aos corações 


110 COMTE 


simpáticos e aos espíritos sintéticos. Mas, no ano passado, o tríplice preâmbulo, que 
sempre distinguirá o primeiro tomo de meu Sistema de Política Positiva, fez com que 
cada um pudesse apreciar diretamente essa natureza egrégia. Por isso, em minha recente 
publicação do segundo volume desse mesmo tratado, pude já felicitar-me abertamente 
pela tocante unanimidade das simpatias decisivas que ambos os sexos sentem pela nova 
Beatriz. Estes três antecedentes públicos dissipam aqui qualquer hesitação acerca de 
minha santa interlocutora, bastante conhecida dos leitores dignamente preparados para 
que as nossas conferências possam na realidade lhes inspirar um interesse próprio e 
direto. 

Semelhante catecúmena preenche vantajosamente todas as condições essenciais do 
melhor tipo didático. Madame Clotilde de Vaux foi-me tão cedo arrebatada que, apesar 
de sua superioridade pessoal, ela não póde ser bastante iniciada no positivismo, para o 
qual tendiam espontaneamente seus votos e seus esforços.” Antes que a morte interrom- 
pesse de modo irrevogável esta afetuosa instrução, já a dor e os desgostos a haviam 
profundamente estorvado. Efetuando hoje subjetivamente a preparação sistemática que 
apenas pude esboçar objetivamente, a discípula angélica só me oferece, pois, as disposi- 
ções essenciais que apresentam também a maioria das mulheres, e mesmo muitos prole- 
tários. Em todas essas almas que o positivismo ainda não atingiu, eu apenas suponho, 
como no caso de minha eterna companheira, um desejo profundo de conhecer a religião 
capaz de superar a anarquia moderna, e uma sincera veneração pelo seu sacerdote. Prefe- 
rirei, até, os leitores que nenhuma cultura escolástica impeça de preencherem esponta- 
neamente, no grau necessário, estas duas condições prévias. 

Todos os que conhecem minha instituição geral dos verdadeiros anjos da guarda, já 
bastante explicada em minha Política Positiva, sabem, aliás, que o principal tipo femi- 
nino é aí habitualmente inseparável dos outros dois. Esta doce conexão aplica-se mesmo 
ao caso excepcional que me oferece reunidas, em minha casta companheira imortal, a 
mãe subjetiva que minha segunda vida pressupõe e a filha objetiva que estava destinada 
a embelezar minha existência temporária. Desde que a sua invariável reserva purificara 
suficientemente minha afeição até levantá-la ao nível da sua, eu não aspirava senão à 
união plenamente confessável que devia resultar de uma adoção legal, em harmonia com 
a desigualdade de nossas idades. Quando eu publicar nossa digna correspondência, "º 
minha última carta constatará diretamente este santo projeto, fora do qual nossas fatali- 
dades respectivas nos teriam vedado o sossego e a felicidade. 

É pois, sem nenhum esforço, que vou aplicar neste catecismo os qualificativos pes- 
soais impostos habitualmente pela instrução religiosa. O sacerdócio positivo exige, ainda 
mais do que o sacerdócio teológico, uma inteira maturidade, sobretudo em virtude de sua 
imensa preparação enciclopédica. Eis aí por que estabeleci a idade de quarenta e dois 
anos para a ordenação dos padres da humanidade, pois é então que finaliza todo o desen- 
volvimento corpóreo e cerebral, e termina, ao mesmo tempo, a primeira vida social, Os 
nomes pai e filha tornam-se, pois, especialmente apropriados entre o iniciador e a catecú- 
mena, segundo a antiga etimologia do título sacerdotal. Empregando-os aqui, aproximo- 
me espontaneamente das relações pessoais em que eu teria vivido se não fosse nossa fatal 
catástrofe. 

Mas esta concentração da santa conferência no anjo preponderante não deve enco- 
brir, nem ao leitor, nem a mim próprio, a constante participação tacitamente peculiar às 


º Clotilde de Vaux nasceu a 3 de abril de 1815 e faleceu a 5 de abril de 1846. 
Po Esta correspondência só foi publicada, com o Testamento, Orações e Confissões Anuais, em 1886. 


CATECISMO POSITIVISTA lda 


minhas duas outras padroeiras. A venerável mãe!" e a nobre filha adotiva,'? cuja 
influência subjetiva e ação objetiva já fiz conhecer alhures, estarão aqui sempre presentes 
a meu coração quando meu espírito sofrer dignamente o impulso dominante. Insepará- 
veis daqui por diante, estes três anjos se acham de tal modo ligados a mim que o con- 
curso contínuo deles acaba de sugerir, ao eminente artista de que o positivismo se honra 
hoje, uma admirável inspiração estética que converteu um simples retrato num quadro 
profundo. '* 

Instituindo, assim, a conversação didática, facilito tanto meu trabalho como o do 
leitor. Porquanto semelhante exposição pública aproxima-se muito das explicações pri- 
vadas que naturalmente me teria pedido a minha santa companheira, se nossa união 
objetiva se houvesse prolongado mais, como já o prova minha carta filosófica sobre o 
casamento." * A própria estação do ano em que efetuo esta grata elaboração recorda-me 
especialmente os desejos espontâneos de iniciação metódica que ela manifestou no decur- 
so do nosso ano incomparável. Basta, pois, transportar-me a sete anos atrás para conce- 
ber objetivamente o que hoje devo desenvolver subjetivamente, atribuindo a 1852 minha 
situação de 1845. Mas esta transposição forçada proporciona-me a preciosa compensa- 
ção de fazer apreciar melhor o ascendente angélico que não posso assaz caracterizar 
senão combinando dois admiráveis versos, respectivamente destinados a Beatriz e a 
Laura: 

Quella che'mparadisa la mia mente! * 
Ogni basso pensier dal cor m'avulse. '* 

Esta tardia realização de uma iniciação afetuosa toma-a, por outro lado, mais de 
acordo com as disposições paternais que finalmente prevaleceram em relação aquela que 
sempre me será associada como discípula e colega ao mesmo tempo. Sua idade tendo-se 
tornado fixa, segundo a lei geral da vida subjetiva, é excedida cada vez mais pela minha, 
a ponto de já não me permitir senão imagens filiais. Esta continuidade mais perfeita de 
nossa dupla existência aperfeiçoa também a harmonia total de minha própria natureza. 
Explicando assim a constituição positiva da unidade humana, eu desenvolvo e consolido 
a ligação fundamental entre minha vida privada e minha vida pública. A reação filosó- 
fica devida ao anjo inspirador torna-se então tão completa e tão direta quanto pode ser, 
e, por consegiuência, plenamente irrecusável aos olhos de todos. Ouso, portanto, esperar 
que, para testemunhar minha justa gratidão, a condigna assistência das almas seletas 
suprirá em breve a profunda inópia que sinto no meio de minhas melhores efusões coti- 
dianas, como Dante em relação à sua suave padroeira: 

Non é [affezion mia tanto profonda. 
Che basti a render voi grazia per grazia.'? 


"1 A mãe de Augusto Comte, Rosália Boyer Comte, falecida em Montpellier a 3 de março de 1837. 


'2 A filha adotiva chamava-se Sofia Bliaux Thomas, que de simples criada do Mestre foi por ele elevada a 
tão eminente categoria pela sua inexcedível dedicação. Sobreviveu ao Mestre, falecendo a 5 de dezembro de 
1861. 

"* Augusto Comte refere-se a um quadro a óleo executado por Antonio Etex. Essa notável composição 
representava o filósofo escrevendo sob a inspiração dos seus três anjos (sua mãe, Clotilde e Sofia). Depois 
da morte de Augusto Comte, o quadro ficou em poder da “indigna viúva”, que, por vingança e despeito, 
mandou apagar as figuras acessórias, deixando apenas a cabeça do Mestre. É o que resta de tão memorável 
tela, hoje conservada no domicílio sagrado da rua Mr. le Prince. 

"* Esta carta acha-se reproduzida no ensaio biográfico de Augusto Comte pelo Dr. Robinet. 

“Aquela que emparaísa minha mente.” Dante, Paraíso, canto 28.º, v. 3. 

“Que me arranca do coração todo pensamento baixo.” Petrarca, Sonetos. 

“A minha afeição não é tão profunda que baste para vos retribuir graça por graça.” Dante, Paraíso, 
canto 4.º, vv. 121, 122. 


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112 COMTE 


Este reconhecimento público, porém, deve aqui estender-se, tanto quanto o meu 
próprio, aos outros dois anjos que completam meu principal impulso feminino. Por mais 
remota que seja, infelizmente para mim, a imponente recordação do perfeito catolicismo 
que dominou minha nobre e terna mãe, ela me impulsionará sempre a fazer prevalecer, 
melhor do que na minha mocidade, a cultura contínua do sentimento sobre a da inteli- 
gência, e mesmo sobre a da atividade. Por outro lado, se a apreciação demasiado exclu- 
siva dos fundamentos privados, que as verdadeiras virtudes públicas exigem, pudesse 
arrastar-me aqui a desconhecer a importância própria e direta da moralidade cívica, eu 
logo retificaria meu desvio, graças à admirável sociabilidade de minha terceira padroei- 
ra. Empreendo, pois, este trabalho excepcional sob a assistência especial de todos os 
meus anjos, embora a cooperação de dois deles tenha que permanecer muda, sem que 
isto altere seus títulos pessoais à veneração universal. 

Apreciada sob um aspecto mais geral, esta instituição didática tende diretamente a 
caraterizar de modo profundo.a religião correspondente; porquanto ela faz sobressair 
espontaneamente a natureza fundamental do regime positivo, o qual, destinado sobre- 
tudo a disciplinar sistematicamente todas as forças humanas, baseia-se principalmente 
no concurso contínuo do sentimento com a razão para regular a atividade. Ora, esta série 
de conversações representa sempre o coração e o espírito concertando-se religiosamente 
a fim de moralizarem o poder material a que o mundo real se acha necessariamente sub- 
metido. A mulher e o sacerdote constituem, de fato, os dois elementos essenciais do ver- 
dadeiro poder moderador, ao mesmo tempo doméstico e cívico. Organizando esta santa 
coligação social, cada elemento procede aqui de acordo com a sua genuína natureza: o 
coração propõe as questões que o espírito resolve. Assim, a própria composição deste 
catecismo logo indica a principal concepção do positivismo: o homem pensando sob a 
inspiração da mulher, para fazer sempre concorrer a síntese com a simpatia, a fim de 
regularizar a sinergia. 

Em virtude de semelhante instituição do novo ensino religioso, dirige-se ele de préfe- 
rência ao sexo afetivo. Esta predileção, já conforme ao verdadeiro espírito do regime 
final, convém sobretudo à transição extrema, em que todas as influências peculiares ao 
estado normal devem sempre funcionar com mais intensidade, porém menos regular- 
mente. Posto que eu creia que este opúsculo decisivo há de ter em breve um grande 
acolhimento entre os dignos proletários, ele convém mais às mulheres, principalmente às 
mulheres iletradas. Só elas podem compreender assaz a preponderância que merece a 
cultura habitual do coração, tão comprimida pela grosseira atividade, teórica e prática, 
que domina o Ocidente moderno. É só no santuário da alma feminina que se pode hoje 
encontrar a digna submissão de espírito exigida por uma regeneração sistemática. Nestes 
últimos quatro anos, um deplorável exercício do sufrágio universal tem viciado profun- 
damente a razão popular, até então preservada dos sofismas constitucionais e dos con- 
luios parlamentares, concentrados nos ricos e nos letrados. Dando largas a um obcecado 
orgulho, nossos proletários acreditaram-se, assim, dispensados de todo estudo sério para 
decidirem as mais elevadas questões sociais. Conquanto esta degeneração seja muito 
menor entre os ocidentais do Meio-Dia, que a resistência católica abrigou contra a meta- 
física protestante ou deísta, também começa a ser aí muito propagada por leituras negati- 
vas. Por toda parte vejo que só as mulheres podem oferecer-me, em virtude de sua salutar 
exclusão política, um ponto de apoio capaz de fazer prevalecer livremente os princípios 
que hão de habilitar, enfim, os proletários a colocar bem sua confiança teórica e prática. 

A profunda anarquia das inteligências motiva, por outro lado, este apelo especial da 
religião positiva ao sexo afetivo, pois que essa anarquia torna mais necessário do que 


CATECISMO POSITIVISTA 113 


nunca o predomínio do sentimento que atualmente é o único preservativo da sociedade 
ocidental contra uma completa e irremediável dissolução. Desde o fim da Idade Média, 
é só a intervenção feminina que secretamente refreia os estragos morais peculiares à alie- 
nação mental para a qual tem tendido cada vez mais o Ocidente, e sobretudo seu centro 
francês. Este delírio crônico tendo chegado ao seu auge, visto que nenhuma máxima so- 
cial consegue superar uma discussão corrosiva, só os sentimentos é que sustentam a 
ordem ocidental. Mas estes mesmos já se acham muito alterados por causa das reações 
sofísticas, sempre favoráveis aos instintos pessoais, aliás mais enérgicos. 

Dos três pendores simpáticos que caracterizam nossa verdadeira constituição cere- 
bral, os dois extremos estão muito enfraquecidos, e o médio quase extinto na maior parte 
dos homens que hoje tomam parte ativa na agitação ocidental. Quando se penetra no 
seio das famílias atuais é que se vê quanto o apego está debilitado nas relações que o 
devem desenvolver melhor. Quanto à bondade geral, tão preconizada hoje, ela indica 
mais o Ódio contra os ricos do que o amor pelos pobres, porquanto a filantropia moderna 
exprime muitas vezes uma pretendida benevolência com as formas peculiares à sanha ou 
à inveja. Mas o mais usual dos três instintos sociais, por ser aquele que oferece a única 
base direta de toda verdadeira disciplina humana, a veneração, acha-se ainda mais alte- 
rado que os outros dois. Esta degeneração, sensível sobretudo entre os letrados e os ricos, 
lavra também entre os proletários, a menos que uma judiciosa indiferença não os afaste 
do movimento político. 

A veneração pode, entretanto, persistir no meio dos maiores extravios revolucio- 
nários, contra os quais ela ministra espontaneamente o melhor corretivo. Disso tive eu 
mesmo a prova outrora durante a fase profundamente negativa que devia preceder meu 
desenvolvimento sistemático. Nessa época eu só fui preservado de uma desmoralização 
sofistica pelo entusiasmo, conquanto este me expusesse especialmente às seduções passa- 
geiras de um charlatão superficial e depravado.'* A veneração constitui hoje o sinal 
decisivo que carateriza os revolucionários suscetíveis de uma verdadeira regeneração, 
por mais atrasada que ainda tenham a inteligência, sobretudo entre os comunistas 
iletrados. 

Mas, apesar de este precioso sintoma se verificar agora na imensa maioria dos nega- 
tivistas, ele falta com certeza à maior parte dos seus chefes, no meio de uma anarquia 
que faz prevalecer temporariamente por toda parte as naturezas más. Apesar de seu 
pequeno número, estes homens verdadeiramente indisciplináveis exercem uma vasta 
influência, que predispõe à fermentação subversiva todos os cérebros desprovidos de 
convicções inabaláveis. Contra esta peste ocidental não pode existir agora outro recurso 
habitual senão o desprezo das populações ou a severidade dos governos. Mas à única 
doutrina que há de regularizar esta dupla garantia não é dado, no princípio, comportar 
outro apoio decisivo senão o sentimento feminino, em breve assistido pela razão 
proletária. 

Sem a digna intervenção do sexo afetivo, a disciplina positiva não conseguiria 
rechaçar para as últimas fileiras esses pretendidos pensadores que decidem peremptoria- 
mente em sociologia conquanto ignorem a aritmética. De fato, o povo, partilhando ainda 
a muitos respeitos os vícios principais de tais chefes, conserva-se até agora incapaz de 


'8 Alude a Saint-Simon, o fundador do industrialismo. Sobre as relações de Augusto Comte com este sofis- 
ta, vêde Filosofia Positiva, tomo VI, prefácio, p. 7, nota; Política Positiva, tomo III, p. 15; Letires a M. 
Valat, pp. 36, 37, 51, 75, 106, 107, e sobretudo toda a carta XVI, p. 112; a Biografia de Augusto Comte, 
pelo Dr. Robinet; La Loi des Trois États, pelo Dr. Sémérie, e Revue Occidentale, tomos VIII e IX. 


114 COMTE 


coadjuvar o novo sacerdócio contra esses faladores perigosos. Pelo menos, não posso 
esperar desde logo um concurso coletivo senão por parte dos proletários que se têm con- 
servado alheios aos nossos debates políticos, posto que espontaneamente apegados, 
como as próprias mulheres, ao fito social da grande revolução. Tal é o duplo meio prepa- 
rado para este catecismo. 

“Afora os motivos gerais que devem aqui dirigir para as mulheres minha principal 
solicitude, há muito que fui levado a pensar que delas depende sobretudo o advento deci- 
sivo da solução ocidental indicada pelo conjunto do passado. 

Em primeiro lugar, seria absurdo pretender pór termo sem elas à mais completa das 
revoluções humanas, quando é sabido que as mulheres contribuíram profundamente para 
todas as renovações anteriores. A repugnância instintiva que elas sentem pelo movi- 
mento moderno bastaria para torná-lo estéril, se realmente tal repulsão fosse invencível. 
É daí que decorre, no fundo, a singular e funesta anomalia que impõe chefes retrógrados 
a populações progressivas, como se ao idiotismo e à hipocrisia competisse subministrar 
as garantias oficiais da ordem ocidental. Só depois que houver assaz vencido estas resis- 
tências femininas é que a religião positiva poderá desenvolver suficientemente, contra os 
principais partidários das várias doutrinas atrasadas, a reprovação decisiva que merece 
a inferioridade mental e moral deles. 

Os que negam hoje a existência natural dos afetos desinteressados tornam-se justa- 
mente suspeitos de só repelirem neste ponto as demonstrações da ciência moderna por 
causa da imperfeição radical de seus próprios sentimentos. Não perseguindo o mínimo 
bem senão sob o engodo de uma recompensa infinita, ou pelo temor de um suplício eter- 
no, o seu coração mostra-se tão degradado quanto evidentemente está o seu espírito, 
visto o absurdo de suas crenças. Entretanto, a adesão tácita das mulheres confia ainda a 
direção oficial do Ocidente aqueles que por tais característicos serão avisadamente 
excluídos de toda função superior, quando o positivismo houver sistematizado condigna- 
mente a razão pública. 

A religião da humanidade, porém, privará em breve a retrogradação deste apoio 
augusto, que só um justo horror da anarquia lhe conserva. Com efeito, apesar de preven- 
ções empíricas, as mulheres acham-se muito dispostas para bem apreciar a única dou- 
trina que pode hoje conciliar radicalmente a ordem com o progresso. Elas hão de reco- 
nhecer sobretudo que esta síntese final, posto que abrangendo todas as faces de nossa 
existência, faz prevalecer melhor o sentimento do que a síntese provisória, que a ele 
sacrificava a inteligência e a atividade. Nossa filosofia torna-se plenamente conforme ao 
espírito feminino, rematando a escala enciclopédica com a moral, que, como ciência e 
como arte, constitui necessariamente o estudo mais importante e mais dificil, resumindo 
e dominando todos os outros. Desenvolvendo, enfim, o sentimento cavalheiresco, com- 
primido outrora pelos conflitos teológicos, o culto positivo erige o sexo afetivo como 
providência moral de nossa espécie. Cada digna mulher ministra habitualmente a esse 
culto a melhor representação do verdadeiro Grande Ser. Sistematizando a família, como 
base normal da sociedade, o regime correspondente faz dignamente prevalecer naquela a 
influência feminina, transformada, enfim, em supremo árbitro privado da educação uni- 
versal. Por todos estes títulos, a verdadeira religião será plenamente apreciada pelas 
mulheres, logo que elas reconhecerem suficientemente os principais caracteres que a 
distinguem. Aquelas mesmo que a princípio deplorarem a perda de esperanças quimé- 
ricas não tardarão em sentir a superioridade moral de nossa imortalidade subjetiva, cuja 
natureza é profundamente altruísta, sobre a antiga imortalidade objetiva, que não podia 
deixar de ser radicalmente egoísta. A lei da viuvez eterna, que caracteriza o casamento 
positivista, bastaria para instituir a este respeito um contraste decisivo. 


CATECISMO POSITIVISTA ls 


A fim de incorporar melhor as mulheres à revolução ocidental, cumpre conceber a 
última fase desta como devendo oferecer-lhes um profundo interesse especial, direta- 
mente relativo ao próprio destino delas. 

As quatro grandes classes que compõem o fundo da sociedade moderna tiveram que 
sofrer sucessivamente o abalo radical que a sua regeneração definitiva primeiro exigia. 
Esse abalo começou, no último século, pelo desenvolvimento intelectual, instituindo, 
enfim, uma insurreição decisiva contra o conjunto do regime teológico e militar. A explo- 
são temporal que devia seguir-se surgiu em breve de uma burguesia que, desde muito, 
aspirava cada vez mais a substituir a nobreza. Mas a resistência européia desta não póde 
ser vencida senão chamando-se os proletários franceses em auxílio de seus novos chefes 
temporais. Assim introduzido na grande luta política, o proletário ocidental ergueu 
irresistíveis pretensões à sua justa incorporação na ordem moderna, quando a paz lhe 
permitiu uma suficiente manifestação de suas próprias aspirações. Todavia, este enca- 
deamento revolucionário não abrange ainda o elemento mais fundamental do verdadeiro 
regime humano. A revolução feminina deve agora completar a revolução proletária, 
como esta consolidou a revolução burguesa, dimanada a princípio da revolução 
filosófica. 

Só então é que o abalo moderno terá verdadeiramente preparado todas as bases 
essenciais da regeneração final. Enquanto ele não se estender às mulheres, não conse- 
guirá senão prolongar nossas deploráveis oscilações entre a retrogradação e a anarquia. 
Mas este complemento decisivo resulta mais naturalmente do conjunto das fases anterio- 
res do que qualquer destas da precedente. Ele liga-se sobretudo à revolução popular, em 
virtude da evidente solidariedade que subordina a incorporação social do proletariado à 
digna isenção da mulher de todo trabalho exterior. Sem esta emancipação universal, 
complemento necessário da abolição da servidão, a família proletária não poderá ser 
realmente constituída, pois que a existência feminina fica, assim, habitualmente entregue 
a uma horrível alternativa entre a miséria e a prostituição. 

O melhor resumo prático de todo o programa moderno breve consistirá neste princí- 
pio incontestável: O homem deve sustentar a mulher, a fim de que ela possa preencher 
convenientemente seu santo destino social. Espero que este catecismo faça apreciar a ín- 
tima conexão que existe entre esta condição e o conjunto da grande renovação conside- 
rada sob todos os seus aspectos: moral, mental e mesmo material. Sob a santa reação da 
revolução feminina, a revolução proletária purificar-se-á espontaneamente das disposi- 
ções subversivas que até aqui a têm neutralizado. O sexo afetivo, tendendo a fazer justa- 
mente prevalecer por toda parte a influência moral, reprova especialmente as brutali- 
dades coletivas, e ainda suporta menos o jugo do número que o da riqueza. Mas seu 
latente impulso social produzirá em breve modificações não menos preciosas, posto que 
mais indiretas, relativamente às outras duas faces da revolução ocidental. Ele secundará 
o advento político do patriciado industrial e do sacerdócio positivo, dispondo-os a se 
desprenderem irrevogavelmente das classes heterogêneas e efêmeras que dirigirão a tran- 
sição negativa. Por este modo completada e purificada, a revolução ocidental há de ten- 
der firme e sistematicamente para o seu pacífico termo, sob a direção geral dos verda- 
deiros servidores da humanidade. O impulso orgânico e progressivo afastará, onde quer 
que estejam, os retrógrados e anarquistas, tratando todo prolongamento do estado teoló- 
gico ou misiajfísico como uma enfermidade cerebral que inabilita para o governo. 

Tais são as condições essenciais que representam a composição deste catecismo 
como cabalmesitº acomodada ao seu objeto principal, atual ou permanente. Quando a 
religião positiva houver suficientemente prevalecido, este opúsculo tornar-se-á o seu me- 


116 COMTE 


lhor resumo usual. Agora deve ele servir, a título de apanhado geral, para preparar o 
livre advento dela, por meio de uma propagação decisiva, que até hoje carecia de um 
guia sistemático. 

O conjunto desta construção episódica caracteriza, por sua própria forma e marcha, 
todos os grandes atributos, intelectuais e morais, da nova fé. Sempre há de sentir-se aqui 
uma digna subordinação da razão masculina ao sentimento feminino, a fim de que o 
coração aplique todas as forças do espírito ao ensino dificil e importante. A reação final 
deste opúsculo deve, pois, fazer respeitar, e até compartilhar, meu culto íntimo pelo anjo 
incomparável donde procedem, ao mesmo tempo, as inspirações principais e a melhor 
exposição delas. Depois de tais serviços, minha santa interlocutora não tardará em tor- 
nar-se cara a todas as almas verdadeiramente regeneradas. Sua própria glorificação, 
doravante inseparável da minha, constituirá minha mais preciosa recompensa. Irrevoga- 
velmente incorporada ao verdadeiro Ser supremo, sua terna imagem ministra-me, aos 
olhos de todos, a melhor personificação dele. Em cada uma das minhas três orações coti- 
dianas, esta dupla adoração resume todos os meus votos de aperfeiçoamento íntimo no 
admirável anelo em que o mais sublime dos místicos preparava, a seu modo, a máxima 
moral do positivismo: Viver para outrem. 

Amem te plus quam me, nec me nisi propter te!'º 

Augusto Comte 
Fundador da Religião da Humanidade 
Paris, 25 de Carlos Magno de 64 (domingo, 11 de julho de 1852). 


P. S. Para aumentar a utilidade deste catecismo, ajunto a seu prefácio uma edição 
melhorada do breve catálogo que publiquei a 8 de outubro de 1851, a fim de dirigir os 
bons espíritos populares na escolha de seus livros habituais. Semelhante ofício só podia 
dimanar hoje do sacerdócio positivo, em virtude de seu caráter enciclopédico, que assim 
se torna mais apreciável. Os estragos intelectuais e morais que por toda parte exercem as 
leituras desordenadas devem hoje indicar assaz a importância crescente deste traba- 
lhinho sintético. Posto que tal coleção não tenha sido ainda formada, pode cada um reu- 
nir facilmente desde já, sob qualquer forma, os seus diversos elementos.?º 


ua “Ame-te a ti mais do que a mim, e não me ame a mim senão por amor de ti.” Imit. de Cristo, livro HI, 
capítulo V. 

20 (Biblioteca Positivista) Reproduzimos esta lista de obras segundo a edição (oitava) dada pelo Dr. Robi- 
net no seu livro biográfico. 

Sobre as várias edições, traduções, etc., dessas obras, nosso folheto: Calendário e Bidlioteca Positivista, 
seguidos respectivamente de um Índice Onomástico e de um Índice Bibliográfico. Rio, 1902. 


Biblioteca Positivista no Século XIX 
CENTO E CINQUENTA VOLUMES 


1.º — Poesia (trinta volumes) 


A IHíada e a Odisséia, reunidas em um só volume, sem anotações. 

Ésquilo, seguido do Édipo Rei, de Sófocles, e Aristófanes, idem. 

Píndaro e Teócrito, seguidos de Dáfnis e Cloe, idem. 

Plauto e Terêncio, idem. 

Virgílio completo, Horácio escolhido e Lucano, idem. 

Ovídio, Tibulo, e Juvenal, idem. 

Os Fabliaux da Idade Média, coligidos por Legrand d” Aussy. 

Dante, Ariosto, Tasso e Petrarca escolhido, reunidos num único volume, em italiano. 

Os Teatros escolhidos de Metastásio e Alfieri, idem. 

Os Noivos, por Manzoni (um único volume, em italiano). 

O Dom Quixote e as Novelas de Cervantes (num mesmo volume em espanhol). 

O Teatro Espanhol escolhido, coleção editada por Dom José Segundo Flores (um volu- 
me em espanhol). 

O Romanceiro Espanhol escolhido, compreendendo o Poema do Cid (um volume em 
espanhol). 

O Teatro escolhido de Pierre Corneille. 

Moliêre completo. 

Os Teatros escolhidos de Racine e Voltaire (reunidos num só volume). 

As Fábulas de La Fontaine seguidas de algumas fábulas de Lamotte e Florian. 

Gil Blas, por Lesage. 

A Princesa de Clêves, Paulo e Virgínia, e o Último Abencerrage (reunidos num só 
volume). 

Os Mártires, por Chateaubriand. 

O Teatro escolhido de Shakespeare. 

O Paraíso Perdido e as Poesias Líricas de Milton. 

Robinson Crusoé e O Vigário de Wakefield (reunidos num só volume). 

Tom Jones, por Fielding (em inglês, ou traduzido por Chéron). 

As sete obras-primas de Walter Scott: 

Ivanhoe, Waverley, 4 Formosa Donzela de Perth, O Oficial de Fortuna (Legenda de 
Montrose), Os Puritanos (Old Mortality), A Prisão de Edimburgo (Heart of Midlothian), 
O Antiquário. 

As obras escolhidas de Byron (suprimindo nomeadamente o Don Juan). 

As obras escolhidas de Goethe. 

As Mile Uma Noites. 


118 COMTE 


2.º — Ciência (trinta volumes) 


A Aritmética de Condorcet, a Álgebra ea Geometria de Clairaut, e mais a Trigonome- 
tria de Lacroix ou Legendre (num só volume). 

A Geometria Analítica de Augusto Comte, precedida da Geometria de Descartes. 

A Estática de Poinsot, seguida de todas as memórias do mesmo autor sobre mecânica. 

O Curso de Análise de Navier na Escola Politécnica, precedido das Reflexões sobre o 
Cálculo Infinitesimal, por Carnot. 

O Curso de Mecânica de Navier na Escola Politécnica, seguido do Ensaio sobre o Equi- 
líbrio eo Movimento, por Carnot. 

A Teoria das Funções, por Lagrange. 

A Astronomia Popular de Augusto Comte, seguida dos Mundos de Fontenelle. 

A Física Mecânica de Fischer, traduzida e anotada por Biot. 

O Manual Alfabético de Filosofia Prática, por John Carr. 

A Química de Lavoisier. 

A Estática Química, por Berthollet. 

Os Elementos de Química, por Graham. 

O Manual de Anatomia, por Meckel. 

A Anatomia Geral de Bichat, precedida do seu Tratado sobre a Vida e a Morte. 

O primeiro (e único) volume de Blainville sobre a Organização dos Animais. 

A Fisiologia de Richerand, anotada por Bérard. 

O Ensaio Sistemático sobre a Biologia, por Segond, e o Tratado de Anatomia Geral do 
mesmo autor. 

Os Novos Elementos da Ciência do Homem, por Barthez (2.º edição, 1806). 

A Filosofia Zoológica, por Lamarck. 

A História Natural de Duméril. 

O Tratado sobre a Natureza dos Rios, por Guglielmini (em italiano). 

Os Discursos sobre a Natureza dos Animais, por Buffon. 

A Arte de Prolongar a Vida Humana, por Hufeland, precedida do Tratado sobre os Ares, 
as Águas, e as Localidades, por Hipócrates, e seguida do livro de Cornaro Sobre a 
Sobriedade (reunidos num único volume). 

A História das Flegmasias Crônicas, por Broussais, precedida de suas Proposições de 
Medicina, e, em primeiro lugar, dos Aforismos de Hipócrates (em latim), sem nenhum 
comentário. 

Os Elogios dos Cientistas, por Fontenelle e Condorcet. 


3.º — História (sessenta volumes) 


O Resumo de Geografia Universal, por Malte-Brun. 
O Dicionário Geográfico de Rienzi. 

As Viagens de Cook e as de Chardin. 

A História da Revolução Francesa, por Mignet. 

O Manual da História Moderna, por Heeren. 

O Século de Luís XIV, por Voltaire. 

As Memórias de Madame de Motteville. . 


CATECISMO POSITIVISTA 119 


O Testamento Político de Richelieu e a Vida de Cromwell (num só volume). 
A História das Guerras Civis de França, por Davila (em italiano). 
As Memórias de Benvenuto Cellini (em italiano). 

As Memórias de Comines. 

O Resumo da História de França, por Bossuet. 

As Revoluções de Itália, por Denina. 

Compêndio da História de Espanha, por Ascargota. 

A História de Carlos V de Robertson. 

A História de Inglaterra, por Hume. 

A Europa durante a Idade Média, por Hallam. 

A História Eclesiástica, por Fleury. 

A História da Decadência Romana, por Gibbon. 

O Manual da História Antiga, por Heeren. 

Tácito completo (traduzido por Dureau de La Malle). 

Heródoto e Tucídides (num só volume). 

As Vidas de Plutarco (traduzidas por Dacier). 

Os Comentários de César e as Expedições de Alexandre, por Arriano (num só volume). 
A Viagem de Anacársis, por Barthélemy. 

A História da Arte entre os Antigos, por Winckelmann. 

O Tratado da Pintura, por Leonardo da Vinci (em italiano). 

As Memórias sobre a Música, por Grétry. 


Filosofia, Moral e Religião 


4.º — Sintese (trinta volumes) 


A Política e a Moral de Aristóteles (num só volume). 

A Bíblia completa. 

O Alcorão completo. 

A Cidade de Deus, por Santo Agostinho. 

As Confissões do mesmo, seguidas do Tratado sobre o Amor de Deus, por São 
Bernardo. 

A Imitação de Jesus Cristo (o original latino com a tradução em verso de Corneille). 

O Catecismo de Montpellier, precedido da Exposição da Doutrina Católica, por Bossuet, 
e seguido do Comentário sobre o Sermão de Jesus Cristo, por Santo Agostinho. 

A História das Variações Protestantes, por Bossuet. 

O Discurso sobre o Método, por Descartes, precedido do Novum Organum, de Bacon, e 
seguido da Interpretação da Natureza, por Diderot. 

Os Pensamentos escolhidos de Cícero, Epicteto, Marco Aurélio, Pascal e Vauvenargues, 
seguidos dos Conselhos de uma Mãe, por Madame de Lambert, e das Considerações 
sobre os Costumes, por Duclos. 

O Discurso sobre a História Universal, por Bossuet, seguido do Bosquejo Histórico, por 
Condorcet. 

O Tratado do Papa, por De Maistre, precedido da Política Sagrada, por Bossuet. 

Os Ensaios Filosóficos de Hume, precedidos da dupla Dissertação sobre os Surdos e os 
Cegos, por Diderot, e seguidos do Ensaio sobre a História da Astronomia, por Adam 
Smith. 

A Teoria do Belo, por Barthez, precedida do Ensaio sobre o Belo, por Diderot. 

As Relações entre o Físico e o Moral do Homem, por Cabanis. 


120 COMTE 


O tratado sobre as Funções do Cérebro, por Gall, precedido das Cartas sobre os Ani- 


mais, por Georges Leroy. 
O tratado sobre a Irritação e a Loucura, por Broussais (1.º edição). 


A Filosofia Positiva de Augusto Comte (condensada por Miss Martineau), sua Política 
Positiva, seu Catecismo Positivista e sua Síntese Subjetiva. 


AUGUSTO COMTE 


(10, rua Monsieur-le-Prince) 
Paris, 24 de Guttemberg de 64 (sábado, 4 de setembro de 1852). 


INTRODUÇÃO 


PRIMEIRA CONFERÊNCIA 


TEORIA GERAL DA RELIGIÃO 


A MULHER — Muitas vezes tenho perguntado a mim mesma, meu caro pai, por 
que razão persistis em qualificar de religião vossa doutrina universal, conquanto ela 
rejeite toda crença sobrenatural. Refletindo, porém, sobre isso, considerei que esse título 
aplica-se em comum a muitos sistemas diferentes, e até incompatíveis, cada um dos quais 
o toma para si exclusivamente, sem que nenhum deles tenha nunca deixado de contar, na 
totalidade de nossa espécie, mais adversários do que adeptos. Isto levou-me a pensar que 
esse termo fundamental deve ter uma acepção geral, que independa radicalmente de toda 
fé especial. Desde então, presumi que, atendo-vos a esse significado essencial, podíeis 
chamar assim ao positivismo, apesar de seu contraste mais profundo com as doutrinas 
anteriores, que proclamam suas dissidências mútuas como não menos graves que as suas 
concordâncias. Todavia, parecendo-me esta explicação ainda confusa, rogo-vos que 
comeceis vossa exposição por um esclarecimento direto e preciso acerca do sentido radi- 
cal da palavra religião. 

O SACERDOTE — Este nome, minha querida filha, não apresenta, de fato, pela 
sua etimologia, nenhuma solidariedade necessária com as opiniões quaisquer que pos- 
sam ser empregadas para atingir o fim que ele designa. Em si mesmo, este vocábulo indi- 
ca o estado de completa unidade que distingue nossa existência, a um tempo pessoal e 
social, quando todas as suas partes, tanto morais como físicas, convergem habitualmente 
para um destino comum. Assim, este termo seria equivalente à palavra síntese, se esta 
não estivesse, não por sua própria estrutura, mas segundo um uso quase universal, limi- 
tada agora só ao domínio do espírito, ao passo que a outra compreende o conjunto dos 
atributos humanos. A religião consiste, pois, em regular cada natureza individual e em 
congregar todas as individualidades; o que constitui apenas dois casos distintos de um 
problema único. Porquanto todo homem difere sucessivamente de si mesmo tanto quanto 
difere simultaneamente dos outros; de maneira que a fixidez e a comunidade seguem leis 
idênticas. 

Não podendo semelhante harmonia, individual ou coletiva, realizar-se nunca plena- 
mente em uma existência tão complicada como a nossa, esta definição da religião carac- 
teriza, portanto, o tipo imutável para o qual tende cada vez mais o conjunto dos esforços 
humanos. Nossa felicidade e nosso mérito consistem sobretudo em nos aproximarmos 
tanto quanto possível dessa unidade, cujo surto gradual constitui a melhor medida do 
verdadeiro aperfeiçoamento, pessoal ou social. Quanto mais se desenvolvem os diversos 
atributos humanos, tanto mais importância adquire o concurso habitual deles; este, 


124 COMTE 


porém, se tornaria também mais difícil, se essa evolução não tendesse espontaneamente 
a tornar-nos mais disciplináveis, como breve vo-lo explicarei. 

O apreço que sempre se ligou a esse estado sintético devia concentrar a atenção 
sobre o modo de o instituir. Foi-se assim levado, tomando o meio pelo fim, a transferir 
o nome religião ao sistema qualquer das opiniões correspondentes. Por mais inconciliá- 
veis, porém, que pareçam, à primeira vista, essas numerosas crenças, o positivismo as 
combina essencialmente, referindo cada uma ao seu destino temporário e local. Não exis- 
te, no fundo, senão uma única religião, ao mesmo tempo universal e definitiva, para a 
qual tenderam cada vez mais as sinteses parciais e provisórias, tanto quanto o compor- 
tavam as respectivas situações. A esses diversos esforços empíricos sucede agora o 
desenvolvimento sistemático da unidade humana, cuja constituição direta e completa 
tornou-se, enfim, possível graças ao conjunto de nossas preparações espontâneas. É 
assim que o positivismo dissipa naturalmente o antagonismo mútuo das diferentes reli- 
giões anteriores, formando seu domínio próprio do fundo comum a que todas se reporta- 
ram de modo instintivo. A sua doutrina não poderia tornar-se universal se, apesar de 
seus princípios antiteológicos, o seu espírito relativo não lhe ministrasse necessariamente 
afinidades essenciais com cada crença capaz de dirigir passageiramente uma porção 
qualquer da humanidade. 

A MULHER — Vossa definição da religião me satisfará de todo, meu pai, se vos 
for possível esclarecer suficientemente a grave dificuldade que me parece resultar de sua 
excessiva extensão. Porquanto, caracterizando nossa unidade, vós incluís nela tanto o fi- 
sico como o moral. Com efeito, eles estão de tal maneira unidos que uma perfeita harmo- 
nia não pode nunca estabelecer-se quando se quer separá-los. Contudo, não poderia habi- 
tuar-me a fazer entrar a saúde na religião, de modo a prolongar até a medicina o 
verdadeiro domínio da moral, 

O SACERDOTE — Entretanto, minha filha, o cisma arbitrário que desejais man- 
ter seria diretamente contrário à nossa unidade. Tal divórcio só é realmente devido à 
insuficiência da última religião provisória, que não pode disciplinar a alma senão aban- 
donando aos profanos o domínio do corpo. Nas antigas teocracias, que constituíram o 
modo mais completo e mais duradouro do regime sobrenatural, esta vã divisão não exis- 
tia; a arte higiênica e médica foi sempre aí um simples anexo do sacerdócio. 

Tal é, com efeito, a ordem natural, que o positivismo vem restabelecer e consolidar, 
em virtude de sua plenitude característica. A arte humana e a ciência humana são respec- 
tivamente indivisíveis, como os diversos aspectos peculiares ao destino comum de ambas 
(o homem), no qual tudo se acha constantemente ligado. Não se pode mais tratar bem 
nem do corpo nem da alma, por isso mesmo que o médico e o padre estudam exclusiva- 
mente o físico ou o moral; sem falar do filósofo que, durante a anarquia moderna, arre- 
bata ao sacerdócio o domínio do espírito, deixando-lhe o do coração. | 

As moléstias cerebrais, e mesmo muitas outras, aí estão mostrando todos os dias a 
impotência de toda medicação restrita aos órgãos mais grosseiros. Não é menos fácil 
reconhecer a insuficiência de todo sacerdócio que quiser dirigir a alma desprezando sua 
subordinação ao corpo. Esta separação duas vezes anárquica deve, pois, cessar irrevoga- 
velmente mediante uma sábia reintegração da medicina no domínio sacerdotal, quando o 
clero positivo houver preenchido suficientemente suas condições enciclopédicas. O ponto 


CATECISMO POSITIVISTA 2 


en 


de vista moral é, com efeito, o único próprio para fazer prevalecer ativamente prescrições 
higiênicas, tanto privadas como públicas. Isto verifica-se facilmente pelos vãos esforços 
dos médicos ocidentais para regular nossa alimentação habitual, desde que ela não é 
mais dirigida pelos antigos preceitos religiosos. Nenhuma prática incômoda pode ser 
ordinariamente aceita em nome só da saúde pessoal, que deixa cada um juiz de si 
mesmo: porquanto amiúde os inconvenientes atuais e certos nos abalam mais do que as 
vantagens remotas e duvidosas. É necessário invocar uma autoridade superior a toda 
individualidade, para impor, mesmo nos casos mínimos, regras verdadeiramente efica- 
zes, fundadas, então, sobre uma apreciação social que jamais comporta indecisões. 

A MULHER — Depois de ter assim reconhecido, em toda a sua plenitude, o domi- 
nio natural da religião, eu quisera saber, meu pai, em que consistem as condições gerais 
dela. Frequentes vezes ela se me tem representado como dependendo unicamente do 
coração. Sempre pensei, porém, que o espírito aí também concorre. Poderei compreender 
claramente as suas atribuições respectivas? 

O SACERDOTE — Essa apreciação resulta, minha filha, de um exame aprofun- 
dado da palavra religião, talvez o mais bem composto de todos os termos humanos. Ele 
é construído de maneira a caracterizar uma dupla ligação, cuja noção exata basta para 
resumir toda a teoria abstrata de nossa unidade. Com efeito, a fim de constituir uma har- 
monia completa e duradoura, é preciso ligar o interior pelo amor e o religar ao exterior 
pela fé. Tais são, em geral, as participações necessárias do coração e do espírito nesse es- 
tado sintético, individual ou coletivo. 

A unidade supõe, antes de tudo, um sentimento ao qual se possam subordinar os 
nossos vários pendores. Porquanto as nossas ações e os nossos pensamentos sendo sem- 
pre dirigidos pelos nossos afetos, a harmonia humana ficaria impossível se estes não fos- 
sem coordenados sob um instinto preponderante. 

Mas esta condição interior da unidade não bastaria se a inteligência não nos fizesse 
reconhecer, fora de nós, uma potência superior a que a nossa existência deve sempre 
submeter-se, mesmo quando a modifica. É a fim de melhor sofrermos esse império supre- 
mo que a nossa harmonia moral, individual ou coletiva, se torna sobretudo indispen- 
sável. Reciprocamente, essa preponderância do exterior tende a regular o interior, favore- 
cendo o ascendente do instinto mais conciliável com semelhante necessidade. Assim, as 
duas condições gerais da religião são naturalmente conexas, sobretudo quando a ordem 
exterior pode tornar-se o objeto do sentimento interior. 

A MULHER — Nesta teoria abstrata de nossa unidade, depara-se-me, meu pai, 
uma dificuldade radical no tocante à influência moral. Considerando a harmonia inte- 
rior, parece-me que esqueceis que os nossos instintos pessoais são infelizmente mais 
enérgicos que os nossos pendores simpáticos. Ora, o predomínio dos primeiros, que pare- 
ce dever erigi-los em centros naturais de toda a existência moral, tornaria, por outro 
lado, a unidade pessoal quase incompatível com a unidade social. Mas, como, apesar 
disto, estas duas harmonias foram conciliadas, necessito que um novo esclarecimento 
mas mostre, enfim, como plenamente compatíveis. 

O SACERDOTE — Propusestes assim diretamente, minha filha, o principal pro- 
blema humano, que consiste, de fato, em fazer gradualmente prevalecer a sociabilidade 
sobre a personalidade, sem embargo de ser esta espontaneamente preponderante. Para 


126 COMTE 


que possais compreender melhor a possibilidade disso, é necessário, em primeiro lugar, 
que compareis os dois modos opostos que a unidade moral parece naturalmente compor- 
tar, conforme essa base interior seja egoísta ou altruísta. 

As expressões múltiplas que acabais de empregar, referindo-vos à personalidade, 
atestam involuntariamente a impotência radical do egoísmo para constituir qualquer har- 
monia real e duradoura, mesmo num ente isolado. Porque esta monstruosa unidade não 
exigiria somente a ausência de todo impulso simpático, mas também o predomínio de um 
único egoísmo. Ora, isso não existe senão nos últimos animais, onde tudo se refere ao 
instinto nutritivo, sobretudo quando os sexos não estão separados. Em todos os demais 
casos, porém, e principalmente em nossa espécie, a satisfação dessa necessidade funda- 
mental deixa sucessivamente prevalecer vários outros pendores pessoais, cujas energias 
quase iguais anulariam as opostas pretensões de cada um dos mesmos a dominar o con- 
junto da existência moral. Se todos eles não se subordinassem a afetos exteriores, o cora- 
ção estaria sem cessar agitado por conflitos íntimos entre os impulsos sensuais e os esti- 
mulos do orgulho ou da vaidade, etc., quando a cobiça propriamente dita deixasse de 
reinar com as necessidades puramente corporais. A unidade moral é, pois, imposssível, 
mesmo na existência solitária, em todo ente exclusivamente dominado por afeições pes- 
soais, que o impedem de viver para outrem. Tais são muitos animais ferozes que vemos, 
salvo durante algumas aproximações passageiras, flutuar ordinariamente entre uma ati- 
vidade desregrada e um ignóbil torpor, porque não encontram no exterior os móveis prin- 
cipais de sua conduta. 

A: MULHER — Compreendo assim, meu pai, a coincidência natural entre as 
verdadeiras condições morais da harmonia individual e as da harmonia coletiva. Mas 
continuo a ter a mesma dificuldade em conceber a abnegação habitual dos instintos mais 
enêrgicos. 

O SACERDOTE — Esta dificuldade, minha filha, será facilmente vencida quando 
notardes que a unidade altruísta não exige, como a unidade egoísta, o inteiro sacrifício 
dos pendores contrários ao seu princípio, mas apenas a criteriosa subordinação deles ao 
afeto preponderante. Condensando toda a sã moral na lei Viver para outrem, o positi- 
vismo consagra a justa satisfação permanente dos diversos instintos pessoais, enquanto 
indispensável à nossa existência material, sobre a qual assentam sempre nossos atributos 
superiores. Por conseguinte, ele condena, posto que inspiradas amiúde por motivos 
respeitáveis, as práticas demasiado austeras, que, diminuindo nossas forças, nos tornam 
menos aptos para o serviço de outrem. O destino social, em cujo nome ele recomenda os 
cuidados pessoais, deve ao mesmo tempo nobilitá-los e regularizá-los, evitando tanto 
uma preocupação exagerada como uma viciosa negligência. - 

A MULHER — Mas, meu pai, esta mesma consagração dos pendores egoístas, 
constantemente excitados, aliás, pelas nossas necessidades corporais, parece-me ainda 
incompatível com um predomínio habitual dos nossos fracos afetos simpáticos. 

O SACERDOTE — E é por isso, minha filha, que esse aperfeiçoamento moral há 
de constituir sempre o principal objeto da arte humana, cujos esforços contínuos, indivi- 
duais e coletivos, dele nos aproximam cada vez mais, sem que nunca possamos realizá-lo 
de modo completo. Esta solução crescente funda-se unicamente na existência social, em 
virtude da lei natural que desenvolve ou comprime nossas funções e nossos órgãos con- 


CATECISMO POSITIVISTA 127 


forme são ou não exercitados. Com efeito, as relações domésticas e cívicas tendem a con- 
ter os instintos pessoais mediante os conflitos que suscitam entre os diversos indivíduos. 
Pelo contrário, elas favorecem o surto das inclinações benévolas, únicas suscetíveis, em 
todos, de um desenvolvimento simultâneo, naturalmente contínuo, por causa dessas exci- 
tações mútuas, posto que necessariamente limitado pelo conjunto de nossas condições 
materiais. 

Eis aí por que a verdadeira unidade moral não pode surgir assaz senão em nossa 
espécie, pois que o progresso social deve pertencer exclusivamente à mais bem organi- 
zada das raças sociáveis, a menos que outras não se lhe agreguem como livres auxiliares. 
Mas, sem que tal harmonia se possa desenvolver alhures, O seu princípio é facilmente 
apreciável em muitos animais superiores, que até forneceram as primeiras provas cienti- 
ficas da existência natural dos afetos desinteressados. Se esta grande noção, sempre pres- 
sentida pelo empirismo universal, não houvesse sido sistematizada tão tardiamente, nin- 
guém tacharia hoje de afetação sentimental uma doutrina diretamente verificável entre 
tantas espécies inferiores à nossa. 

A MULHER — Esta explicação suficiente só me deixa a desejar, meu pai, um últi- 
mo esclarecimento geral, relativo à condição intelectual da religião. Através da incoe- 
rência das diversas crenças especiais, não compreendo claramente em que consiste o 
domínio fundamental da fé, que entretanto deve comportar uma apreciação comum a 
todos os sistemas. 

O SACERDOTE — Com efeito, minha filha, nossa fé nunca teve senão um mesmo 
objeto essencial: conceber a ordem universal que domina a existência humana, para 
determinar nossa relação geral para com ela. Quer se assinalassem suas causas fictícias. 
quer se estudassem suas leis reais, o que sempre se quis foi apreciar essa ordem indepen- 
dente de nós, a fim de a sofrer melhor e de a modificar mais. Toda doutrina religiosa 
repousa necessariamente sobre uma explicação qualquer do mundo e do homem, duplo 
objeto contínuo de nossos pensamentos teóricos e práticos. 

A fé positiva expõe diretamente as leis efetivas dos diversos fenômenos observáveis, 
tanto interiores como exteriores; isto é, suas relações constantes de sucessão e de seme- 
lhança, as quais nos permitem prever uns por meio dos outros. Ela afasta, como radical- 
mente inacessível e profundamente ociosa, toda pesquisa acerca das causas propriamente 
ditas, primeiras ou finais, de quaisquer acontecimentos. Em suas concepções teóricas, ela 
explica sempre como e nunca porquê. Quando, porém, indica os meios de dirigir nossa 
atividade, ela faz, pelo contrário, prevalecer constantemente a consideração do fim, já 
que, então, o efeito prático dimana com certeza de uma vontade inteligente. 

Todavia, a indagação das causas, posto que diretamente vá, foi a princípio tão 
indispensável quão inevitável, como especialmente vo-lo explicarei, para substituir e pre- 
parar o conhecimento das leis, que supõe um longo preâmbulo. Procurando o porquê, 
que não se podia achar, acabava-se então, por descobrir o como, cujo estudo não era 
instituído imediatemente. Só se deve realmente condenar a pueril persistência, tão 
comum em nossos letrados, em querer penetrar as causas quando as leis são conhecidas. 
Porquanto nossa conduta não se referindo nunca senão a estas, a pesquisa daquelas tor- 
na-se não menos inútil que quimérica. 

O dogma fundamental da religião universal consiste, portanto, na existência consta- 


dá 


128 COMTE 


tada de uma ordem imutável a que estão sujeitos os acontecimentos de todo gênero. Esta 
ordem é, ao mesmo tempo, objetiva e subjetiva: por outras palavras, diz igualmente res- 
peito ao objeto contemplado e ao sujeito contemplador. Leis físicas supõem, com efeito, 
leis lógicas, e reciprocamente. Se o nosso entendimento não seguisse espontaneamente 
regra alguma, não poderia ele nunca apreciar a harmonia exterior. Sendo o mundo mais 
simples e mais poderoso que o homem, a regularidade deste seria ainda menos conci- 
liável com a desordem daquele. Toda fé positiva assenta, pois, nesta dupla harmonia 
entre o objeto e o sujeito. 

Semelhante ordem apenas pode ser constatada, e nunca explicada. Ela fornece, pelo 
contrário, a única fonte possível de toda explicação razoável, que consiste sempre em 
fazer entrar nas leis gerais cada evento particular, desde logo suscetível de uma previsão 

“sistemática, único fim característico da verdadeira ciência. Por isso também a ordem 
universal foi durante muito tempo desconhecida, enquanto prevaleceram as vontades 
arbitrárias a que se teve primeiro que atribuir os principais fenômenos de toda sorte. Mas 
uma experiência, amiúde reiterada e nunca desmentida, fez enfim reconhecer essa ordem, 
apesar das opiniões contrárias, em relação aos acontecimentos mais simples, donde a 
mesma apreciação estendeu-se gradualmente até os mais complexos. Foi só em nossos 
dias que esta extensão penetrou em seu último domínio, representando também os fenô- 
menos mais eminentes da inteligência e da sociabilidade como sujeitos sempre a leis 
invariáveis, que ainda negam muitos espíritos cultivados. O positivismo resultou direta- 
mente desta descoberta final, que, completando nossa longa iniciação científica, termi 
nou necessariamente o regime preliminar da razão humana. 

A MULHER — Meu pai, por este primeiro apanhado, julgo a fé positiva muito 
satisfatória para a inteligência, mas muito pouco favorável à atividade, que ela parece 
subordinar a inflexíveis destinos. Entretanto, pois que o espírito positivo, como o dizeis 
amiúde, surgiu por toda parte da existência prática, não pode ser-lhe contrário. Quisera 
conceber nitidamente seu acordo geral. 

O SACERDOTE — Para o conseguirdes, minha filha, bastará retificar a aprecia- 
ção espontânea que vos faz considerar as leis reais como imodificáveis. Enquanto os 
fenômenos foram atribuídos a vontades arbitrárias, a concepção de uma fatalidade abso- 
luta tornou-se o corretivo necessário de uma hipótese diretamente incompatível com toda 
ordem efetiva. A descoberta das leis naturais tendeu, em seguida, a manter esta disposi- 
ção geral, porque a princípio tal descoberta dizia respeito aos acontecimentos celestes, 
inteiramente subtraídos à intervenção humana. À medida, porém, que o conhecimento da 
ordem real se desenvolveu, tem ela sido considerada como essencialmente modificável, 
mesmo por nós, e tanto mais quanto os fenômenos mais se complicam, como vo-lo expli- 
carei daqui a pouco. Esta noção estende-se hoje até a ordem celeste, cuja simplicidade 
superior nos permite imaginar com mais facilidade seu melhoramento, a fim de corrigir 
um respeito cego, conquanto nossos fracos meios físicos não o possam jamais realizar. 

Quaisquer que sejam os fenômenos, sem excetuar os mais complexos, as suas condi- 
ções fundamentais são sempre imutáveis; mas, por toda parte, também, inclusive nos 
casos mais simples, as disposições secundárias podem ser modificadas, e amiúde por 
nossa intervenção. Estas modificações em nada alteram a invariabilidade das leis reais, 
porque elas nunca se tornam arbitrárias. Sua natureza e extensão seguem sempre regras 


CATECISMO POSITIVISTA 129 


próprias, que completam nosso domínio científico. A imobilidade total seria por tal 
modo contrária à mesma noção de lei, que esta caracteriza, por toda parte, a constância 
percebida no meio da variedade. 

Assim, a ordem natural constitui sempre uma fatalidade modificável, que se torna a 
base necessária da ordem artificial. Nosso verdadeiro destino compõe-se, pois, de resig- 
nação e de atividade. Esta segunda condição, longe de ser incompatível com a primeira, 
repousa diretamente sobre ela. Uma judiciosa submissão às leis fundamentais é, com 
efeito, o único preservativo contra o vago e a instabilidade de nossos desígnios quais- 
quer, permitindo-nos instituir, segundo as regras secundárias, uma sábia intervenção. Eis 
aí como o dogma positivo consagra diretamente nossa atividade, que nenhuma síntese 
teológica podia abarcar. Este surto prático torna-se mesmo aí o principal regulador de 
nossos trabalhos teóricos relativos à ordem universal e suas diversas modificações. 

A MULHER — Após tal explicação, resta-me, meu pai, conceber a maneira por 
que a fé positiva se concilia plenamente com o sentimento, ao qual sua natureza parece- 
me ser radicalmente contrária. Compreendo, todavia, que seu dogma fundamental forne- 
ce duplamente uma forte base de disciplina moral, já subordinando nossos pendores pes- 
soais a um poder exterior, já citando nossos instintos simpáticos para melhor sofrermos 
ou modificarmos a fatalidade comum. Apesar, porém, destes preciosos atributos, o posi- 
tivismo não me oferece ainda um estímulo assaz direto dos santos afetos que parecem 
dever formar o principal domínio da religião. 

O SACERDOTE — Reconheço, minha filha, que o espírito positivo apresentou até 
aqui os dois inconvenientes morais peculiares à ciência, inchar e secar, desenvolvendo o 
orgulho e desviando do amor. Esta dupla tendência se conservará sempre nele o bastante 
para exigir habitualmente precauções sistemáticas de que vos hei de falar mais tarde. 
Contudo, vosso principal reproche resulta, a este respeito, de uma apreciação insuficiente 
do positivismo, que vós considerais apenas no estado incompleto em que ele ainda se 
mostra na maioria de seus adeptos. Estes limitam-se à concepção filosófica dimanada da 
preparação científica, sem ir até a conclusão religiosa, resumo único do conjunto dessa 
filosofia. Mas, completando o estudo real da ordem universal, vê-se o dogma positivo 
concentrar-se finalmente em torno de uma concepção sintética, tão favorável ao coração 
como ao espírito. 

Os entes quiméricos que a religião empregou provisoriamente inspiraram direta- 
mente vivos afetos humanos, que foram mesmo mais poderosos sob as ficções menos 
elaboradas. Essa preciosa aptidão devia por muito tempo parecer estranha ao positi- 
vismo, por efeito de seu imenso preâmbulo científico. Enquanto a iniciação filosófica 
abraçou apenas a ordem material, e mesmo a ordem vital, ela não pôde desvendar senão 
leis indispensáveis à nossa atividade, sem nos ministrar nenhum objeto direto de afeição 
permanente e comum. Mas já não é mais assim desde que essa preparação gradual se 
acha finalmente completada pelo estudo próprio da ordem humana, individual e coletiva. 

Esta apreciação final condensa o conjunto das concepções positivas na noção única 
de um ente imenso e eterno, a humanidade, cujos destinos sociológicos se desenvolvem 
sempre sob o predomínio necessário das fatalidades biológicas e cosmológicas. Em torno 
deste verdadeiro Grande Ser, motor imediato de cada existência individual ou coletiva, 
nossos afetos se concentram tão espontaneamente quanto nossos pensamentos e ações. A 


130 COMTE 


idéia só desse Ser supremo inspira diretamente a fórmula sagrada do positivismo: O 
-Amor por princípio, a Ordem por base, e o Progresso por fim.?* Sempre fundada sobre 
um livre concurso de vontades independentes, a sua existência composta, que toda dis- 
córdia tende a dissolver, consagra logo a preponderância contínua do coração sobre o 
espírito, como a única base de nossa verdadeira unidade. É assim que a ordem universal 
se resume daqui por diante no ente que a estuda e aperfeiçoa sem cessar. A luta crescente 
da humanidade contra o conjunto das fatalidades que a dominam apresenta ao coração, 
como ao espírito, um espetáculo mais digno que a onipotência, necessariamente capri- 
chosa, de seu precursor teológico. Mais acessível, tanto aos nossos sentimentos como às 
nossas concepções, em virtude de uma identidade de natureza que não obsta a sua supe- 
rioridade sobre todos os seus servidores, semelhante Ser supremo excita profundamente 
uma atividade destinada a conservá-lo e melhorá-lo. 

A MULHER — Todavia, meu pai, o trabalho material imposto sem cessar por nos- 
sas necessidades corporais se me afigura diretamente contrário a essa tendência afetiva 
da religião positiva. Porque tal atividade me parece dever conservar sempre um caráter 
essencialmente egoísta, que se estende mesmo até os esforços teóricos por ela suscitados. 
Ora, isto bastaria para impedir a preponderância real do amor universal. 

O SACERDOTE — Espero, minha filha, fazer-vos reconhecer em breve que é pos- 
sível transformar radicalmente essa personalidade primitiva dos trabalhos humanos. À 
medida que a atividade material se vai tornando mais coletiva, ela tende cada vez mais 
para o caráter altruísta, posto que o impulso egoísta tenha que ficar sempre indispensável 
a seu primeiro surto. Com efeito, trabalhando cada um habitualmente para outrem, 
semelhante existência desenvolve necessariamente os afetos simpáticos, quando é assaz 
apreciada. Não falta, pois, a esses laboriosos servidores da humanidade, senão um senti- 
mento completo e familiar da existência real desses afetos. Ora, isto há de resultar natu- 
ralmente de uma extensão suficiente da educação positiva. Já poderíeis verificar esta ten- 
dência se a atividade pacífica, ainda destituída de toda disciplina sistemática, estivesse 
tão regulada quanto a vida guerreira, única organizada até aqui. Mas os grandes resulta- 
dos morais obtidos outrora em relação a esta, e que ainda permanecem sensíveis sob sua 
degradação atual, assaz indicam os que a outra comporta. Devemos, mesmo, esperar do 
instinto construtor reações simpáticas mais diretas e mais completas que as do instinto 
destruidor. 


21 A fórmula sagrada do positivismo foi a princípio redigida por Augusto Comte do seguinte modo, como 
se pode ver na 1.º edição deste Catecismo: O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por fim. 
Mais tarde, porém, modificou esta redação pela maneira que se vê no texto, isto é, ligando o segundo mem- 
bro ao primeiro pela conjunção, e separando o terceiro por um ponto e vírgula. Eis como o nosso Mestre se 
exprime em sua décima confissão anual (1854) acerca desta alteração: 

“Sob este impulso, minhas afeições e meus trabalhos adquiriram uma conexão crescente, há muito superior 
às esperanças indicadas em nossos primeiros contatos, escritos ou verbais. Já este colóquio acaba de inspi- 
rar-me a feliz modificação que esta manhã introduzi, a tempo, sem dúvida, na fórmula fundamental de nossa 
religião. Combino o segundo termo com o primeiro, isolando o último; o que doravante deve adaptá-la me- 
lhor ao seu destino normal. Enquanto eu tive de superar a insurreição do espírito contra o coração e a cisão 
do progresso relativamente à ordem, a forma primitiva era preferível. Mas, tendo o meu volume final preen- 
chido assaz essas duas condições, a nova redação fará sentir melhor a constituição religiosa do positivismo. 
a aliança entre o amor e a fé para guiar a atividade. Representando a unidade como proveniente do concurso 
da simpatia interior com a ordem exterior, ela permite mais regular toda a existência, mesmo física, mediante 
um destino sempre altruísta”. (Testamento, etc., p. 216.) 


CATECISMO POSITIVISTA 131 


A MULHER — Por esta última indicação começo, meu pai, a compreender a har- 
monia geral do positivismo. Já concebo nele como é que a atividade, naturalmente subor- 
dinada à fé, pode também submeter-se ao amor, que ela parece a principio repelir. Isto 
posto, julgo que essa doutrina preenche, enfim, todas as condições essenciais da religião 
tal como a definistes, pois que ela convém igualmente as três grandes partes de nossa 
existência, amar, pensar, agir, que nunca foram assim tão combinadas. 

O SACERDOTE — Quanto mais estudardes a síntese positiva tanto melhor senti- 
reis, minha filha, quanto a sua realidade a torna mais completa e mais eficaz que qual- 
quer outra. O predomínio habitual do altruísmo sobre o egoísmo, onde reside o grande 
problema humano, resulta aí diretamente de um concurso contínuo de todos os nossos 
trabalhos, teóricos e práticos, com as nossas melhores inclinações. Essa vida ativa, que 
o catolicismo figurava como oposta ao nosso íntimo aperfeiçoamento, torna-se, no posi- 
tivismo, sua principal garantia. Concebeis agora semelhante contraste entre dois siste- 
mas dos quais um admite e o outro nega a existência natural dos afetos desinteressados. 
As precisões corporais, que pareciam dever nos separar sempre, podem doravante tender 
a unir-nos mais do que se delas estivéssemos isentos. Porquanto o amor se desenvolve 
mais por atos que por votos; e, ademais, que poderíamos nós almejar para aqueles a 
quem nada faltasse? Pode-se também reconhecer que o tipo de existência real, peculiar 
aos positivistas, sobrepuja necessariamente, mesmo quanto ao sentimento, a vida quimé- 
rica prometida aos teologistas. 

A MULHER — A fim de completardes esta conferência preliminar, rogo-vos, meu 
pai, que me expliqueis sucintamente a divisão geral da religião, cujas diversas partes 
essenciais me exporeis em seguida. Pedindo-vos este esclarecimento, sinto que o amor 
sendo o princípio da unidade humana, a parte que a ele se refere tem de naturalmente 
prevalecer no sistema religioso, e que é por ela que deveis começar minha iniciação 
positivista. 

O SACERDOTE — Esta última reflexão, minha filha, prova ainda uma vez quanto 
a simpatia é favorável à síntese. Acabais, com efeito, de assinalar espontaneamente o 
traço mais característico da religião positiva, a precedência que ela dá ao culto sobre o 
dogma. Para o reconhecerdes, deveis notar que a decomposição a que aludis resulta de 
uma exata apreciação da existência total que à religião cabe dirigir. O culto, o dogma e 
O regime concernem respectivamente aos nossos sentimentos, pensamentos e atos. Exces- 
siva deferência para com os meus predecessores católicos arrastou-me espontaneamente 
a colocar a princípio o dogma antes do culto, sem examinar se esta disposição seria tão 
conforme à nova sintese como à antiga. Uma solicitude exagerada pela racionalidade 
fez-me em seguida manter esta ordem, a fim de que o culto assentasse sobre uma base 
sistemática. A aplicação, porém, do arranjo primitivo demonstrou-me gradativamente 
que ele não é assaz sintético. 

Para resolver definitivamente este problema, basta distinguir as duas constituições, 
sintética e analítica, que a doutrina universal comporta. O culto repousa necessariamente 
sobre a primeira, a qual ele desenvolve, idealizando-a. Longe, porém, de exigir a segunda, 
é o culto que, pelo contrário, se torna indispensável ao estabelecimento da constituição 
analítica do dogma. De onde resulta, minha filha, que é necessário, antes de tudo, elevar- 
mo-nos até a exata compreensão da humanidade. Depois cultivamos os sentimentos 
apropriados à existência que ela nos prescreve. Só então podemos efetuar a elaboração 
teórica destinada a fazer conhecer analiticamente a ordem fundamental e o Ente supremo 
que a modifica. Enfim, pelo regime, regulamos diretamente cada conduta humana. 


132 COMTE 


Eis aí como a religião positiva abraça ao mesmo tempo as nossas três grandes cons- 
truções continuas, a poesia, a filosofia e a política. A moral, porém, aí domina sempre, 
quer o surto de nossos sentimentos, quer o desenvolvimento de nossos conhecimentos, 
quer o curso de nossas ações, de modo a dirigir sem cessar nossa tríplice pesquisa do 


belo, do verdadeiro e do bom. 


SEGUNDA CONFERÊNCIA 


TEORIA DA HUMANIDADE 


A MULHER — Pelo que ouvi em nossa conferência preliminar, sinto-me atemori- 
zada, meu pai, por minha profunda insuficiência para a elevada exposição que ides 
começar. Pois que a concepção da humanidade condensa o dogma da religião universal, 
o qual consiste na filosofia positiva, minha inteligência se me afigura demasiado fraca. 
ou, pelo menos, muito pouco preparada, para bem compreender essa explicação, por 
mais simples que vos seja dado fazê-la. Eu só trago aqui uma confiança plena, um res- 
peito sincero e uma simpatia ativa para com a doutrina que parece, após tantas tentati- 
vas vãs, apropriada a superar, enfim, a anarquia moderna. Receio, porém, que estas 
disposições morais não bastem para que eu possa encetar com bom êxito um estudo tão 
difícil. 

O SACERDOTE — Vossos temores exigem, minha filha, algumas reflexões pré- 
vias que, espero, vos hão de tranquilizar logo. Não se trata aqui senão de efetuar, acerca 
da nova religião, uma exposição geral equivalente à que vos iniciou outrora no catoli- 
cismo. A natureza mais inteligível de uma doutrina sempre demonstrável deve, até, além 
da atual maturidade de vossa razão, tornar-vos este segundo trabalho mais fácil que o 
primeiro. Lembrai-vos, por outro lado, da admirável máxima que o nosso grande Moliêre 
fez proclamar pelo homem de gosto de sua última obra-prima: 


Consinto em que a mulher de tudo tenha luzes”? 


e notai também que o consinto de então se transformaria agora em convém. 

No fundo, o domínio intelectual do sacerdócio foi sempre o mesmo que o do públi- 
co, salvo a diversidade de cultura, sistemática de um lado, puramente espontânea do 
outro. Esta identidade essencial, sem a qual não se conceberia nenhuma harmonia reli- 
giosa, torna-se ao mesmo tempo mais direta e mais completa no positivismo do que 
nunca o pôde ser sob o teologismo. O verdadeiro espírito filosófico consiste, de fato, 
como o simples bom senso, em conhecer o que é, para prever o que há de ser, a fim de 
o aperfeiçoar tanto quanto possível. Um dos melhores preceitos positivistas declara, até, 
viciosa, ou, pelo menos, prematura, toda sistematização que não for precedida e prepa- 
rada por um suficiente surto espontâneo. Esta regra resulta logo do verso dogmático, 
com que o positivismo caracteriza o conjunto de nossa existência: 


Agir por afeição e pensar para agir. 


O primeiro hemistíquio corresponde à espontaneidade, e o segundo, à sistemati- 
zação consecutiva. Quaisquer que sejam os inconvenientes que a atividade irrefletida 
suscite, só ela pode ordinariamente fornecer os primeiros materiais de uma meditação 
eficaz que permitirá agir melhor. 


22 «Je consens qu'une femme ait des clartés de tout”, Moliêre, Les Femmes Savantes, ato 1.º, cena 3.º. 


134 COMTE 


Considerai, enfim, que nenhum espírito pode abster-se de uma opinião qualquer 
sobre a ordem universal, quer exterior, quer humana. Sabeis já agora que o dogma reli- 
gioso teve sempre o mesmo objeto essencial, com esta única diferença geral que o conhe- 
cimento das leis substitui nele, daqui por diante, a indagação das causas. Ora, hipóteses 
quiméricas em relação a estas não podem parecer-vos mais inteligíveis do que noções 
reais sobre aquelas. 

As mulheres e os proletários, que esta exposição tem principalmente em vista, não 
podem nem devem converter-se em doutores, e nem eles o querem. Todos, porém, preci- 
sam compreender quanto baste o espírito e a marcha da doutrina universal, para impo- 
rem a seus chefes espirituais uma suficiente preparação científica e lógica, sobre a qual 
repousa necessariamente o ofício sistemático do sacerdócio. Ora, esta disciplina intelec- 
tual é hoje por tal forma contrária aos hábitos criados pela anarquia moderna, que ela 
nunca prevalecerá se o público de ambos os sexos a não impuser aos que pretendem diri- 
gir suas opiniões. Esta condição social tornará sempre preciosa a propagação geral da 
instrução religiosa, além de seu destino próprio para guiar cada existência, individual ou 
coletiva. Mas semelhante serviço adquire agora uma importância capital, a fim de se pór 
um paradeiro decisivo à anarquia ocidental, principalmente caracterizada pela revolta 
intelectual. Se este Catecismo pudesse convencer as mulheres e os proletários que seus 
pretensos guias espirituais são radicalmente incompetentes para as altas elaborações que 
cegamente lhes são confiadas, muito contribuiria para a pacificação do Ocidente. Ora, 
esta convicção unânime não pode resultar hoje senão de uma suficiente apreciação do 
dogma final, adequada a tornar incontestáveis as condições gerais de sua cultura 
sistemática. 

Quanto às dificuldades que temeis agora neste estudo indispensável, contais muito 
pouco, para as superar, com as vossas excelentes disposições morais. Nenhuma acade- 
mia atual hesitaria em proclamar doutoralmente que o espírito pensa sempre como se o 
coração não existisse. Mas as mulheres e os proletários nunca desconheceram a íntima 
reação do sentimento sobre a inteligência, explicada enfim pela filosofia positiva. Vosso 
sexo, sobretudo, cujo doce ministério involuntário nos transmitiu, tanto quanto possível, 
os admiráveis costumes da Idade Média através da anarquia moderna, julga diariamente 
a heresia metafísica que separa esses dois grandes atributos. Pois que, segundo a bela 
máxima de Vauvenargues, 2º o coração é necessário às principais inspirações do espírito, 
deve ele servir também para fazer compreender os resultados dessas inspirações. Esta 
poderosa assistência convém sobretudo às concepções morais e sociais, em relação às 
quais o instinto simpático pode secundar melhor o espírito sintético, cujos maiores esfor- 
ços não venceriam, sem esse socorro, as dificuldades que tais concepções oferecem. Mas 
o mesmo auxílio se pode aplicar às teorias inferiores, em virtude da conexão necessária 
de todas as nossas especulações reais. 

Das duas condições fundamentais da religião, amor e fé, a primeira deve certamente 
prevalecer. Com efeito, ainda que a fé seja muito própria para consolidar o amor, a ação 
inversa é mais poderosa como mais direta. O sentimento não só preside as inspirações 
espontâneas que a princípio exige toda elaboração sistemática, mas, ainda, consagra e 
auxilia a esta quando lhe reconhece a importância. Não há mulher dotada de experiência 
que ignore a insuficiência demasiado frequente dos melhores afetos quando não são 
assistidos de convicções inabaláveis. Esta palavra convencer bastaria, atenta sua origem, 
para lembrar a aptidão das crenças profundas a consolidar o interior ligando-o ao 
exterior. 

A insuficiência teórica que vos atemoriza aqui assenta, enfim, sobre a confusão 
ordinária entre a instrução e a inteligência. Vossa admiração familiar pelo incomparável 


2º A máxima de Vauvenargues é a seguinte: “Os grandes pensamentos vêm do coração”. 


CATECISMO POSITIVISTA 135 


Moliére não vos preservou, a este respeito, do erro vulgar, cuidadosamente entretido 
pelos nossos Trissotinos? * de todas as profissões. Entretanto, devíamos corar por estar- 
mos hoje menos adiantados que na Idade Média, em que todos sabiam apreciar o pro- 
fundo mérito intelectual de personagens muitíssimo iletrados. Não tendes por vezes 
encontrado em tais espíritos uma aptidão mais real que na maioria dos doutores? Hoje, 
mais do que nunca, a instrução só é verdadeiramente indispensável para construir e 
devolver a ciência, cujo conjunto deve sempre ser instituído de maneira a tornar-se dire- 
tamente acessível a todas as inteligências sãs. Sem isto, nossas melhores doutrinas dege- 
nerariam logo em mistificações perigosas: este desvio peculiar aos teoristas quaisquer 
não pode ser neles assaz atalhado senão por meio de uma digna fiscalização de ambos os 
sexos. 

A MULHER — Animada pelo vosso preâmbulo, rogo-vos, meu pai, que passeis a 
uma explicação mais direta e mais completa do princípio universal de nossa religião, 
conforme mo anunciastes. Já compreendi que a vossa concepção do verdadeiro Grande 
Ser resume necessariamente o conjunto da ordem real, não só humana, mas também 
exterior. Eis por que sinto necessidade de uma determinação mais nítida e mais precisa 
acerca dessa unidade fundamental do positivismo. 

O SACERDOTE — Para o conseguirdes, deveis, minha filha, definir em primeiro 
lugar a humanidade como o conjunto dos seres humanos, passados, futuros e presentes. 
Esta palavra conjunto indica-vos bastante que não se deve compreender aí todos os 
homens, mas só aqueles que são realmente assimiláveis, por efeito de uma verdadeira 
cooperação na existência comum. Posto que todos nasçam necessariamente filhos da 
humanidade, nem todos se tornam seus servidores, e muitos permanecem no estado para- 
sitário, que só foi desculpável durante a sua educação. Os tempos anárquicos fazem 
sobretudo pulular, e demasiadas vezes florescer, esses tristes fardos do verdadeiro Gran- 
de Ser. Mais de um de vós deve ter trazido à lembrança a admirável reprovação de 
Dante, esboçada já por Horácio e reproduzida por Ariosto: 


Che visser senza infamia e senza lodo. 


Cacciarli i ciel per non esser men belli, 
Ne lo profondo inferno li riceve, 
Ch'alcuna gloria i rei avrebber d elli. 


Non ragioniam di lor, ma guarda e passa.” * 


24 Trissotin, ou Trissotino, aportuguesando o nome, é um tipo de pedante imortalizado por Moliêre em sua 
comédia Les Femmes Savantes. 

28 “Que viveram sem infâmia nem louvor... O céu os expulsou para não ser menos belo, e nem o profundo 
inferno os recebe, porque os condenados tirariam deles alguma glória... Não falemos mais deles, olha e 
passa.” Dante, Inferno, canto 3.º. Horácio, como o Mestre indica, já havia caracterizado esses parasitas no 
trecho seguinte: “Nos numerus sumus, et fruges consumere nati”. (Epistolas, 2.º, livro I.) O que, livremente 
traduzido, quer dizer: “Nós não servimos senão para fazer número e consumir alimentos”. 

Filinto Elísio verteu assim: 


“ Nós só viemos a fazer quantia 
E a consumir searas”. 
(Obras, tomo V.) 


Quanto à alusão a Ariosto, refere-se ela ao seguinte verso de uma de suas Sátiras: 

“Venuto al mondo sol per far letame”. 
Este verso acha-se citado no texto da 1.º edição desta tradução. Suprimimo-lo nesta segunda em conse- 
quência da substituição que fizemos dos termos: produtores de esterco, por parasitas, de conformidade com 
a recomendação que o nosso Mestre fez a esse respeito ao seu discípulo inglês John Fisher. (V. Leitres à des 
Positivistes Anglais, p. 56, e a nota correspondente a esta da 1.º edição de nossa tradução.) 


136 COMTE 


Vedes assim que, a este como a qualquer outro respeito, a inspiração poética ante- 
cedeu muito a sistematização filosófica. Seja como for, se esses parasitas não fazem real- 
mente parte da humanidade, uma justa compensação vos prescreve de agregardes ao 
novo Ente Supremo todos os seus dignos auxiliares animais. Toda útil cooperação habi- 
tual nos destinos humanos, quando exercida voluntariamente, erige o ser correspondente 
em elemento real dessa existência composta, com um grau de importância proporcional 
à dignidade da espécie e à eficácia do indivíduo. Para avaliar este complemento indispen- 
sável, basta imaginar que ele nos falta. Ninguém hesitará, então, em considerar tais cava- 
los, cães, bois, etc.. como mais estimaveis que certos homens. 

Nesta primeira concepção do concurso humano, a atenção volta-se naturalmente 
para a solidariedade, de preferência à continuidade. Mas, conquanto esta seja a princípio 
menos sentida, por exigir um exame mais profundo, é a noção dela que deve finalmente 
prevalecer, porquanto o surto social pouco tarda em depender mais do tempo que do 
espaço. Não é só hoje que cada homem, esforçando-se por apreciar o que deve aos 
outros, reconhece uma participação muito maior no conjunto de seus predecessores do 
que no de seus contemporâneos. Semelhante superioridade manifesta-se em menores 
proporções nas épocas mais remotas, como o indica o culto comovente que sempre nes- 
ses tempos se rendeu aos mortos, segundo a bela observação de Vico.” º 

Assim, a verdadeira sociabilidade consiste mais na continuidade sucessiva do que 
na solidariedade atual. Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessaria- 
mente pelos mortos: tal é a lei fundamental da ordem humana. 

Para se conceber melhor esta lei, cumpre distinguir, em cada verdadeiro servidor da 
humanidade, duas existências sucessivas: uma, temporária, mas direta, constitui a vida 
propriamente dita; a outra, indireta, mas permanente, só começa depois da morte. Sendo 
a primeira sempre corporal, pode ser qualificada de objetiva; sobretudo por contraste 
com a segunda, que, não deixando subsistir a cada um senão no coração e no espírito de 
outrem, merece o nome de subjetiva. Tal é a nobre imortalidade, necessariamente imate- 
rial, que o positivismo reconhece à nossa alma, conservando este termo precioso para 
designar o conjunto das funções intelectuais e morais, sem nenhuma alusão à entidade 
correspondente. 

Em virtude desta elevada noção, a verdadeira população humana se compõe, pois, 
de duas massas sempre indispensáveis, cuja proporção varia sem cessar, tendendo a fazer 
com que os mortos prevaleçam mais sobre os vivos em cada operação real. Se a ação e 
o resultado dependem sobretudo do elemento objetivo, o impulso e a regra dimanam 
principalmente do elemento subjetivo. Liberalmente dotados pelos nossos predecessores, 
nós transmitimos de graça aos nossos sucessores o conjunto do domínio humano, com 
uma extensão cada vez mais fraca proporcionalmente ao que recebemos. Esta gratuidade 
necessária encontra sua digna recompensa na incorporação subjetiva que nos permitirá 
perpetuar nossos serviços, transformando-os. 

Se hem que semelhante teoria pareça constituir hoje o último esforço sistemático do 
espírito humano, as mais longínquas evoluções oferecem sempre o germe espontâneo 
dela. já sentido pelos mais antigos poetas. A mínima cabilda, e mesmo cada família um 
pouco considerável, julga-se logo como a estirpe essencial dessa existência composta e 
progressiva que não comporta, no espaço e no tempo, outros limites necessários que os 
do estado normal peculiar ao seu planeta. Posto que o Grande Ser não esteja ainda assaz 
formado, as colisões mais íntimas nunca ocultaram sua evolução gradual, que, sistemati- 


26 a E - ,.. E 
Vico fazia do culto dos mortos um dos caracteres fundamentais da espécie humana. (V. La Scienza 
Nuova, ed. Ferrari.) 


CATECISMO POSITIVISTA 137 


camente apreciada, fornece hoje a única base possível de nossa unidade final. Mesmo sob 
o egoísmo cristão, que ditava ao duro São Pedro a máxima característica: Consideremo- 
nos sobre a terra como estrangeiros ou exilados,” " vemos já o admirável São Paulo ante- 
cipar, pelo sentimento, a concepção da humanidade, nesta imagem tocante, mas contra- 
ditória: Nós somos todos membros uns dos ouiros.?º Só o princípio positivista devia 
revelar o tronco único ao qual necessariamente pertencem todos esses membros esponta- 
neamente confusos. 

A MULHER — Não posso deixar de admitir, meu pai, esta concepção fundamen- 
tal, por mais dificuldades que ela ainda me apresente. Amedronto-me, porém, de minha 
nulidade pessoal ante semelhante existência, cuja imensidade me abate mais do que 
outrora a majestade de um Deus, com o qual, embora mesquinha, me sentia em relação 
própria e direta. Depois de me haverdes subjugado pela preponderância crescente do 
novo Ente Supremo, careço, pois, que reanimes em mim o justo sentimento de minha 
individualidade. 

O SACERDOTE — Vai isso resultar, minha filha, de uma apreciação mais com- 
pleta do dogma positivo. Basta reconhecer que, posto que o conjunto da humanidade 
constitua sempre o principal motor de nossas operações quaisquer, físicas, intelectuais 
ou morais, o Grande Ser nunca pode agir senão por intermédio de órgãos individuais. É 
por isso que a população objetiva, apesar de sua subordinação crescente à população 
subjetiva, continua necessariamente indispensável a toda influência desta. Decompondo, 
porém, essa participação coletiva, vê-se, afinal, que ela resulta de um livre concurso entre 
esforços puramente pessoais. Eis aí o que deve reerguer cada digna individualidade em 
presença do novo Ente Supremo, ainda mais que perante o antigo. Com efeito, este não 
tinha realmente nenhuma necessidade de nossos serviços quaisquer, senão para vãos lou- 
vores, devendo, até, sua pueril avidez por eles degradá-los aos nossos olhos. Recordai- 
vos deste verso decisivo da Imitação: 


Eu te sou necessário, e tu de nada me serves.” º 


Poucos, sem dúvida, são os homens que se podem considerar como realmente 
indispensáveis à Humanidade: isto só quadra aos verdadeiros promotores de nossos prin- 
cipais progressos. Mas toda digna existência humana pode e deve sentir habitualmente a 
utilidade de sua cooperação pessoal nessa imensa evolução, que cessaria necessaria- 
mente logo que todos os seus mínimos elementos objetivos desaparecessem a um tempo. 
O desenvolvimento e mesmo a conservação do Grande Ser ficam, portanto, subordi- 
nados sempre aos livres serviços de seus diversos filhos, posto que a inação de cada um 
deles seja de ordinário suscetível de uma suficiente compensação. 

Esta sumária exposição do dogma fundamental de nossa religião permite-me, minha 
filha. proceder agora à explicação, primeiro geral, depois especial, do culto positivista. 


27 “Charissimi, obsecro vos tanquam advenas et peregrinos. . .” (Caríssimos, eu vos rogo como a estran- 
geiros e peregrinos. . .”) São Pedro, Epistola, 1.º, IL, 11. 
2º “Ita multi unum corpus sumus in Christo, singuli autem alter alterius membra.” (“ Assim, ainda que mui- 
tos, somos um só corpo em Cristo, e cada um de nós membros uns dos outros.”) São Paulo, Epistola aos 
Romanos, XIH, 5. : 
2º O verso citado neste lugar é tirado da tradução de Corncille: 

“Je te suis nêcessaire, ct tu m'es inutile”. 
O original latino diz assim: “Tu mei indiges, non ego tui indigeo”. (“Tu precisas de mim, eu não preciso de 
ti.”) É Deus quem fala. /mit. de Cristo, livro IV. cap. XII. 


138 COMTE 


Seu estudo vos fará sentir, assim o espero, que a aptidão poética do positivismo está 
verdadeiramente ao nível de seu poder filosófico, sem ter ainda podido produzir resulta- 


dos tão decisivos. 


PARTE PRIMEIRA 


EXPLICACAO DO 
CULTO 


E 


as 


-— sms 


TERCEIRA CONFERÊNCIA 


CONJUNTO DO CULTO 


A MULHER — As nossas duas conferências anteriores, respectivamente consa- 
gradas à teoria geral da religião e à exposição sintética do dogma da Humanidade, tira- 
ram-me irrevogavelmente da situação contraditória em que eu flutuava entre o impulso 
católico e a tendência voltairiana. Considerando-me já como positivista, venho, pois, 
pedir-vos que doravante me ensineis diretamente a melhor amar para melhor servir a 
incomparável Deusa que me revelastes, e à qual espero merecer ser finalmente incorpo- 
rada. Isto posto, minha atitude muda espontaneamente, e nossas conferências tomam um 
caráter mais pronunciado de verdadeiras conversações. Em vez de submeter-vos dúvidas 
essenciais, que exijam longas explicações, só vos interromperei a fim de esclarecerdes e 
desenvolverdes algumas indicações insuficientes. Espero, até, em relação ao culto, tor- 
nar-me bastante ativa para secundar-vos, antecipando certas explicações de modo a fazer 
vossa exposição mais rápida, sem que por isso fique menos completa. Entramos aqui no 
domínio do sentimento, onde a inspiração feminina, conquanto sempre empírica, pode 
verdadeiramente assistir a construção sacerdotal. 

O SACERDOTE — Conto muito, minha filha, com essa cooperação espontânea, 
para tornar esta parte de nosso Catecismo menos extensa que a seguinte. Mas, a fim de 
utilizar melhor vossa disposição atual, esta nova conferência, que só diz respeito ao con- 
Junto do culto, deve começar sistematizando o plano geral da religião, posto que já vos 
seja ele familiar. 

Toda combinação, mesmo física, e sobretudo lógica, devendo ser sempre binária, 
como assaz o indica a etimologia da palavra, a mesma regra estende-se necessariamente 
a decomposições quaisquer. A divisão fundamental da religião satisfaz naturalmente a 
esta regra, repartindo o domínio religioso entre o amor e a fé. Em toda evolução normal, 
individual ou coletiva, o amor nos conduz primeiro à fé, enquanto o surto permanece 
espontâneo. Mas, quando este se torna sistemático, a fé é construída para regular o amor. 
Esta divisão principal equivale à verdadeira distinção geral entre a teoria e a prática. 

O domínio prático da religião decompõe-se necessariamente também em dois, 
segundo a distinção natural entre os sentimentos e os atos. A parte teórica não corres- 
ponde senão à inteligência, única base possível da fé. Mas a parte prática abrange todo 
o resto de nossa existência, tanto os nossos sentimentos como os nossos próprios atos. O 
uso universal e espontâneo, que constitui o melhor regulador da linguagem, consagra 
diretamente semelhante apreciação, qualificando de práticas religiosas os hábitos relati- 
vos ao culto, tanto, se não mais, que aqueles de que o regime é o objeto próprio. Esta 
confusão aparente assenta sobre uma sabedoria profunda, posto que empírica, a qual, 
desde muito cedo, ensinou ao público, sobretudo feminino, como ao sacerdócio, que o 
aperfeiçoamento de nossos sentimentos sobreleva, em importância e dificuldade, o 


142 COMTE 


melhoramento imediato de nossas ações. Como o nosso amor não se torna nunca místi- 
co, o culto positivo pertence normalmente ao domínio prático da verdadeira religião: nós 
amamos mais a fim de servir melhor. Mas, por outro lado, nossos atos comportam sem- 
pre, no verdadeiro ponto de vista religioso, um caráter essencialmente altruísta; pois que 
a religião deve sobretudo dispor-nos e ensinar-nos a viver para outrem. Inspiradas pelo 
amor, nossas ações tendem, reciprocamente, a desenvolvê-lo. Diretamente evidente em 
relação ao aperfeiçoamento intelectual, quando bem dirigido, esta aptidão natural esten- 
de-se mesmo ao progresso material, se ele for convenientemente instituído. Eis aí por que 
o regime, apreciado religiosamente, pertence, tanto quanto o culto, ao domínio do amor. 

Este duplo princípio, que torna prático o nosso culto e afetivo o nosso regime, sem 
contudo confundi-los nunca, não podia surgir enquanto a religião permaneceu teológica. 
Então o culto e o regime eram radicalmente heterogêneos, endereçando-se um a Deus e 
o outro referindo-se ao homem. O culto não dominava o regime senão pela subordinação 
necessária do segundo ente ao primeiro. Ambos tinham um caráter essencialmente egoís- 
ta, de acordo com a constituição, profundamente individual, de uma fé que foi sempre 
incompatível com a existência natural dos pendores benévolos, consagrada somente pelo 
positivismo. Então, a divisão entre o regime e o culto era tão marcada como a que separa 
o culto do dogma, de modo a tornar ininteligível o plano geral da religião, em virtude de 
nossa justa repugnância pelas combinações ternárias. 

No estado final, as distinções religiosas tornam-se, pelo contrário, não menos favo- 
ráveis à razão que ao sentimento. O dogma difere aí do culto e do regime muito mais do 
que estes diferem entre si. É assim que a constituição usual da religião volta a ser terná- 
ria, mas segundo uma divisão sempre binária, completando a distinção principal por 
uma única subdivisão, que até então lhe era irracionalmente equiparada. O conjunto des- 
tas três partes essenciais forma, finalmente, uma progressão normal, visto a homogenei- 
dade natural de seus diversos elementos. Ela conduz, sem esforço, do amor à fé, ou vice- 
versa; conforme se seguir a via subjetiva ou a marcha objetiva, nas duas idades 
principais da iniciação religiosa, respectivamente dirigida pela mulher ou pelo padre. 
Mas nesses dois sentidos, igualmente usuais, o culto ocupa sempre o mesmo lugar, antes 
do dogma e do regime. Repousando, como já sabeis, sobre a constituição sintética da 
doutrina universal, ele se torna indispensável ao digno estabelecimento da instituição 
analítica desta, ou dogma propriamente dito, essencialmente destinada ao regime. Isto 
basta para explicar a aptidão cotidiana do culto a representar toda a religião. 

A MULHER — Um apressuramento muito natural em começar diretamente o estu- 
do de nosso culto fazia-me a princípio transpor, meu pai, o preâmbulo geral que acabais 
de expor. Sinto agora quanto ele me era necessário para conceber com clareza o plano da 
religião, cujas três partes eu até então não havia coordenado bastante. Todavia, este pre- 
cioso esclarecimento parece-me tão cabal que espero poder estudar imediatamente o con- 
junto do culto peculiar à nossa Deusa. 

O SACERDOTE — Nós não a adoramos, minha filha, como ao antigo Deus, para 
fazer-lhe cumprimentos, mas a fim de a servir melhor, aperfeiçoando-nos. Importa lem- 
brar aqui este destino normal do cuito positivo, no intuito de prevenir ou corrigir a dege- 
neração mística a que sempre ficamos expostos quando uma preocupação demasiado 
exclusiva dos sentimentos nos dispõe a desprezar, ou mesmo a esquecer, os atos que eles 
devem reger. O meu caráter mais sistemático me arrastaria mais do que a vós a seme- 
lhante abuso, cujos estragos práticos seriam logo apontados pela vossa criteriosidade 
espontânea, que poderia, até, compensá-los bastante por uma feliz inconsegiiência teóri- 


CATECISMO POSITIVISTA 143 


ca. Cumpre-me, sobretudo, evitar este desvio na presente conversação, que, sendo mais 
abstrata e mais geral, o torna por isso mais iminente e mais grave. Vossas retificações 
empíricas acabariam, sem dúvida, por trazer-me de novo ao verdadeiro ponto de vista, 
porém muitas vezes demasiado tarde, de modo a obrigar-me algumas vezes a laboriosas 
reparações. 

Sob esta continua precaução, concebamos o conjunto do culto como destinado 
sistematicamente a ligar as outras duas partes da religião à concepção sintética do Gran- 
de Ser, idealizando a ambas. Idealizar o dogma a fim de idealizar o regime, tal foi sempre 
o destino próprio do culto, que assim se torna capaz de representar o conjunto da reli- 
gião. Ele oferece-nos, com efeito, o tipo antecipado do dogma, porque ele desenvolve a 
concepção sintética que o resume e o institui, tornando-nos ao mesmo tempo mais fami- 
liar e mais imponente a noção da humanidade, mediante uma representação ideal. Mas, 
como tipo do regime, o culto deve tender diretamente a melhorar os nossos sentimentos. 
levando sempre em conta as modificações que lhes imprimem habitualmente os três 
graus da vida humana, pessoal, doméstica e social. Posto que estas duas maneiras gerais 
de conceber e de instituir o culto possam a princípio parecer inconciliáveis, a concor- 
dância natural delas resulta da aptidão necessária de uma digna idealização do Grande 
Ser para consolidar e desenvolver o amor, sobre o qual assenta toda a sua existência. 
Portanto, esse contraste primitivo não tende, de modo algum, a decompor o culto em 
dois domínios separáveis, dos quais um pertenceria exclusivamente à inteligência e o 
outro ao sentimento. Tal divisão seria tão impraticável ordinariamente quanto a distin- 
ção geral entre o cálculo algébrico e o cálculo aritmético, que não podem verdadeira- 
mente ser isolados senão em casos muito simples, e, até, em sua maioria, artificiais, em- 
bora estes dois cálculos se misturem sempre, sem que nunca se confundam. Esta 
comparação dá uma idéia exata da íntima conexão que liga naturalmente os dois aspec- 
tos, intelectual e moral, ou teórico e prático, peculiares, já ao conjunto do culto positivo, 
já a cada uma de suas partes. Apesar, porém, da espontaneidade deste vínculo. devida à 
natureza do sistema religioso a que ambos os aspectos se referem, a criteriosa combina- 
ção deles suscita, de fato, a principal dificuldade que pode oferecer a instituição do nosso 
culto. Porquanto o culto está exposto, como o dogma, e até mais do que ele, a degenerar 
em misticismo ou em empirismo, conforme houver excesso ou falta de generalização e de 
abstração. Ora, estes dois abusos contrários produzem moralmente estragos equivalen- 
tes, pois que a eficácia social dos sentimentos humanos tanto se altera quando eles se tor- 
nam muito sutis como quando se tornam muito grosseiros. 

— A MULHER — Para melhor apreciar esta dificuldade geral, creio, meu pai, poder 
reduzi-la a bem instituir a vida subjetiva sobre a qual assenta necessariamente o conjunto 
do cuito positivista, quer o consideremos intelectual ou moralmente. O nosso Grande Ser 
compõe-se primeiro muito mais de mortos, e depois de pessoas por nascer, do que de 
vivos, e destes mesmos a maior parte não são senão servidores, sem que possam atual- 
mente ser seus órgãos. Muito poucos homens existem, e ainda menos mulheres, que 
sejam, a este respeito, plenamente julgáveis antes de terem terminado sua carreira objeti- 
va. Durante a maior porção de sua vida direta, cada um de nós poderia ordinariamente 
compensar, e até exceder muito, o bem que fez pelo mal que faria. Assim, a população 
humana compõe-se sobretudo de duas sortes de elementos subjetivos, uns determinados, 
outros indeterminados, entre os quais só o elemento objetivo, embora cada vez menor, é 
que institui um liame imediato e completo. Compreendo então que, para nos representar 
o verdadeiro Grande Ser, o culto positivo deve desenvolver muito, em cada um de nós, 


144 COMTE 


a vida subjetiva: o que, aliás, o há de tornar, quer-me parecer, eminentemente poético. 
Ao mesmo tempo, tais exercícios, em que o pensamento se produz sobretudo com o auxí- 
lio de imagens, são muito adequados a cultivar diretamente os nossos melhores 
sentimentos. 

A condição intelectual e o fim moral afiguram-se-me, pois, plenamente conciliáveis. 
segundo o princípio que acabais de fornecer-me. Mas este meio necessário parece-me 
suscitar, por sua vez, uma nova dificuldade geral. Porque mal posso conceber como se 
poderá constituir, e sobretudo fazer unânime, este surto diário, tanto privado, como pú- 
blico, da vida subjetiva, cuja prática universal é, no entanto, indispensável à nossa reli- 
gião. Sem dúvida, a regeneração total da educação humana há de ministrar, a este respei- 
to, recursos imensos, que hoje dificilmente podemos avaliar. Sem embargo, receio que 
fiquem sempre insuficientes para vencer semelhante dificuldade, em relação à qual o pas- 
sado não me parece oferecer, ao menos diretamente, nenhum motivo de esperança geral. 

O SACERDOTE — Pelo contrário, minha filha, espero dissipar em breve vossos 
temores, aliás muito naturais, mediante uma sã apreciação desse longo início, cujo termo 
decisivo a própria feitura deste Catecismo já comprova. Não se pode, com efeito, desco- 
nhecer a aptidão, natural e unânime, de nossa espécie para viver subjetivamente, quando 
vemos prevalecer nela, por espaço de quarenta séculos, sob diversas formas, semelhante 
existência. Os espíritos emancipados sabem hoje que durante essa imensa existência 
todos os cérebros humanos estiveram habitualmente dominados por entes puramente 
imaginários, posto que se lhes atribuísse uma realidade exterior. Mas os diversos teolo- 
gistas estão quase tão convencidos disso, visto como cada fé julga assim todas as outras, 
cujos partidários reunidos formaram sempre uma grande maioria contrária, sobretudo 
depois da dispersão atual das crenças sobrenaturais. Cada qual só excetua da ilusão sua 
própria fábula. 

Nós somos de tal modo propensos à vida subjetiva que esta prevalece mais à medi- 
da que remontamos para a idade ingênua da plena espontaneidade, individual ou coleti- 
va. A principal força de nossa razão consiste, pelo contrário, em subordinar suficiente- 
mente o subjetivo ao objetivo, para que as nossas operações interiores possam 
representar o mundo exterior com o predomínio imutável que a este pertence, tanto quan- 
to o exigem as nossas relações, ativas e passivas. Este resultado normal só se obtém, no 
indivíduo como na espécie, no tempo da verdadeira madureza, vindo a ser o melhor sinal 
desta. Posto que semelhante transformação tenda agora a mudar radicalmente o regime 
do entendimento humano, ela não nos impedirá nunca de desenvolver a vida subjetiva, 
além mesmo de todas as necessidades do culto positivo. Sempre havemos de precisar de 
uma certa disciplina para conter no grau conveniente nossa disposição espontânea a 
substituir exageradamente o interior ao exterior. Não deveis, portanto, abrigar, a este res- 
peito, nenhum receio sério, a menos que não julgueis o homem futuro pela tendência 
atual das especialidades científicas a apagar a imaginação como a secar o coração, o que 
apenas constitui um dos sintomas naturais da anarquia moderna. | 

A única diferença essencial entre a nova subjetividade e a antiga deve consistir em 
que aquela será plenamente sentida e confessada. sem que ninguém a confunda jamais 
com a objetividade. Nossas contemplações religiosas efetuar-se-ão cientemente no inte- 
rior, ao passo que Os nossos predecessores se esforçavam em vão por ver no exterior o 
que não existia senão neles mesmos, salvo o recurso de adiarem para a vida futura a 
realização final de suas visões. Podemos facilmente resumir este contraste geral mediante 
uma oposição decisiva entre os dois modos de conceber a principal subdivisão intelec- 


CATECISMO POSITIVISTA 145 


tual. Na existência normal, a contemplação, mesmo interior, é mais fácil e menos imi- 
nente que a meditação, pois que a nossa inteligência aí permanece quase passiva. Em 
uma palavra, nós contemplamos para meditar. porque os nossos estudos essenciais 
dizem sempre respeito ao exterior. Pelo contrário, a meditação devia parecer aos teolo- 
gistas menos difícil e mais vulgar do que a contemplação, erigida então em principal 
esforço de nosso entendimento. Eles só meditavam a fim de poder contemplar entes que 
sem cessar lhes fugiam. Um sinal familiar indicará em breve esta distinção quanto à 
maior parte do culto privado. Com efeito, o positivista fecha os olhos durante as suas 
efusões secretas, a fim de ver melhor a imagem interior. ao passo que o teologista os 
abria para perceber no exterior um objeto quimérico.*º 

A MULHER — Posto que este esclarecimento decisivo dissipe ja meus receios 
anteriores, persisto, meu pai, em considerar a instituição da vida subjetiva como a princi- 
pal dificuldade do culto positivo. Apenas a nova subjetividade parece-me agora poder 
sempre conciliar-se assaz com a profunda realidade que distingue a nossa fé. Mas esta 
concordância afigura-se-me dever exigir incessantes esforços especiais. 

O SACERDOTE — Apanhastes convenientemente. minha filha, a condição essen- 
cial que devo preencher aqui. Porquanto o melhor contraste entre o culto e o regime con- 
siste sobretudo em lhes assinalar para domínios respectivos a vida subjetiva e a vida 
objetiva. Embora cada um deles se refira simultaneamente a ambas, a primeira domina 
evidentemente no culto e a segunda no regime. Não há nada mais próprio para caracte- 
rizar a dignidade superior do culto comparado ao regime, em virtude da preponderância 
necessária da subjetividade sobre a objetividade no conjunto da existência humana, 
mesmo individual, e sobretudo coletiva. 

A MULHER — Esta sanção sistemática de minha inspiração espontânea leva-me. 
meu pai, a perguntar-vos agora em que consiste a verdadeira teoria da vida subjetiva. 
Posto que semelhante doutrina só possa ser aqui esboçada, o seu princípio fundamental 
parece-me diretamente indispensável. Nenhum positivista pode prescindir, sobre este 
assunto, de uma explicação geral, cujo uso quase diário será exigido por seu culto, pú- 
blico ou privado. a fim de prevenir aí qualquer degeneração mística ou empírica. 

O SACERDOTE — Para satisfazer a vosso justo desejo, concebei, minha filha, a 
lei fundamental da vida subjetiva como consistindo sempre em sua digna subordinação 
à vida objetiva. O exterior não cessa nunca de regular essencialmente o interior, ao passo 
que o alimenta e o excita; o que se deve entender tanto de nossa vida cerebral, como da 
corporal. Nossas concepções mais fantásticas trazem sempre o cunho apreciável desse 
império involuntário, se bem que ele se torne menos puro, e mesmo menos completo, à 
medida que ê mais indireto. Tudo isso resulta necessariamente do princípio irrecusável 
que hei de vos expor quando vos explicar o dogma, e que dei para base ao conjunto de 
nossa teoria intelectual, tanto dinâmica como estática, assim reatada ao sistema funda- 
mental das noções biológicas. 


30º Cumpre completar o texto com o seguinte trecho da pág. 118 do tomo IV do Sistema de Política 
Positiva: 

“... a faculdade de suspender voluntariamente a visão permite-nos proporcionar às imagens anteriores um 
acréscimo de intensidade que os resultados da audição não comportam. Contudo, não convém subtrair os 
olhos ao espetáculo exterior, a fim de vermos melhor em nós mesmos, quando a obscuridade for espontanca- 
mente suficiente. Porquanto o esforço necessário para isolarmo-nos assim desvia uma parte do poder cerc- 
bral, ao passo que o esforço exigido pela contemplação objetiva concorre para a evocação interior. aproxi- 
mando nossa situação da que primitivamente nos afetou”. 


146 COMTE 


A ordem artificial não podendo nunca consistir senão em aperfeiçoar a ordem natu- 
ral, sobretudo desenvolvendo-a, sente-se aqui, como em qualquer outro assunto e mesmo 
mais, que a nossa verdadeira liberdade resulta essencialmente de uma digna submissão. 
Mas, para estender convenientemente à vida subjetiva esta regra geral da vida objetiva, 
cumpre examinar, em primeiro lugar, sob este novo aspecto, a constituição natural da 
ordem universal. Porquanto todas as leis que a compõem estão longe de convir igual- 
mente à vida subjetiva. A fim de fixar melhor vossas idéias, só especificarei o caso mais 
simples, e também o mais usual, quando se aplica o culto subjetivo a fazer reviver digna- 
mente um ente querido. Sem esta determinação precisa, em que o coração auxilia o espí- 
rito, facilmente nos transviariamos no estudo de um tal domínio. Mas todas as noções, 
assim construídas para o culto mais íntimo e mais apreciável, poderão estender-se sem 
dificuldade, com as convenientes modificações. aos outros casos sociolátricos. 

A MULHER — Agradeço-vos, meu pai, esta precaução que sinto ser indispensável 
para mim. Esta doutrina é tão nova quanto difícil, pois que esse grato problema nem se- 
quer pôde ser proposto, enquanto prevaleceram as crenças sobrenaturais, que só nos per- 
mitiam representar-nos nossos mortos numa situação misteriosa, e comumente indeter- 
minada. Tal estado não lhes consentia nenhuma analogia essencial conosco. Ainda 
mesmo que os nossos temores pela sua sorte final fossem dissipados, nem assim se pode- 
ria nunca instituir em relação a eles uma vida subjetiva que tornaria cada um de nós 
sacrílego, por desviar para a criatura o afeto devido ao Criador. Mas se esta comovente 
questão é necessariamente peculiar ao positivismo, sua solução geral não lhe pertence 
menos, porque só ele desvendou as verdadeiras leis de nossa inteligência, que vós já me 
fizestes entrever. Concebo, pois, ao mesmo tempo, a instituição geral do culto subjetivo 
e seu fundamento normal, que converte essa existência ideal em um simples prolonga- 
mento da existência real. Rogo-vos, porém, que me expliqueis diretamente as modifica- 
ções que comporta semelhante extensão. 

O SACERDOTE — Elas consistem, minha filha, em suprimir, ou pelo menos, em 
pôr de lado, todas as leis inferiores, para deixar prevalecer melhor as leis superiores. 
Durante a vida objetiva, o domínio da ordem exterior sobre a ordem humana é tão direto 
quanto continuo. Mas, na vida subjetiva, a ordem exterior torna-se puramente passiva, e 
só prevalece de modo indireto, como fonte primeira das imagens que queremos cultivar. 
Nossos mortos queridos não estão mais dominados pelas leis rigorosas da ordem mate- 
rial, nem mesmo da ordem vital. Pelo contrário, as leis peculiares à ordem humana, 
sobretudo moral, mas também social, regem, melhor do que durante a vida, a existência 
que cada um deles conserva em nossos cérebros. Essa existência, desde logo puramente 
intelectual e afetiva, consiste essencialmente em imagens, que reanimam ao mesmo 
tempo os sentimentos que inspira o ente que nos foi arrebatado e os pensamentos que ele 
suscitou. O objeto do culto subjetivo reduz-se, pois, a uma espécie de evocação interior, 
produzida gradualmente por um exercício cerebral dirigido segundo as leis correspon- 
dentes. A imagem conserva-se sempre menos nítida e menos viva que o objeto, segundo 
a lei fundamental de nossa inteligência. Mas, já que o inverso sucede amiúde nas molés- 
tias cerebrais, uma feliz cultura pode aproximar o estado normal desse limite necessário 
muito além do que se acreditou até aqui, enquanto esse belo domínio permaneceu vago 
e tenebroso. 

A fim de precisar melhor aquela subordinação geral, notai que a evocação subjetiva 


CATECISMO POSITIVISTA 147 


do ente querido refere-se sempre às últimas impressões objetivas que ele nos deixou. Isto 
se torna sobretudo sensível em relação à idade, que a morte subtrai a todo aumento. Nos- 
sas perdas prematuras proporcionam assim uma eterna juventude aos objetos de nossas 
afeições. Do adorador primitivo, esta lei se estende necessariamente aos seus aderentes 
mais longínquos. Ninguém, segundo Dante, poderá nunca representar-se a sua suave 
Beatriz senão na idade de vinte e cinco anos. Embora possamos concebê-la mais jovem, 
não poderíamos imaginá-la mais idosa. 

O contraste fundamental entre a vida objetiva e a vida subjetiva consiste, pois, em 
que a primeira é diretamente dominada pelas leis físicas e a segunda pelas leis morais: as 
leis intelectuais convêm igualmente a ambas. Semelhante distinção torna-se menos mar- 
cada quando se reconhece que, nos dois casos, a ordem mais geral prevalece sempre 
sobre a mais especial. Porquanto a diferença reduz-se, então, ao modo de apreciar a 
generalidade, medida primeiro em relação aos fenômenos e depois quanto às nossas 
concepções, conforme será explicado no nosso estudo do dogma. 

Seja como for, esta preponderância necessária das leis morais na vida subjetiva é de 
tal modo conforme com a nossa natureza, que ela foi, não somente respeitada involunta- 
riamente, mas cientemente apreciada, desde o primeiro surto da inteligência humana. 
Vós sabeis, com efeito, que o esboço empírico das grandes leis morais foi muito anterior 
a todo desenvolvimento decisivo das menores leis físicas. Ao passo que as nossas ficções 
poéticas violavam sem escrúpulo as condições gerais da ordem material, e até da ordem 
vital, elas conformavam-se, com admirável exatidão, às principais noções da ordem so- 
cial e sobretudo da ordem moral. Admitiam-se facilmente heróis invulneráveis e deuses 
que se transformavam a seu bel-prazer. Mas o instinto do público, como o gênio do 
poeta, teria logo repelido toda incoerência moral, se, por exemplo, alguém tivesse ousado 
supor, em um avarento, ou em um covarde, uma conduta liberal, ou corajosa. 

A MULHER — A vista de vossas explicações, concebo, meu pai, que no culto sub- 
Jetivo, nós possamos desprezar as leis físicas, para melhor apegar-nos às leis morais, cujo 
verdadeiro conhecimento há de aperfeiçoar tanto esta nova ordem de instituições. Nossa 
imaginação facilmente liberta-se das condições mais gerais, mesmo em relação ao espaço 
e ao tempo, contanto que as conveniências humanas sejam sempre respeitadas. Deseja- 
ria, porém, saber como devemos usar de semelhante liberdade, no intuito de facilitar 
mais O fim essencial do culto subjetivo, isto é, a evocação cerebral dos entes queridos. 

O SACERDOTE — Assim proposta, minha filha, vossa questão facilmente se 
resolve, mediante a observação evidente de que, para concentrar melhor nossas forças 
nesse santo destino, cumpre não distrair uma só parcela em modificações supérfluas da 
ordem vital, nem mesmo da ordem material. Conservai, pois, com cuidado todas as rela- 
ções exteriores que foram habituais ao ente adorado. Empregai-as mesmo em melhor rea- 
nimar sua imagem. No Sistema de Política Positiva achareis, a este respeito, uma obser- 
vação importante: “Nossas recordações íntimas se tornam mais nítidas e mais fixas 
quando se determina assaz o meio inerte antes de nele colocar a viva imagem”. Aconse- 
lho-vos até, em geral, a decompor esta determinação exterior em suas três partes essen- 
ciais, procedendo sempre do exterior para o interior, segundo nosso princípio hierár- 
quico. Esta regra de culto consiste sobretudo em precisar primeiro o lugar, depois a sede 
ou atitude e enfim o vestuário, peculiares a cada caso especial. Ainda que o coração 
possa a princípio impacientar-se com tal demora, ele breve reconhece a sua íntima eficá- 


148 COMTE 


cia, quando vê a imagem querida ir, assim, adquirindo gradualmente uma força e uma 
nitidez que antes pareciam impossíveis. 

Estas operações essencialmente estéticas concebem-se melhor quando cotejadas 
com as operações científicas, por causa da identidade necessária de suas leis principais. 
No fundo, a ciência, que nos indica de antemão um futuro amiúde longínquo, tenta um 
esforço ainda mais ousado que o da arte, que quer evocar uma lembrança querida. Nos- 
sos brilhantes triunfos no primeiro caso, em que o espírito é no entanto muito menos 
secundado pelo coração, autorizam-nos a esperar resultados mais satisfatórios em rela- 
ção ao segundo, que é o único que sempre nos oferece a certeza de uma solução qual- 
quer. Esta, na verdade, assenta inteiramente sobre o conhecimento das leis cerebrais, que 
são ainda tão confusamente apreciadas. Pelo contrário, as nossas previsões astronômicas 
dependem sobretudo das leis exteriores mais simples e mais bem conhecidas. Mas, posto 
que esta distinção baste para explicar a presente disparidade dos dois resultados, ela no- 
la mostra como puramente provisória. 

Quando as leis superiores forem bastante conhecidas, o sacerdócio positivo há de 
tirar delas resultados mais preciosos, e mesmo mais regulares, que os da melhor astrono- 
mia. Porquanto as previsões desta tornam-se incertas, e amiúde impossíveis, logo que os 
casos planetários se complicam muito, como vemos quase sempre em relação aos come- 
tas. Sem que possa ser com justiça acoimada de uma presunção quimérica, a providência 
humana pode e deve aspirar a introduzir, na ordem que ela melhor modifica, mais regula- 
ridade do que a que pode comportar, em relação à maior parte dos acontecimentos, a 
ordem que só é governada por uma cega fatalidade. A complicação superior dos fenôme- 
nos cederá finalmente, no que se refere a esses casos sublimes, à sabedoria preponderante 
do agente modificador, quando a ordem humana for assaz conhecida. 

A MULHER — Sinto, meu pai, que a subordinação do subjetivo ao objetivo cons- 
titui ao mesmo tempo a obrigação constante e o principal recurso do culto positivo. 
Fizestes-me compreender assaz que, longe de nos subtrairmos a esse jugo necessário, 
devemos aceitá-lo voluntariamente, mesmo quando nos seja lícito abrir mão dele. Por- 
quanto esta plena submissão facilita muito nossa vida subjetiva, ao passo que economiza 
melhor o conjunto de nossas forças mais preciosas. Mas então não vejo mais em que 
consiste a nossa própria atividade nessa existência interior, que me parece contudo dever 
tornar-se, a seu modo, ainda menos passiva que a existência exterior. 

O SACERDOTE — Ela consiste, minha filha, em idealizar quase sempre por 
subtração, e raramente por adição, mesmo quando se tomam todas as cautelas conve- 
nientes. A idealidade deve melhorar a realidade, sob pena de insuficiência moral: é a 
compensação normal de sua nitidez e vivacidade muito menores. Cumpre, porém, que a 
primeira se subordine sempre à segunda, sem o que a representação não seria mais bas- 
tante fiel e o culto se tornaria místico, ao passo que ficaria empírico se a realidade fosse 
servilmente respeitada. Nossa regra evita igualmente estes dois desvios opostos. Ela se 
acha naturalmente indicada pela nossa tendência a esquecermos os defeitos dos mortos 
para só nos lembrarmos de suas qualidades. 

Assim concebida, esta regra não é senão uma dedução especial do dogma da Huma- 
nidade. Portanto, se nossa Deusa não incorpora a si senão os mortos verdadeiramente 
dignos, ela afasta também, de cada um deles, as imperfeições que sempre lhes macularam 
a vida objetiva. Dante pressentira, a seu modo, essa lei, quando construiu sua bela ficção 
em que faz o homem preparar-se para a beatitude bebendo primeiro no rio do esqueci- 


CATECISMO POSITIVISTA 149 


mento e em seguida no Eunoé,*" que só lhe restitui a lembrança do bem. Não ajunteis, 
pois, aos vossos tipos exteriores senão aperfeiçoamentos muito secundários, que não pos- 
sam nunca alterar seu verdadeiro caráter, mesmo físico, e sobretudo moral. Mas desen- 
volvei muito, ainda que sempre com prudência, vossa disposição espontânea a purificá- 
los de seus vários defeitos. 

A MULHER — Assim, meu pai, a verdadeira teoria da vida subjetiva leva final- 
mente nosso culto a deixar a ordem exterior tal qual é, a fim de melhor concentrar na 
ordem humana nossos principais esforços de aperfeiçoamento íntimo. A nobre existência 
que nos perpetua em outrem torna-se, então, o digno prolongamento daquela que nos fez 
merecer esta imortalidade; o progresso moral do indivíduo e da espécie constitui sempre 
o principal destino das duas vidas. Nossos mortos estão emancipados das necessidades 
materiais e vitais, e destas eles só nos deixam a lembrança para que possamos melhor 
figurá-los tais como os conhecemos. Mas eles não cessam de amar, e mesmo de pensar. 
em nós e por nós. A doce troca de sentimentos e idéias que entretinhamos com eles, 
durante sua objetividade, torna-se ao mesmo tempo mais íntima e mais contínua quando 
eles se acham desprendidos da existência corporal. Posto que a vida de cada um deles 
fique desde então profundamente misturada com a nossa, sua originalidade moral e men- 
tal não sofre por isso a mínima alteração, quando seu caráter tiver sido verdadeiramente 
distinto. Pode-se até dizer que as diferenças principais se tornam mais pronunciadas à 
medida que este comércio íntimo se vai desenvolvendo melhor. 

Esta concepção positiva da vida futura é certamente mais nobre que a dos teolo- 
gistas quaisquer, e ao mesmo tempo a única verdadeira. Quando eu era católica, o meu 
maior fervor nunca me impediu de sentir-me profundamente chocada, estudando o pueril 
desenvolvimento da beatitude em um doutor tão recomendável, pelo coração e pelo espi- 
rito, como foi Santo Agostinho. Quase que me indignava vendo-o esperançado de ficar 
um dia isento da gravidade, e mesmo de toda necessidade nutritiva, se bem que, por uma 
contradição grosseira, ele se reservasse a faculdade de comer à vontade, sem receio, 
aliás, de engordar indefinidamente. Tais comparações servem muito para fazer sentir 
quanto o positivismo aperfeiçoa a imortalidade, ao passo que a consolida, transfor- 
mando-a de objetiva em subjetiva. Mas esta superioridade evidente não me impede de 
sentir a falta da grande instituição da prece, que tinhamos no antigo culto, e que não me 
parece compatível com a nova fé. 

O SACERDOTE — Semelhante lacuna, minha filha, seria extremamente grave se 
fosse real, pois que o exercício regular da oração, privada ou pública, constitui a condi- 


3! “[acqua che vedi non surge di vena 
Che ristori vapor che giei converta, 
Come fiume ch'aquista e perde lena; 
Ma esce di fontana da due parti aperta ' 
Da questa parte con virtú discende, 


“A onda que aqui vês não flui de veio, 
Que gelos alimentam liquefeitos, 

Quais rios, cujo curso abate ou cresce; 
Corre de fonte inexaurível, pura, 

A qual de duplo jorro o humor que verte 
Na Vontade divina tem origem: 


Che toglie altrui memoria del peccato; 
DalPaltra, d'ogni ben fatto la rende. 
Quince Lete, cosi dalPaltro lato 
Eunoe si chiama, e non adopra, 
Se quinci e quindi pria non é gustato.” 
Dante, Purgatório, canto 28.º. 


Com virtude desliza, de uma parte, 
De apagar a lembrança do passado, 
De outra, de memorar as ações boas. 
Este Eunoé se chama, aquele o Letes 
Mas de um o efeito só se prova 
Do outro bebido tendo antes a linfa.” 
(Trad. de Bonifácio de Abreu.) 


150 COMTE 


ção principal de um culto qualquer. Longe de ser deficiente neste ponto, o positivismo é 
aí mais satisfatório que o catolicismo, porque purifica esta instituição ao mesmo tempo 
que a desenvolve. Vosso equívoco, a este respeito, resulta da noção grosseira que ainda 
todos formam da prece, quando a fazem consistir sobretudo em pedidos, materiais as 
mais das vezes, segundo a natureza profundamente egoísta de todo culto teológico. Para 
nós, ao contrário, a oração se torna o ideal da vida. Porque rezar é ao mesmo tempo 
amar, pensar, e mesmo agir, pois que a expressão constitui sempre uma verdadeira ação. 
Nunca os três aspectos da existência humana podem ser tão profundamente unidos como 
nessas admiráveis expansões de reconhecimento e de amor para com a nossa grande. 
deusa ou seus dignos representantes e órgãos. A pureza de nossas efusões não é mais 
maculada por nenhum motivo interessado. 

Todavia, como a prática cotidiana destas efusões melhora muito nosso coração, e 
mesmo nosso espírito, podemos legitimamente ter nelas em vista esse precioso resultado, 
sem receio de que semelhante personalidade nos degrade jamais. Embora o positivista 
reze sobretudo para expandir os seus melhores afetos, ele pode também pedir, mas 
somente nobres progressos, assim quase assegurados. Desejar com fervor ficar mais 
terno, mais venerador, ou mesmo mais corajoso, já é realizar, até certo grau, o melhora- 
mento desejado, ao menos por uma confissão sincera dos nossos defeitos atuais, primeira 
condição do próximo aperfeiçoamento. Esta santa reação pode, aliás, estender-se até a 
inteligência, ainda que não seja senão inspirando-nos novos esforços para pensar melhor. 
Pelo contrário, pedir um acrêscimo de riqueza ou de poder constituiria, no nosso culto, 
uma prática tão absurda quanto ignóbil. Nós não invejamos aos teologistas o império ili- 
mitado que eles assim esperam obter sobre a ordem exterior. Todos os nossos esforços 
objetivos limitam-se a aperfeiçoar tanto quanto possível a ordem humana, ao mesmo 
tempo mais nobre e mais modificável. Em uma palavra, a oração positivista apodera-se 
essencialmente do supremo domínio reservado outrora à graça sobrenatural. A nossa 
santificação sistematiza sobretudo aqueles progressos que até então foram concebidos 
como alheios a qualquer lei invariável, conquanto a sua preeminência fosse já sentida. 

A MULHER — De conformidade com essa explicação decisiva, rogo-vos, meu pai, 
que me indiqueis a marcha geral que convém à oração positivista. 

O SACERDOTE — Para isso, minha filha, cumpre distinguir nela duas partes 
sucessivas, uma passiva, outra ativa, que respectivamente concernem ao passado e ao fu- 
turo unidos pelo presente. O nosso culto exprime sempre um amor motivado e desenvol- 
vido por um reconhecimento crescente. Cada prece, privada ou pública, deve, pois, 
preparar-nos à efusão pela comemoração: esta durará ordinariamente o dobro daquela. 
Quando uma feliz combinação de sinais e imagens consegue reavivar assaz nossos senti- 
mentos para com o ente adorado, nós os expandimos com verdadeiro fervor, que logo 
tende a aumentá-los ainda, e, portanto, aproximar-nos mais da evocação final. 

A MULHER — Esta indicação podendo bastar-me, peço-vos, meu pai, que com- 
pleteis vossa apreciação geral de nosso culto caracterizando diretamente as suas reações 
fundamentais sobre o nosso principal aperfeiçoamento. Conquanto eu as sinta profunda- 
mente, não poderia defini-las assaz de modo a fazer com que elas sejam conveniente- 
mente aquilatadas. Por isso peço-vos, sobre este ponto, uma explicação sistemática, que 
servirá para dirigir, primeiro, minha própria prática, e, sem seguida, meu digno 
proselitismo. 

O SACERDOTE — Embora nosso culto aperfeiçoe ao mesmo tempo o coração e 


o espírito, importa, minha filha, apreciar separadamente sua reação moral e sua 
influência intelectual. 


CATECISMO POSITIVISTA 151 


A primeira resulta necessariamente da principal lei de animalidade. Porquanto o 
culto constitui sempre um verdadeiro exercício, e, até, mais normal que qualquer outro. 
como o indica a linguagem usual, quadro constantemente fiel da existência humana. 
Semelhante apreciação é incontestável quando a prece se torna completa, isto é, quando 
é oral e mental ao mesmo tempo. Com efeito, os músculos que empregamos para expri- 
mir, quer por meio de sons, quer por meio de gestos ou atitudes, são os mesmos que os 
que empregamos quando queremos agir diretamente. Assim, toda digna expressão dos 
nossos sentimentos tende a fortalecê-los e desenvolvê-los, do mesmo modo que quando 
realizamos os atos que eles nos inspiram. 

Devo entretanto, a este respeito, prevenir um exagero perigoso, invitando-vos a não 
confundir nunca estas duas grandes reações morais. Apesar da semelhança de suas leis 
essenciais, elas não podem ser consideradas, em caso algum, como equivalentes. Segun- 
do a experiência universal, plenamente sancionada pela nossa teoria cerebral, as obras 
terão sempre maior peso que as efusões, não só nos resultados exteriores, mas também 
para o melhoramento interior. Não obstante, depois da prática das boas ações, nada há 
que tanto sirva para avigorar e desenvolver os nossos melhores sentimentos como a 
digna expansão deles, contanto que ela se torne bastante habitual. Ora, este meio geral de 
melhoramento é-nos ordinariamente mais acessível do que a mesma ação, a qual amiúde 
exige materiais ou circunstâncias fora do nosso alcance, de modo a reduzir-nos algumas 
vezes a desejos estéreis. É em virtude de tal disponibilidade que as práticas do culto se 
tornam, para o nosso progresso moral, um precioso suplemento da existência real, que 
aliás se concilia plenamente com elas, por efeito da perfeita homogeneidade da religião 
positiva. 

A MULHER — Tendo assim compreendido a reação moral de nosso culto, terei 
necessidade, meu pai, de explicações mais desenvolvidas em relação à sua influência 
intelectual, que é para mim muito menos sensível. 

O SACERDOTE — Distingui, aí, minha filha, dois casos essenciais. conforme a 
eficácia for estética ou científica. 

Sob o primeiro aspecto, o poder mental do culto positivo é direto e saliente, pri- 
meiro para com a arte em geral, e mesmo, em seguida, sobre as duas artes especiais do 
som ou da forma. A poesia constitui a alma do culto, como a ciência a do dogma e a 
indústria a do regime. Toda oração, quer privada, quer pública, torna-se no positivismo 
uma verdadeira obra de arte, pois que exprime nossos melhores sentimentos. Como nada 
pode aí dispensar uma constante espontaneidade, cada positivista deve ser, a certos res- 
peitos, uma espécie de poeta, ao menos para seu culto íntimo. Posto que as fórmulas 
devam tornar-se fixas, a fim de obtermos maior regularidade, é indispensável que elas 
sejam sempre originariamente compostas pela própria pessoa que as emprega, sob pena 
de não comportarem nenhuma grande eficácia. Por outro lado, esta fixidez nunca é com- 
pleta, porque só diz repeito aos sinais artificiais, cuja uniformidade faz sobressair melhor 
as variações espontâneas da linguagem natural, quer musical, quer mímica, sempre mais 
estética que a outra. 

Esta originalidade poética se desenvolverá muito quando a educação regenerada 
houver assaz exercitado todos os positivistas nas apreciações, e mesmo nas composições. 
correspondentes, como vo-lo indicarei na terceira parte deste catecismo. Então a arte 
geral será sempre convenientemente assistida pelas artes especiais, pois que todos se 
terão familiarizado com o canto, base essencial da música, e com o desenho, fonte geral 
da tríplice arte da forma, pintada, esculturada ou construída. Enfim, cada elaboração do 
culto será, as mais das vezes, adornada com suplementos especiais avisadamente escolhi- 


152 COMTE 


dos no tesouro estético da humanidade. Ainda que este aditamento pareça limitado ao 
culto público, o culto privado admite uma aplicação útil e frequente dele, contanto que 
os empréstimos sejam feitos com discernimento e moderação. Os verdadeiros poetas 
tendo sempre exprimido os principais sentimentos de nossa imutável natureza, suas pro- 
duções comportam amiúde uma suficiente analogia com as nossas próprias emoções. 
Quando esta coincidência, sem ser completa, muito se aproxima de o ser, tais emprês- 
timos poéticos não nos oferecem só o mérito intelectual de uma expressão mais perfeita. 
Neles achamos sobretudo o encanto moral de uma simpatia pessoal. Quanto mais anti- 
gos são esses ornamentos, mais nos convêm, sancionando os nossos próprios afetos por 
essa harmonia espontânea em que nos sentimos, não só com o eminente autor, mas tam- 
bem com todas as gerações cujas efusões ele tem sucessivamente assistido. Mas este pre- 
cioso auxílio só se torna de uma eficácia plena sob a condição de ficar sempre puramente 
acessório. embora a sua participação proporcional deva variar conforme os casos, como 
vo-lo indicarei daqui a pouco. 

A MULHER — Antes de me explicardes a influência científica do culto positivo, 
rogo-vos, meu pai, que esclareçais uma grave dificuldade, naturalmente suscitada pela 
exposição anterior. O culto e a poesia se me afiguram por tal modo confundidos em 
nossa religião que o surto comum daquele e desta parece exigir uma classe sacerdotal 
inteiramente distinta da que desenvolve e ensina o dogma. Sinto que esta separação seria 
em extremo perigosa, estabelecendo uma rivalidade intratável entre essas duas corpora- 
ções, para decidir-se a qual delas pertenceria finalmente a direção do regime, que do 
mesmo modo poderia convir a ambas. Este conflito antolha-se-me tão grave que cumpre, 
de necessidade, desfazê-lo, sob pena de comprometer radicalmente a organização geral 
do nosso sacerdócio, que ficaria desde logo incapaz de presidir à vida privada, e sobre- 
tudo à vida pública. Mas, por outro lado, não compreendo como poderemos evitar 
suficientemente esta colisão, pois que a cultura poética e o estudo filosófico parecem exi- 
gir regimes inconciliáveis. 

O SACERDOTE — Este erro, que importa muito retificar, constitui, minha filha, 
um dos principais resultados da anarquia moderna, que tende por toda parte a dispersar 
nossas forças por meio de uma deplorável especialidade, não menos absurda que imoral. 
No estado normal só os trabalhos práticos são verdadeiramente especiais, pois que nin- 
guém pode fazer tudo. Mas, cada qual devendo conceber tudo, a cultura teórica deve, 
pelo contrário, permanecer sempre indivisível. Sua decomposição fornece o primeiro 
sinal da anarquia. É assim que pensava a antiguidade teocrática, única sociedade plena- 
mente organizada até hoje. Quando os poetas aí se separaram do sacerdócio, a deca- 
dência deste começou. 

Se bem que o gênio filosófico e o gênio poético não possam nunca achar simuita- 
neamente altos destinos, a natureza intelectual de ambos é em tudo idêntica. Aristóteles 
teria sido um grande poeta e Dante um filósofo eminente se a situação histórica houvesse 
sido menos científica para um e menos estética para o outro. Todas estas distinções esco- 
lásticas foram imaginadas e sustentadas por pedantes que, não possuindo nenhuma espê- 
cie de gênio, nem sequer sabem apreciar o gênio alheio. A superioridade mental é sempre 
semelhante entre as diferentes carreiras humanas: a escolha de cada um é determinada 
pela sua situação, sobretudo histórica, porquanto a espécie domina sempre o indivíduo. 


CATECISMO POSITIVISTA 153 


A este respeito, a única diferença essencial que realmente existe é a que resulta da 
continuidade natural do serviço filosófico, em oposição à intermitência necessária do ser- 
viço poético. Os grandes poetas são os únicos eficazes, mesmo intelectualmente, e sobre- 
tudo moralmente; todos os outros fazem mais mal do que bem: ao passo que os menores 
filósofos podem ser verdadeiramente aproveitados, quando assaz honestos, sensatos e 
corajosos. A arte, devendo sobretudo fomentar em nós o sentimento da perfeição, não 
suporta nunca a mediocridade. O verdadeiro gosto supõe sempre uma grande suscetibi- 
hdade para sentir viva repulsão pelas produções inferiores. Desde Homero até Walter 
Scott, não existem no Ocidente senão treze poetas ?*? verdadeiramente grandes, dois anti- 
gos, onze modernos, incluindo mesmo neste número três prosadores. Entre os outros 
todos não se poderia citar mais de sete cuja leitura possa ou deva tornar-se diária. Quan- 
to ao resto, será, sem dúvida, destruído quase inteiramente, por tão nocivo ao espírito 
como ao coração, quando a educação regenerada houver permitido extrair dele todos os 
documentos úteis, sobretudo históricos. Não há, pois, que constituir, na sociocracia 
ainda menos que na teocracia, uma classe fixa, exclusivamente ocupada da cultura poéti- 
ca. Mas os padres, habitualmente filósofos, se tornarão momentaneamente poetas quan- 
do a nossa Deusa precisar de novas efusões gerais, que bastem em seguida, durante mui- 
tos séculos, ao culto público e privado. As composições secundárias, naturalmente mais 
frequentes, ficarão, de ordinário, entregues à espontaneidade feminina ou proletária. 
Quanto às duas artes especiais, a aprendizagem prolongada que elas exigem, sobretudo 
em relação à forma, obrigará, sem dúvida, a consagrar-lhes alguns mestres escolhidos, 
que a educação positiva indicará espontaneamente ao sacerdócio diretor. Eles virão a ser 
verdadeiros membros deste ou permanecerão simples pensionistas, conforme a natureza 
deles for mais ou menos sintética. 


*2 Estes treze poetas são os seguintes: Homero, Esquilo, Dante, Tomás de Kémpis, Ariosto, Tasso, Cervan- 
tes, Shakespeare, Calderón, Corneille, Mílton, Molitre, Walter Scott. Augusto Comte servia-se da figura de 
um triângulo retângulo para colocar estes treze nomes, pelo modo por que se vê na figura abaixo, reprodução 
de uma cópia que nos foi enviada pelo Dr. Audiffrent. 


TRIÂNGULO DOS POETAS 
POR AUGUSTO COMTE 


Ésquilo Shakespeare | Corneille 


q24-42 =052 Jovedia, 8 de César de 69 
(Assinado): AUGUSTO COMTE 


154 COMTE 


A MULHER — Semelhante esclarecimento permite-vos, meu pai, passar imediata- 
mente à vossa última explicação geral sobre a eficácia de nosso culto. Sua aptidão esté- 
tica parece-me evidente. Não vejo, porém, em que possa consistir sua influência 
científica. 

O SACERDOTE — Consiste, minha filha, em desenvolver melhor por toda parte 
a lógica universal, sempre fundada sobre um digno concurso dos sinais, das imagens e 
dos sentimentos, para assistir a elaboração mental. A lógica dos sentimentos é mais dire- 
ta e mais enérgica que qualquer outra; porém os seus meios são demasiado vagos e infle- 
xíveis. Eminentemente disponíveis e assaz multiplicados, os sinais artificiais compensam, 
por esta dupla propriedade, à menor eficácia lógica que resulta de sua fraca e indireta 
ligação com os nossos pensamentos. Mas as imagens devem completar este conjunto de 
recursos intelectuais, e mesmo só elas é que podem instituí-lo suficientemente, em virtude 
da natureza intermediária que lhes é própria. Ora, é sobretudo em relação a este laço 
normal de nossa verdadeira lógica que o culto deve ser eficaz, conquanto ele também 
desenvolva os outros dois elementos. A este respeito, a criança que dignamente reza exer- 
cita melhor o seu aparelho meditativo do que o algebrista orgulhoso que, por falta de ter- 
nura e de imaginação, não cultiva, no fundo, senão o órgão da linguagem, mediante uma 
gíria especial, cujo bom emprego é muito limitado. 

Esta indicação faz assaz entrever o principal resultado científico do culto positivo. 
Vê-se, assim, que ele só diz respeito ao método propriamente dito e muito pouco à doutri- 
na, salvo as noções morais, € mesmo intelectuais, que as nossas práticas religiosas espon- 
taneamente proporcionam. O método, porém, terá sempre mais valor do que a doutrina, 
como os sentimentos em relação aos atos, e como a moral comparada com a política. A 
maior parte dos trabalhos teóricos até aqui acumulados quase que não têm senão um 
valor lógico: amiúde só nos ensinam noções ociosas, e algumas vezes nocivas. Se bem 
que este contraste provisório haja de diminuir muito, quando a disciplina enciclopédica 
nos houver libertado da mixórdia acadêmica, a verdadeira lógica não cessará nunca de 
prevalecer sobre a ciência propriamente dita, sobretudo para o público, e mesmo no 
sacerdócio. 

A MULHER — Só me resta perguntar-vos, meu pai, qual deve ser o destino espe- 
cial das duas outras conferências que me prometestes acerca do culto positivo. Con- 
quanto eu sinta bem que não exploramos bastante este belo domínio, não vejo nele o 
ponto para onde devemos dirigir ainda os nossos esforços. 

O SACERDOTE — Vós o compreendereis, minha filha, considerando que o nosso 
culto deve ser, sob pena de malogro radical, primeiro privado, depois público. Tais serão 
os objetos respectivos das duas conversações seguintes. Mas, antes de encetar a matéria. 
vossa atenção geral precisa apreciar diretamente esta grande subordinação, da qual 
depende, no fundo, a principal eficácia da religião positiva. 

A fim de apanhar melhor essa dependência, concebei estes dois cultos como endere- 
çados respectivamente o primeiro à Mulher, o segundo à Humanidade. Sentireis, então, 
que a nossa Deusa não comporta como adoradores sinceros senão os que se prepararam 
para seu culto augusto por meio de uma prática condigna das secretas homenagens 
diariamente devidas aos seus melhores órgãos, sobretudo subjetivos, e mesmo objetivos. 
Em uma palavra, a verdadeira Igreja tem sempre por base primitiva a simples Família, 
ainda mais na ordem moral do que sob o mero aspecto social. O coração não pode evitar 
este primeiro início, conservado em seguida como estimulante habitual, do mesmo modo 
que o espírito não pode desprezar os menores graus enciclopédicos para subir aos mais 


CATECISMO POSITIVISTA 155 


elevados, que lhe fazem sentir sempre a necessidade de se retemperar na fonte de onde 
partiu. 

É sobretudo a prática assídua do culto privado que há de distinguir finalmente os 
verdadeiros positivistas dos falsos irmãos com que vamos ser obstruídos logo que a ver- 
dadeira religião prevalecer. Sem este sinal, uma fácil hipocrisia usurparia logo a conside- 
ração que só é devida aos adoradores sinceros da Humanidade. Entre esta e a Família 
cumprirá mesmo desenvolver o intermédio normal que resulta dos sentimentos naturais. 
hoje vagos e impotentes, que nos ligam de modo especial à Pátria propriamente dita. A 
impossibilidade de bem cultivar estes afetos intermediários senão em associações assaz 
restritas fornecerá sempre o melhor motivo para a redução, que mais tarde terei de vos 
explicar, dos grandes Estados atuais a simples cidades convenientemente escoltadas. 


E 


Ea 


QUARTA CONFERÊNCIA 


CULTO PRIVADO 


A MULHER — O culto privado parece-me, meu pai, que se deve compor, como a 
existência correspondente, de duas partes bem distintas, uma pessoal, outra doméstica, 
cuja separação afigura-se indispensável para que ele possa ser explicado. 

O SACERDOTE — Esta divisão natural, que eu não devia misturar com a princi- 
pal decomposição do culto, determina, de fato, minha filha, o plano de nossa conferência 
atual. Duas grandes instituições sociolátricas, uma relativa aos verdadeiros anjos da 
guarda, outra aos nove sacramentos sociais, vão caracterizar aqui respectivamente em 
primeiro lugar o culto pessoal, depois o culto doméstico. Os motivos que fazem com que 
este dependa daquele são, em menor escala, essencialmente semelhantes aos que repre- 
sentam o conjunto do culto privado como a única base sólida do culto público. Mais ínti- 
mo que qualquer outro, o culto pessoal é o único que pode desenvolver assaz hábitos 
decisivos de uma adoração sincera, sem os quais nossas cerimônias domésticas e, com 
mais forte razão, nossas solenidades públicas careceriam de eficácia moral. A sociolatria 
institui assim, para cada coração, uma progressão natural, onde as efusões individuais 
preparam dignamente as celebrações coletivas, pelo intermédio normal das consagrações 
domésticas. 

A MULHER — Pois que o culto íntimo se torna, assim, a primeira base de todas 
as nossas práticas sagradas, rogo-vos, meu pai, que me expliqueis diretamente a verda- 
deira natureza dele. 

O SACERDOTE — Ele consiste, minha filha, na adoração cotidiana das melhores 
personificações que nos seja dado assinalar à Humanidade, à vista do conjunto de nossas 
relações privadas. 

Toda a existência do Ser supremo fundando-se no amor, único laço que reúne 
voluntariamente os seus elementos separáveis, o sexo afetivo constitui naturalmente o 
representante mais perfeito, e ao mesmo tempo o principal ministro do Grande Ser. A 
arte jamais poderá representar a Humanidade de modo condigno senão sob a forma 
feminina. Mas a providência moral de nossa Deusa não se exerce só pela ação coletiva 
do vosso sexo sobre o meu. Esse ofício fundamental resulta sobretudo da influência pes- 
soal que cada digna mulher desenvolve sem cessar no seio de sua própria família. Do 
santuário doméstico dimana de contínuo esse santo impulso, único que nos pode preser- 
var da corrupção moral a que sempre nos dispõe a existência prática ou teórica. Sem tais 
raízes privadas, a ação coletiva da mulher sobre o homem não comportaria, por outro 
lado, nenhuma eficácia permanente. É também na família que se realiza uma apreciação 
suficiente do sexo afetivo, do qual cada um de nós só pode conhecer de modo real os 
tipos com que vive intimamente. 

Eis aí como, no estado normal, cada homem acha em torno de si verdadeiros anjos 
da guarda, ao mesmo tempo ministros e representantes do Grande Ser. A adoração 
secreta deles, consolidando e desenvolvendo a influência continua que lhes cabe, tende 


158 COMTE 


diretamente a nos tornar sempre melhores e mais felizes, fazendo gradualmente prevale- 
cer o altruísmo sobre o egoísmo, pela expansão de um e compressão do outro. Nossa 
justa gratidão pelos benefícios já recebidos transforma-se, assim, em fonte natural de 
novos progressos. A feliz ambigúidade da palavra francesa patron*? caracteriza assaz 
esta dupla eficácia do culto íntimo, no qual cada anjo deve ser igualmente invocado 
como protetor e como modelo. 

A MULHER — Este primeiro apanhado deixa-me, meu pai, muito indecisa sobre 
a natureza do tipo pessoal, que, parece-me, poderia dimanar, do mesmo modo, de qual- 
quer uma das grandes relações domésticas. 

O SACERDOTE — Com efeito, minha filha, cumpre combinar dignamente três 
dessas relações para que o culto angélico comporte uma eficácia plena. Esta multipli- 
cidade se acha dogmaticamente indicada pela de nossos instintos simpáticos, a cada um 
dos quais corresponde especialmente uma das principais influências femininas. A mãe, a 
esposa e a filha devem, em nosso culto, como na existência que ele idealiza, desenvolver 
respectivamente em nós a veneração, o apego e a bondade. Quanto à irmã, seu impulso 
próprio é muito pouco distinto, e pode sucessivamente prender-se a cada um dos três 
tipos essenciais. O conjunto deles nos representa os três modos naturais da continuidade 
humana, em relação ao passado, ao presente e ao futuro, como também os três graus da 
solidariedade que nos ligam aos superiores, aos iguais e aos inferiores. Mas a harmonia 
espontânea dos três tipos não pode ser assaz mantida senão mediante a subordinação 
natural deles, que deve fazer prevalecer habitualmente o anjo materno, sem que a sua 
doce presidência altere jamais os dois outros impulsos. 

Para o principal destino deste culto íntimo, que de ordinário se refere à idade madu- 
ra de cada adorador, concorre o fato de ter um dos três tipos femininos já se tornado sub- 
jetivo na maioria dos casos, ao passo que um dos outros se conserva ainda objetivo. Esta 
mistura normal aumenta a eficácia de tais homenagens, onde a força e a nitidez das ima- 
gens ficam, assim, mais combinadas com a consistência e a pureza dos sentimentos. 

A MULHER — Conquanto esta explicação se me afigure muito satisfatória, sinto, 
meu pai, uma grande lacuna com relação ao meu próprio sexo, cujas necessidades mo- 
rais me parecem ser aqui desprezadas. Nossa ternura especial não pode, contudo, nos 
dispensar dessa cultura habitual. 

O SACERDOTE — A pluralidade dos tipos angélicos fornece facilmente, minha 
filha, a solução normal desta grave dificuldade, que de outro modo seria insuperável. 
Com efeito, o anjo principal é o único que deve ser comum aos dois sexos, tomando cada 
um destes ao outro os dois anjos complementares. Porquanto a mãe tem para ambos os 
sexos igual preponderância, não só como fonte essencial de nossa existência, mesmo físi- 
ca, mas sobretudo em virtude de sua presidência normal no conjunto de nossa educação. 
A esta adoração comum, vosso sexo ajunta o culto do esposo e do filho, pelos motivos 
acima indicados para o meu quanto à esposa e à filha. Somente este contraste é quanto 
basta para corresponder às necessidades respectivas, que exigem um patrocínio ade- 
quado a desenvolver especialmente, de um lado a energia e do outro a ternura. 

A MULHER — Apesar do atrativo que já me inspira esta santa instituição, ainda 
encontro nela, meu pai, duas imperfeições gerais, quer por não utilizar todas as relações 
privadas, quer por não haver previsto assaz a insuficiência muito frequente dos tipos 
naturais. 

O SACERDOTE — Este duplo óbice desaparece, minha filha, tendo-se em conta 
os diversos tipos acessórios que se prendem espontaneamente a cada um dos nossos três 


*º Com efeito, patron, em francês, designa ao mesmo tempo patrono (protetor) e padrão (modelo). A 


mesma ambigiidade caracterizou outrora, em português, a palavra patrão, que hoje tem um sentido mais 
restrito. 


CATECISMO POSITIVISTA 159 


tipos principais, segundo a conformidade dos sentimentos e a similitude dos laços. Em 
torno da mãe agrupam-se naturalmente, em primeiro lugar, o pai, e algumas vezes a 
irmã, depois o mestre e o protetor, além das relações análogas que se podem multiplicar 
muito na família, e sobretudo fora dela. Estendendo a mesma apreciação aos outros 
tipos, instituímos uma série de adorações, gradativamente menos íntimas, porém cada 
vez mais gerais, de onde resulta uma transição quase insensível do culto privado para o 
culto público. Este desenvolvimento normal também permite preencher, tanto quanto 
possível, as lacunas excepcionais, substituindo, em caso de necessidade, um dos tipos 
essenciais pelo seu melhor adjunto. Pode-se, assim, renovar subjetivamente as famílias 
mal compostas. 

A MULHER — À vista deste esclarecimento complementar, só me resta, meu pai, 
pedir-vos explicações mais precisas sobre a instituição geral das orações que corres- 
pondem a este culto fundamental. 

O SACERDOTE — O culto íntimo exige, minha filha, três orações cotidianas: ao 
levantarmo-nos, ao aproximar-se o sono e no meio das ocupações práticas ou teóricas. A 
primeira, mais extensa e mais eficaz que as outras duas, faz começar cada dia humano 
por uma digna invocação angélica, única capaz de nos dispor habitualmente ao bom 
emprego de nossas forças quaisquer. Na última exprime-se a gratidão devida a essa pro- 
teção cotidiana, de modo a prolongar sua eficácia durante o sono. A do meio do dia 
deve-nos libertar por alguns momentos dos impulsos teóricos e práticos, para melhor 
fazer penetrar neles a influência afetiva, de que eles tendem sempre a nos afastar. 

Semelhante destino logo indica as épocas respectivas das três preces positivistas, e 
mesmo os modos de sua realização. A primeira terá lugar, antes de qualquer ocupação, 
no altar doméstico, instituído de conformidade com as nossas melhores recordações, e na 
atitude da veneração. ?* A última, porém, deve efetuar-se no leito e prolongar-se, tanto 
quanto possível, até a invasão do sono, a fim de assegurar melhor a calma cerebral, 
quando estamos menos garantidos contra as tendências viciosas. Posto que a hora da 
oração média não possa ser tão bem determinada, pois que deve variar segundo as 
conveniências individuais, importa que cada um lhe dê, pelo modo que puder, uma fixi- 
dez rigorosa, que facilitará as disposições que ela exige. 

A duração respectiva de nossas três orações cotidianas é analogamente indicada 
pelo destino próprio de cada uma delas. Em geral, convém que a da manhã dure duas 
vezes mais, a do meio duas vezes menos, que a da noite. Quando o culto íntimo se acha 
plenamente desenvolvido, a oração principal absorve espontaneamente toda a primeira 
hora de cada dia. É isto devido sobretudo à decomposição de sua fase inicial em duas 
partes que duram tanto como a fase final, fazendo preceder a comemoração comum a 
todos os dias da semana pela que se torna peculiar a cada um deles. Daí resulta a divisão 
usual da reza da manhã em três tempos iguais, em que prevalecem, respectivamente, pri- 
meiro as imagens, depois os sinais, e por fim os sentimentos. As duas outras preces não 
comportam a mesma proporção entre a comemoração e a efusão. Ao passo que de 
manhã esta dura, ao todo, duas vezes menos que aquela, a relação torna-se inversa à 
noite e a igualdade distingue a do meio do dia. Facilmente explicareis estas diversidades 
secundárias. Convido-vos, porém, a notar que, à vista do conjunto destas indicações, a 
duração total de nosso culto cotidiano alcança somente duas horas, mesmo para aqueles 
que são levados a reproduzir à noite a oração do meio do dia. 

Cada positivista consagrará, portanto, ao seu íntimo aperfeiçoamento cotidiano 
menos tempo do que absorvem hoje as leituras viciosas e as diversões inúteis ou funestas. 
É só aí que se efetua o surto decisivo da vida subjetiva, em virtude de nossa identificação 
crescente com o ente adorado, cuja imagem gradualmente purificada se torna mais viva 


24 Isto é, de joelhos. 


160 COMTE 


e mais nítida em cada novo ano de culto. Por estas práticas secretas, cada qual se prepa- 
ra para receber dignamente a excitação simpática que resultará da publicidade peculiar 
acs outros ritos sagrados de nossa religião. Espero que as nossas regras sociolátricas, 
graças a um tal conjunto de aptidões morais, poderão superar, na elite dos dois sexos, a 
grosseria atual dos costumes ocidentais. As almas vulgares e incultas consideram ainda 
como perdido todo o tempo que não é preenchido pelo trabalho material. Nas classes 
cultivadas já se reconhece o valor próprio do exercício meramente intelectual. Mas desde 
o fim da Idade Média o homem tem esquecido por toda parte o valor direto e superior da 
cultura moral propriamente dita. E quase se envergonharia de lhe consagrar tanto tempo 
quanto lhe dedicava diariamente o grande Alfredo,? * sem que isso alterasse de modo 
algum sua admirável atividade. 


Para completar esta teoria especial das orações cotidianas, devo assinalar-vos a este 
respeito a desigual participação dos ornamentos, sempre acessórios, tirados com critério 
do tesouro estético da humanidade. Eles são naturalmente mais próprios para secundar 
a efusão do que a comemoração. Por conseguinte, essa assistência convém mais à noite 
do que pela manhã. Mas este auxílio é sobretudo destinado a dispensar-nos da esponta- 
neidade que de ordinário nos falta na prece média, onde a efusão final se pode efetuar 
quase inteiramente por meio de uma acertada escolha de trechos poéticos. Quando o 
canto e o desenho se tiverem tornado por toda parte tão familiares como a palavra e a 
escrita, esta contribuição exterior satisfará mais nossas necessidades interiores, durante 
esses langores demasiado freqientes de nossas melhores emoções. ? º 


38 Alfredo. o Grande, rei da Inglaterra. “Ele dividia habitualmente seu tempo em três porções iguais: uma 


era consagrada ao sono, às refeições e aos exercicios do corpo; outra, ao despacho dos negócios; a terceira, 
ao estudo e à devoção.” (Hume, História da Inglaterra) — Alfredo ocupa no calendário concreto o primeiro 
domingo do mês de Carlos Magno. 

38 É mister completar tudo quanto ficou explicado sobre a oração positivista com os seguintes trechos da 
Política Positiva (tomo IV, pp. 114-118): 

“Devo agora completar a exposição do culto pessoal explicando o conjunto de práticas cotidianas, únicas 
que podem proporcionar-lhe uma eficácia suficiente. Todas devem ser qualificadas de preces, reduzindo este 
termo necessário ao nobre sentido que as almas ternas apanharam cada vez mais através do egoísmo teoló- 
gico. Então ele designa sempre uma comemoração seguida de efusão. 

“No culto íntimo, estas duas partes essenciais da prece positiva tomam, quase igualmente, um destino con- 
creto, dirigido sobretudo ao principal patrocínio, a fim de concentrar melhor as emoções. Conquanto a fase 
ativa deva diretamente tornar-se mais decisiva do que a fase passiva, esta serve habitualmente de base aque- 
la, que de outro modo não poderia comportar bastante profundeza. Por isso ê que, na principal prece cotidi- 
na, a efusão dura metade menos do que a comemoração. Porém esta deve então decompor-se em duas fases 
iguais: a primeira, peculiar a cada dia da semana, segundo as recordações que a ele se referem; a segunda. 
comum a todos os dias, para aí lembrar sem cessar o conjunto das relações, contempladas conforme a verda- 
deira sucessão delas. O campo mais vasto da última não deve fazê-la durar mais, porque os sinais dominam 
nela, ao passo que a outra emprega sobretudo as imagens. Assim preparada pela contemplação mais com- 
pleta sucedendo à mais intensa, a efusão, sempre sintética, tende diretamente para o destino geral do culto 
íntimo. Tal é a decomposição normal da prece pessoal em três fases de igual duração, cujo conjunto constitui 
uma progressão cerebral, onde a preponderância sucessiva das imagens, dos sinais e dos sentimentos, deve 
terminar na evocação subjetiva que caracteriza a eficácia da adoração. 

“Este resultado decisivo do culto íntimo não pode nunca adquirir a nitidez nem a intensidade das impressões 
objetivas. Mas, como este limite ideal é atingido, e algumas vezes excedido, na exaltação mórbida, o estado 
normal permite que dele nos aproximemos cada vez mais, à medida que a assiduidade das adorações cotidia- 
nas vai desenvolvendo a eficácia cerebral delas. As almas dignas podem assim obter satisfações desconhe- 
cidas dos corações sem cultura, e mesmo dos que dirigem suas homenagens a entes heterogêneos. 

“A fim de aumentar a energia destas práticas habituais, importa empregar nelas criteriosamente o concurso 
do sentido mais simpático com o mais sintético, aliando os sons às formas. Se bem que a prece oral pareça 
reservada às celebrações coletivas, sempre se reconheceu que ela pode também aperfeiçoar a adoração solitá- 
ria, fregiientes vezes qualificada de invocação. Todavia, ela convém mais à efusão do que à comemoração. 
cuja primeira fase sobretudo deve empregá-la pouco. 


CATECISMO POSITIVISTA 161 


A MULHER — Tendo assaz compreendido nosso culto pessoal, esforço-me, meu 


“O conjunto destas indicações basta para representar a prece cotidiana dos positivistas como uma obra de 
arte, cuja composição pertence a cada adorador, que é o único que pode fazer ali concorrer dignamente os 
sons e as formas, a fim de exprimir melhor seus sentimentos. Esta combinação espontânea dos dois modos 
estéticos adquire mais eficácia quando se completa a positividade pela fetichidade, sem que vãos escrúpulos 
devam, jamais, demover-nos de animar ingenuamente todos os objetos assaz ligados à adoração. Conquanto 
nada aí possa dispensar-nos da originalidade das composições, estas podem ser aperfeiçoadas mediante acei- 
tados empréstimos ao tesouro poético da Humanidade. Contanto que essas fórmulas gerais sejam assaz con- 
formes com as nossas emoções, a assistência moderada delas deve aumentar o poder das emoções, ativas ou 
passivas, proporcionando-lhes, além da sanção de um órgão eminente, o concurso ideal de todas as almas 
que ele comoveu. Mas a plenitude estética da educação positiva permitirá que se complete este auxílio subor- 
dinando à arte fundamental seus dois auxiliares especiais, quando o canto e o desenho se tiverem tornado tão 
familiares quanto a palavra e a escrita. Serão aí sobretudo destinados a compensar a uniformidade neces- 
sária de cada prece, cujo fundo, uma vez instituído, não deve receber senão raros melhoramentos, em virtude 
de necessidades sentidas durante muito tempo, a fim de que o hábito facilite a expansão. Como toda varie- 
dade tem de limitar-se ao desenvolvimento, fônico ou mímico, das fórmulas consagradas, as duas artes espe- 
ciais o tornarão mais completo e mais enérgico se a assistência deles não exigir esforços atuais. 

“Quanto à pluralidade das preces cotidianas, cumpre reconhecer primeiro o predomínio normal da adoração 
que consagra a primeira hora de cada dia a colocar o conjunto deste sob o patrocínio das melhores personifi- 
cações da Humanidade. É aí que todos os meios secundários devem mais concorrer para completar cada 
uma das três fases do culto pessoal. Mas, na proximidade do sono, uma prece conveniente, durando a metade 
do tempo, protegerá a harmonia cerebral contra as perturbações noturnas. Enfim, pelo meio do dia, a mais 
curta das adorações cotidianas suspenderá as ocupações, teóricas ou práticas, para recordar-nos afetiva- 
mente o destino fundamental que elas tendem a desprezar. Tais são as três preces cotidianas do verdadeiro 
positivista, que deverá saber proporcionar convenientemente nelas a comemoração e a efusão, assim como 
graduar com critério o uso dos meios acessórios, sem que seja necessário especificar aqui estas fáceis 
explicações. 

“Porém, estas práticas cotidianas, que se devem concentrar na padroeira principal, exigem um complemento 
hebdomadário, no qual essa presidência contínua, assistida pelos dois outros tipos essenciais, permita o 
digno surto das homenagens pessoalmente devidas a todas as adjunções. As propriedades numéricas que 
dirigiram espontaneamente a instituição subjetiva desse período (a semana) devem introduzi-lo no culto ínti- 
mo, posto que ele convenha melhor às celebrações públicas. Dando maior desenvolvimento a algumas destas 
solenidades hebdomadárias, cada qual construirá para si festas anuais, que completarão a adoração pessoal, 
em consegiência de sua relação normal com o segundo elemento objetivo da coordenação dos tempos. Seria 
ordinariamente supérfluo instituir celebrações mensais, quando o uso universal do calendário positivista. 
explicado adiante, fará concordar as datas peculiares aos dois períodos artificiais. Cada um dos dois cultos 
extremos deve apenas oferecer três graus normais: cotidiano, hebdomadário, anual, em relação à adoração 
pessoal; hebdomadário, mensal, anual, nas solenidade públicas. 

“Para manter a continuidade sociolátrica, a prece principal cotidiana exige uma precaução habitual desti- 
nada a prevenir a divergência proveniente de seu início variar conforme os dias da semana. A conexão esta- 
belece-se mediante um preâmbulo uniforme, constituindo uma curta invocação, à qual preside uma das ima- 
gens secundárias que se referem à véspera. Se este dia não tiver deixado objetivamente senão uma única 
recordação, colher-se-ão em breve as outras nas impressões subjetivas que há de produzir espontaneamente 
o hábito do culto, cujas principais influências se transformarão em acontecimentos pessoais. 

“Em segundo lugar, a faculdade de suspender voluntariamente a visão permite-nos proporcionar às imagens 
interiores um acréscimo de intensidade que os resultados da audição não comportam. Contudo, não convém 
subtrair os olhos ao espetáculo exterior a fim de vermos melhor em nós mesmos, quando a obscuridade for 
espontaneamente suficiente. Porquanto o esforço necessário para nos isolarmos assim desvia uma parte do 
poder cerebral, ao passo que o esforço exigido pela contemplação objetiva concorre para a evocação ante- 
rior, aproximando nossa situação da que primitivamente nos afetou. 

“Cumpre também anotar, a respeito de todos os modos peculiares à adoração íntima, uma precaução susci- 
tada pela sua natureza concreta, em consegiência do estado subjetivo que ordinariamente apresenta a ima- 
gem preponderante e mesmo a maior parte das outras. Em relação a cada um desses entes objetivamente 
extintos, não devemos temer contemplar habitualmente a catástrofe que nos privou dele. O quadro de seus 
últimos momentos deve figurar dignamente em cada adoração, a fim de caracterizar melhor aí a inauguração 
natural da eternidade subjetiva que queremos, sob sua assistência, merecer com ele.” 

Finalmente, devemos assinalar a inovação introduzida no culto íntimo por Henry Edger, e aceita pelo Mes- 
tre, que consiste em consagrar cada um dos dias da semana à repressão especial de um dos sete instintos 


egoistas (Lettres à Edger, pp. 24-25). 


162 COMTE 


pai, por pressentir em que deverá consistir o culto doméstico propriamente dito. Mas não 
posso ainda formar espontaneamente uma idéia satisfatória. Vejo bem que, assim como 
o culto íntimo, pode o culto doméstico instituir uma adoração assídua dos tipos comuns 
a toda a família. Do mesmo modo pode ele reproduzir, para esta associação elementar, 
as invocações coletivas que o culto público endereça diretamente à humanidade. Estas 
duas ordens de práticas religiosas, sob o sacerdócio espontâneo do chefe da família, com- 
portam, sem dúvida, uma alta eficácia moral. Todavia, isto não basta para imprimir ao 
nosso culto doméstico um caráter verdadeiramente distinto, que não o confunda com ne- 
nhum dos outros dois cultos, aos quais ele deve servir de intermediário. * ? 

O SACERDOTE — A instituição dos sacramentos sociais preenche, minha filha, 
esta condição necessária. É por eles que o culto doméstico se distingue profundamente 
dos outros dois, ao passo que lhes fornece uma transição natural. Consiste essa institui- 
ção em consagrar todas as fases sucessivas da existência privada, ligando cada uma 
delas à vida pública. Daí resultam os nossos nove sacramentos sociais: a apresentação, 
a iniciação, a admissão, a destinação, o casamento, a madureza, o retiro, a transfor- 
mação e, enfim, a incorporação. A sucessão invariável destes sacramentos constitui uma 
série de preparações pelas quais, durante o conjunto da vida objetiva, cada digno servi- 
dor da Humanidade tende gradualmente para a eternidade subjetiva que deve erigi-lo, 
afinal, em órgão próprio da deusa. 

A MULHER — Posto que os limites normais deste catecismo vos vedem, meu pai, 
uma explicação verdadeiramente completa de todos os nossos sacramentos, espero que 
podereis suficientemente caracterizar aqui cada um deles. 

O SACERDOTE — Pelo primeiro, minha filha, a religião final consagra sistemati- 
camente cada nascimento, como fizeram espontaneamente todas as religiões prelimina- 
res. A mãe e o pai do novo rebento da Humanidade vêm apresentá-lo ao sacerdócio, que 
recebe deles o compromisso solene de o prepararem convenientemente para o serviço da 
deusa. Esta garantia natural é completada por uma dupla instituição, cujo germe o posi- 
tivismo se honra de ter tomado ao catolicismo, desenvolvendo-o sob a inspiração social. 
Um par artificial, por escolha dos pais, mas com a aprovação do sacerdócio, propor- 
ciona livremente ao futuro servidor do Grande Ser uma nova proteção, sobretudo espiri- 
tual, e, em caso de necessidade temporal, à qual se associam todas as testemunhas espe- 
ciais. O apresentado recebe também, de suas duas famílias, dois patronos particulares, 
um teórico, outro prático, que ele próprio completará por ocasião de emancipar-se, 
impondo-se a si mesmo um terceiro prenome, ** tirado igualmente dos representantes 
sagrados da Humanidade. *º 


37 O extrato seguinte da Política Positiva (tomo IV, pp. 120-121) completa o que ficou dito no texto sobre 
o culto doméstico: 

“Tendo assaz explicado o culto fundamental, devo caracterizar agora o segundo elemento da sociolatria. À 
primeira vista parece não se distinguir dos outros dois senão pelo esboço doméstico da adoração concreta ou 
da efusão abstrata que lhes são respectivamente próprias. Conquanto esta dupla diferença não comporte 
instituições especiais, ela exige novas preces, adaptadas ao primeiro grau de associação (a família). Tornada 
assim coletiva, a adoração concreta estende-se mais, sobretudo quanto ao passado, quando o chefe da fami- 
lia invoca, como deuses, seus principais antepassados, cuja evocação subjetiva, assistida dos meios estéticos. 
deve reanimar os sentimentos comuns. O sacerdócio espontâneo, da mãe, em seu santuário normal, prepara 
o culto do Grande Ser, que ela aí personifica, mediante preces abstratas das quais meu prefácio geral já indi- 
cou uma feliz tentativa”. * 


* Augusto Comte refere-se ao Ensaio sobre a Oração, por José Lonchampt, de que falaremos adiante. (M. L.) 
28 É necessário adotarmos este termo (prenome) com a significação precisa que tem em francês. Nossa 


CATECISMO POSITIVISTA 163 


Na civilização antiga, este primeiro sacramento era amiúde recusado, sobretudo 
aos entes julgados incapazes da atividade destrutiva que então prevalecia. Mas a sociabi- 
lidade moderna utilizando cada vez mais todas as naturezas, a apresentação será quase 
sempre aceita pelo sacerdócio, salvo em casos tão excepcionais que não é necessário 
prevê-los. 


O segundo sacramento é qualificado de iniciação porque marca o primeiro surto da 
vida pública, quando o menino passa, aos catorze anos, da educação espontânea, que sua 
mãe dirigia, para a educação sistemática, ministrada pelo sacerdócio. Até então os con- 
selhos do padre só se endereçavam aos pais naturais e artificiais, para lembrar-lhes os 
seus deveres essenciais durante a primeira infância. Mas aqui o novo ser recebe direta- 
mente advertências religiosas, destinadas sobretudo a premunir-lhe o coração contra as 
reações viciosas muito amiúde inerentes à cultura teórica a que ele vai se submeter. Este 
segundo sacramento é suscetível de adiamento, e algumas vezes de recusa, ainda que 
raramente, se a educação doméstica não tiver dado resultado satisfatório. 


Sete anos depois, o jovem adepto, primeiro apresentado, em seguida iniciado, 
obtém, em virtude do conjunto de suas preparações, o sacramento da admissão, que o 
autoriza a servir livremente a Humanidade, da qual até então ele tudo recebeu sem lhe 
retribuir nada. Todas as legislações temporais têm reconhecido a necessidade de adiar. e 
de até recusar, semelhante emancipação aos entes que uma organização demasiado 
imperfeita, mal retificada pela educação, condena a uma infância eterna. Uma aprecia- 
ção mais exata há de, com mais razão, conduzir o sacerdócio a severidades análogas, 
cujos resultados diretos se limitarão sempre ao domínio espiritual. 


Este terceiro sacramento erige o menino em servidor, mas sem que ele possa especi- 
ficar ainda sua própria carreira, muitas vezes diferente daquela que se lhe supôs durante 
a aprendizagem prática que teve de coexistir com sua educação teórica. Só ele pode deci- 
dir convenientemente sobre este assunto, em virtude de ensaios livremente tentados e 
suficientemente prolongados. Daí resulta a instituição de um quarto sacramento social 
que vem, aos vinte e oito anos, salvo pedido ou prescrição de adiamento, consagrar a 
destinação assim escolhida. O culto antigo apenas oferecia um esboço deste sacramento 
quanto às mais elevadas funções, na ordenação dos padres e na sagração dos reis. Mas 


expressão — nome de batismo — só pode ser aplicada aos casos cristãos. V. nosso Discurso Consecratório 
da Apresentação, Rio, 1885. 

A apresentação deverá efetuar-se, tanto quanto possível, durante o primeiro ano, antes do fim do aleitamento 
(Lettres à Edger, p. 18); e o seu adiamento nunca deverá exceder o 14.º ano (Carta a Laurent, v. Letires 
d'Auguste Comte à Divers, tomo 1). 

3º Os representantes sagrados da Humanidade são os tipos que figuram no calendário histórico. Cumpre. 
porém, atender à restrição estabelecida por Augusto Comte numa carta ao seu discípulo norte-americano 
Henry Edger: “Quanto ao prenome provisório que tomastes,* devo recomendar-vos, para evitar um prece: 
dente vicioso, que circunscrevais doravante essas escolhas aos meses de São Paulo e de Carlos Magno, onde 
se encontram os únicos tipos femininos que comportam o patrocínio moral (excetuando, todavia, Isabel. a 
Católica, e Maria de Molina, no mês de Frederico). Todas as outras mulheres do calendário histórico, não 
representando senão o mérito intelectual, não podem servir de padroeiras, mesmo provisoriamente. Com 
mais forte razão cumpre assim julgar as escolhas masculinas,** a menos que não sejam aplicadas a meninos. 
e neste caso o mês de César pode ser juntado aos outros dois (Lettres à Edger, p. 21). 

*Trata-se de uma menina. (M. L.) 

** Confessamos de plano que não temos certeza sobre a verdadeira interpretação deste típico final. A solu 
ção que nos parece mais aceitável é admitir que Augusto Comte refere-se aqui a nomes de homens tornados 
femininos. como Albertina. de Alberto, etc. (M. L.) 


164 COMTE 


a religião positiva deve sempre instituir socialmente todas as profissões úteis, sem distin- 
ção de públicas ou privadas. Os mínimos servidores do Grande Ser virão, no seu templo, 
receber solenemente, do sacerdócio da Humanidade, a consagração inicial de suas 
cooperações quaisquer. É o único sacramento suscetível de verdadeira renovação, sem- 
pre excepcional. 

A MULHER — Compreendo, meu pai, esta série de consagrações anteriores ao 
casamento, que será seguido dos outros quatro sacramentos positivistas. Quanto a este 
sacramento principal, o único que completa o conjunto das preparações humanas, já 
conheço a doutrina essencial do positivismo. Sobretudo comove-me profundamente a 
grande instituição da viuvez eterna, há muito esperada por todos os corações verdadeira- 
mente femininos. Além de sua importância doméstica, e mesmo cívica, só ela pode 
desenvolver assaz a vida subjetiva para elevar nossas almas até a representação familiar 
do Grande Ser, mediante uma digna personificação. Todas estas noções preciosas já me 
eram quase próprias, antes de ser vossa catecúmena. Sei, aliás, que voltareis ao assunto, 
sob outro aspecto, quando me explicardes o regime. Podemos, portanto, começar a últi- 
ma série de nossas consagrações. *º 


*º Completar o que fica dito sobre a viuvez eterna e o sacramento respectivo com os seguintes extratos: 
Preâmbulo casto e viuvez eterna. “Sabe-se que a religião da Humanidade considera o estabelecimento da 
monogamia como o principal resultado da transição ocidental entre a teocracia e a sociocracia. Depois de 
ter-se aproximado gradualmente, durante estes trinta séculos, de sua plenitude normal, esta instituição deci- 
siva atinge-a na regeneração positivista que faz prevalecer livremente a viuvez eterna, sem a qual a poligamia 
persiste subjetivamente. 

“Resumo natural da verdadeira teoria do casamento, este complemento necessário torna-se o guia geral da 
quinta consagração. Para assegurar melhor a madureza de tal compromisso, a experiência da nova igreja já 
provou que ele não deve ser recebido senão três meses após a celebração cívica que permite ao novo par uma 
inteira intimidade. Um mês antes da cerimônia municipal os noivos prometem solenemente guardar uma cas- 
tidade perfeita durante este preâmbulo trimestral da consagração religiosa. Sem semelhante prova, nenhum 
deles poderia garantir suficientemente sua própria resolução, nem contar assaz com a do outro. O laço con- 
jugal fica dignamente inaugurado por este noviciado decisivo, que, apesar da liberdade legal, mostra os dois 
esposos preparando-se para o casamento subjetivo, fruindo, em toda a sua pureza, a fusão das almas. 

“Assim dispostos a considerar o aperfeiçoamento mútuo como o verdadeiro destino de uma associação em 
que a procriação é apenas acessória, são eles admitidos, no nome do Grande Ser, a assinar, com todas as 
testemunhas, o compromisso solene de uma eterna união. Conquanto estas garantias devam ordinariamente 
tornar irrevogável essa livre obrigação, ela comporta, entretanto, dispensas excepcionais, cuja concessão per- 
tence unicamente ao Sumo Pontífice da Humanidade, fundando-se num inquérito especial. Esta decisão pon- 
tifical oferece tanto mais gravidade quanto ela estigmatiza naturalmente uma memória, a menos que o sobre- 
vivente não se ache espontaneamente desligado do seu voto por um arrastamento verificado, que tais 
precauções tornam quase impossível. No caso normal, a promessa da viuvez eterna será solenemente reno- 
vada seis meses depois do ano de luto, sem que nunca mais possa comportar dispensa alguma. Mas o 
compromisso deve, mesmo então, permanecer puramente religioso, a fim de que sua dignidade não seja ja- 
mais alterada por prescrições legais, quaisquer que venham a ser as exigências da opinião universal, às quais 
o patriarcado saberá resistir sempre pelas instâncias do sacerdócio.” (Política Positiva, tomo IV, pp. 
1227-128.) 

Casamento misto. “Visto a próxima extensão do casamento positivista, devo resolver aqui uma dificuldade 
especial, sobre a qual tenho sido amiúde consultado, quanto às uniões mistas, que, finalmente estranhas ao 
estado normal, prevalecerão durante a transição orgânica. O positivismo é a única doutrina que as pode con- 
sagrar, sem inconsequência, em virtude de seu caráter relativo, que lhe permite encarar todas as crenças ante- 
riores como outras tantas preparações para a fé demonstrável. Ele fará concorrer esses laços para a digna 
propagação do culto universal, tanto entre os politeístas, e mesmo entre os fetichistas, como entre os diversos 
monoteistas. 

“Esta fusão exige duas condições gerais, a fim de não alterar nunca o justo ascendente da religião final por 


CATECISMO POSITIVISTA 165 


O SACERDOTE — Todavia, minha filha, cumpre fixar, em primeiro lugar, a 
idade normal do principal sacramento social. Pois que o casamento deve seguir, e não 
preceder, a destinação especial, o homem não poderá receber o sacramento respectivo 


uma tentativa sem êxito, amiúde degenerada em luta permanente. Cumpre, antes de tudo, restringir a espe- 
rança da conversão ao sexo mais modificável, cujo apego aos antigos cultos merece o maior respeito, como 
determinado sobretudo pelas necessidades do coração, apesar das instigações do espírito. Conquanto o posi- 
tivismo deva utilizar, melhor do que o catolicismo, a influência feminina, ele manterá mais a dignidade mas- 
culina, confiando somente ao esposo um ofício didático que não convém à esposa. A harmonia conjugal fica- 
ria gravemente comprometida se a mulher esperasse do casamento a conversão que ela não tiver podido 
determinar previamente. Mas o homem deve de ordinário esperar trazer gradualmente à fé positiva uma 
companheira naturalmente disposta a receber dignamente a iniciação mental, e sobretudo a sentir convenien- 
temente a superioridade moral da verdadeira religião. 

“Assim concebido, o casamento misto é permitido a todo positivista assaz emancipado das religiões anterio- 
res para tomar parte passivamente em suas cerimônias quaisquer, sem nenhuma adesão mentirosa. Muitas 
vezes tenho induzido verdadeiros parentes a dar livremente esse justo testemunho de deferência pessoal e de 
respeito cívico. Mas, em virtude dessa iniciativa do homem, a mulher deve sempre conceder uma reciproci- 
dade suficiente, consentindo em contrair, no templo da Humanidade, o compromisso solene da viuvez positi- 
vista. Este grau de adesão à religião universal permite já a harmonia conjugal e deixa esperar para breve uma 
conversão decisiva, em que o coração auxiliará o espírito a sentir a indivisibilidade da verdadeira fé. Se a 
mulher recusar semelhante concessão, o sacerdócio não poderá conceder o casamento, e o homem deverá 
adiá-lo até que essa condição seja preenchida, a fim de não suscitar uma luta incerta, tão contrária à felici- 
dade como à dignidade. Na situação ocidental, em que a antiga fé não pode realmente inspirar nenhum fana- 
tismo, esta obstinação anunciaria a esperança de um vicioso domínio, mal dissimulado sob a impossibilidade 
de renunciar ao culto anterior. Ilusório para os monoteístas, dos quais certos antepassados tiveram que 
abandonar a religião de seus pais, este motivo só se torna verdadeiramente respeitável em mulheres poli- 
teistas ou fetichistas, entre as quais a viuvez positivista será sempre acolhida. 

“Qualquer que seja o modo por que se efetue o casamento misto, ele não deve alterar nunca a regra positi- 
vista que confia à mãe a superintendência da educação dos filhos sem distinção. Uma crença atrasada não 
obsta a que a esposa seja, em virtude de sua preeminência moral, mais capaz do que o esposo para dirigir 
a iniciação doméstica, e mesmo para fiscalizar a instrução pública, a fim de subordinar o espirito ao cora- 
ção. Todo verdadeiro positivista respeitará sempre esta atribuição, já por efeito de uma sã apreciação do ver- 
dadeiro ofício da inteligência na preparação humana, já porque sente assaz a superioridade de sua própria 
fé para esperar que ela acabe por prevalecer espontaneamente.” (Ibid., pp. 408-410.) 

Augusto Comte foi levado mais tarde a excluir do casamento misto as mulheres que não professassem reli- 
gião alguma. Referindo-se ao caso particular que lhe inspirou semelhante exclusão, nosso Mestre escrevia a 
J. Fisher: 

“Podemos verificar assim quanto é perigoso aliar-se a essas famílias, incuravelmente revolucionárias, cujo 
tipo permanece felizmente restrito à França, onde ele estende-se mesmo raramente às mulheres. Sob o impul- 
so de um pai estupidamente rousseauniano, essa jovem senhora pensa e diz que a vida humana não precisa 
absolutamente ser sistematicamente regulada, e que o sentimento basta só para conduzir-nos. Por conse- 
guinte, ela não professa senão um deismo vago e estéril, ou, antes, perturbador, que de modo algum pode 
determinar o casamento misto, que de boa mente eu concederia a toda mulher católica, muçulmana, protes- 
tante ou mesmo judia. Daqui por diante saberei impedir, tanto quanto couber em mim, semelhantes uniões. 
recusando-me a casar, desde o preâmbulo, todo positivista cuja esposa for inteiramente destituída de qual 
quer religião. Todas as almas verdadeiramente religiosas devem, sob a nossa presidência, se concertar para 
repelir semelhantes famílias, que cumpre gradualmente reduzir a não se aliarem senão entre si só pelo laço 
municipal”. (Lettres à des Positivistes Anglais, p. 65.) 

Renovação do casamento. O positivismo também concede a sanção religiosa aos cônjuges convertidos poste- 
riormente ao seu casamento, efetuado por outro rito, ou apenas civilmente. 

Ainda a propósito do caso particular do parágrafo anterior, Augusto Comte escrevia ao mesmo discípulo: 
“A união religiosa desse par já não pode mais efetuar-se senão pelo modo peculiar aos casamentos renova- 
dos, do que já existem dois exemplos normais, exigindo, porém, pelo menos, três anos de vida em comum. 
para que a experiência tenha assaz manifestado a insuficiência dos laços ordinários, que primeiro foram jul- 
gados bastantes”. (Ibid., p. 64 — V. também sobre este assunto as páginas 187, 189 e 203 do Volume Sagra- 
do: Testamento, Preces, Confissões, etc.) 


166 COMTE 


antes de ter completado vinte e oito anos. O sacerdócio aconselhará mesmo ao governo 
que estenda até trinta anos *" o veto legal do chefe de família, a fim de prevenir melhor 
toda precipitação no mais importante de todos os nossos atos privados. Quanto às 
mulheres, o sacramento da destinação coincide necessariamento com o da admissão, por 
causa da feliz uniformidade de sua vocação sempre conhecida. Elas ficam, pois, aptas 
para o casamento desde a idade de vinte e um anos, o que, aliás, garante melhor a harmo- 
nia conjugal. Estes limites inferiores não podem ser diminuídos, em um e outro sexo, 
senão por motivos muito excepcionais, maduramente apreciados pelo sacerdócio, sob 
sua responsabilidade moral. Mas não é necessário fixar, em geral, nenhum limite supe- 
rior, se bem que as mulheres devam quase sempre casar-se antes dos vinte e oito anos e 
os homens antes do trinta e cinco, quando a vida conjugal for dignamente instituída. *? 

A MULHER — O primeiro dos sacramentos depois do casamento parece-me, meu 
pai, bastante explicado só pela sua definição. Vós já me tínheis feito notar a coincidência 
ordinária do pleno desenvolvimento orgânico do homem com a sua inteira preparação 
social na idade de qurenta e dois anos. Não tenho aqui em vista senão o vosso sexo, pois 
que o sacramento da madureza lhe pertence exclusivamente. A vocação feminina é ao 
mesmo tempo tão uniforme e tão fixa que não comporta nenhuma das duas consagrações 
entre as quais se acha compreendido o casamento. 

O SACERDOTE — Apesar de terdes apanhado espontaneamente, minha filha, a 
verdadeira natureza do nosso sexto sacramento, não poderíeis apreciar assaz a sua 
importância própria. Durante os vinte e um anos que o separam do sétimo, o homem 
desenvolve sua segunda vida objetiva, única decisiva para sua imortalidade subjetiva. 
Até então, a nossa existência, essencialmente preparatória, naturalmente suscitou des- 
vios, algumas vezes graves, porém sempre reparáveis. Daí por diante, pelo contrário, as 
nossas novas faltas não comportam quase nunca uma compensação suficiente, seja exte- 
rior ou mesmo interior. Importa, pois, impor de um modo solene ao servidor da Humani- 
dade a inflexível responsabilidade que vai começar para ele, tendo especialmente em 
vista sua função própria, já plenamente apreciável. 

A MULHER — Quanto ao sacramento seguinte, não lhe vejo, meu pai, outro desti- 
no senão marcar o termo normal da grande fase de atividade completa e direta, inaugu- 
rada pela sexta consagração. 

O SACERDOTE — O sacramento do retiro torna-se, pelo contrário, minha filha, 
um dos mais augustos e dos mais bem caracterizados, quando se considera o último ofi- 
cio fundamental que preenche, então, cada verdadeiro servidor da Humanidade. Na 


*! Completar e retificar o texto com o seguinte trecho da Política Positiva (tomo IV, pp. 302-303): 


“Respeitando a espontaneidade que deve sempre oferecer o preenchimento das sete condições* exigidas pela 
teoria religiosa da família, o sacerdócio será contudo obrigado a solicitar, a respeito delas, algumas medidas 
legais, sobretudo quanto à idade do casamento civil. Todos os códigos ocidentais permitem a este respeito 
excessiva precocidade, principalmente para as mulheres, que, segundo a lei francesa, são amiúde sacrificadas 
às brutalidades masculinas antes que a sua constituição, mesmo física, possa estar assaz formada. O pontifi- 
cado da Humanidade deve, pois, obter das diversas ditaduras que a mulher nunca seja esposada antes de ter 
completado dezenove anos; mas sem exigir os vinte e um, ficando esta idade peculiar à união religiosa. 
Quanto ao homem, convém prolongar até os vinte e oito anos, idade normal do sacramento da destinação, 
o veto paterno relativo ao casamento. Por efeito desta dupla disposição, a maioria das uniões positivistas se 
efetuarão entre mulheres de vinte e dois anos e homens de vinte e nove; de maneira a manter a desigualdade 
de sete anos, que parece a mais apropriada”. 

* Viuvez eterna, superintendência da educação, sustento da mulher pelo homem, livre supressão de dotes e 
heranças femininas, faculdades de testar e de adotar. (M. L.) 

*2 “Contudo o sacerdócio não deverá permitir, sem graves motivos. o casamento além de trinta e cinco 
anos no homem e de vinte e oito na mulher.” (bid., p. 127.) 


CATECISMO POSITIVISTA 167 


ordem positiva, um funcionário qualquer, sobretudo temporal, designa sempre seu suces- 
sor, sob a sanção de seu superior, salvo os casos excepcionais de indignidade ou incapa- 
cidade, como hei de explicar-vos logo mais. Desde já sentis que é o único meio de regula- 
rizar suficientemente a continuidade humana. Vindo livremente abdicar, aos sessenta e 
três anos, uma atividade exausta, para desenvolver daí por diante sua legítima influência 
consultiva, o cidadão exerce solenemente este último ato de elevada autoridade, desde 
então submetido publicamente à inspeção sacerdotal e popular, que poderá conduzir a 
que ele seja dignamente modificado. Nos ricos, esta transmissão do ofício completa-se 
naturalmente, segundo as mesmas regras, pela transferência da porção do capital huma- 
no que serve de instrumento ao funcionário, exceto o que ele precisa para suas provisões 
pessoais. É 

A MULHER — Agora, meu pai, concebo todo o alcance social do nosso sétimo 
sacramento, no qual, a princípio, eu não via senão uma espécie de festa doméstica. 

Quanto ao seguinte, já estou bastante familiarizada com a verdadeira religião para 
compreender espontaneamente em que consiste. Ele deve substituir a horrível cerimônia 
em que o catolicismo, entregue sem freio ao seu caráter anti-social, arrancava aberta- 
mente o moribundo a todos os afetos humanos, para o transportar isolado ao tribunal 
celeste. Em nossa transformação, o sacerdócio, juntando os pêsames da sociedade as lá- 
grimas da família, aprecia dignamente o conjunto da existência que termina. Depois de 
ter obtido as reparações possíveis, ele deixa esperar as mais das vezes a incorporação 
subjetiva, mas sem nunca comprometer um julgamento que ainda não está maduro. 

O SACERDOTE — Pois que caracterizastes convenientemente, minha filha, o últi- 
mo sacramento objetivo, devo explicar-vos agora a consagração final. 

Sete anos depois da morte, quando todas as paixões perturbadoras se acham assaz 
extintas, sem que se tenham já perdido os melhores documentos especiais, um juízo sole- 
ne, cujo germe a sociocracia toma à teocracia, vem irrevogavelmente fixar a sorte de 
cada um. ** O sacerdócio, tendo pronunciado a incorporação, preside ao pomposo trans- 
porte dos restos santificados, que, depositados até então no campo cívico, vêm ocupar o 
seu jazigo eterno no bosque sagrado que rodeia o templo da Humanidade. Cada túmulo 


*3 “Sete anos após a consagração extrema, o sacramento subjetivo completa a série de preparações objeti- 
vas, proclamando, ante o digno féretro, uma solene incorporação ao Grande Ser. Semelhante intervalo conci- 
lia a madureza do juizo sacerdotal e a conservação das diversas informações que ele exige. Para melhor 
admitir aí o exame público, uma decisão provisória, suscetível de retificação, deve, durante o quarto ano. 
preparar a sentença irrevogável.” (Ibid., p. 130.) 

A sentença do sacerdócio sendo favorável ao morto, seguir-se-á o transporte dos restos sagrados para O 
cemitério religioso, e o mais que se lê no texto do Catecismo. 

“Na maior parte dos outros casos, a condenação, essencialmente negativa, limitar-se-á a tornar irrevogável 
a sepultura municipal, sempre independente do sacerdócio. Mas a completa infamação consiste em trans: 
portar convenientemente o funesto fardo ao deserto dos réprobos, entre os supliciados, os suicidas e os due- 
listas, se bem que não deva sofrer, como eles, a exploração anatômica.” (Ibid.) 

O sacramento da incorporação não deverá, porêm, ser aplicado senão mediante pedido prévio: 

“Todavia,” diz Augusto Comte, “esta consagração final exige, mais do que qualquer outra, uma liberdade 
completa, a fim de obter uma eficácia plena. Ninguém deve ser submetido ao julgamento sacerdotal sem o 
ter especialmente pedido ao receber o sacramento da transformação. Este assentimento pessoal não será 
ainda suficiente, se não for, depois da morte, ratificado pela família. Evita-se assim a maioria dos casos de 
reprovação e obtém-se uma autoridade mais decisiva para os que se realizarem. A principal vantagem de 
semelhante prudência deve entretanto dizer respeito ao julgamento favorável, anulando de antemão os pro- 
testos que a vaidade das famílias hã de levantar amiúde contra o grau de glorificação obtido.” (Ibid., p. 335.) 
Aproveitamos este ensejo para lembrar também que, independentemente deste sacramento, que, como se 
acaba de ver, só tem lugar sete anos depois da morte, Augusto Comte estabeleceu uma comemoração fúne- 
bre geral, no terceiro domingo após a inumação de cada finado. (V. o Volume Sagrado, p. 1 e 225.) 


168 COMTE 


será aí ornado com uma simples inscrição, um busto ou uma estátua, conforme o grau da 
glorificação obtida. 

Quanto aos casos excepcionais de indignidade caracterizada, a condenação mani- 
festa-se transportando-se convenientemente o funesto fardo ao deserto dos réprobos, 
entre os supliciados, os suicidas e os duelistas. 

A MULHER — Esta suficiente indicação dos nove sacramentos sociais deixa-me, 
meu pai, um pesar geral em relação ao meu sexo, que me parece não estar aí bastante 
apreciado. Todavia, eu não reclamo de modo algum contra a nossa exclusão natural de 
três dessas consagrações, pois que se funda em motivos honrosíssimos para as mulheres. 
cuja vida menos perturbada não exige tantos cuidados religiosos. Mas não posso conce- 
ber que o paraíso subjetivo não admita aquelas que a nossa religião proclama como mais 
aptas para o merecerem. Contudo, não vejo como partilhariamos, em geral, da incorpo- 
ração pessoal, que, segundo me parece, não pode resultar senão de uma vida pública jus- 
tamente vedada ao meu sexo, salvo casos muito excepcionais. 

O SACERDOTE — Preenchereis, minha filha, esta grave lacuna, considerando que 
a incorporação masculina deve abraçar também todos os dignos auxiliares de cada ver- 
dadeiro servidor da Humanidade, sem excetuar sequer os nossos adjuntos animais. * * 

Como o principal ofício das mulheres consiste em formar e aperfeiçoar os homens, 
seria tão absurdo quanto injusto glorificar um bom cidadão, se se deixasse de honrar a 
mãe, a esposa, etc., a quem foi devido sobretudo o sucesso dele. Em torno, e algumas 
vezes dentro de cada túmulo sagrado, o sacerdócio deverá, pois, reunir, em nome do 
Grande Ser, todas as personalidades que dignamente concorreram para os serviços que 
esse tâmulo recompensa. Posto que vosso sexo, mais bem organizado que o meu, sabo- 
reie mais a pura felicidade que proporciona imediatamente o surto e o exercício dos bons 
sentimentos, ele não deve nunca renunciar aos justos elogios, nem sobretudo à imortali- 
dade subjetiva que tão bem sabe apreciar. * º 

A MULHER — À vista desta explicação complementar, só me resta, meu pai. 
perguntar-vos em que consiste a obrigação pessoal de receber os nossos diversos 
sacramentos. 


** A propósito da incorporação dos animais: 

“A objeção principal de vossa primeira carta merece mais atenção, posto que eu pense também que a mesma 
leitura (isto é, do 4.º vol. da Política Positiva) vai em breve dissipá-la. Talvez, que ela me determine a pôr 
uma explicação especial sobre esse tópico, em caso de nova edição do Catecismo Positivista. Importa que o 
positivismo reerga os animais associáveis do desdém inspirado pelo monoteísmo, sobretudo ocidental; por- 
quanto O islamismo acha-se, a este respeito, como a muitos outros, muito mais próximo do estado normal. 
Mas não creio que isso possa nunca fazer com que alguém receie qualquer assimilação degradante dos servi- 
dores diretos do Grande Ser ao seus auxiliares indiretos. Todas as honras merecidas por estes são ordinaria- 
mente privadas, mesmo em seus serviços. Contudo, eles podem excepcionalmente obter uma glorificação pú- 
blica, em caso de devotamento eficacíssimo para com um digno servidor. Vossa respeitosa advertência faz- 
me ver a necessidade de não deixar implícito semelhante esclarecimento num cpúsculo destinado 
naturalmente a leitores que, em sua maioria, não conhecerão o principal tratado”. (Lettres à Hutton, p. 43.) 
*8 “Quanto às vossas observações sobre a glorificação feminina, também encontrarão suficiente resposta 
no meu volume final. Mas elas me levariam a algumas explicações especiais em caso de segunda edição do 
meu Catecismo. Destinadas a formar homens, as mulheres devem ser, como todos os autores, julgadas pelas 
suas obras. Entretanto, seria injusto torná-las responsáveis dos insucessos, é mesmo não honrar a árvore 
independentemente do fruto, se sua própria virtude puder ser verificada sem isso. O culto público poderá. 
pois, glorificar as mulheres cujos esposos ou filhos não merecerem nenhum louvor, quando elas houverem 
desenvolvido de modo certo grandes qualidades para uma cultura que entretanto não vingou. posto que o 
caso apresente graves dificuldades na apreciação de tais méritos. sempre excepcionais.” (bid. p. 45.) 


CATECISMO POSITIVISTA 169 


O SACERDOTE — Eles devem, minha filha, ficar sempre legalmente facultativos. 
sem que nunca imponham mais do que um simples dever moral, demonstrado na educa 
ção e sancionado pela opinião. 

Para que melhor conservem este caráter puramente espiritual, condição principal de 
sua eficácia, nossas consagrações devem mesmo ser acompanhadas de instituições para 
lelas, estabelecidas e mantidas pelo poder temporal, como as únicas exigíveis em cada 
caso. À apreciação mais grosseira e menos severa daquele dispensará dos ritos sagrados 
as naturezas que estes podem atemorizar, e cujos serviços sociais não devem, contudo. 
ficar perdidos ou comprometidos. 

Cumpre, por exemplo, não considerar como anárquica, apesar de sua origem 
revolucionária, a instituição do casamento civil como preâmbulo necessário do casa 
mento religioso, que ele pode legalmente dispensar. O uso oposto provinha de uma usur 
pação católica que o positivismo nunca imitará. Aos que repugna aceitar a lei da viuvez. 
sem a qual entretanto nenhum casamento positivista se deverá efetuar, é necessário con 
trair uma união civil que os preserve do vício e garanta o estado legal de seus filhos. O 
mesmo direi, em grau menor, quanto à maioria dos outros sacramentos sociais, sobre 
tudo a admissão e a destinação. O sacerdócio deverá, sendo preciso, solicitar, junto ao 
governo, a instituição das regras legais destinadas a temperar a justa severidade de nos- 
sas prescrições religiosas, cuja observância sempre livre não será jamais recompensada 
senão pela consciência e pela opinião. 


a 


a 


a “OE em a TD e queima 


QUINTA CONFERÊNCIA 


CULTO PÚBLICO 


A MULHER — Encetando o estudo direto de nosso culto público, devo submeter- 
vos, meu pai, a resposta que já dei espontaneamente a algumas críticas, superficiais mas 
sinceras, dirigidas contra o conjunto desta solene adoração. Dizem que cada positivista 
se glorifica a si mesmo quando honra um ente necessariamente composto de seus pró- 
prios adoradores. Este reproche não pode, de forma alguma, aplicar-se ao nosso culto 
privado: refere-se unicamente à adoração direta da Humanidade, sobretudo mediante 
homenagens coletivas. Podemos, porém, repelir facilmente semelhante acusação funda 
dos na verdadeira noção do Grande Ser, cuja composição é principalmente subjetiva. Os 
que lhe protestam sua gratidão não estão nada seguros, em geral, de ser a ele afinal incor 
porados. Eles apenas têm a esperança de tal recompensa porque contam merecê-la, por 
uma carreira digna, sempre apreciada pelos seus sucessores. 

O SACERDOTE — Esta retificação está plenamente de acordo, minha filha, com 
o verdadeiro espírito de nosso culto público, no qual o presente glorifica o passado para 
melhor preparar o futuro, apagando-se espontaneamente entre essas duas imensidades. 
Longe de exaltarem o nosso orgulho, essas efusões solenes tendem sem cessar a inspirar- 
nos uma sincera humildade. Porquanto elas nos fazem sentir profundamente quanto 
somos incapazes, apesar dos nossos melhores esforços coletivos, de nunca retribuir ao 
Grande Ser mais do que uma mínima parte do que recebemos dele. 

A MULHER — Antes de explicar-me o conjunto desta adoração pública, rogo-vos, 
meu pai, que caracterizeis suficientemente os templos em que cla se deverá efetuar. 
Quanto ao sacerdócio que a dirige, sinto que a sua constituição essencial será assaz indi- 
cada na exposição do regime. 

O SACERDOTE — Os nossos templos, minha filha, não podem ser agora plena- 
mente apreciáveis, porque a arquitetura sendo a mais técnica e a menos estética de todas 
as belas-artes, cada nova síntese nela penetra mais tarde que em qualquer outra. Será 
mister que a nossa religião esteja não só muito desenvolvida, mas também muito espa- 
lhada, antes que as necessidades públicas possam apontar a verdadeira natureza dos edi- 
fícios que lhe convêm. Deveremos, portanto, servir-nos provisoriamente dos antigos tem- 
plos, à medida que caírem em desuso, conquanto este preâmbulo necessário tenha de 
durar menos para nós do que para o catolicismo, reduzido, por espaço de muitos séculos, 
às construções politeistas. 

A única indicação geral que sobre isto possa agora ser proclamada diz respeito à 
situação e à direção, já determinadas pela natureza do culto positivo. Pois que a Huma- 
nidade se compõe essencialmente dos mortos dignos de sobreviver, seus templos devem 
ser colocados no meio dos túmulos de elite. Por outro lado, o principal atributo da reli- 
gião positiva consiste em sua universalidade necessária. Cumpre, pois, que, em todas as 


172 COMTE 


partes do planeta humano, os templos do Grande Ser sejam dirigidos para a metrópole 
geral, que o conjunto do passado fixa, por muito tempo, em Paris. O positivismo utiliza 
assim o feliz esboço do islamismo acerca de uma preciosa instituição, a qual, pela 
comum atitude de todos os verdadeiros crentes, faz sobressair melhor a tocante solidarie- 
dade de suas livres homenagens. 

Eis tudo o que devo indicar-vos em relação aos nossos edifícios sagrados. Quanto 
à sua distribuição interior, por ora só devo assinalar a necessidade de reservar o princi- 
pal santuário para mulheres convenientemente escolhidas, a fim de que os sacerdotes da 
Humanidade se achem aí sempre rodeados dos melhores representantes dela. * * 

A MULHER — Esta última indicação leva-me, meu pai, a completar minha per- 
gunta precedente, interrogando-vos sobre os símbolos de nossa deusa. A determinação 
desses símbolos referindo-se à pintura e à escultura deve ser desde já mais apreciável que 
a dos templos, em virtude da marcha mais rápida das duas primeiras artes da forma 
comparadas com a terceira. 


*8 “Quanto à distribuição interior dos templos positivistas, ela comporta apenas duas prescrições imedia- 


tas. Em primeiro lugar, o santuário, onde a estátua da Humanidade domina a cátedra sacerdotal, deve poder 
conter um sétimo do auditório, a fim de que o intérprete do Grande Ser fique aí rodeado das mulheres seletas 
que constituem sua melhor representação. Em segundo lugar, cada uma das sete capelas de cada lado conte- 
rá a estátua de um dos treze órgãos principais da iniciação humana, rodeada dos bustos dos seus quatro 
melhores adjuntos, reservando a capela décima quarta para o grupo dos tipos femininos.” * (Política Positi- 
va, tomo IV, p. 156.) 

Entre os papéis de Augusto Comte achou-se o traçado de um grande templo da Humanidade. Incluímos aqui 
uma reprodução desse plano, tal como foi publicado na Revue Occidentale, número de janeiro de 1880. 
Augusto Comte tinha também chegado a conceber o altar da Humanidade. Sobre este assunto, ver o opús- 
culo do Dr. Audiffrent — Le Temple del'Humanité (1885) —, e a nota correspondente a esta, na 1.º edição 
de nossa tradução do Catecismo. 

É aqui oportuno lembrar outra indicação dada por Augusto Comte a um de seus discípulos. Vimos (pp. 
171-172) que os templos positivistas devem ser orientados na direção de Paris. Segundo o Mestre, esta adap- 
tação do Kebla muçulmano “convirá também ao oratório privado que fará parte da habitação normal do mí- 
nimo positivista. Basta, porém, que o crente tome esta atitude durante as suas preces, o que pode ser reali- 
zado em qualquer lugar, mediante uma fácil determinação geográfica” (Lettres à Edger, p. 13). 

No mesmo tópico do Catecismo, referindo-se a Paris, Augusto Comte nos diz que por muito tempo a grande 
cidade será a metrópole geral. Esta restrição supõe que num futuro mais remoto outra cidade virá a ser a 
capital do mundo. Com efeito, o nosso Mestre profetizou a Constantinopla este glorioso destino, conforme 
se vê no seguinte trecho de uma carta, ainda inédita, endereçada ao Dr. Audiffrent, em 1856: 

“A única concepção verdadeiramente nova que espero proclamar aí,** e que já comuniquei à Sociedade 
Positivista, consiste em determinar a capital final do planeta humano. Paris não pode conservar a preemi- 
nência universal senão como centro da república Ocidental, enquanto esta vanguarda prevalecer sobre o 
resto de nossa espécie. Mas quando a homogeneidade positivista for suficientemente completa, o Ocidente 
apagar-se-á diante da Terra, e Paris não preencherá mais as diversas condições essenciais de um verdadeiro 
centro universal, transferindo sua sede da capital provisória para a verdadeira cidade eterna, que condensa 
todas as grandes recordações humanas”. 

Alguns dias depois escrevia ao mesmo discípulo: 

“Vossa retidão e profundeza habituais apanharam dignamente os principais motivos da determinação final 
da capital terrestre, segundo a qual Constantinopla deve eternamente obter o predomínio universal, gradual. 
mente preparado, durante os trinta séculos de transição ocidental, pelo ascendente sucessivo de Atenas, de 
Roma e de Paris, nas três fases, especulativa, ativa e afetiva, dessa iniciação”. 

* Capela de Heloísa, como se vê no plano anexo. 

** Alude a um opúsculo que projetara escrever sob o título Pana, e de que sua prematura morte nos privou 
para sempre. 


173 


CATECISMO POSITIVISTA 


Escala 1 
20 


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PLANO GERAL 
DE UM GRANDE TEMPLO DA HUMANIDADE 
POR AUGUSTO COMTE 


320 m sobre 10 de altura 
Galeria debaixo do terraço 


u Ot 


BOSQUE SAGRADO OU 


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(Altura total 50 m) 


CAMPO DE INCORPORAÇÃO Escola Pos vit 


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Jardim 


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Galeria debaixo de terraço de 280 m de comprimento sobre 4 m de largura e 6 m de altura 


1 Capela de MOISÊS 

2 Capela de HOMERO 

3 Capela de ARISTÓTELES 
4 Capela de ARQUIMEDES 
5 Capela de CÉSAR 


6 Capela de S. PAULO 11 Capela de DESCARTES 
7 Capelade CARLOS MAGNO 12 Capela de FREDERICO 
8 Capela de DANTE 13 Capela de BICHAT 

9 Capela de GUTENBERG 14 Capela de HELOÍSA 


10 Capela de SHAKESPEARE 15 Estátua do GRANDE SER e cátedra sacerdotal 
(Editado pelo APOSTOLADO POSITIVISTA DO BRASIL) 


174 COMTE 


O SACERDOTE — Com efeito, minha filha, a natureza do Grande Ser não deixa 
agora nenhuma dúvida acerca de sua representação plástica. Figurada ou esculturada, 
nossa deusa terá sempre por símbolo uma mulher de trinta anos tendo seu filho nos bra- 
ços. A preeminência religiosa do sexo afetivo caracterizará semelhante emblema, em que 
o sexo ativo deve ficar colocado sob a santa tutela daquele. Posto que grupos mais com- 
postos pudessem fazer a representação mais completa, esta não seria então assaz sinté- 
tica, de modo a se tornar verdadeiramente usual. *? 

Dos dois modos peculiares a esta simbolização normal, a escultura convém à ima- 
gem fixa colocada em cada templo, no meio das mulheres de elite, e por trás da tribuna 
sagrada. Mas a pintura deve prevalecer para os estandartes móveis, destinados a guiar 
nossas marchas solenes. Ao passo que sua face branca conterá a santa imagem, a 
fórmula sagrada do positivismo encherá a face verde, voltada para a procissão. 

A MULHER — Para terminar minhas perguntas preliminares, peço-vos, meu pai, 
que me expliqueis o sinal usual que poderia representar assaz essa fórmula característica. 

O SACERDOTE — Resulta ele, minha filha, da teoria cerebral, como terei o cui- 
dado de vo-lo mostrar quando fizermos o estudo do dogma. Pode-se recitar nossa fór- 
mula fundamental colocando sucessivamente a mão sobre os três principais órgãos do 
amor, da ordem e do progresso. ** Os dois primeiros são contíguos e o último só se acha 
separado deles pelo da veneração, cimento natural de um tal conjunto, de modo que o 
gesto se pode tornar contínuo. *º 


*7 Segundo uma tradição constante em Paris, mas cuja autenticidade ainda não pudemos verificar, Augusto 
Comte indicara para representação provisória da Humanidade a Virgem, de Rafael, chamada de S. Sisto. 
Nosso Mestre esperava que. na idealização do futuro, os traços de Clotilde de Vaux ficassem consagrados 
definitivamente. (V. Política Positiva, tomo IV. p. 554; e 0 Volume Sagrado, p. 160.) 

*º Isto é, a bondade, a dedução e a perseverança. 

*º “Muita razão tivestes”, escrevia Augusto Comte a H. Edger, “em afastar espontaneamente o projeto irre- 
fletido de vosso eminente amigo (J. Metcalf) sobre um sinal exterior. A cruz pertence ao catolicismo, como 
o crescente ao islamismo; nem um nem outro convêm ao positivismo. Quanto ao seu equivalente para a 
nossa fé, é isso uma solicitude ainda prematura, cuja final satisfação exige nosso advento social. Por enquan- 
to, estamos suficientemente providos de divisas decisivas, e mesmo de sinais característicos. Conheceis aque- 
le que consiste em recitar nossa fórmula fundamental, colocando sucessivamente a mão direita sobre os três 
órgãos cerebrais que correspondem ao amor, à ordem e ao progresso; ao passo que a mão esquerda colocada 
sobre o coração indica que para tudo isso é necessário sangue. Quanto a indícios exteriores e permanentes, 
podem eles duplamente derivar da bandeira positivista, descrita no discurso preliminar da minha obra princi 

pal. Em primeiro lugar, todos os positivistas podem, quando o julgarem oportuno, trazer ao meio do braço 
a fita verde com que cinjo o meu, quando em minhas funções sacerdotais, contanto que eles o ponham no 
braço esquerdo, reservando aos padres o braço direito, o que basta para prevenir a confusão. Todos podem 
também pendurar ao pescoço ou sobre o coração uma pequena reprodução da estatueta da Humanidade que 
encima a haste da bandeira positivista, sem se inquietarem pela sua semelhança com a imagem da Virgem- 
Mãe dos católicos; pois que o culto desta deve servir finalmente de transição para o de nossa deusa.” (Lettres 
a Edger, pp. 31-32.) 

Eis aqui a descrição da bandeira positivista, a que alude Augusto Comte: 

“Para determinar a bandeira política cumpre conceber primeiro o estandarte religioso. Estendido em quadro, 
ele representa, na sua face branca, o simbolo da Humanidade, personificada por uma mulher de trinta anos. 
tendo seu filho nos braços. A outra face conterá a fórmula sagrada dos positivistas: O Amor por princípio 
e a Ordem por base; o Progresso por fim, sobre um fundo verde, cor natural da esperança, peculiar aos 
emblemas do futuro. 

“Esta mesma cor é a única que convém à bandeira política comum a todo o Ocidente. Devendo flutuar em 
pavilhão, não comporta pintura alguma, substituída neste caso pela estatueta da Humanidade, no vértice da 
haste. A fórmula fundamental aí se decompõe, sobre as duas faces verdes, nas duas divisas que caracterizam 
o positivismo: uma política e científica, Ordem e Progresso; e a outra moral e estética, Viver para Outrem. 
(Política Positiva, tomo 1, p. 387.) A terceira divisa, Viver às claras, servirá especialmente para ser inscrita 
nas moedas, vindo assim completar o conjunto das outras duas, fornecendo o resumo prático do sistema, ao 


CATECISMO POSITIVISTA 175 


Quem uma vez adquiriu bem o hábito deste sinal não tarda em suprimir a recitação 
da fórmula, conservando apenas a expressão mímica. Enfim, como o lugar de ordem dos 
órgãos cerebrais caracteriza plenamente as funções deles, o sinal torna-se redutível. 
sendo necessário, à simples sucessão dos números correspondentes do quadro cerebral 
que vereis mais adiante. É assim que, sem nenhuma instituição arbitrária, o positivismo 
já se acha munido de sinais usuais mais expressivos que todos os do catolicismo e do 
islamismo. 

A MULHER — Agora, meu pai, não devo mais retardar vossa explicação direta do 
conjunto do culto público. 
O SACERDOTE — Vós o encontrareis, minha filha, plenamente caracterizado 


pelo quadro que aqui está (vide o quadro A, na página seguinte). O duplo objeto deste 
culto, como dos dois precedentes, consiste em fazer-nos compreender melhor e realizar 


mesmo tempo moral e político, irrevogavelmente adotado”. (Tbid., tomo IV, p. 459.) 

Quanto à cor das letras de nossas divisas, devem elas ser brancas em fundo verde, e verdes em fundo branco. 

Ainda sobre a cor verde dos emblemas positivistas escrevia Augusto Comte ao seu discípulo J. Fisher: 

“Esta nuança convém aos homens do futuro, porque caracteriza a esperança, em virtude do anúncio habitual 
fornecido por toda parte pela vegetação, ao mesmo tempo que ela indica a paz; duplo titulo para simbolizar 
a atividade pacífica. Historicamente, esta cor inaugurou a Revolução Francesa, pois que os assediantes da 
Bastilha não tiveram, em sua maioria, outros topes senão folhas subitamente arrancadas às árvores do Palais 
Royal, em consegiiência da feliz exortação de Camille Desmoulins, embora os orleanistas tenham feito 
prevalecer, alguns dias mais tarde, sob diversos pretextos há muito esquecidos, a libré tricolor de sua dinas- 
tia. Além destes motivos, devia esforçar-me por evitar a adoção do vermelho que, no povo central, e mesmo 
entre outros ocidentais, designa especialmente, ainda hoje, a sanguinária atitude dos revolucionários mais 
atrasados. O verde é, portanto, apropriado para emblema dos verdadeiros regeneradores, quer em relação ao 
estado normal, quer mesmo para a transição”. (Leitres à des Positivistes Anglais, p. 24.) 

Não será descabido reproduzir aqui. em confirmação da prioridade da cor verde no início da Revolução. o 
seguinte trecho de uma carta do herói do dia, Camille Desmoulins. a seu pal. escrita a 16 de julho de 1879 

“Meu caríssimo pai. Posso agora escrever-vos, a carta chegará às vossas mãos. Eu próprio coloquei ontem 
uma sentinela numa agência do correio, não há mais gabinete secreto onde as cartas sejam violadas. Quão 
mudada está a face das coisas de três dias para cá! No domingo, Paris inteira achava-se consternada pela 
demissão de M. Necker; em vão procurei inflamar os ânimos, ninguém pegava em armas. Junto-me a eles: 
vêem o meu zelo, rodeiam-me, instam para que eu suba sobre uma mesa: no mesmo instante, tenho em torno 
de mim seis mil pessoas. “Cidadãos”, disse eu então, “sabeis que a nação tinha pedido a conservação de Nec- 
ker, e que se lhe erguesse um monumento: ele foi expulso ! Que desafio mais insolente poderia vos ser atira- 
do? Depois deste golpe, eles vão ousar tudo, e meditam, para esta noite, preparam talvez, uma Saint-Bar- 
thélemy dos patriotas.” Sentiame sufocado sob uma multidão de idéias que me assediavam, falava 
desordenadamente. “Às armas”, gritei, “às armas! Tomemos todos topes verdes, cor da esperança. . .' Decla- 
rei que eu não queria ter nenhum comando e que apenas queria ser um soldado da pátria. Tomei uma fita 
verde e amarrei-a ao meu chapéu...” (Oeuvres de Camille Desmoulins, tomo II, pp. 91-92, edição da 
Bibliothêque Nationale.) 

Nessa mesma carta encontramos mais adiante indicado incidentemente um dos vários pretextos que, segun- 
do nosso Mestre, serviram poucos dias depois para fazer adotar as cores da dinastia de Orléans. Descre- 
vendo uma procissão cívica efetuada na véspera (15 de julho), Camille assim se exprime: “À noite, a procis 
são foi mais bela ainda. Cento e cinquenta deputados da Assembléia Nacional, Clero, Nobreza e Comunas 
vinham nos coches do rei trazer a paz. Chegaram às três horas e meia à praça Luis XV, desceram dos carros 
e seguiram a pé, atravessando a rua Saint-Honoré até o paço municipal (Hôtel de Ville). Marcharam sob as 
bandeiras dos guardas franceses, que eles beijavam dizendo: “Eis as bandeiras da nação, da liberdade e no 
meio de cem mil homens armados e de oitocentos com topes vermelhos e azuis”. O vermelho, para mostrar 
que estavam prontos a derramar seu sangue, e o azul, para indicar que aspiravam a uma constituição celes- 
te”. (Ibid., p. 97.) 

Outro pretexto aventado foi o fato de o azul e o vermelho serem as cores da cidade de Paris, às quais se ajun- 
tou o branco, cor da bandeira real, para significar a união da realeza com o povo. Outros finalmente diziam 
que as três cores representavam a fusão das três ordens: o vermelho, o clero; o branco, a nobreza; e o azul. 
o terceiro estado. 


176 


Estados 
Preparatórios 


Laços Fundamentais 


Funções Normais 


COMTE 


(A) Culto Abstrato da Humanidade 
ou 
idealização Sistemática da Sociabilidade Final 


religiosa 
1.º Mês. A HUMANIDADE cics Festas hebdomadárias da União q Nistórica 
política 
comunal 
completo 
2.º Mês. O CASAMENTO o casto 
desigual 
subjetivo 
natural 
completar matt eo grau ificial 
3.º Mês. A PATERNIDADE ........ ! artificia 
j espiritual 
incompleta RE NR Rea TR 
temporal 
4.º Mês. A FILIAÇÃO Às mesmas subdivisões 
5.º Mês. À FRATERNIDADE .......... Idem 
permanente RA ep qu E 
6.º Mês. A DOMESTICIDADE ....... | incompleta 
passageira ...... cala A Às mesmas subdivisões 
espontâneo | pomade 
7.º Mês. O FETICHISMO ....... ni sedentário 
sistemático .. Ee ne sea 
militar 
8.º Mês. O POLITEÍSMO o GERSei dO Nes iç intelectual Eeuca 
; militar científico 
progressivo 
teocrático 
9.º Mês. O MONOTEÍSMO católico 
islâmico 
metafísico 
10.º Mês. A MULHER, ou Re 
a Providência moral wma 
esposa 
filha 
11.º Mês. O SACERDÓCIO, ou 
a Providência intelectual ..... | incompleto ar 
completo ....... nf preparatório a 
direto | secundário 
principal 
12.º Mês. O PATRICIADO, ou banqueiro 
a Providência material comerciante 
fabricante 
agricultor 
13.º Mês. O PROLETARIADO, ou ivo 
a Providênciageral .......... afetivo 
contemplativo 
passivo 
Dia complementar lc. | Festa universal dos MORTOS 


Dias Excepcionais À 
Dia adicional nos anos bissextos | Festa geral das MULHERES SANTAS 


Paris, 5 de Gutenberg de 64 (lunedia, 6 de agosto de 1852) 


Augusto Comte 
(10, rua Monsieur-le-Prince) 


CATECISMO POSITIVISTA 177 


melhor a existência correspondente. Devemos, pois, idealizar, em primeiro lugar, os 
laços fundamentais que a constituem, em seguida as preparações essenciais que ela exige, 
e, enfim, as funções normais de que ela se compõe. Tais são os destinos respectivos dos 
três sistemas de festas mensais que devem encher o ano positivista, que assim fica divi- 
dido em treze meses de quatro semanas, mais um dia complementar consagrado ao con- 
junto dos mortos. 

Quando estudarmos o dogma, conhecereis as quatro classes fundamentais, afetiva, 
especulativa, patrícia e plebéia, necessariamente peculiares à ordem normal. Quanto aos 
estados preparatórios, não é possível, sem risco de confusão, condensá-los mais, à vista 
das profundas diferenças, intelectuais e sociais, que sempre devem distinguir o feti- 
chismo, o politeísmo e o monoteísmo, mesmo na iniciação espontânea de cada positi- 
vista. *º Relativamente aos laços essenciais, não se pode deixar de celebrar em primeiro 
lugar o mais universal, e glorificar em seguida cada um dos afetos privados que são os 
únicos que lhe podem dar uma verdadeira consistência. Ora, estas relações elementares 
são realmente em número de cinco: o casamento, a paternidade, a filiação, a fraternidade 
e a domesticidade, classificando-as, de acordo com o nosso princípio hierárquico, segun- 
do a generalidade crescente e a intimidade decrescente. 

O número, na aparência paradoxal, dos meses positivistas torna-se, pois, sagrado 
quando se apreciam seus motivos religiosos. Muitas experiências já têm provado, aliás, 
que ele poderá facilmente prevalecer com a fé correspondente. É só também a religião 
universal que há de estabelecer a regularidade cronológica resultante de nossa exata 
decomposição de cada mês em quatro períodos hebdomadários. Quaisquer que sejam as 
vantagens práticas de semelhante instituição, elas não bastariam para fundá-la se as 
necessidades do culto não dissipassem a hesitação sempre inerente aos motivos 
materiais. 

A MULHER — Ao primeiro aspecto geral do quadro sociolátrico, apenas descu- 
bro nele, meu pai, uma única dificuldade grave, que diz respeito à domesticidade, cuja 
importância parece-me ter sido aí exagerada, colocando-a entre os seus laços 
fundamentais. 

O SACERDOTE — Tal objeção, minha filha, recorda-me que nascestes no norte, 
se bem que felizmente preservada do protestantismo. Porquanto os ocidentais do Meio- 
Dia conservam melhor, neste particular, os verdadeiros sentimentos humanos, tão nobre- 
mente desenvolvidos na Idade Média. 

Longe de dever desaparecer algum dia, a domesticidade há de ir sempre aumen- 
tando, purificando-se mais de toda servidão primitiva. Tornando-se plenamente voluntá- 
ria, ela fornece a muitas famílias o melhor meio de servirem dignamente ao Grande Ser, 
prestando uma assistência indispensável aos verdadeiros servidores dele, teóricos ou prá- 
ticos. Este concurso para o bem público, conquanto indireto, é mais completo e menos 
incerto que o da maioria dos cooperadores diretos. Ela pode também cultivar mais nos- 
sos melhores sentimentos. Limitar a domesticidade a certas classes é ter dela uma noção 
muito estreita. Em todas as categorias sociais, e sobretudo entre os proletários, cada 
cidadão passou por semelhante situação, enquanto durou sua iniciação prática. Cumpre, 
pois, idealizar a domesticidade como o complemento dos laços de família e o início das 
relações cívicas. 

A MULHER — Meu coração não precisava, meu pai, senão desta retificação siste- 
mática para vencer os preconceitos anárquicos que me obstavam de fraternizar assaz 


8º YV. adiante a nota 63 da Nona Conferência. 


178 COMTE 


com os dignos tipos, sobretudo femininos, que muitas vezes me deparou essa situação 
malprezada. Este salutar esclarecimento não me deixa agora a desejar senão uma última 
explicação geral, relativamente à outra extremidade de nosso quadro sociolátrico. As 
posições respectivas do patriciado e do proletariado parecem-me aí invertidas. Pode a 
política assim classificá-los, segundo a ordem do poder material, mas a religião, que clas- 
sifica segundo a dignidade moral, creio que devia dispô-los de outro modo. 

O SACERDOTE — Vós esqueceis, minha filha, que, na religião positiva, o culto e 
o regime devem sempre corresponder-se exatamente. Mas de boa mente desculpo vosso 
equívoco, atendendo ao nobre motivo que o inspirou. Também eu já pensei como vós, 
quando ligava exagerada importância à extrema imperfeição do patriciado atual, tão 
amiúde indigno de seu elevado destino social. A verdadeira superioridade cerebral, quer 
intelectual, quer sobretudo moral, acha-se hoje mais espalhada proporcionalmente entre 
as classes preservadas de uma educação e de uma autoridade degradantes. Todavia, 
posto que esta exceção incontestável deva ser cuidadosamente apreciada ao instituir a 
transição ocidental, cumpre saber afastá-la sistematicamente quando se constrói o culto 
abstrato da Humanidade, destinado principalmente ao estado normal. Contemplando 
demasiado o presente, e insuficientemente o futuro, seríamos levados, com certeza, a pôr 
o próprio sacerdócio abaixo do proletariado, visto como a sua imperfeição atual sobre- 
leva muito a do patriciado, quer a apreciemos nos destroços teológicos ou entre os rudi- 
mentos metafísicos e científicos. 

No culto positivo, como na existência normal que ele idealiza, o digno patrício 
avantaja-se ordinariamente ao digno plebeu, tanto em verdadeira nobreza como em 
poder real. Ordenando as classes humanas segundo a aptidão de cada uma delas a repre- 
sentar o Grande Ser, a importância e a dificuldade dos serviços peculiares ao patriciado, 
como a educação que eles exigem e a responsabilidade que eles impõem, o colocarão 
sempre acima do proletariado. É em nome mesmo de semelhante classificação que a 
sabedoria sacerdotal, convenientemente assistida da sanção feminina e do apoio popular, 
deve chamar dignamente os patrícios, isolados ou reunidos, ao cumprimento de seus eter- 
nos deveres sociais, quando lhes sucede descurá-los gravemente. Mas estas advertências 
excepcionais errariam seu alvo principal se o culto normal não honrasse suficientemente 
os ministros necessários de nossa providência material. Colocando o proletariado no 
extremo inferior da escala social, o culto recordará que a aptidão característica dele para 
fiscalizar e retificar todos os poderes humanos resulta sobretudo de uma situação essen- 
cialmente passiva, que não desenvolve nenhuma tendência pronunciada. Nosso quadro 
sagrado, como o regime correspondente, deve, pois, inserir os dois grandes poderes, espi- 
ritual e temporal, entre as duas massas, feminina e popular, que incessantemente reagem 
sobre os sentimentos e a conduta deles. Se o patriciado fosse rebaixado, a harmonia posi- 
tiva ficaria tão rota em sociolatria como em sociocracia. 

A MULHER — Como já estou assaz familiarizada com o conjunto do culto públi- 
co, podeis, meu pai, explicar-me a decomposição hebdomadária das treze celebrações 
mensais. Este desenvolvimento final, que nunca deixará a nossa semana sem uma festa 
geral, deve concorrer profundamente para o fim moral da grande adoração, assim repro- 
duzida sob aspectos muito variados, mas sempre convergentes. 

O SACERDOTE — Antes de começar esta explicação, devo, minha filha, indicar- 
vos a idealização final dos diferentes dias da semana. Ela dimana em primeiro lugar de 
seus nomes atuais, que cumpre conservar com todo cuidado, porque eles lembram o con- 
Junto da iniciação humana, em virtude da instituição fetíchica, da consagração politéica 
e da adoção monotéica, que os caracterizam. Esta propriedade tem tanto mais valor 


CATECISMO POSITIVISTA 179 


quanto ela resulta de que a sucessão deles representa os diferentes astros realmente liga- 
dos ao planeta humano essencialmente independente de todos os outros. 

Mas esta concordância, histórica e dogmática, por demasiado abstrata, exige um 
complemento concreto, que deve provir da transição ocidental entre a teocracia e a 
sociocracia. Consiste ele, sem mudar esses preciosos nomes, em consagrar os sete dias à 
memória respectiva dos sete órgãos principais de tal movimento, Homero, Aristóteles. 
César, São Paulo, Carlos Magno, Dante e Descartes, cuja sucessão representa assaz o 
conjunto dessa evolução decisiva que, conquanto peculiar ao Ocidente, merecerá sempre 
ser familiarmente celebrada por toda parte, porque só ela permitiu a regeneração final. 

A semana comporta, além dessa, uma consagração abstrata, dedicando-se seus sete 
dias às sete ciências fundamentais, matemática, astronomia, física, química, biologia, 
sociologia e moral. Este segundo modo, compatível com o primeiro e conforme ao espi- 
rito do culto público, tornará mais familiares a hierarquia enciclopédica e a concepção 
relativa da ordem universal. 

Em virtude do concurso destas duas consagrações, a festa que termina cada semana 
ficará caracterizada ao mesmo tempo pela ciência preponderante e pelo precursor direto 
da religião final, ** 

Devo declarar-vos aqui que, antes de ter concebido a idealização da semana que 
acabo de vos resumir, fui levado a aceitar, por uma benevolência imerecida, a consagra- 
ção dos diferentes dias da semana aos diversos laços fundamentais. Cumpre rejeitar este 
especioso projeto, que não deixará outro vestígio senão a comovente série de orações 
compostas essa ocasião por um dos nossos jovens irmãos. Libertando-as de uma solida- 
riedade viciosa, ele designará essas rezas segundo o objeto de cada uma, respeitando os 
nomes antigos da semana. *? 

Para completar a regularidade de nosso culto, cumpria fazer com que cada dia de 
uma semana qualquer ocupasse no ano um lugar invariável. Obtém-se essa fixidez dei- 
xando de dar qualquer denominação hebdomadária, primeiro ao dia complementar que 


8! As explicações que precedem sobre a consagração da semana foram tiradas textualmente da Política 
Positiva, tomo IV, pp. 135-136. 

52 Aqui tivemos que alterar o texto do original. O Catecismo foi composto em 1852, e nessa época Augusto 
Comte havia aceitado o projeto de um de seus efêmeros discípulos, que lhe propuseram substituir os nomes 
atuais dos dias da semana por outros consagrados a cada um dos laços fundamentais, do seguinte modo: 


Eundi = serem Seat pan aosCasameEnto: Ls im ensaia ár Maridi 
Mardir usa aos ir nad a Paternidade: secas animals Patridi 
Mercredi ..zicciccctios QMEMAÇÃOS 58d a a Filidi 
Jedi Saes apare spas nasça à Fraternidade ..cccccccc. Fratridi 
Vendredi ..ciccccccc. à Domesticidade ......cccc. Domidi 
Samedi? aerea Dessa à Mulher ou ao Amor .......... Matridi 
Dimanche lc. à Humanidade ciclo. Humanidi 


Esta reforma foi depois abandonada por Augusto Comte, como se vê neste trecho de sua Politica Positiva 
(tomo IV, p. 404): 

“Cumpre rejeitar o especioso projeto que uma benevolência imerecida me dispôs demasiado a recomendar 
relativamente à consagração dos diferentes dias da semana aos diversos laços fundamentais. Além de que tal 
modo não pode convir ao estado normal em que este ofício pertence ao mês, seria ele inútil durante a transi- 
ção naturalmente limitada às festas públicas, a adoração íntima e os sacramentos domésticos tendo já atin- 
gido seu estado definitivo. A tentativa malograda não deixará outro vestígio senão a comovente série de ora- 
ções de que ela forneceu ensejo ao coração de um verdadeiro positivista, que, desligando-as de uma viciosa 
solidariedade. as designará pelo objeto de cada uma, respeitando os nomes antigos”. 

Modificamos, porianto, O texto original de acordo com estas restrições, servindo-nos para isso, em grande 
parte, das próprias palavras do nosso Mestre. 

É mister, porém, resolver aqui uma dificuldade que a decisão definitiva de Augusto Comte oferece em rela- 


180 COMTE 


termina todo ano positivista, depois ao dia adicional que o segue se o ano for bissexto, 
segundo a regra usada no Ocidente. Cada um destes dois dias excepcionais se acha, com 
efeito, assaz designado pela festa correspondente. Isto posto, nosso calendário fica perpé- 
tuo; O que tanto importa ao regime como ao culto. 

A MULHER — Concebo, meu pai, toda a eficácia moral de semelhante fixidez, em 
virtude da qual qualquer dia de nosso ano poderia receber, como o dia final, uma desig- 
nação puramente sagrada, o que o catolicismo nunca obteve senão por exceção. 

O SACERDOTE — Estabelecido este preâmbulo, posso começar diretamente, 
minha filha, a indicação sucessiva das solenidades peculiares aos dias sétimos de todas 
as nossas semanas. O quadro sociolátrico vos mostra a maneira por que cada celebração 
mensal se decompõe em quatro festas hebdomadárias. Só me resta, pois, motivar e carac- 
terizar tal decomposição, mediante alguns esclarecimentos sumários. 

Nosso primeiro mês, consagrado à Humanidade, poucas explicações exige a este 
respeito. Depois de ter aberto o ano positivista pela mais augusta de todas as nossas sole- 
nidades, essa festa direta do Grande Ser fica completada pelas quatro celebrações hebdo- 
madárias, em que são respectivamente apreciados os diversos graus essenciais do laço 
social. Eles aí se ordenam, segundo o decrescimento de extensão e o acréscimo de intimi- 


ção à nossa língua. Os motivos em que o nosso Mestre se funda para conservar os nomes atuais dos dias da 
semana não seriam aplicáveis ao português, onde prevalecem, para os cinco primeiros dias, a denominação 
eclesiástica de feira,* posto que, no princípio, como o atestam os documentos coevos, os portugueses usas- 
sem também nomes análogos aos que existem em espanhol: Lunes, Martes, Mércoles, Jóves, Vérnes.** 
impõe-se, portanto, a necessidade de adotar em nossa língua novas denominações que correspondam 
suficientemente à idealização positivista da semana, tal como acaba de ser estabelecida pelo Fundador. Pri- 
meiro nos pareceu que o mais acertado seria restaurar os nomes antigos, semelhantes aos do espanhol, que 
acima reproduzimos. Mas reflexões subsequentes nos convenceram de que o melhor seria construir novos 
nomes pautados pelos correspondentes da língua italiana, a quem cabe a presidência ocidental. Eis aqui as 
novas denominações, comparadas com as suas análogas em italiano, francês e sua origem latina: 


Português Htaliano Francês Espanhol Origem Latina 
Lunedia ........ Luned ....... Eundi sa sisess Labnes» 05.02. Leci Lunae dies 
Martedia ....... Martedi ....... Mardi ........ Martes ....... Martii dies 
Mercuridia ...... Mercoled ..... Mercredi ...... Miércoles ..... Mercurii dies 
Jovedia ........ Giovedl ....... À foNiTo Sp JueVeS: seem nes: Jovis dies 
Venerdia ....... Venerdi ....... Vendredi ...... Viermnes ....... Veneris dies 
Sábado ........ Sabato ....... Samedi ....... Sabado ....... Sabbati dies 
Domingo ....... Domenica .... Dimanche ..... Domingo ..... Dominica dies 


O primeiro dia, consagrado à Lua, lembra o fetichismo astrolátrico; o segundo, terceiro, quarto e quinto. 
respectivamente dedicados a Marte, Mercúrio, Júpiter ou Jove e Vênus, recordam o politeísmo; o sábado (dia 
do Sabat), o monoteismo judaico; e o domingo (dia do Senhor), o monoteísmo católico. 

Em inglês e alemão os nomes dos dias da semana sofreram a intercorrência da mitologia teutônica. Ao passo 
que alguns recordam a fase astrolátrica, as outras denominações foram tiradas dos nomes dos deuses teutó 
nicos que correspondiam mais ou menos às divindades greco-romanas que forneceram às línguas neolatinas 
as denominações desses mesmos dias. Mas a uniformidade onomástica neste caso, em virtude das exigências 
do culto, há de forçosamente estender-se às línguas do norte. 

As orações a que Augusto Comte se refere no trecho acima citado foram compostas por José Lonchampt. 
Eis o título desse livrinho, que já conta três edições, uma tradução inglesa e outra portuguesa: Essai sur la 
Priere, 3ême. edition augmentée d'une lettre sur la mission religieuse de la femme, Paris, 1878, 1 vol. in-32. 
Os editores ajuntaram, a título de introdução, uma interessante notícia sobre o culto da Razão, apreciado 
como um pressentimento da religião da Humanidade. Este trabalhinho, conquanto anônimo, é da lavra do 
Dr. Robinet. 

*De feria, dia de festa. A Igreja Católica chamava ao domingo 1.º feira, ao dia seguinte 2.º feira. e assim por 
diante até sábado, que era a 7.º feira. 

**V. Portugaliae Monumenta Eistorica, tomo IL. 


O Amor por princípio, 
e a ordem por base: 
o Progresso por fim. 


CATECISMO POSITIVISTA 


QUADRO SOCIALÁTRICO 


RESUMIDO EM 81 FESTAS ANUAIS 


a adoração universal da Humanidade 


181 


Viver para outrem 
(a Família, a Pátria. 
a Humanidade). 


1.º Mês. À HUMANIDADE 


a 
pas 
< 
no 2.º Mês. O CASAMENTO 
e 
« 
[em] 
«= 
fr 3.º Mês. À PATERNIDADE 
«a 4.º Mês. A FILIAÇÃO : 
Pa) 5.º Mês. A FRATERNIDADE 
[7] 
« 
mal 
6.º Mês. A DOMESTICIDADE ! 
7.º Mês. O FETICHISMO ( 
14) 
o 
[o of 
= 
« 8.º Mês. O POLITEÍSMO 
< 
[-M 
[E] 
[o ed 
[e 
“O 
jam) 
q ; 
is 9.º Mês. O MONOTEÍSMO 
[26] 
Lad 
10.º Mês. A MULHER 
Providência moral 
ad 
« 11.º Mês. O SACERDÓCIO 
= Providência intelectual 
jam) 
Pra 
«o 
EV] 12.º Mês. O PATRICIADO 
A Providência material 
Pd 
> 
[reg 
13.º eúltimo Mês.. 
O PROLETARIADO 
Providência geral 


Dia complementar 
Dia bissexto 


1.º Dia do ano. Festa sintética do Grande Ser. 


religiosa 
Festas hebdomadárias histórica 
da União Social nacional 
comunal 
completo 
casto 
desigual 
subjetivo 


completa natural 
artificial 
espiritual 


incompleta 
temporal 


completa 
incompleta 


permanente 
passageira 


nômade (Festa dos Animais) 


espontâneo 
i sedentário (Festa do Fogo) 


sacerdotal (Festa do Sol) 


sistemático militar (Festa do Ferro) 


estético (Homero, Ésquilo, Fídias) 
intelectual 
(Salamina) teórico À Hipócrates, Arquimedes, 


Apolônio, Hiparco 


4 
| 
| 
| 
:onservador | (Festa das Castas) 
À 


social (Cipião, César. Trajano) 
teocrático (Abraão, Moisés, Salomão) 
(São Paulo) 
(Carlos Magno) 
católico (Alfredo) 
(Hildebrando) 
(Godofredo) 
(São Bernardo) 
islâmico (Maomé) 
(Lepanto) 
(Dante) 
metafísico (Descartes) 
(Frederico) 
mã 
Ea 
filha 
irmã 


incompleto (Festa da Arte) 
Preparatório (Festa da Ciência) 


| secundário 


definitivo principal (Festa dos Anciãos) 


banco (Festa dos Cavaleiros) 

comércio 

fabricação 

agricultura 

ativo (Festa dos Invêntores: Gutenberg, Colombo, 
Vaucanson, Wait, Montgolfier) 

afetivo 

contemplativo 

passivo (São Francisco de Assis) 

Festa universal dos MORTOS 

Festa geral das MULHERES SANTAS 


Tales, Pitágoras, Aristóteles, 


182 COMTE 


dade das relações coletivas. A primeira festa glorifica o laço religioso, único suscetível de 
universalidade; a segunda, a ligação de vida a antigas relações políticas que, embora 
extintas, deixam subsistir uma comunhão suficiente de língua e poesia. Na terceira, cele- 
bra-se diretamente a união ativa que resulta de um mesmo governo livremente aceito por 
todos. A quarta honra, a menos extensa, porém a mais completa das relações cívicas. 
aquela em que a coabitação familiar melhor nos aproxima da intimidade doméstica. 

Para desenvolver o mês do casamento, sua primeira solenidade glorifica a união 
conjugal em toda a sua plenitude, ao mesmo tempo exclusiva e indissolúvel, mesmo pela 
morte. O sacerdócio faz aí sentir profundamente, pelo coração e pelo espírito, o pro- 
gresso geral desta admirável instituição, primeira base de toda a ordem humana, caracte- 
rizando cada uma de suas fases essenciais, desde a poligamia primitiva atê o casamento 
positivista. 

Na festa seguinte, celebra-se a castidade voluntária, que graves motivos morais ou 
físicos podem eternamente prescrever a dignos esposos. O principal destino do casamen- 
to, o aperfeiçoamento mútuo dos dois sexos, torna-se aí mais bem apreciável, sem que 
esta união excepcional obrigue, aliás, a renunciar aos afetos relativos ao futuro, sempre 
possíveis mediante uma acertada adoção. Far-se-á convenientemente sobressair, nessa 
ocasião, a tendência de semelhante união a regular, enfim, a procriação humana, posto 
que vícios hereditários não devam privar ninguém dos beneficios do casamento. 

A terceira semana deste mesmo mês termina pela celebração das uniões excepcio- 
nais em que uma desigualdade, amiúde desculpável, não impede a principal eficácia. 
sobretudo quando os costumes finais limitarem a discordância às idades. Enfim, a quarta 
festa honra a união póstuma que há de resultar frequentemente da constituição normal 
do casamento humano, cujas doçuras mais íntimas se consolidam e desenvolvem pela 
purificação e fixidez peculiares ao amor subjetivo. 

Nossos três meses seguintes podem ser explicados simultaneamente, em virtude da 
uniformidade espontânea de suas subdivisões hebdomadárias. Com relação ao principal 
dentre eles, sua primeira metade é consagrada à paternidade completa, primeiro involun- 
tária, depois adotiva; e a segunda, à paternidade incompleta, que proporciona, em toda 
sociedade regular, a autoridade espiritual ou patrocínio temporal. Daí dimanam, decres- 
cendo, os quatro graus normais da afeição paterna, respectivamente glorificados pelas 
quatro festas hebdomadárias do terceiro mês positivista. Ora, as mesmas distinções e 
gradações se reproduzem necessariamente a respeito da filiação e da fraternidade, o que 
dispensa aqui toda nova explicação para o quarto e quinto meses. 

Quanto ao sexto, ele honra, em primeiro lugar, a domesticidade permanente, que 
sempre há de distinguir uma classe muito numerosa, porém especial; depois, a situação 
análoga em que todo homem se acha de ordinário em sua iniciação prática. O primeiro 
caso exige nitidamente uma subdivisão importante, que é habitualmente indicada pela 
residência, conforme a domesticidade seja completa no criado propriamente dito, ou 
incompleta no caixeiro ou empregado, apenas incumbido de um ofício determinado. 
Quando os costumes normais tiverem assaz conciliado o serviço doméstico, sobretudo 
feminino, com o pleno surto das afeições de família, o culto positivo fará sentir profunda. 
mente a superioridade moral da primeira situação em que o devotamento se manifesta 
mais puro e mais intenso. A mesma distinção aplica-se, se bem que de modo menos 
pronunciado, à domesticidade passageira, e também se acha neste caso indicado pelo 
domicílio. Daí resultam as duas outras festas do sexto mês, respectivamente consagradas 
aos pajens e aos aprendizes. conforme os patrões sejam ricos ou pobres. 

A MULHER — Todo este desenvolvimento especial dos diversos laços fundamen- 
tais não me oferece, meu pai, nenhuma dificuldade. Receio, porém, que minha insufi- 


CATECISMO POSITIVISTA 183 


ciência histórica me impeça de compreender satisfatoriamente a segunda série sociola- 
trica. Porquanto não conheço ainda o conjunto da preparação humana senão pela vossa 
primeira lei de evolução, chamada dos três estados, que eu por vezes tenho ouvido for- 
mular, e que se acha hoje tão divulgada. 


O SACERDOTE — Isso basta, minha filha, para fazer-vos já apreciar a sucessão 
geral dos três estados preliminares indicados no quadro sociolátrico. Quanto, porém, à 
decomposição hebdomadária de cada um deles, vós não podereis, com efeito, concebê-la 
bem senão depois das duas conferências históricas que terminarão este Catecismo. Limi- 
to-me, pois, à coordenação principal, encarregando-vos de a completar espontaneamente 
quando tiverdes adquirido as noções convenientes. 

A síntese fictícia, sempre fundada na indagação das causas, comporta dois modos 
diferentes, conforme as vontades a que os acontecimentos são atribuídos pertençam aos 
próprios corpos ou a entes exteriores, habitualmente inacessíveis a todos os nossos senti- 
dos. Ora, o regime direto, mais espontâneo que qualquer outro, constitui o fetichismo ini- 
cial, ao passo que o indireto caracteriza o teologismo que o segue. Mas este último esta- 
do, menos puro e menos duradouro que o primeiro, apresenta sucessivamente duas 
constituições distintas, segundo os deuses permaneçam múltiplos ou se condensem em 
um só. O teologismo, que, no fundo, não institui senão uma imensa transição espontânea 
do fetichismo ao positivismo, dimana do primeiro pelo politeismo e conduz ao segundo 
pelo monoteísmo. Quando esta sucessão intelectual é completada pela progressão social 
que lhe corresponde, o conjunto da iniciação humana fica assaz caracterizado, como o 
haveis de sentir daqui a pouco. 

Podereis, então, apreciar suficientemente a aptidão de nossa segunda série sociolá- 
trica para dignamente glorificar todas as fases essenciais dessa longa preparação, desde 
o primeiro surto das cabildas mais insignificantes até o duplo desenvolvimento de transi- 
ção moderna. Esta plena celebração do passado humano em doze festas hebdomadárias 
resulta do condensamento histórico que pela sua natureza o culto abstrato comporta. 


A MULHER — Podemos assim, meu pai, encetar a última série sociolátrica. O 
mês aí consagrado à providência moral não me apresenta nenhuma dificuldade, graças à 
distinção evidente que separa os tipos femininos peculiares às quatro festas hebdomadá- 
rias. Mas ainda não percebi a decomposição do mês sacerdotal. 


O SACERDOTE — Concebei-a, minha filha, segundo os diversos modos ou graus 
do sacerdócio positivo, classificados na ordem de sua plenitude crescente. Este grande 
ministério exige um raro concurso das qualidades morais, tanto ativas como afetivas, 
com os talentos intelectuais, estéticos e científicos. Se, pois, estes forem os únicos salien- 
tes, seus possuidores, após uma cultura conveniente, terão de permanecer, talvez para 
sempre, simples pensionistas do poder espiritual, sem aspirarem nunca a ser nele incor- 
porados. Em tais casos, felizmente excepcionais, o maior gênio poético ou filosófico não 
pode dispensar de ternura e de energia um funcionário que deve estar habitualmente ani- 
mado por simpatias íntimas e destinado amiúde a lutas dificeis. Este sacerdócio incom- 
pleto permite o digno cultivo de todos os verdadeiros talentos, sem comprometer nenhum 
serviço social. 

Quanto ao sacerdócio completo, ele exige, em primeiro lugar, um grau preparatório, 
que o aspirante não transporá se, apesar de sua vocação proclamada, não passar com 
bastante êxito pelo noviciado conveniente. Vencida essa prova decisiva, obtém ele, aos 
trinta e cinco anos, o sacerdócio direto e definitivo, mas exercendo-o durante sete anos 
no grau secundário, que caracteriza o vigário ou suplente. Depois de ter dignamente 
preenchido todas as fases de nosso ensino enciclopédico, e mesmo esboçado as outras 


184 COMTE 


funções sacerdotais, ele eleva-se, aos quarenta e dois anos, ao grau principal, tornando-se 
de modo irrevogável um sacerdote propriamente dito. Tais são as quatro classes teóricas 
que respectivamente celebram as festas hebdomadárias do undécimo mês. 

A MULHER — O mês seguinte, meu pai, não exige nenhuma explicação especial. 
Posto que a existência prática me seja pouco familiar, seu caráter nitidamente marcado 
permite-me compreender assaz a decomposição normal do patriciado em quatro classes 
essenciais, segundo a generalidade decrescente das funções e a multiplicidade crescente 
dos funcionários. Talvez mesmo que, em nossos tempos de anarquia, as mulheres sejam 
mais aptas que os proletários, e, sobretudo, mais que os seus doutores, para bem apreciar 
esta hierarquia natural, porque elas se acham mais preservadas das paixões perturba- 
doras e das vistas sofísticas. Felicito-me, pois, que as quatro festas hebdomadárias de 
nosso duodécimo mês venham honrar anualmente e, portanto, moralizar esses diversos 
modos necessários do poder material, sobre o que assenta toda a economia social. Mas 
não apanho tão bem a decomposição do mês final. 

O SACERDOTE — Esta resulta, minha filha, da generalidade espontânea que 
caracteriza o proletariado, no qual todos os grandes atributos humanos exigem uma 
idealização distinta. Esta imensa massa social, estirpe necessária de todas as classes 
especiais, se acha essencialmente votada à vida ativa, diretamente celebrada pela pri- 
meira festa hebdomadária do mês plebeu. Depois deste proletariado ativo, cumpre hon- 
rar em separado o proletariado afetivo que necessariamente o acompanha. Só esta glori- 
ficação especial das mulheres proletárias pode completar de modo digno a celebração 
geral dos tipos femininos, considerados, no décimo mês, sob o aspecto comum a todas as 
classes, mas apreciados aqui em seu surto popular. 

A terceira festa de nosso décimo terceiro mês deve caracterizar dignamente o prole- 
tariado contemplativo, sobretudo estético, ou mesmo científico, que, não tendo podido 
penetrar em um sacerdócio necessariamente circunscrito, sente-se contudo mais teorista 
que prático. Devemos algumas vezes lastimar esses tipos excepcionais, e sempre respei- 
tá-los, a fim de os utilizar tanto quanto seja possível, dirigindo com sabedoria suas 
tendências espontâneas. É principalmente deles que deve dimanar a fiscalização geral do 
proletariado em relação aos poderes especiais, conquanto o impulso correspondente exija 
naturezas mais ativas. 

Enfim, a última festa de nosso mês popular refere-se essencialmente à mendicidade, 
quer passageira, quer mesmo permanente. A melhor ordem humana não poderá nunca 
prevenir de todo esta consegiiência extrema das imperfeições peculiares à vida prática. 
Assim, a idealização de nossa sociabilidade ficaria incompleta se o sacerdócio não a ter- 
minasse por uma justa apreciação dessa existência excepcional. Quando plenamente 
motivada e dignamente exercida, ela pode merecer amiúde as simpatias, e algumas vezes 
os elogios, de todas as almas honradas. Mais móvel que qualquer outra, esta classe 
complementar liga-se de modo espontâneo a todas as categorias sociais, que alternativa- 
mente lhe devem tomar e fornecer indivíduos. Ela torna-se, assim, muito apropriada a 
desenvolver a reação geral do proletariado sobre todos os poderes humanos. Haveria. 
pois, tanta imprevidência quanto injustiça em não a favorecer com uma idealização 
distinta. 

A MULHER — Quanto ao dia complementar, compreendo, meu pai, por que o 
positivismo transporta para o fim do ano a celebração coletiva dos mortos, avisadamente 
introduzida pelo catolicismo. Esta tocante comemoração, que interposta teria perturbado 
a economia normal de nosso culto público, completa de modo digno o conjunto deste c 
prepara naturalmente a sua volta anual. Convinha que a festa própria do Grande Ser 
fosse precedida pela glorificação de seus órgãos quaisquer. 


CATECISMO POSITIVISTA 185 


O dia adicional dos anos bissextos não me oferece também nenhuma dificuldade. 
Meu sexo não podendo quase nunca merecer diretamente uma apoteose pessoal e públi- 
ca, o culto abstrato devia, sem degenerar em celebração concreta, honrar, assim, o con- 
junto das mulheres dignas de celebração individual. Completa-se a idealização humana 
glorificando o bom emprego das diversas aptidões excepcionais que a natureza feminina 
comporta, quando seu principal caráter não recebe por causa disso nenhuma alteração. 

O SACERDOTE — Pois que espontaneamente acabastes, minha filha, a explica- 
ção suficiente de nosso culto público, a primeira parte deste Catecismo está inteiramente 
terminada. *º* Devemos, pois, entrar agora no estudo do dogma. 


S3A exposição do culto público que aqui termina precisa ser completada pela leitura da parte correspondente 
da Política Positiva, tomo IV, pp. 122-158. 

Inserimos na página 181 o quadro sociolátrico como foi depois publicado por Augusto Comte na sua obra 
principal. Comparando-o com o da página 176 deste Catecismo, ver-se-á que difere deste pela introdução de 
um grande número de festas concretas incorporadas ao culto abstrato, como se acha explicado nas páginas 
da Política Positiva, acima indicadas. 


PARTE SEGUNDA 


EXPLICAÇÃO DO 
DOGMA 


SEXTA CONFERÊNCIA 


CONJUNTO DO DOGMA 


A MULHER — Iniciada, pela nossa segunda conferência, no conhecimento sinté- 
tico da Humanidade, e, pelas três seguintes, no culto que lhe devemos, rogo-vos, meu pai, 
que me exponhais agora a coordenação sistemática do conjunto do dogma positivo em 
torno de tal unidade. 

O SACERDOTE — Para este fim, minha filha, deveis renunciar, em primeiro 
lugar, a toda pretensão de unidade absoluta, exterior, em uma palavra, objetiva; o que 
vos será mais fácil do que aos nossos doutores. Semelhante aspiração, compatível com a 
pesquisa das causas, torna-se contraditória com o estudo das leis, isto é, das relações 
constantes apanhadas no meio de uma diversidade imensa. Estas não comportam senão 
uma unidade puramente relativa, humana, em uma palavra, subjetiva. Com efeito, as leis 
são necessariamente múltiplas, em virtude da impossibilidade notória de fazer-se jamais 
entrar um no outro os dois elementos gerais de todas as nossas concepções reais, O 
mundo e o homem. Ainda mesmo que se chegasse a condensar cada um destes dois gran- 
des estudos em torno de uma única lei natural, a unidade cientifica continuaria vedada 
por causa da inevitável separação desses dois estudos. Posto que o mundo, para ser 
conhecido, suponha o homem, aquele poderia existir sem este, como talvez aconteça em 
muitos astros inabitáveis. Do mesmo modo, o homem depende do mundo, porém não 
resulta dele. Todos os esforços dos materialistas para anular a espontaneidade vital, exa- 
gerando a preponderância dos meios inertes sobre os seres organizados, só têm conse- 
guido desacreditar essa pesquisa, tão vã quanto ociosa, doravante abandonada aos espi 
ritos anticientíficos. 

Mas, além disto, muito longe está de ser verdade que a unidade objetiva possa ja- 
mais estabelecer-se no dominio interior de cada elemento geral de semelhante dualismo. 
Os diversos ramos essenciais do estudo do mundo ou do homem desvendam-nos uma 
multidão crescente de leis diferentes, que hão de permanecer constantemente irredutíveis 
entre si, apesar das frivolas esperanças que no princípio inspirou nossa gravitação plane- 
tária. Conquanto a maior parte dessas leis seja ainda ignorada, muitas devendo, até, sê-lo 
sempre, já temos verificado um número bastante grande delas para tornar inabalável o 
princípio fundamental do dogma positivo, a sujeição de todos os fenômenos quaisquer a 
relações invariáveis. Dá-se à ordem que por toda parte resulta do conjunto das leis reais 
o título geral de destino ou de acaso, conforme essas leis nos são conhecidas ou desco- 
nhecidas. Esta distinção há de conservar sempre uma grande importância prática, pois 
que a ignorância dessas leis monta tanto, para a nossa conduta, como se não existissem, 
impedindo-nos toda previsão racional, e, portanto, toda intervenção regular. Pode-se, 
contudo, esperar achar, para cada caso essencial, regras empíricas, que, apesar de sua 
insuficiência teórica, nos preservem assaz de uma atividade desordenada. 


190 COMTE 


No meio dessa diversidade crescente, o dogma da Humanidade fornece ao conjunto 
de nossas concepções reais a única unidade que elas comportam e o único laço de que 
tenhamos necessidade. A fim de conceber a natureza e a construção de tal unidade, cum- 
pre primeiro distinguir três sortes de leis, físicas, intelectuais e morais. As primeiras per- 
tencem espontaneamente ao sexo ativo, e as últimas ao sexo afetivo, ao passo que a 
ordem intermediária constitui o domínio próprio do sacerdócio, o qual, devendo siste- 
matizar o concurso dos dois sexos, participa desigualmente na dupla vida de ambos. É 
por isso que os dois estudos extremos foram cultivados empiricamente desde os tempos 
mais remotos para as necessidades correspondentes, porém com êxito muito diferente. 
Com efeito, as leis físicas sendo, no fundo, independentes das leis morais, os homens 
puderam fundar nelas isoladamente convicções estáveis, se bem que incoerentes. Pelo 
contrário, as leis morais dependendo necessariamente das leis físicas, as mulheres não 
puderam construir naquele domínio nenhuma doutrina inabalável, e seus esforços apenas 
comportaram uma preciosa reação afetiva. A sã cultura teórica teve, pois, de surgir da 
ordem física, desligando-se assaz das especialidades ativas. Mas, como o termo neces- 
sário de nossas meditações reais reside na ordem moral, a unidade lógica e científica só 
podia estabelecer-se por meio de uma suficiente ligação desses dois domínios extremos. 
Ora, eles não podem ser reunidos senão pelo domínio intermediário, que se liga natural- 
mente a cada um deles. É assim que a construção de uma verdadeira unidade teórica 
depende, finalmente, de uma elaboração suficiente das leis próprias do entendimento. 

A MULHER — Conquanto esta conclusão pareça-me dificil de ser achada, sua 
admissão imediata não me apresenta, meu pai, nenhuma dificuldade. As minhas medita- 
ções morais frequentes vezes me têm feito sentir quão indispensável seria o conhecimento 
das leis intelectuais para a ativa consistência de tais meditações, pois que as regras pró- 
prias da função apreciadora se mesclam sempre às da função apreciada. Todavia, os ho- 
mens devem sentir menos tal conexão relativamente as leis físicas, preocupação principal 
desse sexo. Podeis, portanto, encetar, sem mais preâmbulo, a exposição direta das leis 
mentais, das quais depende toda unidade sistemática. 

O SACERDOTE — Em primeiro lugar, minha filha, devo distingui-las, como em 
todos os demais casos, em estáticas e dinâmicas, conforme se referirem às disposições 
imutáveis ou variações essenciais do objeto correspondente. Estes dois termos conexos 
tornaram-se indispensáveis a toda exposição séria do positivismo, que em breve os há de 
popularizar. Contudo, eles nunca poderão inspirar ao vosso sexo o atrativo mural que já 
vos oferecem as qualificações objetiva e subjetiva, finalmente destinadas sobretudo a 
caracterizar as nuanças mais doces de nossas melhores emoções. Mas o seu uso pura- 
mente intelectual não deve privá-los do respeito que merece sua utilidade teórica. Estes 
dois pares de expressões filosóficas são, aliás, os únicos que sou forçado a fazer-vos 
aceitar. 

Pela definição anterior, facilmente concebeis que, a respeito de um domínio qual- 
quer, o estudo estático precede necessariamente o estudo dinâmico, que nunca pode sur- 
gir sem tal preparação. Cumpre, com efeito, ter determinado as condições fundamentais 
de cada existência antes de apreciar seus diversos estados sucessivos. Os antigos, que 
viam por toda parte a imobilidade, foram profundamente alheios a toda concepção dinã- 
mica, mesmo em matemática. Pelo contrário, o principe eterno dos verdadeiros filósofos, 
o incomparável Aristóteles, lançou já todas as bases essenciais dos mais elevados estu- 
dos estáticos sobre a vida, a inteligência e a sociedade. Mas, segundo esta marcha neces- 
sária, o complemento dinâmico torna-se indispensável onde quer que seja. Sem ele, a 
apreciação estática fica sempre provisória, de modo a não poder guiar bastante a prática, 


CATECISMO POSITIVISTA 191 


que seria por ela arrastada isoladamente a erros graves, sobretudo em relação aos casos 
principais. 

A lei estática de nosso entendimento torna-se, para o positivismo, uma simples apli- 
cação do princípio fundamental que por toda parte subordina o homem ao mundo. Con- 
siste ela, com efeito, na subordinação contínua de nossas construções subjetivas aos nos- 
sos materiais objetivos. O gênio de Aristóteles esboçou a noção geral de tal lei neste 
admirável apanhado: Nada há no entendimento que não proviesse primeiro da sensação. 
Tendo, porém, os modernos abusado amiúde de semelhante axioma para representar 
nossa inteligência como puramente passiva, o grande Leibniz foi obrigado a juntar-lhe 
uma restrição essencial, destinada a formular a espontaneidade de nossas disposições 
mentais. Esta explicação, que se limitava realmente a desenvolver melhor a máxima de 
Aristóteles, foi completada por Kant, com a sua imortal distinção entre as duas realida- 
des, objetiva e subjetiva, de cada concepção humana. Contudo, este princípio só foi 
verdadeiramente sistematizado quando o positivismo o referiu, como convinha, a lei 
geral que, em todos os fenômenos vitais, coloca todo organismo sob a dependência contí- 
nua do meio correspondente. Para as nossas mais elevadas funções espirituais, como em 
relação aos nossos atos mais materiais, o mundo exterior serve-nos ao mesmo tempo de 
alimento, de estimulante e de regulador. Ao passo que a subordinação do subjetivo ao 
objetivo cessava, assim, de ser isolada, recebia também, da filosofia positiva, seu comple- 
mento indispensável, sem o qual o estudo estático da inteligência não poderia ser ligado 
suficientemente ao estudo dinâmico. Ele consiste em reconhecer que, no estado normal, 
as imagens subjetivas são sempre menos vivas e menos nítidas que as impressões objeti- 
vas de onde elas dimanam. Se assim não fosse, o exterior nunca poderia regular o 
interior. 

Em virtude deste duplo princípio estático, as nossas concepções quaisquer resultam 
necessariamente de um comércio contínuo entre o mundo, que lhes fornece a matéria, e 
o homem, que lhes determina a forma. Elas são profundamente relativas, ao mesmo 
tempo, ao sujeito e ao objeto, cujas variações respectivas necessariamente as modificam. 
Nosso principal. mérito teórico consiste em aperfeiçoar assaz essa subordinação natural 
do homem ao mundo, para que o nosso cérebro se torne o fiel espelho da ordem exterior, 
cujos resultados futuros podem desde logo ser previstos mediante as nossas operações 
interiores. Esta representação, porêm, não comporta nem exige uma exatidão absoluta. 
Seu grau de aproximação é regulado pelas nossas exigências práticas, que mede a preci- 
são que convém às nossas previsões teóricas. Este limite necessário deixa ordinariamente 
à nossa inteligência uma certa liberdade especulativa, de que ela deve servir-se para satis- 
fazer melhor às suas próprias inclinações, quer científicas, quer mesmo estéticas, tor- 
nando nossas concepções mais regulares, e mesmo mais belas, sem serem menos verda- 
deiras. Tal é, mentalmente, o positivismo, que, prosseguindo sempre o estudo das leis, 
caminha sem cessar entre duas sendas igualmente perigosas, o misticismo, que quer 
penetrar até as causas, e o empirismo, que se cinge aos fatos. 

A MULHER — Esta teoria estática de nossa inteligência deixa, segundo creio, meu 
pai, uma grave lacuna, porque parece só referir-se ao estado de razão propriamente dito, 
sem poder estender-se até a loucura, que, entretanto, ela deveria também explicar. A vida 
real oferece diariamente tantas nuanças intermediárias entre estas duas situações mentais 
que todos esses casos devem seguir as mesmas leis essenciais, com simples diferenças de 
grau, como em relação às nossas funções corporais. 

O SACERDOTE — Bastará, minha filha, que considereis mais atentamente a dou- 
trina precedente para reconhecerdes que ela contém, com efeito, a verdadeira teoria da 


192 COMTE 


loucura e do idiotismo. Estes dois estados opostos constituem os dois extremos da pro- 
porção normal que o estado de razão exige entre os impulsos objetivos e as inspirações 
subjetivas. O idiotismo consiste no excesso de objetividade, quando o nosso cérebro se 
torna demasiado passivo; e a loucura propriamente dita, no excesso de subjetividade, de- 
vido à atividade desmedida desse aparelho. Mas o grau médio, que constitui a razão, 
segue ele próprio as variações regulares que experimenta toda a existência humana, tanto 
social como pessoal. A apreciação da loucura torna-se, assim, tanto mais delicada quan- 
to cumpre aí levar em conta os tempos e os lugares, em geral as situações, como tão bem 
o faz sentir a admirável composição do grande Cervantes. É esse o caso em que se perce- 
be melhor quanto o estudo estático da inteligência permanece insuficiente sem o seu 
complemento dinâmico. 

A MULHER — À vista desta reflexão admirável, quisera eu, meu pai, se o julgás- 
seis conveniente, começar já essa apreciação complementar, pois só assim as minhas 
próprias meditações poderão conceber, enfim, o conjunto desse grande espetáculo. Já sei 
que as variações quaisquer das opiniões humanas nunca podem ser puramente arbitrá- 
rias. Mas preciso ainda de novos esclarecimentos para deslindar melhor a marcha geral 
que elas seguem. 

O SACERDOTE — Segundo oc enunciado que conheceis, essa marcha consiste, 
minha filha, na passagem necessária de toda concepção teórica por três estados sucessi- 
vos: o primeiro, teológico, ou fictício; o segundo, metafísico, ou abstrato; o terceiro, 
positivo, ou real. O primeiro é sempre provisório, o segundo puramente transitório, e o 
terceiro o único definitivo. Este último difere, sobretudo, dos outros dois pela sua substi- 
tuição característica do relativo ao absoluto, quando o estudo das leis toma, enfim, o 
lugar da pesquisa das causas. Entre os dois primeiros não existe, no fundo, outra dife- 
rença teórica a não ser a redução das divindades primitivas a simples entidades. Mas 
semelhante transformação, tirando das ficções sobrenaturais toda forte consistência, 
sobretudo social, e mesmo mental, a metafísica permanece sempre um puro dissolvente 
da teologia, sem nunca poder organizar seu próprio domínio. Por isso essa doutrina de 
revolta e de modificação não comporta, em nossa evolução original, individual ou coleti- 
va, nenhuma outra eficácia senão o permitir a transição gradual do teologismo para o 
positivismo. Ela adapta-se tanto melhor a este ofício passageiro quanto as suas concep- 
ções equivocas podem alternativamente tornar-se ou representações abstratas dos agen- 
tes sobrenaturais ou qualificações gerais dos fenômenos correspondentes, conforme se 
está mais perto do estado fictício ou do estado real. 

A MULHER — Conquanto esta lei dinâmica já esteja bastante confirmada pela 
minha própria experiência, desejo, meu pai, apanhar, tanto quanto possível, o princípio 
intelectual de semelhante evolução. 

O SACERDOTE -— Resulta ele, minha filha, da lei estática que nos obriga a tirar 
de nós mesmos os laços subjetivos de nossas impressões objetivas, as quais, sem isso, 
ficariam sempre incoerentes. As relações verdadeiras não podendo nunca ser percebidas 
senão mediante uma análise difícil e gradual, que vou explicar-vos, as nossas primeiras 
hipóteses foram puramente espontâneas, e, portanto, fictícias. Mas esta disposição geral, 
que hoje constituiria um excesso de subjetividade, achava-se no princípio de acordo com 
a nossa situação mental, em que a evolução só podia surgir de tal iniciativa. Só uma 
longa experiência, ainda hoje suficiente para os espíritos atrasados, nos havia de revelar 
a inanidade necessária da pesquisa das causas. Ora, este vão problema nos ofereceu 
durante muito tempo um atrativo invencível, ao mesmo tempo teórico e prático, prome- 
tendo-nos a possibilidade de procedermos sempre por dedução sem exigir nenhuma indu- 


CATECISMO POSITIVISTA 19 


(a 


ção especial, e de modificarmos o mundo ao nosso talante. Assim, o duplo motivo que 
impulsionou os pensadores primitivos coincide essencialmente com aquele que há de 
dirigir sempre os nossos esforços intelectuais. O mesmo se dá, no fundo, com o princípio 
lógico desse regime inicial. Porquanto, toda a sã lógica é redutível a esta regra única: for- 
mar sempre a hipótese mais simples compatível com o conjunto dos dados obtidos. Ora, 
os pensadores teologistas, e mesmo fetichistas, aplicaram-na melhor que a maioria dos 
doutores modernos. Propondo-se a penetrar as causas, aqueles limitaram-se a explicar o 
mundo pelo homem, única fonte possível de toda unidade teórica, atribuindo todos os 
fenômenos a vontades sobre-humanas, aliás interiores ou exteriores. Semelhante pro- 
blema não comporta, pela sua natureza, senão esta solução, muito superior às tenebrosas 
ficções dos nossos ateus ou panteístas, cujo estado mental mais se aproxima da loucura 
do que da ingênua situação dos verdadeiros fetichistas. Essa superioridade manifesta-se 
sobretudo pelos resultados respectivos. Ao passo que a ontologia germânica retrograda 
hoje para o seu berço grego, sem inspirar nenhum pensamento real e perdurável, a teolo- 
gia primitiva abriu ao espirito humano a única saída que a nossa situação inicial 
comportava. Posto que não pudesse nunca conduzir-nos à determinação das causas, O 
liame provisório que ela estabeleceu entre os fatos nos trouxe espontaneamente ao desco- 
brimento das leis. 


Este único estudo, que no começo foi julgado puramente secundário, tendeu logo a 
tornar-se principal, sob o impulso prático que o representava como adaptando-se melhor 
as previsões exigidas pela nossa atividade. No fundo, os bons espíritos nunca procura- 
ram a causa senão enquanto não podiam achar a lei; e a conduta deles é, então, 
irrepreensível, como sendo mais própria do que qualquer torpor teórico para preparar 
essa aquisição final. Nossa inteligência tem, até, tal predileção pelas concepções positi- 
vas, por causa sobretudo da superioridade prática que as distingue, que amiúde se esfor- 
çou por substituí-las às ficções teológicas muito antes que as preparações convenientes 
estivessem assaz acabadas. O termo, pois, da evolução mental é ainda menos duvidoso 
do que o seu início. 


A MULHER — Esta explicação de vossa Lei dos três estados deixa-me, meu pai, 
muitas névoas acerca dos casos fregiientes em que o espírito humano parece-me ao 
mesmo tempo teológico, metafísico e positivo, conforme as questões de que se ocupa. Se 
esta coexistência ficasse inexplicada, ela comprometeria diretamente vossa regra dinâmi- 
ca, que entretanto creio ser incontestável. Tirai-me, rogo-vos, de semelhante perplexi- 
dade. 


O SACERDOTE — Ela desaparecerá, minha filha, quando notardes a ordem cons- 
tante que preside à marcha simultânea de nossas várias concepções teóricas, segundo a 
generalidade decrescente e a complicação crescente dos fenômenos correspondentes. Daí 
resulta uma lei complementar, sem a qual o estudo dinâmico do entendimento humano 
ficaria obscuro, e mesmo quase inaplicável. Com facilidade compreendereis que, fenôme- 
nos mais gerais sendo necessariamente mais simples, as especulações correspondentes 
devem ser mais fáceis, e apresentar, portanto, um surto mais rápido. Esta gradação, que 
se verifica até nas diversas fases teológicas, convém sobretudo ao estado positivo, em vir- 
tude das preparações laboriosas que ele exige. Eis aí como certas teorias permanecem 
metafísicas, ao passo que outras mais simples já se tornaram positivas, posto que outras 
mais complicadas ainda se conservem teológicas. Nunca, porém, se observa o inverso; o 
que basta para dissipar cabalmente a objeção oriunda dessa diversidade simultânea. 

A ordem natural que acabo de indicar-vos entre as nossas diferentes concepções. e 
da qua! vou tirar a verdadeira escala enciclopédica, é só o que permite compreender 


194 COMTE 


suficientemente a marcha geral dessas concepções. Ela funda a lógica positiva, desven- 
dando o encadeamento segundo o qual os nossos diversos estudos teóricos devem suce- 
der-se para que conduzam a construções duradouras. Posto que cada classe de fenôme- 
nos tenha sempre as suas leis próprias, as quais supõem induções especiais, estas quase 
nunca podem tornar-se eficazes sem as deduções fornecidas pelo conhecimento prévio 
das leis mais simples. Esta subordinação subjetiva resulta da dependência objetiva dos 
fenômenos menos gerais para com todos os que o são mais. Assim, a ordem contínua dos 
nossos estudos, elevando-se sempre do mundo ao homem, não é só motivada pela prepa- 
ração lógica que as especulações mais simples comportam melhor; assenta também na 
dependência científica das teorias superiores em relação às inferiores, em virtude da 
subordinação dos respectivos fenômenos. 

A MULHER — Agora, meu pai, já me explicastes quanto basta as leis intelectuais, 
quer dinâmicas, quer estáticas; mas ainda não vejo dimanar delas a construção funda- 
mental que a princípio eu esperava no tocante ao conjunto do dogma positivo. Preciso, 
pois, compreender diretamente como é que o princípio universal da Humanidade pode 
enfim instituir, mediante essas leis, uma verdadeira unidade especulativa, ligando as leis 
morais às leis físicas. 

O SACERDOTE — Essa legítima aspiração ficará satisfeita, minha filha, conside- 
rando sob um novo aspecto geral a lei complementar que acabo de assinalar ao movi- 
mento intelectual. Assim concebida, esta lei é sobretudo subjetiva, como o devia ser 
aquela que ela assiste. Mas vós sabeis também que esta classificação comporta direta- 
mente uma significação objetiva, regulando a dependência geral dos diversos fenômenos. 
Nesta nova apreciação, seu destino torna-se sobretudo estático, para caracterizar não a 
coexistência dos nossos diferentes progressos teóricos mas a ordem fundamental que do- 
mina o conjunto dos acontecimentos quaisquer. A lei da classificação fica então plena- 
mente distinta da lei de filiação, conquanto a íntima conexão das duas explique assaz a 
simultaneidade de sua descoberta. 

Antes de vos expor esta grande hierarquia teórica, devo circunscrever suficiente- 
mente seu campo geral. Isto resulta, no fundo, da verdadeira distinção filosófica entre a 
especulação e a ação. Ao passo que a prática permanece necessariamente especial, a ver- 
dadeira teoria é sempre geral. Mas esta generalidade característica não se adquire jamais 
senão mediante uma abstração prévia, que altera mais ou menos a realidade das concep- 
ções correspondentes. Quaisquer que sejam os perigos práticos de semelhante alteração, 
cumpre que a eles nos resignemos, a fim de adquirir a coerência que só uma inteira 
universalidade das leis teóricas pode ministrar. A sabedoria vulgar proclama com razão 
que toda regra comporta exceções. Entretanto, nossa inteligência precisa achar enfim, 
por toda parte, regras que nunca falhem, a fim de evitar uma flutuação indefinida. 

Só se pode conseguir isto decompondo, tanto quanto possível, o estudo dos seres, 
único ordinariamente direto, nos estudos dos diversos acontecimentos gerais que com- 
põem a existência de cada um deles. Obtemos, assim, leis abstratas cujas diferentes 
combinações explicam em seguida cada economia concreta. Conquanto já de si muito 
multiplicadas, estas leis irredutíveis, sobre as quais assenta toda a nossa sabedoria teóri- 
ca, são muito menos numerosas que as regras particulares que elas dominam. Estas últi- 
mas, além de serem em grande número, resistirão sempre, em virtude de sua complicação 
natural, aos nossos melhores esforços, tanto indutivos como dedutivos. Mas também o 
conhecimento delas seria para nós essencialmente inútil, com exceção das raras influên- 
cias que de fato afetam os nossos destinos. Para estes casos excepcionais, o gênio práti- 
co, único aí competente, pode sempre achar regras empíricas que bastem para a nossa 


CATECISMO POSITIVISTA 195 


conduta, auxiliando-se com critério das indicações gerais dimanadas do gênio teórico. 
Porquanto a regularidade dos acontecimentos compostos, se bem que menos apreciável 
que a de seus elementos gerais, resulta necessariamente desta, de modo a poder manifes- 
tar-se por uma observação especial bastante prolongada. 

Nós não conheceremos nunca, por exemplo, as leis gerais das variações peculiares 
à constituição normal da atmosfera terrestre. Todavia, os navegantes e os agricultores 
sabem tirar, de suas observações locais ou temporárias, regras particulares que, con- 
quanto empíricas, nos dispensam essencialmente da pretendida meteorologia. O mesmo 
direi de todos os outros estudos concretos, geológicos, zoológicos e mesmo sociológicos. 
Tudo quanto não puder ser aí realmente abordado pelo gênio prático será sempre ocioso. 
A verdadeira ciência permanece, pois, necessariamente abstrata. Suas leis gerais acerca 
das categorias pouco numerosas que abrangem todos os fenômenos observáveis bastam 
para demonstrar sempre a existência das leis concretas, posto que a maioria destas não 
possa nem deva ser jamais conhecida, salvo os casos práticos. 

A MULHER — Entrevejo, meu pai, a profunda simplificação que há de experi- 
mentar vossa construção filosófica, em consequência desta análise fundamental que 
reduz o estudo dos seres ao estudo dos acontecimentos. Atemoriza-me, porém, a abstra- 
ção habitual que semelhante regime científico exige, posto que eu esteja felizmente dis- 
pensada de tomar parte nele. Sua instituição parece-me, até, acima de nossas forças inte- 
lectuais, se todas as ordens de fenômenos houverem de ser estudadas diretamente no 
Grande Ser, que é o único que nos oferece o conjunto delas. 

O SACERDOTE — Para tranqjlilizar-vos, minha filha, basta que considereis sob 
um novo aspecto o princípio geral da hierarquia abstrata. Posto que ele só institua direta- 
mente a subordinação dos acontecimentos, deve também conduzir indiretamente à dos 
seres. Porquanto os fenômenos são tanto mais gerais quanto maior é o número das exis- 
tências a que eles pertencem. Os mais simples de todos, embora espalhados por toda 
parte, devem, pois, se encontrar em seres que não nos oferecem outros, e nos quais seu 
estudo próprio se torna, portanto, mais acessível. Na verdade, o segundo grau teórico 
estará sempre necessariamente reunido ao primeiro; é sobretudo isto, mais do que a pró- 
pria natureza dos fenômenos, que constitui o acréscimo de complicação. Porém, quais- 
quer que sejam estas acumulações sucessivas, cada nova categoria de acontecimentos 
poderá ser estudada em seres independentes das seguintes, posto que submetidos às 
precedentes, cuja apreciação prévia permitirá concentrar a atenção na classe introduzida. 
Ainda mesmo que os seres deixassem um dia de ser distintos uns .dos outros, o método 
positivo conservaria sua principal eficácia se eles apresentassem estados diferentes, o que 
nunca pode deixar de dar-se, em virtude da natureza de tal classificação. Assim, a hierar- 
quia teórica que vou expor-vos, posto que destinada a princípio a fornecer apenas uma 
escala dos fenômenos, constitui necessariamente a verdadeira escala dos seres, ou pelo 
menos das existências. Ela ê alternativamente abstrata ou concreta, conforme seu destino 
é subjetivo ou objetivo. É por isso que a subordinação enciclopédica das artes coincide 
essencialmente com a das ciências. 

A MULHER — Antes que enceteis, meu pai, essa exposição hierárquica, cujo prin- 
cípio geral começo a perceber, rogo-vos que me expliqueis diretamente a marcha que 
cumpre aí seguir. Parece que, para cimentar a união fundamental entre o mundo e o 
homem, ela pode partir do mesmo modo de cada um deles tendendo para o outro. Seu 
uso habitual afigura-se-me exigir mesmo que ela possa, como qualquer outra escala, tor- 
nar-se indiretamente ascendente ou descendente. Ignoro, porém, se esta dupla via convém 
à sua construção. 


196 COMTE 


O SACERDOTE — O concurso normal desses dois métodos, um objetivo, o outro 
subjetivo, é tão necessário, minha filha, para a formação como para a aplicação da hie- 
rarquia teórica. A elaboração espontânea desta dependeu do primeiro método; mas sua 
instituição sistemática exigiu o segundo. Cada iniciação individual deve neste. como em 
qualquer outro caso importante, representar essencialmente a evolução coletiva, com a 
diferença de que daqui por diante far-se-á conscientemente o que outrora se fez às cegas. 
A combinação destas duas marchas é o único meio que permite reunir as vantagens de 
ambas, neutralizando seus perigos. Subir do mundo ao homem sem ter primeiro descido 
do homem ao mundo expõe a estender demasiado os estudos inferiores, perdendo de vista 
o verdadeiro destino teórico de tais estudos, de modo a consumir nossos esforços cienti- 
ficos em puerilidades acadêmicas, tão contrárias ao espírito como ao coração. A ligação 
e a dignidade são, então, sacrificadas à realidade e à nitidez. Entretanto, foi assim que 
teve de proceder a positividade abstrata durante o longo preâmbulo científico que se 
estende de Tales e Pitágoras até Bichat e Gall, a fim de elaborar os materiais sucessivos 
da sistematização final. As necessidades superiores de nossa inteligência só foram então 
satisfeitas imperfeitamente mediante a tutela heterogênea que ainda exercia o espírito 
teológico-metafísico. Hoje, porém, que o princípio universal da síntese definitiva se acha 
irrevogavelmente assentado, em virtude daquela imensa preparação, o método subjetivo, 
tornado enfim tão positivo quanto o método objetivo, deve assumir diretamente a inicia- 
tiva enciclopédica. Só ele pode instituir convenientemente a construção que o outro pode- 
rá, então, elaborar dignamente. Esta regra quadra tanto a cada grande pesquisa científica 
como o conjunto do sistema teórico. 

A MULHER — Eis-me, pois, pronta, meu pai, para bem acompanhar a consagra- 
ção religiosa que o dogma da Humanidade confere sucessivamente a todas as partes 
essenciais da ciência abstrata, consolidando as mais eminentes e nobilitando as mais 
inferiores por essa conexão universal. 

O SACERDOTE — A fim de caracterizar melhor semelhante síntese, deveis recor- 
dar primeiro, minha filha, o fim contínuo da vida humana, a conservação e o aperfeiçoa- 
mento do Grande Ser, que cumpre ao mesmo tempo amar, conhecer e servir. Cada qual 
realiza espontaneamente este tríplice oficio que a religião sistematiza pelo culto, pelo 
dogma e pelo regime. A construção filosófica, conquanto indispensável, é apenas, no 
fundo, destinada a consolidar e desenvolver as outras duas. Em si mesmo, o estudo direto 
da humanidade pode degenerar tanto como as ciências inferiores, se esquecermos que 
não devemos conhecer o Grande Ser senão para amá-lo mais e servi-lo melhor. Quando 
a preocupação do meio faz desconhecer ou descurar o fim, o desenvolvimento sistemá- 
tico se torna, no fundo. menos recomendável que a espontaneidade vulgar. 

Concebeis, assim, por que é que coloco no ápice da escala enciclopédica a Moral, 
ou a ciência do homem individual. Pois que o Grande Ser nunca funciona senão por 
intermédio de órgãos finalmente pessoais, é preciso primeiro estudar sobretudo estes, 
para que aquele seja convenientemente servido durante a existência objetiva deles, de 
onde dependerá a influência subjetiva de tais órgãos. É assim que o positivismo conso- 
lida irrevogavelmente o preceito fundamental da teocracia inicial: Conhece-te para 
melhorar-te. O princípio intelectual aí concorre com o motivo social. Com efeito, a mais 
útil de todas as ciências é também a mais completa, ou, antes, a única completa; visto 
como os seus fenômenos compreendem subjetivamente todos os outros, conquanto este- 
Jam por isso mesmo objetivamente subordinados a estes. O princípio fundamental da hie- 
rarquia teórica faz, portanto. prevalecer diretamente o ponto de vista moral, como o mais 
complicado e o mais especial. 


CATECISMO POSITIVISTA 197 


Aí cessa, porém, necessariamente a conformidade filosófica entre o positivismo e o 
teologismo. Este, preocupado sempre com causas, entregava imediatamente os estudos 
morais aos princípios sobrenaturais com que explicava tudo. Suscitando assim observa- 
ções puramente interiores, consagrava a personalidade de uma existência que. ligando 
diretamente cada homem a um poder infinito. o isolava profundamente da humanidade. 
Pelo contrário, o positivismo não procurando jamais senão a lei para melhor dirigir a ati- 
vidade. sempre essencialmente social, faz repousar a ciência moral sobre a observação 
dos outros, muito mais do que sobre a observação de si próprio, a fim de estabelecer 
noções ao mesmo tempo reais e úteis. Sente-se, então a impossibilidade de abordar 
convenientemente semelhante estudo sem ter apreciado primeiro a sociedade. A todos os 
respeitos, cada um de nós depende sem cessar da Humanidade. sobretudo quanto às nos- 
sas funções mais nobres, sempre subordinadas aos tempos e aos lugares em que vivemos. 
como vo-lo recordam estes belos versos de Zaíra: 

No Ganges me curvara escrava a falsos lares, 
Cristã fora em Paris, do Islão nestes lugares. * º 
Eis aí o modo por que a moral, concebida como a nossa principal ciência. institui. 
em primeiro lugar, a Sociologia, cujos fenômenos são ao mesmo tempo mais simples e 
mais gerais, de acordo com o espírito de toda a hierarquia positiva. 

A MULHER -— Permiti, meu pai, que vos detenha um momento neste primeiro 
passo, a fim de resolverdes a contradição que ele me parece apresentar entre essas duas 
condições da vossa classificação porque dir-se-ia que excepcionalmente a complicação 
cresce aqui com a generalidade. Eu sempre julguei o ponto de vista moral como mais 
simples que o ponto de vista social. 

O SACERDOTE — Isso é devido, minha filha, ao fato de terdes até agora proce- 
dido antes por inspiração do sentimento do que guiada pela razão; pois que a moral deve 
ser, para O vosso sexo, mais uma arte do que uma ciência. Se houvéssemos de comparar 
a multiplicidade dos casos, a multiplicidade dos indivíduos haveria de vos parecer supe- 
rior à que notais entre os povos, e que tanto vos preocupa. Mas, limitando-nos à própria 
complicação, esqueceis que a ciência moral. além de todas as influências que a ciência 
social considera. tem também de apreciar impulsos que esta puser de lado como quase 
insensíveis. Refiro-me as reações intimas que se exercem sempre, segundo leis muito 
pouco conhecidas ainda, entre o físico e o moral do homem. Apesar de sua grande efica- 
cia pessoal, a sociologia não as toma em consideração especial, porque os resultados 
opostos dessas reações nos diversos indivíduos anulam-se essencialmente em relação aos 
povos. Pelo contrário, toda apreciação moral que as desprezasse expor-nos-ia aos mais 
graves enganos, fazendo-nos atribuir à alma o que provém do corpo, ou vice-versa, como 
o estais vendo todos os dias. 

A MULHER — Compreendo assim, meu pai. o que me fez suspender no começo 
vosso encadeamento hierárquico, que vos rogo continueis agora até o fim. sem receio de 
qualquer nova interrupção, que me impediria de apanhar suficientemente a filiação geral. 

O SACERDOTE — Vossa objeção, aliás muito natural, serve aqui, minha filha. 
para assinalar melhor nosso primeiro passo enciclopédico, tipo necessário de todos os 
outros, os quais daqui por diante se efetuarão com mais rapidez, como se dá a respeito 
de qualquer escala. Espero que descereis sem esforço de cada ciência à seguinte, sob o 
mesmo impulso que acaba de vos conduzir da moral à sociologia, consultando sempre a 
subordinação natural dos fenômenos correspondentes. 


54 “Peusse été, prês du Gange, esclave des faux dieux, Chrétienne dans Paris. musulmane en ces lieux.” — 
Voltaire, Zaire, ato 1.º, cena 1.º. 


198 COMTE 


Este princípio fundamental vos faz sentir em primeiro lugar que o estudo sistemá- 
tico da sociedade exige o conhecimento prévio das leis gerais da vida. Com efeito, os 
povos sendo seres eminentemente vivos, a ordem vital domina necessariamente a ordem 
social, cujo estado estático e surto dinâmico ficariam profundamente alterados se nossa 
constituição cerebral, ou mesmo corporal, mudasse de modo notável. Aqui, o duplo 
acréscimo de generalidade e simplicidade torna-se plenamente irrecusável. É assim que a 
sociologia, instituída primeiro pela moral, institui, por sua vez, a Biologia, que aliás tam- 
bém apresenta relações diretas com a ciência principal. Não devendo estudar a vida 
senão no que ela oferece de comum em todos os seres que dela gozam, os animais e os 
vegetais formam o domínio próprio desta ciência, se bem que ela seja finalmente desti- 
nada ao homem, cujo verdadeiro estudo ela apenas pode esboçar de modo grosseiro. 
Assim concebida, a biologia aprecia judiciosamente as funções corporais estudando as 
existências em que elas se acham espontaneamente isentas de toda complicação superior. 
Quando esta instituição lógica a expuser à degeneração acadêmica, insistindo demasiado 
sobre seres ou atos insignificantes, a disciplina filosófica deverá fazê-la voltar ao regime 
normal sem nunca estorvar uma marcha indispensável às pesquisas de tal ciência. 

Entre estas três primeiras ciências, existe uma conexão tal que o nome da média me 
serve para designar o conjunto delas no quadro enciclopédico que compus (o quadro B 
anexo) para facilitar-vos a apreciação geral da hierarquia teórica positiva. De fato, a 
sociologia pode facilmente ser concebida como absorvendo a biologia a título de preâm- 
bulo, e a moral a título de conclusão. Quando a palavra Antropologia for mais e melhor 
usada, será preferível para este destino coletivo, pois que significa literalmente estudo do 
homem. Dever-se-áã, porém, empregar por muito tempo o nome sociologia, a fim de 
caracterizar mais a principal superioridade do novo regime intelectual, que consiste 
sobretudo na introdução enciclopédica do ponto de vista social, essencialmente alheio à 
antiga síntese. 

Os seres vivos são necessariamente corpos, que, apesar da sua maior complicação, 
seguem sempre as leis mais gerais da ordem material, cuja preponderância imutável do- 
mina todos os fenômenos próprios deles, sem todavia anular nunca a espontaneidade dos 
mesmos. Um terceiro passo enciclopédico, plenamente análogo aos precedentes, subordi- 
na, pois, a biologia, e, por conseguinte, a sociologia com a moral, à grande ciência inor- 
gânica que chamei Cosmologia. Seu verdadeiro domínio consiste no estudo geral do pla- 
neta humano, meio necessário de todas as funções superiores, vitais, sociais e morais. Ela 
ficaria, pois, mais bem qualificada pela palavra Geologia, que diretamente oferece uma 
tal significação. Mas a anarquia acadêmica desnaturou por tal forma esta expressão que 
o positivismo deve desistir de empregá-la, até a próxima eliminação da pretendida ciên- 
cia decorada com esse título. Então se poderá seguir melhor as leis da linguagem, apli- 
cando ao conjunto dos estudos inorgânicos uma denominação mais exata, e cuja natu- 
reza concreta deve, até, recordar com mais força a necessidade de apreciar cada 
existência no caso menos complicado. 

Eu terminaria aqui a operação enciclopédica, sem decompor de qualquer modo a 
cosmologia, se só tivesse em vista o estado final da razão humana, que deverá contrair 
as ciências inferiores e dilatar as superiores. Mas cumpre também prover agora às neces- 
sidades especiais da indicação ocidental, cujo equivalente essencial há de reproduzir-se 
sempre em cada evolução individual. Este duplo motivo-obriga-me a distinguir, em 
cosmologia, duas ciências igualmente fundamentais, das quais uma, sob o nome geral de 
Física, estuda diretamente o conjunto da ordem material. A outra, mais simples e mais 
geral, com razão qualificada de Matemática, serve de base necessária aquela, e, portanto, 


199 


CATECISMO POSITIVISTA 


(B) HIERARQUIA TEÓRICA DAS CONCEPÇÕES HUMANAS 
OU QUADRO SINTÉTICO DA ORDEM UNIVERSAL 
SEGUNDO UMA ESCALA ENCICLOPÉDICA DE CINCO OU SETE GRAUS 


FILOSOFIA POSITIVA, ou conhecimento sistemático da HUMANIDADE 


n O 

Abstrata, ou o) O z 

ESTUDO Estudo fundamental da existência a ó o 

universal lcciiccici ti 1.º MATEMÁTICA elis 1. on P 

«< DA TERRA tprimeiro numérica, depois geométrica, 3 > O UV 
e OU 'e enfim mecânica) y z2€c Es O 
ft — 
Es COSMOLOGIA Concreta, ou : celeste, ou ASTRONOMIA 2. E at 2 < 
(O Estudo direto da ordem material ..... 2.º FISICA geral, ou FÍSICA 3. o ç = q 
6) terrestre (propriamente dita) pD > O 
Q especial ou QUÍMICA 4. r e T 
a Preliminar, ou HT 
ESTUDO Estudo geral da ordem vital ......... BE BIOLOGIA cc 5. o 
> | DOHOMEM = 
[a OU Final, ou coletiva .... 4º SOCIOLOGIA ......... Rg 6. E 

SOCIOLOGIA Estudo direto da (propriamente dita) 


ordem humana 
individual... BEMORAL! a see EE o ay SRS 7. 


(BUBWNY W9PIO) 
“TVHON VISOSO MIA 
no 
TVNIS VIONGIO 


Paris, 10 de Dante de 64 (sábado, 24 de julho de 1852) 


AUGUSTO COMTE 


Autor do Sistema de Filosofia Positiva e do Sistema de Política Positiva 


(10, rua Monsieur-le-Prince) 


200 COMTE 


a todo o edifício teórico, apreciando em primeiro lugar a existência mais universal, redu- 
zida apenas aos fenômenos que se encontram por toda parte. Sem esta decomposição, 
não se conceberia o surto espontâneo da filosofia positiva, que só pode começar por 
semelhante estudo, cujo aperfeiçoamento mais rápido fez com que fosse considerada a 
princípio como a ciência única. Conquanto seu nome lembre muito mais do que era mis- 
ter esse privilégio inicial, extinto há muito tempo, deverá ser conservado até que a supe- 
rioridade natural deste tipo científico e lógico haja regulado assaz o surto popular das 
leis enciclopédicas. Então uma denominação menos vaga e mais bem construída poderá 
caracterizar seu verdadeiro domínio, a fim de comprimir sistematicamente a obcecada 
ambição teórica de seus adeptos exclusivistas. * * 

Seja como for, deveis reconhecer a necessidade de descer até aí para dotar a escala 
enciclopédica de uma base espontânea, que possa erigir seu conjunto em prolongamento 
gradual da razão comum. Com efeito, a própria física, muito mais simples que as outras 
ciências, ainda o não é bastante. Suas induções particulares não podem ser sistemati- 
zadas senão graças a deduções mais gerais, como em qualquer outra parte; apenas esta 
necessidade lógica e científica faz-se sentir menos nela. É só em matemática que se pode 
induzir sem ter deduzido primeiro, por causa da extrema simplicidade de seu domínio, 
onde a indução passa amiúde despercebida, a ponto de os geômetras acadêmicos não 
verem aí senão deduções, que seriam assim ininteligíveis, por lhes faltar uma origem. As 
únicas convicções verdadeiramente inabaláveis que podem existir onde quer que seja são 
as que assentam finalmente sobre este fundamento imutável de toda a filosofia positiva. 
Tal será sempre o remate necessário do encadeamento subjetivo, segundo o qual todo 
espírito são, animado por um coração honesto, poderá instituir sempre, como acabo de 
o fazer, a série fundamental dos cinco principais graus enciclopédicos. 


55 Realizando mais tarde este voto, Augusto Comte adotou definitivamente o nome de Lógica para desig- 
nar à matemática. condensando pelo modo seguinte a hierarquia enciclopédica representada no quadro B, à 
página 199 desta tradução: 


Preâmbulo sintético: FILOSOFIA PRIMEIRA 


1.º LÓGICA. Ciência do ESPAÇO ci (MATEMÁTICA) 


(ASTRONOMIA) 


2.º FÍSICA. Ciência da TERRA li PISCA 


propriamente dita 


(QUÍMICA) 


(BIOLOGIA) 
(SOCIOLOGIA) 
(MORAL) 


propriamente dita 


3.º MORAL. Ciência da HUMANIDADE ..... RE 


Construímos este quadro de conformidade com a introdução de sua Síntese Subjetiva, tomo 1, único publica- 
do, contendo o Sistema de Lógica Positiva ou Tratado de Filosofia Matemática, Paris, 1856. 


CATECISMO POSITIVISTA 201 


QUADRO DAS QUINZE LEIS DE FILOSOFIA PRIMEIRA OU PRINCÍPIOS 
UNIVERSAIS SOBRE OS QUAIS ASSENTA O DOGMA POSITIVO 


PRIMEIRO GRUPO, tanto objetivo como subjetivo 


1.º Formar a hipótese mais simples e mais simpática que comporta o conjunto dos dados 
a representar (]). 

2.º Conceber como imutáveis as leis quaisquer que regem os seres pelos acontecimentos, 
posto que só a ordem abstrata permite apreciá-los (ll). 

3.º As modificações quaisquer da ordem universal limitam-se sempre à intensidade dos 
fenômenos, cujo arranjo permanece inalterável (III). 


SEGUNDO GRUPO, essencialmente subjetivo 
1.º Série: leis estáticas do entendimento. 


1.º Subordinar as construções subjetivas aos materiais objetivos (Aristóteles, Leibniz, Kant) 
(VA, 

2.º As imagens interiores são sempre menos vivas e menos nítidas que as impressões exte- 
riores (V). 

3.º A imagem normal deve ser preponderante sobre as que a agitação cerebral faz simulta- 
neamente surgir (VI). 


2.º Série: leis dinâmicas do entendimento. 


1.º Cada entendimento oferece a sucessão dos três estados, fictício, abstrato e positivo, em 
relação às nossas concepções quaisquer, mas com uma velocidade proporcional à generali- 
dade dos fenômenos correspondentes (VII). 

2.º A atividade é primeiro conquistadora, em seguida defensiva, e enfim industrial (VII). 

3.º A sociabilidade é primeiro doméstica, em seguida cívica, e enfim universal, segundo a 
natureza peculiar a cada um dos três instintos simpáticos (IX). 


TERCEIRO GRUPO, sobretudo objetivo 
1.º Série: a mais objetiva da filosofia primeira. 


1.º Todo estado, estático ou dinâmico, tende a persistir espontaneamente sem nenhuma 
alteração, resistindo às perturbações exteriores (X). 

2.º Um sistema qualquer mantém sua constituição ativa ou passiva quando seus elementos 
experimentam mutações simultâneas, contanto que sejar: exatamente comuns (XU. 

3.º Existe por toda parte uma equivalência necessária entre a reação e a ação, se a intensi- 
dade de ambas for medida conformemente a natureza de cada conflito (XII). 


2.º Série: mais subjetiva que a precedente. 


1.º Subordinar por toda parte a teoria do movimento à da existência, concebendo todo o 
progresso como o desenvolvimento da ordem correspondente, cujas condições quaisquer 
regem as mutações que constituem a evolução (XLII). 

2.º Toda classificação positiva procede segundo a generalidade crescente ou decrescente, 
tanto subjetiva como objetiva (XIV). 

3.º Todo intermediário deve'ser subordinado aos dois extremos cuja ligação upera (XV). 


202 COMTE 


A MULHER — Atribuo, meu pai, a essa reação do sentimento sobre a inteligência 
a facilidade que tenho em acompanhar semelhante operação, que a princípio me atemori- 
zou tanto. Constantemente preocupado com a moral, única base sólida de sua justa 
influência, meu sexo terá sempre o maior empenho em proporcionar, enfim, a essa arte 
fundamentos sistemáticos, que possam resistir aos sofismas das más paixões. Hoje, 
sobretudo, achamo-nos alarmadas contemplando os estragos morais já produzidos pela 
anarquia intelectual, que ameaça dissolver em breve todos os laços humanos, se convic- 
ções irresistíveis não prevenirem, afinal, seu ascendente espontâneo. Os verdadeiros filó- 
sofos podem, pois, contar com o concurso tácito e o reconhecimento íntimo de todas as 
dignas mulheres, quando eles reconstruírem a moral sobre fundamentos positivos, a fim 
de substituir de modo irrevogável suas bases sobrenaturais, cuja decrepitude é demasiado 
evidente. As que sentirem, como eu o faço neste momento, a necessidade de descer para 
isso até as ciências mais abstratas, saberão apreciar convenientemente este socorro ines- 
perado que a razão vem, enfim, prestar ao amor. Compreendo assim por que o quadro 
enciclopédico que vou estudar procede em sentido inverso da exposição que ele resume. 
Com efeito, é necessário sobretudo familiarizar-se com essa ordem ascendente, segundo 
a qual se desenvolveram sempre as diversas concepções positivas. Instituindo-a pelo 
modo por que acabais de o fazer, dissipastes a principal repugnância que naturalmente 
inspira às mulheres uma marcha demasiado abstrata, que até aqui elas viram conduzir, 
com tanta frequência, à secura e ao orgulho. Agora que posso sempre perceber e recor- 
dar o fim moral de toda a elaboração científica, e as condições próprias de cada uma de 
suas fases essenciais, eu não terei menos satisfação em subir do que em descer vossa es- 
cala enciclopédica. 

O SACERDOTE — Esta alternância vos será mais fácil, minha filha, se notardes 
que, em ambos os sentidos, o percurso teórico poderá seguir o mesmo princípio, proce- 
dendo sempre segundo o decrescimento de generalidade. Para isto basta referir a série 
fundamental, ora aos próprios fenômenos, ora às nossas próprias concepções, conforme 
o uso dela for objetivo ou subjetivo. Com efeito, as noções morais compreendem necessa- 
riamente todas as outras, que nós tiramos das primeiras por abstrações sucessivas. É 
sobretudo nisto que consiste a complicação superior de tais noções. A ciência correspon- 
dente oferece, portanto, mais generalidade subjetiva do que todos os estudos inferiores. 
Pelo contrário, os fenômenos matemáticos são os mais gerais, só porque são os mais 
simples. O seu estudo apresenta, portanto, mais generalidade objetiva, porêm menos 
generalidade subjetiva do que qualquer outro. Sendo o único que se pode aplicar a todas 
as existências apreciáveis, é também o que dá a conhecer menos os seres correspon- 
dentes, dos quais esse estudo apenas pode desvendar as leis mais grosseiras. Todos os 
casos intermediários oferecem, em graus menores, este duplo contraste entre a matemá- 
ticae a moral. 

Mas, quer se suba ou se desça, o percurso enciclopédico apresenta sempre a moral 
como a ciência por excelência, pois que é ao mesmo tempo a mais útil e a mais completa. 
É nela que o espírito teórico, tendo gradualmente perdido sua abstração inicial, vem 
unir-se sistematicamente ao espírito prático, depois de ter acabado todas as preparações 
indispensáveis. Por isso a sabedoria pública, regularizada pelo positivismo, há de fazer 
respeitar sempre o admirável equívoco, tão deplorado pelos nossos pedantes, que, aí 
somente, confundem a arte e a ciência sob uma mesma denominação. 

Esta confusão aparente ministra à ciência moral um feliz equivalente da disciplina 
que, em todos os outros domínios, previne ou corrige as divagações teóricas peculiares à 
cultura ascendente. Com efeito, a regra geral consiste em restringir cada fase enciclo- 


CATECISMO POSITIVISTA 203 


pédica ao desenvolvimento necessário para preparar o grau seguinte, reservando, aliás, 
ao gênio prático os estudos mais detalhados que ele julgar especialmente convenientes. 
Apesar das declamações acadêmicas, sabe-se agora que semelhante disciplina consagra 
todas as teorias verdadeiramente interessantes, excluindo apenas as puerilidades cientifi- 
cas, cuja repressão é hoje prescrita pelas exigências combinadas do espírito e do coração. 
Ora, essa regra, tão preciosa onde quer que seja, falha necessariamente em relação à 
ciência colocada no ápice da escala enciclopédica. 

Se as teorias morais fossem tão cultivadas como o são as outras, sua complicação 
superior expô-las-ia, dada essa indisciplina especial, a divagações mais frequentes e mais 
nocivas. Mas o coração vem, então, guiar melhor o espírito, recordando com mais força 
a subordinação universal da teoria à prática, em virtude de um título felizmente ambíguo. 
Os filósofos devem, com efeito, estudar a moral com a mesma disposição com que as 
mulheres a estudam, a fim de haurir nela as regras de nossa conduta. Somente a ciência 
dedutiva deles proporciona às induções femininas uma generalidade c uma coerência que 
estas não poderiam adquirir por outro modo, e que entretanto se tornam quase sempre 
indispensáveis à eficácia pública, ou mesmo privada, dos preceitos morais. 

A MULHER — O verdadeiro regime teórico ficando assim constituído, rogo-vos, 
meu pai, que termineis esta longa e difícil conferência caracterizando as propriedades ge- 
rais de vossa série enciclopédica, considerada daqui por diante no sentido ascendente, 
que em breve me será familiar. Espontaneamente percebo os perigos intelectuais e morais 
peculiares a essa cultura objetiva, enquanto permaneceu desprovida da disciplina subje- 
tiva que acabais de me explicar. Então a sucessão necessária das diversas fases enciclo- 
pédicas obrigou provisoriamente o gênio científico a seguir um regime de especialidade 
dispersiva, diretamente contrário à plena generalidade que deve caracterizar as vistas 
teóricas. Daí deviam resultar cada vez mais, nos cientistas sobretudo e, por conseguinte. 
no público também, de um lado, o materialismo e o ateísmo, do outro, o desdém pelas 
afeições ternas e o desuso em que caíram as belas-artes. Eu sei há muito tempo quanto, 
sob todos estes aspectos, o verdadeiro positivismo, longe de oferecer qualquer solidarie- 
dade real com seu preâmbulo científico, constitui, pelo contrário, o melhor corretivo 
dele. Mas sem vosso auxílio não poderei apanhar os atributos essenciais que devo agora 
apreciar no conjunto de vossa hierarquia teórica. 

O SACERDOTE — Reduzi, minha filha, esses atributos a dois principais, que 
correspondem ao duplo destino geral dessa hierarquia, tanto subjetivo como objetivo, ou 
melhor, aqui, lógico e científico, conforme se considere sobretudo o método ou a 
doutrina. 

Sob o primeiro aspecto, a série enciclopédica indica a um tempo a marcha neces- 
sária da educação teórica e o surto gradual do verdadeiro raciocínio. Principalmente 
dedutivo no seu berço matemático, onde as induções indispensáveis são quase sempre 
espontâneas, o método positivo torna-se cada vez mais indutivo, à medida que atinge 
especulações mais eminentes. Nesta longa elaboração, cumpre distinguir quatro graus 
essenciais, em que a complicação crescente dos fenômenos nos faz desenvolver sucessi- 
vamente a observação, a experiência, a comparação e a filiação histórica. Cada uma des- 
tas cinco fases lógicas, incluindo o exórdio matemático, absorve espontaneamente todas 
as que precedem, em virtude da subordinação natural dos fenômenos correspondentes. A 
sã lógica fica assim completa, e, portanto, sistemática, logo que o surto decisivo da 
sociologia faz surgir o método histórico, como a biologia havia instituído antes a arte 
comparativa, depois de a física ter suficientemente desenvolvido a observação e a 
experiência. 


204 COMTE 


Uma feliz ignorância dispensa hoje vosso sexo das demonstrações filosóficas pelas 
quais O positivismo se esforça por convencer os homens de que não se pode aprender a 
raciocinar senão raciocinando, com certeza e precisão, sobre casos nitidamente apreciá- 
veis. Os que melhor sentem que toda arte deve ser aprendida pelo exercício ainda ouvem 
os sofistas que lhes ensinam a raciocinar, ou mesmo a falar, raciocinando ou falando uni- 
camente sobre o raciocínio ou a palavra. Mas, posto que vos tenham ensinado a gramá- 
tica, e talvez a retórica, pouparam-vos pelo menos a lógica, o mais ambicioso dos três 
estudos escolásticos. Graças a isso, vossa própria razão, felizmente cultivada sob o ensi- 
no do vosso querido Moliêre, pode logo aquilatar as duas outras puerilidades clássicas. 
Fortalecida agora por convicções sistemáticas, não hesitareis em rir-vos conveniente- 
mente dos Trissotinos que quiserem ensinar-vos a arte dedutiva, sem dela terem nunca 
feito eles próprios o mínimo uso matemático. Cada parte essencial do método positivo 
deverá sempre ser estudada sobretudo na doutrina científica que primeiro a fez surgir. 

A MULHER — Esta primeira apreciação não me apresentando afortunadamente 
nenhuma dificuldade, pois que não vejo aí senão bom senso, peço-vos, meu pai, que pas- 
seis já à segunda propriedade geral de vossa escala enciclopédica. 

O SACERDOTE — Consiste ela, minha filha, na concepção sistemática da ordem 
universal, como vo-lo indica o segundo título do nosso quadro. Desde a ordem material 
até a ordem moral, cada ordem se superpõe aí à precedente, segundo esta lei fundamen- 
tal, consequência necessária do verdadeiro princípio hierárquico: Os fenômenos mais no- 
bres estão por toda parte subordinados aos mais grosseiros. É a única regra verdadeira- 
mente universal que o estudo objetivo do mundo e do homem possa desvendar-nos. Não 
podendo absolutamente esta regra dispensar outras leis menos extensas, ela não bastaria 
para constituir em tempo algum a estéril unidade exterior que em vão procuraram todos 
os filósofos, desde Tales até Descartes. 

Renunciando, porém, a este frívolo incentivo, substituído com muito mais vantagem 
pelo destino moral de todos os nossos esforços teóricos, folgamos de apanhar, entre 
todas as nossas doutrinas abstratas, um laço objetivo inseparável de sua coordenação 
subjetiva. A prática social deve sobretudo utilizar semelhante apreciação do conjunto 
das fatalidades reais. Nossa dependência e nossa dignidade tornando-se, assim, conexas, 
nós ficaremos mais bem dispostos a sentir o valor da submissão voluntária, principal 
condição de nosso aperfeiçoamento moral, e mesmo intelectual. 

Com efeito, para completar essa grande lei, notai que, sob o aspecto prático, ela 
representa a ordem real como sendo cada vez mais modificável à medida que rege fenô- 
menos mais complicados. O aperfeiçoamento supõe sempre a imperfeição, que por toda 
parte aumenta com a complicação. Mas vedes também que a providência humana torna- 
se, então, mais eficaz, dispondo de agentes mais variados. Tal compensação é, sem dúvi- 
da, insuficiente; de sorte que a ordem menos complicada é de ordinário a mais perfeita, 
embora cegamente governada. Todavia, esta lei geral da modificabilidade erige, por um 
duplo motivo, a moral em arte principal, já pela sua importância superior, já também em 
virtude do campo mais vasto que ela oferece à nossa criteriosa atividade. A prática e a 
teoria concorrem, portanto, para justificar cada vez mais o predomínio sistemático que 
o positivismo concede à moral. 

A MULHER — Pois que já me explicastes sucintamente o conjunto do dogma 
positivo, quisera, meu pai, antes de vos deixar hoje, conhecer de antemão o objeto pró- 
prio das outras duas conferências que me prometestes sobre esta segunda parte de vosso 
Catecismo. Com efeito, não vejo o que ainda me falta saber sobre esta base sistemática 
da religião universal, para passar convenientemente ao estudo direto e especial do regi- 
me, com que, a par do culto, me devo sobretudo ocupar. 


CATECISMO POSITIVISTA 205 


O SACERDOTE — As noções precedentes, minha filha, por demasiado abstratas 
e gerais, não deixariam em vosso espírito suficientes vestígios se eu não as completasse 
com explicações menos universais e mais bem determinadas, de que hei de fazer, aliás, 
frequente uso. Sem deter-vos especialmente em cada fase enciclopédica, como na nova 
educação ocidental, limito-me a pedir-vos que aprecieis em separado as duas partes desi- 
guais que compõem historicamente o conjunto da filosofia positiva. 

Esta divisão espontânea consiste em decompor a ordem universal em ordem exte- 
rior e ordem humana. A primeira, a que correspondem a cosmologia e a biologia, consti- 
tuiu, sob o nome de filosofia natural, que se tornou vulgar na Inglaterra, o único domínio 
científico da Antiguidade, que não pode mesmo senão esboçá-lo sob o aspecto estático. 
Além de o verdadeiro espírito teórico não comportar, então, um surto mais completo, o 
regime social devia repelir uma extensão prematura, que por muito tempo só podia dar 
como resultado comprometer a ordem inicial sem assistir realmente o progresso final. 
Somente o gênio excepcional de Aristóteles, depois de ter sistematizado, tanto quanto 
possível, a filosofia natural, preparou a sã filosofia moral, esboçando suficientemente as 
duas partes essenciais da estática humana, primeiro coletiva e depois individual. Por isso 
também ele só foi verdadeiramente apreciado na Idade Média, quando a separação 
provisória dos dois poderes suscitou O surto direto de nossas principais especulações. 
Mas este precioso impulso social não podia dispensar o verdadeiro espírito filosófico do 
longo preâmbulo científico que ainda o separava de seu melhor domínio. Eis por que esta 
divisão provisória se prolongou até nossos dias. Ela deve, assim, presidir à última transi- 
ção da razão ocidental, dirigida pelo positivismo. 


SÉTIMA CONFERÊNCIA 


ORDEM EXTERIOR — PRIMEIRO MATERIAL, DEPOIS VITAL 


A MULHER — Estudando o quadro que resume nossa conversação fundamental 
sobre o dogma positivo, compreendo, meu pai, a necessidade das outras duas conferên- 
cias que finalmente me prometestes acerca dele. Meu coração devia impelir-me primeiro 
a sentir a necessidade de cada fase enciclopédica para a sistematização moral, a que é 
sobretudo destinada essa imensa construção teórica. É mister, agora, que meu espírito 
reconheça como se sucedem os diversos andares desse edifício abstrato, desde a base até 
o vértice, sem todavia penetrar no seu interior. Esta ascensão sistemática torna-se o 
complemento indispensável da descida fundamental que me fizestes executar. Com efei- 
to, se o espírito pode subir, segundo uma progressão quase insensível, das mínimas 
noções matemáticas até as mais sublimes concepções morais, será esse para mim o mais 
admirável dos espetáculos. Conquanto meu sexo não possa nunca acompanhar os deta- 
lhes de tal filiação, deve ele compreender hoje sua possibilidade geral, a fim de certifi- 
car-se de que a moral sistemática comporta, assim, fundamentos verdadeiramente inaba- 
láveis. A opinião feminina votará então à ignomínia, como desejais, os sofistas 
anárquicos que, após a irrevogável decadência da fé teológica, se opõem ao advento da 
fé positiva, para prolongarem indefinidamente um interregno religioso favorável à sua 
indignidade e incapacidade. Não receeis, pois, deter primeiramente minha atenção no 
grau matemático, onde reside, segundo vós, a única base sólida do conjunto das teorias 
reais. À aversão pronunciada que este estudo inspira a todos os nossos trapalhões metafi- 
sicos dispõe-me a pressentir a eficácia orgânica que vós lhe atribuís. º € 

O SACERDOTE — Para conceberdes com clareza essa base lógica e científica de 
todo o edifício abstrato, basta, minha filha, que aprecieis bem o domínio geral que lhe 
assinala nosso quadro enciclopédico. A matemática estuda diretamente a existência uni- 
versal, reduzida aos seus fenômenos mais simples, e, por conseguinte, os mais grosseiros, 
sobre os quais assentam necessariamente todos os outros atributos reais. Estas proprie- 
dades fundamentais de um ser qualquer são o número, a extensão e o movimento. Tudo 


88 Augusto Comte, pela boca de subjetiva interlocutora, acaba de chamar a matemática: “a única base sóli- 
da do conjunto das teorias reais”; e mais algumas linhas abaixo “a base lógica e científica de todo o edifício 
abstrato”. Isto deve ser entendido sem prejuízo da filosofia primeira, concepção posterior a este Catecismo. 
e que constitui o “preâmbulo sintético do dogma”, como se viu no quadro da nota anterior. No Comple- 
mento a esta tradução, elaborado pelo Sr. Teixeira Mendes,* encontrará o leitor as informações necessárias 
sobre este assunto. Aqui, nos limitaremos a reproduzir na página anterior o quadro das quinze leis universais 
que constituem essa filosofia primeira, tais como foram formuladas por Augusto Comte em sua Política 
Positiva, tomo IV, pp. 173-181. 

* “As últimas concepções de Augusto Comte, ou Ensaio de um complemento ao Catecismo Positivista”. 
Rio de Janeiro, 1878. 


208 COMTE 


ds 


o que não comporta esta tríplice apreciação não pode existir senão no nosso entendi- 
mento. Mas a natureza manifesta-nos muitos seres em que não podemos conhecer outra 
coisa além desses atributos elementares. Tais são sobretudo os astros, que, não sendo 
acessíveis senão mediante uma longínqua exploração visual, só comportam de fato este 
estudo matemático, que aliás basta plenamente para regular convenientemente nossas 
verdadeiras relações para com eles. Por isso, a astronomia nos há de oferecer sempre a 
aplicação mais direta e mais completa da ciência matemática. Todavia, se as leis gerais 
do número, da extensão e do movimento só tivessem podido ser estudadas nesses casos 
celestes, elas nos teriam escapado sempre, apesar de sua extrema simplicidade. Porém, 
como elas se acham por toda parte, foi possível descobri-las mediante casos mais acessí- 
veis, depois de se ter afastado, por abstrações espontâneas, os outros atributos materiais 
que então complicavam a apreciação de tais leis. 

Observai desde já como o nosso princípio hierárquico preside à verdadeira distri- 
buição interior de cada grande ciência tão naturalmente como a coordenação geral das 
teorias reais. Porquanto, estes três elementos irredutíveis da matemática, cálculo, geome- 
tria e mecânica, constituem uma progressão, ao mesmo tempo histórica e dogmática, 
essencialmente análoga aquelas que vos apresenta de modo mais sensível o conjunto do 
sistema abstrato. As idéias de número são certamente mais universais e mais simples que 
mesmo as de extensão, as quais, por sua vez, precedem, por motivos semelhantes, as 
idéias de movimento. 

Relativamente à maior parte dos astros, os nossos conhecimentos reais se reduzem, 
no fundo, a enumerações exatas, sem que possamos sequer verificar a figura e a grandeza 
deles, que aliás nos interessam pouco. Os números aplicam-se tanto aos fenômenos como 
aos seres. Esta apreciação, numérica, que confunde tudo, é, no fundo, a única plenamente 
universal, por ser a única que se estende até os nossos pensamentos quaisquer. Sua gros- 
seria natural não a impede de comportar um digno emprego, para aperfeiçoar por toda 
parte a harmonia e a fixidez, cujos melhores tipos nos são originariamente fornecidos por 
ela. Por isso vedes as crianças começarem espontaneamente sua iniciação abstrata por 
simples especulações numéricas muito antes que cheguem a meditar sobre os atributos 
geométricos. 

Quanto ao movimento, sem dificuldade sentis o aumento de complicação e o decrés- 
cimo de generalidade que colocam seu estudo no ápice do domínio matemático. Foi por 
isso que os gregos, tão adiantados em geometria, só puderam esboçar a mecânica em al- 
guns casos de equilíbrio, sem nunca entrever as leis elementares do movimento. 

Comparando estas três partes essenciais da matemática, reconhece-se que o cálculo, 
cujo principal surto é antes algébrico do que aritmético, tem sobretudo um destino lógi- 
co, além de sua utilidade própria e direta. Sua aptidão essencial consiste em desenvolver 
tanto quanto possível nosso poder dedutivo. O estudo da extensão e o do movimento 
adquirem, assim, uma generalidade e uma coerência que não poderiam obier sem a trans- 
formação de todos os seus problemas em simples questões de números. Porêm, sob o 
aspecto científico, a matemática consiste sobretudo na geometria e na mecânica; só estas 
é que instituem diretamente a teoria da existência universal, primeiro passiva, depois 
ativa. 

A mecânica adquire, assim, muita importância enciclopédica como transição neces- 
sária entre a matemática e a física, cujos caracteres respectivos nela se combinam 
profundamente. Aqui, toda a instituição lógica não parece ser apenas dedutiva, como o 
faz supor, em geometria, a extrema facilidade das induções indispensáveis. Começa-se, 
então, a sentir distintamente a necessidade de uma base indutiva, já difícil de se apanhar 


CATECISMO POSITIVISTA 209 


no meio de nossas observações concretas, para permitir o surto das concepções abstratas 
que deverão referir a essa base o problema geral da composição e da comunicação dos 
movimentos. Foi sobretudo por falta de tal fundamento exterior que a mecânica racional 
não pôde desenvolver-se senão no século XVII. 

Até então o espirito matemático não tinha feito sobressair senão leis subjetivas, úni- 
cas sensíveis na geomeiria e no cálculo, em pensadores que ainda nãc compreendiam a 
conexão necessária dessas leis com as ieis objetivas. Estas, porém, ficaram distintamente 
apreciáveis em virtude da grande dificuldade que elas opuseram aos fundadores da mecã- 
nica. À importância e a universaiidade dessas três leis fundamentais do movimento me 
obrigam a vo-las indicar aqui como os melhores tipos das verdadeiras leis naturais, sim- 
ples fatos gerais que não comportam nenhuma explicação, e que, pelo contrário, servem 
de base a toda explicação razoável. Posto que o regime metafísico houvesse estorvado 
muito a descoberta de tais leis, esta foi sobretudo demorada por sua dificuldade própria. 
Porquanto, essa descoberta constituiu o primeiro esforço capita! do gênio indutivo, 
discernindo, enfim, no meio dos acontecimentos mais vulgares, relações gerais que até 
então haviam escapado a todas as meditações humanas. 

A primeira lei, descoberta por Kepler, consiste em que todo movimento é natural- 
mente retilinco e uniforme. Assim, o movimento curvilineo ou variado não pode nunca 
resultar senão de uma composição continua de impulsos sucessivos, aliás ativos ou pas- 
sivos. A segunda lei, devida a Galileu, proclama a independência dos movimentos relati- 
vos de muitos corpos quaisquer em relação a todo movimento comum ao conjunto deles. 
Mas é necessário que esta comunhão seja completa, tanto em velocidade como em dire- 
ção. Só debaixo desta condição é que os corpos particulares permanecem no mesmo esta- 
do relativo de repouso ou de movimento como se seu conjunto estivesse imóvel. Por isso 
esta segunda lei não se aplica aos movimentos de rotação, donde surgiram, com efeito, as 
viciosas objeções que sofreu sua descoberta. Enfim, a terceira lei do movimento, a de 
Newton, consiste na igualdade constante entre a reação e a ação, em toda colisão mecã- 
nica, contanto que, ao medir cada alteração, se tome na devida conta tanto a massa 
ccmo a velocidade. Esta lei é a base peculiar a todas as noções relativas à comunicação 
dos movimentos, assim como a lei de Galileu regula tudo o que diz respeito à composi- 
ção dos mesmos, tendo a de Kepler determinado primeiro por toda parte a natureza de 
cada um deles. O conjunto destas três leis basta, pois, para que o problema geral da 
mecânica possa ser abordado dedutivamente, reduzindo gradualmente, por meio de arti- 
fícios matemáticos, cuja instituição especial torna-se amiúde difícil, os casos mais 
complicados aos mais simples. 

Estas leis gerais vos servirão diretamente para explicar uma multidão de fenômenos 
diários no meio dos quais viveis sem os compreender, e, até, sem os perceber. Elas são 
eminentemente próprias para fazer-vos sentir em que consiste o verdadeiro gênio cientí- 
fico. Deveis, enfim, notar nelas a maneira por que cada uma dessas leis se acha 
compreendida espontaneamente em uma lei comum a fenômenos quaisquer, tanto sociais 
e morais como puramente materiais. A primeira refere-se à lei de persistência que reina 
por toda parte; a segunda, âquela que reconhece a independência das ações parciais rela- 
tivamente às condições comuns, e de onde resulta socialmente a conciliação do progresso 
com a ordem. Quanto à terceira, ela comporta diretamente uma aplicação universal, que 
nunca varia senão quanto à medida das influências respectivas. Este cotejo filosófico 
acaba de caracterizar a importância enciclopédica peculiar ao limite extremo do domínio 
matemático. 


210 COMTE 


A MULHER — Posto que a abstração e a novidade destas considerações devam 
impedir-me, meu pai, de as compreender bem hoje, sinto que uma suficiente reflexão me 
permitirá apreciá-las. Rogo-vos, portanto, que passeis imediatamente ao estudo direto da 
ordem material. 

O SACERDOTE — A plena instituição filosófica desse estudo obriga-me, minha 
filha, a exigir de vós um último esforço enciclopédico, pois que tenho que decompor a 
segunda ciência cosmológica, que coletivamente chamei de Física, em três grandes ciên- 
cias verdadeiramente distintas. Mencionando-as na ordem ascendente, com a qual já vos 
ides familiarizando, são: primeiro a astronomia, depois a física propriamente dita, que 
conserva o nome comum, e enfim a química, como acessoriamente vo-lo indica nosso 
quadro. Assim, a hierarquia teórica deve finalmente oferecer-vos sete graus enciclopé- 
dicos, em vez dos cinco que já conheceis. Passa-se de um modo para o outro pelo simples 
desenvolvimento do segundo grau primitivo, como o puxar alonga o tubo de uma luneta 
portátil. Só a aplicação é que vos pode fazer sentir depois qual é aquele que deveis prefe- 
rir em cada caso. 

Esta série fundamental comporta, com efeito, muitas constituições diferentes, con- 
forme a contraímos ou dilatamos, a fim de melhor satisfazer nossas necessidades intelec- 
tuais, sem nunca inverter a sucessão dos diversos termos que a compõem. Sua máxima 
condensação e sua principal expansão acham-se igualmente bem indicadas em nosso 
quadro. Quando estiverdes mais adiantada, haveis de reduzir amiúde todo o feixe 
enciclopédico ao simples dualismo entre a cosmologia e a sociologia, o que no princípio 
vos exporia ao vago. Nunca, porém, aumentareis esta contração por causa da evidente 
impossibilidade de fazer entrar objetivamente um no outro dois grupos principais, que só 
podem ser unidos pela apreciação subjetiva, quando nos colocamos diretamente no ver- 
dadeiro ponto de vista religioso. 

Depois de vos ter indicado esta expansão enciclopédica, servindo-me para isso de 
termos muito usados, devo sobretudo motivá-la, caracterizando-a. 

A MULHER — A julgar pelo pouco que sei de ouvir dizer, a respeito das três ciên- 
cias que acabais de introduzir, suspeito, meu pai, a razão por que as intercalais aqui. 
Com efeito, esta interposição antecipa um voto que eu vos teria em breve manifestado, 
quanto à continuidade enciclopédica. Comparando, sob este aspecto, as ciências inferio- 
res e as ciências superiores, nossa escala primitiva de cinco graus oferecia-me uma grave 
incongruência. Concebo sem esforço, em virtude apenas da conexão dos fenômenos, 
como é que nos elevamos insensivelmente da biologia à sociologia, e desta à moral, se 
bem que eu careça conhecer, a este respeito, vossas explicações especiais, para melhor 
precisar minhas idéias. Pelo contrário, no princípio eu não podia bem compreender a 
transição da matemática para o estudo direto da ordem material, e ainda menos a passa- 
gem da cosmologia para a biologia. Isto podia provir, sem dúvida, de minha ignorância 
ser mais completa em relação às concepções inferiores. Mas eu sentia também que essa 
falta de harmonia devia resultar da própria constituição de nossa primeira escala, con- 
quanto não pudesse, de modo algum, atinar com o remédio, nem mesmo saber se ele exis- 
tia. Habituar-me-ei, pois, sem custo, aos sete graus enciclopéêdicos, se esta ligeira compli- 
cação me proporcionar uma satisfação suficiente desta necessidade de ordem. Todavia, 
reconheço que, se tivêsseis procedido assim no princípio, eu teria experimentado muitís- 
sima dificuldade em conceber o conjunto de vossa hierarquia abstrata. 

O SACERDOTE — Pois que penetrastes o motivo fundamental desta modificação 
final, só me resta, minha filha, completar vosso trabalho espontâneo indicando-vos siste- 
maticamente a natureza e a destinação das três ciências introduzidas. 


CATECISMO POSITIVISTA 211 


A religião positiva define a astronomia como o estudo celeste do planeta humano: 
isto é, o conhecimento de nossas relações geométricas e mecânicas com os astros que 
podem afetar nossos destinos, modificando o estado da terra. É, pois, em torno de nosso 
globo que condensamos subjetivamente todas as teorias astronômicas, afastando radical- 
mente as que, não se referindo à terra, se tornam logo ociosas, ainda mesmo que fossem 
acessíveis. Daí resulta a eliminação final, não só da pretendida astronomia sideral, mas 
também dos estudos planetários que tenham por objeto astros invisíveis aos olhos desar- 
mados, e, portanto, destituídos necessariamente de toda real influência terrestre. Nosso 
verdadeiro domínio astronômico se reduzirá, pois, como no começo, aos cinco planetas 
sempre conhecidos, com o sol, centro de nossos movimentos como dos deles, e a lua. 
nosso único cortejo celeste. 

Toda a diferença essencial entre nossa doutrina e a dos antigos consiste aqui, como 
alhures, em substituir, enfim, o relativo ao absoluto, tornando puramente subjetivo um 
centro que durante muito tempo foi objetivo. É por isso que a descoberta, ou, antes, a 
demonstração do duplo movimento da terra constitui a principal revolução científica 
peculiar ao regime preliminar da razão humana. Um dos precursores mais eminentes do 
positivismo, o sábio Fontenelle, fez admiravelmente sentir ao vosso sexo o alcance filo- 
sófico dessa revolução científica, tanto quanto então convinha, num opúsculo encanta- 
dor, cuja frivolidade aparente não o privou de uma justa imortalidade. * * 

Com efeito, foi em virtude do movimento terrestre que o dogma positivo ficou dire- 
tamente incompatível com todo o dogma teológico, tornando profundamente relativas 
nossas mais vastas especulações, que até então podiam conservar um caráter absoluto. A 
descoberta de nossa gravitação planetária constituiu em breve a continuação científica e 
o complemento filosófico daquele movimento. Posto que o empirismo acadêmico tenha 
estorvado muito a reação enciclopédica desta dupla teoria, o positivismo a erige final- 
mente em primeira base geral do estudo direto da ordem material, assim ligado imediata- 
mente ao fundamento matemático do dogma total. 

Na astronomia, essa ordem é, com efeito, apreciada apenas sob o aspecto geométri- 
co-mecânico, afastando as pesquisas, não menos absurdas do que ociosas, sobre a tempe- 
ratura dos astros ou sua constituição interior. Passando, porém, da astronomia à física 
propriamente dita, o que se opera quase insensivelmente mediante a mecânica planetá- 
fia, estuda-se a natureza inerte de modo mais aprofundado. Todavia, a fim de melhor 
caracterizar esta nova apreciação, cumpre primeiro conceber a mais alta ciência cosmo- 
lógica, cujo caráter mais fortemente acentuado deve em seguida facilitar a compreensão 
do caráter da simples física, muito pouco pronunciado diretamente. Esta marcha vos per- 
mite notar um dos principais preceitos lógicos do positivismo, que prescreve por toda 
parte não conceber os casos intermediários senão em virtude dos dois extremos cuja 
ligação eles devem instituir. A química foi, com efeito, introduzida, como ciência distin- 
ta, tanto no Oriente como no Ocidente, muitos séculos antes que a física, fundada espon- 
taneamente por Galileu a fim de estabelecer uma transição real entre a astronomia e a 
química. aproximadas até então de modo quimérico. 

Para encurtar e simplificar esta dupla explicação, considerai a química e a física 
como essencialmente sujeitas às mesmas influências gerais, que, no fundo, aí não diferem 
senão pelas modificações mais ou menos intensas que assim experimenta a constituição 
material. Mas esta única diversidade não dá margem a nenhum equivoco sobre a verda- 
deira natureza de cada caso, apesar da confusão acadêmica. Com uma intensidade plena, 


57 O nosso Mestre alude aos Entretiens sur la Pluralité des Mondes. (1686). 


212 COMTE 


os estados de calor, de eletricidade e até de luz modificam assaz a constituição material 
a ponto de mudarem a íntima composição das substâncias. O acontecimento pertence, 
então, à química, isto é, ao estudo das leis gerais da combinação e da decomposição. 
Estas ações podem e devem ser concebidas sempre como puramente binárias. Raramente 
elas comportam mais de três complicações sucessivas, a união tornando-se mais difícil c 
menos duradoura à medida que se complica. Em grau menor, as mesmas influências 
modificadoras mudam, quando muito, o estado dos corpos, sem alterar-lhes nunca a 
substância. Neste caso, a ordem material é apenas estudada sob o aspecto físico propria- 
mente dito. Apesar da igual universalidade destas duas ciências, o decréscimo de genera- 
lidade é tão sensível quanto o acréscimo de complicação. quando passamos de uma a 
outra. Porquanto, a física, estudando o conjunto das propriedades que constituem toda 
existência material, considera do mesmo modo todos os corpos, com simples diferença 
de grau. Seus diversos ramos devem, portanto, corresponder aos diversos sentidos que 
nos revelam o mundo exterior. Pelo contrário, a química considera todas as substâncias 
como essencialmente distintas; e seu principal objeto consiste em determinar essas dife- 
renças radicais. Conquanto os fenômenos que ela estuda sejam sempre possíveis em um 
corpo qualquer, eles nunca se efetuam senão sob condições especiais, cujo concurso, raro 
e difícil, exige amiúde a intervenção humana. 

Destas duas ciências vizinhas, a física é mais importante sob o aspecto lógico e a 
quimica sob o aspecto científico, quando comparamos seu peso enciclopédico, depois de 
ter primeiro reconhecido a necessidade indispensável, teórica e prática, de cada uma 
delas. É sobretudo da física que dimana o surto decisivo do gênio indutivo, pelo desen- 
volvimento da observação, demasiado espontânea na astronomia; e em seguida da 
experimentação, muito equívoca em qualquer outro domínio. A química, porém, avanta- 
ja-se à física quanto à influência enciclopédica das noções que ministra. Sua extrema 
imperfeição teórica, que só pode cessar sob a disciplina positiva, não a impediu de exer- 
cer uma luminosa reação sobre o conjunto da razão ocidental. Esta preciosa eficácia 
resulta sobretudo da análise geral de nosso meio terrestre, gasoso, líquido e sólido, com- 
pletada pela análise, não menos indispensável, das substâncias vegetais e animais. Pode- 
se, assim, conceber, enfim, a economia fundamental da natureza, até então ininteligível, 
por não se ter ainda verificado, em todos os seres reais, tanto vivos como inertes. elemen- 
tos materiais essencialmente idênticos. 

Concebeis, portanto, como é que só a química propriamente dita institui uma transi- 
ção normal entre a cosmologia e a biologia, de acordo com vosso legítimo voto de conti- 
nuidade total. Esta grande condição enciclopédica, tão favorável por fim ao coração 
como ao espírito, teria, ainda, para vós mais valor se eu vos indicasse a verdadeira distri- 
buição da astronomia, da física e da química, como o fiz no começo em relação à mate- 
mática. Devemos, porém, reservar estes desenvolvimentos para conferências mais espe- 
ciais. que não são religiosamente indispensáveis hoje. Aquele tipo inicial deve aqui 
bastar para vos fazer sentir a possibilidade geral de uma ascensão gradual da matemá- 
tica até a moral, aplicando, com precisão e especialidade crescentes, nosso imutável prin- 
cípio hierárquico. 

Completando esta apreciação subjetiva ou lógica por uma equivalente apreciação 
objetiva ou científica, a sucessão geral destes três estudos abstratos começa a manifes- 
tar-vos uma verdadeira escala concreta, se não dos seres, pelo menos das existências. 
Não observais, em astronomia, senão a simples existência matemática, que, até então 
quase ideal, realiza-se aí em corpos que não podemos explorar sob nenhum outro aspec- 
to. e que, portanto, se tornam o melhor tipo de tal existência. Na fisica, porém, elevamo- 


CATECISMO POSITIVISTA 213 


nos a fenômenos menos grosseiros e mais intimos, que tendem mais para o caso humano. 
Enfim, a química oferece-vos a mais nobre e mais profunda das existências materiais, 
sempre subordinada às precedentes, de acordo com a nossa lei universal. Conquanto a 
grande noção objetiva que resulta de tal progressão só deva desenvolver-se assaz em bio- 
logia, importa notar seu esboço cosmológico. a fim de fazer apanhar convenientemente 
o verdadeiro princípio da classificação dos seres quaisquer. 

A MULHER — Esta continuidade admirável dispõe-me, meu pai, a julgar melhor 
os ruidosos conflitos que se levantam algumas vezes entre os diversos departamentos 
científicos. A natural predileção de meu sexo pelas explicações morais arrastava-me a 
considerar esses debates teóricos como essencialmente devidos às paixões humanas. 
Agora vejo para eles uma origem mais legítima na incerteza profunda que, por falta de 
princípios enciclopédicos, as diferentes classes de cientistas tiveram amiúde de experi- 
mentar a respeito de suas atribuições normais, em virtude dessa sucessão quase insen- 
stvel entre seus domínios respectivos. 

O SACERDOTE — Tal continuidade constitui, minha filha, o principal resultado 
filosófico do conjunto dos esforços peculiares à razão moderna. Porquanto, o verdadeiro 
gênio teórico consiste sobretudo em ligar. tanto quanto possível, todos os fenômenos e 
todos os seres. O gênio prático completa em seguida este resultado geral; pois que os 
nossos aperfeiçoamentos artificiais têm sempre por efeito consolidar e desenvolver as 
ligações naturais. Deveis, assim, começar a sentir que o espírito moderno não é pura- 
mente crítico, como disso o acusam, e que substitui construções duradouras aos destro- 
ços impotentes do dogma antigo. Ao mesmo tempo, já podeis reconhecer aqui a incom- 
patibilidade necessária entre os dois regimes teológico e positivo, pela impossibilidade de 
conciliar as leis reais com as vontades sobrenaturais. O que seria desta ordem admirável, 
que gradualmente vai ligando nossos mais nobres atributos morais aos mínimos fenôme- 
nos materiais, se fosse mister interpor nela um poder infinito, cujos caprichos, não 
comportando previsão alguma, a ameaçariam sempre de uma inteira subversão? 

A MULHER — Antes de apanhar diretamente essa continuidade geral. resta-me, 
meu pai, preencher uma grande lacuna a respeito da ordem vital, cuja apreciação siste- 
mática deveis agora explicar-me. Já compreendi, durante nossa descida enciclopédica, 
sua ligação natural com a ordem humana. Mas ainda não pude compreender o modo por 
que se liga espontaneamente à ordem material: porquanto um abismo intransponível 
parece-me separar o domínio da vida e o domínio da morte. 

O SACERDOTE — Vosso embaraço, minha filha, acha-se de plena conformidade 
com a marcha histórica da iniciação humana. Apenas duas gerações são passadas depois 
que os verdadeiros pensadores puderam começar a conceber nitidamente este laço funda- 
mental, onde reside o nó essencial de toda a filosofia natural. Os cosmologistas deviam, 
primeiro, pelo advento da química, levar o estudo da ordem material até os fenômenos 
mais nobres e mais complicados. Mas era necessário que em seguida os biologistas des- 
cessem convenientemente às funções vitais mais grosseiras e mais simples, únicas susce- 
tiveis de se ligarem diretamente aquelas bases inorgânicas. Tal foi o resultado principal 
da admirável concepção devida ao verdadeiro fundador da filosofia biológica, o incom- 
parável Bichat. Graças a uma profunda análise, as funções vitais mais nobres foram aí, 
enfim, representadas, mesmo no homem, como repousando sempre sobre as mais grossei- 
ras, segundo a lei geral da ordem real. A animalidade se subordina por toda parte à vege- 
talidade, ou a vida de relação à vida de nutrição. 

Este princípio luminoso conduz a reconhecer que os únicos fenômenos verdadeira- 
mente comuns a todos os seres vivos consistem nessa decomposição e recomposição que 


214 COMTE 


a substância deles experimenta sem cessar, em virtude do meio correspondente. O con- 
junto das funções vitais assenta, assim, sobre atos muito análogos aos efeitos químicos, 
dos quais aqueles só diferem essencialmente pela instabilidade das combinações, aliás 
mais complexas. Esta vida simples e fundamental é a única que se manifesta nos vege- 
tais, onde encontramos seu mais intenso desenvolvimento, pois que ela aí transforma 
diretamente os materiais inorgânicos em substâncias orgânicas, o que nunca fazem os 
entes mais elevados. A definição geral da animalidade consiste, com efeito, na natureza 
viva dos alimentos correspondentes: de onde resultam, como condições necessárias, a 
aptidão para os discernir e a faculdade de os apreender; por consequência, a sensibili- 
dade e a contratilidade. *º 

O grande Bichat, para consolidar sua análise fundamental da vida, teve, logo 
depois, de construir uma concepção anatômica que pudesse oferecer o complemento e o 
resumo dessa análise. O tecido celular, único universal, constitui a sede própria da vida 
vegetativa; ao passo que a vida animal reside no tecido nervoso e no tecido muscular. 
Então o pensamento geral da biologia fica completo, de modo a tornar possível por toda 
parte uma suficiente harmonia entre a apreciação estática e a apreciação dinâmica, a fim 
de passar convenientemente da função ao órgão, ou vice-versa. 

Segundo o princípio lógico que prescreve que os fenômenos quaisquer devem ser 
sobretudo estudados nos seres em que eles são ao mesmo tempo mais desenvolvidos e 
mais isentos de toda complicação superior, a teoria dos vegetais se torna a base normal 
da biologia. Ela estabelece diretamente as leis gerais da nutrição segundo o caso mais 
simples e mais intenso. É a única parte da biologia que poderia ser plenamente separada 
da sociologia, se a instituição subjetiva não devesse sempre dominar a cultura objetiva. 
Aí opera-se imediatamente a transição natural entre a existência material e a existência 
vital. 


A MULHER — Por este modo concebo, meu pai, que a continuidade enciclopédica 
se possa estabelecer em relação à parte inferior da hierarquia teórica. Partindo, porém, 
de uma vitalidade tão grosseira como é essa simples vegetalidade, não vejo como se pode 
subir até o verdadeiro tipo humano, conquanto eu reconheça nossa própria sujeição às 
leis da nutrição, tanto quanto às da gravidade. 

O SACERDOTE — A dificuldade que experimentais, minha filha, corresponde, 
com efeito, ao principal artifício biológico, gradualmente elaborado, desde Aristóteles 
até Blainville, para instituir-se uma imensa escala, ao mesmo tempo objetiva e subjetiva, 
destinada a ligar o homem ao vegetal. Se só existissem estes dois termos extremos, supo- 
sição esta de modo algum contraditória, nossa unidade teórica se tornaria impossível, ou 
pelo menos muito imperfeita, por causa da lacuna brusca que assim sofreria a continui- 
dade enciclopédica. Porém a imensa variedade dos organismos animais nos permite esta- 
belecer entre a vitalidade mais grosseira e a mais nobre uma transição tão gradual quan- 
to nossa inteligência o deva exigir. 

Todavia, esta série concreta é necessariamente discontínua, em virtude da lei funda- 
mental que mantém a perpetuidade essencial de cada espécie no meio de suas variações 
secundárias. O velho regime intelectual estorvou muito o surto desta grande construção, 
procurando em vão nela o resultado absoluto das relações objetivas. Mas a preponde- 
rância enciclopédica do método subjetivo desvanece, enfim, esses debates estéreis e sem 
saída, subordinando sempre a formação da sêrie animal ao seu verdadeiro destino, antes 
lógico que científico. Não devendo nós estudar os animais senão para conhecer melhor 


** E, como propriedade intermediária, o instinto. V. Política Positiva, tomo I, p. 600. 


CATECISMO POSITIVISTA 215 


o homem, ligando-o ao vegetal, estamos plenamente autorizados a banir de tal hierarquia 
todas as espécies que a perturbem. Um motivo análogo nos permite, ou, antes, nos pres- 
creve, introduzir nela de modo conveniente algumas raças puramente ideais, especial- 
mente imaginadas para aperfeiçoar as transições principais, sem nunca contrariarmos as 
leis estáticas e dinâmicas da animalidade. Os estudos mais desenvolvidos sobre certos 
animais pertencem realmente ao domínio prático, e dizem respeito às raras espécies com 
as quais a existência humana se acha, por diversos motivos, mais ou menos ligada. 
Todas as outras especialidades zoológicas só poderiam resultar de uma degeneração teó- 
rica, em uma ciência que, por sua complicação e imensidade, está mais exposta às pueri- 
lidades acadêmicas, já tão multiplicadas na matemática. 

Porém o conjunto dos animais suscetíveis de formarem uma verdadeira série nos 
oferecerá sempre um profundo interesse abstrato, para esclarecermos o estudo geral de 
todas as nossas funções inferiores, acompanhando cada uma delas em sua simplificação 
e complicação graduais. A humanidade não constituindo, no fundo, senão o principal 
grau da animalidade, as mais elevadas noções da sociologia, e mesmo da moral, encon- 
tram necessariamente na biologia seu primeiro esboço, para os espíritos verdadeiramente 
filosóficos que sabem apanhá-las aí. Nossa concepção teórica mais sublime se torna, 
assim, mais apreciável, quando se considera cada espécie animal como um Grande Ser 
mais ou menos abortado, em virtude da inferioridade de sua própria organização e do 
surto do predomínio humano. Porque a existência coletiva constitui sempre a tendência 
necessária da vida de relação que caracteriza a animalidade. Mas este resultado geral 
não pode, sobre um mesmo planeta, desenvolver-se assaz senão em uma só das espécies 
sociais. 

A MULHER — Pelo conjunto destas explicações, compreendo, meu pai, como é 
que a biologia, filosoficamente cultivada, pode, enfim, preencher todas as graves lacunas 
enciclopédicas, instituindo uma transição gradual entre a ordem exterior e a ordem 
humana. Essa imensa progressão, tanto dos seres como dos fenômenos, sempre conforme 
ao princípio hierárquico do positivismo, liga-se, no seu termo inferior, à sucessão normal 
dos três modos essenciais da existência material. Concebo assim a plena realização da 
admirável continuidade que a princípio me parecia impossível. Antes, porém, de deixar- 
mos a ordem vital propriamente dita, quisera conhecer, de modo mais distinto e preciso, 
as duas partes essenciais de seu domínio, vegetalidade e animalidade. 

O SACERDOTE — Vosso justo desejo, minha filha, será convenientemente satis- 
feito, concebendo as três grandes leis que regem cada uma delas. Cumpre considerar 
essas leis como outros tantos fatos gerais, subordinados entre si, mas completamente dis- 
tintos, e cujo conjunto explica sempre, quer as funções contínuas da vida de nutrição, 
quer as funções intermitentes da vida de relação. 

A primeira lei de vegetalidade, base necessária de todos os estudos vitais, sem exce- 
tuar o caso humano, consiste na renovação material a que está constantemente sujeito 
todo ente vivo. A esta lei fundamental sucede a do desenvolvimento e declínio, termi- 
nando na morte, que, sem ser por si mesma a consegiiência necessária da vida, é sempre 
o resultado constante dela. Enfim, este primeiro sistema biológico se completa pela lei da 
reprodução, na qual a conservação da espécie compensa a destruição do indivíduo. 

A principal propriedade do conjunto dos seres vivos consiste na aptidão de cada um 
deles para reproduzir seu semelhante, como ele próprio proveio sempre de uma origem 
análoga. Não só nenhuma existência orgânica dimana jamais da natureza inorgânica, 
mas, além disso, uma espécie qualquer não pode resultar de outra, nem superior, nem 
inferior, salvo as variações muito limitadas, posto que muito pouco conhecidas ainda, 


216 COMTE 


que cada uma delas comporta. Existe, pois, um abismo verdadeiramente intransponível 
entre o mundo vivo e a natureza inerte, e mesmo, em grau menor, entre os diversos 
modos de vitalidade. Confirmando a impossibilidade de toda síntese puramente objetiva, 
esta apreciação não altera de modo algum a verdadeira síntese subjetiva, que por toda 
parte resulta de uma ascensão assaz gradual para o tipo humano. 

Quanto às leis de animalidade. a primeira consiste na necessidade alternativa de 
exercício e de repouso peculiar a toda a vida de relação, sem excetuar nossos mais nobres 
atributos. Esta intermitência característica das funções animais liga-se naturalmente à 
bela observação de Bichat sobre a simetria constante dos órgãos correspondentes, poden- 
do cada metade ser ativa quando a outra permanece passiva. A segunda lei, que, como 
em todos os outros casos. supõe a precedente sem resultar dela, proclama a tendência de 
toda unção intermitente a tornar-se habitual, isto é, a reproduzir-se espontaneamente 
após a cessação do seu impulso primitivo. Esta lei do hábito encontra seu complemento 
natural na lei da imitação, que verdadeiramente não se distingue dela. Segundo a pro- 
funda reflexão de Cabanis, a aptidão de imitar a outrem resulta, com efeito, da aptidão 
de cada um a imitar-se a si mesmo; pelo menos em toda espécie dotada de simpatia. 
Enfim, a terceira lei de animalidade, subordinada à do hábito, consiste no aperfeiçoa- 
mento, ao mesmo tempo estático e dinâmico, inerente a todos os fenômenos de relação. 
A respeito de cada um deles, o exercício pode fortalecer as funções e os órgãos, que o de- 
suso prolongado tende a enfraquecer. Esta última lei, que assenta sobre as outras duas 
sem confundir-se com elas, resume o conjunto da teoria da animalidade, como o conce- 
bestes primeiro quanto à lei final da vegetalidade. 

Combinando estas duas grandes leis, institui-se uma sétima lei vital, a da heredita- 
riedade, que merece cientificamente uma apreciação distinta, conquanto ela não seja 
logicamente senão uma conseguência necessária das precedentes. Toda função ou estru- 
tura animal sendo perfectível até certo grau, a aptidão de todo ente vivo para reproduzir 
o seu semelhante poderá, pois, fixar na espécie as modificações suficientemente 
profundas sobrevindas no indivíduo. Daí resulta o aperfeiçoamento, limitado mas conti- 
nuo, sobretudo dinâmico, e mesmo estático, de cada raça qualquer, por meio de regene- 
rações sucessivas. Esta elevada faculdade, que espontaneamente resume o duplo sistema 
das leis biológicas, desenvolve-se tanto mais quanto mais elevada é a espécie, e, por 
conseguinte, mais modificável e também mais ativa, em virtude de sua própria 
complicação. 

Conquanto as leis gerais da transmissão hereditária sejam ainda muito pouco 
conhecidas, semelhante consideração indica sua alta eficácia para o melhoramento dire- 
to de nossa própria natureza, física, intelectual e sobretudo moral. De fato, é incontes- 
tável que a hereditariedade vital se aplica tanto, e mesmo mais, aos nossos atributos mais 
nobres como aos mais grosseiros. Porquanto, os fenômenos se tornam mais modificáveis, 
e, portanto, mais perfectíveis, à medida que a natureza deles é mais elevada e mais espe- 
cial. Os preciosos resultados obtidos nas principais raças domésticas não devem dar 
senão uma fraca idéia dos melhoramentos reservados à espécie mais eminente, quando 
ela for sistematicamente dirigida sob sua própria providência. 

A MULHER — Esta conclusão geral do estudo da vitalidade acaba, meu pai. de 
me fazer compreender suficientemente seu alcance teórico e prático. Sinto-me, assim, 
preparada para o estudo direto da ordem humana, ao qual reservais a última conferência 
sobre o dogma positivo. 

O SACERDOTE — Podeis, minha filha, utilmente resumir, sob o principal aspecto 
filosófico, o conjunto desta conferência pelo simples contraste que deveis ter notado, em 
nosso quadro enciclopédico, entre as duas divisões, histórica e dogmática, da filosofia 


CATECISMO POSITIVISTA 2d 


positiva. A primeira, que convém a toda iniciação teórica, individual ou coletiva, apro- 
xima a biologia da cosmologia; a outra, que representa nosso estado final, a combina, 
pelo contrário, com a sociologia. Esta oposição faz sobressair nitidamente o principal 
caráter da ordem vital, como laço natural entre a ordem exterior c a ordem humana. 


OITAVA CONFERÊNCIA 


ORDEM HUMANA — PRIMEIRO SOCIAL, DEPOIS MORAL 


A MULHER — Antes de encetarmos o melhor domínio teórico, eu devo, meu pai, 
submeter-vos um escrúpulo geral devido às objeções metafísicas que com fregiiência 
tenho ouvido formular contra esta extensão decisiva do dogma positivo. Toda sujeição 
do mundo moral e social a leis invariáveis, comparáveis às da vitalidade e da materiali- 
dade, é agora apresentada, por certos argumentadores, como incompatível com a liber- 
dade do homem. Posto que estas objeções me tenham sempre parecido puramente sofísti- 
cas, nunca eu soube destruí-las nos espíritos, ainda muito numerosos, que se deixam, 
assim, estorvar em sua marcha espontânea para o positivismo. 

O SACERDOTE — É fácil, minha filha, superar este embaraço preliminar, carac- 
terizando diretamente a verdadeira liberdade. 

Longe de ser por qualquer forma incompatível com a ordem real, a liberdade con- 
siste por toda parte em seguir sem obstáculos as leis peculiares ao caso correspondente. 
Quando um corpo cai, a sua liberdade manifesta-se caminhando, segundo sua natureza, 
para o centro da terra, com uma velocidade proporcional ao tempo, a menos que a inter- 
posição de um fluido não modifique a sua espontaneidade. Do mesmo modo, na ordem 
vital, cada função, vegetativa ou animal, é declarada livre, se ela efetua de conformidade 
com as leis correspondentes, sem nenhum empecilho exterior ou interior. Nossa exis- 
tência intelectual e moral comporta sempre uma apreciação equivalente, que, direta- 
mente incontestável, quanto à atividade, se torna, por conseguinte, necessária para seu 
motor afetivo e para seu guia racional. 

Se a liberdade humana consistisse em não seguir lei alguma, ela seria ainda mais 
imoral do que absurda, por tornar-se impossível um regime qualquer, individual ou cole- 
tivo. Nossa inteligência manifesta sua maior liberdade quando se torna, segundo seu des- 
tino normal, um espelho fiel da ordem exterior, apesar dos impulsos físicos ou morais 
que possam tender a perturbá-la. Nenhum espírito pode recusar seu assentimento as 
demonstrações que compreendeu. Mas, além disto, cada qual é incapaz de rejeitar as opi- 
niões assaz acreditadas em torno de si, mesmo quando ignora os verdadeiros funda- 
mentos em que assentam, a menos que não esteja preocupado de uma crença contrária. 
Podemos desafiar, por exemplo, os mais orgulhosos metafísicos a que neguem o movi- 
mento da terra, ou doutrinas ainda mais modernas, posto que eles ignorem absoluta- 
mente as provas científicas de tais doutrinas. O mesmo acontece na ordem moral, que 
seria contraditória se cada alma pudesse, a seu bel-prazer, odiar quando cumpre amar, 
ou reciprocamente. A vontade comporta uma liberdade semelhante à da inteligência, 
quando nossos bons pendores adquirem bastante ascendência para tornar o impulso afe- 
tivo harmônico como verdadeiro destino dele, superando os motores contrários. 


220 COMTE 


Assim, a verdadeira liberdade é por toda parte inerente e subordinada à ordem, quer 
humana, quer exterior. Porém, à medida que os fenômenos se complicam, eles se tornam 
mais suscetíveis de perturbação, e o estado normal supõe neste caso maiores esforços, os 
quais, aliás, são aí possíveis graças a uma aptidão maior para as modificações sistemá- 
ticas. Nossa melhor liberdade consiste, pois, em fazer prevalecer. tanto quanto possível, 
os bons pendores sobre os maus; e é também nisso que o nosso império tem a sua maior 
amplitude. contanto que a nossa intervenção se adapte sempre às leis fundamentais da 
ordem universal. 

A doutrina metafísica sobre a pretendida liberdade moral deve ser historicamente 
considerada como um resultado passageiro da anarquia moderna; porquanto ela tem por 
objeto direto consagrar o individualismo absoluto, para o qual tendeu cada vez mais a 
revolta ocidental que teve de suceder à Idade Média. Mas este protesto sofístico contra 
toda verdadeira disciplina, privada ou pública, não pode de modo nenhum entravar o 
positivismo, se bem que o catolicismo não pudesse superá-lo. Jamais se conseguirá apre- 
sentar como hostil à liberdade e à dignidade do homem o dogma que melhor consolida 
e desenvolve a atividade, a inteligência e o sentimento. 

A MULHER — Este esclarecimento preliminar me permitirá, meu pai, repelir 
doravante sofismas ainda muito aceitos entre os espiritos mal cultivados. Peço-vos, pois, 
que me expliqueis diretamente a extensão do dogma positivo ao mundo social. 

O SACERDOTE — Primeiramente, minha filha, deveis conceber esta grande ciên- 
cia como composta de duas partes essenciais: uma, estática, que constrói a teoria da 
ordem: a outra, dinâmica, que desenvolve a douirina do progresso. A instrução religiosa 
considera sobretudo a primeira, onde a natureza fundamental do verdadeiro Grande Ser 

| é diretamente apreciada. Porém a segunda deve completar esta determinação, explicando 
os destinos sucessivos da Humanidade, a fim de guiar convenientemente a prática social. 
Estas duas metades da sociologia se acham profundamente ligadas entre si em virtude de 
um princípio geral estabelecido pelo positivismo para religar por toda parte o estudo do 
movimento ao da existência: O progresso é o desenvolvimento da ordem. Já conveniente 
em matemática, semelhante lei aplica-se tanto melhor quanto mais os fenômenos se com- 
plicam; porque a distinção entre o estado estático e o estado dinâmico torna-se, então, 
mais pronunciada, ao passo que a simplificação proveniente desta ligação de estudos 
adquire também mais valor. A sociologia devia, portanto, oferecer a melhor aplicação 
deste grande princípio e a verdadeira fonte de sua sistematização. Aí ele convém mesmo 
tanto no sentido inverso como no sentido direto; porque os estados sucessivos da Huma- 
nidade devem assim manifestar cada vez mais a sua constituição fundamental, cujos ger- 
mes essenciais estão todos necessariamente contidos em seu esboço inicial. Mas a eficá- 
cia teórica e prática da sociologia dinâmica ficará especialmente caracterizada pelas 
duas conferências finais deste Catecismo. Devo, pois, limitar-me agora a explicar-vos as 
principais noções da estática social. 

A MULHER — Esta redução convém, aliás, meu pai, à insuficiência de minha ins- 
trução histórica. Conquanto as concepções estáticas da sociologia devam ser mais abs- 
tratas que as suas vistas dinâmicas, eu poderei apanhá-las melhor, com a atenção que 
exigem sua importância e dificuldade. Aí. pelo menos, sentir-me-ei amparada contra 
minha ignorância pela certeza de achar em mim mesma a confirmação de uma doutrina 
diretamente emanada de nossa natureza. 

O SACERDOTE — Bastará, com efeito, minha filha, que vos examineis atenta- 
mente para reconhecerdes logo a constituição necessária da ordem social; porquanto, a 
fim de representar a existência geral da Humanidade, deve ela oferecer uma combinação 


CATECISMO POSITIVISTA 22 


decisiva de todos os nossos atributos essenciais. Posto que vossa própria existência vos 
mostre estes atributos de modo confuso, ela vo-los faz assaz sentir para que possais 
compreender melhor sua harmonia fundamental, quando órgãos coletivos permitem a 
cada um deles um surto plenamente característico. 

Concebei, pois, o Grande Ser como sendo dirigido, do mesmo modo que vós, porém 
em grau mais pronunciado, pelo sentimento, esclarecido pela inteligência e sustentado 
pela atividade. Daí resultam os três elementos essenciais da ordem social, o sexo afetivo, 
a classe contemplativa, isto é, o sacerdócio, e a força prática. São assim classificados 
segundo sua dignidade decrescente, mas também segundo sua independência crescente. 
O último constitui, portanto, a base necessária de toda a economia do Grande Ser, 
segundo a lei fundamental, já familiar para vós, que por toda parte subordina os mais no- 
bres atributos aos mais grosseiros. 

Com efeito, as necessidades contínuas oriundas de nossa constituição corporal 
impõem à Humanidade uma atividade material que domina o conjunto de sua existência. 
Não podendo desenvolver-se senão por uma cooperação crescente, essa atividade, princi- 
pal estimulante de nossa inteligência, fornece sobretudo à nossa sociabilidade sua mais 
poderosa excitação. Ela aí subordina cada vez mais a solidariedade à continuidade, onde 
reside o mais decisivo e o mais nobre de todos os atributos do Grande Ser. Porquanto os 
resultados materiais da cooperação humana dependem mais do concurso das gerações 
sucessivas que do concurso das famílias coexistentes. Longe de ser radicalmente desfavo- 
rável ao surto intelectual e moral, este predomínio contínuo da vida prática deve, pois, 
fornecer a melhor garantia de nossa unidade, proporcionando ao espirito e ao coração 
uma direção determinada e um destino progressivo. Sem este impulso universal, nossas 
melhores disposições mentais, e mesmo morais, degenerariam breve em tendências vagas 
e incoerentes que não produziriam nenhum progresso, privado ou público. 

Todavia, a fonte, necessariamente pessoal, de semelhante atividade deve a princípio 
imprimir-lhe um caráter profundamente egoísta, que só a transformação gradual resul- 
tante do desenvolvimento coletivo pode tornar altruísta. Eis por que a constituição geral 
da ordem social não seria assaz apreciada se não se decompusesse a classe ativa em dois 
elementos sempre distintos e amiúde apostos. Eles devem especialmente desenvolver, um 
o impulso prático, com a personalidade que supõe sua principal energia, o outro a reação 
social que o nobilita cada vez mais. 

Para fazer esta decomposição indispensável, basta dividir a força ativa em concen- 
trada e dispersa, conforme resulte da riqueza ou do número. 

Posto que a primeira não possa ser senão indireta, ela prevalece ordinariamente, e 
mesmo cada vez mais, porque representa a continuidade, ao passo que a segunda corres- 
ponde à solidariedade. Com efeito, os tesouros materiais que a Humanidade confia aos 
ricos provêm sobretudo de uma longa acumulação anterior, apesar da necessidade per- 
manente da renovação parcial exigida pelo consumo necessário de tais tesouros. Todo 
forte impulso prático dimana, pois, do patriciado em que rendem esses poderosos reser- 
vatórios nutritivos, cuja principal eficácia social resulta de sua concentração pessoal. É 
assim que a propriedade material é diretamente consagrada pela religião positiva, como 
a condição fundamental de nossa atividade continua, e, portanto, a base indireta de nos- 
sos mais eminentes progressos. 

O segundo elemento prático, sem o qual o primeiro se tornaria ilusório, consiste no 
proletariado, que constitui o fundo necessário de toda população. Não podendo adquirir 
influência social senão pela união, ele tende diretamente a desenvolver nossos melhores 
instintos. Sua própria situação solicita sem cessar sua atenção principal para as regras 


222: COMTE 


morais de uma economia cujas perturbações ele especialmente suporta. Naturalmente 
libertado da grave responsabilidade e das preocupações de espírito que são a conse- 
quência habitual de uma autoridade qualquer, teórica ou prática, ele torna-se muito pró- 
prio para chamar espontaneamente o sacerdócio e o patriciado ao destino social que 
estes devem preencher. 

A MULHER — Acredito, meu pai, que esta reação contínua da classe ativa não é 
menos indispensável para conter ou compensar, nas mulheres, exagero do sentimento. 
Alheio à vida prática, meu sexo amiúde propende a menosprezar ou a pôr de lado as con- 
dições grosseiras que essa vida impõe. Porém o sentimento que o domina pode sempre 
fazer-lhe aceitar dignamente tais condições, a fim de realizar o bem ao qual ele aspira 
naturalmente, quando esse impulso necessário nos conduz a apreciá-las assaz. 

O SACERDOTE — Acabastes assim, minha filha, de compreender espontanea- 
mente o grande ofício social que caracteriza o proletariado. Porquanto, se a influência 
afetiva pode também esquecer seu verdadeiro destino, preocupando-se demasiado das 
necessidades que lhe são próprias, este perigo deve desenvolver-se mais no poder especu- 
lativo e no poder ativo, cuja atenção acha-se habitualmente absorvida por esforços espe- 
ciais. A providência moral das mulheres, a providência intelectual do sacerdócio e a 
providência material do patriciado carecem, pois, de ser completadas pela providência 
geral oriunda do proletariado, para constituírem o admirável conjunto da providência 
humana. Todas as nossas forças podem, assim, tender sempre, cada qual segundo sua 
natureza, para a conservação e o aperfeiçoamento do Grande Ser. 

Esta concepção geral de nossa constituição social basta para caracterizar-lhe os três 
elementos necessários. Classificados segundo sua aptidão decrescente a representarem 
naturalmente a Humanidade, eles seguem a mesma ordem no predomínio sucessivo que 
lhes cabe em cada iniciação completa. A providência feminina, que deve sempre dominar 
nosso surto moral, dispõe-nos, primeiro, a sentir a continuidade e a solidariedade, diri- 
gindo a educação espontânea que se realiza no seio da família. Em seguida, a provi- 
dência sacerdotal faz-nos apreciar de modo sistemático a natureza e o destino do Grande 
Ser, revelando-nos gradualmente o conjunto da ordem real. Caímos, enfim, sob o predo- 
mínio direto e perpétuo da providência material, que nos inicia na vida prática, cujas rea- 
ções afetivas e especulativas completam nossa preparação. 

Uma coincidência espontânea entre a plenitude de nosso desenvolvimento pessoal, 
tanto cerebral como corporal, e a terminação ordinária de nosso início social constitui 
assim nossa maturidade real. Começa, então, nossa segunda vida, essencialmente de 
ação, sucedendo ao conjunto das preparações que nos habilitam a bem servir o Grande 
Ser. Esta nova existência objetiva, posto que ordinariamente mais curta que a primeira, 
é a única decisiva para proporcionar a cada chefe de família a existência subjetiva que o 
incorporará convenientemente à Humanidade. 

A fim de compreender melhor a constituição social, é mister apreciar separada- 
mente seus dois elementos, mais especiais, únicos que formam classes propriamente 
ditas, o sacerdócio que aconselha e o patriciado que comanda. É nestas classes que se 
conservam e aumentam respectivamente os tesouros espirituais e os tesouros materiais 
da Humanidade, a fim de serem convenientemente distribuídos, segundo as leis naturais 
deles, a todos os servidores dela. 

Da classe teórica dimana primeiro a educação sistemática e depois a influência 
consultativa sobre toda a vida real, a fim de chamar cada atividade parcial à harmonia 
geral, que aquela nos dispõe a desconhecer. A admirável instituição da linguagem huma- 
na, embora resulte sempre de uma cooperação universal, torna-se o patrimônio especial 


CATECISMO POSITIVISTA ZA 


do sacerdócio, como depósito espontâneo da religião e principal instrumento de seu exer- 
cício. Naturalmente imperecíveis, os bens espirituais podem servir simultaneamente a 
todos, sem nunca se esgotarem; de sorte que a conservação deles não exige nenhuma par- 
tilha e constitui um simples anexo de cada existência sacerdotal. Eminentemente sintética 
e social, a linguagem consolida e desenvolve a subordinação natural da ordem humana 
à ordem exterior. Aumenta também nossa ligação mútua, sobretudo instituindo uma 
conexão íntima entre a sabedoria sistemática e a razão comum. 

O destino pessoal e a instabilidade natural dos produtos materiais impõem leis 
muito diferentes à sua conservação e uso. Além da solicitude coletiva do patriciado, 
assistida por uma fiscalização universal, eles exigem uma posse individual, sem a qual 
sua concentração normal se tornaria ilusória, ou antes, impossível. Esta apropriação pes- 
soal, primeira base da providência material, não pode adquirir bastante consistência 
senão apoiando-se no solo, sede natural e fonte necessária de toda produção prática. É 
assim que se formam espontaneamente, através dos séculos, os reservatórios nutritivos 
da Humanidade, que devem sem interrupção reanimar por toda parte a existência mate- 
rial, ao passo que seus guardas dirigem os trabalhos exigidos pela renovação contínua 
desses reservatórios. 

Este ofício principal dos patrícios consiste em substituir, em cada órgão social, os 
materiais que ele consome sempre, como provisões para sua subsistência ou como instru- 
mento para sua função. O salário nunca tem outra influência normal, qualquer que seja 
a classe a que se aplique. Com efeito, o trabalho humano, isto é, a reação útil do homem 
contra sua sorte, não pode ser senão gratuito, porque não comporta nem exige nenhum 
pagamento propriamente dito. Só entre os materiais do trabalho é que pode existir uma 
verdadeira equivalência, e não entre seus atributos essenciais. Sempre reconhecida relati- 
vamente ao sexo afetivo e à classe contemplativa, e mesmo em relação ao poder prático 
que salaria todos os outros, esta gratuidade necessária de todo oficio humano só é ainda 
duvidosa quanto ao proletariado, isto é, naqueles que menos recebem. Semelhante 
contradição assaz indica a origem histórica desta anomalia, essencialmente devida não à 
inferioridade das operações correspondentes, mas à prolongada servidão de seus órgãos. 
Só a religião positiva é que pode superar neste ponto a anarquia moderna, fazendo sentir 
por toda parte que cada serviço pessoal não comporta jamais outra recompensa senão a 
satisfação de efetuá-lo e o reconhecimento que proporciona. 

A MULHER — Conquanto as almas vulgares possam hoje acoimar de exagero 
sentimental semelhante apreciação, atrevo-me a prometer-vos, meu pai, que ela não tar- 
dará em ser acolhida dignamente entre as mulheres. Frequentes vezes tem-me chocado o 
egoísmo habitual que, mediante um salário insignificante, dispensa-se de toda gratidão 
por serviços importantes e difíceis, cujos autores comprometem a saúde, e algumas vezes 
a vida, em cada operação. Este princípio positivista ministra uma consistência sistemá- 
tica a sentimentos universais que só carecem de ser formulados e coordenados para que 
prevaleçam gradualmente. Ele acaba de fazer-me compreender a possibilidade de impri- 
mir, enfim, um caráter verdadeiramente altruísta ao conjunto de nossa existência, mesmo 
material. Com efeito, esta santa transformação exige apenas que cada um, sem ser habi- 
tualmente um entusiasta, sinta com profundidade sua participação geral e a de todos os 
outros na obra social. Ora, semelhante convicção pode certamente resultar de uma sábia 
educação universal, em que o coração disporá o espírito a apanhar sempre o conjunto da 
verdade. 

O SACERDOTE — Para completar a apreciação fundamental da ordem social, 
falta-me, minha filha, caracterizar os três modos ou graus que lhes são próprios. 


224 COMTE 


Todo organismo coletivo oferece necessariamente os diversos elementos essenciais 
que acabo de vos explicar. Mas eles se acham aí mais ou menos pronunciados, e, portan- 
to, distintos, segundo a natureza e a extensão da sociedade correspondente. O predo- 
mínio respectivo de cada um deles conduz a reconhecer três associações diferentes, que 
cumpre classificar segundo a intimidade decrescente e a extensão crescente delas. A do 
meio assenta na precedente e serve de base à seguinte. Única fundada naturalmente no 
amor, a Família é a sociedade mais íntima e mais restrita, elemento necessário das outras 
duas. A atividade constitui em seguida a Cidade ou Pátria, em que o laço resulta sobre- 
tudo de uma cooperação habitual, que não poderia ser assaz sentida se esta associação 
política combinasse um número excessivo de associações domésticas. Vem, enfim, a 
Igreja, a qual, ligando-nos essencialmente pela fé, é a única que comporta uma verda- 
deira universalidade, que a religião positiva há de necessariamente realizar. Estas três 
sociedades humanas têm por centros respectivos a mulher, o patriciado e o sacerdócio. 

A família de que cada qual provém pertence a uma cidade qualquer, e mesmo a uma 
certa igreja. Mas este último laço sendo mais fraco comporta mais variações, se bem que 
não sejam nunca arbitrárias. Quando ele se torna bastante consistente, é o único que for- 
nece o meio de reduzir convenientemente a cidade, em torno da qual as existências se 
concentram ordinariamente, em virtude do predomínio natural da atividade sobre a inte- 
ligência e mesmo sobre o sentimento. De fato, o estado social não pode ser verdadeira- 
mente duradouro senão conciliando assaz a independência com o concurso, condições 
igualmente inerentes à verdadeira noção da Humanidade. Ora, este acordo necessário 
impõe às sociedades políticas limites de extensão muito inferiores aos que hoje 
prevalecem. 

Na Idade Média, a separação esboçada entre a associação religiosa e a associação 
civil já permitiu substituir a livre incorporação dos povos ocidentais à incorporação for- 
çada que lhes proporcionara a princípio o domínio romano. O Ocidente ofereceu, assim, 
durante muitos séculos, o admirável espetáculo de uma união sempre voluntária, funda- 
da unicamente numa fé comum e mantida por um mesmo sacerdócio, entre nações cujos 
diversos governos tinham toda a devida independência. Porém esse grande resultado 
político não podia sobreviver à emancipação prematura de um poder que só à religião 
positiva compete convenientemente instituir e libertar irrevogavelmente. O declínio 
necessário do catolicismo restabeleceu a concentração temporal, que se tornou então 
indispensável para impedir a inteira deslocação política a que se era impelido pela disso- 
lução crescente dos laços religiosos. É assim que, apesar dos costumes da Idade Média, 
cujos vestígios são ainda sensíveis, os ocidentais deixaram que por toda parte se formas- 
sem Estados vastos demais. 

Os motivos políticos dessa extensão exorbitante tendo já cessado suficientemente, 
começam-se a sentir, mesmo na França, os perigos radicais, e também o próximo termo, 
de semelhante anomalia. Mas a religião positiva reduzirá em breve estas monstruosas 
associações à extensão normal que dispensará o emprego da violência para manter a 
união temporal entre nações suscetíveis apenas de laços espirituais. Tal será a próxima 
aplicação do princípio estático que erige em órgão político do Grande Ser a simples cida- 
de, completada pelas populações menos condensadas que a ela estiverem ligadas livre- 
mente. O sentimento patriótico, hoje tão vago e tão fraco por causa de sua difusão exage- 
rada, poderá desde então desenvolver dignamente toda a energia que comporta esta 
concentração cívica. Mas a união habitual das grandes cidades se tornará mais real e efi- 
caz tomando o caráter normal de um concurso voluntário. A fé positiva fará convenien- 
temente sentir a solidariedade e também a continuidade, que devem finalmente reinar 
entre todas as regiões quaisquer do planeta humano. 

A MULHER — Graças ao conjunto de vossas indicações sobre a teoria da socie- 


CATECISMO POSITIVISTA 225 


dade, sinto-me, meu pai, bastante preparada agora para pousar, enfim, no vértice do edi- 
fício enciclopédico, cujos andares fizestes-me apreciar sucessivamente. Posto que a ciên- 
cia moral deva ser a mais difícil de todas, sua cultura empírica é tão familiar ao meu 
sexo que não lhe inspirará o mesmo receio que as outras. Folgo, portanto, de chegar 
convenientemente ao estudo sistemático do homem individual. 

O SACERDOTE — Com efeito, minha filha, só este remate necessário de toda a 
preparação enciclopéêdica é que pode encher tanto o espírito como o coração. A ciência 
moral é mais sintética do que qualquer outra, e sua conexão direta com a prática conso- 
lida este atributo natural. É só aí que todos os aspectos abstratos se reúnem espontanea- 
mente para construir o guia geral da razão concreta. Desde Tales até Pascal, todo verda- 
deiro pensador cultivava ao mesmo tempo a geometria e a moral, por um secreto 
pressentimento da grande hierarquia que devia enfim combiná-las. O nome de mundo 
pequeno que os antigos davam ao homem já indicava quanto o estudo deste parecia pró- 
prio para condensar todos os outros. Tal estudo constitui naturalmente a única ciência 
que pode ser verdadeiramente completa, sem pór de lado nenhum ponto de vista essen- 
cial, como necessariamente o faz cada uma das que lhe servem de base. Porquanto, 
considerando estas como determinando as leis correspondentes do homem, elas só conse- 
guem isto desprezando de propósito todas as propriedades superiores aos seus domínios 
respectivos, onde elas apenas incorporam os atributos inferiores. Por estas abstrações 
decrescentes, o espírito teórico fica suficientemente preparado para abordar, enfim, o 
único estudo que não o obriga mais a nada abstrair de essencial no objeto comum de 
nossas diversas especulações reais. É somente assim que a meditação masculina se une 
irrevogavelmente à contemplação feminina, para constituir o estado final da razão 
humana. 

A cosmologia estabelece, em primeiro lugar, as leis da simples materialidade. Em 
seguida, a biologia constrói sobre essa base a teoria da vitalidade. Enfim, a sociologia 
subordina a este duplo fundamento o estudo próprio da existência coletiva. Mas, con- 
quanto esta última ciência preliminar seja necessariamente mais completa que as prece- 
dentes, ela não abarca ainda tudo o que constitui a natureza humana, visto como os nos- 
sos principais atributos não se acham nela assaz apreciados. Ela considera 
essencialmente no homem a inteligência e a atividade combinadas com todas as nossas 
propriedades inferiores, mas sem estarem diretamente subordinadas aos sentimentos que 
as dominam. Este desenvolvimento coletivo faz sobretudo ressaltar nosso surto teórico e 
prático. Nossos sentimentos só figuram, em sociologia, mesmo estática, por causa dos 
impulsos que exercem sobre a vida comum ou das modificações que esta lhes imprime. 
As suas leis próprias não podem ser convenientemente estudadas senão pela moral, onde 
adquirem o predomínio que compete à sua dignidade superior no conjunto da natureza 
humana. É isso que dispõe amiúde os espíritos pouco sistemáticos a desconhecerem a 
plenitude sintética que caracteriza esta ciência final, que eles restringem demasiado a 
esse domínio principal, em torno do qual devem, enfim, concentrar-se todos os outros. 

A MULHER — O encadeamento teórico entre a sociologia e a moral oferece-me 
ainda algumas dúvidas, que, peço-vos, meu pai, dissipeis antes de expordes diretamente 
a concepção positiva da natureza humana. Não esqueci os motivos incontestáveis que, 
em nossa sexta conferência, me fizeram sentir a subordinação objetiva da moral à socio- 
logia; pois que o homem é sempre dominado pela Humanidade. Por outro lado, porém, 
parece-me que a ciência social precisa continuamente das principais noções que a ciência 
moral deve ministrar a respeito de nossa verdadeira natureza. 

O SACERDOTE — Este embaraço muito legitimo desaparecerá, minha filha, aten- 
dendo aos conhecimentos espontâneos que por toda parte precedem e preparam os estu- 


226 COMTE 


dos sistemáticos. A ciência constitui sempre um simples prolongamento da sabedoria 
comum. Nunca ela cria realmente doutrina essencial alguma. As teorias limitam-se a 
generalizar e coordenar os apanhados empíricos da razão universal, a fim de lhes dar 
uma consistência e um desenvolvimento que por outro modo não poderiam obter. Seme- 
lhante conexão convém mais aos estudos morais que, embora só possam ser sistemati- 
zados em último lugar, por causa de sua complicação superior, forneceram sempre, em 
virtude de sua importância prepoderante, o principal alimento das meditações comuns, 
sobretudo femininas. Desta cultura empírica surgiram em breve noções preciosas, apesar 
de sua incoerência, que só foram desprezadas até aqui pelo gênio sistemático, porque este 
não podia representá-las suficientemente em suas teorias teológicas ou metafísicas. Ao 
espírito positivo, único suscetível de abranger o ponto de vista social, é que estava reser- 
vado o generalizá-las e coordená-las, depois de ter fundado a última ciência preliminar. 
Mas sua aptidão para as sistematizar lhe permitia apreciá-las dignamente. Apesar dos 
prejuízos filosóficos, pôde ele primeiro utilizá-las bastante para construir, enfim, a socio- 
logia. Se examinardes o modo por que o conhecimento da natureza humana é habitual- 
mente empregado em sociologia, haveis de reconhecer logo que, de fato, só se usa aí esse 
estudo espontâneo, muito mais real do que todas as especulações morais dos filósofos 
anteriores. Esse esboço empírico pode bastar, com efeito, às concepções relativas à exis- 
tência coletiva, antes de ter ainda passado pela sistematização que só a ciência final lhe 
deve proporcionar. 

A MULHER — Semelhante explicação, meu pai, dissipa inteiramente a confusão 
teórica que acessoriamente me ofereciam os dois aspectos essenciais da ordem humana. 
Tendo minha ignorância me preservado dos dogmas clássicos acerca de nossa natureza, 
pude apreciar melhor a realidade das noções morais empregadas pela sociologia, e reco- 
nhecer a coincidência delas com os resultados espontâneos devidos à razão comum. 

O SACERDOTE — Para fundar diretamente a ciência final, basta, minha filha, 
sistematizar convenientemente a decomposição que essa sabedoria universal não tardou 
em perceber no conjunto da existência humana, distinguindo nesta o sentimento, a inteli- 
gência e a atividade. Esta análise fundamental, apreciável sob diversas formas, nos mais 
antigos poetas, acha-se neles completada empiricamente pela divisão geral de nossos 
pendores em pessoais e sociais. Conquanto as teorias teológicas, e sobretudo as metafisi- 
cas, fossem especialmente incapazes de representar esta última noção, sua evidência 
espontânea superou sempre os sofismas filosóficos nos espíritos incultos. Tal é o domínio 
natural cuja sistematização e desenvolvimento constituem o objeto essencial da ciência 
moral. As outras teorias reais também consistem sempre em determinar sobretudo as leis 
gerais dos fenômenos mais vulgares; como a química, por exemplo, relativamente à-com- 
bustão e à fermentação. 

Se bem que a ciência moral não pudesse ser suficientemente abordada por teologia 
alguma, cumpre dignamente notar a tentativa inicial do verdadeiro fundador do catoli- 
cismo para satisfazer às necessidades sistemáticas oriundas do novo ensino religioso. O 
grande São Paulo, construindo a sua doutrina geral da luta permanente entre a natureza 
e a graça, esboçou realmente, a seu modo, o conjunto do problema moral, não só prático, 
mas também teórico. Porque esta preciosa ficção compensava provisoriamente a incom- 
patibilidade radical do monoteísmo com a existência natural dos pendores benévolos, 
que movem todas as criaturas a se unirem mutuamente em vez de se voltarem isolada- 
mente ao seu criador. Apesar de todos os vícios naturais de semelhante teoria, seu desen- 
volvimento na Idade Média constitui o único passo essencial que a ciência moral com- 
portava desde seu antigo esboço teocrático até sua recente instituição positiva. Pelo 
menos, os resultados essenciais da sabedoria comum se achavam aí muito mais bem 


CATECISMO POSITIVISTA 227 


representados do que pela deplorável ontologia que dirigiu a dissolução gradual do cato- 
licismo. Por isso os místicos do século XV, e principalmente o admirável autor da Imita- 
ção, são também os últimos pensadores em que se pode verdadeiramente apanhar, antes 
do positivismo, o conjunto da natureza humana, tão viciosamente concebida em todas as 
doutrinas metafísicas. 

Lembrando-vos um dogma moral que foi justamente caro à vossa juventude, não é 
meu único fito honrar um esforço muito mal prezado hoje. Além de ter substituído provi- 
soriamente a teoria positiva da natureza humana, cujo preâmbulo objetivo tinha ainda de 
durar muito tempo, ele preparou-a espontaneamente, formulando seu domínio sistemã- 
tico. Foi sob esta influência que, mesmo antes da fundação da sociologia, o verdadeiro 
gênio científico empreendeu, neste assunto, uma tentativa decisiva, embora insuficiente, 
logo que a filosofia biológica surgiu. 

Era mister instituir primeiro, neste supremo domínio teórico, uma harmonia geral 
entre a apreciação estática e a apreciação dinâmica, assinalando a sede de nossas princi- 
pais funções. Malgrado a confusão metafísica que queria reduzir tudo à inteligência, à 
qual se consagrava o conjunto do cérebro, a razão comum havia atravessado as trevas 
filosóficas, pelo menos quanto aos pendores, sobretudo pessoais, em virtude da energia 
espontânea deles: Os antigos pensadores consagraram a distinção, fazendo-os residir, 
ainda que vagamente, nas diferentes vísceras da vida de nutrição. Todavia, nenhum 
órgão fora designado para os instintos simpáticos, e a ciência, de acordo com a teologia, 
falou sempre das paixões como se só existissem as más. Por outro lado, a inteligência fi- 
cava indivisa e sua subordinação ao sentimento não podia ser teoricamente representada. 

Sem este preâmbulo histórico, não poderíeis apreciar bem o admirável esforço pelo 
qual o gênio de Gall fundou a teoria positiva da natureza humana, posto que não pudesse 
construí-la até o ponto de torná-la verdadeiramente eficaz, o que supunha a sociologia. 
Esse poderoso impulso firmou dois princípios gerais, um dinâmico, outro estático, cuja 
conexão natural servirá sempre de base ao verdadeiro estudo da alma e do cérebro. Gall 
estabeleceu ao mesmo tempo a pluralidade de nossas funções superiores, assim mentais 
como morais, e a comum residência delas no aparelho cerebral, cujas diversas regiões de- 
viam corresponder às distinções reais entre aquelas. Apesar dos vícios essenciais oriun- 
dos, sobretudo em relação à inteligência, de uma análise superficial e de uma localização 
empírica, ele conseguiu representar suficientemente a decomposição geral de nossa exis- 
tência, e mesmo consagrar, enfim, os pendores benévolos. A luta fictícia entre a natureza 
e a graça foi desde então substituída pela oposição real entre a massa posterior do cére- 
bro, sede dos instintos pessoais, e a região anterior, onde residem distintamente os impul- 
sos simpáticos e as faculdades intelectuais. Tal é a base indestrutível sobre a qual o fun- 
dador da religião positiva construiu em seguida a teoria sistemática do cérebro e da 
alma, depois de ter instituído a sociologia, única fonte de onde podia emanar a inspira- 
ção conveniente. 

A MULHER — Entrevejo, meu pai, todo o alcance direto do duplo princípio esta- 
belecido pelo último precursor do positivismo. As relações continuas entre nossos senti- 
mentos e pensamentos, como as relações naturais dos nossos vários instintos, não po- 
diam ser bem representadas por causa da separação exorbitante das sedes que se lhes 
havia atribuído outrora. A teoria cerebral permitiu, enfim, conceber estas importantes 
relações, de modo a aperfeiçoar o conhecimento real das mesmas. No entanto. tirando 
aos órgãos nutritivos essa atribuição moral, que repugnava ao destino grosseiro deles, 
suscita-se, parece-me, uma grave lacuna geral a respeito das ligações incontestáveis des- 
ses Órgãos com as nossas funções superiores. A influência recíproca entre o físico e o 


228 COMTE 


moral, exagerada pela antiga hipótese, afigura-se-me, pois, desprezada na nova 
concepção. 

O SACERDOTE — Esta censura não é aplicável, minha filha, senão ao esboço da 
teoria cerebral. Não cabe ao seu estado definitivo, em que essas grandes relações se 
acham plenamente sistematizadas. Conservando da antiga opinião as noções reais que 
por tanto tempo a abonaram, devemos primeiro restringir essas influências vegetativas 
aos pendores propriamente ditos sem conceder-lhes nenhuma ação direta sobre as fun- 
ções intelectuais, nem mesmo sobre os impulsos práticos. As regiões especulativa e ativa 
do cérebro só têm comunicações nervosas com os sentidos e os músculos, a fim de perce- 
berem e modificarem o mundo exterior. Pelo contrário, a região afetiva, que constitui a 
massa principal do cérebro, não tem laços diretos com o exterior, ao qual se liga indireta- 
mente pelas suas relações próprias com a inteligência e com a atividade. Porém, afora 
estas ligações cerebrais, existem nervos especiais que a ligam profundamente aos princi- 
pais órgãos da vida de nutrição, por efeito da subordinação necessária do conjunto dos 
instintos pessoais à existência vegetativa. Se esta correspondência geral puder ser assaz 
especificada, como devemos esperá-lo, ela fornecerá meios poderosos para aperfeiçoar 
mutuamente o físico e o moral do homem. 

A MULHER — Esta concepção positiva da natureza humana parece-me, meu pai, 
muito de acordo com a experiência universal, sobretudo porque funda diretamente nossa 
unidade sobre a subordinação continua do espírito ao coração. Já me havíeis explicado 
que, dos dois modos próprios a este predomínio afetivo, o regime altruísta é o único que 
pode dar ao homem, mesmo individual, uma unidade completa e duradoura, conquanto 
mais difícil de constituir que a unidade egoísta. Mas semelhante teoria da harmonia hu- 
mana ainda me oferece uma grave dificuldade, para a conciliar com a primeira lei de 
animalidade, que proclama a intermitência de toda a vida de relação, sem poder excetuar 
as funções cerebrais, visto como a verdadeira unidade não pode ser descontínua. A inteli- 
gência e a atividade podem e devem descansar periodicamente, como os sentidos e os 
músculos correspondentes. Pelo contrário, a afeição não comporta nenhuma suspensão. 
Porventura poderíamos jamais deixar de amar em nós e fora de nós? 

O SACERDOTE — A ligação direta entre a vida afetiva e a vida vegetativa deve 
levar-vos, minha filha, a considerar a primeira como tão contínua como a segunda. Para 
conciliar esta continuidade necessária com a intermitência comum a toda a vida de rela- 
ção, basta considerar a duplicidade cerebral. Todos os órgãos do cérebro são, como os 
sentidos e os músculos, compostos de duas metades simétricas, separadas ou contíguas, 
cada uma das quais pode funcionar durante o repouso da outra. Tal alternância permite 
que o sentimento não experimente nenhuma interrupção, apesar da intermitência cere- 
bral. Algumas vezes a inteligência funciona assim durante o sono, se não mediante o 
aparelho contemplativo, diretamente ligado aos sentidos, pelo menos mediante o apare- 
lho meditativo, que não depende imediatamente deles. Daí resultam os sonhos, estados 
passageiros de alienação mental, em que, como acontece na loucura, os impulsos subjeti- 
vos prevalecem involuntariamente. Esta persistência acidental das funções intelectuais 
durante o sono permite compreender, por analogia, a persistência normal das funções 
afetivas. Mas ela fornece, além disto, o testemunho indireto desta última, porque os so- 
nhos trazem sempre o cunho dos instintos dominantes. Pois que o coração dirige o espí- 
rito durante a vigília, apesar das impressões exteriores, ele deve dominá-lo mais quando 
estas se acham suspensas. Pode-se, pois, esperar que a teoria cerebral conduza final- 
mente a bem interpretar os sonhos, e mesmo a modificá-los, segundo o voto prematuro 
de toda a Antiguidade. 


CATECISMO POSITIVISTA 229 


A MULHER — Eu não poderia, meu pai, conceber suficientemente a teoria posi- 
tiva da natureza humana, se, depois de me terdes explicado as relações gerais entre o 
coração, o espírito e o caráter, não me fizésseis conhecer a decomposição sistemática de 
cada um deles em funções verdadeiramente irredutíveis. 

O SACERDOTE — Esta decomposição resulta, minha filha, do quadro cerebral 
que aqui vos apresento (vide o quadro C anexo). Ele deverá tornar-se para vós tão fami- 
liar quanto o nosso quadro enciclopédico. Porém, embora mais extenso, não achareis 
nele tanta dificuldade. Qualquer pessoa, sobretudo de vosso sexo, que tiver vivido 
suficientemente, há de em breve sentir a realidade de semelhante análise, que, por sua 
natureza, não pode assentar senão sobre observações ao alcance de todos. Se para verifi- 
câá-las fossem indispensáveis contemplações especiais e dificeis, ela seria necessariamente 
viciosa. Os grandes esforços que exigiu a construção deste quadro não podem afetar de 
modo algum seu uso, sobretudo nos espíritos preservados de nossa educação clássica; 
porque tais dificuldades resultaram menos da natureza do problema do que das falsas 
teorias que dominavam neste assunto. Este domínio, conquanto seja o mais antigo de 
nossa inteligência, é o último a que devia estender-se a concordância gradual entre a 
razão teórica e a razão prática. Mas este acordo fundamental fica, assim, aí afinal firma- 
do, de modo a reproduzir nesse domínio, melhor do que alhures, os progressos que tal 
acordo sempre suscita. 

Esta classificação cerebral oferece-vos por toda parte uma nova aplicação do prin- 
cípio universal da generalidade decrescente, sobre o qual já vistes repousar a hierarquia 
enciclopédica. Haveis de notar isto sobretudo em relação aos instintos que são ao mesmo 
tempo mais numerosos e mais salientes. Seu decréscimo de generalidade à medida que se 
tornam mais nobres e menos enérgicos verifica-se plenamente no conjunto da série ani- 
mal. Os últimos graus não apresentam senão o instinto fundamental da conservação indi- 
vidual, até a inteira separação dos sexos. Então todos os outros instintos se vão sucessi- 
vamente ajuntando, primeiro os pessoais, depois os sociais, na ordem indicada pelo 
quadro cerebral, à medida que subimos para o homem. Esta comparação zoológica bas- 
taria, pois, para demonstrar semelhante análise, cuja elaboração, se bem que sempre diri- 
gida pela inspiração sociológica, foi mesmo frequentes vezes secundada por ela. A por- 
ção mais elevada da série animal, compreendendo os mamíferos e os pássaros, depara- 
nos certamente uma reunião completa de todas as nossas funções superiores, com sim- 
ples diferenças de grau. Vede como o maior dos poetas pressentiu esta similitude funda- 
mental, colocando em meio das sublimidades de seu paraíso este admirável quadro da 
existência moral de um pássaro: 


Come laugello intra l'amate fronde Che, per veder gli aspetti desiati, 
Posato al hido de 'suoi dolci nati, E per trovar lo cibo onde li pasca, 
La notte che le cose ci nasconde, In che i gravi labor gli son aggrati, 


Previene | tempo in su laperta frasca, 
E con ardente affetto il sole aspetta 
Fiso guardando pur che l'alba nasca. *º 


** Dante, Paraíso, canto 23.º. Eis aqui a tradução destes tercetos por Bonifácio de Abreu: — Por entre à 
amada sombra a avezinha/ Da doce prole junto ao ninho queda;/ Enquanto a noite envolve a terra em tre- 
vas/ A bem de contemplar tão caros entes,/ Suave se lhe torna labor grave./ Dos ramos pela fresta espreita 
o dia,/ E com ardente afeto o Sol aguarda,/ Vigiando fixa, quando surge a aurora./ 


(AMAR, PENSAR. AGIR) 


+ 


(C) CLASSIFICAÇÃO POSITIVA DAS DEZOITO FUNÇÕES INTERIORES DO CÉREBRO, 
OU QUADRO SISTEMÁTICO DA ALMA, 


MANDA DE PELO AUTOR DO SISTEMA DE FILOSOFIA POSITIVA. 
S do indivíduo, ou instinto nutritivo ; : RR) 
instintos de conservacão Nara 
cu FÃo) dalespaciê | instinto sexual Simas ese io ço a V) 
o o de, Ra «a | INTERESSE instinto materno : dido dg Dor SENSOR S E (3) 
o nas Eae AME 
= 2 e Ea E instintos de aperteicoamento por destruição ou instinto militar . ns. ccsisssssunerins ss rsese secos a 
< Hã a - f VN) : por construcão ou instinto industrial ...ccccccicicii (5) 
U. uu , 

«< <L as E 8 a. AMBIÇÃO es ou Orgulho, necessidade de dominio CERRITO sa SR STE RE POR ac o e 6) 
a ND q E Fe) Mm ú Espiritual, ou Vaidade, necessidade de aprovação ... ) E A RR o RN e AR DR O RR AR SR RUA ERR (7) 
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ato SocZ]2 APEGO (8) 
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wu DO= >o O VENERAÇÃO e... SABRE SS DOR Rad do SRA VR PDA E DR PED JN e (9) 
a fzêuclo 
u/Zozl (98) Geral (BON DADE, ou amor universal (simpatia) humanidade lcccccicccs (10) 
ONo- Tap) 
<« 
a Passiva, ou contemplacão, Concreta, ou relativa aos seres, essencialmente sintética ... (11) 
[va 5 CONCEPÇÃO de onde materiais objetivos Abstrata, ou relativa aos acontecimentos, essencialmente analítica(12) 
«<L FUNÇÕES : Ativa, ou Meditação, de onde Indutiva, ou por comparação, de onde Generalização ...... 413) 
o INTELECTUAIS y construções subjetivas Dedutiva, ou por coordenação, de onde sistematização (14) 
[ol EXPRESSÃO ......... Mímica, oral, escrita, de onde Comunicação 5) 
[ad 
5) 3 ATIVIDADE cc. pes ES RS BA 2 AP e AA Ra (16) 
« QUALIDADES Prudência Eta E PR Rd : (17) 

PRATICAS ÀFIRMEZA, de onde perseverança ..lcccciiiis PRP (18) 


RESUMO DA TEORIA CEREBRAL 


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VIVER PARA OUTREM 


O conjunto destes dezoito órgãos cerebrais constitui o aparelho nervoso central, que, por um lado, estimula a vida de nutrição e, 
por outro lado, coordena a vida de relação, ligando suas duas espécies de funções exteriores. Sua região especulativa comunica- 
se diretamente com os nervos sensitivos e sua região ativa com os nervos motores. Porém, sua região afetiva não tem conexões 
nervosas senão com vísceras vegetativas, sem nenhuma correspondência imediata com o mundo exterior, que só se liga a ela por 
meio das outras duas regiões. Este centro essencial de toda a existência humana funciona continuamente, em virtude do repouso 
alternativo das duas metades simétricas de cada um de seus órgãos. Quanto ao resto do cérebro, a intermitência periódica é tão 
completa como a dos sentidos e dos músculos. Assim, a harmonia vital depende da principal região cerebral, sob impulso da qual 


as outras duas dirigem as relações, passivas e ativas, do animal com o meio. 
AUGUSTO COMTE 


(10, rua Monsieur-le-Prince) 


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CATECISMO POSITIVISTA 231 


Nesta encantadora descrição, um animal muito afastado do homem oferece o 
mesmo concurso normal que se dá em nós entre o sentimento, a inteligência e a ativida- 
de. Tal fraternidade é ainda mais preciosa para o coração do que para o espírito, esten- 
dendo a simpatia além de nossa espécie, de modo a temperar nossos conflitos demasiado 
frequentes com as raças subordinadas. 

A MULHER — Conquanto eu goste muito, meu pai, de contemplar os animais, 
com o fim de achar neles também todos os nossos móveis essenciais, presumo que o qua- 
dro cerebral pode dispensar esta verificação, que não está ao alcance de todos os 
espíritos. 

O SACERDOTE — Com efeito, minha filha, as observações limitadas à nossa 
espécie bastam para desvanecer qualquer incerteza sobre cada parte desta teoria positiva 
da alma e do cérebro. A própria análise intelectual, mais delicada que as outras duas, por 
ser menos pronunciada, pode ser verificada mediante os fatos cotidianos. Basta compa- 
rar, assim, os dois sexos para se reconhecer a distinção principal entre o aparelho 
contemplativo e o aparelho meditativo; pois que a primeira função é mais desenvolvida 
na mulher e a segunda no homem. Semelhantemente separamos os dois órgãos meditati- 
vos, notando que vosso sexo é mais apto para aproximar os fatos e o meu para coorde- 
ná-los. Se nossos doutores fossem tão sagazes como a maioria das mulheres, e igual- 
mente desprendidos de opiniões viciosas, as comparações admiráveis que fornece a série 
zoológica seriam inúteis para os convencer a este respeito. 


A MULHER — Antes de estudar o quadro cerebral, eu quisera, meu pai, tirar a 
limpo algumas dúvidas nascidas de uma primeira inspeção. O conjunto dos instintos 
parece-me estar bem apreciado, salvo o instinto materno, que eu esperava ver figurar no 
altruísmo e não no egoísmo. 

O SACERDOTE — Vós o confundis, minha filha, com as reações simpáticas que 
ele comporta, mas que lhe não são inerentes, pois que frequentes vezes faltam. A obser- 
vação zoológica não deixa nenhuma dúvida sobre esta distinção, mostrando a materni- 
dade em animais tão inferiores que não podem oferecer os sentimentos elevados que em 
nossa espécie costumam acompanhá-la. Podeis, porém, dissipar toda incerteza sem sair 
de nossa espécie. Por mais precioso que seja o aperfeiçoamento que este instinto recebe 
da civilização, sobretudo da moderna, pela reação crescente da sociedade sobre a famí- 
lia, pode-se ainda descobrir diariamente sua genuína natureza nas mulheres pouco 
simpáticas, em que ele se isola melhor. Reconhece-se, então, que o filho constitui direta- 
mente, para a mãe, tanto como para o pai, mais uma simples posse pessoal, objeto de 
domínio, e amiúde de cobiça, do que de uma afeição desinteressada. Somente as relações 
que resultam da maternidade podendo estimular muito os pendores benévolos, elas con- 
tribuem espontaneamente para desenvolver estes em todas as boas índoles, mas sem criar 
nunca as simpatias que essa reação supõe. Comparando os diversos estados sociais, 
simultâneos ou sucessivos, apanha-se o verdadeiro caráter de um instinto que, antes de 
ser elaborado pela providência humana, dispõe amiúde a vender os filhos, e mesmo a 
matá-los, por meros motivos pessoais. Ademais, olhai em torno de vós o modo por que 
se decide habitualmente das profissões ou dos casamentos; e perguntai-vos a vós mesma 
se o egoísmo dos pais não prevalece aí as mais das vezes, depois que a anarquia moderna 
enfraquece a reação doméstica da sociedade. 

O instinto sexual foi algumas vezes honrado com um equívoco semelhante, não pelo 
vosso sexo, que de ordinário sabe apreciar seu caráter pessoal, mas por alguns homens, 
que também o confundiram com as simpatias cujo desenvolvimento ele pode estimular 


us COMTE 


quando bem dirigido. Todos os pendores pessoais, sem excetuar o instinto destruidor, 
comportam reações semelhantes, que não suscitam os mesmos enganos, porque elas são 
aí menos diretas e menos pronunciadas. Esta relação geral facilita muito o grande pro- 
blema humano: subordinar o egoísmo ao altruísmo. Com efeito, a energia superior dos 
instintos pessoais pode assim servir para compensar a frouxidão natural dos instintos 
simpáticos, fornecendo um impulso inicial que estes não teriam espontaneamente. Uma 
vez despertada, a afeição benévola persiste e cresce pelo seu encanto incomparável, ape- 
sar da cessação desse grosseiro estimulante. À superioridade moral de vosso sexo dispen- 
sa-o amiúde de tal preparação, dispondo-o a amar logo que encontra objetos de amor, 
sem procurar neles nenhuma satisfação pessoal. Mas a grosseria masculina não pode 
quase nunca prescincir deste preâmbulo indireto, necessário sobretudo na vida pública, 
para nobilitar o orgulho ou a vaidade. 


A MULHER — Quanto às funções intelectuais, admiro me, meu pat. de ver excluí- 
das do quadro cerebral as faculdades clássicas: memória, juízo, imaginação, etc. 


O SACERDOTE — Considerai-as, minha filha, como resultados do conjunto da 
organização mental, que durante muito tempo foram tomados por atributos especiais. A 
comparação dos indivíduos e dos sexos, completada, por mister, pela das espécies, prova 
diretamente a inanidade da antiga análise intelectual e a realidade da nova. Porquanto a 
observação mostra, assim, diferenças pronunciadas e permanentes, quanto à contempla- 
ção ou à meditação, sem nunca conduzir a resultados nítidos e fixos a respeito das facul- 
dades escolásticas. O juízo mais insignificante exige um concurso habitual das cinço fun- 
ções intelectuais, a fim de instituir, entre o interior e o exterior, essa coincidência durável 
e unânime que caracteriza a verdade. O mesmo digo, com mais forte razão, de cada 
esforço de memória ou de imaginação, que amiúde exige induções e deduções inteira- 
mente análogas às operações científicas. Quanto à vontade, ela vem a ser o resultado di- 
reto de todo impulso afetivo, aprovado pela inteligência como devendo dirigir a conduta. 


A MULHER — Ao inverso de minha observação precedente, surpreende-me, meu 
pai, ver a linguagem figurar como função distinta no quadro cerebral, em vez de ser 
considerada um produto do conjunto das funções intelectuais. 


O SACERDOTE — Vosso erro, minha filha, resulta de confundirdes a aptidão 
especial para criar sinais artificiais com os resultados determinados pela digna subordi- 
nação dessa aptidão às outras forças mentais. Apesar da insuficiência ordinária de suas 
análises intelectuais, Gall não hesitou nunca em dotar a linguagem de um órgão distinto, 
sobre cuja existência a observação dos animais, dos homens e dos povos não podia dei- 
xar-lhe nenhuma dúvida. 


Quando fica entregue a si mesmo, sem nenhuma disciplina cerebral, como vemos 
amiúde nas moléstias, e algumas vezes no estado de saúde, sua atividade direta não pro- 
duz senão uma pura verbiagem, que só a razão pode transformar num verdadeiro discur- 
so. Em outros casos, pelo contrário, a atonia excepcional deste órgão impede a transmis- 
são dos pensamentos mais bem elaborados. Ademais, cumpre não confundir, nos 
animais, a função própria da linguagem com seus instrumentos vocais, que nem sempre 
lhe correspondem. Cada espécie superior tem sua linguagem natural, entendida por toda 
a raça, e mesmo entre as espécies assaz vizinhas: porém, os meios físicos de comunica- 
ção permanecem com fregiência muito imperfeitos. Quanto à linguagem atual das 
nações civilizadas, ela constitui, com efeito, um resultado complexíssimo do conjunto do 
desenvolvimento humano. Todavia, sua primeira origem reside também no órgão cere- 
bral que dispõe a criar, por qualquer espécie de meios, sinais artificiais, sem nenhuma 


CATECISMO POSITIVISTA 233 


preocupação direta das comunicações mentais ou morais que por esse modo possam ser 
efetuadas. 

A MULHER — A fim de completardes esta importante apreciação, rogo-vos, meu 
pai, que me indiqueis o uso geral que deverei fazer do quadro cerebral quando o tiver 
suficientemente estudado. 

O SACERDOTE — Só podereis possuí-lo bem, minha filha, mediante uma aplica- 
ção contínua. As mulheres exercitam-se habitualmente em descobrir, em nossos atos e 
discursos, os sentimentos e os pensamentos que verdadeiramente os inspiram. Conside- 
rai, sobretudo, o quadro cerebral como um meio geral de aperfeiçoar muito este oficio 
feminino. Haveis de reconhecer amiúde que a alma humana não é impenetrável. O cére- 
bro pode, assim, tornar-se um livro inalterável, que podereis ler apesar de todos os artifi- 
ctos da dissimulação. Completando estas observações individuais pela comparação das 
nações bastante distintas, e até dos animais facilmente apreciáveis, tereis concluído vossa 
iniciação na teoria positiva da natureza humana. 

Porém, a fim de evitar ou corrigir enganos muito fáceis, cumpre sempre considerar 
que a maior parte dos resultados observáveis, tanto intelectuais como morais, provém do 
concurso de várias funções cerebrais. Raramente é que cada uma destas pode ser obser- 
vada isolada. Assim, vossa exploração há de exigir as mais das vezes uma análise, cujos 
clementos vos serão sem cessar fornecidos pelo nosso quadro, elementos que haveis de 
combinar até que essa síntese represente assaz o caso correspondente. Por exemplo, a in- 
veja resulta de uma combinação entre o instinto destruidor e qualquer um dos outros seis 
instintos egoístas sob o influxo de um secreto sentimento da inferioridade pessoal, tanto 
mental como moral. Existem, portanto, seis espécies de inveja, conforme seu segundo ele- 
mento consista na cobiça. ou na luxúria, etc. 

O quadro cerebral resume tudo quanto há hoje de verdadeiramente demonstrado na 
teoria positiva da natureza humana. Eis por que só indiquei aí o número e a sede dos ór- 
gãos intelectuais e morais, sem nada precisar mesmo sobre a forma ou tamanho deles. Só 
um estudo objetivo, que ainda não está instituído convenientemente, é que pode comple- 
tar esta teoria subjetiva do cérebro, determinando a constituição de cada um desses ór- 
gãos. Cumpre, porém, não ligar importância exagerada a este complemento, sem o qual 
a doutrina cerebral pode preencher assaz o seu principal destino, como o prova este 
Catecismo. 

A posição dos órgãos constitui, com efeito, a determinação mais importante e tam- 
bém a mais difícil. Ela logo indica as influências mútuas, que, sem nenhum intermédio 
nervoso, dependem da simples contigiiidade. É assim que facilmente podemos explicar as 
relações, por outra forma ininteligíveis, e no entanto incontestáveis, entre o instinto se- 
xual e o instinto destruidor. A ordem dos órgãos, sobretudo afetivos, mede sua energia 
respectiva de conformidade com a lei que vedes inscrita no quadro. Por exemplo, entre 
dois instintos consecutivos, vê-se assim que o pendor a destruir ê naturalmente mais forte 
que o pendor a construir. Não se pode duvidar disso, notando-se a preferência que aquele 
obtém por toda parte, sem excetuar nossa espécie, quando o ente acredita ter a livre esco- 
lha dos meios. 

Mas o uso mais nobre do quadro cerebral consiste em assentar melhor o problema 
humano, o ascendente da sociabilidade sobre a personalidade, como já o sentistes tanto 
antes desta explicação direta. As três qualidades práticas são, em si mesmo, indiferentes 
ao bem e ao mal: diretamente, elas só aspiram à ação. Quanto às cinco funções intelec- 
tuais, seu verdadeiro destino consiste, evidentemente, em servir os três pendores sociais 


234 COMTE 


de preferência aos sete afetos pessoais: é o meio único de fazer com que o desenvolvi- 
mento próprio delas se torne vasto e duradouro. Todavia, a fraqueza intrínseca que as 
distingue as impede frequentemente de resistir à energia natural dos impulsos egoistas; e 
dali resulta a principal dificuldade. Se o espírito não atraiçoa sua santa missão, a perso- 
nalidade, aliás incoerente, subordina-se facilmente a uma sociabilidade que não lhe recu- 
sa nunca as satisfações legítimas. A harmonia ficando assim firmada entre o sentimento 
e a inteligência, a atividade segue espontaneamente um impulso que lhe fornece um 
campo inesgotável. Portanto, tudo, afinal, depende de uma combinação profunda entre 
os dois órgãos contíguos que presidem respectivamente ao principal instinto simpático e 
ao espírito essencialmente sintético. Representando cada uma das três regiões cerebrais 
pelo seu órgão preponderante, a fórmula sagrada do positivismo acha-se naturalmente 
gravada em qualquer cérebro, pois que ela prescreve a harmonia habitual de três órgãos 
adjacentes. 

A MULHER — Pelo conjunto desta conferência e da precedente, reconheço, meu 
pai, que o dogma positivo basta agora para o governo espiritual da Humanidade, como 
já mo fizera pressentir nossa sexta conferência. Sua natureza profundamente relativa não 
lhe permite a imobilidade peculiar ao caráter absoluto do dogma teológico. Mas esta pre- 
tendida imutabilidade acaba realmente na morte, ao passo que as modificações graduais 
do positivismo são sintomas certos de uma vida tão duradoura quanto a de nossa espé- 
cie. Sem esperar pelos seus aperfeiçoamentos inesgotáveis, sinto-o assaz elaborado para 
dirigir hoje a reorganização ocidental. 

O SACERDOTE — Esta convicção final permite-me, minha filha, proceder agora 
à explicação, primeiro geral, depois especial, do regime, que constitui diretamente o obje- 
tivo final de toda a iniciação positiva, em que o dogma, e mesmo o culto, são apenas 
preparatórios. Depois de ter apreciado o positivismo como a verdadeira religião, pri- 
meiro do amor, em seguida da ordem, cumpre, enfim, reconhecer nele também a única 
religião plenamente conveniente ao conjunto do progresso humano, sobretudo moral. 


PARTE TERCEIRA 


EXPLICAÇÃO DO 
REGIME 


W 


NoNA CONFERENCIA 


CONJUNTO DO REGIME 


A MULHER — Neste estudo final, sinto, meu pai, que minha atitude deve conti- 
nuar quase tão passiva como em relação ao dogma, posto que eu conte achar aqui menos 
dificuldades. O regime não me oferece um domínio essencialmente afetivo, como era o do 
culto, em que eu podia algumas vezes antecipar vossas explicações. Aqui o coração já 
não pode bastar mais para inspirar-me vistas que frequentes vezes supõem a mais com- 
pleta experiência e a mais profunda reflexão, naturalmente vedadas ao sexo, cujas 
contemplações mal podem ultrapassar com êxito o círculo da vida privada. Com efeito. 
é mister, agora, construir diretamente as regras gerais que devem presidir aos atos huma- 
nos, sobretudo aos habituais, e mesmo aos excepcionais. Ora, esta determinação exige 
uma exata apreciação do conjunto de nossa existência, quer coletiva, quer individual, a 
fim de julgar os verdadeiros resultados próprios a cada sistema de conduta. As aberra- 
ções do sentimento devem ser neste caso evitadas com tanto maior cuidado quanto a 
influência delas seria aqui mais perniciosa, por afetar imediatamente a vida real e 
comum. 

O SACERDOTE — Esta digna reserva não deve dissimular-vos nunca, minha 
filha, o ofício fundamental que o conjunto do regime assinala ao vosso sexo. 

O culto é principalmente destinado a desenvolver os sentimentos que nos dispõem a 
viver para outrem. Todo o estudo do dogma positivo leva depois a concluir que a nossa 
verdadeira unidade consiste sobretudo nessa vida altruísta. Sobre este duplo fundamento, 
o regime deve agora fazer prevalecer diretamente, na existência prática, esse princípio 
único da harmonia universal. Ora, tal objetivo supõe necessariamente o concurso íntimo 
e contínuo dos dois sexos, porque ele depende tanto do coração como do espirito. Pas- 
sando, assim, da moral teórica para a moral prática, só a inteligência é que pode determi- 
nar quais os hábitos que devem prevalecer, e mesmo quais os meios por que eles se esta- 
belecem. Mas este duplo estudo abortaria quase sempre se o sentimento não impelisse a 
superar constantemente suas altas dificuldades. Daí resultam as partes respectivas que 
competem ao sacerdócio e ao sexo afetivo em nosso regime moral. Ao passo que o sacer- 
dote atua sobre o coração pelo espírito apreciando cada conduta, a mulher deve agir 
sobre o espírito pelo coração, fazendo prevalecer espontaneamente a melhor disposição. 
Este concurso necessário convém do mesmo modo à idade preparatória e à existência 
real. 

A MULHER — Tranqjiilizada por este preâmbulo, devo, meu pai, perguntar-vos 
em primeiro lugar qual o verdadeiro campo desta terceira parte de nossa religião. Posto 
que o regime diga sempre respeito à vida ativa, como o dogma se refere a vida especula- 
tiva, e o culto, à vida afetiva, dificilmente poderia eu compreender que as prescrições reli- 
giosas do primeiro se estendessem a uma atividade qualquer. Entretanto. não percebo 
sobre que se fundaria a distinção correspondente. 


238 COMTE 


O SACERDOTE — O domínio prático da religião limita-se, minha filha, às dispo- 
sições verdadeiramente universais, sem penetrar no preenchimento especial de cada ofi- 
cio. Ela deve, contudo, apreciar exatamente as diversas funções sociais, mas só para lhes 
prescrever as regras adequadas a conservar e desenvolver a harmonia geral. Tudo o que 
se refere à execução particular pertence aos diferentes modos ou graus do governo 
propriamente dito, quer privado, quer público, e nunca ao sacerdócio. 

A fim de precisar melhor esta distinção fundamental, cumpre agora estender ao pro- 
gresso a divisão geral que o estudo do dogma vos tornou familiar em relação à ordem. 
Pois que decompusemos primeiro a ordem universal em ordem exterior e ordem humana, 
devemos apreciar semelhantemente os aperfeiçoamentos que ela comporta. Distinguem- 
se, assim, duas espécies de progresso, um exterior, outro humano. Posto que ambos se 
refiram finalmente a nós mesmos, só o último diz respeito à nossa própria natureza, e o 
primeiro limita-se à nossa situação, que ele melhora reagindo sobre todas as existências 
capazes de afetar a nossa. É por isso que esse progresso exterior é habitualmente qualifi- 
cado de material, se bem que se estenda à ordem vital propriamente dita, mas apenas em 
relação às espécies que nos servem de provisões ou de instrumentos. O ponto de vista do 
progresso sendo necessariamente mais subjetivo que o da ordem, a uniformidade da lin- 
guagem nem sempre corresponde, nele, à identidade das noções. 


Esta distinção basta para introduzir convenientemente a divisão fundamental entre 
os domínios práticos do governo e do sacerdócio. Concebendo todas as forças sociais 
como igualmente votadas ao aperfeiçoamento universal, é mister, assim, distingui-las 
conforme elas melhoram a ordem exterior ou a ordem humana. Tal é a melhor origem 
elementar da separação normal entre a ação temporal e a ação espiritual. A dignidade 
superior desta resulta, então, da preponderância natural do progresso correspondente. 
Assim, o domínio prático da religião consiste em aperfeiçoar a ordem humana, primeiro 
física, depois intelectual, enfim, e sobretudo moral. Apesar da diversidade destes três 
aspectos, eles devem sempre ficar inseparáveis, em virtude de sua íntima conexão, que 
cumpre respeitar ainda mais para a ação que para a especulação. Quanto à ordem exte- 
rior, seu melhoramento direto e especial não compete à religião: constitui o domínio pró- 
prio da política ou da indústria. Todavia, a religião acha aí indiretamente uma participa- 
ção importante, porém geral, pela grande influência que o estado do agente humano 
exerce necessariamente sobre os resultados efetivos de sua ação qualquer. Em toda ope- 
ração prática, o bom êxito exige em primeiro lugar que cada cooperador seja honesto, 
inteligente e corajoso. Mas é só neste sentido que a religião tem sempre uma parte na 
constituição fundamental de cada indústria especial. 

A MULHER — Assim, meu pai, a moral, considerada como uma arte, difere de 
todas as outras pela sua inteira generalidade. É a única que deverá ser universalmente 
aprendida, pois que todas as existências humanas têm igualmente necessidade contínua 
dela. Seu estudo espontâneo pertence, pois, a todos, proporcionalmente à aptidão natural 
e às luzes empíricas de cada um. Mas este estudo não pode ser sistematizado senão pelo 
sacerdócio, em virtude de suas relações necessárias com o conjunto das teorias reais. É 
assim que a moral parece-me constituir o domínio essencial da religião, primeiro como 
ciência e depois mesmo como arte. 

O SACERDOTE — Deveis completar, minha filha, semelhante apreciação consi- 
derando a ingerência especial que cabe ao sacerdócio positivo no conjunto de cada 
indústria, por ser ele o único que conhece todas as leis essenciais da ordem exterior. Con- 
quanto essas noções teóricas nunca possam dispensar os estudos práticos, como o sonha 
amiúde o orgulho científico, elas deverão sempre servir-lhes de base, e até de guia. Tendo 


CATECISMO POSITIVISTA 239 


primitivamente aprendido com o sacerdócio as principais leis dos fenômenos a modifi- 
car, cada prático refere depois a elas todos os desenvolvimentos especiais provenientes 
de suas induções empíricas. Quando o surto de seus próprios trabalhos lhe fizer sentir a 
necessidade de novas noções gerais, é ainda ao sacerdócio que ele deverá pedi-las, em vez 
de perturbar sua marcha industrial por uma vã cultura científica. 

A MULHER — Graças ao conjunto dessa explicação, compreendo, meu pai, a 
separação fundamental entre o sacerdócio e o governo, como resultado sobretudo da 
divisão necessária entre a teoria e a prática. Mas a apreciação anterior não se refere 
essencialmente senão ao progresso, isto é, à atividade. Ora, para estabelecer solidamente 
um princípio tão capital, seria preciso ainda, parece-me, referi-lo diretamente à ordem 
propriamente dita, isto é, à conservação. Se, na harmonia social. o proletariado deve 
naturalmente ser sobretudo progressista, meu sexo, em virtude de sua situação passiva, aí 
funciona principalmente como conservador. 

O SACERDOTE — Para satisfazer-vos convenientemente, basta, minha filha, que 
consideremos estaticamente o regime humano. Estudai nele a existência em vez do movi- 
mento, e chegareis logo à divisão dos dois poderes, como base universal da ordem social, 
partindo unicamente do princípio da cooperação, sobre o qual Aristóteles fundou a ver- 
dadeira teoria da associação cívica oriunda do concurso das famílias. *º Com efeito, 
cada servidor da Humanidade deve sempre ser apreciado sob dois aspectos distintos, em- 
bora simultâneos, primeiro, em relação ao seu ofício especial, depois, quanto à harmonia 
geral. O primeiro dever de todo órgão social consiste, sem dúvida, em bem preencher sua 
própria função. Mas a boa ordem exige também que cada um assista, tanto quanto possí- 
vel, à realização dos outros ofícios quaisquer. Semelhante atributo torna-se mesmo o 
caráter principal do organismo coletivo, em virtude da natureza inteligente e livre de 
todos os seus agentes. 

Ora, existe espontaneamente uma oposição cada vez mais pronunciada entre estes 
dois ofícios, um especial, outro geral, de cada funcionário humano. Porquanto, o primei- 
ro, particularizando-se mais à medida que a cooperação se desenvolve, suscita disposi- 
ções intelectuais, e mesmo tendências morais, que o afastam cada vez mais de uma apre- 
ciação de conjunto, que também se vai tornando cada vez mais difícil. Tal é o verdadeiro 
ponto de vista elementar da teoria geral do governo, primeiro temporal, depois espiritual. 


Como nenhuma função, mesmo vital, e sobretudo social, pode ser bem preenchida 
senão por meio de um órgão próprio, o mínimo concurso humano exige, pois, uma força 
especialmente destinada a chamar de novo às vistas e aos sentimentos de conjunto agen- 
tes que tendem sempre a desviar-se de tais condições. Ela deve sem cessar conter as suas 
divergências e desenvolver as suas convergências. Por outro lado. este poder indispen- 
sável surge naturalmente das desigualdades que sempre suscita a evolução humana. 

Apesar da íntima simpatia que constitui a simples associação doméstica, mesmo 
reduzida ao par fundamental, não está ela nunca isenta de semelhante necessidade. É aí 
que se pode apreciar melhor este grande axioma: Não existe sociedade sem governo. 

Na ordem cívica, cada concurso de famílias para um fim determinado faz em breve 
surgir um chefe prático, cuja autoridade se acha espontaneamente limitada pelo conjunto 
das operações que ele pode realmente dirigir, quer pela sua própria aptidão, quer, sobre- 


8º O princípio da cooperação, atribuído por Augusto Comte a Aristóteles, consiste no seguinte: O caráter 
essencial de toda organização coletiva reside na separação dos ofícios e na convergência dos esforços. Não 
se encontra nas obras de Aristóteles a formulação de tal princípio. Augusto Comte extraiu-o como contido 
implicitamente nos trabalhos de filosofia política do grande pensador grego, e sua escrupulosa probidade 
científica levou-o a referir-lhe a autoria de tal descoberta. 


240 COMTE 


tudo, em virtude de seus capitais. É aí que reside o verdadeiro poder temporal, igual- 
mente capaz de impulsionar e de reter, conforme as necessidades. Todo poder mais vasto 
dimana necessariamente de uma fonte espiritual. Os diferentes chefes práticos tendem, 
contudo, a se coordenar entre si, mediante uma hierarquia nascida das relações naturais 
de seus diversos trabalhos. Este concurso espontâneo institui, pois, uma espécie de gover- 
no mais geral, porém sempre reduzido ao seu poder material, mais adequado a resistir 
que a dirigir. Seus diferentes membros são ordinariamente incapazes de abarcar o con- 
junto correspondente, apesar da competência de cada um deles em relação a um dos sis- 
temas parciais. 

A simples solidariedade bastaria, pois, quando um pouco extensa, para indicar a 
insuficiência do poder prático e a necessidade de uma autoridade teórica que, privando- 
se de toda ação especial, faça prevalecer constantemente a harmonia geral. A continui- 
dade, porém, da qual depende cada vez mais a ordem humana, torna essa necessidade 
plenamente irrecusável. Esses poderes empíricos, aspirando a dirigir o presente, não 
conhecem o passado que o domina, nem o futuro que ele prepara. Por isso a intervenção 
deles permanece cega e amiúde perturbadora, quando não a subordinam aos conselhos 
teóricos. Ao mesmo tempo, a influência sacerdotal lhes é indispensável, como a única 
capaz de consagrar assaz seu ascendente material quase sempre exposto a invejosas 
contestações. Cada consagração consiste em representar o poder correspondente como o 
ministro de um poder superior geralmente respeitado: Deus sob o regime provisório, a 
Humanidade na ordem definitiva. Ora, isto supõe sempre, mas sobretudo em relação a 
este estado final, que o presente se prende dignamente ao passado e ao futuro. O sacerdó- 
cio, único que pode instituir esta dupla ligação, torna-se, assim, o consagrador necessário 
de todos os poderes humanos, sem precisar ele próprio de nenhuma consagração estra- 
nha, pois é o órgão direto da suprema autoridade. 

Eis aí de onde procede este segundo axioma: Nenhuma sociedade se pode desen- 
volver e conservar sem um sacerdócio qualquer. Semelhantemente indispensável a todos 
para a educação e para o conselho, só este poder teórico é capaz de consagrar os gover- 
nantes e de proteger os governados. Ele constitui o moderador normal da vida pública, 
como a mulher o da vida privada, conquanto estas duas existências exijam, aliás, o con- 
curso contínuo da influência moral com o poder intelectual. Podeis resumir o conjunto 
das atribuições sociais do sacerdócio qualificando-o de Juiz, segundo a expressão bíbli- 
ca, porquanto seu tríplice ofício de conselheiro, de consagrador e de regulador se efetua 
sempre julgando, isto é, mediante uma apreciação respeitada. 

A MULHER — Felizmente o catolicismo me tinha preparado, meu pai, para bem 
conceber este princípio fundamental, apesar do crédito obtido pelos sofismas protes- 
tantes e deistas, alvejando, com obcecado encarniçamento, a principal construção da 
Idade Média. Não compreendo, porêm, suficientemente a razão por que o positivismo, 
consolidando e desenvolvendo esse grande esboço, conserva algumas expressões que 
parecem à primeira vista só se referir à sua origem teológica, posto que admitam um sen- 
tido puramente natural. Além do justo respeito que devia ter inspirado essa nomencla- 
tura histórica, presumo que ela também assenta sobre motivos dogmáticos, conquanto eu 
não possa discerni-los. 

O SACERDOTE — Esses motivos resultam sobretudo, minha filha, da falta de 
homogeneidade que apresentam estas duas expressões, cujo contraste recorda, assim, os 
dois caracteres principais da grande divisão social, em vez de indicar apenas um só. 
Qualificando de espiritual o poder teórico, faz-se assaz sentir que o outro é puramente 
material. Por este modo fica indiretamente assinalada a melhor comparação social que 


CATECISMO POSITIVISTA 241 


esses dois poderes comportam, a qual consiste em considerá-los como disciplinando, um 
as vontades, e o outro os atos. Reciprocamente, qualificar de temporal o poder prático é 
recordar assaz a eternidade que caracteriza o poder teórico. Isto posto, podemos definir 
suficientemente seus domínios respectivos: de um lado o presente, do outro o passado e 
o futuro; um institui especialmente a solidariedade, o outro a continuidade; a um per- 
tence sobretudo a vida objetiva, ao outro a vida subjetiva. Ora, estes dois atributos essen- 
ciais, simultaneamente indicados pela própria discordância dos nomes usados, concor- 
rem para lembrar também a última oposição entre os dois poderes humanos, quanto à 
sua extensão respectiva. De fato, a potência teórica, já como espiritual, já como eterna, 
comporta espontaneamente uma inteira universalidade, ao passo que a autoridade práti- 
ca, por ser material e temporal, permanece necessariamente local. Deste contraste final 
resulta a separação das duas, logo que ele se desenvolve assaz. 

A MULHER — Meus antigos hábitos católicos inclinam-me, meu pai, a condensar 
todas as atribuições essenciais do poder espiritual na direção sistemática da educação 
universal, onde sua competência exclusiva é incontestável. 

O SACERDOTE — Tal é, com efeito, minha filha, o ofício fundamental do sacer- 
dócio, que, quando cumpre dignamente este principal dever, adquire necessariamente 
uma grande influência sobre o conjunto da vida humana. Suas outras funções sociais 
constituem apenas a continuação natural ou o complemento indispensável deste destino 
característico. A prédica torna-se em primeiro lugar um prolongamento necessário desse 
ofício fundamental, a fim de recordar convenientemente os princípios da harmonia uni- 
versal, que a atividade especial nos arrasta amiúde a menosprezar. É também em virtude 
daquela base que o poder espiritual adquire sua aptidão para consagrar as funções e os 
órgãos, em nome de uma doutrina unanimemente considerada como devendo regular 
sempre a existência humana. Sobre o mesmo fundamento assenta a influência consultiva 
do sacerdócio acerca de todos os atos importantes da vida real, privada ou pública, em 
que cada qual sente amiúde a necessidade de recorrer livremente aos conselhos esclare- 
cidos e benévolos dos sábios que dirigiram sua iniciação sistemática. Enfim, a educação 
permite que o sacerdócio se torne, por um comum assentimento, o regulador normal dos 
conflitos práticos, por causa da igual confiança que naturalmente inspira aos superiores 
e inferiores. 

A MULHER — Sou assim levada, meu pai, a perguntar-vos em que é que consiste, 
no regime positivo, essa função preponderante do poder religioso. Sinto já que a educa- 
ção deve sobretudo dispor a viver para outrem, a fim de reviver em outrem por outrem, 
um ser espontaneamente inclinado a viver para si e em si. Esta grande transformação 
exige o concurso íntimo da mulher e do sacerdote, agindo convenientemente sobre o 
coração e o espírito. Mas necessito conceber com mais precisão seus ofícios respectivos. 

O SACERDOTE — Para isto, minha filha, considerai em primeiro lugar a educa- 
ção propriamente dita como tendo seu termo natural na idade da emancipação, em que 
cada qual, depois de ter recebido o terceiro sacramento social, torna-se, enfim, um servi- 
dor direto da Humanidade, que até então teve de conservá-lo sob tutela. Decomponde em 
seguida esta preparação de vinte e um anos em duas partes essenciais, uma espontânea, 
outra sistemática, das quais a segunda dura duas vezes menos que a primeira. Distingui- 
reis, assim, os domínios sucessivos do sexo afetivo e do poder teórico no conjunto da ini- 
ciação humana, começada pelo coração e completada pelo espírito, posto que ambos aí 
colaborem sempre. 

A primeira fase, que se estende até a puberdade, deve ser dividida em duas outras de 
igual duração, separadas pela dentição normal. Até este termo é só a mãe que dirige uma 


242 COMTE 


educação inteiramente espontânea, ao mesmo tempo física, intelectual e moral. Posto 
que o desenvolvimento corporal deva aqui prevalecer, o coração não tarda em tomar 
uma parte decisiva, que se fará sentir durante toda a existência. O surto das afeições 
domésticas nesta fase leva já a criança ao primeiro esboço do culto positivo, pela adora- 
ção de sua mãe, que lhe representa necessariamente a humanidade, cuja preponderância 
distinta se lhe torna, contudo, apreciável pela instituição da linguagem. Ao mesmo 
tempo, o espírito colhe empiricamente noções de todo gênero, que hão de fornecer em 
seguida os materiais da verdadeira sistematização. Se estes exercícios naturais dos senti- 
dos e dos músculos forem suficientemente utilizados, sem que se lhes altere nunca a 
espontaneidade, a vida especulativa e a vida ativa ficarão auspiciosamente esboçadas, 
subordinando-se sempre à vida afetiva. Mas a mãe é a única que pode combinar digna- 
mente estes três aspectos. Ela incitará a criança, sobretudo patrícia, a executar habitual- 
mente algumas operações materiais, a fim de que aprecie melhor a dificuldade de levar 
qualquer trabalho até o seu destino usual, e para que simpatize mais com as classes 
correspondentes. Esses exercícios tornarão o espírito mais preciso e mais nítido, e o cora- 
ção mais terno e mais humilde. 

Desde a dentição até a puberdade, a educação doméstica começa a sistematizar-se 
pela introdução gradual de uma série de estudos regulares. Contudo, continua sempre 
dirigida pela mãe, que facilmente poderá guiar trabalhos puramente estéticos, quando ela 
própria tiver convenientemente recebido a educação universal. Até então, deve ter-se ve- 
dado cuidadosamente à criança todo estudo propriamente dito, ainda mesmo de leitura 
ou de escrita, salvo as aquisições verdadeiramente espontâneas. Mas agora nasce o hábi- 
to do trabalho intelectual, pelo desenvolvimento regulado das faculdades de expressão, 
cuja cultura convém eminentemente a esta segunda infância. Semelhante estudo, essen- 
cialmente isento de preceitos quaisquer, consiste apenas em exercícios estéticos, em que 
as leituras poéticas são criteriosamente combinadas com o canto e o desenho. º' Ao 
passo que nesta fase o surto moral continua espontaneamente, o culto se desenvolve em 
breve. à medida que a criança adquire novos meios para exprimir melhor suas afeições. 
Com efeito, ela deve resumir o conjunto de seus exercícios por um canto e um retrato 
consagrados à sua mãe. º” Ao mesmo tempo, ela adquire sentimento mais completo da 
Humanidade, familiarizando-se com as principais obras-primas de todas as artes, con- 
tanto que nenhuma mistura de produções medíocres altere a um tempo seu gosto e sua 
moralidade. 

A MULHER — Estas duas idades da educação doméstica só me suscitam, meu 
pai, dificuldades sérias quanto à religião. Posto que então se possa, pelo coração, dispor 
muito a criança para a religião, não se pode tentar lhe ensinar coisa alguma dogmatica- 
mente, por lhe faltarem as bases científicas, reservadas à sua última preparação. Entre- 
tanto, não é possível evitar que ela se ocupe com este assunto e indague a respeito dele. 

O SACERDOTE — Lembrai-vos, minha filha, de que cada evolução individual 
deverá reproduzir espontaneamente todas as fases essenciais da iniciação coletiva. 
Concebereis, assim, que é mister, a este respeito, deixar a criança seguir livremente as 
leis gerais de nosso surto intelectual. Ela será naturalmente fetichista até a dentição e de- 


º1 “Se bem que tal elaboração deva conservar-se essencialmente espontânea, a solicitude materna já prepa- 
ra aí a disciplina normal, instituindo exercícios habituais, poéticos, fônicos e plásticos, mesmo antes da leitu- 
ra e da escrita.” (Política Positiva, tomo IV, p. 262.) 

82 «ma prece, um canto, um desenho, em honra da mãe, caracterizarão, pelo seu aperfeiçoamento crescen- 
te, a aptidão gradual para formular as emoções reais, sob a assistência tirada do tesouro estético da Humani- 
dade.” (Ibid., p. 263.) 


CATECISMO POSITIVISTA 243 


pois politeísta até a puberdade. ºº Estes dois estados filosóficos dispô-la-ão, como a espé- 
cie. a melhor desenvolver primeiro o espírito de observação, em seguida as faculdades 
estéticas. 

Quanto às perguntas que ela poderá fazer a seus pais, se descobrir que estes pensam 
de modo diverso dela, o caráter profundamente relativo do positivismo lhes permitirá 
sempre responder sem hipocrisia. Bastará que declarem lealmente à criança que as opi- 
niões atuais dela são as que convêm à sua idade, mas prevenindo-a de que em breve hão 
de mudar, segundo a lei a que eles próprios obedeceram outrora. Fazendo-lhe notar que 
ela já passou espontaneamente do fetichismo para o politeísmo, ela acreditará sem custo 
em novas transformações, que aliás não devem ser apressadas artificialmente. Seu espí- 
rito ficará, assim, afastado do absoluto, ao passo que seu coração simpatizará mais com 
as populações que representam esses estados preliminares. 


A MULHER — Este esclarecimento permite-me, meu pai, passar a apreciar a edu- 
cação sistemática. Conquanto ela deva ser sempre dirigida pelo sacerdócio, o ascendente 
contínuo que o positivismo concede ao coração sobre o espírito anuncia-me já que ela 
não hã de subtrair nunca o adolescente às suas relações de família. A reação diária des- 
tas relações torna-se até mais necessária para ele quando suas preocupações teóricas vão 
tender a secar-lhe o coração e a enchê-lo de orgulho. Conheço a profunda aversão que 
vos inspiram os nossos claustros escolâásticos, em que a corrupção se desenvolve ainda 
mais que a estupidez. 

O SACERDOTE — Com efeito, minha filha, é sob a constante superintendência de 
sua mãe que o adolescente, após ter recebido o sacramento da iniciação, vai, cada sema- 
na, à escola anexa ao templo da Humanidade ouvir do sacerdote uma ou duas lições de 
dogma. O fruto principal deste ensino exterior depende, aliás, do trabalho interior corres- 
pondente; porquanto a verdadeira influência didática nos dispõe a melhor meditar, em 
vez de dispensar-nos disso. 


O plano geral deste estudo sistemático do dogma positivo é naturalmente indicado 
pela hierarquia enciclopédica que caracteriza a ordem universal. Aos seus sete graus 
fundamentais correspondem outros tantos anos de noviciado teórico, reservando-se a 
quarta parte de cada ano para os exames e o descanso. O número das lições anuais fica. 
assim, reduzido a quarenta, com uma única por semana, o que basta para o estudo filosó- 
fico de cada ciência. Somente, a extensão e a dificuldade especiais da iniciação matema- 
tica, cuja importância teórica há de sempre prevalecer, exigem duas aulas hebdoma- 
dárias durante os dois primeiros anos, em que a aprendizagem prática ocupa menos. É 
assim que, desde a geometria até a moral, cada adolescente deve efetuar sistematica- 


83 Corrigir isto de acordo com o seguinte trecho da Política Positiva (tomo IV, p. 263.): “Meu discurso pre- 
liminar assinala para a segunda idade* uma síntese politéica, naturalmente oriunda da observação abstrata 
e plenamente conforme à cultura estética. Cumpre aqui restringir esta modificação aos três primeiros séculos 
do estado normal, cuja filiação histórica deve ficar, então, universalmente sentida. Quando a fusão da fetichi- 
dade na positividade determinar a inteira eliminação do teologismo,** a filosofia da primeira idade*** 
subsistirá durante a segunda, para incorporar-se, sob a terceira,**** ao estado final da razão humana. A cul- 
tura estética se tornará conciliável com este aperfeiçoamento da iniciação individual, desde logo dispensada 
de reproduzir servilmente a evolução coletiva. Sob o ascendente da língua universal, o surto da poesia feti- 
chica, em virtude de uma plena instituição dos meios subjetivos, fará surgir obras-primas mais bem adapta- 
das que as antigas ao conjunto do estado normal”. 

* Dos sete aos catorze anos. (M. L.) 

** V. a introdução da Síntese e o Complemento do Sr. Teixeira Mendes. (M. L.) 

*** Do nascinierto aos sete anos. (M. L.) 

**** Dos catorze aos vinte e um. (M. L.) 


244 COMTE 


mente, em sete anos, a ascensão objetiva que tantos séculos exigiu ao surto espontâneo 
da Humanidade. º * 

Durante esta elaboração teórica, um monoteísmo gradualmente simplificado ofere- 
ce-lhe, como à espécie, uma transição geral para o positivismo final. ºº* A uniformidade 
normal do sacerdócio ocidental tornará tais estudos plenamente conciliáveis com as pre- 
ciosas viagens de nossos proletários. Enquanto se realizam esses estudos, o prolonga- 
mento natural da cultura estética secundará a influência materna para prevenir ou repa- 
rar a degeneração moral deles. Limitadas no princípio às nossas línguas vivas, as leituras 
poéticas dos ocidentais abraçarão então as fontes greco-romanas de nosso surto intelec- 
tual e social, mas sempre sem nenhum mestre especial. 

Depois de ter desenvolvido seu culto intimo, e sentido já o culto doméstico, o futuro 
cidadão começa diretamente a adoração sistemática do verdadeiro Grande Ser, cujos 
principais benefícios ele pode então apreciar dignamente. O conjunto destas preparações 
conduz o jovem positivista a merecer o sacramento da admissão, quando seu espírito 
pode, enfim, servir à Família, à Pátria e à Humanidade, sem que o coração cesse de 
amá-las. 

A MULHER — Durante esta última iniciação, a superintendência materna, pare- 
ce-me, meu pai, que há de estar gravemente preocupada dos desvios a que as paixões 
expõem então o adolescente. Os discursos dos médicos por vezes me têm assustado a este 
respeito, fazendo-me temer que as leis naturais de nosso desenvolvimento corpóreo não 
tornem esses vícios ordinariamente inevitáveis. Necessito ser especialmente tranquilizada 
acerca de tal perigo, em que a perturbação moral pode, aliás, comprometer a evolução 
teórica. 

O SACERDOTE — Essas declamações doutorais vos afetariam muito menos se 
sentísseis suficientemente a incompetência de seus autores. Apesar da pretensão de estu- 
darem o homem, os médicos, teóricos ou práticos, estão longe de poder conhecer nossa 
natureza, sobretudo entre os modernos, porquanto eles se limitam essencialmente ao que 
temos de comum com os outros animais; de modo que mereceriam antes o título de 
veterinários, se a cultura empírica não compensasse um pouco, nos melhores dentre eles, 
os vícios da instrução teórica. Pois que o homem é o mais indivisível dos seres vivos, 
quem não estudar nele a alma e o corpo simultancamente não formará a respeito dele 
senão noções falsas ou superficiais. 

O materialismo acadêmico não pode, pois, prevalecer contra experiências numero- 
sas e decisivas, plenamente explicadas pela verdadeira teoria da natureza humana. Essa 
pretendida fatalidade sexual foi comumente superada, durante o conjunto da Idade 
Média, por todos aqueles que sofreram assaz a disciplina católica e cavalheiresca. 
Mesmo no meio da anarquia moderna, muitos exemplos individuais confirmam, ainda, a 
possibilidade de se conservar até o casamento uma verdadeira pureza. Uma existência 
laboriosa e sobretudo o surto contínuo das afeições domésticas bastam de ordinário para 
prevenir tais perigos, que só se tornam realmente insuperáveis em alguns casos muito 
excepcionais, abusivamente erigidos em tipos por doutores alheios às lutas morais. Nos- 
sos jovens adeptos serão habituados, desde a infância, a considerar o triunfo da sociabili- 
dade sobre a personalidade como o principal destino do homem. Preparar-se-ão a vencer 


8* [Lembraremos, porém. que, como Augusto Comte depois o estabeleceu, o estudo do dogma deve começar 
pela filosofia primeira, cuja exposição preencherá as três primeiras semanas, sendo feita em comum aos dois 
sexos reunidos no templo, perante todo o presbitério, e na presença dos principais magistrados c das famílias 
catecúmenas. V. Política Positiva, tomo IV. pp. 267-268. eo Complemento do Sr. Teixeira Mendes. 

8s V. atrás a nota 63 desta Conferência. 


CATECISMO POSITIVISTA 245 


um dia o instinto sexual lutando desde cedo contra o instinto nutritivo, que, alias, se liga 
naturalmente aquele pela contigúidade dos órgãos respectivos. Sabeis, enfim, que uma 
ternura profunda constitui sempre o melhor preservativo contra a libertinagem. Assim, a 
mãe acabará de garantir seu filho contra os vícios que temeis, dispondo-o a colocar dig- 
namente as afeições pessoais que deverão fixar em seguida o seu destino doméstico, em 
vez de esperar que elas surjam bruscamente de encontros fortuitos. 

A MULHER — Esta preciosa explicação não me deixa a desejar, meu pai, quanto 
ao conjunto da educação positiva, outro esclarecimento essencial senão acerca do que se 
refere especialmente ao meu sexo. Sinto já que, para que as mães possam dirigir a inicia- 
ção doméstica, elas próprias devem ter participado dignamente da instrução enciclopé- 
dica, de que ninguém deve ser excluído, salvo raras exceções individuais. Sem esta plena 
universalidade, a fé positiva não poderia obter o ascendente sistemático exigido pelo seu 
destino moral. Ademais, a mãe não poderia conservar assaz a superintendência moral da 
educação humana se sua própria ignorância a expusesse aos desdéns mal dissimulados 
de um filho amiúde cheio de orgulho teórico. Duvido, contudo, que as mulheres devam 
seguir os mesmos estudos que os homens, e sob os mesmos mestres, posto que com lições 
separadas. 

O SACERDOTE — O grande Moliére vos responde de antemão, minha filha, pres- 
crevendo ao vosso sexo clarezas a respeito de tudo; porquanto nossa instrução enciclo- 
pédica não tem, com efeito, outro fim. Ela é inteiramente desprendida do caráter especial 
que com razão vos repugna nos estudos atuais, tão pouco convenientes, de ordinário, aos 
homens como às mulheres. Desse fundo comum, cada prático ou teórico deve depois 
tirar espontaneamente, por si mesmo, os desenvolvimentos peculiares ao seu destino, sem 
ter habitualmente necessidade de nenhum ensino particular, a menos que tenha recebido 
mal a iniciação universal. 

Nosso plano geral do noviciado sistemático não comporta realmente, no tocante ao 
vosso sexo, outra redução a não ser a da duplicação hebdomadária que distingue os dois 
primeiros anos. Dispensadas da vida ativa, as mulheres devem limitar-se, em matemá- 
tica, a um estudo antes lógico do que científico, para o qual basta uma lição por semana. 
como em todo o resto do curso setenário. Esta simplificação apenas exige mais esforços 
filosóficos por parte do professor. 

Quanto à diversidade dos funcionários, ela tenderia a desacreditar igualmente os 
mestres e os alunos. Seria, aliás, contrária à natureza profundamente sintética que deve 
caracterizar o sacerdócio positivo. A fim de excluir melhor as tendências dispersivas, 
importa que cada sacerdote ensine sucessivamente os sete graus enciclopédicos. Daí deve 
resultar, ainda, a preciosa vantagem social de desenvolver, durante esta longa iniciação, 
relações contínuas com os mesmos alunos, que serão, assim, devedores de toda a sua ins- 
trução teórica ao mesmo sacerdote. Tal permanência facilitará muito a ação ulterior de 
nosso sacerdócio sobre o conjunto da vida real. 

Ora, motivos semelhantes exigem também que os dois sexos bebam nas mesmas 
fontes sua iniciação sistemática. Se o Sumo Pontífice da Humanidade não mudar dema- 
siado as residências sacerdotais, todos os conflitos domésticos serão mais facilmente 
apaziguados por efeito dessa subordinação pessoal dos diversos membros da família a 
mestres idênticos. Sacerdotes que só falassem a um dos sexos se tornariam socialmente 
insuficientes, além de que o seriam primeiro sob o aspecto intelectual. 

A MULHER — Agora, meu pai, concebo assaz a influência social que o sacer- 
dócio positivo há de naturalmente ganhar com o digno cumprimento do seu ofício funda- 
mental. No entanto, não sei se esta única base poderá proporcionar-lhe uma autoridade 


246 COMTE 


suficiente. Peço-vos, pois, que caracterizeis diretamente os diversos meios gerais de que 
o sacerdócio dispõe para fazer prevalecer sempre, tanto quanto possível, a harmonia 
universal. 

O SACERDOTE — Todos esses meios devem resultar, minha filha, do conjunto da 
educação. A fim de apreciá-los melhor, cumpre considerar que o noviciado positivo se 
termina por um ano inteiramente consagrado à moral. Esta instrução final será sempre 
dividida em duas partes iguais, uma teórica e outra prática. Na primeira, todas as leis 
essenciais de nossa natureza ficarão solidamente fundadas sobre o conjunto das noções 
relativas ao mundo, à vida e à sociedade. Esta base permitirá estabelecer de modo defini- 
tivo verdadeiras demonstrações para as regras de conduta peculiares a cada caso, pes- 
soal, doméstico ou cívico. Aí serão especificados todos os deveres de cada um dos quatro 
poderes necessários à providência humana. Estas determinações finais, que resumem a 
educação positiva, comportam uma grande eficácia, em virtude da disposição moral dos 
iniciados, até então preservados dos desvios inerentes à vida ativa. 

(0) conjunto destas regras práticas oferece a cada um o duplo destino de dirigir sua 
própria conduta e de julgar a alheia. Esta segunda aplicação acha-se mais garantida do 
que a primeira contra as paixões perturbadoras, que raras vezes nos impedem de apreciar 
os erros dos outros, por maior que seja a cegueira que elas nos inspirem em relação aos 
nossos. Ninguém está menos disposto do que o egoísta a tolerar o egoísmo, que por toda 
parte lhe suscita concorrentes intratáveis. 

É mister, assim, distinguir dois modos gerais na disciplina espiritual, um direto. 
outro indireto. O sacerdócio esforça-se principalmente por modificar o culpado, agindo 
primeiro sobre seu coração, depois sobre seu espírito. Este modo é ao mesmo tempo o 
mais puro e o mais eficaz, embora o menos aparente. Será sempre o único plenamente 
conforme com a natureza do poder espiritual, que deve disciplinar constantemente as 
vontades pela persuasão e pela convicção, sem nenhuma influência coercitiva. Mas seu 
emprego prolongado com prudência é muitas vezes insuficiente. Então o sacerdote, não 
podendo retificar as tendências interiores, procede indiretamente contra elas, invocando 
a opinião exterior. 

Sem converter o culpado, ele o contém pelo juízo dos outros. Nunca se poderá con- 
testar a plena legitimidade deste meio indireto, que assenta sempre sobre uma simples 
apreciação de cada conduta. Ninguém poderá impedir tal juízo, para o qual cada um 
concorre em relação aos outros, e que repousa sobre uma doutrina livremente aceita por 
todos. Entretanto, o culpado que não reconhece sua falta, ou cuja vontade não mudou, 
sofre assim a pressão de uma força verdadeiramente coercitiva. Não pode reclamar, 
porém, contra ela, porque tal força conserva-se puramente moral. Se os outros se absti- 
vessem de julgar, seriam eles então os oprimidos, e sem o terem merecido por forma 
alguma. Todavia, apesar da evidente legitimidade deste modo indireto, só se deverá 
recorrer a ele depois de ter esgotado os meios diretos. 

Quando se torna indispensável, ele comporta sucessivamente três graus gerais. O 
sacerdócio emprega primeiro a simples admoestação doméstica, perante os parentes e 
amigos convocados especialmente; depois, a censura pública, proclamada no templo da 
Humanidade; enfim, a excomunhão social, temporária ou perpétua. Sem exorbitar de sua 
Justa autoridade, o poder espiritual pode chegar, com efeito, até a pronunciar, em nome 
do Grande Ser, a indignidade radical de um falso servidor, incapaz, portanto, de parti- 
lhar dos deveres e dos benefícios da associação humana. Se, porém, o sacerdócio abu- 
sasse de semelhante atribuição, quer para satisfazer injustas animosidades, quer mesmo 
por um zelo obcecado e importuno, logo receberia o castigo. Com efeito, como toda a 


CATECISMO POSITIVISTA 247 


eficácia deste modo assenta na livre sanção do público, a neutralidade deste faria malo- 
grar o golpe, que tenderia, então, a desacreditar seus autores. Quando a opinião geral 
auxilia suficientemente a reprovação sacerdotal, esta disciplina espiritual comporta uma 
eficácia de que o passado não pode oferecer nenhuma medida, porque tal concurso ainda 
não pode ser instituído plenamente, por falta de educação positiva. 

Então o culpado, por mais rico ou poderoso que seja, ver-se-á algumas vezes, sem 
experimentar nenhuma perda material, gradualmente abandonado pelos seus subordina- 
dos, pelos seus fâmulos, e até pelos seus parentes mais próximos. Apesar de sua fortuna, 
ele poderá, nos casos extremos, ficar reduzido a prover diretamente à sua própria subsis- 
tência, porque ninguém quererá servi-lo. Se bem que tenha a liberdade de expatriar-se, ele 
só escapará à reprovação do sacerdócio universal refugiando-se nas populações que 
ainda forem alheias a fé positiva, que há de estender-se finalmente a todo o planeta 
humano. Este desenvolvimento extremo da disciplina religiosa deve felizmente permane- 
cer sempre excepcional. Porém, sua apreciação distinta é agora indispensável para nos 
indicar melhor a eficácia de semelhante regime. 

A MULHER — Por maior que seja esse poder moral, eu dificilmente conceberia, 
meu pai, que ele sempre dispensasse todo recurso à compressão material, quer sobre os 
bens, quer sobre as pessoas. 

O SACERDOTE — Com efeito, minha filha, a legislação propriamente dita ficará 
sempre necessária, para suprir a insuficiência da simples moral quanto às necessidades 
sociais mais urgentes. A consciência e a opinião seriam amiúde impotentes contra as 
infrações diárias, se a força temporal não aplicasse repressões físicas aos casos mais 
grosseiros. Além destes desvios frequentes, porém leves, devidos sobretudo à inércia dos 
bons instintos, a mesma garantia convém ainda mais as graves aberrações que resultam 
diretamente do predomínio dos maus pendores. Existem, com efeito, em nossa espécie, 
como nas outras, individualidades radicalmente viciosas, que não comportam ou não 
merecem nenhuma verdadeira correção. Relativamente a estas organizações excepcio- 
nais, a defesa social não deixará nunca de ser levada até a destruição solene de cada 
órgão vicioso, quando a indignidade for suficientemente verificada por atos decisivos. Só 
uma falsa filantropia pode conduzir a prodigalizar aos malvados uma comiseração e 
uma solicitude que seriam mais bem empregadas em favor de tantas vítimas honestas de 
nossas imperfeições sociais. Mas, sem que a morte jurídica e, com mais forte razão, a 
confiscação total ou parcial possam nunca cessar inteiramente, seu emprego há de tor- 
nar-se cada vez menos frequente à medida que a Humanidade se desenvolver. O surto 
continuo do sentimento, da inteligência e da atividade tende cada vez mais a fazer preva- 
lecer a disciplina espiritual sobre a repressão temporal, embora esta se conserve sempre 
indispensável. 

A MULHER — Esta vista geral do regime humano parece-me, meu pai, não tomar 
em consideração os casos em que a prevaricação moral provier do próprio sacerdócio. 

O SACERDOTE — Então, minha filha, a disciplina espiritual segue uma marcha 
semelhante, se bem que com menos regularidade. Porquanto, a moral universal demons- 
tra os deveres do sacerdócio tanto como os de qualquer classe, e até os faz sobressair 
mais, visto sua importância preponderante. A censura pública tende, aliás, a dirigir-se de 
preferência contra esses juízes universais, secretamente odiados pelos patrícios, fria- 
mente respeitados pelos proletários, e que de ordinário só despertam profundas simpatias 
entre as mulheres. Enfim, a natureza sempre discutível da fé positiva não lhe permite sus- 
citar prestígios capazes de impedir uma crítica que se tenha tornado verdadeiramente 
indispensável. 


248 COMTE 


Por maior que seja a veneração que habitualmente circunde o sacerdócio da Huma- 
nidade, ela não poderá resultar nunca senão do suficiente cumprimento de um ofício bem 
definido. As condições intelectuais e morais que o poder espiritual impõe a todos em 
nome da fé comum podem ser, com a mesma razão, voltadas contra ele, quando as 
infringir. 

Se, segundo a hipótese mais frequente, a prevaricação for apenas parcial, a disci- 
plina interior do sacerdócio bastará para acudir ao mal. Mas, em caso de negligência, a 
reparação pode sempre ser livremente provocada por um crente qualquer. A plenitude e 
a precisão que caracterizam a fé positiva permitem que qualquer um exerça espontanea- 
mente, sob sua responsabilidade própria, esse sacerdócio irregular, que se torna eficaz 
quando a opinião o sanciona. Enfim, se a corrupção se tornasse geral entre os nossos 
padres, um novo clero não tardaria em surgir de acordo com os votos públicos, preen- 
chendo melhor as condições impostas por uma doutrina inalterável, sempre superior aos 
seus Órgãos quaisquer. 

A MULHER — Sou assim levada, meu pai, a pedir-vos que completeis esta apre- 
ciação geral indicando a constituição peculiar ao sacerdócio positivo. 


O SACERDOTE — Facilmente sentireis, minha filha, que o destino fundamental 
de nosso sacerdócio exige, como primeira condição, uma renúncia completa ao domínio 
temporal, e mesmo à simples riqueza. É o compromisso inicial que todo aspirante ao 
sacerdócio deve contrair solenemente ao receber, aos vinte e oito anos, o sacramento de 
destinação. Nossos padres não herdam nem de suas famílias, quer para se preservarem 
dos desvios temporais, quer para deixarem os capitais aos que podem utilizá-los. A clas- 
se contemplativa deve ser sempre coletivamente sustentada pela classe ativa; primeiro, 
mediante os livres subsídios dos crentes, depois por intermédio do tesouro público, quan- 
do a fé torna-se unânime. Ela não deve, pois, possuir coisa alguma em particular, nem 
terras, nem casas, nem mesmo rendimentos quaisquer: salvo seu orçamento anual, sem- 
pre fixado pelo poder temporal. As vistas gerais e os sentimentos generosos que devem 
sempre distinguir o sacerdócio são profundamente incompatíveis com as idéias de deta- 
lhe e com as disposições orgulhosas inerentes a todo domínio prático. Para que alguém 
se limite a aconselhar, é necessário que não possa nunca mandar, nem pela riqueza: de 
outro modo nossa miserável natureza fica disposta a substituir amiúde a força às 
demonstrações. Esta condição sacerdotal foi sentida até o mais sublime exagero pelo 
admirável santo que tentou em vão, no século XIII, regenerar o catolicismo exausto. * * 
Prescrevendo, porém, aos seus discípulos uma pobreza absoluta, que eles em breve iludi- 
ram, esqueceu ele que os distraía assim do seu ofício pelos cuidados diários de sua exis- 
tência material. 

A fim de caracterizar melhor a proporção conveniente, creio dever indicar-vos os 
ordenados anuais que competem aos diversos graus do sacerdócio, adaptando-os à taxa 
atual das despesas usuais na população francesa, média, a este respeito, entre os diferen- 
tes povos ocidentais. Esta indicação sumária vos mostrará, por outro lado, a organiza- 
ção interior do clero positivo, já esboçada na explicação do culto. *? 


8º Refere-se a São Francisco de Assis (1182-1226). 

É oportuno observar aqui que a lei religiosa que obriga o sacerdote positivista a desistir de toda herança só 
será aplicável rigorosamente no estado normal, ou quando o subsídio positivista garantir plenamente a exis- 
tência material do novo clero. V. sobre esse assunto o trecho da carta de Augusto Comte ao Dr. Foley, 
reproduzido por nós em nossa Décima Circular Anual (1890), segundo a cópia que nos foi fornecida pelo Sr. 
R. Congreve. V. também a nota correspondente a esta em nossa edição francesa deste Catecismo. 

8? Os dados estatísticos e numéricos apresentados adiante, e em outros lugares desta e de outras obras de 
Augusto Comte, têm apenas por fim, como ele próprio o declarou, “tornar as questões assaz precisas, embo- 
ra esses dados não possam ainda ser exatamente determinados”. (Política Positiva, tomo IV, p. 253.) 


CATECISMO POSITIVISTA 249 


Nosso sacerdócio compõe-se, em geral, de três ordens sucessivas: os aspirantes, 
admitidos aos vinte e oito anos; os vigários ou suplentes, aos trinta e cinco; e os sacerdo- 
tes propriamente ditos, aos quarenta e dois. 

Conquanto os primeiros, cujo número é naturalmente ilimitado, sejam já conside- 
rados como dotados de uma verdadeira vocação sacerdotal, eles não pertencem ainda ao 
poder espiritual, do qual não exercem nenhuma função. Por isso sua livre desistência de 
toda herança é puramente provisória, e do mesmo modo seu ordenado, que fixamos em 
três mil francos. Sem residência sacerdotal, eles são contudo regularmente vigiados em 
seus trabalhos e costumes. 

Os vigários pertencem irrevogavelmente ao sacerdócio, posto que não exerçam 
ainda senão as funções de ensino e prédica, salvo delegação especial em caso urgente. 
Além da renúncia definitiva aos bens temporais, sua admissão exige um digno casamen- 
to. Eles residem com as suas famílias, porém em separado dos sacerdotes, no presbitério 
filosófico adjacente a cada templo da Humanidade, paralelamente à escola positiva. A 
classe que dirige em todas as outras a reação do coração sobre o espírito deve fornecer 
por sua vez o melhor tipo masculino do surto moral, mediante um pleno desenvolvi- 
mento das afeições domésticas, sem as quais o amor universal se torna ilusório. Embora 
o casamento fique facultativo para os cidadãos ordinários, ele torna-se obrigatório para 
os padres, cujo ofício não pode ser dignamente preenchido sem a influência contínua, 
aliás objetiva ou subjetiva, da mulher sobre o homem. A fim de melhor experimentá-los 
a este respeito, a religião positiva impõe já esta condição aos simples vigários. Este 
segundo grau, que conduz sempre ao terceiro, salvo malogro excepcional, proporciona 
um ordenado anual de seis mil francos. 

Durante os sete anos que o separam do sacerdócio completo, cada vigário professou 
todos os graus enciclopédicos e exercitou suficientemente seus talentos de prédica. Tor- 
na-se, então um verdadeiro sacerdote, e pode preencher, nas famílias ou nas cidades, o 
tríplice ofício de conselheiro, de consagrador e de regulador, que socialmente caracteriza 
o clero positivo. Neste estado definitivo, seu ordenado eleva-se a doze mil francos, além 
das indenizações pelas suas viagens de inspeção diocesana. 

Cada presbitério filosófico compõe-se de sete sacerdotes e três vigários, cujas resi- 
dências podem sempre mudar, se bem que estas remoções nunca devam ter lugar senão 
por motivos verdadeiramente graves. O número destes colégios sacerdotais é de dois mil 
em todo o Ocidente: o que faz corresponder um funcionário espiritual para seis mil habi- 
tantes; de onde cem mil para a terra inteira. Por mais fraca que pareça semelhante 
proporção, ela bastará realmente para todos os serviços, em virtude da natureza de uma 
doutrina que raramente exige explicações sistemáticas, quase sempre substituídas pela 
intervenção espontânea das mulheres e dos proletários. Importa restringir, tanto quanto 
possivel, a corporação sacerdotal, quer a fim de evitar despesas supérfluas, quer, sobretu- 
do, para que o clero seja mais bem composto. 

A MULHER — Em semelhante indicação não vejo, meu pai, a cabeça que deve 
reger esse vasto corpo. 

O SACERDOTE — Posto que sua doutrina e seu ofício tendam, minha filha, a 
dirigi-lo espontaneamente, sob a assistência da opinião pública, ele exige, com efeito, um 
chefe geral. Este poder supremo pertence ao Grande Sacerdote da Humanidade, que 
naturalmente há de residir na metrópole parisiense do Ocidente regenerado. º* Seu orde- 
nado pessoal é o quíntuplo do ordenado dos padres ordinários, além das despesas mate- 
riais que há de exigir seu imenso serviço. 


8º Não esquecer o que já ficou dito sobre a presidência provisória de Paris, como capital religiosa. 


250 COMTE 


Ele governa por si todo o clero positivo, instituindo, removendo, e mesmo demi- 
tindo sob sua própria responsabilidade moral, os membros quaisquer do sacerdócio. Sua 
principal solicitude consiste em manter a integridade do caráter sacerdotal contra as 
diversas seduções temporais. Todo padre servil ou sedicioso, que pretender o domínio 
político lisonjeando o patriciado ou o proletariado, será finalmente excluído do sacerdó- 
cio, a menos que não passe a figurar excepcionalmente entre os pensionistas, se tiver bas- 
tante mérito teórico. 

Para o conjunto de suas atribuições, o chefe supremo do positivismo ocidental é 
assistido por quatro superiores nacionais, *º cujo ordenado é metade do seu. Regem eles 
respectivamente, sob sua direção, as quatro classes de igrejas, italianas, espanholas, 
britânicas e germânicas. Quanto à França, o Sumo Pontífice serve aí de superior nacio- 
nal, se bem que ele possa provir de qualquer das cinco populações positivistas. Sua subs- 
tituição normal efetua-se, como na ordem temporal, designando ele próprio seu sucessor; 
mas neste caso sua escolha deverá ser sancionada pelo assentimento unânime dos quatro 


chefes parciais, e, mesmo em caso de divergência, segundo o voto dos dois mil decanos 
presbiteriais. 


ºº Depois Augusto Comte estabeleceu sete superiores nacionais, em vez de quatro, dos quais três são desti- 
nados às expansões coloniais do Ocidente. “Mas este número ainda aumentará à medida que a religião posi- 
tiva se for aproximando de sua universalidade normal. Este eminente sacerdócio oferecerá, pois, quarenta e 
nove membros quando a raça humana estiver completamente regenerada. Além de seu ofício habitual, eles 
deverão, após a morte ou o retiro do pontífice, controlar ou retificar a escolha que ele tiver livremente feito 


de seu sucessor, a respeito do qual consultarão, se for necessário, o conjunto dos decanos subordinados a 
cada um deles.” (Política Positiva, tomo IV, p. 256.) 


DECIMA CONFERÊNCIA 


REGIME PRIVADO 


A MULHER — Ao terminarmos nossa última conversação, não vos perguntei, 
meu pai, qual seria o objeto próprio de cada uma das outras conferências sobre o regime. 
Eu sentia assaz que as duas metades do domínio prático de nossa religião haviam de ofe- 
recer as mesmas divisões essenciais, sempre tiradas da existência que elas devem respec- 
tivamente idealizar e guiar. O estudo do culto indicava-me, pois, o plano que convém ao 
do regime, primeiro privado, depois público. Em relação ao que hoje nos ocupa, também 
concebo que ides aí distinguir semelhantemente a existência pessoal e da vida doméstica. 

O SACERDOTE — Quanto à primeira, que se torna a base normal de toda a con- 
duta humana, a regeneração positiva consiste sobretudo, minha filha, em instituí-la 
socialmente. Esta transformação radical, sempre vedada ao teologismo, sobretudo mono- 
téico, mas constantemente pressentida e reclamada cada vez mais pelo instinto público. 
não resulta agora de nenhum exagero sentimental. Ela assenta unicamente sobre uma 
exata apreciação da realidade, que, na ordem humana, mais sintética que qualquer outra. 
diz respeito ao conjunto primeiro do que às partes. 

Posto que cada função humana se exerça necessariamente por um órgão individual, 
sua verdadeira natureza é sempre social; pois que a participação pessoal subordina-se aí 
constantemente ao concurso indecomponível dos contemporâneos e dos precedentes. 
Tudo em nós pertence, portanto, à Humanidade, porque tudo nos vem dela: vida, fortu- 
na, talento, instrução, ternura, energia, etc. Um poeta, que nunca foi suspeito de tendên- 
cia subversiva, fez proclamar por Tito esta sentença decisiva, digna na verdade de seme- 
lhante órgão: 


So che tutto é di tutti; e che ne pure 
Di nascer merito chi d'esser nato 
Crede solo per se. Ӽ 


Pressentimentos análogos poderiam ser encontrados nas mais antigas composi- 
ções. Assim, o positivismo, reduzindo toda a moral humana a viver para outrem, limita- 
se realmente a sistematizar O instituto universal, depois de ter erguido o espírito teórico 
até o ponto de vista social, inacessível às sinteses teológicas ou metafísicas. 

O conjunto da educação positiva, tanto intelectual como afetiva, nos tornará 
profundamente familiar nossa inteira dependência para com a Humanidade, de maneira 
a fazer-nos dignamente sentir nosso necessário destino ao seu serviço contínuo. Na idade 
preparatória, incapaz de uma atividade útil, cada um de nós confessa sua própria impo- 


7º Metastásio, Clemência de Tito (drama), ato 2.º, cena 10.º: “Sei que tudo é de todos; e que nem sequer 
foi digno de nascer quem acredita que nasceu só para si”. 


no COMTE 


tência ante suas principais necessidades, cuja satisfação habitual reconhecemos que nos 
vem de alhures. Primeiro acreditamos que só devemos este auxilio à nossa família, que 
nos sustenta, cuida, instrui, etc. Não tardamos, porém, em distinguir uma providência 
mais elevada, da qual nossa mãe não é, em relação a cada um de nós, senão o ministro 
especial e o melhor representante. A instituição da linguagem bastaria por si só para 
revelar-nos essa providência. Porquanto, semelhante construção excede todo poder indi- 
vidual e resulta unicamente do concurso acumulado de todas as gerações humanas, ape- 
sar da diversidade dos idiomas. Por outro lado, o homem menos favorecido sente-se 
continuamente devedor à Humanidade de uma multidão de outros tesouros materiais, 
intelectuais. sociais e mesmo morais. 

Quando este sentimento é assaz nítido e vivo na idade preparatória, ele pode resistir 
depois aos sofismas apaixonados que suscita a vida real, teórica ou prática. Nossos 
esforços habituais tendem então a fazer-nos desconhecer a verdadeira providência, exa- 
gerando nosso valor pessoal. Mas a reflexão pode sempre dissipar esta ilusão ingrata 
naqueles que foram convenientemente educados. Porquanto a estes basta notar que o 
próprio bom êxito de seus trabalhos quaisquer depende sobretudo da imensa cooperação 
que seu obcecado orgulho esquece. O homem mais hábil e de melhor atividade não pode 
nunca retribuir senão uma porção mínima do que recebe. Ele continua, como na sua 
infância, a ser alimentado, protegido, desenvolvido, etc., pela Humanidade. Somente os 
ministros desta mudaram de modo a não serem mais distintamente apreciáveis. Em vez 
de tudo receber dela por intermédio dos pais, ela transmite-lhe, então, seus benefícios por 
uma multidão de agentes indiretos, cuja maior parte ele nunca virá a conhecer. Viver 
para outrem torna-se, pois, para cada um de nós, o dever contínuo que resulta rigorosa- 
mente deste fato irrecusável: viver por outrem. Tal é, sem nenhuma exaltação simpática, 
o resultado necessário de uma exata apreciação da realidade, filosoficamente apanhada 
em seu conjunto. 

A MULHER — Muito folgo, meu pai, de ver assim consagrada sistematicamente 
uma disposição que eu me exprobrei algumas vezes a mim própria, atribuindo-a ao exa- 
gero de meus sentimentos. Antes de ser positivista. eu costumava dizer: “Que prazeres 
podem exceder os da dedicação?” 71 Agora saberei defender este santo principio contra 
as zombarias dos egoístas. e talvez despertar-lhes emoções tais que os impossibilitem de 
duvidar dele. 

O SACERDOTE — Espontaneamente pressentistes, minha filha, o principal cará- 
ter do positivismo. Consiste ele em resumo, enfim, numa mesma fórmula, a lei do dever 
e a da felicidade, até então proclamadas inconciliáveis por todas as doutrinas, embora o 
instinto público aspirasse sempre a combiná-las. A concordância necessária de ambas 
resulta diretamente da existência natural das inclinações benévolas, cientificamente 
demonstrada no século passado pelo conjunto dos animais, em que as partes respectivas 
do coração e do espirito são mais bem apreciáveis. 

Além de que nossa harmonia moral repousa exclusivamente sobre o altruísmo, só 
este pode proporcionar-nos também a maior intensidade de vida. Esses entes degradados, 
que hoje não aspiram senão a viver, teriam tentações de renunciar ao seu brutal egoísmo 
se uma só vez tivessem provado suficientemente o que vós tão bem chamais os prazeres 
da dedicação. Eles compreendem, então, que viver para outrem fornece o único meio de 
desenvolver livremente toda a existência humana, estendendo-a simultaneamente ao mais 


7? Pensamento de Clotilde de Vaux, em sua novela Lucie, publicada primeiro no Nacional, a 20 e 21 de 


junho de 1845, e depois reproduzida pelo Mestre no 1.º volume de sua Política Positiva. 


CATECISMO POSITIVISTA ZOS 


vasto presente, ao mais antigo passado, e mesmo ao mais remoto futuro. Os instintos 
simpáticos são os únicos que comportam um surto inalterável, porque cada indivíduo é 
aí secundado por todos os outros, que comprimem, pelo contrário, suas tendências 
pessoais. 

Eis aí como a felicidade coincidira necessariamente com o dever. Sem dúvida, a 
bela definição da virtude, por um moralista do século XVIII, como um esforço sobre si 
mesmo em favor dos outros, "? não deixará nunca de ser aplicável. Nossa imperfeita 
natureza há de sempre precisar, de fato, de um verdadeiro esforço para subordinar à 
sociabilidade essa personalidade que nossas condições de existência excitam continua- 
mente. Mas quando esse triunfo é assim obtido, ele tende espontaneamente, além da 
força do hábito, a consolidar-se e desenvolver-se, em virtude do encanto incomparável 
inerente às emoções e aos atos simpáticos. 

Sentimos, então, que a verdadeira felicidade resulta sobretudo de uma digna 
submissão, única base durável de uma nobre e vasta atividade. Longe de deplorar o con- 
Junto das fatalidades que nos dominam, esforçamo-nos por corroborar a ordem corres- 
pondente, impondo-nos regras artificiais, que melhor combatam nosso egoísmo, fonte 
principal do infortúnio humano. Quando estas instituições são estabelecidas livremente, 
reconhece-se em breve, segundo o admirável preceito de Descartes, 'º que elas merecem 
tanto respeito como as leis involuntárias, cuja eficácia moral não é tão grande. 

A MULHER — Semelhante apreciação da natureza humana faz-me compreender 
enfim, meu pai, a possibilidade de tornar essencialmente altruístas mesmo as regras rela- 
tivas à existência pessoal, sempre motivadas até aqui por uma prudência egoísta. A sabe- 
doria antiga resumiu a moral neste preceito: Tratar os outros como se desejaria ser por 
eles tratado. Por mais preciosa que então fosse esta prescrição geral, limitava-se ela a 
regular um cálculo puramente pessoal. Este caráter encontra-se também no fundo da 
grande fórmula católica: Amar seu próximo como a si mesmo. Não só o egoísmo é assim 
sancionado em vez de ser comprimido, mas, ainda, é diretamente excitado pelo motivo 
em que se funda essa regra, pelo amor de Deus, sem nenhuma simpatia humana, além de 
que semelhante amor reduzia-se ordinariamente ao temor. Todavia, comparando este 
princípio ao anterior, reconhece-se nele um grande progresso. Porquanto o primeiro limi- 
tava-se aos atos, ao passo que o segundo penetra até os sentimentos que dirigem aqueles. 
No entanto, este aperfeiçoamento moral fica muito incompleto, enquanto o amor teoló- 
gico conserva-lhe sua mácula egoísta. 


Só o positivismo é ao mesmo tempo digno e verdadeiro, quando nos convida a viver 
para outrem. Esta fórmula definitiva da moral humana não consagra diretamente senão 
os pendores benévolos, fonte comum da felicidade e do dever. Porém ela sanciona impli- 
citamente os instintos pessoais como condições necessárias de nossa existência, contanto 
que se subordinem aos primeiros. Sob esta única reserva, a satisfação contínua deles nos 
é até prescrita, a fim de bem adaptarmo-nos ao serviço real da Humanidade, à qual 
pertencemos inteiramente. 

Compreendo assim a profunda reprovação que vos vi lançar sempre contra o suici- 
dio, que até então só me parecera condenado pelo catolicismo. Com efeito, devemos 
ainda menos dispor arbitrariamente de nossa vida do que de nossa fortuna ou de nossos 
talentos quaisquer; pois que ela é mais preciosa à Humanidade, de quem a recebemos. 
Porém, pelo mesmo princípio, a religião positiva condena também, se bem que amiúde 
provenha de motivos respeitáveis, essa espécie de suicídio crônico, pelo menos social, 


72 Duclos, Considération sur les Moeurs de ce Sieécle, capítulo IV (1751). 
73 Discours de la Méthode, 3.º parte: “ Algumas regras de moral tiradas do método”, 2.º máxima (1637). 


254 COMTE 


que o regime católico acoroçoou com demasiada freguência. Lembro-me de que o abuso 
diário da disciplina corporal tinha por tal forma anulado os solitários da Tebaida, que os 
seus abades viram-se afinal obrigados a permitir que eles rezassem sentados, ou mesmo 
deitados, por não poderem ficar muito tempo de joelhos. 

O SACERDOTE — Além de nobilitarmos a justa satisfação dos instintos pessoais, 
subordinando-os sempre ao seu destino social, notai, minha filha, que esta subordinação 
necessária torna-se aí a única base possível de prescrições verdadeiramente inabaláveis. 
Sem este princípio único, as regras mais insignificantes relativas à existência pessoal 
conservam-se necessariamente flutuantes, a menos de referi-las arbitrariamente aos 
decretos sobrenaturais, que não comportam senão uma validade temporária e parcial, 
doravante exausta. 

Quando nossa sobriedade apenas baseia-se na prudência pessoal, fica amiúde 
exposta aos sofismas da gula, que se tornam mesmo irrefutáveis em relação a muitos 
indivíduos, capazes de suportar por muito tempo as orgias com uma verdadeira impuni- 
dade corporal. Mas a apreciação social dissipa logo toda incerteza, prescrevendo a cada 
um uma alimentação quase sempre menos abundante do que a que poderia ser sem peri- 
go material para ele. Com efeito, indo além da medida muito moderada que exige o 
nosso serviço da Família, da Pátria e da Humanidade, consumimos assim provisões que 
a equidade moral destinava a outros. Ao mesmo tempo, a reação cerebral de semelhante 
regime corporal tende necessariamente a degradar nossa fraca inteligência, científica, 
estética ou técnica. As imagens se tornam habitualmente mais confusas, a indução e a 
dedução mais difíceis e menos rápidas: tudo fica atenuado, inclusive os talentos de 
expressão. 


Mas a reação moral da minima intemperança diária é que constitui seu principal 
perigo, por ser menos evitável e mais corruptora. Porquanto, estendendo assim o mais 
pessoal de todos os atos além do que exige nossa verdadeira conservação, nós cultiva- 
mos, tanto quanto possível, o egoísmo à custa do altruísmo; pois que vencemos até nossa 
simpatia involuntária por aqueles que então carecem de alimentos. Ademais, a íntima 
vizinhança cerebral dos diversos instintos egoístas propaga em breve a todos os outros a 
forte excitação, mesmo passageira, de qualquer um deles. O admirável pintor da natureza 
humana a quem devemos O incomparável poema da Imitação sentiu profundamente esta 
conexão normal, quando nos diz: Frena gulam, et omnem carnis inclinationem facilius 
frenabis. ? * Se relerdes cotidianamente esse tesouro inesgotável da verdadeira sabedoria, 
substituindo nele Deus pela Humanidade, não tardareis em sentir que esta transformação 
final muito consolida aí semelhante preceito, como a maior parte dos outros. 

A sua restrição do instinto nutritivo ainda está muito longe da extensão sistemática 
que gradualmente lhe há de proporcionar a religião positiva. Porquanto nossa sensuali- 
dade sofiística continua a erigir em necessidades essenciais muitas excitações materiais 
que são antes nocivas que úteis. Tal é, sobretudo, o uso do vinho, cuja proibição muçul- 
mana conservou-se sincera e geral durante os séculos em que o islamismo desenvolveu 
melhor o gênero de atividade temporal para o qual julgamos essa bebida especialmente 
indispensável. 7º Perscrutando dignamente os admiráveis desígnios do grande Maomé, 


7* Imitação de Cristo, livro I, capítulo XIX: “Refreia a gula e mais facilmente refrearás toda inclinação 
carnal”. 

?8 Eis aqui os trechos proibitivos do Alcorão: “Eles te interrogarão sobre o vinho e o jogo. Dize-lhes: Em 
ambos existem mal e vantagens para os homens, porém o mal excede as vantagens que eles proporcionam”. 
(Cap. II, 8 216, trad. francesa de Kasimirski.) “Oh, crentes! o vinho, os jogos de azar, as estátuas e a sorte 
das flechas são uma abominação inventada por Satã; abstende-vos deles e sereis felizes.” (Cap. V, 88 92 e 
93.) 


CATECISMO POSITIVISTA 25 


reconhece-se logo que ele quis assim aperfeiçoar radicalmente o conjunto da natureza 
humana, primeiro no indivíduo e depois na espécie, em virtude da lei da hereditariedade. 
Esta nobre tentativa não malogrou realmente, como também não abortaram todos os ou- 
tros esforços peculiares ao monoteísmo da Idade Média, tanto do Oriente, como do Oci- 
dente, em favor de nosso aperfeiçoamento essencial. Somente aquela, como estes, carece 
de ser sistematizada pelo positivismo, que a saberá consolidar e desenvolver, sem 
comprometer nosso surto industrial. Desde hoje, esta salutar abstinência, tão comum já 
em vosso sexo, pelo menos no sul, pode gradualmente estender-se a todos os órgãos 
avançados do progresso humano. À medida que o positivismo prevalecer, as mulheres e 
os sacerdotes renunciarão livremente, em todo o Ocidente, salvo os casos excepcionais, 
a esta excitação habitual, tanto mais funesta quanto ela conduz com frequência a muitos 
outros abusos. 

A MULHER — Compreendo, meu pai, por que tendes insistido tanto sobre a disci- 
plina positiva do instinto nutritivo. Na verdade, além de seu predomínio direto e das suas 
reações indiretas, ela constitui aqui o tipo suficiente de todas as outras repressões nor- 
mais dos apetites egoístas. O conjunto destas regras sistematiza, em ambos os sexos, a 
verdadeira pureza, primeira base de uma moralidade inabalável. Com efeito, esta pre- 
ciosa expressão não deve ficar limitada aos dois órgãos contíguos que determinam a 
conservação da espécie e do indivíduo. Devemos também estendê-la ao conjunto dos sete 
instintos pessoais, que temos sempre que purificar suficientemente, mediante sua subor- 
dinação normal ao serviço continuo da Humanidade. 

O SACERDOTE — Este grande princípio, minha filha, não cessará nunca de supe- 
rar a este respeito todas as dúvidas sinceras, e de resolver mesmo os mais capciosos 
sofismas. O coração do verdadeiro positivista deve, no interior, repelir sempre as vonta- 
des arbitrárias, como seu espírito as afasta no exterior. Nossa humilde deusa está, com 
efeito, isenta dos vários caprichos peculiares ao seu precursor todo-poderoso. Seus atos 
quaisquer seguem leis apreciáveis, que o estudo positivo de sua natureza e de seu destino 
nos revela cada vez mais. Subordinando-nos tanto quanto possível a essas leis, faremos 
sem cessar progressos inexauríveis na conquista da paz, da felicidade e da dignidade. 

A MULHER — O conjunto destas indicações parece-me, meu pai, caracterizar 
assaz a constituição positiva do regime pessoal. De acordo com o quadro cerebral. 
poder-se-ia realizar, para cada um dos instintos egoístas; um estudo moral equivalente 
àquele de que acaba de ser objeto o principal deles, a fim de se determinarem as repres- 
sões convenientes. Quanto aos meios de desenvolver as diversas inclinações simpáticas, 
nosso culto já indica os que não resultam do exercício direto. Todas estas explicações 
especiais excederiam os limites da atual exposição, e até a desviariam de seu principal 
destino. Quando a fé positiva houver prevalecido, chegará o tempo de compor um novo 
Catecismo mais análogo do dos católicos, para detalhar essas diferentes regras práticas, 
cujas bases gerais serão já familiares aos verdadeiros crentes.  º Mas este Catecismo ini- 
cial é, pelo contrário, destinado sobretudo a assentar esses fundamentos essenciais, não 
considerando as aplicações senão enquanto indispensáveis ao estabelecimento dos prin- 
cípios. Rogo-vos, pois, que, sem insistirdes mais na moral pessoal, passeis agora à segun- 
da parte do regime privado, caracterizando a regeneração positiva de existência 
doméstica. 


78 “Penso como vós a respeito da utilidade de um manual positivista mais popular e menos sistemático que 
o nosso Catecismo. Mas ele só pode dimanar de uma mulher. Já o teríamos se eu não tivesse sido objetiva- 
mente privado, há dez anos. da colega angélica que regenerou meu coração e por conseguinte completou o 
desenvolvimento de meu espíirito.” (Lettres à des Positivistes Anglais, p. 84). 


256 COMTE 


O SACERDOTE — Consiste ela essencialmente, minha filha, na constituição 
altruísta do casamento humano, instituído até aqui segundo um princípio puramente 
egoísta, como satisfação legítima dos apetites sexuais, tendente à reprodução da espécie. 
Esta brutal apreciação teve de prevalecer sistematicamente, enquanto as doutrinas domi- 
nantes desconheceram os pensadores benévolos. Mas o instinto público nunca cessou de 
protestar contra ela, e suscitou sempre impulsos empíricos cada vez mais fortes, de que 
resultaram os aperfeiçoamentos sucessivos da instituição conjugal. Só o positivismo vem 
estabelecer enfim, sob este aspecto fundamental, uma digna concordância entre a teoria 
e a prática, apoiando-se na principal descoberta da ciência moderna, quanto à existência 
natural dos instintos altruístas. 

Esta grande noção, cujo alcance é ainda tão pouco compreendido, conduz logo a 
regenerar o casamento humano, concebendo-o doravante como destinado sobretudo ao 
aperfeiçoamento mútuo dos dois sexos, abstraído de toda sensualidade. Ela demonstra 
diretamente a dupla preeminência afetiva da mulher, pela menor intensidade dos pendo- 
res pessoais, sobretudo dos mais grosseiros, e pela energia superior das inclinações 
simpáticas. Daí resulta a teoria positiva do casamento, em que vosso sexo melhora o 
meu, disciplinando o impulso carnal sem o qual a inferioridade moral do homem não lhe 
permitiria quase nunca uma suficiente ternura. Porém esta relação fundamental é feliz- 
mente secundada por todos os outros contrastes cerebrais dos dois sexos. A superiori- 
dade masculina é incontestável em tudo o que diz respeito ao caráter propriamente dito, 
fonte principal do comando. Quanto à inteligência, ela oferece, no homem, mais força e 
extensão; na mulher, mais justeza e penetração. Tudo, pois, concorre para provar a eficá- 
cia mútua dessa união íntima, que constitui a mais perfeita das amizades, embelezada 
por uma incomparável posse recíproca. Fora de semelhante laço, as rivalidades atuais ou 
possíveis impedem sempre a plenitude de confiança que só pode existir de um sexo em 
relação ao outro. 

Os apetites sexuais não têm aí outro destino senão produzir ou entreter, sobretudo 
no homem, os impulsos adequados a desenvolver a ternura. Mas para isso cumpre que as 
satisfações desses apetites permaneçam muito moderadas. De outra sorte, sua natureza 
profundamente egoísta tende, pelo contrário, a estimular a personalidade, quase tanto 
como os excessos nutritivos, e amiúde mesmo com mais gravidade, porque a mulher é aí 
odiosamente sacrificada às brutalidades do homem. Quando meu sexo consegue ser bas- 
tante puro, como ordinariamente é o vosso, a ponto de a ternura poder surgir assaz nele 
sem essa excitação grosseira, a principal eficácia do casamento desenvolve-se muito 
melhor. 

Tal será o caso normal da casta união consagrada pelo nosso culto quanto aos ca- 
sais incapazes de concorrerem dignamente para a propagação da espécie humana. Mui- 
tas moléstias se transmitem, e mesmo se agravam, pela hereditariedade; de sorte que 
milhares de crianças nascem fracas para pouco depois morrerem, sem que sua existência 
tenha nunca deixado de ser um fardo. Na civilização moderna, em que todos os nasci- 
mentos são igualmente protegidos, esses tristes resultados multiplicam-se mais do que 
entre os antigos, que destruíam a maior parte dos descendentes débeis. Se perscrutás- 
semos suficientemente esta grande questão talvez achássemos que a quarta parte das 
populações ocidentais deveria sabiamente abster-se de toda procriação, para que tal fun- 
ção ficasse concentrada nos pares convenientemente dotados. Quando a propagação de 
nossa espécie merecer os mesmos cuidados que a das principais raças domésticas, há de 
se reconhecer a necessidade de assim regulá-la. Mas isso não pode resultar senão da livre 
instituição dos casamentos castos, de conformidade com a teoria positiva da união con- 


CATECISMO POSITIVISTA 2 


Jugal, em que as relações sexuais não são diretamente necessárias. Com efeito, a proibi- 
ção legal do casamento, frequentes vezes invocada pelos médicos contra as moléstias 
hereditárias, ofereceria um remédio tão odioso quanto ilusório. Só a influência privada e 
pública da religião positiva é que pode determinar, a este respeito, resoluções que tanto 
carecem de eficácia como de dignidade quando não são plenamente voluntárias. Nestas 
uniões excepcionais, a verdadeira natureza do casamento se tornará mais bem apreciável 
quando as duas almas forem bem organizadas. Um amplo uso da adoção permitirá, 
mesmo neste caso, o surto dos outros afetos de família, aliviando, por outro lado, os ca- 
sais especialmente votados à propagação. 

A MULHER — Esta teoria basta, meu pai, para caracterizar diretamente o casa- 
mento, abstraindo de seus resultados corporais, que nem sempre se realizam. O melhora- 
mento moral do homem constitui, pois, a principal missão da mulher nessa incomparável 
união instituída para o aperfeiçoamento recíproco dos dois sexos. Quanto às funções da 
mãe, já vós as definistes como consistindo sobretudo em dirigir o conjunto da educação 
humana, a fim de que o coração aí prevaleça sempre sobre o espírito. Assim, em virtude 
da sucessão normal destes dois ofícios femininos, vosso sexo permanece sempre sob a 
providência afetiva do meu. Semelhante destino desde logo indica que o laço conjugal 
deve ser único e também indissolúvel, a fim de que as relações domésticas possam adqui- 
rir a plenitude e a fixidez que sua eficácia moral exige. Esta dupla condição é tão con- 
forme à natureza humana que as uniões ilícitas tendem para ela espontaneamente. Acre- 
dito, porém, que o divórcio não deve ser inteiramente proibido. 

O SACERDOTE — Vós sabeis, minha filha, que Santo Agostinho, superando, pela 
sua própria razão, o gênio necessariamente absoluto de sua doutrina teológica, começa 
sua obra principal observando que o homicídio pode amiúde tornar-se desculpável, e 
algumas vezes louvável. ?”? O mesmo se pode dizer da mentira e de quase tudo o que me- 
rece uma reprovação geral. Estendendo, porém, esta exceção ao divórcio, cumpre não 
alterar a indissolubilidade fundamental do casamento. Verdadeiramente só existe um 
único caso em que a união conjugal deva ser legalmente dissolvida, e vem a ser quando 
um dos cônjuges é condenado a uma pena infamante qualquer, que o fere de morte 
social. Nas outras perturbações, a indignidade suficientemente prolongada pode somente 
determinar a ruptura moral do laço, o que produz uma separação pessoal, mas sem per- 
mitir um novo casamento. A religião positiva impõe ao inocente uma castidade compati- 
vel, aliás, com a mais profunda ternura. Ainda que esta condição lhe pareça rigorosa, 
deve ele aceitá-la, primeiro atendendo à ordem geral, e depois como uma justa conse- 
quência de seu primitivo erro. 

A MULHER — Já conheço, meu pai, a santa lei da viuvez eterna, pela qual o posi- 
tivismo completa, enfim, a grande instituição do casamento. Meu sexo nunca objetará 
contra isso, e vós me ensinastes a refutar os diversos sofismas, mesmo científicos, que 
ainda poderiam dimanar do vosso. Sem tal complemento, a monogamia torna-se ilusória, 
pois que as novas núpcias produzem sempre uma poligamia subjetiva, a menos que a es- 
posa anterior não seja esquecida, o que deve tranquilizar pouco a outra. Só o pensamento 
de tal mudança basta para alterar muito a união atual, em virtude de uma eventualidade 
sempre possível. É só pela segurança de uma inalterável perpetuidade que os laços ínti- 
mos podem adquirir a consistência e a plenitude indispensáveis à sua eficácia moral. A 
mais desprezível das seitas efêmeras geradas pela anarquia moderna parece-me ser aque- 
la que quis erigir a inconstância em condição de felicidade, como a instabilidade das ocu- 


77 Cidade de Deus, cap. 21 do Livro 1. 


258 COMTE 


pações em meio de aperfeiçoamento. '* Li, na Política Positiva, uma observação que 
muito me impressionou a este respeito: “Entre dois entes tão complexos e tão diversos 
como o homem e a mulher, a vida inteira não é demais para se conhecerem bem e se 
amarem dignamente”. 'º Longe de acoimar de ilusão a alta idéia que dois verdadeiros 
esposos formam amiúde um do outro, quase sempre tenho-a atribuído à apreciação mais 
profunda que só pode ser obtida por uma intimidade plena, que, aliás, desenvolve quali- 
dades desconhecidas aos indiferentes. Deve-se mesmo considerar como muito honrosa 
para a nossa espécie essa grande estima que seus membros se inspiram mutuamente 
quando se estudam muito. Com efeito, só o ódio e a indiferença deveriam merecer a acu- 
sação de cegueira que uma apreciação superficial aplica ao amor. É necessário, portanto, 
julgar como plenamente conforme à natureza humana a instituição que prolonga além do 
túmulo a identificação de dois dignos esposos. Não há intimidade que possa ser compa- 
rada à deles; pois que, entre a mãe e o filho, a diferença de idade, e mesmo uma justa 
veneração, impedem sempre uma inteira harmonia. 

O SACERDOTE — Além disso, minha filha, a viuvez é o único meio de propor- 
cionar à influência feminina sua principal eficácia. Porquanto, durante a vida objetiva, as 
relações sexuais alteram muito a reação simpática da esposa, mesclando a esse influxo 
uma grosseira personalidade. Eis aí por que a mãe permanece então nosso principal anjo 
da guarda. Os anjos não têm sexos, pois que são eternos. 

Mas, quando a existência subjetiva purificou a intimidade superior que distingue a 
esposa, esta se torna definitivamente nossa melhor providência moral. Um só ano de 
digno casamento basta para ministrar à vida mais longa uma fonte de felicidade e de 
aperfeiçoamento que o tempo desenvolve sem cessar, depurando-a sempre à medida que, 
esquecidas as imperfeições, as qualidades mais sobressaem. Assim, sem a união subjetiva 
que resulta da viuvez, suprimir-se-ia a ação moral da mulher sobre o homem justamente 
no momento em que devem surgir seus principais resultados, por efeito da plenitude e da 
pureza que tal influxo adquire pela morte. Quando este complemento do matrimônio for 
suficientemente apreciado, ele há de fornecer um dos melhores caracteres práticos da 
religião positiva, pela evidente incompatibilidade de semelhante instituição com o princi- 
pio teológico. 

A MULHER — Para acabar de compreender a constituição doméstica. falta-me, 
meu pai, conhecer suas condições materiais. 

O SACERDOTE — Elas resultam, minha filha, do destino moral e social dessa 
constituição doméstica. O duplo ofício fundamental da mulher, como mãe e como espo- 
sa, equivale, em relação à família, ao do poder espiritual no Estado. Exige. portanto, a 
mesma isenção da vida ativa, e uma análoga desistência de todo comando. Esta dupla 
abstenção é ainda mais indispensável à mulher do que ao padre, a fim de conservar a 
preeminência afetiva onde reside seu verdadeiro mérito, menos suscetível que a superiori- 
dade mental de resistir aos impulsos práticos. Toda mulher deve, pois, ser cuidadosa- 
mente preservada do trabalho exterior, a fim de poder preencher dignamente sua santa 
missão. Voluntariamente encerrada no santuário doméstico, a mulher aí promove livre- 
mente o aperfeiçoamento moral de seu esposo e de seus filhos, cujas justas homenagens 
ela aí dignamente recebe. 

Semelhante constituição assenta materialmente sobre esta regra fundamental, que 
só o positivismo sistematizou, mas que sempre foi pressentida pelo instinto universal: O 


78 Augusto Comte parece referir-se aqui ao fourierismo. 
79 Política Positiva, tomo LI, p. 237. 


CATECISMO POSITIVISTA 299 


homem deve sustentar a mulher. Ela equivale à obrigação da classe ativa para com a 
classe contemplativa, salvo a diferença essencial quanto ao modo de execução. Para o 
sustento do sacerdócio, o dever fica puramente coletivo, e não pode tornar-se individual 
senão em casos muito excepcionais. É precisamente o inverso a respeito das mulheres, 
em virtude da diversidade das influências morais, domésticas num caso, e universais no 
outro. Sustentada primeiro pelo seu pai ou pelos seus irmãos, cada mulher é em seguida 
sustentada pelo seu esposo, ou pelos seus filhos. Na falta destes amparos especiais, a 
obrigação do sexo ativo para com o sexo afetivo torna-se geral, e o governo deve prover 
a isso, sob a inspiração do sacerdócio. Tal é a base material da verdadeira constituição 
doméstica. 

Porém, para o preenchimento desta condição necessita-se desde logo outra institui- 
ção, a renúncia das mulheres a toda herança. Esta livre deserdação é tão justificada 
quanto a dos padres já para prevenir uma influência corruptora, já a fim de concentrar 
os capitais humanos nas mãos dos que devem dirigir seu emprego. A riqueza é mesmo 
mais perigosa para vosso sexo do que para o sacerdócio, porque altera mais a preemi- 
nência moral do que a superioridade mental. Enfim, a deserdação feminina fornece o 
único meio de suprimir o uso dos dotes, tão pernicioso a tantas famílias, e diretamente 
contrário à verdadeira instituição do casamento. Então a união conjugal resultará de 
uma digna escolha, ampliada livremente a todas as classes, em virtude da uniformidade 
que a educação universal há de produzir entre elas, apesar das desigualdades necessárias 
do poder e da riqueza. Porém, a fim de que o conjunto destes motivos conserve toda a 
sua validade, é preciso que a deserdação feminina fique plenamente voluntária, sem 
nunca resultar de uma determinação legal. 

A MULHER — A religião positiva pouco custo terá, meu pai, em fazer prevalecer 
esta resolução entre as mulheres, quando a existência material delas estiver dignamente 
assegurada em virtude dos deveres privados garantidos pelas convicções públicas. Mui- 
tas vezes têm-se deplorado os caprichos que produz a riqueza ociosa nas que querem 
assim mandar em vez de amar. Mas a degradação moral tem-me parecido ainda maior 
quando a mulher se enriquece pelo seu próprio trabalho. A avidez continua do lucro faz- 
lhe perder então aquela benevolência espontânea que o outro tipo conserva em meio de 
suas dissipações. Não podem existir piores chefes industriais do que as mulheres. 

O SACERDOTE — A fim de completar este apanhado geral da constituição 
doméstica peculiar ao positivismo, resta-me indicar-vos, minha filha, uma instituição 
indispensável para a inteira eficácia de semelhante renovação. Consiste ela no pleno 
desenvolvimento da faculdade de testar, agregando-se-lhe a livre adoção; mas sob a 
responsabilidade moral do chefe de família, sempre submetido ao digno exame do sacer- 
dócio e do público. Na conferência seguinte vos assinalarei o alcance social desta dupla 
instituição, para remediar, tanto quanto possível, os principais inconvenientes que com- 
porta a transmissão hereditária das propriedades materiais. Agora, porém, só deveis 
apreciar nela sua aptidão doméstica para purificar e consolidar todos os laços elementa- 
res, libertando-os dos ignóbeis votos que hoje os maculam. É o único meio de tornar o 
afeto dos filhos pelos pais, se não tão terno, ao menos tão nobre quanto o das mulheres 
pelos maridos. A amizade fraternal ficará, assim, mais bem garantida do que pela igual- 
dade revolucionária das partilhas, ou mesmo do que segundo a subordinação feudal aos 
primogênitos. Entre os ricos, cada qual só esperará dos seus os auxílios materiais neces- 
sários à sua educação e à sua instalação social. Então todos se entregarão sem inquieta- 


260 COMTE 


ção ao pleno desenvolvimento das melhores afeições. Se os pais não obtiverem filhos dig- 
nos, suprirão esta falta mediante criteriosas adoções.*º 

Tais são as famílias em cujo seio um sacerdócio livremente venerado por todos os 
seus membros se esforçará sem cessar por prevenir ou reparar os conflitos mútuos prove- 
nientes das más paixões. Ele fará sentir às mulheres o mérito da submissão, desenvol- 
vendo esta admirável máxima de Aristóteles: 4 principal força da mulher consiste em 
superar a dificuldade de obedecer.*" A educação as terá preparado para compreenderem 


8º Este quadro da famúlia normal deve ser completado pelas seguintes indicações da Política Positiva (tomo 
IV. pp. 292-294): 

“Este preâmbulo permite explicar diretamente a sistematização da Família pela Pátria em nome da Humani- 
dade. Devo começar esta exposição completando e retificando minhas indicações estáticas sobre o número 
normal dos elementos domésticos. 

“Minha teoria da família os reduz a dois grupos, um formado do par fundamental, o outro do produto, 
ordinariamente tríplice, da união conjugal. Ora. esta constituição. suficiente para a solidariedade, fica 
incompleta quanto à continuidade, que aí se limita a ligar o futuro ao presente, mas sem abarcar o passado. 
Para que este esteja também compreendido, a família positiva deve admitir um outro par, composto dos pais 
do marido. Sem semelhante complemento, o estado normal ficaria, a este respeito, abaixo do modo em que 
a instituição dos anciãos colocou a existência preparatória. A família não ofereceria uma suficiente harmo- 
nia com a cidade, pois que o elemento feminino não manifesta aí senão o caráter moral do poder espiritual, 
cuja natureza intelectual só pode ser representada pela velhice. Estas duas fontes do ascendente religioso 
achando-se combinadas na mãe do esposo, ela se tornará a deusa da família positiva, quando o conjunto do 
regime final tiver dissipado por toda parte conflitos fundados sobre pretensões ilegitimas. Tão subjetiva 
como objetiva, a unidade doméstica assim constituida não consolidará menos os deveres materiais do que as 
condições morais, assegurando assaz a subsistência dos velhos para que eles renunciem livremente aos capi- 
tais que cessam de administrar. 

“Semelhante complemento deve assinalar por toda parte sete membros à composição média da família posi- 
tiva, assim formada de três elementos que representam respectivamente o passado, o presente e o futuro, 
desenvolvendo tanto a continuidade como a solidariedade. Mas esta constituição doméstica, que basta à 
massa popular, exige um novo suplemento nas classes dirigentes, sobretudo nas práticas, pela incorporação 
dos auxiliares completos e permanentes, instituídos no culto universal.* Sejam quais forem as restrições 
reclamadas pelo luxo dos ricos, o serviço público ficaria gravemente comprometido se os patrícios. e mesmo 
os padres, se vissem tão obrigados como os proletários a satisfazer pelas suas próprias famílias os cuidados 
materiais de suas casas. 

“A fonte invejosa das repugnâncias democráticas manifesta se, a este respeito, pela sua inconsegquência ordi- 
nária, que recusa aos ricos o que permite aos pobres, pois que os hábitos católicos consagraram os servido- 
res do clero. Estas disposições anárquicas serão facilmente superadas pelo positivismo, que, sistematizando 
os costumes ocidentais, desenvolvidos nos povos preservados do protestantismo e do deismo. santifica a 
domesticidade, de hoje em diante incorporada ao culto da Humanidade. 

“A vista deste suplemento, as famílias serão ordinariamente compostas cada uma de dez membros, na dupla 
aristocracia que deve dirigir a existência normal; pois que a adjunção do elemento doméstico não seria digna 
e estável se o serviço obrigasse a renunciar aos laços principais. Quando a existência dos trabalhadores esti- 
ver assegurada por toda parte, nenhum rico poderá mais encontrar. salvo raras exceções, um auxiliar livre- 
mente separado de sua mulher e filho. tão apropriados, aliás, a assitillo em relação aos outros como a si 
mesmo. 

“Entre as famílias patrícias, cumpre dobrar esta adjunção de três membros, que basta para o clero. Porquan- 
to, além das exigências de uma ostentação muito ligada ao mando para que os costumes normais devam e 
possam extingui-la, um serviço mais vasto e mais complexo exige semelhante acréscimo, que aliás unirã mais 
o patriciado ao proletariado. Assim a família positiva, ordinariamente composta de sete membros, com- 
preende dez ou trezc entre os chefes teóricos ou práticos, sem que os costumes e as situações comportem 
habitualmente uma extensão superior.” 

* Augusto Comte refere-se aqui aos criados dos dois sexos (M. L.) 

8? Em vão procuramos na obra de Aristóteles (traduções latinas e francesas) a frase textual atribuida aqui 
por Augusto Comte ao “príncipe eterno dos verdadeiros filósofos”. O que encontramos de mais aproximado 
foi o seguinte trecho da Política, segundo a tradução de Barthelemy Saint -Hilaire: “ Reconheçamos, portan- 
to, que todos os indivíduos de que acabamos de falar têm seu quinhão de virtude moral, porém que a sabedo- 


CATECISMO POSITIVISTA 261 


que todo domínio, longe de elevá-las realmente, degrada-as necessariamente, alterando o 
principal valor de seu sexo, por esperarem da força o prestígio que é só devido ao amor. 
Ao mesmo tempo, o sacerdócio as protegerá contra a tirania dos esposos e contra a 
ingratidão dos filhos, recordando com critério a uns e a outros os preceitos da religião 
positiva sobre a superioridade moral e o ofício social do sexo afetivo. É sobretudo pela 
reação preponderante da vida pública que a vida privada tem sido gradualmente melho- 
rada até hoje. O regime final confia o desenvolvimento desta influência ao sacerdócio da 
Humanidade. pois só ele pode penetrar dignamente no seio das famílias, para nobilitar e 
consolidar todos os afetos domésticos. referindo-os sempre ao seu destino social. 


ria do homem não é a mesma que a da mulher: que sua coragem, sua equidade não são as mesmas, como 
pensava Sócrates. e que a força do primeiro é toda de comando. ao passo que a da segunda é toda de submis- 
são”. (Livro I.cap. 5.88.) 

Augusto Comte costumava citar de cor. e. por isso, conquanto essencialmente exatas. suas citações apar- 
tam-sc às vezes da letra dos originais. 


Em 


RP 


Rn e = 


UNDÉCIMA CONFERENCIA 


A MULHER — Ao encetarmos a parte superior da moral positiva, devo pedir-vos, 
meu pai, três esclarecimentos preliminares. 

O primeiro versa sobre a acusação metafísica que frequentes vezes se faz ao positi- 
vismo de não admitir nenhuma espécie de direitos. Se assim é, sinto-me mais propensa a 
felicitar-vos do que a queixar-me por isso; porquanto a intervenção do direito quase sem- 
pre tem-me parecido destinada a dispensar de razão ou de afeição. Felizmente tal interfe- 
rência é vedada às mulheres, que ainda ficam valendo mais por isso. Vós conheceis 
minha máxima favorita: Mais do que as outras, nossa espécie precisa de deveres para 
gerar sentimentos.*? 

O SACERDOTE — É verdade, minha filha, que o positivismo não reconhece a 
ninguém outro direito senão o de cumprir sempre o seu dever. Em termos mais corretos, 
nossa religião impõe a todos a obrigação de auxiliarem a cada um no preenchimento de 
sua função peculiar. A noção de direito deve desaparecer do domínio político, como a 
noção de causa do domínio filosófico; porque ambas se referem a vontades indiscutíveis. 
Assim, os direitos, quaisquer que eles sejam, supõem necessariamente uma origem sobre- 
natural, única que pode subtraí-los à discussão humana. Quando estiveram concentrados 
nos chefes, eles comportaram uma verdadeira eficácia social como garantias normais de 
uma indispensável obediência, enquanto durou o regime preliminar, fundado sobre o teo- 
logismo e a guerra. Mas depois que o declínio do monoteísmo dispersou os direitos pelos 
governados, em nome, mais ou menos distinto, do mesmo princípio divino, eles se torna- 
ram tão anárquicos neste caso como retrógrados no outro. Desde então, só conduzem, de 
ambos os lados, a prolongar a confusão revolucionária; de sorte que eles devem desapa- 
recer inteiramente por comum acordo dos homens honestos e sensatos de qualquer 
partido. 

O positivismo não admite nunca senão deveres de todos para com todos; pois que 
seu ponto de vista sempre social não pode comportar nenhuma noção de direito, constan- 
temente fundada na individualidade. Nós nascemos carregados de obrigações de todo gê- 
nero para com os nossos predecessores, os nossos sucessores e os nossos contempora- 
neos. Elas não fazem depois senão desenvolver-se ou acumular-se antes que possamos 
prestar qualquer serviço. Sobre que fundamento humano poderia, pois, assentar a idéia 
de direito, que razoavelmente suporia uma eficácia prévia? Por maiores que possam ser 
nossos esforços, a mais longa vida bem empregada não nos permitirá jamais restituir 
senão uma parte imperceptível do que houvermos recebido. Entretanto, só depois de uma 


82 Qutro pensamento de Clotilde de Vaux, numa de suas cartas a Augusto Comte (79.? da coleção publi- 
cada com o Testamento do Mestre). 


264 COMTE 


restituição completa é que ficariamos dignamente autorizados a reclamar a reciproci- 
dade dos novos serviços. Todo direito humano é, portanto, tão absurdo quanto moral. 
Pois que não existem mais direitos divinos, esta noção deve ser eliminada de todo, como 
puramente relativa ao regime preliminar e diretamente incompatível com o estado final, 
que não admite senão deveres, em virtude de funções. 

A MULHER — Agora, meu pai, eu quisera saber se, além da relação geral entre o 
regime público e o regime privado, este não suscita disposições que possam nos preparar 
pessoalmente para o outro. 

O SACERDOTE — As que resultam da existência individual consistem sobretudo, 
minha filha, no culto íntimo que lhe corresponde. Este não é somente adequado a conso- 
lidar e desenvolver todas as virtudes privadas. Sua principal aplicação diz respeito à vida 
pública, na qual nosso tríplice anjo custódio deve a um tempo desviar-nos do mal e 
impulsionar-nos para o bem, mediante breves invocações especiais relativas aos diferen- 
tes casos essenciais. O poder de semelhante auxílio foi já dignamente sentido no nobre 
esboço de culto feminino tentado pela admirável cavalaria da Idade Média. Essas almas 
egrégias tinham harmonizado tão bem a vida privada e a vida pública que a imagem que- 
rida vinha amiúde animar e aformosear suas cenas guerreiras, deixando surgir as mais 
ternas emoções no meio mesmo da desolação ou do terror. Se, pois, as afeições brandas 
puderam combinar-se familiarmente com uma atividade destrutiva, um concurso aná- 
logo deve resultar com mais vantagem de trabalhos diretamente relativos à felicidade 
humana e puros de quaisquer consegiências dolorosas para quem quer de seja. O santo 
cântico que termina o mais belo dos poemas convém mais ao novo culto do que ao 
antigo. 


Donna, se" tanto grande e tanto vali 
Che qual vuol grazia ed a te non ricorre 
Sua disianza vuol volar senz ali. 

La tua benignita non pur soccorre 
A chi dimanda, ma molte fiate 
Liberamente al dimandar precorre. 

In te misericordia, in te pietate, 

In te magnificenza, in te s aduna 
Quantunque in creatura é di bontate.** 


Mais do que qualquer outra classe, o sacerdócio da Humanidade deve utilizar seme- 
lhante assistência. Suas lutas sociais só servirão para melhor desenvolver-lhe a coragem, 
a perseverança e também a prudência. Porém elas hão de tender amiúde a perturbar sua 
pureza moral por seduções ambiciosas, tanto mais temíveis quanto parecerão dimanar de 
um santo zelo. Nossos padres sentirão, pois, frequente necessidade de retemperarem sua 
verdadeira dignidade em um nobre comércio, primeiro subjetivo, e depois mesmo objeti- 
vo, com o sexo amante. 

Quanto às disposições provenientes da existência doméstica, esta suscitará sobre- 
tudo a melhor aprendizagem desta regra fundamental que cada um se deverá impor livre- 
mente, como base pessoal do regime público: Viver às claras. Para esconderem suas tor- 


*º Dante, Paraíso, canto último: 

Senhora, tão grande és, e tão potente / Que mercês implorar sem teu auxílio / Equivale a querer voar sem 
asas. / Tua Benignidade não sufraga / Somente a orações; mas, com fregiiência, / Com generosos dons as 
antecipa / Em ti misericórdia, em ti piedade, / Em ti munificência se coadunam / E quanto tem mais nobre 
a criatura. (Trad. de Bonifácio de Abreu.) 


CATECISMO POSITIVISTA 265 


pezas morais, nossos metafísicos fizeram prevalecer a vergonhosa legislação que ainda 
nos proíbe escrutar a vida privada dos homens públicos. Mas o positivismo, sistemati- 
zando dignamente o instinto universal, invocará sempre a escrupulosa apreciação da 
existência pessoal e doméstica como a melhor garantia da conduta social. Como nin- 
guém deve aspirar senão à estima daqueles a quem também estima, não somos obrigados 
a dar a todos, sem distinção, conta habitual de nossas ações quaisquer. Porém, por mais 
restrito que possa vir a ser, em certos casos, o número de nossos juízes, basta que sempre 
existam alguns para que a lei de viver às claras nunca perca sua eficácia moral, impelin- 
do-nos constantemente a nada fazer que não seja confessável. Semelhante disposição 
prescreve logo o respeito contínuo da verdade e o cumprimento escrupuloso de todas as 
promessas. Este duplo dever geral, dignamente introduzido na Idade Média, resume toda 
a moral pública e faz-vos sentir a profunda realidade daquela admirável sentença em que 
Dante, representando o impulso cavalheiresco, designa para os traidores o mais horrível 
inferno.º * No meio mesmo da anarquia moderna, o melhor cantor da cavalaria procla- 
mava dignamente a principal máxima de nossos heróicos antepassados: 


La fede unqua non deve esser corrotta, 
O data a un solo, o data insieme a mille; 


Basta una volta che s abbia promesso.* * 


Estes pressentimentos crescentes dos costumes sociocráticos são irrevogavelmente 
sistematizados pela religião positiva, que representa a mentira e a traição como direta- 
mente incompatíveis com toda cooperação humana. 

A MULHER — Devo perguntar-vos enfim, meu pai, se o regime público não com- 
porta uma divisão geral análoga à do regime privado, baseada na desigual extensão dos 
laços correspondentes. Nem o coração, nem mesmo o espírito, pode subir dignamente da 
Família à Humanidade sem o intermédio da Pátria. Isto posto, a vida pública parece-me 
oferecer necessariamente dois graus bem distintos, considerando nela primeiro as rela- 
ções cívicas, depois as relações universais. 

O SACERDOTE — Com efeito, minha filha, esta distinção determina o plano 
geral da presente conferência. Antes, porém, de aplicá-la, cumpre dar-lhe bastante preci- 
são e consistência, restringindo a santa noção de Pátria, hoje demasiado vaga, e por 
conseguinte quase estéril, entre os modernos, por causa da extensão exorbitante dos Esta- 
dos ocidentais. Completando a indicação esboçada no estudo do dogma, deveis conceber 
aqui as futuras repúblicas como muito mais circunscritas do que o anunciam hoje os 
preconceitos revolucionários. A dissolução gradual do sistema colonial a partir da 
independência americana não é, no fundo, senão o começo de um deslocamento irrevo- 
gável de todos os domínios demasiado vastos que surgiram depois da ruptura do laço 
católico. 


8* É o nono círculo do Inferno, cujo pavimento é constituído por duríssimo gelo. Divide-se ele em quatro 
compartimentos concêntricos, respectivamente destinados aos que traem seus pais, sua pátria, seus amigos 
e seus benfeitores. No quarto, intitulado Judeca, por causa de Judas Iscariotes, acham-se Bruto e Cássio, 
assassinos do grande Cesar. A descrição destes quatro compartimentos ocupa os quatro últimos cantos do 
Inferno. 

88 Ariosto: Orlando Furioso, canto 21,2.º estância: 

“A fé nunca deve ser quebrada, ou dada a um só ou dada a mil ao mesmo tempo. .... Sem jurar, ou sem 
qualquer outro sinal expresso, basta ter prometido uma vez”. 


266 COMTE 


Na ordem final, os Estados ocidentais não terão uma extensão superior à 
que nos apresentam agora a Toscana, a Bélgica, a Holanda e em breve a Sicília, a Sarde- 
nha, etc. Uma população de um a três milhões de habitantes, na proporção ordinária de 
sessenta por quilômetro quadrado, constitui, com efeito, a extensão que convém aos 
Estados verdadeiramente livres; porque só devem ser assim qualificados aqueles cujas 
partes todas acham-se reunidas, sem nenhuma violência, pelo sentimento espontâneo de 
uma solidariedade ativa. O prolongamento da paz ocidental, dissipando os temores sé- 
rios de invasão exterior e mesmo de coligação retrógrada, fará sentir em breve, por toda 
parte, a necessidade de dissolver pacificamente agregações factícias daqui por diante 
destituídas de verdadeiros motivos. Antes do fim do século XIX, a República Francesa 
achar-se-à livremente decomposta em dezessete repúblicas independentes, formadas cada 
uma de cinco departamentos atuais. A próxima separação da Irlanda deve em seguida 
conduzir à ruptura dos laços artificiais que hoje reúnem a Escócia, e mesmo o País de 
Gales, à Inglaterra propriamente dita. Operando-se uma decomposição semelhante em 
todos os Estados demasiado vastos, Portugal e Irlanda, se nenhuma divisão surgir nestes 
dois países, formarão, no começo do século seguinte, as maiores repúblicas do Ocidente. 
É a pátrias assim restritas que deve ser aqui aplicada a apreciação normal do regime pú- 
blico. Então o sentimento nacional torna-se um verdadeiro intermediário entre a afeição 
doméstica e o amor universal. 

A MULHER — Graças a esta preciosa simplificação da política positiva, espero 
não encontrar, meu pai, nenhuma dificuldade grave em vossa explicação direta de nosso 
regime público. 

O SACERDOTE — O regime público consiste todo ele, minha filha, em realizar 
dignamente esta dupla máxima: Dedicação dos fortes pelos fracos; veneração dos fracos 
pelos fortes. Nenhuma sociedade pode perdurar se os inferiores não respeitarem os supe- 
riores. Nada confirma melhor semelhante lei do que a degradação atual, em que, por 
falta de amor, cada um não obedece senão à força, se bem que o orgulho revolucionário 
deplore o pretendido servilismo de nossos antepassados, que sabiam amar seus chefes. A 
segunda parte da dupla condição social é, pois, comum a todos os tempos. Mas a pri- 
meira não foi realmente introduzida senão na Idade Média; pois que toda a Antiguidade, 
salvo felizes exceções pessoais, pensava de modo diverso, como o atesta seu aforismo 
predileto: Paucis nascitur humanum genus.º º Assim, a harmonia pública repousa sobre 
a atividade combinada dos dois melhores instintos altruístas, respectivamente apro- 
priados aos inferiores e aos superiores em suas mútuas relações. Todavia, este concurso 
só pode surgir e persistir nas almas assaz preparadas por um hábito suficiente da mais 
enérgica, conquanto a menos eminente, das três inclinações simpáticas mediante um 
justo surto dos afetos domésticos. 

Tal solução reside inteiramente na separação fundamental entre os dois poderes 
espiritual e temporal. Não é possível assegurar a dedicação dos fortes aos fracos senão 
pelo advento de uma classe de fortes que só possa obter ascendente social devotando-se 
aos fracos, em virtude da livre veneração destes. É assim que o sacerdócio se torna a 
alma da verdadeira sociocracia. Mas isto supõe que ele se cinja sempre a aconselhar, sem 
nunca poder mandar. p 

Eis aí por que tanto insisti sobre sua desistência completa do poder, e até da rique- 
za. A fim de garantir melhor tal renúncia, é também necessário que os padres se abste- 


88 “Fumanum paucis vivit genus” (Lucano, Farsália, Livro V, v. 343): “O gênero humano vive para um 
pequeno número de homens”. 


CATECISMO POSITIVISTA 267 


nham de tirar algum proveito material de seus trabalhos quaisquer, livros ou lições, de 
modo a só subsistirem sempre de seus ordenados anuais. O orçamento central do sacer- 
dócio proverá, salvo exceções, à impressão de todos os escritos dimanados de seus 
membros, com a única obrigação de serem assinados pelos seus autores, deixando a 
distribuição a cargo destes, que disso devem ser os melhores juízes, e que assim ficam 
constantemente responsáveis. Todo sacerdote que vendesse seus livros ou suas lições 
seria. portanto. castigado severamente. até perder seu oficio na terceira infração. 


A fim de completar a purificação do sacerdócio, cumpre também impedir que ele 
oprima qualquer doutrina contrária à sua. É por isso que o regime positivo exigirá sem- 
pre plena liberdade de exposição, e mesmo de discussão, como convém a dogmas 
constantemente demonstráveis. As únicas restrições normais dessa liberdade funda- 
mental devem resultar da opinião pública, a qual, em virtude de uma sábia educação uni- 
versal, repelirá espontaneamente as teses contrárias às suas convicções quaisquer. Já se 
pode fazer idéia disso pela disciplina involuntária que a fé positiva mantém, sem nenhu- 
ma coação material, quanto às principais noções da ciência moderna. Contanto que a 
contradita nunca seja legalmente proibida, ninguém se poderá queixar razoavelmente da 
repugnância que inspirar ao público. Semelhante conjunto de condições obrigará sempre 
o sacerdócio a persuadir ou convencer para exercer uma ação real sobre os grandes e os 
pequenos. 

A MULHER — Devendo a intervenção cívica do sacerdócio consistir sobretudo 
em regular dignamente as relações habituais entre a patriciado e o proletariado, rogo- 
vos, meu pai, que caracterizeis especialmente esse ofício fundamental. 

O SACERDOTE — Para isso, minha filha, devo em primeiro lugar especificar 
mais a constituição normal da indústria moderna. Assenta ela sobre duas condições 
gerais, já sensíveis no fim da Idade Média, e que desde então se foram sempre desenvol- 
vendo: a divisão entre os empresários? ? e os trabalhadores; e a hierarquia interna do 
patriciado, da qual resulta a do proletariado. A subordinação dos campos às cidades 
completa esta organização. 

Depois de abolida a servidão, a indústria cresceu assaz para prescindir de trabalhar 
por encomenda; ela começou a prover de antemão às necessidades públicas. Desde 
então, os empresários propriamente ditos não tardam em separar-se dos simples traba- 
lhadores. Seu surto distinto determinou gradualmente, segundo a natureza de suas 
ocupações, a hierarquia normal que o nosso culto já vos indica. Eleva-se ela dos agricul- 
tores aos fabricantes, em seguida destes aos comerciantes, para subir enfim aos banquei- 
ros, fundando cada classe sobre a precedente. Operações mais indiretas, confiadas a 
agentes mais escolhidos e menos numerosos, exigem, assim, concepções mais gerais e 
mais abstratas, como também uma responsabilidade mais vasta. Esta classificação 
espontânea, sistematizada pelo positivismo de acordo com o nosso princípio hierárquico, 
erige a coordenação normal da indústria em prolongamento natural das que são peculia- 
res primeiro à ciência, depois à arte. 

A eficácia social desta hierarquia industrial supõe que o patriciado está assaz 
concentrado para que cada membro aí administre tudo o que ele puder realmente dirigir, 
a fim de diminuir o mais possível as despesas de gerência e assegurar melhor a responsa- 
bilidade. Aqui o verdadeiro interesse dos inferiores coincide plenamente com a tendência 
natural dos superiores, porque grandes deveres exigem grandes forças. O que sobretudo 


87 Servimo-nos da palavra empresário para verter o vocábulo entrepreneur, na acepção que este termo é 
aqui empregado. Não achamos outra mais adequada. 


268 COMTE 


agrava nossas desordens atuais é a invejosa ambição da pequena burguesia e seu obce- 
cado desdém pelas existências populares. Quando os costumes dela se regenerarem 
assaz, sob o impulso combinado das situações e das convicções, sua cabeça fundir-se-á 
no patriciado e sua massa no proletariado, de maneira a dissolver as classes médias 
propriamente ditas. 

A MULHER — Esta indispensável concentração das riquezas já é desejada, meu 
pai, pelos proletários de nossas grandes cidades, como um verdadeiro benefício social, 
embora nossos camponeses persistam demasiado em querer uma dispersão quase indefi- 
nida. Mas semelhante condensação deve depender muito da transmissão hereditária das 
propriedades. A indicação que esboçastes a este respeito quando me explicastes o culto 
parecendo-me insuficiente, rogo-vos que a completeis aqui. 

O SACERDOTE — Cumpre, minha filha, referi-la ao princípio mais geral que re- 
gula a sucessão normal dos funcionários quaisquer. O modo eletivo não foi introduzido 
senão como um protesto, por muito tempo indispensável, contra o regime das castas, que 
afinal se havia tornado .opressivo. Mas, em si mesma, toda escolha dos superiores pelos 
inferiores é profundamente anárquica: nunca serviu senão para dissolver gradualmente 
uma ordem viciosa. O estado final só deve, a este respeito, diferir do regime primitivo em 
substituir à hereditariedade teocrática, baseada unicamente no nascimento, a heredita- 
riedade sociocrática, proveniente sempre de uma livre iniciativa de cada funcionário. 

Todas as complicações sociais inspiradas pela desconfiança não conduzem real- 
mente senão à irresponsabilidade. Confiança inteira e plena responsabilidade, tal é o 
duplo caráter do regime positivo. O digno órgão de uma função qualquer é sempre o me- 
lhor juiz de seu sucessor, cuja designação deverá, contudo, ser submetida por ele ao seu 
próprio superior. É somente na ordem espiritual que todas as escolhas pertencem ao 
chefe supremo, a fim de se obter a suficiente concentração de um oficio tão dificil. 

Em relação às mais elevadas funções temporais, a inspeção do superior é natural- 
mente substituída pelo exame do sacerdócio e do público. É por isso que o chefe deve 
designar solenemente seu sucessor ao receber, como sabeis, o sacramento do retiro, 
numa idade em que sua escolha pode ainda ser livremente modificada de acordo com os 
avisos convenientes. Nos casos excepcionais o sacerdócio poderia, pois, recusando essa 
consagração, impedir suficientemente este derradeiro ato de um poder indigno ou 
incapaz. 

A riqueza sendo socialmente concebida como uma autoridade, sua transmissão 
deve seguir as mesmas regras gerais. Esta livre escolha do herdeiro, em virtude de uma 
plena faculdade de testar e de adotar, fornece o melhor remédio contra os abusos ordiná- 
rios da posse. Com efeito, cada qual fica então responsável por uma sucessão indigna, 
que atualmente não lhe pode acarretar nenhuma censura. É pouco para temer que a 
herança caiba ordinariamente a um dos filhos, se todos forem verdadeiramente incapa- 
zes; porquanto a tendência dos chefes industriais a perpetuarem dignamente suas casas 
os dispõe amiúde a escolher seus sucessores fora da própria família, o que eles não 
podem fazer hoje senão sacrificando suas filhas. É assim que a hereditariedade sociocrá- 
tica, longe de diminuir o poder dos ricos, favorece-o mais do que a hereditariedade 
teocrática, ao passo que aumenta muito sua responsabilidade moral. 

A MULHER — Tal explicação acaba, meu pai, de fazer-me conhecer assaz a cons- 
tituição temporal do regime positivo. Podeis, portanto, apreciar diretamente a interven- 
ção geral do sacerdócio da Humanidade nos principais conflitos cívicos. 

O SACERDOTE — A fim de caracterizar melhor essa atribuição decisiva, julgo, 
minha filha, dever indicar-vos primeiro a estatística normal do patriciado para o con- 


CATECISMO POSITIVISTA 269 


Junto do Ocidente. Dois mil banqueiros, cem mil comerciantes, duzentos mil fabricantes 
e quatrocentos mil agricultores parecem-me fornecer chefes industriais em número sufi- 
ciente para os cento e vinte milhões de habitantes que compõem a população ocidental. 
Nesse pequeno número de patrícios se acharão concentrados todos os capitais ociden- 
tais, cuja ativa aplicação eles deverão dirigir livremente, sob sua constante responsabi- 
lidade moral, em proveito de um proletariado trinta e três vezes mais numeroso. 

Em cada república particular, o governo propriamente dito, isto é, o supremo poder 
temporal, pertencerá naturalmente aos três principais banqueiros, respectivamente 
consagrados de preferência às operações comerciais, manufatureiras e agrícolas. É, pois, 
sobretudo a esses duzentos triúnviros que o sacerdócio ocidental, dirigido pelo Sumo 
Pontífice da Humanidade, deverá submeter dignamente as reclamações legítimas de um 
imenso proletariado. A classe excepcional, que habitualmente contempla o futuro e o 
passado, aplica, então, ao presente todas as suas solicitudes, falando aos que vivem em 
nome dos que viveram e pelos que hão de viver. 

A MULHER — Essa linguagem, meu pai, parece-me basear-se sempre numa justa 
apreciação das diversas existências. Erigindo todos os cidadãos em funcionários sociais, 
em virtude da utilidade real de seus ofícios respectivos, o positivismo nobilita a 
obediência e consolida o comando. Em vez de ter um simples destino privado, cada ativi- 
dade sente-se honrada pela sua digna participação no bem público. Ora, para obter esta 
salutar transformação, o sacerdócio nunca precisará suscitar um entusiasmo excepcio- 
nal. Bastar-lhe-á sempre fazer prevalecer por toda parte uma exata apreciação das reali- 
dades habituais. 


U SACERDOTE — Nosso princípio fundamental sobre a gratuidade necessária do 
trabalho humano proporciona, minha filha, poderosos meios de desenvolver melhor os 
sentimentos e as convicções que convêm a cada classe social. Quando o salário não é 
mais concebido como pagando o valor do funcionário, mas apenas os materiais que ele 
consome, o mérito pessoal de cada um sobressai mais aos olhos de todos. O sacerdócio 
pode, pois, cumprir melhor o seu principal dever social, que consiste em sempre opor dig- 
namente a classificação abstrata dos individuos, segundo a apreciação intelectual e 
moral deles, à classificação concreta que resulta da subordinação dos ofícios. Este con- 
traste, convenientemente desenvolvido, inspirará aos superiores melhores disposições 
para com seus inferiores, quando reconhecerem que a sua própria elevação é mais devida 
a situação do que ao mérito. Posto que só a vida subjetiva possa fazer verdadeiramente 
prevalecer a classificação pessoal sem suscitar nenhuma tendência subversiva, essa 
contraposição religiosa fará com que a classificação oficial possa ser mais bem aprecia- 
da, conservando-lhe todavia um justo respeito. 

Porém, ao mesmo tempo, o sacerdócio fará sentir profundamente aos proletários as 
verdadeiras vantagens da condição social em que se acham. As almas preparadas por 
uma sábia educação, e constantemente penetradas de afetos domésticos, não lhes há de 
ser difícil demonstrar a realidade íntima desta admirável máxima do grande Corneille: 

“Com passo mais firme seguimos do que guiamos”.*º* 

A felicidade que resulta de uma digna submissão e de uma justa irresponsabilidade 
será sem cessar apreciada nesta classe, quando a vida de família houver surgido conve- 
nientemente no meio mais apropriado a saboreá-la melhor. Então o proletariado sentirá 
que o principal ofício do patriciado consiste em proporcionar a todos o sossegado surto 


88 Verso da tradução da Imitação de Cristo por Corneille: 
On va d'un pas plus ferme à suivre qu à conduire. (Livro I, cap. 9.) 


270 COMTE 


dessas satisfações domésticas, nas quais reside sobretudo nossa verdadeira felicidade. 
Seu menor desenvolvimento nos chefes espirituais ou temporais, sempre preocupados de 
uma responsabilidade imensa, farã considerar geralmente como mais digna de pena 
do que de inveja uma elevação que não tem outra compensação sólida senão a de contri- 
buir melhor para o bem público. Mas esta nobre recompensa só é assaz apreciada pelas 
almas de elite, sempre muito raras no patriciado, e mesmo no seio do sacerdócio. É 
necessário, pois, deixar um justo curso às satisfações vulgares do orgulho ou da vaidade, 
únicas de ordinário capazes de excitarem suficientemente o zelo que exigem o mando e 
o conselho. 

A MULHER — Eu quisera, meu pai, conhecer de modo mais preciso essa atribui- 
ção fundamental dos livres administradores do capital humano destinada a assegurar aos 
proletários um digno surto da existência doméstica, primeira garantia normal da ordem 
civil. 

O SACERDOTE — Limitai-vos, minha filha, a conceber cada homem primeiro 
como proprietário, depois como assalariado. Um proletário qualquer deve possuir todos 
os materiais de uso exclusivo e contínuo, quer seu, quer de sua família. Esta regra, 
evidentemente realizável. é o único meio de assegurar a ordem prática. Porém, longe 
estamos de seu digno preenchimento. Muitos homens estimáveis não gozam ainda da 
propriedade de seus móveis mais usuais; e alguns nem sequer têm a de seu vestuário. 
Quanto ao domicílio, vós sabeis que a maioria dos proletários está antes acampada do 
que alojada em nossas cidades anárquicas. Entretanto, bastaria decompor em aparta- 
mentos*º a venda ordinária das casas, como se vê em algumas cidades, para que cada 
família popular, após um leve acréscimo de aluguel durante alguns anos, viesse a possuir 
irrevogavelmente sua habitação. ?º 


8º Em Paris as casas são em geral, subdivididas em appartements, que se alugam separadamente, morando 
assim várias famílias no mesmo prédio. O porteiro (concierge) representa o proprietário e serve de laço entre 
os diferentes inquilinos. 


9º Posse normal do domicílio. “A existência material dos plebeus deve assentar, tanto como a dos patrícios, 
sobre uma ligação especial à sede planetária da Humanidade. Sem semelhante base, as operações quaisquer 
carecem de consistência, a continuidade fica comprometida, e mesmo a solidariedade permanece incompleta. 
Por falta desta conexão, a mais antiga e a mais importante das revoluções temporais, a passagem da exis- 
tência nômade para a vida sedentária, ainda não se acha terminada em parte alguma. Porquanto a indústria 
ocidental oferece amiúde o escândalo de ricos empresários que não possuem os edifícios em que se efetuam 
suas funções habituais. Mas a principal imperfeição deste laço diz respeito aos proletários, que raramente 
satisfazem à lei social estabelecida no meu segundo volume. Para instituir o estado normal, é necessário que 
cada família se torne proprietária de tudo quanto lhe serve exclusiva e continuamente. Em relação aos prole- 
tários, pode-se condensar este princípio da posse do domicílio, além da qual a tendência deles para a proprie- 
dade se tornaria tão contrária à sua felicidade como ao seu dever. 

“Esta apreciação comporta dois modos, conforme ela se limita ao apartamento ou se estende à casa inteira; 
como respectivamente o exigem a concentração urbana e o isolamento rural. O primeiro, aliás mais praticá- 
vel, oferecerá diversas vantagens sociais, quando os costumes normais houverem dissipado as origens dos 
conflitos que ele agora poderia suscitar. Ele consolida a homogeneidade do proletariado desenvolvendo-lhe 
as relações pessoais, e cimenta os laços mútuos entre os plebeus e os patrícios sempre proprietários, e algu- 
mas vezes habitantes, das casas assim decompostas em apartamentos vendidos isoladamente. Em cada uma 
dessas casas, a disposição mais frequente consistiria em três andares, habitando, cada um dos dois superio- 
res, três famílias proletárias, reservando o resto para os locais industriais e a habitação principal. Um sétimo 
domicílio plebeu pertenceria à família encarregada de cuidar do conjunto do edifício, de manter nele a ordem 
comum e de facilitar as relações mútuas, representando a magistratura local do proprietário.” (Política Posi- 
tiva, tomo IV, pp. 338-339.) 

“A aquisição do domicílio deverá estar realizada normalmente quando o jovem agente receber o sacramento 
da destinação. ou, pelo menos, antes do casamento, a fim de prover à segurança da nova família. O melhor 
modo consiste em uma anuidade setenal, descontada sobre os salários, antes que as despesas atinjam sua 
taxa normal. Todavia. o novo trabalhador não poderia ordinariamente preencher semelhante condição sem 
a assistência paterna, cujo último ato deve ser habitualmente suscitado por esse motivo.” (Ibid., p. 340.) 


CATECISMO POSITIVISTA 21 


O culto e o regime privados determinam suficientemente a extensão normal de 
semelhante domicílio,º" e caracterizam a importância de sua fixidez, sem a qual se pode 
dizer que a primeira revolução humana, a passagem da vida nômade para o estado 
sedentário, fica inacabada. Tal fixidez deve mesmo reagir sobre a estabilidade material 
das relações industriais, suprimindo espontaneamente uma vagabundagem funesta. Se 
bem que consagre a plena liberdade do concurso humano, a religião positiva impõe a 
cada um o dever de nunca mudar sem graves motivos nem seus inferiores nem seus supe- 
riores. A própria mudança caprichosa dos fornecedores habituais torna-se censurável, 
pois que tende a perturbar a economia geral de suas operações, a qual supõe uma fixidez 
suficiente na clientela. º2 

Quanto ao salário periódico, deve ele compor-se normalmente de duas partes desi- 


guais, uma independente do trabalho efetivo e peculiar ao ofício correspondente, outra 
9? Composição normal do domicílio. — É necessário completar estas determinações indicando, mas só 
quanto ao caso principal, a composição correspondente do domicílio doméstico. Confundindo as palavras 
família e casa na palavra menage, a linguagem indica uma apreciação universal da comunidade de habitação 
como resultado e condição de uma suficiente intimidade. É sobretudo assim que se pode circunscrever nitida- 
mente a associação elementar, afastando os laços demasiado fracos para comportarem uma mesma 
residência. 

“Segundo as indicações precedentes, cada um dos três elementos* da família proletária exige uma parte dis- 
tinta do apartamento comum, além da sala de reunião e de recepção, de ordinário independente daquela em 
que os alimentos são separados e consumidos. Apesar da profundeza das simpatias e da identidade de educa- 
ção, a diversidade das idades e das situações impediria uma suficiente harmonia, se o par ativo e o par passi- 
vo não pudessem, à sua vontade, reunir-se ou separar-se, e bem assim afastar as crianças. A parte reservada 
a estas deve sempre ser subdividida, a fim de isolar cada sexo, mas sem distinção de número. Enfim, toda 
família precisa de um oratório, em que cada qual possa desenvolver dignamente o culto pessoal, e que sirva 
de santuário para a comum celebração do culto doméstico. Assim composto de sete peças desiguais, sem 
nada conter de inútil, o apartamento normal do trabalhador não pode parecer exagerado senão em virtude 
da anarquia que dispõe os patrícios a descurarem seus deveres e os plebeus a menosprezarem sua dignidade. 
“Quando a religião positiva houver feito sentir assaz a importância universal da vida de família como a me- 
lhor garantia de ordem pública e a principal fonte da felicidade privada, todos os chefes reconhecerão obri- 
gação de a consolidar por toda parte. Então a determinação precedente, fundada em motivos irrecusáveis, 
será geralmente considerada como fornecendo uma justa medida dos deveres dos ricos e das reclamações dos 
pobres, em nome do Grande Ser, cujos ministros e agentes são. 

“Se se observar que semelhante regra determina para o domicílio doméstico um número de peças igual ao 
dos membros da família, poder-se-á estendê-la com facilidade do caso principal a cada um dos outros dois. 
Deixo ao leitor o cuidado de reconhecer assim que o apartamento deverá compreender dez ou treze peças, 
conforme a família for sacerdotal ou patrícia.** Esta lei permite apreciar nitidamente o verdadeiro luxo, a 
fim de que os costumes possam, estigmatizando o abuso, tolerar, sobretudo em relação ao patriciado, o grau 
que convém à imperfeição ordinária da natureza humana.” (Ibid., pp. 294-296.) 

* Estes três elementos são: os avós paternos, os pais e os filhos, respectivamente representantes do passado, 
do presente e do futuro. (M.L.) 

** O aumento resulta das famílias agregadas como auxiliares (criados). (M.L.) 


92 Reações da posse do domicílio. “ Além de sua eficácia direta e especial, a apropriação do domicílio com- 
porta indiretamente uma reação geral sobre o coração e o espírito, aumentando a fixidez dos sentimentos e 
dos pensamentos pela fixidez dos hábitos. Ela consolida e desenvolve o dever, demasiado descurado por toda 
parte, de nunca mudar arbitrariamente as relações práticas, mesmo com os mínimos fornecedores, a fim de 
facilitar as previsões industriais. Conquanto imposta pela moral positiva, esta obrigação social seria amiúde 
iludida, sobretudo entre os proletários, aos quais convém seu principal exercício, se a fixidez de habitação 
não viesse refrear os caprichos espontâneos. 

“Mas a instituição urbana do domicílio popular comporta uma reação religiosa, que o estado normal deve 
desenvolver muito entre os filhos do Grande Ser. Não só cada um deles liga assim todo o passado de sua 
família ao apartamento em que nasceu, mas a aderência dessa habitação ao conjunto do edifício representa- 
lhe a solidariedade cívica, e mesmo o laço universal: porquanto a partilha do domínio planetário entre os 
possuidores do solo é análoga à da habitação social entre os clientes do proprietário comum, que lhes ofere- 
ce, salvo o caso de indignidade, a imagem local do ser ao qual tudo pertence.” (Ibid., pp. 339-340.) 


2. COMTE 


subordinada aos resultados diários. E o único meio de garantir os operários contra as 
chomagens** que não lhes forem imputáveis, sem deixar contudo de permitir aos chefes 
um justo surto dos diversos aperfeiçoamentos industriais, sobretudo mecânicos. A exten- 
são das máquinas que reergue a dignidade moral do trabalhador humano e aumenta sua 
eficácia material poderá então efetuar-se livremente, ao abrigo de toda censura social. 
Mas a proporção entre a parte fixa e a parte móvel do salário dos operários deve variar 
nas diferentes indústrias, segundo leis que só o patriciado pode determinar.” * 

A MULHER — Apesar da influência salutar dessa ordem normal, sinto, meu pai, 
que o instinto destruidor, solicitando os outros pendores egoístas, suscitará sempre con- 
flitos quaisquer entre os ocidentais regenerados. Devo, portanto, perguntar-vos qual será 
a intervenção do sacerdócio nesses debates inevitáveis. 

O SACERDOTE — Ele esforçar-se-á primeiro, minha filha, por preveni-los tanto 
quanto for possível, mediante um criterioso emprego de sua disciplina espiritual. Esta di- 
fere sobretudo da regra temporal em excitar os bons pendores de preferência a combater 
os maus. Sua marcha é, pois, mais positiva do que negativa, corrigindo mais por compa- 
ração do que por compressão, recompensando os bons em vez de punir os maus; posto 
que também saiba proceder com rigor sendo necessário, como já vo-lo expliquei. 

O conjunto destes meios prevenirá amiúde, ou reparará com brevidade, os conflitos 
cívicos provenientes da atividade prática, sob a influência do jogo natural das paixões 
egoístas. Toda a religião positiva tende a fazer sentir que, repousando sempre a socie- 
dade sobre um livre concurso, não existem transações duráveis e modificações legítimas 
senão as que resultam de um assentimento voluntário dos diversos cooperadores. A 
maior das revoluções sociais, a abolição gradual da escravidão ocidental, realizou-se, na 
Idade Média, sem uma única insurreição. 

Todavia, como nossa imperfeição cerebral não há de permitir ao sacerdócio o fazer 
sempre respeitar assaz as vontades humanas, ele deverá finalmente aplicar-se a moderar 


º3 Não há outro remédio senão aportuguesarmos a palavra chomage, pois não temos em nossa língua seu 
equivalente preciso, no sentido que este vocábulo francês tem hoje na vida industrial. 

º*4 Composição do salário. “Seria supérfluo voltar aqui a ocupar-me do princípio de minha estática pessoal 
que prescreve a decomposição do salário normal em duas partes desiguais: uma fixa para cada operador, 
qualquer que seja o trabalho; outra proporcional ao produto da atividade. Esta lei é tão incontestável como 
a da gratuidade necessária do trabalho humano sobre a qual a primeira repousa, num regime em que tudo 
pertence ao Grande Ser, que confia seus tesouros aos seus ministros a fim de nutrir seus agentes. Devo, 
porém, completar agora essa lei ousando fixar a relação normal cuja determinação ulterior meu segundo 
volume* havia deixado a cargo dos chefes práticos. Reconheci depois que este princípio não poderia ser 
assaz apreciado se a iniciativa religiosa não lhe desse uma precisão imediata, salvo retificação final, como 
a respeito de todos os apanhados numéricos do presente capítulo. Eis aí por que não hesito em propor, por 
cada um dos treze meses do ano positivista, para cada trabalhador, um ordenado de cem francos, sempre 
dimanado do empresário correspondente, urbano ou rural, enquanto durar o livre contrato mútuo. 

“Nas cidades, que cumpre instituir primeiro, esta taxa parece-me dever formar ordinariamente a terça parte 
do salário total, cuja parte móvel regulo em sete francos por dia médio de trabalho efetivo. Deixando sempre 
aos costumes as prescrições relativas às festas quaisquer, e à folga hebdomadária,** pode-se presumir que o 
culto será escrupulosamente praticado, sobretudo entre os proletários, aos quais é ele principalmente destina- 
do. As taxas precedentes marcam. pois, nove francos para o sustento cotidiano de uma família operária, que 
as minhas explicações anteriores compõem normalmente de sete membros.” (Política Positiva, tomo IV, pp. 
340-341.) 

* Éesteo Catecismo, composto entre o Ile II vols. da Política Positiva. (O grifo é nosso.) (M. L.) 

** Aproveitamos esta alusão incidente ao descanso semanal para dizer que meditações ulteriores levaram 
Augusto Comte a estabelecer dois dias consecutivos de folga por semana (domingo e lunedia), votados um 
à vida pública e o segundo à vida privada, como já o havia tentado uma lei de Cromwell (V. Lettres à Edger, 
p. 69). Todos sabem, aliás, da tendência universal a não se trabalhar no lunedia. (M. L.) 


CATECISMO POSITIVISTA PARE: 


os conflitos que não puder impedir. Sua regra geral, conforme à natureza da civilização 
moderna, consiste em estigmatizar radicalmente, por tão anárquico como retrógrado, 
todo processo militar dos superiores ou dos inferiores. Na associação industrial, as lutas 
materiais, quando não puderem ser evitadas, deverão basear-se na riqueza, concentrada 
ou dispersa, e nunca na violência pessoal, que cumpre reservar contra os malfeitores 
propriamente ditos. De fato, não se deve reprimir pela força senão os atos unanimemente 
reprovados, inclusive pelos seus próprios autores. 

O instinto destruidor pode sempre admitir semelhante transformação, quase com- 
pleta hoje relativamente às infrações crônicas, mesmo coletivas, e que só falta sistemati- 
zar, estendendo-as às perturbações agudas. Já as perseguições habituais, que outrora 
atentavam contra a vida, respeitam mesmo a liberdade, para se limitarem a fortuna, de 
maneira a se tornarem mais evitáveis e mais reparáveis: como, entre os criminosos, os 
roubos têm substituído os homicídios. Pode-se, pois, esperar que a religião positiva deter- 
minará os homens a liquidarem seus mais violentos debates sem nenhuma guerra 
propriamente dita, mesmo civil. A restrição normal das repúblicas parciais hã de facilitar 
muito esta *+-ansformação final, aumentando ao mesmo tempo o poder do patriciado e a 
independência do proletariado. 

A MULHER — Por mais preciosa que seja semelhante conversão das lutas mate- 
riais, ela parece-me, meu pai, mais vantajosa para os superiores do que para os inferio- 
res. Renunciando a todo emprego habitual da força propriamente dita, para se cingirem 
a conflitos pecuniários, os trabalhadores parecem-me fazer um grande ato de generosi- 
dade social, aliás plenamente motivado. Receio, porém, que, deixando assim transportar 
os debates para o domínio peculiar aos empresários, aqueles não sejam amiúde vítimas 
do egoísmo dos ricos, mesmo quando tiverem obtido por toda parte a justa autorização 
de se coligarem à sua vontade sem nenhuma violência. Com efeito, por maior que seja o 
poder cívico que os plebeus possam tirar de suas dignas recusas coletivas de cooperação 
industrial, os imensos capitais de nossos patrícios permitirão talvez a estes superarem 
finalmente as mais justas resistências. Posto que o sacerdócio deva dar muita força às 
coligações operárias quando ele as tiver sancionado, temo ainda a abusiva preponde- 
rância da riqueza. 

O SACERDOTE — A fim de tranqúilizar-vos, minha filha, considerai em primeiro 
lugar a influência habitual do sacerdócio sobre o patriciado em virtude de íntimas rela- 
ções pessoais. Segundo nosso apanhado estatístico, o número normal dos banqueiros é 
igual, no Ocidente, ao dos templos positivistas, achando-se cada um destes naturalmente 
colocado sob o protetorado temporal do banqueiro adjacente, encarregado. pelo triunvi- 
rato nacional, de transmitir todos os pagamentos sacerdotais. Daí resultarão frequentes 
relações entre os padres e os principais chefes industriais, de maneira a reanimar espe- 
cialmente nestes a veneração nascida da própria educação que receberam e prolongada 


pela dos filhos. 
A MULHER — Consenti, meu pai, que vos interrompa um momento quanto a esta 


última influência. Como nossa instrução enciclopédica não deve nunca tornar-se obriga- 
tória, os ricos talvez sejam levados, por um tolo orgulho, a não deixar que seus filhos 
participem desse ensino, e sobretudo suas filhas, embora tenham de renunciar aos sacra- 
mentos subsegientes, e mesmo às recomendações sociais que ele há de proporcionar. 
Isto posto, a influência pessoal que assinalais ficaria essencialmente reduzida à defe- 
rência involuntária que por toda parte obtêm o talento e a virtude. 

O SACERDOTE — Essa objeção incidente, minha filha, é mais forte do que cui- 
dais; entretanto, afastá-la-ei sem custo. De fato, não será necessário ter frequentado nos- 


274 COMTE 


sas escolas positivistas para ser admitido a receber nossos sacramentos sociais, e mesmo 
para ser submetido aos nossos exames públicos, nos quais não se indagará nunca de 
quem provêm a instrução, contanto que esta seja real e suficiente. Apenas, quando ela 
não dimanar do sacerdócio, nossos padres precisarão empregar mais esforços a fim de 
colher as informações morais que serão sempre tão indispensáveis como os julgamentos 
intelectuais. 

Apesar desta plena liberdade de ensino, que aliás aumentará o zelo dos professores, 
as escolas oficiais não serão nunca abandonadas pelos ricos, a menos que o sacerdócio 
degenere; porquanto eles não hão de querer que seus filhos fiquem abaixo da instrução 
popular, da qual, entretanto, não poderão proporcionar-lhes, mesmo com grandes despe- 
sas, um equivalente privado. Com efeito, o sacerdócio há de naturalmente absorver os 
melhores professores, que suas outras funções afastarão sempre do ensino particular, o 
qual, aliás, como sabeis, lhes será severamente proibido. Os mestres privados recrutar- 
se-ão, pois, entre os homens incapazes de se tornar padres ou mesmo vigários; de sorte 
que suas lições serão habitualmente desconceituadas. 

A MULHER — Esta explicação tranqiiliza-me completamente, meu pai, a respeito 
das repugnâncias aristocráticas contra nossa educação universal. Assim, rogo-vos que 
retomeis vossa importante apreciação das influências peculiares ao sacerdócio positivo 
para prevenir ou reparar, junto dos chefes industriais, os mais graves conflitos práticos. 


O SACERDOTE — Além de suas relações pessoais com a primeira classe patrí- 
cia, que tanto pode reagir sobre as outras, o sacerdócio achará por toda parte, minha 
filha. auxiliares especiais. mediante uma digna reorganização do protetorado voluntário. 
A instituição cavalheiresca não é de modo algum peculiar à existência militar, cujo bru- 
tal princípio devia, pelo contrário, ter dificultado muito seu admirável surto na Idade 
Média. Ela convém mais, sob melhores formas, ao regime positivo, em que a proteção, 
posto que tornada essencialmente pecuniária, suscitará amiúde devotamentos menos 
brilhantes, porém mais eficazes e, por outro lado, mais bem regularizados. Muitos chefes 
industriais, sobretudo entre os banqueiros, se filiarão, desde a mocidade, à livre associa- 
ção que, dispondo de capitais imensos, exercerá espontaneamente, ou ao apelo do sacer- 
dócio, uma generosa intervenção nos principais conflitos. Seu nobre patrocínio não se 
limitará aos proletários oprimidos: deverá também garantir os sacerdotes contra a tira- 
nia temporal. ** 

A MULHER — Esta preciosa instituição parece-me completar, meu pai, o con- 
junto dos meios próprios ao sacerdócio da Humanidade para regular dignamente as rela- 


º8 Organização da cavalaria industrial. “Cumpre ligar mais importância ao suplemento universal, ao 
mesmo tempo moral e político, proveniente do desenvolvimento sistemático da cavalaria, cujo germe feudal 
deve ser dignamente cultivado no estado industrial, salvo as modificações práticas. O protetorado voluntário 
devendo, como as ofensas que repara ou previne, referir-se mais aos bens que às pessoas, sua organização se 
tornara mais fácil e mais vasta. Sua principal consistência assentará sobre um núcleo central, formado de 
patrícios viúvos, solenemente votados a esse livre ofício, mas sem deixar de participar da vida prática, salvo 
retiros periódicos em edifícios especiais, a fim de retemperarem sua vocação junto ao sacerdócio. Em torno 
deles se agremiarão, antes da maturidade, os que, providos de fortuna suficiente, aspiraram a fazer parte um 
dia da corporação protetora. Semelhante consagração fará compreender melhor quanto importa 
respeitar o livre emprego dos capitais, mesmo nos que, destituídos de um ofício determinado, podem excep- 
cionalmente se tornar os mais úteis dos ricos, dirigindo bem sua disponibilidade especial. A cavalaria central 
há de habitualmente encontrar um segundo apoio entre os velhos do patriciado, que amiúde conservarão 
uma grande autoridade, mesmo depois de terem transmitido a sua principal riqueza. Enfim, ela se comple- 
tará pela afiliação universal dos melhores proletários. cujo devotamento e energia compensarão a pobreza, 
para proporcionar à livre tutela uma aliança decisiva.” (Ibid., pp. 336-337.) 


CATECISMO POSITIVISTA DAS 


ções cívicas. Podeis, portanto, explicar-me sua intervenção normal nas relações 
universais. 

O SACERDOTE — Cumpre, minha filha, distinguir nessas relações duas classes, 
conforme dizem respeito a populações positivistas ou a povos ainda alheios à verdadeira 
religião. 

O primeiro caso só exige de fato uma simples extensão das considerações preceden- 
tes; de modo que pode ser prontamente apreciado. Mesmo a influência sacerdotal torna- 
se aí a um tempo mais fácil e mais decisiva, porquanto, após a próxima decomposição 
dos Estados atuais, a grande República Ocidental ficará dividida em sessenta repúblicas 
independentes, que só terão de verdadeiramente comum seu regime espiritual. Aí nunca 
surgirá nenhuma autoridade temporal suscetível de mandar por toda parte, como o vão 
imperador da Idade Média, o qual não foi, em relação ao sistema católico, senão um des- 
troço perturbador, empiricamente dimanado da ordem romana. Todas as operações cole- 
tivas, aliás puramente temp árias, serão sempre conduzidas na nova ordem mediante o 
concerto passageiro dos triunviratos correspondentes. Quanto as instituições práticas 
que se devem tornar verdadeiramente universais, seu próprio destino as reserva constan- 
temente ao sacerdócio, único capaz de as fazer livremente prevalecer por toda parte, ape- 
sar das rivalidades nacionais. Os governos especiais só devem intervir aí para facilitar a 
fundação delas, fazendo as despesas convenientes. É só por esta forma que as moedas, as 
medidas, etc., podem adquirir, rápida e pacificamente, uma verdadeira universalidade. 

Assim, as sessenta repúblicas do Ocidente regenerado não se acharão habitual- 
mente ligadas entre si senão por uma mesma educação, por costumes uniformes e por 
festas comuns. Em uma palavra, sua união será religiosa, e não política; salvo as rela- 
ções históricas provenientes das agregações anteriores, e em breve obliteradas pelas 
novas aproximações, quando não se apoiarem na comunhão da linguagem. O Sumo 
Sacerdote da Humanidade constituirá, melhor do que nenhum papa da Idade Média, o 
único chefe verdadeiramente ocidental. Ele poderá, portanto, em caso de necessidade, 
concentrar toda a ação sacerdotal, a fim de reprimir cada triunvirato tirânico, invocando 
aliás os cavalheiros vizinhos, e mesmo a pacífica mediação dos governos imparciais. Se, 
contudo. as lutas industriais se tornarem inevitáveis, sua digna sanção poderá dar às 
coligações operárias uma extensão decisiva, fazendo com que nelas tomem parte todos 
os colaboradores ocidentais, mesmo fora da profissão comprometida. Mas reciproca- 
mente, quando o sacerdócio censurar a conduta dos trabalhadores, ou somente recusar 
aprová-la, os empresários vencerão facilmente todas as reclamações viciosas. 

A MULHER — Agora, meu pai, só temos que determinar as relações sistemáticas 
da população positivista com as nações que ainda não tiverem abraçado a religião 
universal. 

O SACERDOTE — Em virtude da íntima conexão proveniente da iniciativa cató- 
lico-feudal, sucedendo por toda parte a incorporação romana, vós concebeis, minha 
filha, que a nova fé há de prevalecer simultaneamente no conjunto do Ocidente europeu, 
compreendidos seus diversos apêndices coloniais, sobretudo americanos. As conver- 
gências devidas ao surto positivo, científico, estético e técnico sobrepujam, a muitos res- 
peitos, as divergências oriundas da ruptura do laço católico e mesmo de uma viciosa 
nacionalidade. Mas esta vasta república espiritual mal compreende a quinta parte de 
toda a população humana. Importa, pois, apreciar, em geral, o modo por que o Ocidente 
regenerado deverá gradualmente reunir debaixo de sua fé os habitantes quaisquer do 
nosso planeta. 

Quando a reorganização ocidental se achar suficientemente assegurada, este digno 
proselitismo exterior se tornará a principal ocupação coletiva do sacerdócio positivo. 


276 COMTE 


Apesar das pretensões temporais, seu privilégio exclusivo para tal atribuição não pode 
ser contestado. Se o sacerdócio já é o único competente para regular dignamente as rela- 
ções mútuas dos diversos povos ocidentais, com mais forte razão deve reger, sem concor- 
rência alguma, as mais vastas relações sociais. Através dos domínios efêmeros e desas- 
trosos, é aos aperfeiçoamentos científicos ou técnicos que são realmente devidas todas as 
comunicações úteis e duráveis do Ocidente com o resto do planeta humano. O gênio 
sempre relativo do positivismo o torna exclusivamente apto para comportar verdadeiras 
missões, capazes de agregar gradualmente as populações quaisquer à sua unidade carac- 
terística. única digna de tudo abraçar. 

A MULHER — Essa imensa conversão, necessária à plena constituição do Grande 
Ser, deve seguir, meu pai, uma marcha natural, cujo caráter essencial eu quisera 
conhecer. 

O SACERDOTE — Este resulta, minha filha, das afinidades decrescentes do posi- 
tivismo ocidental com as diversas populações estranhas, primeiro monoteístas, em segui- 
da politeistas, e enfim fetichistas. Porém, os casos que parecem mais desfavoráveis, em 
virtude de uma menor preparação espontânea, comportam, pelo contrário, uma maior 
intervenção sistemática, quando se aplica dignamente a teoria geral das transições huma- 
nas. Toda a conversão pode ser suficientemente esboçada em três gerações, uma para 
cada grau principal, deixando ao século seguinte o desenvolver as diferentes bases de 
uniformidade assentadas por um sacerdócio numeroso e zeloso, se este for conveniente- 
mente assistido. 

O primeiro caso diz respeito aos monoteístas orientais, primeiro cristãos depois 
muçulmanos ou à Rússia e à Turquia com a Pérsia.” º Tanto de um lado como do outro 
pode-se erguer as populações ao nível final do Ocidente, sem lhes impor uma servil e 
perigosa imitação da marcha tempestuosa e dificil que a evolução original exigiu. Mesmo 
desde já, o positivismo fornecerá, pela sua teoria histórica, preciosas luzes aos nobres 
governos que se esforçam por dirigir esta ascensão necessária, preservando-a das pertur- 
bações ocidentais. A Rússia, que no século passado se guiava pela França, é agora leva- 
da a isolar-se dela sistematicamente. Esta mudança é muito criteriosa, pois que a antiga 
imitação exporia doravante as populações eslavas a perturbações imensas, sem lhes 
proporcionar nenhum progresso verdadeiro, intelectual ou social. 

Mas, quando Paris regenerado cessar de oferecer por toda parte um tipo insurre- 
cional, poderá fornecer aos dignos czares noções e auxílios próprios para secundar siste- 
maticamente seu admirável zelo espontâneo pelo pacífico melhoramento interior de seus 
vastos Estados. Em vez de invitá-los a imitarem um passado que não comporta nenhuma 
reprodução, o positivismo exortá-los-á em breve a apreciar melhor suas próprias vanta- 
gens. Por exemplo, a decomposição das grandes fortunas feudais foi necessária na Fran- 
ça para preparar o advento de um novo patriciado, sob o surto efêmero das classes mé- 
dias. Na Rússia, pelo contrário, importa hoje manter a concentração de riqueza exigida 
pelo estado final, e que nós teremos aqui muito trabalho para reconstruir. Todo o esforço 
de um sábio autocrata deve, então, limitar-se à transformação industrial do caráter mili- 
tar, baseada já na permanência, doravante inalterável, da paz universal. 


º8 Augusto Comte retificou depois esta ordem, colocando a Turquia antes da Rússia: “Para a primeira fase 
da transição complementar, não hesito em resolver esta questão, representando a regeneração positiva como 
devendo prevalecer primeiro na Turquia, depois na Rússia. enfim na Pérsia”. Segue-se a explicação da ori- 
gem da ordem primitiva e uma exposição dos fundamentos em que assenta a emenda. (Política Positiva, 
tomo IV, p. 505.) 


CATECISMO POSITIVISTA Dar 


A MULHER — Semelhante influência dos conselhos positivistas parece-me, meu 
pai, limitada à Rússia, em virtude de sua analogia religiosa com o Ocidente. A Turquia, 
porém, c a Pérsia talvez não comportem senão uma intervenção muito menor, pois que 
nem sequer chegaram à monogamia. 

O SACERDOTE — A poligamia é hoje, minha filha, mais real amiúde em Paris do 
que em Constantinopla. Além de o islamismo ter passado pela mesma dissolução que o 
catolicismo, formamos em geral uma idéia exagerada da diversidade de costumes e de 
opiniões entre os orientais e os ocidentais; como o atesta a tendência espontânea dos 
muçulmanos a nos tomarem por guias. 

Repelindo a divisão dos dois poderes, a fim de constituir melhor sua teocracia mili- 
tar, O incomparável Maomé pressentiu que esse imenso aperfeiçoamento da ordem social 
era ainda prematuro, por ser incompatível com o princípio teológico. Ele teve, então, de 
considerar semelhante tentativa como peculiar ao Ocidente, onde o seu malogro final 
havia de suscitar durante muito tempo graves perigos. Se o islamismo privou os orientais 
dos admiráveis progressos realizados na Idade Média, sob o impulso católico, ele preser- 
vou-os mais tarde da transição anárquica que nos atormentou durante os cinco últimos 
séculos, e de onde resultam hoje tantos obstáculos. Graças ao seu regime, os muçulma- 
nos estão essencialmente isentos de metafísicos e mesmo de legistas. O positivismo, 
demovendo-os de uma imitação desastrosa. lhes fará apreciar cordatamente esta vanta- 
gem capital, que muito pode secundar a regeneração final deles. 

A MULHER — Compreendo, meu pai, semelhante relação, cujo princípio tinha- 
me escapado, por não conhecer assaz vossa teoria histórica. Mas, quanto aos politeístas, 
que formam quase a metade da população humana, surpreender-me-ia muito que a nossa 
fé comportasse imediatamente uma eficácia equivalente, pois que a distância é aí dema- 
siado grande. 

O SACERDOTE — Pelo contrário, minha filha, nós podemos vir a ser muito mais 
úteis aos politeistas do que aos monoteistas, poupando-lhes uma transição mais longa e 
difícil. Seu surto espontâneo talvez os fizesse passar primeiro por um monoteísmo qual- 
quer, posto que eles pouco propendam para isso observando o descrédito total em que o 
monoteísmo tem caído, há um século pelo menos, no Ocidente e mesmo no Oriente. Mas 
a religião positiva os dispensará dessa marcha empírica, instituindo especialmente a 
transição direta deles para a fé final do homem. O monoteísmo só é verdadeiramente 
necessário na evolução original. Muitos dos nossos adolescentes deixarão espontanea- 
mente de passar por essa fase durante seu noviciado enciclopédico. Com mais forte 
razão, o zelo sistemático do sacerdócio ocidental poderá preservar do monoteismo os 
politeístas atuais, cujos principais dogmas são transformáveis em noções positivas cober- 
tas apenas de uma espécie de iluminura divina, que não tardará em desvanecer-se.º ? 

A MULHER — Quanto aos fetichistas, aliás pouco numerosos, seu estado pare- 
ce-me, meu pai, por tal forma afastado do nosso que não concebo a possibilidade de os 
trazer rapidamente ao nível final do Ocidente. 

O SACERDOTE — Apesar de seu pequeno número, minha filha, eles ocupam, no 
centro da África, uma vasta região completamente inacessível ainda à nossa civilização, 
que não poderá penetrar aí senão sob o impulso prolongado do sacerdócio positivo. Nos- 
sos dignos missionários acharão aí o caso mais apropriado para estimular os esforços 
teóricos e o zelo prático, propondo-se estender diretamente a religião universal por essas 


º7 V. no tomo IV da Política Positiva, p. 511. as transformações transitórias a efetuar no dogma positivo 
a fim de adaptá-lo a facilitar a passagem das populações politeístas para O positivismo. 


278 COMTE 


ingênuas povoações, sem lhes impor nenhuma transição monotéica, nem mesmo poli- 
téica. A possibilidade de semelhante sucesso resulta da profunda afinidade do positi- 
vismo com o fetichismo, que não difere daquele, quanto ao dogma, senão em confundir 
a atividade com a vida, e, quanto ao culto, cm adorar os materiais em vez dos produtos. 

Em toda iniciação humana, espontanea ou dirigida, o fetichismo constitui o único 
modo do regime fictício verdadeiramente inevitável, porque ele surge em uma época em 
que a espécie e o indivíduo são incapazes de reflexões quaisquer. Cada uma das duas 
fases preliminares pode ser poupada à evolução plenamente sistemática. Se tivéssemos 
empenho em preservar nossos filhos do politeísmo, poderíamos consegui-lo prolongando 
o estado fetíchico até que, por modificações graduais, ele fosse terminar no positivismo. 
Mas este esforço careceria, então, de oportunidade, sem falar de sua tendência a pertur- 
bar o surto natural da imaginação humana. O caso é muito diverso tratando-se da evolu- 
ção coletiva da África central, onde tais transformações comportarão a mais salutar efi- 
cácia, tanto local como universal. 

A MULHER — Só tenho, meu pai, uma última observação a submeter-vos acerca 
dessas imensas transformações intelectuais e sociais, que dão tanto interesse às mais vas- 
tas relações humanas, sempre maculadas até aqui de egoísmo e de empirismo. Sem parti- 
lhar de modo algum dos bárbaros prejuízos dos brancos contra os pretos, ouso apenas 
esperar que a universalidade da fé positiva não seja indefinidamente estorvada pela diver- 
sidade das raças. 

O SACERDOTE — A verdadeira teoria biológica das raças humanas resulta, 
minha filha, da concepção de Blainville, que representa essas diferenças como variedades 
devidas ao meio, mas que se tornaram fixas, mesmo hereditariamente, logo que atingi- 
ram sua maior intensidade. Segundo este princípio, pode-se construir subjetivamente 
uma doutrina essencialmente de acordo com as únicas diversidades verificadas pela apre- 
ciação objetiva, que não admite realmente senão três raças distintas, branca, amarela e 
preta. 

Com efeito, as únicas diferenças essenciais e duráveis que se podem ter desenvol- 
vido são as que se referem ao predomínio relativo das três partes fundamentais do apare- 
lho cerebral, especulativa, ativa e afetiva. Tais são, portanto, as nossas três raças neces- 
sárias, das quais cada uma é superior às outras duas, ou em inteligência, ou em atividade, 
ou em sentimento, como o confirma o conjunto das sãs observações. Esta apreciação 
final deve demovê-las de todo desdém mútuo e fazer-lhes igualmente compreender a efi- 
cácia de seu concurso íntimo, para acabar de constituir o verdadeiro Grande Ser. 

Quando nossos trabalhos houverem saneado uniformemente o planeta humano, 
estas distinções orgânicas tenderão a desaparecer, em virtude mesmo de sua origem natu- 
ral, e sobretudo mediante dignos casamentos. A combinação crescente dessas raças nos 
proporcionará, sob a direção sistemática do sacerdócio universal, o mais precioso de 
todos os aperfeiçoamentos, aquele que diz respeito ao conjunto de nossa constituição 
cerebral, assim tornada mais apta para pensar, agir e mesmo amar. 


CONCLUSAO 


HISTÓRIA GERAL 
DA RELIGIÃO 


DuUoDÉCIMA CONFERÊNCIA 


PASSADO FETÍCHICO E TEOCRÁTICO COMUM A TODOS OS POVOS 


A MULHER — Estas conferências finais inspiram-me de antemão um vivo atrati- 
vo, meu caro pai, pela necessidade que frequentes vezes tenho sentido de semelhante 
complemento histórico durante a tríplice exposição que terminais. Já compreendi, em 
muitos casos, que o estado final regulado pela Religião da Humanidade tem de ser sem- 
pre precedido de uma longa e difícil iniciação, indispensável sobretudo a toda evolução 
original. Mas estas vistas parciais não fazem senão avivar, sem o satisfazer, meu desejo 
de conhecer sumariamente a teoria histórica que vos permite apreciar o passado de modo 
a determinar o futuro, para caracterizar o presente. 

O SACERDOTE — O principal fundamento dessa teoria consiste, minha cara 
filha, na dupla lei de evolução mental que vos é agora familiar. Já sabeis como dela resul- 
ta a decomposição geral da preparação humana, começada pelo fetichismo, desenvolvida 
segundo o politeísmo e completada sob o monoteísmo. Contudo, antes de irmos mais 
longe, deveis voltar a considerar rapidamente este princípio fundamental, a fim de julgar- 
des indispensável a marcha que primeiro vos pareceu apenas inevitável. 

Apreciai sobretudo a necessidade intelectual de tal iniciação, porque essa necessi- 
dade é menos compreendida que outra qualquer. Se toda verdadeira teoria assenta neces- 
sariamente sobre fatos observados, não é menos certo que toda observação seguida exige 
uma teoria qualquer. O espírito humano não podia, pois, achar outra saída primitiva 
senão num método puramente subjetivo, tirando do interior os meios de ligação que o 
exterior só havia de fornecer após um longo estudo. Então o sentimento supre a impo- 
tência da inteligência, fornecendo-lhe o princípio de todas as explicações, pelos afetos 
correspondentes dos seres quaisquer, espontaneamente assimilados ao tipo humano. Mas 
esta filosofia inicial é necessariamente fictícia e, por conseguinte, apenas provisória. Ela 
institui, entre a teoria e a prática, um antagonismo contínuo, que, gradualmente modifi- 
cado em virtude da reação crescente da atividade sobre a inteligência, prolonga-se duran- 
te toda a nossa preparação e só finaliza no estado positivo. Ao passo que a especulação 
atribuía tudo a vontades arbitrárias, a ação supunha sempre leis invariáveis, cujo conhe- 
cimento, cada vez menos empírico e mais extenso, acabou renovando o entendimento 
humano. 

A MULHER — Eu precisava, meu pai, de semelhante explicação para 
compreender o destino filosófico do regime inicial, conquanto já lhe tivesse sentido bas- 
tante a aptidão poética. Porêm, sua necessidade moral não me parece exigir nenhum 
esclarecimento. Quem quer que tenha observado bem as crianças, ou mesmo apreciado 
os selvagens através das narrativas dos viajantes, deve considerar esse sustentáculo exte- 
rior como indispensável à nossa fraqueza primitiva. O regime fictício é ainda mais apro- 
priado para desenvolver nossa ternura, à qual o estado positivo não pode fornecer um 


282 COMTE 


alimento equivalente senão quando atinge sua plena madurez. Conveniente assim à nossa 
tríplice natureza individual, a religião inicial deve igualmente aplicar-se à nossa exis- 
tência social, que a princípio não podia achar nenhuma outra fonte de opiniões comuns 
nem de autoridades diretoras. 

O SACERDOTE — Para completar esta teoria fundamental da evolução humana, 
só me resta, minha filha, indicar-vos a lei que regula nossa marcha temporal. Ela oferece, 
como a marcha espiritual, e por motivos análogos, a sucessão necessária de três estados 
distintos: o primeiro puramente provisório, o segundo simplesmente transitório e o ter- 
ceiro único definitivo, conforme os diversos modos de nossa atividade. Com efeito, a 
existência humana começa por ser essencialmente militar, para se tornar enfim completa- 
mente industrial, passando por uma situação intermediária em que a conquista se trans- 
forma em defesa. Tais são, evidentemente, os caracteres respectivos da civilização anti- 
ga, da sociabilidade moderna e da transição peculiar à Idade Média. 

Esta marcha da atividade resulta, como a da inteligência, da impossibilidade de 
qualquer outra saída primitiva. O estado social não pode, sem dúvida, consolidar-se e 
desenvolver-se senão pelo trabalho. Mas, por outro lado, o surto do trabalho supõe tanto 
a preexistência da sociedade quanto o da observação exige o impulso teórico. O desfecho 
de semelhante perplexidade opera-se, pois, ainda mediante uma evolução espontânea, 
que dispensa toda preparação complicada. Ora, a atividade guerreira é a única que 
preenche esta condição, por causa do predomínio natural do instinto destruidor sobre o 
instinto construtor. Não comportando eficácia senão mediante um exercício coletivo, ela 
é eminentemente própria para suscitar associações consistentes e duráveis, em que a sim- 
patia se torna muito intensa, embora muito restrita, por efeito de uma profunda solidarie- 
dade. Enfim, só ela pode determinar a formação dos grandes Estados segundo uma 
incorporação gradual, que comprime a turbulência militar por toda parte, exceto no povo 
dominador, onde seu caráter eleva-se, graças a um nobre destino. Não existe outro meio 
geral de superar a repugnância que no princípio inspira ao homem todo trabalho regular. 

Quando este domínio guerreiro adquire bastante extensão, o regime primitivo tende 
a transformar-se espontaneamente, porque a defesa se torna mais importante do que a 
conquista. Passa-se, então, ao modo intermediário, durante o qual a preponderância mili- 
tar prepara a existência industrial, que não tarda em ser a única suscetível de um surto 
contínuo. 

A MULHER — A evolução da atividade parece-me, meu pai, mais fácil de apa- 
nhar que a da inteligência. Surpreende-me, porém, que julgueis sua combinação sufi- 
ciente para fundar a teoria histórica. É verdade que elas se correspondem espontanea- 
mente; porquanto a síntese fictícia adapta-se à guerra como a religião positiva ao 
trabalho: sente-se mesmo que o espírito metafísico devia ter prevalecido enquanto a ativi- 
dade militar foi essencialmente defensiva. Contudo, esta concepção dinâmica da humani- 
dade não me parece assaz conforme a noção estática de nossa natureza, na qual o senti- 
mento domina ao mesmo tempo a inteligência e a atividade. Depois da dupla lei da 
evolução espiritual, e da que regula a marcha temporal, eu esperava uma apreciação 
equivalente acerca da vida afetiva, sem a qual não compreendo nem o movimento nem a 
existência. 

O SACERDOTE — Vós esqueceis, minha filha, que a principal região do cérebro 
não tem, como as outras duas, comunicações diretas com o exterior, que não pode, por- 
tanto, modificar o sentimento senão por intermédio da inteligência ou da atividade. Ver- 
dade é que os órgãos afetivos se acham imediatamente ligados às vísceras vegetativas. 
Mas a influência moral destas, alias submetida a leis pouco conhecidas, só se torna 


CATECISMO POSITIVISTA 283 


considerável na existência pessoal. Fica omissível em relação ao estado social, em virtu- 
de da neutralização espontânea que ela aí experimenta entre os diversos casos, simultá- 
neos ou sucessivos. 

Nossas opiniões e nossas situações constituem, portanto, as únicas fontes normais 
das variações por que passam nossos sentimentos nas diferentes fases da evolução huma- 
na, sobretudo coletiva. Porém, a marcha geral destas mudanças indiretas é, aliás. con- 
forme com a das mutações diretas de que dependem. Porquanto, se se pode resumir a 
evolução especulativa e a evolução ativa considerando-as como tendendo a tornar-nos 
mais sintéticos e mais sinérgicos, reconhece-se igualmente que a nossa evolução afetiva 
consiste sobretudo em tornar-nos mais simpáticos. Nossa existência sendo principal- 
mente caracterizada pela unidade, nosso surto deve essencialmente desenvolver a harmo- 
nia humana. Assim, toda a história da Humanidade condensa-se necessariamente na his- 
tória da religião. A lei geral do movimento humano consiste, sob qualquer aspecto, em 
que o homem se torne cada vez mais religioso. Tal é o resultado final do conjunto das 
apreciações dinâmicas, desde logo plenamente acordes com as noções estáticas: a educa- 
ção da espécie, como a do indivíduo, prepara-nos gradualmente a viver para outrem. 

A MULHER — A vista deste último esclarecimento, não encontro agora, meu 
pai, nenhuma grave dificuldade na teoria da evolução que serve de base à verdadeira filo- 
sofia da história. Podeis, por conseguinte, proceder imediatamente à sumária explicação 
das principais fases da Humanidade. 

O SACERDOTE — A fim de vos facilitar este estudo, convido-vos, minha filha, 
a consultar amiúde o quadro aqui anexo (vide o quadro D), extraído da quarta edição do 
Sistema Geral de Comemoração Pública Peculiar à Transição Orgânica da República 
Ocidental.º* 


Haveis logo de notar neste quadro a ausência total de indicações relativas ao feti- 
chismo, que constitui entretanto nosso estado primordial, e que ainda subsiste em nume- 
rosas populações. Mas esta lacuna inevitável só é devida à natureza concreta deste qua- 
dro, incapaz de abraçar uma fase histórica que não fez surgir nenhum nome duradouro. 
O fetichismo não pode ser dignamente celebrado senão no nosso culto abstrato, onde sa- 
beis quanto o honraremos. 

A eficácia mental do fetichismo consiste sobretudo em fundar espontaneamente o 
método subjetivo, que, absoluto a princípio, dirigiu o conjunto da preparação humana, e 
que, tornado relativo, presidirá cada vez mais ao nosso estado normal. A verdadeira lógi- 
ca, em que os sentimentos dominam as imagens e os sinais, tem, pois, uma origem feti- 


º8 Reproduzimos o Calendário Concreto segundo a edição dada pelo Dr. Robinet no seu livro biográfico 
sobre Augusto Comte, porque nela foram contempladas as indicações manuscritas deixadas, sobre este 
assunto, pelo Mestre. 

A propósito do calendário, lembraremos que a era positivista provisória, atualmente usada por nós, é refe- 
rida a 1.º de janeiro de 1789, ano em que o povo parisiense iniciou a Revolução Francesa derrocando a Bas- 
tilha. A era supra deverá ser conservada até o fim da transição orgânica, “porque importa que todos os oci- 
dentais possam medir habitualmente o curso da crise final. Mas o estado normal não pode conservar uma era 
que lembra uma explosão anárquica seguida logo de uma longa retrogradação. Entretanto, não se poderia 
ligar assaz o futuro ao passado sem tomar no século excepcional o ponto de partida da cronologia final. Para 
conciliar estas duas condições, basta colocar a era positiva no início da transição orgânica, reservada à últi- 
ma das três gerações compreendidas entre a extinção do teologismo e o estabelecimento do positivismo. Fi- 
xado cronologicamente no ano de 1855, este ponto de partida se acha aí sociologicamente caracterizado pela 
coincidência decisiva de uma irrevogável ditadura com a inteira construção da Religião da Humanidade. As 
duas eras, provisória e definitiva, do calendário positivista devem, portanto, diferir de dois terços de século; 
o que facilita a comparação habitual entre o presente e o futuro ou o passado”. (Política Positiva, tomo IV, 
pp. 399-400.) 


284 COMTE 


chica. Quando uma paixão qualquer nos impele a procurar as causas dos fenômenos 
cujas leis ignoramos, a fim de os modificar depois de os ter previsto, nós atribuímos dire- 
tamente aos seres correspondentes afeições humanas, em vez de os sujeitar a vontades 
exteriores. O fetichismo é, pois, mais natural que o politeísmo. 

Não se pode contestar sua aptidão moral, à vista de sua tendência a fazer prevalecer 
espontaneamente por toda parte o tipo humano. Ele torna-nos profundamente simpáticos 
em relação a todas as existências, mesmo as mais inertes, apresentando-no-las sempre 
como essencialmente análogas à nossa. Por isso também este primeiro estado da Huma- 
nidade desperta mais saudades do que qualquer outro naqueles que são a ele subtraídos 
bruscamente; como o atesta a experiência cotidiana dos infelizes africanos transportados 
para longínquas terras pela barbárie ocidental. 

Mesmo sob o aspecto social, menos favorável ao fetichismo, devem-se-lhe impor- 
tantes serviços, que o culto positivo dignamente glorificará. Enquanto a existência per- 
manece nômade, ele modera, pela sua tendência à adoração material, as imensas destrui- 
ções, aliás necessárias, embora cegas, que os povos caçadores ou pastores exercem, 
então, sobre os animais ou vegetais, para preparar o teatro humano. Porém, o seu princi- 
pal benefício consiste em dirigir espontaneamente a primeira das revoluções sociais, 
aquela que serve de base a todas as outras, a passagem para o estado sedentário. Esta 
grande transformação, cuja dificuldade é tão mal aquilatada quanto à sua importância, 
pertence certamente ao fetichismo, em virtude do profundo apego que ele nos inspira pelo 
solo natal. 

A principal imperfeição deste regime espontâneo consiste em não deixar surgir 
senão muito tardiamente um sacerdócio qualquer, capaz de regular em seguida o surto 
humano. Porquanto este culto, apesar de muito desenvolvido, não exige no princípio ne- 
nhum sacerdote, visto sua natureza essencialmente privada, que permite a cada um ado- 
rar sem intermediário seres quase sempre acessíveis. Todavia, o sacerdócio acaba por 
surgir aí, quando os astros, por longo tempo desdenhados, se tornam os principais feti- 
ches, desde logo comuns a vastas populações. A natureza inacessível deles sendo assaz 
reconhecida, suscita uma classe especial, destinada a transmitir as homenagens e a 
comentar as vontades. Mas, neste estado final, o fetichismo confina com o politeísmo, 
que por toda parte proveio da astrolatria, como ainda o indicam os nomes dos grandes 
deuses, sempre tirados dos astros mais adequados a perpetuarem a síntese fictícia. 

A MULHER — Conquanto essa passagem se tenha realizado sem esforço, ela 
parece-me constituir, meu pai, a mais difícil das revoluções preliminares de nossa inteli- 
gência; porquanto temos, então, que substituir bruscamente a atividade pela inércia em 
nossa concepção geral da matéria, para motivar a influência divina. 

O SACERDOTE — Todavia, minha filha, os agentes exteriores introduzem-se 
espontaneamente quando o espírito humano, atingindo sua segunda infância, eleva-se da 
contemplação dos seres à dos acontecimentos, única base possível das meditações cientí- 
ficas. Prolongando o método inicial, os fenômenos, considerados simultaneamente em 
muitos corpos, são então atribuídos a vontades mais gerais, necessariamente dimanadas 
do exterior. Esta transformação intelectual deveria ser-nos familiar à vista dos fregientes 
exemplos que dela podemos observar na idade correspondente da evolução individual. 

Seja como for, é principalmente do politeísmo que depende o conjunto da prepara- 
ção humana, sobretudo social e mesmo mental. Em primeiro lugar, só ele é que completa 
a filosofia inicial, estendendo-a às nossas mais elevadas funções, que em breve suscitam 
a ocupação favorita dos deuses. Com efeito, o fetichismo, essencialmente relativo ao 
mundo material, não podia abarcar de modo distinto nossa existência intelectual c moral, 


Lunedia 
Mariedia 


Mercuridia 


Jovedia 
Venerdia 
Sábado 
Domingo 


Lunedia 
Mariedia 
Mercuridia 
Joveaia 
Venerdia 
Sábado 
Domingo 


PRIMEIRO MÊS 
MOISÉS 
A TEOCRACIA INICIAL 


Prometeu 
Hércules 
Orfeu 
Ulisses 
Licurgo 


. Semlramis 
Sosóstris 
Manu 
Ciro 
Zoroastro 
Os Druidas 


Lao-Tsé 

Meng-Tsé jesé 
Os teocratas do Tibete 

Os teocratas do Japão 
Manco-Capac 

Confúcio 


Abraão 

Samuel 

Salomão 

Isaias 

São João Batista 
Arun-al-Rachid 
Maomé 


OITAVO MÊS 
DANTE 
A EPOPÉIA MODERNA 


Os trovadores 

Bocácio 

Rabelais 

Cervantes 

La Fontaine oberto Burns 
Defos .... és o . Goldsmith 
Ariosto 


Leonardo da Vinci 
Miguel Ângelo 
Holneia 

Paussin 
Velásquez 
Teniers 

Rafael 


.... Ticiano 
Paulo Veronese 
Rembrandt 

. Lesuerur 
“Murilo 
Rubens 


“ doinvile 
Spencer 


Froissart 

Camóss : 

Os Romanceiros espanhóis 
Chateaubriand 

Waiter Scott 

Manzoni 


Petrarca ZE 
Tomás À Kempis 
Mme. de Lafayette 
Fénéion 
Kiopstoch 
Byron 
Milton 


Mme. de Staé! 
São Francisco de Sales 


SEGUNDO MÊS 
HOMERO 
A POESIA ANTIGA 


Hesíodo 7 ; 
Tirteu ; ES E gi : Sato 
Anacreonte 
Pindaro 
Sófocles 
Teócrito 
Esquilo 


Euripedes 


Escopas 
Zeuxis 
lctino 
Praxiteles 
Lisipo 
Apeles 
Fídias 


Esopo Re a Ea: .. Pilpai 
Plauto 
Terêncio 
Fedro 
Juvenal 
Luciano 
Aristófanes 


Menandro 


Lucrécio 
Horácio 
Tíbulo 
Ovídio 
Lucano 
Virgilio 


NONO MÊS 
GUTENBERG 
A INDÚSTRIA MODERNA 


Marco Polo 
Diogo Coeur 


Chardan 

. Gresham 
. Magalhães 
Briggs 

. Delambre 
.Tasman 


Benvenuto Cellini 
Amontons 
Harrison 

Doliond 
Atkwright 

Conté 
Vaucanson 


Wheatstone 
....P Leroy 
Graham 


Stevin Torricelti 
Mariorte .... as .Boyle 
Papin .. a ; Worcester 
Black 

Joutiroy ei .. Fulton 
Dalton Thitorier 
Watt 


Bernardo de Palissy 
Gughelmini 

Duhsmel du Monceau 
Saussure 


TERCEIRO MÊS 
ARISTÓTELES 
A FILOSOFIA ANTIGA 


Anaximandro 
Anaximenes 
Heráclito 
Anaxágoras 
Bemócrito 
Heródoto 
Tales 


.Leucipo 


Sóton 

Xenótanes 
Empédocles 
Tucídides 
Arquitas ; 
Apolônio dé Tiane 
Pitágoras 


..Filolau 


Aristipo 

Antistenes 

Zeno uia Sis 
Cicero E ê Plinio Junior 
Epiteto Arriano 
Tácito 

Sócrates 


Xenócrates 

Filon de Alexandria 

São João Evangelista 

São Justino , 

São Clemente de Alexandria a 
Origenes . Tertuliano 
Platão 


DÉCIMO MÊS 
SHAKESPEARE 
O DRAMA MODERNO 


Lope de Vega Montalvan 
Moreto Guillem de Castro 
Rojas ... Res Guevara 
Otway 

Lessing 

Goethe 

Calderón 


Tireo 
Vondel 
Racine 
Voltaire 
Mltieri 
Schiller 
Corneille 


Alarcon É ; 
Mme. de Motteville 
Mme. de Sevigné 
Lesage 

Mme. de Staél 
Fielding 

Molitre 


Mme. Roland 
.. Lady Montague 
nes .. Sterne 
.. Miss Edgeworth 
. Richardson 


Pergolese . Palestrina 
Sacchini A o Grétry 
Gluck E a a A o bully 
Beethoven Haende! 
Rossini 
Bellini 


QUARTO MÊS 
ARQUIMEDES 
A CIÊNCIA ANTIGA 


Teofrasto 
Herófilo 
Erasistrato 
Ceiso 
Galeno 
Avicena 
Hipócrates 


Averróis 


Euclides 

Aristeu da 

Teodósio de Bitinia às 
Heron ; e ; .Ctesíbio 
Papus 

Diofante 

Apolônio 


Eudexo gr SE q Arato 
Piteas Se RE á à Nearco 
Aristarco Beroso 
Eratóstenes Sosigenes 
Prolomeu 
Albatênio 
Hiparco 


Nassir-Edin 


Varrão 
Columola 
Vitrúvio 
Estrabão 
Frontino 
Plutarco 
Ptinio. o Velho 


UNDÉCIMO MÊS 
DESCARTES 
A FILOSOFIA MODERNA 


Alberto. o Grande 
Rogério Bacon 

São Boaventura 

Ramus 

Montaigne 

Campanella a 
Santo Tomás de Aquino 


. João de Salisbury 
- Raimundo Lúllio 
Joaquim 

Cardeal de Cusa 
Erasmo 


Hobbes ds Espinosa 
Pascal a st J. Bruno 
Locke E : ão Malebranche 
Vauvenargues Mme. de Lambert 
Diderot 

Cabanis 

Bacon 


Cujácio 
. Manpertuis 
...Merder 


Fontenelle 


Montesquieu 
Buffon 
Leibniz 


Robertson 
Adam Smith 
Kant 
Condorcet 
Joseph de Maistre 


.. Fergusson 
De Bonald 
. Sofia Germain 


QUINTO MÊS 
CÉSAR 
A CIVILIZAÇÃO MILITAR 


Milciades 

Leônidas 

Aristides 

Cimon 

Xenofonte 

Focion Epaminondas 
Temistocles 


Péricles 

Filipe 
Demóstenes 
Prolomeu Lago 
Filopêmen 
Políbio 
Alexandre 


Júnio Bruto 
Camilo 
Fabricio 
Anibal 
Paulo Emilio : 
Mário Os Graco 
Cipião 


Cincinato 
Régulo 


Augusto E Mecenas 
Vespasiano á Tito 
Adriano ; Nerva 
Antonino . Marco Aurélio 
Papiniano Ulpiano 
Alexandre Severo -. Aécio 
Trajano 


DUODÉCIMO MÊS 
FREDERICO 
A POLÍTICA MODERNA 


Maria de Molina 

Cosme de Médicis. o Velho 
Filipe de Cemines 

Isabet de Castela 

Carlos V 

Henrique IV 

Luis XI 


. Guicciardini 


-Sixto V 


Coligny t'Hópital 
Barneveldt 

Gustavo Adolto 

Witt 

Ruyter 

Guilherme III 

Guilherme, o Taciturno 


Ximenes Aga ; PR 
Sully DR fa : Oxenstierne 
. Mazarino 
«Luis XIV 
Aranda ARE Pomba! 
Turgot .... 4 Campomanes 
Richelieu 


. Lamben 
.. Hampden 
. Koscinsko 


Sidney 
Frankiin 
Washington 
Jefferson 
Bolivar 
Francia 
Cromwell 


SEXTO MÊS 
SÃO PAULO 
O CATOLICISMO 


São Lucas 

São Cipriano 
Santo Atanásio 
São Jerônimo 
Santo Ambrósio 
Santa Mônica 
Santo Agostinho 


Constantino 

Teodósio 

São Crisóstomo 

Santa Pulquéria 

Santa Genoveva de Paris 
São Gregório Magro 
Hildebrando 


. São Basilio 
Marciano 


Santo Antônio 
Santo Ausilão 
. São Bruno 
Santo Anselmo 
Beatriz 

São Benezet 


São Bento 

São Bonifácio 

Santo Isidoro de Servilha 
Lanfranc 

Heloisa 

Arquitetos da Idade Média 
São Bernardo 


São Francisco Xavier 
São Carics Borromeu 
Santa Teresa 

São Vicente de Paula 
Bourdaloue 

G. Penn 

Bossuet 


Inácio de Loiola 
Frederico Borromeu 
Santa Catarina de Stena 
Padre del Epée 

Cláudio Fleury 

«dFox 


DÉCIMO TERCEIRO MÊS 
BICHAT 
A CIÊNCIA MODERNA 


Copérnico . Tycho-Brahe 
Kepler... Halley 
Huyghens Varignon 
Jacques Bernouilli Jean Bernouilli 
Bradley . Roêmer 
Volta : EUA = is ; Sauveur 
Galileu 


Viete a o Harrioct 
Wallis Ea EA Passa -.. Fermat 
Clairaut ã E Poinsot 
Euter e ada . Monge 
D'Alember --— Bernouilli 
Lagrange Fourier 
Newton 


. Scheele 
Priestley .. Davy 
Cavendish 
Guyton-Morveau 
Berthollet ; sas 
Berzelius .. e : ; . Ritter 


Lavoisier 


. Geoffroy 


z E .. C Bel 
Boérhaave a PE Stahl! 
Lineu e . 8. de Jussieu 
Haller RPA Va Vicq-dAzyr 
Lamarck Blamvilie 
Broussais Morgagni 


SÉTIMO MÊS 
CARLOS MAGNO 
A CIVILIZAÇÃO FEUDAL 


Teodorico Magno 
Pelágio 

Óton. o Grande 
Sunto Henrique 
Villiers 

Dam João de Lepanto 
Alfredo 


Henrique, 0 Passarinheiro 


ta Vaitete 
João Sobieski 


Carlos Martel 

O Cid Tancredo 
Ricardo Saladino 
Joana d'Arc se Marina 
Albuquerque Walter Raleigh 
Eayard 

Godofredo 

São Leão. o Grande tedolV 
Gerbent P. Damião 
Pedro, o Eremita F 

Suger Santo Elói 


Alexandre III 
São Francisco de Assis 
Inocêncio IN 


.Tomãs Bechet 
São Domingos 


Santa Clotilde 

Santa Batilde 

Santo Estêvão da Hungria 
Santa Isabel da Hungria 
Branca de Castela 

São Fernando III 

São Luis 


Matilde de Toscana 
Mateus Corvino 


Afonso X 


Festa universal dos MORTOS 
dores (Juliano e Bonaparte), mas somente durante a primeira meia geração. 


. Festa geral das SANTAS MULHERES 


Reprovação solene dos dois principais retrograda- 


Em seguida: Após estas quatro celebrações da Festa dos Reprovados, este dia excep- 


cional passará a ter sua destinação normal para o culto abstrato. 


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CATECISMO POSITIVISTA 285 


da qual procediam, pelo contrário. todas as suas explicações físicas. Introduzindo, 
porém, seres sobrenaturais, pode-se adaptá-los a este novo destino, que não tarda em 
prevalecer. Ao mesmo tempo, o politeísmo suscita necessariamente um sacerdócio 
propriamente dito. ou antes, consolida e desenvolve aquele que a astrolatria fundou. 

No meio das variedades que apresenta o regime correspondente, notam-se duas 
instituições conexas, que são comuns a todos os seus modos: a confusão radical dos dois 
poderes, espiritual e temporal; a escravidão da população laboriosa. 

Todos os motivos, mesmo intelectuais, e sobretudo sociais, concorrem espontanea- 
mente para a explicação da primeira. Em primeiro lugar, ninguém pode limitar-se a 
aconselhar quando fala em nome de uma autoridade sem limites, cujas inspirações todas 
se transformam naturalmente em comandos absolutos. Em segundo lugar, nosso regime 
preliminar devia sobretudo desenvolver as diversas forças humanas, reservando à ordem 
final a sábia regularização delas, baseada no conjunto de tal aprendizagem. Todos os 
poderes deviam, portanto, achar-se nesse regime profundamente combinados, a fim de 
superarem assaz a indisciplina natural do homem primitivo. A divisão dos dois poderes 
humanos teria radicalmente entravado o destino ativo desse regime, opondo-se ao surto 
das conquistas. Enfim, a íntima discordância entre as concepções teóricas e as noções 
práticas exigia, então, que estas duas ordens de pensamentos ocupassem igualmente cada 
cérebro, a fim de que os seus vícios respectivos pudessem ser aí bastante neutralizados. 
Por outro lado, esta indispensável concentração realiza-se espontaneamente, como o 
atesta a impossibilidade de conceber-se então uma verdadeira separação entre o conselho 
e o comando. mesmo pelos filósofos mais bem preparados. 


Ponderação semelhante aplica-se à escravidão antiga, que sempre foi julgada neces- 
sária à ordem social, até os tempos vizinhos de uma irrevogável emancipação. O escra- 
vo, como ainda o lembra a etimologia latina, ?º foi a princípio um prisioneiro de guerra, 
poupado para o trabalho, em vez de ser destruído ou devorado. Em virtude da natureza 
conciliante do politeísmo, ele podia conservar seu próprio culto, subordinando-o à reli- 
gião do vencedor, tornado seu chefe espiritual e temporal. Esta condição social, de que 
ninguém estava inteiramente isento, visto as vicissitudes da guerra, era então bastante 
natural para ser amiúde aceita independentemente de sua fonte militar, que contudo pre- 
valeceu sempre. 


A instituição da escravidão formou duplamente a base da civilização antiga, pri- 
meiro por ser indispensável ao desenvolvimento das conquistas, segundo, a fim de habi- 
tuar o homem ao trabalho, que se tornou assim o único meio de melhoramento pessoal, 
depois de ter sido o penhor da vida. Sob todos estes aspectos não se pode, de modo 
nenhum, compará-la à efêmera monstruosidade suscitada pela colonização moderna. 

A MULHER — Depois deste apanhado geral do regime politéico, precisaria, meu 
pai, conhecer sumariamente seus principais modos. 


O SACERDOTE — O mais fundamental consiste, minha filha, na teocracia 
propriamente dita. Este politeísmo conservador constitui a única ordem verdadeiramente 
completa que comporta o conjunto da preparação humana, da qual todas as outras fases 
não oferecem senão modificações dissolventes desse regime primitivo, única fonte da 
consistência parcial dessas fases. 

Ele assenta sobre duas instituições conexas, a hereditariedade das profissões quais- 
quer e o universal predomínio da casta sacerdotal. A primeira fornece o único meio de 
conservar os progressos realizados, e de permitir lentamente modificações secundárias, 


ºº Segundo a etimologia até aqui mais aceita, servos deriva-se de servare, conservar, salvar, prescrvar. 


286 COMTE 


enquanto a educação operou-se antes por imitação do que por ensino, visto não existir 
separação entre a teoria e a prática. Mas este regime necessário decomporia a população 
em castas profundamente independentes, se a uniforme preponderância do sacerdócio 
não viesse constituir nele o Estado, fornecendo todos um laço venerado, que espontanea- 
mente comporta uma vasta extensão. 

Esta constituição inicial é por tal modo natural que ainda subsiste nas mais populo- 
sas nações de hoje, apesar de imensas perturbações. Posto que tivesse surgido por toda 
parte, ela não pôde prevalecer a esse ponto senão nos lugares em que a inteligência e o 
trabalho se desenvolveram antes da atividade militar. Com efeito, esta torna-se sempre o 
dissolvente espontâneo de semelhante regime, tendendo a fazer prevalecer os guerreiros 
sobre os padres. Apesar dos imensos esforços da política sacerdotal tendentes a desviar 
o ardor belicoso para longínquas expedições, sempre seguidas de irrevogáveis coloniza- 
ções, a teocracia terminou por toda parte no domínio do patriciado militar, mas conser- 
vando os costumes antigos. Esta última atitude, irrecusável confirmação da tenacidade 
de tal regime, permite hoje estudá-lo diretamente, embora muito alterado, mesmo na 
China 'ºº e na Índia, a fim de compreender melhor o vetusto Egito, venerável mãe de 
toda a civilização ocidental. Pode-se então apreciar, numa grande escala, o ofício social 
do sacerdócio, ao mesmo tempo conselheiro, consagrador, regulador e finalmente juiz. 
Mas vê-se também aí quanto esta atribuição fundamental achava-se profundamente 
comprometida pelo comando e pela riqueza que necessariamente macularam a interven- 
ção inicial da inteligência no domínio do sentimento e da atividade. 

Deve causar-vos surpresa que semelhante regime esteja tão pouco representado no 
quadro que vos propus. Isto é devido sobretudo, como no caso do fetichismo, à natureza 
concreta dessa composição histórica, mais estética do que científica. Todavia, tratando- 
se de um regime que deixa tantos monumentos de todo gênero, tal explicação geral preci- 
sa de um desenvolvimento especial. Consiste em notar um dos mais nobres caracteres da 
verdadeira teocracia, no qual o governo humano reside em corporações imensas e perpé- 
tuas, sem que os serviços prestados possam quase nunca ligar-se a nomes particulares. Se 
semelhante tendência para a absorção dos indivíduos não existisse então, os diversos 
colégios sacerdotais teriam sido amiúde perturbados pelas rivalidades naturais das divin- 
dades politéicas. É somente quando a teocracia, segundo uma exceção felizmente única, 
se funda no monoteísmo, que uma extrema concentração faz aí sobressair os nomes 
supremos. Por isso a natureza concreta do nosso quadro forçou a escolher Moisés como 


199 Toda a filosofia da civilização chinesa, condensou-a depois Augusto Comte nestas poucas linhas: 

“Um concurso especial de influências sobretudo sociais dispôs a civilização chinesa a desenvolver o feti- 
chismo além de tudo quanto foi possivel alhures. Mais bem sistematizado que em nenhum outro caso, ele aí 
prevaleceu sobre o teologismo, e preservou a terça parte de nossa espécie do regime das castas, apesar da 
hereditariedade das profissões. Superou aí todos os contatos heterogêneos, e conservou seu ascendente nacio- 
nal no meio das misturas, mais toleradas do que consagradas, do politeísmo exterior, sem acolher jamais o 
monoteismo. O culto aí consiste sobretudo na adoração da Terra e do Céu... Segundo o caráter concreto 
da sociabilidade chinesa, cuja principal imperfeição resulta da falta de desenvolvimento abstrato, o Espaço 
aí se confunde com o conjunto dos corpos celestes, sob o impulso astrolátrico. Expurgada pela relatividade, 
esta instituição será facilmente subordinada à Humanidade em um povo onde a destinação social prevalece 
sempre.” (Síntese Subjetiva. Introdução, pp. 22-23.) 

O Sr. Laffitte, num interessante opúsculo,* se encarregou de demonstrar em seu conjunto, em suas partes, O 
teorema sociológico constituído pelo admirável trecho que acabamos de citar. 

* Considérations Générales sur [Ensemble de la Civilisation Chinoise et sur les Relations de VOccident 
avec la Chine, par M. Pierre Laffitte, Paris, 186] — É o único trabalho verdadeiramente recomendável do 
degencrado discípulo, pretendido sucessor de Augusto Comte. — V. nosso opúsculo: Pour notre Maitre et 
notre Foi. Le Positivisme et le Sophiste Pierre Laffitte, Rio, 1889. 


CATECISMO POSITIVISTA 287 


tipo pessoal do regime inicial, conquanto ele represente de modo muito imperfeito uma 
constituição essencialmente peculiar ao politeísmo. 

A MULHER — Esta admiração refletida pela teocracia faz-me apreciar melhor, 
meu pai, a profunda injustiça das obcecadas imputações de que ela é ainda objeto por 
parte da maioria dos homens que se crêem adiantados. A julgar por essas críticas, pare- 
ceria que o regime de onde tudo dimana, e que durou mais do que qualquer outro, foi 
sempre opressivo e degradante; de modo que não se compreenderia mais de onde pude- 
ram surgir os progressos realizados. 

O SACERDOTE — Todas essas críticas da teocracia devem ser consideradas, 
minha filha, como tão frívolas quanto as acusações de Santo Agostinho contra o con- 
junto do politeísmo e as recriminações de Voltaire contra o catolicismo. Nenhum regime 
pode merecer tais censuras senão durante sua decadência. Nunca teria surgido nem 
prevalecido se a maior parte de seu domínio não houvesse sido suficientemente conforme 
com a nossa natureza, e mesmo assaz favorável aos nossos progressos. 

As tendências opressivas para a imobilidade não se desenvolvem realmente senão 
na última fase da teocracia. Elas provêm aí da inevitável degradação do caráter sacerdo- 
tal pelo comando e pela riqueza. Mas, por outro lado, tem-se exagerado muito a imutabi- 
lidade teocrática,por causa do contraste que resulta da rapidez superior que distingue a 
marcha ocidental. Independentemente de toda perturbação estranha, indícios decisivos e 
multiplicados manifestam, há muito tempo, o movimento espontâneo de semelhante civi- 
lização. Por exemplo, o budismo, conquanto comprimido no seu centro, produziu em 
breve no Tibete profundas modificações, desenvolvidas na China pela instituição dos 
exames. 

Quando o positivismo tiver de penetrar nessas imensas populações, será chegado o 
tempo de estudar com cuidado a progressão natural que as teria levado ulteriormente por 
si mesmas ao nível final do Ocidente, segundo uma marcha distinta mas equivalente; 
porque é a essas tendências espontâneas que se deverá sabiamente reatar a aceleração 
sistemática, afastando todas as perturbações violentas introduzidas pelo monoteismo, 
primeiro muçulmano, depois cristão. No entanto, guardando para depois esta importante 
apreciação, devemos agora concentrar nossos estudos históricos nos antepassados ime- 
diatos da civilização ocidental. Somos, assim, levados a fazer predominar o exame das 
populações em que o estabelecimento teocrático foi previamente evitado por um desen- 
volvimento precoce da atividade militar. 

Mas este politeísmo progressivo apresenta dois modos, muito diferentes, um essen- 
cialmente intelectual, o outro eminentemente social. O primeiro dá-se quando as circuns- 
tâncias locais e políticas não permitem que a atividade militar, embora muito desenvol- 
vida, institua um verdadeiro sistema de conquistas. Neste caso a reação latente dessa 
atividade impele todos os homens superiores para a cultura mental, transformada tam- 
bém em principal objeto da atenção pública, e desprendida, assim, da disciplina sacerdo- 
tal. Quando, pelo contrário, a guerra pode tender livremente para o domínio universal, a 
inteligência subordina-se à atividade, e todos os cidadãos são ordinariamente absorvidos 
pelas solicitudes sociais, tanto no interior como no exterior. Estes dois modos do poli- 
teismo progressivo foram igualmente necessários, cada um segundo sua natureza e em 
sua época, ao grande movimento ocidental que se seguiu à ruptura espontânea do jugo 
teocrático. 

Nenhuma teocracia escapa finalmente ao ascendente social dos guerreiros sobre os 
padres. A própria teocracia da Judéia, apesar de sua concentração excepcional, passou 
também por esta revolução, quando os reis sucederam aos juizes, seis séculos depois de 


288 COMTE 


fundada. Importa, porém, distinguir entre os casos em que esta mudança não se efetua 
senão quando os costumes teocráticos já adquiriram uma plena consistência e aqueles 
em que o rápido advento de tal mudança precede semelhante constituição, por conse- 
guinte essencialmente abordada. Nossa evolução ocidental dependeu sobretudo deste úl- 
timo impulso, que todavia nunca teria bastado sem os germes acertadamente tomados às 
puras teocracias. 

Os tempos cantados por Homero marcam nitidamente o começo de semelhante 
série. Com efeito, duas gerações haviam então passado, quando muito, desde que os 
guerreiros começaram a dominar os sacerdotes entre nossos antepassados helênicos. A 
teocracia primitiva se manifesta ainda aí pelos oráculos numerosos e respeitados, embo- 
ra dispersos, que persistiram na Grécia mais do que alhures. 

A MULHER — A partir desta era ocidental, vós me anunciastes, meu pai, que a 
evolução humana constitui realmente uma imensa transição, sem comportar nenhum ver- 
dadeiro regime. Sente-se bastante quanto é exata semelhante apreciação quando se opõe 
a curta duração dos diversos estados sociais que desde então se sucedem, quer à persis- 
tência anterior da teocracia precedida do fetichismo, quer ao incomparável porvir da 
ordem positiva. Mas eu quisera conceber agora a marcha geral dessa transição 
necessária. 

O SACERDOTE — Semelhante preparação, exatamente representada pelo nosso 
quadro concreto, refere-se, minha filha, como o conjunto da natureza humana, primeiro 
a inteligência, depois à atividade, para terminar, enfim, no sentimento. A teocracia inicial 
cultivava simultaneamente estas três faces da nossa existência, submetida assim a regras 
completas, conquanto demasiado desfavoráveis aos nossos progressos contínuos. Mas, 
tanto esta disciplina era a única que se adaptava ao teologismo, que nunca foi possível 
substituir-lhe nada de durável enquanto prevaleceu a síntese fictícia. Só se acelerou a 
marcha quebrando semelhante harmonia, para desenvolver sucessivamente cada parte da 
existência humana à custa das outras duas. Este caráter profundamente incompleto dis- 
tingue de modo nítido, primeiro a elaboração grega, em seguida a preparação romana, 
enfim a iniciação católico-feudal. 

A ordem destas três evoluções parciais resulta desde logo de seu destino comum. 
Porquanto cumpria, então, sobretudo desenvolver as forças humanas, sem aspirar ainda 
a discipliná-las, a não ser pelo seu antagonismo espontâneo. Todo esforço prematuro 
para regular o conjunto de nossa existência tendia a restabelecer uma teocracia sempre 
iminente, e tornara-se contrário ao surto especial que se queria secundar. Eis aí por que 
o sentimento, principal fonte de disciplina humana, teve de ser por longo tempo despre- 
zado, de modo a não prevalecer senão quando o desenvolvimento teórico e prático esti- 
vesse bastante adiantado. A própria expansão de nossas forças exigia que a inteligência 
precedesse a atividade; porque, a marcha ativa tendendo então a reunir todos os poli- 
teístas progressivos sob um mesmo domínio, se teria tornado incompatível com a plena 
liberdade que exige a evolução especulativa, se esta não se houvesse efetuado 
previamente. 


Décima TERCEIRA CONFERÊNCIA 


TRANSIÇÃO PECULIAR AO OCIDENTE 


A MULHER — Graças às explicações finais da conferência anterior, eu concebo, 
meu pai, a natureza e a sucessão das três grandes fases peculiares à transição necessária 
que nos separa dos tempos homéricos. Preciso, porém, compreender melhor sua marcha 
e encadeamento, começando pela evolução grega. 

O SACERDOTE — O brilho imortal desta não deve impedir-vos, minha filha, de 
deplorardes seu contraste geral com a evolução romana, quanto à influência respectiva 
delas sobre as populações correspondentes. Em Roma, trata-se de uma construção coleti- 
va, em que todos os homens livres devem sempre participar ativamente, sob pena de 
malogro radical. Na Grécia, a população permanece essencialmente passiva e forma 
uma espécie de pedestal a alguns pensadores verdadeiramente eminentes, cujo número 
total, na arte, na filosofia e na ciência, não excede a cem, desde Homero e Hesíodo até 
Ptolomeu e Galeno. De um lado, a elevada atividade comum proporciona à nação uma 
nobreza universal, cujos vestígios são ainda apreciáveis. Porém, no outro caso, a mons- 
truosa preponderância concedida à especulação sobre a ação conduziu ao aviltamento, 
demasiado sensível hoje, de uma população sacrificada que acabou por colocar acima de 
tudo os talentos de expressão. As cidades gregas só foram preservadas de cair cada uma 
sob a vil tirania de algum retórico pela conquista romana. 

Essas tribos por demais gabadas não comportaram verdadeiramente senão uma 
bela fase social, que apenas se prolongou por dois séculos, e ainda assim interrompida 
amiúde pelas suas miseráveis contestações. Essa fase resultou da admirável luta, pri- 
meiro defensiva, depois ofensiva, que sustentaram contra a violenta opressão com que a 
teocracia persa ameaçava esse precioso núcleo de livres-pensadores, encarregado então 
dos destinos intelectuais da Humanidade. Mas aí mesmo os sucessos principais foram 
devidos sobretudo a alguns cidadãos incomparáveis: porque cada população se mostra 
amiúde disposta a sacrificar a defesa comum às rivalidades mútuas. 

Nessa longa elaboração mental, cumpre distinguir três fases desiguais fielmente 
caracterizadas no quadro concreto. O movimento começa pela arte de que Homero é o 
eterno representante. Forçoso era que a poesia, ao mesmo tempo mais independente e 
mais constrangida, fosse a primeira a desprender-se do tronco teocrático, de modo a 
começar a emancipação ocidental. Ela prepara o advento da filosofia que, a princípio 
esboçada por Tales e Pitágoras, personifica-se enfim no incomparável Aristóteles, por tal 
forma superior ao seu tempo que só pôde ser apreciado na Idade Média. Sob a presi- 
dência de sua eterna elaboração, este segundo surto fica assaz caracterizado a ponto de 
fazer sentir em breve aos verdadeiros pensadores a impossibilidade de ultrapassá-lo sem 
um longo preâmbulo científico que pudesse desenvolver suficientemente sua primordial 
base positiva. Então a ciência real, admiravelmente representada por Arquimedes, tor- 


290 COMTE 


nou-se, por sua vez, O objeto principal do gênio grego, cuja aptidão estética e força filo- 
sófica se achavam irrevogavelmente exaustas. 

A MULHER — Quanto à preparação romana, sempre achei-a, meu pai, muito 
mais bem apreciável, em virtude do caráter homogêneo e saliente que distingue essa 
admirável ascensão gradativa para o domínio universal. A principal obra de Bossuet !º! 
contém, a esse respeito, eminentes apanhados, que há muito tempo conheço. Esse sistema 
político ê por tal modo compreensível, que pode ser assaz definido por uns quantos ver- 
sos incomparáveis, que me foram explicados outrora. !'º? Se bem que apenas indiquem o 
destino exterior, tais versos fazem sentir quanto a constituição inferior estava intima- 
mente ligada àquele. 

O SACERDOTE — Só resta, minha filha, completar semelhante conjunto distin- 
guindo suas duas fases essenciais. Enquanto a incorporação romana não abraçou a 
maior parte do Ocidente, a atividade guerreira teve de ser dirigida pela casta senatorial 
forte de seu ascendente teocrático, graças ao qual o surto comum continha suficiente- 
mente os ciúmes plebeus. Porém, esta constituição militar houve de mudar quando o 
domínio se tornou assaz extenso e consolidado para não mais absorver a solicitude do 
povo, do qual os imperadores se tornaram os verdadeiros representantes contra a tirania 
patrícia. Virgílio caracterizou a política romana, personificada no incomparável César, 
no tempo mesmo em que este sistema experimentava, sem que o terno poeta tivesse disso 
consciência, essa transformação decisiva, primeiro sintoma de seu declínio necessário. 

kssas duas fases quase iguais, uma eminentemente progressiva, a outra essencial- 
mente conservadora, tiveram cada uma delas muita eficácia social para o conjunto da 
preparação ocidental. Se devemos à primeira o salutar domínio que comprimiu por toda 
parte guerras estéreis, e no entanto contínuas, devemos à outra os benefícios civis dessa 
incorporação política, em virtude da uniforme propagação da evolução grega. Conquis- 
tando a Grécia, Roma rendeu-lhe sempre digno preito e consagrou sua própria influência 
a derramar resultados estéticos, filosóficos e científicos, cujo principal destino exigia 
semelhante disseminação. 


Quando os últimos movimentos. um intelectual, outro social, peculiares a Antigui- 
dade, ficaram assim combinados irrevogavelmente, a preparação humana tendeu logo 
para sua última fase necessária. O desenvolvimento, teórico e prático, de nossas princi- 
pais forças não tardou em fazer sentir profundamente a necessidade de as regular; por- 
quanto a disciplina espontânea que resultava de um destino temporário ficou radical- 
mente dissolvida logo que esse objetivo foi alcançado. Então o espírito e o coração se 
entregaram a desregramentos sem exemplos, em que todos os nossos tesouros intelec- 
tuais e materiais eram dissipados em ignóbeis satisfações de um egoísmo infrene. Ao 
mesmo tempo que a regeneração se tornava indispensável, o conjunto dos antecedentes 
greco-romanos parecia fornecer-lhe uma base sistemática, em virtude da preponderância 


101 Discours sur UHistoire Universelle (1681). 

+92 Alusão aos seguintes versos de Virgílio: 

Excudent alii spirantia moilius aera, / Credo equidem; vivos ducent de marmore vultus / Orabunt causas 
melius; coelique meatus. / Describent radio, et surgentia sidera dicent: / Tu regere imperio populos, Romane, 
memento; / llaec tibi et erunt artes, pacisque imponere morem. / Parcere subjectis, et debellare superbos. 
(Eneida, livro VI.) 

Hão de outros mais molemente os bronzes respirantes fundir, sacar do mármore / Vultos vivos; orar melhor 
nas causas; / Descrever com seu rádio o céu rotundo, / O orto e o sidério curso; tu, Romano, / Cuida o 
mundo em reger; terás por artes / À paz e a lei ditar, e os povos todos / Poupar submissos, debclar soberbos. 
(Trad. de Odorico Mendes.) 


CATECISMO POSITIVISTA 291 


intelectual do monoteísmo, combinada com a tendência social para uma religião 
universal. 

O catolicismo surgiu, assim, para satisfazer a essa imensa urgência de disciplina 
completa, sob o impulso demasiado menosprezado do incomparável São Paulo, cuja 
sublime abnegação pessoal facilitou o progresso da unidade nascente, deixando prevale- 
cer um falso fundador. Mas a natureza profundamente contraditória de semelhante cons- 
trução indicava já esta última transição como mais rápida e menos extensa que as prepa- 
rações precedentes. Com efeito, o alvo principal não podia ser aí atingido senão pela 
separação radical dos dois poderes humanos, aliás espontaneamente nascida de uma 
situação em que o monoteísmo crescia lentamente sob o domínio político do politeísmo. 
No entanto, semelhante divisão permanecia sempre incompatível com o gênio necessa- 
riamente absoluto do teologismo, que, sobretudo em sua concentração monotéica, não 
permite que o sacerdócio se limite ao conselho senão enquanto não se pode apoderar do 
comando. 

Esta contradição necessária caracteriza-se sobretudo por dois contrastes gerais, um 
social, outro intelectual. Não é possível, então, fundar a disciplina humana senão sobre a 
vida futura, à qual o novo sacerdócio confere uma importância até então desconhecida, 
mesmo na Judéia, a fim de fazer dela um domínio exclusivo para si. Mas semelhante 
modo tornava-se impróprio para regular a existência real, porque apartava da sociedade 
para impelir cada crente ao ascetismo solitário. Por outro lado, a íntima discordância 
entre a teoria e a prática, que se achava dissimulada, e mesmo compensada, enquanto os 
dois poderes permaneciam confundidos, manifestou-se completamente por efeito de sua 
separação. A concentração monotéica desenvolveu sobretudo o contraste necessário 
entre as vontades arbitrárias e as leis imutáveis; porquanto a engenhosa conciliação que 
Aristóteles havia preparado não era destinada senão a fase ulterior em que o espírito 
positivo havia de tender primeiro para seu ascendente final sob a tutela teológica. 


À vista do conjunto destes contrastes, não é para estranhar que o movimento cató- 
lico tivesse sido repelido durante tanto tempo, como uma verdadeira retrogradação, 
pelos melhores tipos, teóricos ou práticos, do Império Romano. Esses chefes eminentes 
achavam-se gradualmente inclinados, desde Cipião e César, ao advento direto do reino 
da Humanidade, sob o predomínio simultâneo do espírito positivo e da vida industrial. 
Eles não tinham, porém, percebido a necessidade de uma verdadeira preparação social, 
essencialmente relativa ao sentimento, para produzir o regime final pela dupla emancipa- 
ção das mulheres e dos trabalhadores, reservada à Idade Média. 

A MULHER — Este grande resultado parece-me, meu pai, que só é aqui referido 
primeiro ao catolicismo a fim de caracterizar melhor sua filiação histórica, represen- 
tando-o como podendo provir do regime antigo sob o novo impulso religioso. Ele foi, 
porém, secundado profundamente, e mesmo muito acelerado, pela influência feudal. O 
catolicismo, que outrora possuiu minha fé, conservará sempre minha veneração. Contu- 
do, nunca pude deixar de lhe preferir no meu íntimo a cavalaria, cujo nobre resumo ainda 
ouço repercutir no século XVI: Faze o que deves, suceda o que suceder. 


O SACERDOTE — Só tenho, minha filha, que completar vossa justa apreciação 
fazendo-vos ver que o estado feudal, atribuído indevidamente às invasões germânicas, foi 
também uma consegiência necessária do regime romano, que no fim tendeu para aí 
espontaneamente. De fato, a extensão do império transformou dentro de pouco a con- 
quista em defesa. Ora, os outros dois caracteres políticos da Idade Média resultam neces- 
sariamente dessa transformação principal. De um lado, ela mudou gradualmente a escra- 
vidão em servidão, depois de ter naturalmente restringido o tráfico ao interior do mundo 


202 COMTE 


romano. Ao mesmo tempo, ela decompós cada vez mais o domínio central em autori- 
dades locais, encarregadas cada uma de uma defesa parcial, e cuja subordinação hierár- 
quica constituiu a feudalidade propriamente dita. O catolicismo não fez senão sancionar 
espontaneamente esta tríplice tendência política, recomendando a paz, a emancipação e 
a submissão. Mas foi ele, então, o digno órgão dos sentimentos inspirados pela situação 
ocidental, os quais não devem ser atribuídos à sua doutrina, que amiúde serviu depois 
para consagrar disposições inteiramente opostas em virtude de seu caráter vago e mesmo 
anti-social, Ele contribuiu muito menos que o feudalismo, quer para a abolição, primeiro 
urbana, depois rural, da escravidão ocidental, quer para a emancipação feminina, onde 
só lhe devemos a pureza prévia, mas de modo algum a ternura final, sempre cavalhei- 
resca. Em toda a Igreja grega, ele ainda consagra a reclusão das mulheres, a servidão dos 
trabalhadores, que só os czares vão modificando dignamente. 

A MULHER — Assaz preparada, meu pai, para esta apreciação geral da Idade 
Média, só me resta conhecer a principal divisão dessa última transição orgânica. 

O SACERDOTE — Ela resulta, minha filha, do duplo sistema de guerras defensi- 
vas em que o Ocidente teve, então, de absorver sua atividade coletiva, enquanto nele se 
consumava gradualmente a grande revolução social que acabo de caracterizar. Uma pri- 
meira fase, começando no princípio do século V e terminando com o VII, é preenchida 
pelo estabelecimento fundamental, em que surgem, sob as invasões suscetíveis de êxito 
durável, todos os caracteres próprios da Idade Média, salvo a língua. Então a indepen- 
dência prevalece sobre o concurso. Numa segunda fase de igual duração, a necessidade 
de concentração torna-se dominante, a fim de reprimir as invasões perturbadoras das 
populações suscetíveis de serem incorporadas ao Ocidente, graças à sua fácil conversão 
ao catolicismo. Esta atividade coletiva do Ocidente foi sobretudo dirigida pela ditadura 
do incomparável Carlos Magno, dignamente completada pelos seus sucessores 
germânicos. 

Assim funda-se a República Ocidental, em que a antiga comunhão, devida à incor- 
poração forçada, transforma-se numa associação voluntária de Estados independentes, 
apenas diretamente ligados por um mesmo regime espiritual, condensado no papado. 
Esta mudança tende já, apesar das influências eclesiásticas e das recordações políticas, a 
deslocar o centro social do sistema, transportando-o de Roma para Paris, onde ele se 
achava irrevogavelmente fixado. desde o fim da Idade Média, como mais adequado às 
relações locais. 

Mas, durante esta segunda fase, o Oriente sofreu um vasto abalo que não tardou em 
reagir profundamente sobre o conjunto do Ocidente, primeiro prolongando neste o regi- 
me católico feudal. e depois dando começo à sua irreparável dissolução. 

A necessidade de uma religião verdadeiramente universal era sentida havia muito 
tempo, na maior parte da raça branca, incluindo mesmo a porção que, embora adjacente 
ao Império Romano, tinha evitado seu domínio. Ora, essa universalidade, cuja invocação 
caracteriza a um tempo o principal mérito da melhor crítica do catolicismo, não pode de 
modo algum pertencer ao teologismo, e está exclusivamente reservada ao positivismo. 
No entanto, o monoteísmo se aproxima mais dela do que o politeísmo. Este foi sempre 
uma religião essencialmente nacional, porém muito conciliável com a incorporação mili- 
tar. Pelo contrário, o monoteísmo pode agremiar povos verdadeiramente independentes, 
conquanto esta aptidão não se tenha realizado assaz senão no Ocidente, na Idade Média. 
O Oriente devia, pois, tender também para uma fé monotéica, mas profundamente 
incompatível com a crença ocidental, em virtude da diversidade dos destinos sociais. 


CATECISMO POSITIVISTA 293 


Com efeito, o islamismo dirigia sobretudo o surto militar de uma outra nobre parte 
da raça branca, aspirando por sua vez a se tornar o principal núcleo do verdadeiro Gran- 
de Ser. Por isso a antiga confusão dos dois poderes foi aí necessariamente conservada e 
mesmo desenvolvida, em virtude da concentração monotéica. Tornado assim mais con- 
forme ao gênio natural do teologismo, o monoteísmo podia, e mesmo devia, adquirir, no 
Oriente, uma simplicidade dogmática que ele não comportava no Ocidente. Porquanto, 
entre nós, a separação factícia das duas potências havia forçado o verdadeiro fundador 
do catolicismo a complicar o dogma completando a revelação, indispensável a todo 
monoteísmo, pela divinização do suposto fundador. Daí resultaram outras complicações 
secundárias, que o islamismo se honrou de afastar também para assegurar melhor o 
predomínio do caráter militar contra a degeneração sacerdotal do chefe supremo. A 
independência do clero forneceu, com efeito, o motivo essencial dessas sutilezas católi- 
cas, que merecem historicamente a veneração dos filósofos, por maior que seja a repug- 
nância que devam inspirar à nossa razão. 

Desde o começo dessa luta entre dois monoteísmos inconciliáveis, um livre-pen- 
sador poderia ter previsto que ela conduziria breve a desacreditá-los igualmente, mos- 
trando a inanidade radical de suas comuns pretensões à universalidade. Esse imenso con- 
flito enche a última fase da Idade Média, começando com o século XI e terminando no 
fim do século XIII. Então estabelece-se em primeiro lugar o feudalismo propriamente 
dito, onde a independência e o concurso, que alternadamente prevaleceram, se achavam 
enfim dignamente combinados, de modo a fazer já pressentir a sociocracia final. Essa 
admirável instituição tornou-se no século XII a base geral dessas heróicas expedições em 
que a República Ocidental, consolidada e desenvolvida pela atividade coletiva, dissipou 
finalmente todos os receios de invasão muçulmana. A partir do século seguinte, as cruza- 
das, essencialmente destituídas de destino social, não tardaram em adulterar-se e 
desacreditar-se. O conjunto do mundo romano ficou dividido, desde então, entre dois 
monoteísmos incompatíveis, tendendo logo cada um deles para o seu irrevogável declí- 
nio, que só foi retardado, de um lado e de outro, pela dificuldade de substituir-lhes um 
novo regime. 

A MULHER — Esta teoria geral da Idade Média deixa-me, meu pai, enfim 
compreender o conjunto do catolicismo, intelectual e social: concebo seu advento neces- 
sário, sua missão temporária e sua irreparável decadência. Porém, tal apreciação indica 
melhor quanto o catolicismo foi injusto para com a elaboração grega e a incorporação 
romana, cuja combinação espontânea havia determinado sua formação. Depois de ter 
amaldiçoado seus pais, ele foi, por sua vez, amaldiçoado por seus filhos. Conquanto o 
primeiro erro não desculpe o segundo, explica-o, manifestando a ruptura da continuidade 
humana. 

O SACERDOTE — Com efeito, minha filha, essa continuidade havia sido respei- 
tada nas revoluções precedentes. O politeísmo substituíra primeiro o fetichismo de um 
modo quase insensível, incorporando-o a si espontaneamente. Quando o regime militar 
veio suceder à teocracia inicial, foi ainda sem romper seus antecedentes sociais que 
continuaram sempre a ser acatados. O mesmo dá-se quando Roma absorve a Grécia, 
glorificando-se de prolongar sua evolução. Mas o advento do catolicismo oferece, pelo 
contrário, um caráter anárquico. O futuro e o presente são nele concebidos e dirigidos 
como se o passado greco-romano nunca houvesse existido. A injustiça cristã estende-se 
mesmo até os antecedentes judaicos, apesar da viciosa importância que lhes era 
atribuída. 


294 COMTE 


Esta brutal descontinuidade, que o islamismo se esforçou por evitar, alterou muito 
o sentimento geral do progresso social, cujo primeiro esboço o catolicismo fez surgir 
espontaneamente, em virtude da superioridade real de seu regime sobre o precedente. 
Importa apreciar bem semelhante ruptura dos laços históricos. Ela explica, em primeiro 
lugar, a íntima contradição, intelectual e moral, em que breve ficou colocada uma dou- 
trina que, nascida da discussão, quis depois proibi-la, e que exigiu de seus filhos o res- 
peito que ela negava aos seus pais. Mas cumpre, sobretudo, apanhar aí a verdadeira ori- 
gem da mais grave disposição peculiar à anarquia moderna. O sentimento e o espírito 
anti-históricos, cujo predomínio constitui hoje o principal obstáculo à reorganização oci- 
dental, datam assim do advento do catolicismo. Esta imensa dificuldade não pode ser 
superada senão pelo positivismo, porque só ele é capaz de igualmente fazer justiça a 
todas as fases, sociais ou mentais, da evolução humana. 

Todavia, cumpre reconhecer aqui, como por toda parte alhures, que a eminente 
sabedoria do sacerdócio católico neutralizou, durante muito tempo, os principais vícios 
de sua deplorável doutrina. Apropriando-se da lingua de Roma quando ela cessou de 
prevalecer, ele conservou espontaneamente todos os tesouros intelectuais da Antigui- 
dade, inclusive sua bela teologia. A comovente lenda, tão dignamente imortalizada por 
Dante, 'º* acerca da feliz intercessão de um santo papa em favor de Trajano bastará 
para indicar quanto as nobres almas católicas lastimavam que sua cega doutrina as 
impedisse de honrar seus melhores antepassados. Mas o respeito geral dos antecedentes 
gregos e romanos foi desenvolvido sobretudo pelos chefes temporais, apesar de sua fre- 
quente ignorância. 

Por toda parte encontramos um contraste semelhante. Uma admirável disciplina 
estabelece-se então no conjunto dos sentimentos humanos, posto que ela assente sobre 
um imenso egoísmo, cuja preponderância era o único meio de dominar no princípio a 
personalidade vulgar. A ternura cavalheiresca é preparada e sancionada pela fé mais 
antifeminina que jamais reinou. Em virtude da instituição do celibato eclesiástico, que 
destrói toda hereditariedade sacerdotal, o golpe mais decisivo vibrado no Ocidente con- 
tra o regime das castas emana de uma doutrina naturalmente favorável à teocracia, obje- 
to final do papado degenerado. O monoteísmo, que se torna, enfim, hostil a todos os pro- 
gressos intelectuais, preparou o surto geral deles, acabando de elaborar a lógica humana. 
Fundada pelo fetichismo sobre os sentimentos, deveu esta ao politeísmo o emprego das 
imagens. Mas sua evolução espontânea não se completou senão sob o monoteísmo, 
mediante a assistência usual dos sinais. Este resultado, essencialmente comum ao isla- 
mismo e ao catolicismo, pertence mais a este, por causa da discussão habitual que aí sus- 
citava, em todas as classes, a divisão dos dois poderes. 

Todas estas antinomias devem aumentar muito a admiração e o respeito dos verda- 
deiros filósofos por essas belas naturezas pontificais que, durante alguns séculos, tiraram 


*D3 A lenda imortalizada por Dante, a que A. Comte se refere neste tópico, é a seguinte: Contava-se que o 
Papa Gregório Magno (599-604), lendo um dia a vida de Trajano e tomado de admiração por tão singulares 
virtudes, não pôde conformar-se com que, por ser pagão, deixasse esse príncipe de salvar-se no outro mundo. 
Entrou, pois, numa igreja e orou tão fervorosamente a Deus pela alma do grande imperador que ali mesmo 
Deus lhe revelou que sua súplica estava deferida e Trajano admitido no reino celestial. O passo da Divina 
Comédia em que Dante alude a esta lenda é o seguinte: 

Quivi era storiata Ialta gloria / Del roman prince, lo cui gran valore / Mosse Gregorio all sua gran vittoria: 
/ To dico di Trajano imperatore. (Purgatório, canto 10.º.) 

Aí se narrava a altiva glória / Do príncipe romano que a Gregório / Deu, por alto valor, causa ao triunfo: 
/ Relato aqui o Imperador Trajano. (Trad. de B. de Abreu.) 

No Paraíso o pocta não esqueceu o grande Romano e lá o colocou entre os bem-aventurados. 


CATECISMO POSITIVISTA 2) 


tn 


tanta eficácia de uma fé radicalmente viciosa, conquanto a única adaptada a essa transi- 
ção. Contudo, não esqueçamos nunca que os progressos quaisquer da Idade Média 
foram sempre devidos ao concurso necessário entre os dois elementos heterogêneos que 
cumpre sem cessar combinar aí, o catolicismo e a feudalidade. 

Além de seus serviços imediatos, essa admirável transição fez irrevogavelmente sur- 
girem todos os germes essenciais do regime final. Ela esboçou mesmo, sob cada grande 
aspecto, a verdadeira ordem humana, ao mesmo tempo temporal e espiritual, tanto quan- 
to o permitiam então a doutrina e a situação. Por isso, ao positivismo só resta agora reto- 
mar o conjunto do programa da Idade Média, para realizá-lo dignamente, mediante uma 
fé melhor, combinada com uma atividade mais favorável. Porém, a influência feudal, que 
não tem hoje defensores especiais, é injustamente sacrificada, nestas apreciações históri- 
cas, à participação católica, única estudada pela escola retrógrada. Um exame aprofun- 
dado mostra, entretanto, a reação cavalheiresca até nas modificações demasiado menos- 
prezadas que então experimenta a última fé provisória. Depois de ter admiravelmente 
esboçado o culto da Mulher, prelúdio necessário da Religião da Humanidade, o senti- 
mento feudal determinou realmente, no século das cruzadas, a alteração que sofreu o 
monoteismo ocidental, quando a Virgem tendeu a tomar o lugar de Deus. 

Referindo-se, porém, os resultados da Idade Média aos seus verdadeiros autores, 
sente-se melhor a natureza profundamente precária do regime católico-feudal, derradeiro 
modo do sistema teológico-militar. Se o sacerdócio foi o único a compensar a imperfei- 
ção da sua doutrina, esta aptidão não podia durar senão enquanto seu destino moral e 
social lhe conservava um caráter progressivo. Ora, o preenchimento mesmo de seme- 
lhante missão impeliu o Ocidente para progressos incompatíveis com a fé católica e 
contrários à constituição final de seu clero, tornado retrógrado, como o mostra a admirá- 
vel tentativa de regeneração malograda no século XIII. Em uma palavra, todos os resul- 
tados da Idade Média necessitaram de um regime novo, desde que o islamismo e o catoli- 
cismo se neutralizaram irrevogavelmente. Por exemplo, a emancipação teológica, por 
muito tempo circunscrita a alguns tipos individuais, difundiu-se muito por efeito das cru- 
zadas, sob o impulso dos Templários, mais bem expostos aos contatos muçulmanos. 

O despontar do século XIV abre, assim, a imensa revolução ocidental que o positi- 
vismo vem hoje terminar. Então o conjunto do movimento humano torna-se profunda- 
mente hostil à ordem anterior, conquanto o novo regime não possa ainda ser, de modo 
algum, percebido. Porquanto, depois do catolicismo, não havia organização teológica 
possível; como também o sistema militar não podia mais modificar-se além de sua cons- 
tituição feudal. O Ocidente começava a realizar os pressentimentos demasiado precoces 
de César e Trajano a respeito de sua tendência a fazer irrevogavelmente prevalecer uma 
fé positiva e uma atividade pacífica. Porém, este objetivo ainda exigia que a ciência, a 
indústria, e mesmo a arte, passassem por uma longa elaboração, que teve de ser essen- 
cialmente especial e dispersiva, de modo a dissimular a sua tendência social. Daí resulta 
esse duplo caráter da última transição humana, cada vez mais anárquica quanto ao con- 
junto, embora também cada vez mais orgânica quanto aos elementos. 

A MULHER — Pois que é assim, meu pai, que o presente se ata diretamente ao 
passado, preciso conhecer a marcha geral deste movimento, para nele acompanhar 
suficientemente os progressos simultâneos da anarquia moderna e da renovação. 

O SACERDOTE — Na progressão negativa, mais bem caracterizada do que a 
outra, cumpre, minha filha, distinguir sobretudo duas fases necessárias, conforme a 
decomposição permanece puramente espontânea ou se torna cada vez mais sistemática. 
A primeira compreende os séculos XIV e XV, e a segunda os três seguintes. Estes dois 


296 COMTE 


períodos apresentam as mesmas diferenças relativamente ao movimento positivo, se bem 
que de um modo menos pronunciado. Todo o Ocidente participa da decomposição 
espontânea; mas a negação sistemática não prevalece senão no norte. 

O movimento revolucionário foi sempre dirigido, desde o seu início, por duas clas- 
ses conexas, oriundas a princípio dos antigos poderes, e em breve rivais destes. Foram 
elas os metafísicos e os legistas, que constituem o elemento espiritual e o elemento tem- 
poral deste regime negativo, caracterizado, sobretudo na França, nas universidades e nos 
parlamentos. Mas a segunda classe merece mais estima que a primeira, porque nela o 
espírito comum a ambas se modificou sob o favorável impulso das aplicações sociais. Ao 
passo que os metafísicos não foram nunca, em relação à teologia, senão inconsequentes 
demolidores, os legistas, e sobretudo os juízes, além dos seus serviços temporários ou 
especiais, tenderam sempre a construir, segundo as pegadas romanas, uma moral pura- 
mente humana. 

Durante a primeira fase moderna, todo o regime da Idade Média fica radicalmente 
decomposto, em virtude dos conflitos íntimos de seus diversos elementos, embora suas 
doutrinas permaneçam intatas. A luta principal devia ser a das duas potências, espiritual 
e temporal, cuja harmonia precária flutuara sempre entre a teocracia e o império. Aos 
vãos esforços dos papas do século XIII para estabelecerem um domínio absoluto suce- 
deu por toda parte, sobretudo na França, a feliz resistência dos reis, que, no decurso do 
século seguinte, anularam irrevogavelmente o poder ocidental do papado. Esta revolução 
decisiva foi completada no século pela subordinação de cada clero nacional à autoridade 
temporal, deixando apenas uma influência ilusória ao chefe central, que desde então 
degenera em príncipe italiano. Perdendo sua independência, o sacerdócio perde também 
sua moralidade, primeiro pública, e depois mesmo privada. Para conservar sua exis- 
tência material, ele põe suas doutrinas a serviço de todos os fortes. 

Ao mesmo tempo desenvolve-se a luta, começada na Idade Média, entre o elemento 
local e o elemento central da constituição temporal. Por toda parte o poder que a princí- 
pio foi inferior acaba por triunfar, graças à assistência espontânea das classes surgidas 
da abolição da servidão. No caso normal, a realeza prevalece sobre a aristocracia. A 
solução inversa deve ser considerada como uma exceção cujo primeiro tipo nos é ofere- 
cido por Veneza, desenvolvido sobretudo na Inglaterra. 

Sob um ou outro modo, a combinação desta concentração política com o abati- 
mento do sacerdócio institui em cada nação ocidental uma verdadeira ditadura, único 
meio de conter a anarquia material trazida pela desorganização espiritual. O melhor tipo 
desta magistratura excepcional foi o eminente Luís XI, o único que sentiu dignamente e 
dirigiu sabiamente o conjunto do movimento moderno. 


Quanto à progressão positiva, seu principal aspecto, durante esta primeira fase, 
consiste no surto industrial. Preparado pela dupla organização das classes laboriosas da 
Idade Média, ele desenvolve-se então mediante três impulsos decisivos, cujo advento 
nada oferece de fortuito. Primeiro, a invenção da pólvora vem completar a instituição 
transitória dos exércitos permanentes, dispensando os ocidentais de uma educação mili- 
tar contrária à sua nova atividade. Em seguida, a imprensa reata a ciência à indústria, 
permitindo satisfazer o ardor teórico que prevalece por toda parte. Enfim, a descoberta 
da América e de um caminho marítimo para a Índia fornece um vasto campo à extensão 
decisiva das relações industriais, de modo a caracterizar e consolidar a nova vida ociden- 
tal. O movimento intelectual só se torna então eminente na poesia, abrindo o século XIV 


CATECISMO POSITIVISTA 297 


com uma incomparável epopéia, 'º * e produzindo, no XV, uma admirável composição 
mística. 'ºº Mas o desenvolvimento científico se prepara mediante úteis materiais de 
todo gênero. 

Este progresso simultâneo da inteligência e da atividade faz sobressair melhor o 
deplorável abandono do aperfeiçoamento moral, que constituía em todas as classes o 
principal mérito da Idade Média. O duplo ardor que então prevalece no Ocidente baseia- 
se essencialmente na expansão universal e desordenada do orgulho e da vaidade, ligada 
amiúde ao mais ignóbil egoísmo. Verdade é que o desenvolvimento estético, apesar de 
sua tendência revolucionária, alimenta espontaneamente melhores sentimentos. Mas a 
cultura moral concentra-se cada vez mais no sexo afetivo, o qual, preservado do arrasta- 
mento teórico e prático, é o único que transmite, através da anarquia moderna, os princi- 
pais resultados da Idade Média, malgrado a aversão crescente que eles inspiram. Esta 
santa providência não pode, entretanto, impedir que a alteração gradual do verdadeiro 
princípio de toda disciplina humana deixe de coincidir com o desenvolvimento especial 
das novas forças, espirituais e temporais, peculiares ao estado final do Ocidente. 

A MULHER — A fase inicial do duplo movimento moderno ficando assaz caracte- 
rizada, rogo-vos, meu pai, que aprecieis semelhantemente seu período sistemático. 

O SACERDOTE — As doutrinas do regime antigo, que antes se haviam conser- 
vado intatas, foram então, minha filha, diretamente atacadas por princípios puramente 
negativos. Esta extensão da anarquia foi tão indispensável quanto inevitável, a fim de 
que ficasse manifesta a necessidade de uma verdadeira organização, dissimulada sob a 
aparência de vida que conservava um sistema cujas bases sociais se achavam todas 
irrevogavelmente destruídas. Porém, para apreciar assaz o seu destino, cumpre dividir tal 
período em duas fases, das quais a primeira, começando com o século XVI, termina na 
retrogradação da realeza francesa, coincidindo com o triunfo da aristocracia inglesa. A 
segunda conduz, um século depois, ao advento direto da crise revolucionária de que o 
Ocidente ainda sofre, após duas gerações, as deploráveis vicissitudes. 


104 A Divina Comédia de Dante, tantas vezes citada neste Catecismo. 

108 A Imitação de Cristo. Sabe-se que no mundo das letras e da erudição é ainda questão muito debatida 
o saber qual seja o verdadeiro autor deste admirável livro, que todo positivista deve ler diariamente. Mas os 
melhores argumentos são em favor de Tomás de Kempis, e tal era o parecer de Augusto Comte, como se 
depreende de ter colocado esse nome no calendário positivista, e dos tópicos em que ele o designa claramente 
como autor da Imitação. Em todo caso, a opinião dos que querem atribuir essa composição a alguns letra- 
dos, e sobretudo a Gerson, é insustentável ante a apreciação filosófica. “A posteridade”, escreve Augusto 
Comte, “nunca cessará de admirar o esboço grosseiro, mas sublime, do quadro sistemático da natureza 
humana, que uma vã erudição ousa agora disputar ao seu humilde autor, a fim de galardoar com ele o espí- 
rito metafísico que aí se acha dignamente estigmatizado.” (Política Positiva, tomo HI, p. 534.) 

Os trabalhos mais completos em defesa da autoria de Tomás de Kempis são: o do bispo Malouj;* o de Karl 
Hirsche,** a quem se deve também uma edição do original latino de acordo com o manuscrito autêntico con- 
servado na Biblioteca Real de Bruxelas;*** e sobretudo o de F. R. Cruise.**** 

* Recherches Historiques et Critiques sur le Véritable Auteur du Livre de [Imitation de J. €., Tournay. 3.º 


ed., 1858. ; 
** Prolegomena zu einer neuen Ausgabe der Imitatio Christi nach dem Autograph Thomas von Kempen, 2 


vols., Berlim, 1873-1883. 

*** Thomae Kempensis. De Imitatione Christi Libri Quator, Barolini, 1884. 

**** Thomas à Kempis. “Notes of a visit to the scenes in which his life was spent, with some account of the 
examination of his relics” (Ilustrated), London, Kegan, Paul, Trench & Co.. 1887. 

O mesmo autor publicou um excelente resumo de seus argumentos em favor de Tomás de Kempis, sob o títu- 
lo: Who Was the Author of the Imitation of Christ?, London. Catholic Truth Society. 1898. 

Este opúsculo foi vertido em francês: Qui Est ['Auteur de ['Imitation de Jésus-Christ?, Trad. por Mile. Agnês 
Kennedy, Paris, Victor Retaux, 1902. 


298 COMTE 


Esta distinção necessária resulta sobretudo da sistematização crescente que experi- 
menta a doutrina negativa, que a princípio parece compatível com as condições funda- 
mentais do regime teológico, ao passo que se lhes torna depois evidentemente contrária. 
Estes dois graus sucessivos do movimento negativo devem ser caracterizados pelas quali- 
ficações respectivas de protestante e deísta. Apesar da infinita diversidade das seitas 
protestantes, sua comum adesão à revelação cristã basta para separá-las todas da eman- 
cipação mais adiantada que caracteriza o deismo. 

Desde o início da segunda fase moderna, a doutrina negativa firma diretamente seu 
princípio anárquico, proclamando o individualismo absoluto, e por isso mesmo ela atri- 
bui a cada um, sem nenhuma condição de competência, a decisão de todas as questões. 
Então toda autoridade espiritual extingue-se radicalmente. Os vivos insurgem-se comple- 
tamente contra os mortos; como o atesta uma cega reprovação do conjunto da Idade 
Média, mal compensada por uma irracional admiração pela Antiguidade. Assim agra- 
va-se, sob o impulso protestante, a fatal ruptura que o catolicismo introduzira na conti- 
nuidade humana. 

A MULHER — Permiti, meu pai, que eu vos interrompa um momento para 
manifestar-vos a profunda repugnância que sempre me inspirou o protestantismo, que 
pretendeu reformar o monoteísmo ocidental despojando-o de suas melhores instituições. 
É assim que ele suprime o dogma do purgatório, o culto da Virgem e dos santos, o regi- 
me da confissão, e desnatura o misterioso sacramento que fornecia aos corações ociden- 
tais um sublime resumo de toda a sua religião. Por isso meu sexo, que outrora secundara 
tanto o surto católico, permaneceu essencialmente passivo em relação a uma reforma na 
qual sua ternura repelida não encontrava outra compensação senão a faculdade de 
comentar alguns livros ininteligíveis e perigosos. O protestantismo teria alterado profun- 
damente a instituição do casamento ocidental pelo restabelecimento do divórcio, se os 
costumes modernos não houvessem sempre rechaçado espontaneamente semelhante 
retrogradação, nos próprios países onde esta prevaleceu oficialmente. 

O SACERDOTE — Vossas justas repugnâncias explicam espontaneamente, minha 
filha, a última discordância do Ocidente em relação a uma doutrina puramente negativa, 
que em breve dividiu as nações, as cidades e até as famílias. Seu sucesso parcial deve, 
entretanto, ter satisfeito então importantes necessidades, intelectuais e sociais. Apesar de 
seu caráter anárquico, o princípio protestante secundou no começo a evolução científica 
e o desenvolvimento industrial, estimulando os esforços pessoais e quebrando regras 
opressivas. Devemos-lhe duas revoluções preliminares dirigidas, na Holanda, contra a 
tirania exterior e, na Inglaterra, em prol da regeneração interior. Conquanto a segunda, 
demasiado prematura, houvesse de abortar finalmente, ela indicou já, sob a admirável 
ditadura de Cromwell, a tendência necessária do movimento ocidental. 

Então as necessidades, igualmente imperiosas, da ordem e do progresso tornaram-se 
profundamente inconciliáveis, e os ocidentais dividiam-se, conforme sentiam mais umas 
ou outras. A opressão geral ficaria iminente se o protestantismo não houvesse podido 
prevalecer algures, porque um clero retrógrado excitava por toda parte a solicitude dos 
antigos poderes contra um movimento cuja tendência não era mais equívoca. Devemos, 
porém, felicitar-nos ainda mais de que a maior parte do Ocidente tenha sido preservada 
do ascendente protestante. Com efeito, a universalidade deste, que houvera sido geral- 
mente considerada como a solução normal da comum revolução, teria dissimulado 
profundamente por toda parte as condições essenciais da regeneração humana, procla- 
mando a eterna confusão dos dois poderes. Esta dupla apreciação leva-nos a simpatizar 
também com as grandes almas que lutaram dignamente nesse imenso conflito, preâm- 
bulo necessário de uma verdadeira renovação. 


CATECISMO POSITIVISTA 299 


Apesar dos Óbices provenientes da agitação protestante, a segunda fase moderna 
completou a ditadura temporal dimanada da primeira. Seu surto coincide com a forma- 
ção das grandes nacionalidades, que provisoriamente resultaram da ruptura do laço 
peculiar à Idade Média. Porém, esta anomalia política só oferece uma alta eficácia 
social, aliás necessariamente passageira, em relação à população central. Cada vez mais 
investida, desde Carlos Magno, da direção geral do movimento ocidental, a França pre- 
cisava constituir uma potência muito compacta, assaz extensa para imprimir um impulso 
decisivo e superar toda agressão retrógrada. Nos demais países, semelhante concentra- 
ção não foi senão uma cega e perigosa imitação dessa política excepcional. 

Nesta segunda fase, a progressão positiva desenvolveu sobretudo seu caráter cienti- 
fico e sua tendência filosófica. A cosmologia toma um surto decisivo estabelecendo a 
doutrina do movimento da Terra, logo depois completada pela sistematização da geome- 
tria celeste e a fundação da mecânica celeste. Então o espírito científico torna-se radical- 
mente inconciliável com todo espírito teológico ou metafísico. A tendência direta para 
uma filosofia plenamente positiva caracteriza-se abertamente, sob o duplo impulso de 
Bacon e Descartes, assinalando já a preparação exigida por semelhante síntese. Durante 
este movimento decisivo, a arte geral e as artes especiais prosseguem dignamente a evo- 
lução que a fase anterior deveu à Idade Média. Apesar da ausência de direção filosófica 
e de destino social, a poesia ocidental produziu em cinco séculos mais obras-primas 
verdadeiras do que forneceu toda a Antiguidade. Quanto ao surto industrial, sua exten- 
são torna-se então o objeto crescente das solicitudes públicas, embora o subordinem 
ainda a intentos guerreiros. Mas ele manifesta já a tendência dos empresários a se sepa- 
rarem dos trabalhadores, para se agregarem à aristocracia degenerada. 

A MULHER — Eu quisera, meu pai, conceber agora o caráter e o destino da últi- 
ma fase moderna. 

O SACERDOTE — Ela se tornou necessária, minha filha, pelo resultado geral da 
precedente. Renunciando a todo predomínio universal, o protestantismo e o catolicismo 
dividiam irrevogavelmente o Ocidente, como o conjunto do mundo romano partiu-se 
outrora entre o Alcorão e a Bíblia. Nos casos principais, esta partilha ocidental coincide 
naturalmente com a distinção, desde então mais pronunciada, entre os dois modos, 
aristocrático e monárquico, peculiares à ditadura temporal proveniente por toda parte da 
fase anterior. 

Os dois regimes tinham-se tornado igualmente hostis à emancipação radical que do 
mesmo modo ameaçava a ambos. Progressiva enquanto teve de vencer fortes resistên- 
cias, a realeza, sobretudo a francesa, manifestou suas tendências retrógradas logo que 
não receou mais nenhuma luta. Desde a segunda metade do reinado de Luís XIV, ela 
congregou gradualmente todos os destroços da ordem antiga, para conter, de combina- 
ção com eles, um movimento social que ela devia julgar puramente anárquico. Mas a 
ditadura aristocrática e protestante tornou-se então, sobretudo na Inglaterra, mais peri- 
gosamente hostil ao movimento ocidental do que a ditadura monárquica e católica, por- 
que ela foi mais bem secundada pela população. O protestantismo, que, enquanto teve de 
lutar, favoreceu a liberdade, esforçou-se por cumprir a emancipação logo que prevaleceu 
oficialmente, segundo a tendência de toda doutrina que repele a divisão dos dois poderes 
humanos. Ele estabeleceu, na Inglaterra, um sistema universal de hipocrisia, mais hábil 
e mais nocivo do que o que ele exprobrava ao jesuitismo, último modo do catolicismo 
expirante. Mas a principal corrupção proveniente de semelhante regime consistiu no 
pleno desenvolvimento do sistema do egoísmo nacional que Veneza apenas pudera esbo- 
çar e que, adotado em excesso por toda a população britânica, tendeu a isolá-la do 
Ocidente. 


300 COMTE 


Semelhante situação tornou tão indispensável quanto inevitável a explosão negativa 
que carateriza o século XVIII, e sem a qual não era possível elaborar, nem mesmo con- 
ceber, uma verdadeira reorganização. Os dogmas críticos, surgidos primeiramente de seu 
princípio fundamental sob as duas revoluções protestantes, estavam já suficientemente 
coordenados pelos sucessores metafísicos de Bacon e Descartes. Foram então propaga- 
dos universalmente pelos esforços assíduos de uma classe anteriormente subalterna, os 
literatos propriamente ditos, sucedendo, assim, aos doutores na direção do movimento 
revolucionário, onde os advogados não tardaram em substituir os juízes. Duas gerações 
esgotaram o ascendente prévio dessas escolas inconsegiientes, que quiseram destruir o 
altar conservando o trono, ou vice-versa. Mas o século XVIII nunca será representado 
filosoficamente por puros demolidores, como Voltaire e Rousseau, quase esquecidos 
hoje. Sua grande escola, a de Diderot e de Hume, que Fontenelle prepara e Condorcet 
completa, não abraça o conjunto da destruição senão para conceber tanto quanto possí- 
vel a regeneração final, de que o grande Frederico foi o precursor prático. Com efeito, 
desde então, só os espíritos acanhados podiam esperar satisfazer as necessidades da 
renovação moderna por meio de modificações quaisquer do regime antigo. 

Durante esta fase final, o movimento positivo completou a cosmologia fundando a 
química. Este progresso decisivo termina os serviços do espírito analítico e do regime 
acadêmico, cuja cega preponderância tornou-se logo um obstáculo crescente a trabalhos 
que deviam ser assencialmente sintéticos. Na progressão industrial, vê-se então a classe 
dos banqueiros tender diretamente para o seu ascendente natural, único meio de sistema- 
tizar a atividade material. Ao mesmo tempo, a guerra põe-se a serviço do trabalho, por 
ocasião das lutas coloniais. A extensão decisiva das máquinas acaba de caracterizar a 
indústria moderna. Mas ela desenvolve também a deplorável deserção dos empresários 
quanto às condições sociais peculiares aos trabalhadores, cada vez mais explorados em 
vez de governados. 

Concebe-se assim o caráter necessariamente tempestuoso da imensa crise que termi- 
nou o conjunto dos cinco séculos que nos separam da Idade Média. Ele resulta de uma 
fatal discordância entre as duas progressões que compõem o movimento ocidental, onde 
o surto positivo era incapaz de satisfazer às exigências orgânicas provenientes do surto 
negativo. Ao passo que este destruia todas as vistas de conjunto, aquele só podia pôr em 
seu lugar concepções de detalhe. A presidência da regeneração moderna, no momento de 
sua principal dificuldade, coube à classe mais incapaz, a dos puros escritores, que só 
aspiravam à pedantocracia metafísica sonhada pelos seus mestres gregos, com o fito de 
concentrarem em si todos os poderes. 

A MULHER — Conquanto esta indicação me explique assaz o conjunto da crise 
revolucionária, eu quisera, meu pai, conhecer sumariamente sua marcha geral, a fim de 
bem apreciar seu estado atual, objeto final desta última conferência. 

O SACERDOTE — Cumpre primeiro assinalar nela, minha filha, a abolição 
necessária da realeza francesa na qual se condensava todo o regime decomposto. Os 
funerais de Luís XIV já permitiam prevê-la se desde então uma verdadeira teoria histó- 
rica os tivesse assaz interpretado como anunciando a um tempo a irrevogável degenera- 
ção do governo e a antipatia radical do povo. 

Após alguns anos de hesitação metafísica, um abalo decisivo derrubou para sempre 
essa instituição retrógrada, último vestígio do regime das castas, segundo a consagração 
teocrática que lhe foi conferida pelo servilismo do clero moderno. Mas a gloriosa assem- 
bléia, única popular na França, que devia preludiar assim a regeneração social, não 
podia suprir as lacunas intelectuais do movimento ocidental. Destituída de toda doutrina 


CATECISMO POSITIVISTA 301 


verdadeiramente orgânica, ela não pôde, dirigindo heroicamente a defesa republicana, 
senão formular, de modo vago, o programa moderno, atravês de uma metafísica sempre 
incapaz de construir qualquer coisa. 

As tendências profundamente subversivas que necessariamente manifestou o triunfo 
político dessa doutrina negativa determinaram em breve uma reação retrógrada. Iniciada 
com o efêmero ascendente de um deíismo sanguinário, ela desenvolveu-se sobretudo pela 
ressurreição oficial do catolicismo, sob a tirania militar. Mas as tendências fundamentais 
da civilização moderna repeliram igualmente o teologismo e a guerra. A estimulação sem 
exemplo que então receberam todos os instintos egoístas não dispensou o espírito militar 
de fundar sua orgia final sobre um recrutamento forçado, cuja adoção universal anuncia 
a próxima abolição dos exércitos, substituídos por forças de polícia. Todos os artifícios 
retrógrados introduzidos depois para impedir semelhante resultado foram tão impotentes 
para reanimar o cadáver da guerra como o do teologismo, mesmo sob pretexto de pro- 
gresso, e apesar da ausência das convicções públicas que deviam estigmatizar essa con- 
duta. Em relação ao mais imoral desses expedientes, ouso proclamar aqui os votos sole- 
nes que faço, em nome dos verdadeiros positivistas, para que os árabes expulsem 
energicamente os franceses da Argélia, se estes não a souberem dignamente restituir 
aqueles. Ufanar-me-ei sempre de ter, na minha infância, desejado ardentemente o sucesso 
da heróica defesa dos espanhóis. 'º * 

Esta retrogradação, a que só a guerra havia proporcionado uma consistência apa- 
rente, ficou radicalmente malograda em virtude do advento irrevogável da paz ocidental. 
Mas a ausência prolongada de toda doutrina orgânica conduziu então o empirismo meta- 
físico a tentar erigir finalmente em solução universal uma vã imitação do regime parla- 
mentar peculiar à transição inglesa. Seu domínio oficial durante uma única geração só 
serviu realmente para regularizar uma deplorável série de oscilações entre a anarquia € 
a retrogradação, em que o único mérito de cada partido consistia em livrar-nos do seu 
rival. 

Durante esta longa flutuação, que cada vez mais comprovava a igual impotência de 
todas as doutrinas em circulação, a desordem espiritual chegou ao seu cúmulo, por efeito 
do comum abatimento das convicções anteriores, tanto revolucionárias como retrógra- 
das. Nenhuma disciplina parcial pode ser real e durável. Ora. o único princípio da disci- 
plina universal, a preponderância continua do coração sobre o espírito, achava-se mais 
e mais desacreditado desde o fim da Idade Média, apesar da santa resistência das mulhe- 
res, cada vez menos respeitadas pelo delírio ocidental. Por isso é que, mesmo na evolu- 
ção científica, a ordem provisória que Bacon e Descartes haviam tentado estabelecer 
desapareceu em breve sob o surto empírico das especialidades dispersivas. que repeliam 
cegamente toda regra filosófica. Em vez de reduzir cada fase enciclopédica ao que exigia 
o advento da seguinte, esforçaram-se por desenvolvê-las indefinidamente, isolando-as 
mais e mais de um conjunto cada vez menos percebido. Esta tendência tornou-se tão 
retrógrada quanto anárquica, ameaçando destruir até os principais resultados dos traba- 
lhos anteriores, sob o domínio crescente das mediocridades acadêmicas. Mas a anarquia 
e a retrogradação são ainda mais completas na arte, cuja natureza eminentemente sinté- 
tica rechaçava com mais força o empirismo analítico. Em relação à própria poesia, a 
degradação tornou-se tal que os letrados nada podem apreciar além do estilo. a ponto de 


198 Q fato deu-se no Liceu de Montpellier, onde nosso Mestre fez seus estudos preparatórios. como aluno 
interno. Foi cm plena aula que o futuro reformador ousou emitir o voto de que os espanhóis conseguissem 
expulsar os exércitos de Bonaparte. Teria ele então dez para onze anos de idade. 


302 COMTE 


colocarem amiúde verdadeiras obras-primas abaixo de composições tão medíocres quan- 
to imorais. 

A MULHER — Nesse doloroso quadro, cuja exatidão não posso contestar, não 
vejo. meu pai, de onde pode provir a solução final explicada por este Catecismo. 


O SACERDOTE — Ela surge, minha filha, de uma suficiente realização do imenso 
prelúdio objetivo que, começando em Tales e em Pitágoras, continuou durante toda a 
Idade Média, e não cessou de progredir através da anarquia moderna. No início da 
explosão francesa, ela só era satisfatória em cosmologia, graças ao recente advento da 
química. Mas o surto decisivo da biologia, fundada por Bichat e completada por Gall, 
forneceu em breve uma base científica para a renovação total do espírito filosófico. O 
conjunto do movimento positivo tem, então, como resultado o advento da sociologia, já 
anunciado pela tentativa, imortal posto que malograda, em que Condorcet tentou subor- 
dinar cientificamente o futuro ao passado, no meio das disposições mais anti-históricas. 


Sob a universal preponderância do ponto de vista humano, uma síntese subjetiva 
pode assim construir, enfim, uma filosofia verdadeiramente inabalável, que levou a fun- 
dar a religião final, logo que o surto moral completou a renovação mental. Desde então 
admirou-se a Idade Média, sem deixar de apreciar melhor a Antiguidade. A cultura do 
sentimento foi radicalmente conciliada com a da inteligência e da atividade. 

Todos os nobres corações e todos os grandes espíritos, sempre convergentes daqui 
por diante, concebem assim terminada a longa e difícil iniciação por que a Humanidade 
teve de passar, sob o império constantemente decrescente do teologismo e da guerra. O 
movimento moderno cessa de ser radicalmente antinômico. Sua progressão positiva mos- 
tra-se, enfim, capaz de satisfazer a todas as exigências, intelectuais e sociais provenientes 
de sua progressão negativa, não só quanto ao futuro, mas também quanto ao presente, do 
qual eu não tinha de ocupar-me aqui. Por toda parte o relativo sucede irrevogavelmente 
ao absoluto, e o altruísmo tende a dominar o egoísmo, ao passo que uma marcha siste- 
mática substitui uma evolução espontânea. Em uma palavra, a Humanidade substitui-se 
definitivamente a Deus, sem esquecer jamais seus serviços provisórios. 

Eis aí, minha caríssima filha, a última explicação que eu vos devia sobre o advento 
decisivo da religião universal, a que aspiram, há tantos séculos, o Ocidente e o Oriente. 
Apesar de tal advento ainda se achar muito entravado, sobretudo no seu centro, pelos 
prejuízos e pelas paixões que, sob diversas formas, repelem toda verdadeira disciplina, a 
sua eficácia será sentida em breve pelas mulheres e pelos proletários, principalmente no 
sul. Mas sua melhor recomendação há de resultar da aptidão exclusiva do sacerdócio 
positivo para agremiar por toda parte as almas honestas e sensatas, pela digna aceitação 
do conjunto da sucessão humana. 


EMILE DURKHEIM 


DA DIVISAO DO 
TRABALHO SOCIAL 


PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇAO 


Algumas observações sobre os argumentos profissionais 


Reeditando esta obra, nós nos abstemos de modificá-la em sua economia primeira. 
Um livro tem uma individualidade que deve ser preservada. Convém deixar-lhe a fisiono- 
mia sob a qual ele foi conhecido. 

Mas ele tem uma idéia que foi deixada na penumbra quando da primeira edição, e 
que nos parece útil melhor distinguir e determinar, porque ela esclarecerá certas partes 
do presente trabalho e mesmo daqueles que nós publicamos depois.? Trata-se do papel 
que os agrupamentos profissionais estão destinados a preencher na organização social 
dos povos contemporâneos. Se primitivamente nós não tocamos neste problema senão 
por meio de alusões, é que contávamos retomá-lo e dele fazer um estudo especial. Como 
outras ocupações sobrevieram e nos desviaram desse projeto, e como não vemos quando 
nos será possível prossegui-lo, queremos aproveitar esta segunda edição para mostrar 
como esta questão se une ao assunto tratado na continuação da obra, para indicar em 
que termos ela se põe, e sobretudo para tratar de afastar as razões que impedem ainda 
muitos espíritos de melhor compreender a sua urgência e importância. Esse será o obje- 
tivo deste novo prefácio. 


I 


Insistimos várias vezes, no decurso deste livro, sobre o estado de anomia jurídica e 
moral na qual se encontra a vida económica atualmente. Nesta ordem de funções, com 
efeito, a moral profissional não existe verdadeiramente senão em estado rudimentar. Há 
uma moral profissional do advogado e do magistrado, do soldado e do professor, do mé- 
dico e do padre, etc. Mas, se se tentam fixar em uma linguagem um pouco definida as 
idéias em curso sobre o que devem ser as relações do empregador com o empregado, do 
trabalhador com o empreiteiro, dos industriais concorrentes uns com os outros ou com 
o público, que fórmulas indecisas se obteriam! Algumas generalidades sem precisão 
sobre a fidelidade e a dedicação que os assalariados de todos os tipos devem aqueles que 
os empregam, sobre a moderação com a qual esses últimos devem usar a sua preponde- 
rância econômica, uma certa reprovação por toda concorrência muito abertamente des- 
leal, por toda exploração por demais revoltante do consumidor, eis quase tudo o que con- 
tém a consciência moral destas profissões. Além do mais, a maior parte destas prescri- 
ções está despojada de todo caráter jurídico; elas não são sancionadas senão pela opi- 


nião, não pela lei, e sabe-se quanto a opinião se mostra indulgente com a maneira pela 
* Nós nos limitamos a suprimir da antiga introdução umas trinta páginas que, hoje. nos parecem inúteis. 
Nós nos explicamos, aliãs, sobre esta supressão no próprio lugar onde foi operada. (N. do A.) 

2 Vide O Suicídio, conclusão. (N. do A.) 


306 DURKHEIM 


qual essas vagas obrigações são realizadas. Os atos mais censuráveis são tão frequente 
mente absolvidos pelo sucesso, que o limite entre o que é proibido e o que é permitido, 
o que é justo e o que não o é, não tem mais nada de fixo. Mas parece poder ser deslocado 
quase que arbitrariamente pelos indivíduos. Uma moral tão imprecisa e tão inconsciente 
não poderia constituir uma disciplina. Disso resulta que toda esta esfera da vida coletiva 
está, em grande parte, subtraída à ação moderadora da regra. 

É a este estado de anomia que devem ser atribuídos, como mostraremos, os confli- 
tos incessantemente renovados e as desordens de todos os tipos dos quais o mundo eco- 
nômico nos dá o triste espetáculo. Porque, como nada contém as forças litigantes e não 
lhes designa os limites que devem respeitar, elas tendem a se desenvolver sem limite, e 
acabam por se chocar umas contra as outras para se recalcarem e se reduzirem mutua- 
mente. Sem dúvida, as mais intensas conseguem muito bem aniquilar as mais fracas ou 
subordiná-las. Mas, se o vencido pode se resignar por uns tempos a uma subordinação 
que é coagido a suportar, ele não a consente, e, por conseguinte, ela não poderia consti- 
tuir um equilíbrio estável. As tréguas impostas pela violência são sempre apenas provisó- 
rias e não pacificam os espíritos. As paixões humanas não cessam senão diante de uma 
potência moral que respeitem. Se toda autoridade desse tipo faz falta, é a lei do mais 
forte que reina, e, latente ou agudo, o estado de guerra é necessariamente crônico. 

Que uma tal anarquia seja um fenômeno mórbido, é evidente, pois que ela vai con- 
tra o próprio fim de toda sociedade, que é o de suprimir ou ao menos de moderar a guer- 
ra entre os homens, subordinando a lei física do mais forte a uma lei mais elevada. Em 
vão, para justificar este estado de desregramento, faz-se valer que ele favorece o pro- 
gresso da liberdade individual. Nada é mais falso do que este antagonismo que muito 
frequentemente se tem querido estabelecer entre a autoridade da regra e a liberdade do 
indivíduo. Muito ao contrário, a liberdade (nós entendemos a liberdade justa, aquela que 
a sociedade tem o dever de fazer respeitar) é ela própria o produto de uma regulamenta- 
ção. Eu não posso ser livre senão na medida em que outro é impedido de se beneficiar da 
superioridade fisica, econômica ou outra da qual dispõe para submeter minha liberdade, 
e somente a regra social pode pôr obstáculo a esses abusos de poder. Sabe-se agora que 
regulamentação complicada é necessária para assegurar aos indivíduos a independência 
económica sem a qual sua liberdade não é senão nominal. 

Mas o que faz, hoje em particular, a gravidade excepcional deste estado é o desen- 
volvimento, desconhecido até então, que tomaram, depois de dois séculos aproximada- 
mente, as funções económicas. Enquanto que outrora elas não representavam senão um 
papel secundário, estão agora em primeiro plano. Estamos longe do tempo em que eram 
desdenhosamente abandonadas às classes inferiores. Diante delas vêem-se mais e mais 
recuar as funções militares, administrativas, religiosas. Somente as funções científicas 
estão em estado de disputar-lhes o lugar; e ainda a ciência atualmente tem prestígio 
somente na medida em que ela pode servir à prática, isto é, em grande parte, às profis- 
sões económicas. Foi porque se pode, não sem alguma razão, dizer de nossas sociedades 
que elas são ou tendem a ser essencialmente industriais. Uma forma de atividade que 
tomou um tal lugar no conjunto da vida social não pode evidentemente permanecer até 
esse ponto desregrada sem que disso resultem os problemas mais profundos. Isto é uma 
fonte de desmoralização geral. Pois, precisamente porque as funções econômicas absor- 
vem hoje o maior número de cidadãos, há uma quantidade de indivíduos cuja vida se 
passa quase que inteiramente no meio industrial e comercial; donde se segue que, como 
este meio não é senão debilmente impregnado de moralidade, a maior parte de sua exis- 
tência transcorre fora de toda ação moral. Ora, para que o sentimento do dever se fixe 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 307 


fortemente em nós, é preciso que as próprias circunstâncias em que vivemos o tenham 
perpetuamente em vigilância. Nós não somos naturalmente inclinados a nos incomodar 
e a nos coagir; se, pois, não somos convidados a cada instante a exercer sobre nós esta 
coação sem a qual não há moral, como teríamos o hábito? Se, nas ocupações que preen- 
chem quase todo o nosso tempo, não seguimos outra regra senão aquela de nosso inte- 
resse bem entendido, como teríamos gosto pelo desinteresse, pelo esquecimento próprio, 
pelo sacrifício? Assim, a ausência de toda disciplina económica não pode deixar de 
estender seus efeitos além do mundo económico propriamente e de introduzir consigo, 
por conseguinte, uma diminuição da moralidade pública. 

O mal, uma vez constatado, qual é a sua causa e qual pode ser o seu remédio? 

No corpo da obra, estamos sobretudo interessados em mostrar que a divisão do tra- 
balho não poderia ser disto tornada responsável, como se lhe tem injustamente acusado 
algumas vezes; ela não produz necessariamente a dispersão e a incoerência, mas as fun- 
ções, quando estão suficientemente em contato umas com as outras, tendem, elas pró- 
prias, a se equilibrar e a se regrar. Mas esta explicação é incompleta. Pois, se é verdade 
que as funções sociais procuram espontaneamente se adaptar umas às outras contanto 
que estejam regularmente relacionadas, por outro lado, esse modo de adaptação torna-se 
uma regra de conduta somente se um grupo o consagra por sua autoridade. Uma regra, 
com efeito, não é somente uma maneira habitual de agir; é, antes de tudo, uma maneira 
de agir obrigatória, isto é, subtraída, em alguma medida, ao arbítrio individual. Ora, 
somente uma sociedade constituída goza da supremacia moral e material que é indispen- 
sável para fazer a lei para os indivíduos; pois só a personalidade moral que esteja acima 
das personalidades particulares é a que forma a coletividade. Somente ela, além disso, 
tem a continuidade e mesmo a perenidade necessária para manter a regra além das rela- 
ções efémeras que a encarnam diariamente. Além disso, seu papel não se limita simples- 
mente a erigir em preceitos imperativos os resultados mais gerais dos contratos particu- 
lares; mas ela intervém de maneira ativa e positiva na formação de toda regra. Logo, ela 
é o árbitro naturalmente designado para desempatar os interesses em conflito e para atri- 
buir a cada um os limites que lhe convêm. Em seguida, ela é a primeira interessada em 
que reinem a ordem e a paz; se a anomia é um mal, é antes de tudo porque a sociedade 
sofre dela, não podendo se privar, para viver, de coesão e de regularidade. Portanto, uma 
regulamentação moral ou jurídica exprime essencialmente necessidades sociais que a 
sociedade somente pode conhecer; ela repousa sobre um estado de opinião, e toda opi- 
nião é coisa coletiva, produto de uma elaboração coletiva. Para que a anomia tenha fim, 
é preciso portanto que exista ou que se forme um grupo onde se possa constituir o siste- 
ma de regras que faz falta atualmente. 

Nem a sociedade política em seu conjunto nem o Estado podem evidentemente 
desempenhar estas funções; a vida económica, uma vez que é muito especial e se especia- 
liza cada dia mais, foge à sua competência e à sua ação. A atividade de uma profissão 
não pode ser regulamentada eficazmente senão por um grupo muito próximo desta 
mesma profissão para conhecer bem seu funcionamento, para sentir todas as suas neces- 
sidades e para poder seguir todas as suas variações. O único que responde a estas condi- 
ções é aquele que formaria todos os agentes de uma mesma indústria, reunidos e organi- 
zados em um mesmo corpo. É o que se chama a corporação ou o grupo profissional. 

Ora, na ordem econômica, o grupo profissional não existe mais do que a moral 
profissional. Depois que, não sem razão, no século passado se suprimiram as antigas 
corporações, nao se tem realmente feito senão tentativas fragmentárias e incompletas 
para reconstituí-las sobre novas bases. Sem dúvida, os indivíduos que se dedicam a um 


308 DURKHEIM 


mesmo oficio têm relações uns com os outros por causa de suas ocupações similares. Sua 
própria concorrência os põe em contato. Mas essas relações nada têm de regular; elas 
dependem do acaso dos encontros e têm, mais frequentemente, um caráter completa- 
mente individual. É tal industrial que se encontra em contato com tal outro; não é o 
corpo industrial de tal ou tal especialidade que se reúne para agir em comum. Excepcio- 
nalmente, vêem-se todos os membros de uma mesma profissão se reunirem em congresso 
para tratar de alguma questão de interesse geral; mas estes congressos duram pouco 
tempo; não sobrevivem às circunstâncias particulares que os suscitaram e, por conse- 
guinte, a vida coletiva da qual eles foram ocasião extingue-se mais ou menos completa- 
mente com eles. 

Os únicos agrupamentos que tiveram uma certa permanência são aqueles que se 
chamam hoje sindicatos, seja de patrões seja de operários. Seguramente há aí um começo 
de organização profissional, mas ainda bem disforme e rudimentar. Porque, primeira- 
mente, um sindicato é uma associação privada, sem autoridade legal, desprovido, por 
conseguinte, de todo poder regulamentar. O seu número é teoricamente ilimitado, até 
mesmo no interior de uma mesma categoria industrial; e, como cada um deles é indepen- 
dente dos outros, se não se federalizam e não se unificam não há nada neles que exprima 
uma unidade da profissão em seu conjunto. Enfim, não somente os sindicatos de patrões 
e os sindicatos de empregados são distintos uns dos outros, o que é legitimo e necessário, 
mas também não há entre eles contatos regulares. Não existe uma organização comum 
que os aproxime, sem fazê-los perder sua individualidade e onde possam elaborar em 
comum uma regulamentação que, fixando suas mútuas reações, se imponha a uns e ou- 
tros com a mesma autoridade; em consegitência, é sempre a lei do mais forte que resolve 
os conflitos, e o estado de guerra subsiste inteiramente. Salvo aqueles cujos atos provêm 
da moral comum, patrões e trabalhadores estão, uns em relação aos outros, na mesma 
situação de dois Estados autónomos, mas de força desigual. Eles podem, como o fazem 
os povos por intermédio de seus governos, estabelecer contratos entre si. Mas esses con- 
tratos exprimem unicamente o estado respectivo das forças econômicas antagônicas, 
como os tratados que concluem dois beligerantes fazem exprimir apenas o estado respec- 
tivo de suas forças militares. Eles consagram um estado de fato; não poderiam fazê-lo 
um estado de direito. 

Para que uma moral e um direito profissionais possam estabelecer-se nas diferentes 
profissões econômicas é preciso, pois, que a corporação, em lugar de permanecer um 
agregado confuso e sem unidade, se torne, ou antes, retorne a ser um grupo definido, 
organizado, em uma palavra, uma instituição pública. Mas todo projeto desse gênero 
vem chocar-se com um certo número de prejuízos que convém prevenir ou dissipar. 

Primeiramente, a corporação tem contra si seu passado histórico. Ela passa, com 
efeito, por ser estreitamente solidária com nosso antigo regime político, e, por conse- 
guinte, por não poder sobreviver-lhe. Parece que pedir para a indústria e o comércio uma 
organização corporativa é querer remontar ao curso da história; ora, tais regressões são 
justamente vistas ou como impossíveis ou como anormais. 

O argumento seria pertinente se se propusesse ressuscitar artificialmente a velha 
corporação tal como existia na Idade Média. Mas não é assim que a questão se põe. Não 
se trata de saber se a instituição medieval pode convir identicamente às nossas socieda- 
des contemporâneas, mas se as necessidades às quais respondia não são as de todos os 
tempos, embora deva, para satisfazê-las, se transformar segundo os meios. 

Ora, o que não permite ver nas corporações uma organização temporária, boa 
somente para uma época e para uma determinada civilização, é ao mesmo tempo sua re- 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 309 


mota antiguidade e a maneira pela qual se desenvolveram na história. Se datavam unica- 
mente da Idade Média, poder-se-ia crer, com efeito, que, nascidas com um sistema políti- 
co, deviam necessariamente desaparecer com ele. Mas, na realidade, elas têm uma 
origem bem mais antiga. Em geral, aparecem desde que haja oficios, quer dizer, desde 
que a indústria cesse de ser puramente agrícola. Se elas parecem ter permanecido desco- 
nhecidas da Grécia, ao menos até a época da conquista romana, é porque as profissões, 
sendo lá desprezadas, eram exercidas quase exclusivamente por estrangeiros, e se encon- 
travam por isso mesmo fora da cidade.* Em Roma, porém, datam ao menos dos primei- 
ros tempos da República; uma tradição atribuía a sua criação ao Rei Numa. * É verdade 
que, durante um longo tempo, levaram uma existência muito humilde, pois os historia- 
dores e os monumentos falam delas raramente; também sabemos muito mal como foram 
organizadas. Mas, desde a época de Cícero, seu número se tornou considerável e come- 
çaram a representar um papel. Nessa época, diz Waltzing, “todas as classes de trabalha- 
dores pareciam possuídas pelo desejo de multiplicar as associações profissionais”. O 
movimento ascensional continuou em seguida, até atingir, sob o Império, “uma extensão 
que não póde ser ultrapassada depois, se se levarem em conta as diferenças econômi- 
cas”.* Todas as categorias de operários, que eram extremamente numerosas, acabaram, 
parece, por se constituir em colégios, e aconteceu o mesmo as pessoas que viviam do 
comércio. Ao mesmo tempo, o caráter desses agrupamentos modificou-se; eles termina- 
ram por ser verdadeiras engrenagens da administração. Eles preenchiam funções oficiais; 
cada profissão era vista como um serviço público do qual a corporação correspondente 
tinha o encargo e a responsabilidade para com o Estado. º 

Isto foi a ruína da instituição. Pois essa dependência frente ao Estado não tardou 
em degenerar em uma servidão intolerável que os imperadores puderam manter só pela 
opressão. Todas as formas de procedimento foram empregadas para impedir os trabalha- 
dores de se esquivarem às pesadas obrigações que resultavam para eles de sua própria 
profissão; chegou-se até a recorrer ao recrutamento e ao alistamento forçados. Um tal 
sistema não podia evidentemente durar senão na medida em que o poder político era bas- 
tante forte para impor. Foi por isso que não sobreviveu a dissolução do Império. Além 
disso, as guerras civis e as invasões haviam destruído o comércio e a indústria; os arte- 
sãos se aproveitaram dessas circunstâncias para fugir das vilas e se dispersar nos cam- 
pos. Assim os primeiros séculos de nossa era viram produzir-se um fenômeno que deve- 
ria repetir-se identicamente no fim do século XVIII: a vida corporativa se extinguiu 
quase completamente. Foi a custo se dela subsistiram alguns traços na Gália e na Ger- 
mánia, nas cidades de origem romana. Se, portanto, um teórico tivesse, nesse momento, 
tomado consciência da situação, teria verossimilhantemente concluído, como o fizeram 
mais tarde os economistas, que as corporações não tinham, ou, pelo menos, não tinham 


n 


3 Vide Herrmann, Compêndio da Antiguidade Grega, 4.º vol., 3.º ed., pág. 398. As vezes, O artesão era 
mesmo, em virtude de sua profissão, privado do direito de cidade. (Ibid., pág. 392.) — Resta saber se, na 
falta de uma organização legal e oficial, não havia uma clandestina. É certo que existiam corporações de 
comerciantes. (Vide Francotte, A Indústria na Grécia Antiga, t. II, pág. 204 ss.)(N. do A.) 

* Plutarco, Numa, XVII; Plínio, História Natural, XXXIV. É sem dúvida uma lenda, mas prova que os 
romanos viam nas corporações uma de suas mais antigas instituições. (N. do A.) 

* Estudo Histórico sobre as Corporações Profissionais entre os Romanos, t. I. págs. 56/57.(N. do A.) 

* Alguns historiadores crêem que, desde o princípio, as corporações estiveram relacionadas com o Estado. 
Mas é bastante certo, em todo caso, que seu caráter oficial foi desenvolvido de outra maneira sob o Império. 
(N. do A.) 


310 DURKHEIM 


mais razão de ser, que tinham desaparecido sem remédio, e ele teria sem dúvida como 
retrógrada e irrealizável toda tentativa para reconstituí-las. Mas os acontecimentos 
muito cedo teriam desmentido uma tal profecia. 

Com efeito, após um eclipse de tempo, as corporações recomeçaram uma nova exis- 
tência em todas as sociedades européias. Renasceram por volta do século XI e século 
XII. Desde então, diz M. Levasseur, “os artesãos começam a sentir a necessidade de se 
unir e formam suas primeiras associações”. ” Em todo caso, no século XIII, estão de 
novo florescentes, e se desenvolvem até o dia em que entram numa nova decadência. 
Uma instituição tão persistente não poderia depender de uma particularidade contingente 
e acidental; ainda é bem menos possível admitir que ela foi o produto de não sei qual 
abnegação coletiva. Se desde as origens da cidade até o apogeu do Império, desde a auro- 
ra das sociedades cristãs até os tempos modernos, elas foram necessárias, é porque elas 
respondem a necessidades duráveis e profundas. Sobretudo o fato mesmo de que, após 
terem desaparecido uma primeira vez, elas se reconstituíram por si mesmas e sob uma 
nova forma, retira todo o valor do argumento que apresenta sua desaparição violenta no 
fim do último século como uma prova de que elas não estão mais em harmonia com as 
novas condições da existência coletiva. De resto, a necessidade que experimentam hoje 
todas as grandes sociedades civilizadas de chamá-las à vida é o sintoma mais seguro de 
que essa supressão radical não foi um remédio, e de que a reforma de Turgot necessitava 
de uma outra que não poderia ser indefinidamente adiada. 


H 


Mas, se toda organização corporativa não é necessariamente um anacronismo 
histórico, é fundamentado crer que ela seja chamada a desempenhar, nas nossas socieda- 
des contemporáneas, o papel considerável que nós lhe atribuímos? Porque, se a julga- 
mos indispensável, é por causa não de serviços económicos que ela poderia prestar, mas 
da influência moral que poderia ter. O que vemos antes de tudo no grupo profissional é 
um poder moral capaz de conter os egoísmos individuais, de manter no coração dos 
trabalhadores um sentimento mais vivo de sua solidariedade comum, de impedir a lei do 
mais forte de se aplicar tão brutalmente às relações industriais e comerciais. Ora, ele não 
é próprio para um tal papel. Porque nasceu na época dos interesses temporais, parece 
que pode servir só a fins utilitários, e as recordações deixadas pelas corporações do anti- 
go regime fazem confirmar esta impressão. São facilmente representadas no futuro tais 
quais foram durante os últimos tempos de sua existência, ocupadas antes de tudo em 
manter ou em aumentar seus privilégios e seus monopólios, e não se vê como preocupa- 
ções tão estritamente profissionais poderiam ter uma ação bem favorável sobre a morali- 
dade do corpo ou de seus membros. 

Mas é preciso se abster de estender a todo o regime corporativo o que pôde ser ver- 
dadeiro de algumas corporações e durante um tempo bem curto de seu desenvolvimento. 
Em vez de ter sido atingido por um tipo de doença moral própria de sua constituição, foi 
sobretudo um papel moral que desempenhou durante a maior parte de sua história. É 
isso que é particularmente evidente nas corporações romanas. “As corporações de arte- 
sãos”, diz Waltzing, “estavam longe de ter, entre os romanos, um caráter profissional 
tão pronunciado quanto na Idade Média: não se encontra entre eles nem regulamentação 
sobre os métodos, nem aprendizagem imposta, nem monopólio; sua finalidade não era 
mais do que reunir os fundos necessários para explorar uma indústria ”,º Sem divida, a 


7 


As Classes Operárias na França até a Revolução, I, pág. 194.(N. do A.) 
* Op.cit. 1, pág. 194.(N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 311 


associação lhes dava mais forças para salvaguardar, se fosse preciso, seus interesses 
comuns. Mas esse era um dos contragolpes úteis que produzia a instituição; essa não era 
sua razão de ser, a função principal. Antes de tudo, a corporação era um colégio religio- 
so. Cada uma delas tinha seu deus particular, cujo culto, quando havia os meios, se cele- 
brava em um templo especial. Da mesma forma que cada família tinha seu Lar familia- 
ris, cada cidade seu Genius publicus, cada colégio tinha seu deus tutelar, Genius collegii. 
Naturalmente, esse culto profissional era realizado com festas celebradas em comum, 
com sacrifícios e banquetes. Todo tipo de circunstâncias servia, portanto, de ocasião 
para alegres assembléias; além do mais, eram feitas frequentemente distribuições de ví- 
veres ou de dinheiro a expensas da comunidade. Pergunta-se se a corporação tinha uma 
caixa de auxílio, se assistia regularmente a seus membros que se encontravam necessita- 
dos, e as opiniões sobre esse ponto são desencontradas.º Mas o que retira da discussão 
uma parte de seu interesse e alcance é que estes banquetes comuns, mais ou menos perió- 
dicos, e as distribuições que os acompanhavam fregientemente funcionavam como 
ajuda e tinham por ofício a assistência indireta. De qualquer maneira, os desafortunados 
sabiam que podiam contar com esta subvenção dissimulada. — Como corolário desse 
caráter religioso, o colégio de artesãos era, ao mesmo tempo, um colégio funerário. Uni- 
dos, como os gentiles, num mesmo culto durante sua vida, os membros da corporação 
queriam, como aqueles também, dormir juntos seu último sono. Todas as corporações 
que eram bastante ricas tinham um columbarium coletivo, onde, quando o colégio não 
tinha meios para comprar uma propriedade funerária, assegurava ao menos aos seus 
membros funerais dignos a expensas da caixa comun. 

Um culto comum, banquetes comuns, festas comuns, um cemitério comum, não 
são, reunidas em conjunto, todas as características distintivas da organização doméstica 
entre os romanos? Também se poderia dizer que a corporação romana era uma “grande 
família”. “Nenhuma palavra”, diz Waltzing, “indica melhor a natureza das relações que 
uniam os confrades, e muitos indícios provam que uma grande fraternidade reinava em 
seu seio.""º A comunhão de interesses substituía os laços de sangue. “Os membros se 
consideravam tão bem como irmãos que, às vezes, davam-se esse nome entre eles.” A 
expressão mais corriqueira era, em verdade, a de sodales; mas essa própria palavra 
exprime um parentesco espiritual que implica uma estreita fraternidade. O protetor e a 
protetora do colégio tomavam o título, freguentemente, de pai e de mãe. “Uma prova do 
devotamento que os confrades tinham pelo seu colégio são os legados e doações que eles 
lhes faziam. São também esses monumentos funerários onde lemos: pius in collegio, foi 
piedoso para com seu colégio, como se dizia pius in suos.!! Esta vida familiar era tão 
desenvolvida que M. Boissier faz dela a finalidade principal de todas as corporações 
romanas. “Mesmo nas corporações operárias ”, diz ele, “associavam-se antes pelo prazer 
de viver juntos, para achar fora de casa distrações às suas fadigas e aos seus aborreci- 
mentos, para ter uma intimidade menos restrita que a da família, menos extensa que a da 
cidade, e assim tornar a vida mais fácil e mais agradável. ""? 

Como as sociedades cristãs pertenciam a um tipo social muito diferente do da 
cidade, as corporações da Idade Média não se pareciam exatamente com as corporações 


, 


romanas. Mas também constituíam para seus membros meios morais. “A corporação ” 


º* A maior parte dos historiadores estima que certos colégios pelo menos eram sociedades de mútuos auxí- 
lios. (N. do A.) 

'º Op. cit. 1, pág. 330. (N. do A.) 

1 Op.cit., I. pág, 331.(N. do A.) 

'2 A Religião Romana, 1, págs. 287-288. (N. do A.) 


312 DURKHEIM 


diz M. Levasseur, “unia por laços estreitos as pessoas do mesmo ofício. Muito freguente- 
mente, ela se estabelecia em uma paróquia ou em uma capela particular e se punha sob 
a invocação de um santo que se tornava o patrono de toda a comunidade. .. Era lá que 
se reunia, que se assistiam em grande cerimônia a missas solenes depois das quais os 
membros da confraria iam todos juntos terminar sua jornada por um alegre festim. Por 
este lado, as corporações da Idade Média se pareciam muito com aquelas da época 
romana.""º A corporação, além disso, consagrava frequentemente uma parte dos fundos 
que alimentavam seu orçamento às obras de beneficência. 

Por outro lado, regras precisas fixavam, para cada ofício, os deveres respectivos dos 
patrões e dos operários, assim como os deveres dos patrões uns para com os outros. '* 
Há, é verdade, regulamentos que podem não estar de acordo com nossas idéias atuais; 
mas é segundo a moral dos tempos que é preciso julgá-los, pois é ela que eles exprimem. 
O que é incontestável é que são todos inspirados pela preocupação não de tais ou tais 
interesses individuais, mas do interesse corporativo, bem ou mal compreendido, não 
importa. Ora, a subordinação da utilidade privada à utilidade comum, qualquer que seja, 
tem sempre um caráter moral, pois implica necessariamente algum espírito de sacrificio 
e de abnegação. Além do mais, muitas dessas prescrições procediam de sentimentos mo- 
rais que são ainda os nossos. O servo estava protegido contra os caprichos do senhor que 
não podia despedi-lo à vontade. É verdade que a obrigação era recíproca; mas além de 
esta reciprocidade ser justa por si própria, ela se justificava melhor ainda por uma série 
de importantes privilégios de que gozava então o operário. É assim que era proibido aos 
senhores frustrá-lo em seu direito ao trabalho, fazendo-se assistir pelos seus vizinhos ou 
mesmo pelas suas mulheres. Em uma palavra, diz M. Levasseur, “esses regulamentos 
sobre os aprendizes e os operários estão longe de poderem ser desdenhados pelo histo- 
riador e pelo economista. Eles não são obra de um século bárbaro. Têm o cunho da 
perseverança e de um certo bom senso, que são, sem dúvida alguma, dignos de nota”. "* 
Enfim, toda uma regulamentação estava destinada a garantir a probidade profissional. 
Todos os tipos de precauções eram tomados para impedir o mercador ou o artesão de 
enganar o comprador, para obrigá-los a “fazer obra boa e leal”.!º Sem dúvida, houve 
um momento em que as regras se tornaram inutilmente discordantes quando os mestres 
se preocuparam muito mais em salvaguardar seus privilégios do que em velar pela boa 
reputação da profissão e pela honestidade de seus membros. Mas não há instituição que 
em um dado momento não degenere, seja porque não sabe mudar a tempo e se imobili- 
zar, seja porque se desenvolve em um sentido unilateral, excedendo em algunas de suas 
propriedades: o que a torna inábil para fazer os próprios serviços dos quais ela tem o 
encargo. Isso pode ser uma razão para procurar reformá-la, não para declará-la inútil 
para sempre e destruí-la. 

De qualquer forma, os fatos que precedem bastam para provar que o grupo profis- 
sional não é de modo algum incapaz de exercer uma ação moral. O lugar tão conside- 
rável que a religião tinha na sua vida, tanto em Roma como na Idade Média, pôe muito 
particularmente em evidência a natureza verdadeira de suas funções; pois toda comuni- 
dade religiosa constituía então um meio moral da mesma forma que toda disciplina 


'* Op. cit., 1, págs. 217-218.(N. do A.) 

'* Op. cit., 1, pág. 221 — Vide, sobre o mesmo caráter moral da corporação na Alemanha, Gierke, O 
Cooperativismo Alemão, I, pág. 384; na Inglaterra, Ashley, História das Doutrinas Económicas, 1. pág. 101. 
(N. do A.) 

'8 Op. cit. pág. 238.(N. do A.) 

"18 Op.cit., págs. 240-261.(N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 313 


moral tendia forçosamente a tomar uma forma religiosa. E, além disso, este caráter da 
organização corporativa é devido à ação de causas muito gerais, que se pode ver atuar 
em outras circunstâncias. No momento em que, no seio de uma sociedade política, um 
certo número de indivíduos se encontra tendo em comum idéias, interesses, sentimentos, 
ocupações que o resto da população não partilha com eles, é inevitável que, sob 
influência destas semelhanças, atraiam-se uns em direção aos outros, eles se procurem, 
entrem em relações, se associem, e que assim se forme pouco a pouco um grupo restrito, 
tendo sua fisionomia especial, no seio da sociedade geral. Mas, uma vez que o grupo es- 
teja formado, desprende-se dele uma vida moral que traz naturalmente a marca das con- 
dições particulares nas quais ela foi elaborada. Pois é impossível que homens vivam jun- 
tos, estejam regularmente comerciando sem que encontrem o sentimento do todo que eles 
formam pela sua união, sem que eles se prendam a esse todo, se preocupem com seus 
interesses, e o levem em consideração na sua conduta. Ora, esse apego a alguma coisa 
que ultrapassa o indivíduo, essa subordinação dos interesses particulares ao interesse 
geral, é a própria fonte de toda atividade moral. Quando esse sentimento se precisar e se 
determinar, quando, aplicando-se às circunstâncias mais ordinárias e mais importantes 
da vida, se traduzir em fórmulas definidas, eis um corpo de regras morais prestes a se 
constituir. 

Ao mesmo tempo que esse resultado se produz por si mesmo e pela força das coisas, 
ele é útil e o sentimento de sua utilidade contribui para confirmá-lo. A sociedade não é 
a única interessada em que esses grupos especiais se formem para regulamentar a ativi- 
dade que se desenvolve neles e que, de outra forma, tornar-se-ia anárquica; o indivíduo, 
por seu lado, encontra nisso uma fonte de alegrias. Pois a anarquia é dolorosa para ele 
mesmo. Ele também sofre dos conflitos e das desordens que se produzem todas as vezes 
que as relações interindividuais não estão submetidas a nenhuma influência reguladora. 
Não é bom para o homem viver assim em pé de guerra no meio de seus companheiros 
imediatos. Esta sensação de uma hostilidade geral, a desconfiança mútua que dela resul- 
ta, a tensão que dela decorre, são estados penosos quando são crônicos: se amamos a 
guerra, amamos também as alegrias da paz, e essas últimas têm um preço tanto maior 
para os homens quanto mais profundamente socializados estes forem, isto é (uma vez 
que as duas palavras são equivalentes), mas profundamente civilizados. A vida comum 
é atraente e ao mesmo tempo coercitiva. Sem dúvida, a coação é necessária para condu- 
ziro homem a se ultrapassar a si mesmo, a acrescentar à sua natureza fisica uma outra 
natureza; mas, à medida que aprende a apreciar os encantos desta existência nova, ele 
constrói a necessidade, e não há nenhuma ordem de atividade onde ele não os procure 
apaixonadamente. Eis por que quando indivíduos que por terem interesses comuns se 
associam, não é somente para defenderem esses interesses, é para se associarem, para 
ndo mais se sentirem perdidos em meio a adversários, para terem o prazer de comungar, 
de não fazerem senão um com muitos, quer dizer, em definitivo, para levarem em con- 
junto uma mesma vida moral. 

A moral doméstica não é formada de outra maneira. Por causa do prestígio que a 
família conserva aos nossos olhos, parece-nos que, se ela foi e se é sempre uma escola de 
devotamento e de abnegação, a sede por excelência da moralidade, é em virtude de carac- 
terísticas muito particulares das quais ela teria o privilégio e que não se reencontrariam 
alhures em nenhum grau. É aprazível acreditar-se que há na consangiiinidade uma causa 
excepcionalmente forte de aproximação moral. Mas tivemos fregiúentemente a ocasião de 
mostrar"? que a consanguinidade não tem de forma alguma a eficácia extraordinária que 


17 Ver especialmente Année Sociologique, I, pag. 331 ss. (N. do A.) 


e 
314 DURKHEIM 


se lhe atribui. A prova é que num grande número de sociedades os consangiiíneos são 
numerosos no seio da família: o parentesco dito artificial se contrai então com grande 
facilidade e tem todos os efeitos do parentesco natural. Inversamente, acontece muito 
fregiientemente que os consangiiíneos muito próximos são moral ou juridicamente estra- 
nhos uns aos outros: é, por exemplo, o caso dos cognados na família romana. A família 
não deve, então, suas virtudes à unidade de descendência: é simplesmente um grupo de 
indivíduos que se aproximam uns dos outros, no seio da sociedade política, por uma 
comunhão particularmente estreita de idéia, de sentimentos e de interesses. A consanguii- 
nidade pôde facilitar esta aproximação; pois ela tem naturalmente como efeito inclinar 
as consciências umas para as outras. Mas muitos outros fatos interferiram: a vizinhança 
material, a solidariedade de interesses, a necessidade de se unir para lutar contra um peri- 
go comum, ou simplesmente se unir, foram causas diferentemente fortes de aproximação. 

Ora, elas não são particulares da família, mas são reencontradas, ainda que sob ou- 
tras formas, na corporação. Se, pois, o primeiro desses grupos desempenhou um papel 
tão considerável na história da humanidade, por que o segundo seria incapaz disso? Sem 
dúvida, haverá sempre entre eles esta diferença: os membros da família pôem em comum 
a totalidade de sua existência, os membros da corporação apenas suas preocupações 
profissionais. A família é uma espécie de sociedade completa cuja ação se estende tanto 
sobre nossa atividade econômica quanto sobre nossa atividade religiosa, política, cienti- 
fica, etc. Tudo o que fazemos de alguma importância, mesmo fora de casa, nela se faz 
eco e provoca reações apropriadas. A esfera de influência da corporação é, em um senti. 
do, mais restrita. É necessário ainda não perder de vista o lugar cada vez mais impor- 
tante que a profissão ocupa na vida à medida que o trabalho mais se divide; pois o 
campo de cada atividade individual tende mais e mais a se fechar nos limites marcados 
pelas funções das quais o indivíduo é especialmente encarregado. Além disso, se a ação 
da família se estende, pode ser apenas geral; o detalhe lhe escapa. Enfim e sobretudo, a 
família, perdendo sua unidade e sua indivisibilidade de outrora, perdeu ao mesmo tempo 
uma grande parte de sua eficácia. Como ela se dispersa hoje a cada geração, o homem 
passa notável parte de sua existência longe de toda influência doméstica. '* A corpora- 
ção não tem essas intermitências, é contínua como a vida. A inferioridade que ela pode 
apresentar em certos aspectos, em relação à família, não é, pois, sem compensação. 

Se acreditamos dever assim aproximar a família e a corporação, não foi simples- 
mente para estabelecer entre ambas um paralelo instrutivo, mas é que essas duas institui- 
ções não deixam de ter relações de parentesco. É o que mostra particularmente a história 
das corporações romanas. Vimos, com efeito, que foram formadas sobre o modelo da 
sociedade doméstica da qual foram primeiramente uma forma nova e ampliada. Ora, o 
grupo profissional não lembraria neste ponto o grupo familiar se não houvesse entre eles 
algum vínculo de filiação. E, com efeito, a corporação foi, em um sentido, a herdeira da 
família. Enquanto a indústria é exclusivamente agrícola, ela tem na família e na aldeia, 
que não passa de uma espécie de grande família, seu órgão imediato, e não lhe é neces- 
sário outro. Como a troca não existe ou é pouco desenvolvida, a vida do agricultor não 
o tira fora do círculo familiar. A atividade econômica não tendo repercussão para fora de 
casa, a família é suficiente para regulamentá-la e ela própria serve assim de grupo profis- 
sional. Não é, porém, mais assim, uma vez que existem oficios. Pois, para viver de um 
ofício é necessário haver clientes; e é necessário sair de casa para encontrá-los; é neces- 


'8 Desenvolvemos esta idéia em O Suicídio, pág. 433. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 315 


sário sair também para entrar em contato com os concorrentes, lutar contra eles, se 
entender com eles. De resto, os ofícios supõem mais ou menos diretamente as cidades, e 
as cidades foram sempre formadas e recrutadas principalmente no meio de imigrantes, 
quer dizer, de indivíduos que abandonaram seu meio natal. Uma forma nova de atividade 
era, pois, assim constituída e excedia o velho quadro familiar. Para que ela não ficasse 
em estado desorganizado, era preciso que criasse um quadro novo que lhe fosse próprio; 
dito de outra maneira, era necessário que um grupo secundário, de um gênero novo, se 
formasse. Foi assim que a corporação nasceu: ela substituiu a família no exercício de 
uma função que era primeiramente doméstica, mas que não podia mais conservar esse 
caráter. Uma tal origem não permite atribuir-lhe esta espécie de amoralidade constitu- 
cional que se lhe empresta gratuitamente. Da mesma forma que a família foi o meio no 
seio do qual se elaboraram a moral e o direito domésticos, a corporação é o meio natural 
no seio do qual devem elaborar-se a moral e o direito profissionais. 


W 


Contudo, para dissipar todas as prevenções, para mostrar bem que o sistema corpo- 
rativo não é somente uma instituição do passado, seria necessário mostrar quais trans- 
formações ele deve e pode sofrer para se adaptar às sociedades modernas; porque é evi- 
dente que ele não pode ser hoje o que foi na Idade Média. 

Para poder tratar esta questão com método, seria necessário estabelecer primeira- 
mente de que maneira o regime corporativo evoluiu no passado e quais são as causas que 
determinaram as principais variações que sofreu. Poder-se-ia então prejulgar com algu- 
ma certeza o que ele pode vir a ser, dadas as condições nas quais as sociedades européias 
se encontram atualmente. Mas, para isso, seriam necessários estudos comparativos que 
não estão feitos e que não podemos fazer durante o percurso. Talvez, entretanto, seja 
possível perceber desde agora, mas somente em linhas gerais, o que foi esse 
desenvolvimento. 

Do que precede já resulta que a corporação não foi em Roma o que se tornou mais 
tarde nas sociedades cristãs. Não difere somente pelo seu caráter mais rigoroso e menos 
profissional, mas pelo lugar que ocupava na sociedade. Ela foi, com efeito, pelo menos 
na origem, uma instituição extra-social. O historiador que tenta resolver em seus elemen- 
tos a organização política dos romanos não encontra, no decurso de sua análise, nenhum 
fato que possa adverti-lo da existência das corporações. Elas não entravam, na qualidade 
de unidades definidas e reconhecidas, na constituição romana. Em nenhuma das assem- 
bléias eleitorais, em nenhuma das reuniões do Exército, os artesãos se reuniam por colé- 
gios; em nenhum lugar o grupo profissional tomava parte, como tal, na vida pública, seja 
diretamente, seja por intermédio de representantes regulares. Quanto ao mais, a questão 
pode ser colocada a propósito de três ou quatro colégios que, acreditamos, podem ser 
identificados com algumas das centúrias constituídas por Sérvio Túlio (tignarii, aerarii, 
tibicines, cornicines);'º o fato ainda está mal estabelecido.”º E, quanto às outras corpo- 
rações, elas estavam certamente fora da organização oficial do povo romano.?' 


'º Trad.: carpinteiros, caldeireiros, flautistas, corneteiros. (N. do E.) 

2º Parece mais verossímil que as centúrias assim denominadas não continham todos os carpinteiros, todos 
os ferreiros, mas somente aqueles que fabricavam ou reparavam as armas e as máquinas de guerra. Denys 
d'Halicarnasse nos diz formalmente que os operários assim agrupados tinham uma função puramente mili- 
tar, eis tôn polemón; não eram, pois, colégios propriamente ditos, mas divisões do exército. (N. do A.) 

21 Tudo o que dizemos sobre a situação das corporações deixa inteira a questão controvertida de saber se 
o Estado, desde o começo, interveio na sua formação. Então, mesmo que elas estivessem, desde o princípio, 
sob a dependência do Estado (o que não parece verossímil), resta que não afetaram a estrutura política. É o 
que nos importa. (N. do A.) 


316 DURKHEIM 


Esta situação excêntrica, de alguma maneira, se explica pelas próprias condições 
nas quais elas se formaram. Elas apareceram no momento em que os ofícios começaram 
a se desenvolver. Ora, durante muito tempo, os ofícios foram apenas uma forma acessó- 
ria e secundária da atividade social dos romanos. Roma era essencialmente uma socie- 
dade agrícola e guerreira. Como sociedade agrícola, estava dividida em gentes e em cú- 
rias; a reunião por centúrias refletia de preferência a organização militar. Quanto às 
funções industriais, eram muito rudimentares para afetar a estrutura política da cida- 
de.?º Aliás, até uma época muito avançada da história romana, os ofícios ficaram 
cunhados de um descrédito moral que não lhes permitia ocupar um lugar regular no 
Estado. Sem dúvida, chegou o tempo em que sua condição social melhorou. Mas a 
maneira pela qual foi obtido este melhoramento é significativa. Para chegar a fazer res- 
peitar seus interesses e a desempenhar um papel na vida pública, os artesãos tiveram que 
recorrer a procedimentos irregulares e extralegais. Triunfaram sobre o desprezo de que 
eram objeto por meio de intrigas, de complôs, de agitação clandestina.?* Foi a melhor 
prova de que, por si mesma, a sociedade romana não lhes estava aberta. E se, mais tarde, 
eles acabaram sendo integrados no Estado para se tornarem as engrenagens da máquina 
administrativa, esta situação não foi para eles uma conquista gloriosa, mas uma dolo- 
rosa dependência: se entraram então no Estado, não foi para aí ocuparem lugar ao qual 
seus serviços sociais poderiam dar-lhes o direito, mas simplesmente para poderem ser 
mais sutilmente fiscalizados pelo poder governamental. “A corporação ”, diz Levasseur, 
“vem a ser a cadeia que os torna cativos e que a mão imperial tanto mais comprime 
quanto mais penoso ou necessário ao Estado era o seu trabalho. ”? * 

Completamente outro é o seu lugar nas sociedades da Idade Média. Repentina- 
mente, desde que a corporação aparece, ela se apresenta como o quadro normal desta 
parte da população que estava destinada a desempenhar no Estado um papel tão conside- 
rável: a burguesia ou o Terceiro Estado. Com efeito, durante muito tempo, burguês e pes- 
soa de ofício não formam senão um. “A burguesia no século XVIII”, diz Levasseur, “era 
exclusivamente composta de pessoas de oficio. A classe dos magistrados e dos legisla- 
dores começava a custo a se formar; os homens de estudo pertenciam ainda ao clero; o 
número de rendeiros era muito restrito, porque a propriedade territorial estava quase que 
toda em mãos de nobres; restava aos plebeus apenas o trabalho da oficina e do balcão. 
Era pela indústria ou pelo comércio que conquistavam uma posição no reino.” * Aconte- 
ceu o mesmo na Alemanha. Burguês e citadino eram termos sinónimos, e, por outro lado, 
sabemos que as cidades alemas foram formadas em volta de mercados permanentes, 
abertos por um senhor em um ponto de seu domínio.? º A população que vinha se agru- 
par em torno desses mercados e que se tornou a população urbana era, pois, quase exclu- 
sivamente composta de artesãos e de mercadores. Tanto a palavra forenses como a mer- 
catores serviam indiferentemente para designar os habitantes das cidades, e o jus civile 
ou direito urbano é frequentemente chamado jus fori ou direito de mercado. A organiza- 
ção dos oficios e do comércio parece, portanto, ter sido a organização primitiva da bur- 
guesia européia. 


22 Descendo-se um grau na evolução, sua situação é ainda mais excêntrica. Em Atenas, elas são somente 
extra-sociais, mas quase extralegais. (N. do A.) 

23 Waltzing, op. cit., I, págs. 85 ss. (N. do A.) 

24 Op.cit., I. pág. 31 (N. do A.) 

28 Op. cit. pág. 191. (N. do A.) 

26 Ver Riestschel, Markt und Stadt in threm rechtlichen Verháltniss, Leipzig, 1897, passim, e todos os tra- 
balhos de Sohm sobre esse ponto. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 317 


Também, quando as cidades se libertaram da tutela senhorial, quando a comuna se 
formou, o corpo de ofícios, que havia precedido e preparado esse movimento, se tornou 
a base da constituição comunal. Com efeito, “em quase todas as comunas, o sistema 
político e a eleição dos magistrados são fundados sobre a divisão dos cidadãos em cor- 
pos de ofícios”.? ? Muito fregúentemente votava-se por corpo de profissões, e escolhiam- 
se ao mesmo tempo os chefes da corporação e os da comuna. “Em Amiens, por exemplo, 
os artesãos se reuniam todos os anos para eleger os prefeitos de cada corporação ou 
insígnia; os prefeitos eleitos nomeavam em seguida doze magistrados municipais, ?º que 
nomeavam doze outros, e a magistratura apresentava por sua vez aos prefeitos das insig- 
nias três pessoas entre as quais escolhiam o prefeito da comuna. .. Em algumas cidades, 
o modo de eleição era ainda mais complicado, mas, em todas, a organização política e 
municipal era estritamente ligada à organização do trabalho.” 2º Inversamente, ao 
mesmo tempo que a comuna era um agregado de corpos de oficios, o corpo de ofícios era 
uma comuna em miniatura, e por isso mesmo foi o modelo do qual a instituição comunal 
era forma ampliada e desenvolvida. 

Ora, sabe-se o que foi a comuna na história de nossas sociedades, da qual ela se tor- 
nou, com o tempo, a pedra angular. Porque era uma reunião de corporações e se formou 
sobre o tipo da corporação, em última análise, serviu de base a todo sistema político 
proveniente do movimento comunal. Vê-se que, no percurso, ela cresceu singularmente 
em importância e dignidade. Enquanto que em Roma ela começou estando quase fora 
dos quadros normais, serviu, ao contrário, de quadro elementar para nossas sociedades 
atuais. É uma nova razão para que nos recusemos a vê-la como uma espécie de institui- 
ção arcaica, destinada a desaparecer da história. Pois, se no passado o papel que ela 
desempenhou tornou-se mais vital à medida que o comércio e a indústria se desenvol- 
viam, é completamente inverossímil que os novos progressos econômicos possam ter por 
efeito retirar-lhe toda razão de ser. A hipótese contrária pareceria mais justificada.?º Ou- 
tros ensinamentos, porém, depreendem-se do rápido quadro que acaba de ser traçado. 

Primeiramente, ele permite entrever como a corporação caiu provisoriamente em 
descrédito depois de dois séculos aproximadamente, e, em seguida, como ela deve tornar- 
se para poder retomar sua posição entre nossas instituições públicas. Acaba-se de ver, 
com efeito, que, sob a forma que ela tinha na Idade Média, estava estreitamente ligada a 
organização da comuna. Esta solidariedade ocorreu sem inconvenientes, enquanto os 
próprios ofícios tiveram um caráter comunal. Enquanto, no princípio, artesãos e merca- 
dores tinham mais ou menos exclusivamente por clientes apenas os habitantes da cidade 
ou dos arredores imediatos, quer dizer, enguanto o mercado era principalmente local, o 
corpo de oficios, com sua organização municipal, era suficiente para todas as necessida- 
des. Todavia, não foi mais assim desde que a grande indústria nasceu; como ela não tem 
nada de especialmente urbano, não podia se submeter a um sistema que não havia sido 


27 Op.cit., 1, pág. 193. (N. do A.) 

Orig.: Echevin, magistrado municipal antes de 1789. (N. do T.) 

2º Ibid., I. pág. 183.(N. do A.) 

É verdade que, quando os ofícios se organizam em castas, acontece que tomam demasiadamente cedo 
um lugar aparente na constituição social; é o caso da Índia. Mas a casta não é a corporação. Ela é essencial- 
mente um grupo familiar e religioso, não um grupo profissional. Cada uma tem seu grau de religiosidade 
próprio e, como a sociedade está organizada religiosamente. esta religiosidade, que depende de causas diver- 
sas, atribui a cada casta um lugar determinado no conjunto do sistema social. Mas seu papel econômico não 
é nada nessa situação oficial (cf. Bouglé. “Observações sobre um regime de castas”. Annéc Sociologique, 
IV). (N. do A.) 


318 DURKHEIM 


feito por ela. Antes de tudo, ela não tem necessariamente seu limite em uma cidade; pode 
mesmo se estabelecer fora de toda aglomeração rural ou urbana preexistente; procura 
somente o ponto do território onde ela pode melhor alimentá-lo e de onde pode reinar o 
mais facilmente possível. Em seguida, seu campo de ação não se limita a nenhuma região 
determinada, recruta sua clientela por toda parte. Uma instituição tão inteiramente enga- 
jada na comuna como era a velha corporação não podia, pois, servir para enquadrar e 
regulamentar uma forma de atividade coletiva que era também completamente estranha 
à vida comunal. 

E, com efeito, desde que a grande indústria apareceu, ela se encontrou naturalmente 
fora do regime corporativo, e foi isto que fez, aliás, com que os corpos de ofícios se esfor- 
çassem por todos os meios para impedir seu progresso. Entretanto, não foi por isto liber- 
tada de toda regulamentação: durante os primeiros tempos, o Estado desempenhou dire- 
tamente para ela um papel análogo aquele que as corporações desempenhavam para o 
pequeno comércio e para os ofícios urbanos. Ao mesmo tempo que o poder real concedia 
as manufaturas alguns privilégios, em retorno, ele os submetia ao seu controle, e é isso 
que indica o título de manufaturas reais que lhes era concedido. Mas sabe-se o quanto o 
Estado é impróprio para essa função: essa tutela direta não podia, pois, deixar de se tor- 
nar compressiva. Ela foi mesmo quase impossível a partir do momento em que a grande 
indústria atingiu um certo grau de desenvolvimento e de diversidade: foi porque os 
economistas clássicos reclamaram, e com todo direito, a sua supressão. Mas se a corpo- 
ração, tal qual existia então, não podia se adaptar a esta forma nova da indústria, e seo 
Estado não podia substituir a antiga disciplina corporativa, não se seguia que toda disci- 
plina fosse desde então inútil; restava somente que a antiga corporação devia se transfor- 
mar, para continuar a preencher seu papel nas novas condições da vida econômica. Infe- 
lizmente, não teve bastante flexibilidade para se reformar a tempo e foi por isto que foi 
desfeita. Porque não soube assimilar a vida nova que se manifestava, a sua vida extin- 
guiu-se, e ela se tornou como era na véspera da Revolução, uma espécie de substância 
morta, de corpo estranho que não se mantinha mais no organismo social senão por uma 
força de inércia. Não é, pois, surpreendente que chegou o momento em que foi violenta- 
mente expulsa. Mas destruí-la não era um meio de dar satisfação às necessidades que ela 
não soube satisfazer. E é assim que a questão fica ainda diante de nós, apenas mais agu- 
cada por um século de tentativas e experiências infrutíferas. 

A obra do sociólogo não é a do homem de Estado. Não vamos, pois, expor em deta- 
lhe o que deveria ser esta reforma. Ser-nos-á insuficiente indicar seis princípios gerais 
tais quais parecem surgir dos fatos que precedem. 

O que demonstra antes de tudo a experiência do passado é que os quadros do grupo 
profissional devem sempre estar em relação com os quadros da vida económica; é por 
carecer desta condição que o regime corporativo desapareceu. Uma vez que o mercado, 
de municipal que era tornou-se nacional e internacional, a corporação deve tomar a 
mesma extensão. Em lugar de ser limitada apenas aos artesãos de uma cidade, deve 
aumentar de maneira a compreender todos os membros da profissão, dispersos sobre 
toda a extensão do território;?' pois, em qualquer região que se encontrem, habitando a 
cidade ou o campo, são todos solidários uns aos outros e participam de uma vida 


31 Nada temos a dizer da organização internacional que, em decorrência do caráter internacional do merca- 
do. se desenvolveria necessariamente acima desta organização nacional, pois apenas esta pode constituir 
atualmente uma instituição jurídica. A primeira, no estado atual do direito europeu, só pode resultar de livres 
arranjos concluídos entre corporações nacionais. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 319 


comum. Uma vez que esta vida comum é, em certos aspectos, independente de toda 
determinação territorial, é preciso que se crie um órgão apropriado que a exprima e regu- 
larize o seu funcionamento. Em razão das suas dimensões, um tal órgão estaria necessa- 
riamente em contato e em relações diretas com o órgão da vida coletiva, pois os aconte- 
cimentos bastante importantes para interessar uma categoria de empreendimentos 
industriais num país têm necessariamente repercussões muito gerais que o Estado não 
pode perceber; é isto que o leva a intervir. Também não é sem fundamento que o poder 
real tendeu instintivamente a não deixar fora de sua ação a grande indústria desde que 
apareceu. Não era possível que se desinteressasse por uma forma de atividade que pela 
sua própria natureza é sempre suscetível de afetar o conjunto da sociedade. Mas esta 
ação reguladora, se ela é necessária, não deve degenerar em uma estreita subordinação, 
como aconteceu no século XVII e no século XVIII. Os dois órgãos em relação devem 
permanecer distintos e autônomos: cada um deles tem suas funções das quais apenas ele 
pode se incumbir. Se é as assembléias governamentais que incumbe estabelecer os princí- 
pios gerais da legislação industrial, elas são incapazes de diversificá-los segundo as dife- 
rentes espécies de indústria. É esta diversificação que constitui a tarefa específica da 
corporação.*? Esta organização unitária para o conjunto de um mesmo país não inclui 
no entanto de forma alguma a formação de órgãos secundários, compreendendo os 
trabalhadores similares de uma mesma região ou de uma mesma localidade, e cujo papel 
seria de especializar ainda mais a regulamentação profissional segundo as necessidades 
locais ou regionais. Assim, a vida econômica poderia regulamentar-se e determinar-se 
sem nada perder de sua diversidade. 

Por isto mesmo, o regime corporativo estaria protegido contra esta tendência ao 
imobilismo que frequentemente e justamente se censurou no passado; pois este era um 
defeito que pertencia ao caráter estritamente comunal da corporação. Enquanto estava 
limitada aos próprios muros da cidade, era inevitável que se tornasse prisioneira da tradi- 
ção como a própria cidade. Como, num grupo também restrito, as condições da vida são 
quase invariáveis, o hábito exerce sobre as pessoas e sobre as coisas um império sem 
equilíbrio, e as próprias novidades acabam sendo temidas. O tradicionalismo das corpo- 
rações era, pois, um aspecto do tradicionalismo comunal e tinha as mesmas razões de 
ser. Depois, uma vez que se tornou inveterado nos costumes, sobreviveu às causas que o 
originaram e o justificavam primitivamente. Eis por que, quando a concentração mate- 
rial e moral do país e a grande indústria, que foi sua consegiência, abriram os espíritos 
a novos desejos, despertaram novas necessidades, introduziram nos gostos e nas modas 
uma mobilidade até então desconhecida, a corporação, obstinadamente presa aos seus 


velhos costumes, estava sem condições de responder a essas novas exigências. Mas as 
corporações nacionais, em razão mesmo de sua dimensão e de sua complexidade, não 


32 Esta especialização apenas poderia fazer-se com a ajuda de assembléias eleitas, encarregadas de repre- 
sentar a corporação. No estado atual da indústria, essas assembléias, assim como os tribunais encarregados 
de aplicar a regulamentação profissional, deveriam compreender representantes dos empregados e dos 
empregadores, como já ocorria nos tribunais de prud hommes;* isto segundo proporções correspondentes à 
importância respectiva atribuída pela opinião a estes dois fatores da produção. Mas, se é necessário que 
ambos se encontrem nos conselhos diretores da corporação, não é menos indispensável que na base da orga- 
nização corporativa eles formem grupos distintos e independentes, pois seus interesses são frequentemente ri- 
vais e antagônicos. Para que eles possam tomar consciência livremente, é preciso que a tomem separada- 
mente. Os dois agrupamentos assim constituídos poderiam em seguida designar seus representantes para as 
assembléias comuns. (N. do A.) 

* Prud homme — Membro de um conselho eletivo composto por um número igual de patrões e de operários 
para julgar ou terminar os conflitos profissionais por via de conciliação. (N. do T.) 


320 DURKHEIM 


estariam expostas a este perigo. Posto que muitos espíritos diferentes nela estavam em 
atividade, não se pode estabelecer uma uniformidade estacionária. Num grupo formado 
de elementos numerosos e diversos, produzem-se sem cessar remanejamentos que são 
igualmente fontes de novidades. O equilíbrio de uma tal organização não teria pois nada 
de rígido e, consequentemente, encontrar-se-ia em harmonia com o equilíbrio móvel das 
necessidades e das idéias. 

É preciso, no entanto, precaver-se de crer que todo o papel da corporação deva con- 
sistir em estabelecer regras e em aplicá-las. Sem dúvida, em todo lugar onde se forma um 
grupo, forma-se também uma disciplina moral. Mas a instituição desta disciplina é ape- 
nas uma das numerosas maneiras pelas quais se manifesta toda a atividade coletiva. Um 
grupo não é somente uma autoridade moral que rege a vida de seus membros, é também 
uma fonte de vida sui generis. Dele se desprende um calor que aquece ou reanima os 
corações, abre-os à simpatia, faz derreter os egoísmos. Assim a família foi no passado a 
legisladora de um direito e de uma moral cuja severidade ia frequentemente à extrema 
rudeza, ao mesmo tempo que foi um meio onde os homens aprenderam pela primeira vez 
a apreciar as efusões do sentimento. Nós vimos da mesma maneira como a corporação, 
tanto em Roma como na Idade Média, despertava essas mesmas necessidades e procu- 
rava satisfazê-las. As corporações do futuro terão uma complexidade de atribuições 
ainda maior em razão de sua amplitude adquirida. A suas funções propriamente profis- 
sionais virão agrupar-se outras que pertencem atualmente às comunas ou às sociedades 
privadas. Tais são as funções de assistência que, para serem bem exercidas, supõem, 
entre assistentes e assistidos, sentimentos de solidariedade, uma certa homogeneidade 
intelectual e moral como facilmente produz a prática de uma mesma profissão. Muitas 
obras educativas (ensinamentos técnicos, ensinamentos de adultos, etc.) parecem igual- 
mente dever encontrar na corporação seu meio natural. É o mesmo que uma certa vida 
estética; pois parece conforme à natureza das coisas que esta forma nobre do jogo e da 
recreação se desenvolva lado a lado com a vida séria à qual ela deve servir como contra- 
peso e reparação. De fato, vêem-se já agora sindicatos que são ao mesmo tempo socieda- 
des de auxílios mútuos, outros que fundam casas comuns onde são organizados cursos, 
concertos, representações dramáticas. A atividade corporativa pode, pois, se exercer sob 
as formas mais variadas. 

Há mesmo motivo de supor que a corporação está destinada a se tornar a base ou 
uma das bases essenciais de nossa organização política. Vimos, com efeito, que, se ela 
começa primeiramente por ser exterior ao sistema social, tende a engajar-se nele mais e 
mais profundamente à medida que a vida económica se desenvolve. Tudo permite, pois, 
prever que, o progresso continuando no mesmo sentido, .ela deverá tomar na sociedade 
um lugar cada vez mais central e mais preponderante. Ela foi outrora a divisão elementar 
da organização comunal. Agora que a comuna, de organismo autônomo que foi no pas- 
sado, se perdeu no Estado como o mercado municipal no mercado nacional, não é legi- 
timo pensar que a corporação deveria também sofrer uma transformação correspondente 
e se tornar a divisão elementar do Estado, a unidade política fundamental? A sociedade, 
em lugar de permanecer o que é ainda hoje, um agregado de distritos territoriais justa- 
postos, tornar-se-ia um vasto sistema de corporações nacionais. É um pedido feito por 
toda parte que os colégios eleitorais sejam formados por profissões e não por circunscri- 
ções territoriais e é certo que, desta forma, as assembléias políticas exprimiriam mais 
exatamente a diversidade dos interesses sociais e suas relações; seriam um resumo mais 
fiel da vida social em seu conjunto. Mas dizer que o país, para tomar consciência de si 
mesmo, deve se agrupar por profissões não é reconhecer que a profissão organizada ou 
a corporação deveria ser o órgão essencial da vida pública? 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 321 


Assim seria preenchida a grave lacuna que assinalamos mais adiante na estrutura 
das sociedades européias, da nossa em particular. Ver-se-á, com efeito, como, à medida 
que se avança na história, a organização que tem por base agrupamentos territoriais (al- 
deia ou cidade, distrito, província, etc.) vai cada vez mais desaparecendo. Sem dúvida, 
cada um de nós pertence a uma comuna, a um departamento, mas os laços que nos 
unem se tornam cada dia mais frágeis e mais frouxos. Essas divisões geográficas são na 
maioria das vezes artificiais e não despertam mais em nós sentimentos profundos. O 
espírito provincial desapareceu para sempre; o patriotismo de paróquia se tornou um 
arcaísmo que não se pode restaurar à vontade. Os negócios municipais ou departa- 
mentais não nos tocam e não nos apaixonam mais senão na medida em que coincidam 
com nossos negócios profissionais. Nossa atividade se estende além desses grupos muito 
estreitos para ela, e, por outro lado, uma boa parte do que neles se passa nos deixa indife- 
rentes. Produziu-se como que um enfraquecimento espontáneo da velha estrutura social. 
Ora, não é possível que esta organização interna desapareça sem que nada tome seu 
lugar. Uma sociedade composta por uma poeira infinita de indivíduos desorganizados, 
que um Estado hipertrofiado se esforça por encerrar e conter, constitui uma verdadeira 
monstruosidade sociológica. Pois a atividade coletiva é sempre muito complexa para 
poder ser expressa por um único órgão do Estado; além do mais, o Estado está muito 
longe dos indivíduos, tem com eles relações muito exteriores e muito intermitentes para 
que lhe seja possível penetrar profundamente nas consciências individuais e socializá-las 
interiormente. Eis por que, lá onde ele é o único meio onde os homens podem formar-se 
para a prática da vida comum, é inevitável que eles se desliguem dele, que se separem uns 
dos outros, e que, na mesma medida, a sociedade se desagregue. Uma nação só pode se 
manter se, entre o Estado e os particulares, se intercalar toda uma série de grupos secun- 
dários que sejam bastante próximos dos indivíduos para atraí-los com força a sua esfera 
de ação e encadeá-los assim na torrente geral da vida social. Acabamos de mostrar como 
os grupos profissionais estão aptos para preencher este papel e que tudo de fato se desti- 
na a isso. Concebe-se logo quanto importa que, sobretudo na ordem económica, se liber- 
tem deste estado de inconsistência e desorganização onde ficaram durante um século, 
dado que as profissões deste tipo absorvem hoje a maior parte das forças coletivas.** 

Talvez pudéssemos nas devidas condições explicar melhor agora as conclusões as 
quais chegamos no ali de nosso livro sobre O Suicídio. * * Nós já apresentávamos ali uma 
forte organização corporativa como um meio de remediar a inquietação da qual o 
aumento do suicídio, aliado, aliás, a muitos outros sintomas, atesta a existência. Alguns 
críticos acharam que o remédio não era proporcional à extensão do mal. Enganaram-se, 
porém, sobre a verdadeira natureza da corporação, sobre o lugar que lhe pertence no 
conjunto de nossa vida coletiva e sobre a grave anomalia que resultou de sua desapari- 
ção. Viram ali apenas uma associação utilitária da qual todo o efeito seria manejar me- 


*º Não queremos dizer, aliás, que as circunscrições territoriais estão destinadas a desaparecer completa- 
mente, mas apenas que passarão para o segundo plano. As instituições antigas não se apagam jamais diante 
das instituições novas ao ponto de não deixarem mais vestígios. Elas persistem, não apenas por sobrevi- 
vência, mas porque persiste também algo das necessidades às quais elas correspondiam. A vizinhança mate- 
rial sempre constituirá um elo entre os homens; em consegiência, a organização política e social com base 
territorial certamente subsistirá. Ela apenas não terá mais sua atual preponderância, precisamente porque 
este elo perdeu sua força. Quanto ao mais, mostramos mais acima que mesmo na base da corporação se 
encontrarão sempre divisas geográficas. Além do mais, entre as diversas corporações de uma mesma locali- 
dade ou de uma mesma região, haverá necessariamente relações especiais de solidariedade que reclamarão 
sempre uma organização apropriada. (N. do A.) 

3º O Suicídio, págs. 434 ss. (N. do A.) 


Eat DURKHEIM 


lhor os interesses econômicos, sendo que na realidade ela deveria ser o elemento essen- 
cial de nossa estrutura social. A ausência de toda instituição corporativa cria, pois, na 
organização de um povo como o nosso, um vazio do qual é dificil exagerar a importân- 
cia. É todo um sistema de órgãos necessários ao funcionamento normal da vida comum 
que nos faz falta. Um tal vício de constituição não é evidentemente um mal local, limi- 
tado a uma região da sociedade; é uma doença totius substantiae que afeta todo o orga- 
nismo e, por conseguinte, a empresa que terá por objetivo pór aí um fim não pode deixar 
de produzir consegiiências as mais extensas. É à saúde geral do corpo social que isso 
interessa. 

Isto não é dizer, todavia, que a corporação é um tipo de panacéia que possa servir 
para tudo. À crise da qual sofremos não tem uma só e única causa. Para que ela cesse, 
não é suficiente que uma regulamentação qualquer se estabeleça onde é necessária; é pre- 
ciso, além do mais, que ela seja o que deve ser, quer dizer, justa. Ora, assim como dire- 
mos mais adiante, “enguanto houver ricos e pobres de nascimento, não se terá contrato 
justo”, nem uma justa distribuição de condições sociais. Mas, se a reforma corporativa 
não dispensa outras, ela é a condição primeira de sua eficácia. Imaginemos, com efeito, 
que esteja enfim realizada a condição primordial da justiça ideal; suponhamos que os ho- 
mens entrem na vida de um estado de perfeita igualdade econômica, isto é, que a riqueza 
tenha cessado completamente de ser hereditária. Os problemas em meio aos quais nos 
debatemos não estariam resolvidos por isto. Com efeito, haverá sempre um aparelho eco- 
nômico e diversos agentes que colaborarão para seu funcionamento; será preciso, pois, 
determinar seus direitos e seus deveres, e isto para cada tipo de indústria. Será preciso 
que em cada profissão se constitua um corpo de regras que fixe a quantidade do trabalho, 
a justa remuneração dos diferentes funcionários, seu dever frente aos outros e frente à 
comunidade, etc. Estar-se-á, não menos que atualmente, diante de uma tábua rasa. Por- 
que a riqueza não se transmitirá mais segundo os mesmos princípios de hoje, o estado de 
anarquia não terá desaparecido, pois ele não consiste apenas no fato de as coisas estarem 
aqui mais do que ali, em tais mãos mais do que em outras, mas em que a atividade, da 
qual estas coisas são a ocasião ou instrumento, não está regulamentada; e ela não se 
regulamentará por encantamento assim que for útil, se as forças necessárias para instituir 
esta regulamentação não forem previamente suscitadas e organizadas. 

Há mais: novas dificuldades surgiriam então e permaneceriam insolúveis sem uma 
organização corporativa. Até o presente, com efeito, era a família que, seja pela institui- 
ção da propriedade coletiva, seja pela instituição da herança, assegurava a continuidade 
da vida económica; ou ela possuía e explorava os bens de uma maneira indivisa, ou, a 
partir do momento em que o antigo comunismo familiar foi abalado, era ela quem os 
recebia, representada pelos parentes mais próximos quando da morte do proprietário.** 
No primeiro caso, não havia mutação por óbito e as relações das coisas com as pessoas 
permaneciam o que eram sem mesmo serem modificadas pela renovação das gerações; 
no segundo, a mutação se fazia automaticamente, e não havia momento perceptível onde 
os bens ficassem vacantes, sem mãos para utilizá-los. Mas, se a sociedade doméstica não 
deve mais desempenhar este papel, é melhor que um outro órgão social tome seu lugar no 
exercício desta função necessária. Pois há só um meio para impedir que o funcionamento 


28 É verdade que, ali onde existe o testamento. o próprio proprietário pode determinar a transmissão de seus 
bens. Mas o testamento é apenas a faculdade de derrogar segundo a regra do direito sucessoral; é esta regra 
que é a norma segundo a qual se fazem estas transmissões. Estas derrogações. aliás, são geralmente limita- 
das e são sempre a exceção. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 323 


das coisas seja periodicamente suspenso: que um grupo, perpétuo como a família, ou ele 
mesmo os possua e explore, ou os receba, por ocasido de cada óbito, para remeté-los, se 
possível, a algum outro detentor individual que os valorize. Mas dissemos e tornamos a 
dizer quanto o Estado é pouco afeito a essas tarefas econômicas, muito especiais para 
ele. Há, pois, apenas o grupo profissional que pode desempenhá-las utilmente. Ele corres- 
ponde, com efeito, às duas condições necessárias: está interessado tão de perto na vida 
económica que sente todas as suas necessidades, ao mesmo tempo que tem uma pereni- 
dade pelo menos igual à da família. Mas, para ter este ofício, ainda é preciso que ele exis- 
ta e que tenha tomado bastante consistência e maturidade para estar à altura do papel 
novo e complexo de que será incumbido. 

Se, pois, o problema da corporação não é o único que se impõe à atenção pública, 
não existe certamente outro que seja mais urgente, visto os outros não poderem ser abor- 
dados enquanto ele não for resolvido. Nenhuma modificação um pouco importante pode- 
rá ser introduzida na ordem jurídica se não se começa por criar o órgão necessário para 
a instituição do novo direito. Eis por que é vão deter-se em procurar, com muita preci- 
são, o que deverá ser esse direito; pois, no estado atual de nossos conhecimentos científi- 
cos, não podemos antecipá-lo senão por aproximações grosseiras e sempre duvidosas. O 
que importa é pór logo mãos à obra, estabelecendo as forças morais que, sozinhas, pode- 
rão determiná-lo, realizando-o ! 


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LivRO I 
A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 


CAPÍTULO I 


Método para determinar esta função 


A palavra função é empregada de duas maneiras muito diferentes. Designa ora um 
sistema de movimentos vitais, abstração feita de suas consequências, ora a relação de 
correspondência que existe entre estes movimentos e algumas necessidades do organis- 
mo. É assim que se fala da função de digestão, de respiração, etc.; mas diz-se também 
que a digestão tem por função presidir à incorporação no organismo de substâncias lí- 
quidas ou sólidas destinadas a reparar suas perdas; que a respiração tem por função 
introduzir nos tecidos do animal o gás necessário à manutenção da vida, etc. É nesta 
segunda acepção que entendemos a palavra. Perguntar-se qual é a função da divisão do 
trabalho, portanto, é procurar a qual necessidade ela corresponde; quando resolvermos 
esta questão, poderemos ver se esta necessidade é da mesma natureza que aquelas às 
quais correspondem outras regras de conduta cujo caráter moral não é discutido. 

Se escolhemos este termo, foi porque qualquer outro seria inexato ou equívoco. Não 
podemos empregar o termo fim ou objetivo e falar da finalidade da divisão do trabalho, 
porque isto seria supor que a divisão do trabalho existe em vista de resultados que iremos 
determinar. O termo resultado ou efeito não nos satisfaria mais, porque ele não desperta 
nenhuma idéia de correspondência. Ao contrário, a palavra papel ou função tem a gran- 
de vantagem de implicar esta idéia. mas sem prejulgar nada sobre a questão de saber 
como esta correspondência se estabeleceu, se ela resulta de uma adaptação intencional e 
preconcebida ou de um ajustamento repentino, Ora, o que nos importa é saber se ela 
existe e em que consiste, não se foi pressentida de antemão nem mesmo se foi sentida 
ulteriormente. 


I 


Nada parece mais fácil, à primeira vista, do que determinar o papel da divisão do 
trabalho. Seus esforços não são conhecidos por todo mundo? Tendo em vista que ela 
aumenta simultaneamente a força produtiva e a habilidade do trabalhador, ela é a condi- 
ção necessária do desenvolvimento intelectual e material das sociedades; ela é a fonte da 
civilização. Por outro lado, como se atribui de bom grado à civilização um valor absolu- 
to, não se tenta nem mesmo procurar uma outra função para a divisão do trabalho. 

Que ela realmente tenha este resultado, é algo que não se pode pensar em discutir. 
Mas, se ela não tivesse outro e não servisse para outra coisa, não se teria nenhuma razão 
para atribuir-lhe um caráter moral. 

Com efeito, os serviços que ela assim presta são completamente estranhos a vida 
moral ou, pelo menos, têm com ela apenas relações muito indiretas e muito distantes. 
Mesmo que hoje esteja muito em voga responder aos libelos de Rousseau por ditirambos 
em sentido inverso, não está completamente provado que a civilização seja uma coisa 


326 DURKHEIM 


moral. Para encerrar a questão, não podemos nos referir a análises de conceitos que 
necessariamente são subjetivas; seria preciso conhecer um fato que pudesse servir para 
medir o nível de moralidade média e observar em seguida como ele varia na medida em 
que a civilização progride. Infelizmente, esta unidade de medida nos falta; mas possuí- 
mos uma para a imoralidade coletiva. O número médio dos suicídios, dos crimes de todo 
tipo, pode com efeito servir para marcar a elevação da imoralidade em uma dada socie- 
dade. Ora, se fizermos a experiência, ela não redundará em honra para a civilização, pois 
o número destes fenômenos mórbidos parece crescer na medida em que as artes, as ciên- 
cias e a indústria progridem. º º Sem dúvida, haveria alguma leviandade em concluir deste 
fato que a civilização é imoral; mas pelo menos pode-se ficar certo de que, se ela tem 
sobre a vida moral uma influência positiva e favorável, esta é muito fraca. 

Se, por outro lado, se analisa este complexus mal definido que chamamos civiliza- 
ção, vê-se que os elementos dos quais está composta estão desprovidos de todo caráter 
moral. 

Isto é verdadeiro sobretudo para a atividade econômica que acompanha sempre a 
civilização. Muito longe de ela servir ao progresso da moral, é nos grandes centros indus- 
triais que os crimes e os suicídios são mais numerosos; em todo caso, é evidente que ela 
não apresenta os signos exteriores pelos quais se reconhecem os fatos morais. Substi- 
tuímos as diligências pelas estradas de ferro, os barcos a vela pelos transatlânticos, as 
pequenas oficinas pelas manufaturas; todo este desdobramento de atividades é geral- 
mente visto como útil, mas não tem nada de moralmente obrigatório. O artesão, o peque- 
no industrial, que resistem a esta corrente geral e perseveram obstinadamente em seus 
modestos empreendimentos, cumprem igualmente bem seu dever como o grande manufa- 
tureiro que cobre um país de usinas e reúne sob suas ordens todo um exército de operá- 
rios. A consciência moral das nações não se engana nisto: ela prefere um pouco de justi- 
ça a todos os aperfeiçoamentos industriais do mundo. Sem dúvida, a atividade industrial 
não existe sem razão de ser; ela corresponde a necessidades, mas estas necessidades não 
são morais. 

Com maior razão acontece o mesmo com a arte, que é absolutamente refratária a 
tudo o que se assemelha a uma obrigação, pois ela é o domínio da liberdade. Ela é um 
luxo e um adorno que talvez seja bom ter, mas que não se pode ter o dever de adquirir: 
o que é supérfluo não se impõe. Ao contrário, a moral é o mínimo indispensável, o estrito 
necessário, pão cotidiano sem o qual as sociedades não podem viver. A arte responde à 
necessidade que temos de difundir nossa atividade sem fim, pelo prazer de difundi-la, 
enquanto que a moral nos obriga a seguir uma via determinada em direção a um fim defi- 
nido: quem diz obrigação diz igualmente constrangimento. Assim, mesmo que possa 
estar animada por idéias morais ou achar-se misturada à evolução dos fenômenos morais 
propriamente ditos, a arte não é moral por si mesma. Talvez a própria observação esta- 
beleceria que, junto aos indivíduos como nas sociedades, um desenvolvimento intempe- 
rante de faculdades estéticas seja um grave sintoma do ponto de vista da moralidade. 

De todos os elementos da civilização, a ciência é o único que, em certas condições, 
apresenta um caráter moral. Com efeito, as sociedades tendem cada vez mais a ver como 
um dever do indivíduo desenvolver sua inteligência, assimilando as verdades científicas 
que são estabelecidas. Existe desde agora um certo número de conhecimentos que deve- 
mos todos possuir. Não se é obrigado a jogar-se no grande conflito industrial, não se é 


38 Ver Alexandre von Oettingen, Moralstatistik, Erlangen, 1882, 89 37 ss. — Tarde, Criminalidade Com- 
parada, cap. (Paris, F. Alcan). (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 3 


9) 
—J 


obrigado a ser artista, mas agora todo mundo é obrigado a não permanecer ignorante. 
Esta obrigação é mesmo tão fortemente sentida que, em certas sociedades, não apenas é 
sancionada pela opinião pública como também pela lei. Aliás, não é impossível entrever 
de onde vem este privilégio especial da ciência. É que a ciência não é outra coisa senão 
a consciência levada ao seu mais alto ponto de claridade. Ora, para que as sociedades 
possam viver nas condições de existência que lhes são agora feitas, é preciso que o 
campo da consciência, tanto individual quanto social, se estenda e se ilumine. Com efei- 
to, como os meios nos quais elas vivem tornam-se cada vez mais complexos e, por conse- 
guinte, cada vez mais móveis, para durar é preciso que elas mudem fregiientemente. Por 
outro lado, quanto mais uma consciência é obscura, tanto mais é refratária à mudança, 
pois não vê com muita rapidez que é preciso mudar, nem em qual sentido é preciso 
mudar; ao contrário, uma consciência esclarecida sabe preparar previamente a maneira 
de adaptar-se a isto. Eis por que é necessário que a inteligência guiada pela ciência tome 
uma parte maior no curso da vida coletiva. 

Ao menos, a ciência que se requer que todo mundo assim a possua não merece 
quase ser chamada por este nome. Não é a ciência, é no máximo sua parte comum e a 
mais geral. Ela reduz-se, com efeito, a um pequeno número de conhecimentos indispen- 
sáveis que são exigidos de todos só porque estão ao alcance de todos. A ciência propria- 
mente dita ultrapassa infinitamente este nível vulgar. Não compreende apenas isto que é 
vergonhoso ignorar, mas tudo o que é possível saber. Ela não supõe apenas, nos indiví- 
duos que a cultivam, estas faculdades médias que todos os homens possuem, mas dispo- 
sições especiais. Portanto, sendo acessível somente a uma elite, não é obrigatória; é uma 
coisa útil e bela, mas não é necessária a tal ponto que a sociedade a reclame imperativa- 
mente. É vantajoso estar munido dela; não há nada de imoral em não adquiri-la. Ela é 
um campo de ação que permanece aberto à iniciativa de todos, mas onde ninguém está 
constrangido a entrar. Não se é obrigado a ser sábio como não se é obrigado a ser artista. 
A ciência está, portanto, como a arte e a indústria, fora da moral. gd 

Se houve tantas controvérsias sobre o caráter moral da civilização foi porque, 
frequentemente, os moralistas não têm critério objetivo para distinguir os fatos morais 
dos fatos que não o são. Tem-se o hábito de qualificar de moral tudo o que tem alguma 
nobreza e algum valor, tudo o que é objeto de aspirações um pouco elevadas, e foi graças 
a esta extensão abusiva da palavra que se fez a civilização penetrar na moral. Mas não 
é preciso que o domínio da ética seja tão indeterminado; ele compreende todas as regras 
de ação que se impõem imperativamente à conduta e às quais está ligada uma sanção, 
mas não vai mais longe. Por conseguinte, visto não haver nada na civilização que apre- 
sente este critério da moralidade, ela é moralmente indiferente. Portanto, se a divisão do 
trabalho não tivesse outro papel além do de tornar a civilização possível, participaria da 
mesma neutralidade moral. 

Foi porque geralmente não se deu outra função à divisão do trabalho que as teorias, 
que dele foram propostas, são tão inconsistentes. Com efeito, supondo que exista uma 
zona neutra em moral, é impossível que a divisão do trabalho faça parte dela.?º Se não 
é boa, é má; se não é moral, é uma ruína moral. Portanto, se ela não serve para outra 
coisa, cai-se em insolúveis antinomias, pois as vantagens econômicas que ela apresenta 
são compensadas por inconvenientes morais e, como é impossível subtrair uma da outra 


37 “O caráter essencial do bem comparado ao verdadeiro é portanto o de ser obrigatório. O verdadeiro. to- 
mado em si mesmo, não tem este caráter.” (Janet, Moral, pág. 139) (N. do A.) 
38 Pois ela está em antagonismo com a regra moral. (N. do A.) 


328 DURKHEIM 


estas duas quantidades heterogêneas e incomparáveis, não se saberia dizer qual das duas 
leva vantagem sobre a outra, nem, por conseguinte, tomar um partido. Invocar-se-á a pri- 
mazia da moral para condenar radicalmente a divisão do trabalho. Mas, além desta ulti- 
ma ratio ser um golpe de Estado científico, a evidente necessidade da especialização 
torna uma tal posição impossível de sustentar. 

Há mais: se a divisão do trabalho não preenche outro papel, ela apenas tem caráter 
moral, mas não se percebe qual razão de ser ela pode ter. Veremos, com efeito, que por 
si mesma a civilização não tem valor intrínseco e absoluto; o que faz seu valor é que 
corresponde a certas necessidades. Ora, esta proposição será demonstrada mais adiante, 
estas necessidades são consegiências da divisão do trabalho. É porque esta não prosse- 
gue sem um acréscimo de fadiga que o homem é constrangido a buscar, como aumento 
da restauração de forças, estes bens da civilização que, de outra forma, seriam para ele 
sem interesse. Portanto, se a divisão do trabalho não respondesse a outras necessidades 
além daquelas, não teria outra função que a de atenuar os efeitos que ela própria produz, 
que a de curar as feridas que ela mesma fez. Nestas condições, poderia ser necessário 
suportá-la, mas não haveria nenhuma razão de querê-la, porque os serviços que ela pres- 
taria reduzir-se-iam a reparar as perdas que ela causa. 

Portanto, tudo nos convida a procurar uma outra função para a divisão do trabalho. 
Alguns fatos de observação corrente vão colocar-nos no caminho da solução. 


H 


Todo mundo sabe que gostamos de quem se assemelha a nós, de quem pensa e sente 
como nós. Mas o fenômeno contrário não é menos frequente. Acontece muitas vezes que 
nos sentimos atraídos por pessoas que não se nos assemelham, precisamente porque são 
diferentes. Estes fatos são aparentemente tão contraditórios que, em todos os tempos, os 
moralistas hesitaram sobre a verdadeira natureza da amizade e a derivaram ora de uma 
ora de outra causa. Os gregos já tinham colocado o problema. “A amizade”, diz Aristó- 
teles, “dá lugar a muitas discussões. Segundo uns, consiste em uma certa semelhança e 
aqueles que se assemelham se amam: daí o provérbio quem se assemelha se reúne e o 
gaio busca o gaio, e outros ditados similares. Mas, segundo outros, ao contrário, todos 
aqueles que se parecem são oleiros uns para os outros. Existem outras explicações busca- 
das em épocas mais remotas e tomadas da consideração da natureza. Assim, Eurípides 
diz que a terra ressecada está sequiosa de chuva e que o céu sombrio carregado de chuva 
se precipita com um amoroso furor sobre a terra. Heráclito afirma que se ajusta apenas 
o que se opõe, que a mais bela harmonia nasce das diferenças, que a discórdia é a lei de 
todo devir.” 3º 

O que prova esta oposição das doutrinas é que ambas as amizades existem na natu- 
reza. A dessemelhança, como a semelhança, pode ser causa de mútua atração. Entre- 
tanto, não são quaisquer dessemelhanças capazes de produzir este efeito. Mão encon- 
tramos nenhum prazer em ver em outro uma natureza simplesmente diferente da nossa. 
Os pródigos não procuram a companhia dos avaros, nem os de caráter correto e franco 
aquela dos hipócritas e dos dissimulados; os espíritos amáveis e doces não sentem ne- 
nhum gosto pelos temperamentos duros e malevolentes. Portanto, existem apenas dife- 
renças de um certo gênero que tendem uma para a outra; são aquelas que, ao invés de se 
oporem e se excluírem, completam-se mutuamente. “Existe”, diz M. Bain, “um gênero de 
dessemelhança que repele, um outro que atrai, um que tende a levar à rivalidade, outro 


3º Erica a Nicómaco, VII, 1,1155 a, 32.(N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 329 


a conduzir à amizade... Se uma (das duas pessoas) possui algo que a outra não tem, 
mas que ela deseja, existe neste fato o ponto de partida de um charme positivo.” *º É 
assim que O teórico com espírito sagaz e sutil tem fregientemente uma simpatia toda 
especial pelos homens práticos, ao sentido correto e às intuições rápidas; o tímido, pelas 
pessoas decididas e resolutas; o fraco, pelo forte, e reciprocamente. Por mais ricamente 
dotados que sejamos, sempre nos falta alguma coisa, os melhores dentre nós têm o senti- 
mento de sua insuficiência. É porque buscamos em nossos amigos as qualidades das 
quais carecemos, pois, unindo-nos a eles, participamos de alguma maneira da sua natu- 
reza e nos sentimos então menos incompletos. Formam-se assim pequenas associações 
de amigos onde cada um tem seu papel conforme o seu caráter, onde há uma verdadeira 
troca de serviços. Um protege, o outro consola; este aconselha, aquele executa. e é esta 
partilha de funções, ou, para empregar a expressão consagrada, esta divisão do trabalho 
que determina estas relações de amizade. 

Assim, somos conduzidos a considerar a divisão do trabalho sob um novo aspecto. 
Neste caso, com efeito, os serviços econômicos que ela pode prestar são pouca coisa ao 
lado do efeito moral que ela produz, e sua verdadeira função é criar entre duas ou várias 
pessoas um sentimento de solidariedade. De qualquer maneira que este resultado seja 

“Obtido, é ela que suscita estas sociedades de amigos e ela os marca com seu cunho. 

A história da sociedade conjugal nos oferece do mesmo fenômeno um exemplo mais 
admirável ainda. 

Sem dúvida, a atração sexual só se faz sentir entre individuos da mesma espécie e 
o amor supõe geralmente uma certa harmonia de pensamentos e sentimentos. Não é 
menos verdade que o que dá a esta inclinação seu caráter específico e o que produz sua 
particular energia não é a semelhança, mas a dessemelhança das naturezas que ele une. 
É porque o homem e a mulher diferem um do outro que se procuram com paixão. Entre- 
tanto, como no caso precedente, não é um contraste puro e simples que faz eclodir estes 
sentimentos recíprocos: apenas diferenças que se supõem e se completam podem ter esta 
virtude. Com efeito, o homem e a mulher isolados um do outro são somente partes dife- 
rentes de um mesmo todo concreto que eles formam unindo-se. Em outros termos, é a 
divisão do trabalho sexual que é a fonte da solidariedade conjugal e eis por que os psicó- 
logos observaram corretamente que a separação dos sexos tinha sido um acontecimento 
capital na evolução dos sentimentos; ela tornou possível talvez a mais forte de todas as 
inclinações desinteressadas. 

Há mais. A divisão do trabalho sexual é suscetível de mais ou de menos; ela pode 
ou não versar apenas sobre os órgãos sexuais e alguns caracteres secundários que deles 
dependem, ou, ao contrário, estender-se a todas as funções orgânicas e sociais. Ora, 
pode-se ver na história que ela se desenvolveu exatamente no mesmo sentido e da mesma 
maneira que a solidariedade conjugal. 

Quanto mais voltamos ao passado, tanto mais ela se reduz a pouca coisa. A mulher 
destes tempos distantes não era de maneira alguma a criatura frágil que se tornou com 
o progresso da moralidade. Ossadas pré-históricas testemunham que a diferença entre a 
força do homem e a da mulher era relativamente muito menor do que é hoje. *' Ainda 
agora, na infância e até a puberdade, o esqueleto dos dois sexos não difere de um modo 
apreciável: seus traços são sobretudo femininos. Se se admite que o desenvolvimento do 
indivíduo reproduz resumidamente o da espécie, tem-se o direito de conjeturar que a 


“º Emoções e Vontade, trad. fr.. Paris. F. Alcan. pãg. 135. (N. do A.) 
“? Topinard. Antropologia, pãg. 146. (N. do A.) 


330 DURKHEIM 


mesma homogeneidade se encontrava no começo da evolução humana e de ver na forma 
feminina uma imagem aproximada do que era originalmente este tipo único e comum do 
qual a variedade masculina se desprendeu pouco a pouco. Viajantes narram-nos, aliás, 
que, em um certo número de tribos da América do Sul, o homem e a mulher apresentam 
na estrutura e aspecto geral uma semelhança maior do que se vê em outros lugares. *? 
Enfim, o Dr. Lebon pôde estabelecer diretamente e com uma precisão matemática esta 
semelhança original dos dois sexos para o órgão eminente da vida física e psíquica, o cê- 
rebro. Comparando um grande número de crânios, escolhidos em raças e sociedades 
diferentes, chegou à conclusão seguinte: “O volume do crânio do homem e da mulher, 
mesmo quando se comparam pessoas de igual idade, estatura e peso iguais, apresenta 
diferenças consideráveis em favor do homem e esta desigualdade vai igualmente cres- 
cendo com a civilização, de maneira que, do ponto de vista da massa do cérebro e, por 
conseguinte, da inteligência, a mulher tende a diferenciar-se cada vez mais do homem. A 
diferença que existe, por exemplo, entre a média dos crânios dos parisienses é quase o 
dobro daquela observada entre os crânios masculinos e femininos do antigo Egito.” ** 
Sobre este ponto, um antropólogo alemão, M. Bischoff, chegou aos mesmos 
resultados. * * 

Estas semelhanças anatômicas são acompanhadas de semelhanças funcionais. 
Nestas mesmas sociedades, com efeito, as funções femininas não se distinguem clara- 
mente das funções masculinas; mas os dois sexos levam quase a mesma existência. Exis- 
te ainda agora um número muito grande de povos selvagens onde a mulher toma parte na 
vida política. É o que se observou notadamente nas tribos indígenas da América, como 
os iroqueses, os natchez, *º no Havaí onde a mulher participa de mil maneiras da vida 
dos homens, *º na Nova Zelândia, em Samoa. Igualmente, vêem-se com fregiência 
mulheres acompanharem os homens na guerra, excitâ-los ao combate e mesmo tomar 
parte nele de uma maneira muito ativa. Em Cuba, no Daomé, são tão guerreiras quanto 
os homens e lutam ao lado deles * ?. Um dos atributos hoje distintivos da mulher, a doçu- 
ra, não parece ter-lhe pertencido primitivamente. Já em certas espécies de animais a 
fêmea faz-se notar antes pelo caráter contrário. 

Ora, nestes mesmos povos, o casamento está num estado completamente rudimen- 
tar. É mesmo verossímil, senão absolutamente demonstrado, que houve uma época na 
história da família onde não havia casamento; faziam-se e desfaziam-se à vontade as 
relações sexuais sem que nenhuma obrigação jurídica ligasse os pares. Em todo caso, 
conhecemos um tipo familiar que é relativamente próximo de nós *º e em que o casa- 
mento ainda está no estado de germe indistinto: é a família materna. As relações da mãe 
com suas crianças são aqui muito definidas, mas as de dois esposos são muito vagas. 
Elas podem cessar desde que as partes o queiram, ou ainda se realizam apenas por um 
tempo limitado. *? A fidelidade conjugal aqui não é ainda exigida. O casamento, ou o que 


*2 Ver Spencer, Ensaios Científicos, trad. fr., Paris, F. Alcan, pág. 300 — Waitz, em sua Antropologia dos 
Povos Primitivos, 1. 76, narra muitos fatos do mesmo gênero. (N. do A.) 
** O Homem e as Sociedades, II, pág. 154. (N. do A) 
** O Peso do Cérebro do Homem, um Estudo, Bonn, 1880. (N. do A.) 
** Waitz, Antropologia, II, págs. 101-102.(N. do A.) 
** Waitz, op. cit., VI, pág. 121. (N. do A) 
Rê Spencer, Sociologia, tr. fr., Paris, F. Alcan, II, pág. 391. (N. do A.) 
A família materna certamente existiu entre os germanos. — V. Dargun, Mutterrecht und Raubehe im 
Germanischen Rechte, Breslau, 1883. (N. do A.) 


*º Vide particularmente Smith, Casamento e Relação Familiar na Arábia Antiga, Cambridge. 1885, pãeg. 
67.(N. do A.) . 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 331 


se chama assim, consiste unicamente em obrigações de extensão restrita, e, frequente- 
mente, de curta duração, que ligam o marido aos pais da mulher; portanto, ele reduz-se 
a pouca coisa. Ora, em uma dada sociedade o conjunto destas regras jurídicas que cons- 
tituem o casamento somente simboliza o estado da solidariedade conjugal. Se esta é 
muito forte, os elos que unem os esposos são numerosos e complexos e, por conseguinte, 
a regulamentação matrimonial, que tem por objeto defini-los, é muito desenvolvida. Se, 
ao contrário, a sociedade conjugal carece de coesão, se as relações do homem e da mu- 
lher são instáveis e intermitentes, ela não pode tomar uma forma bem determinada e, 
consequentemente, o casamento reduz-se a um pequeno número de regras sem rigor e 
sem precisão. O estado do casamento nas sociedades onde os dois sexos são fracamente 
diferenciados testemunha portanto que a própria solidariedade conjugal é muito fraca. 

Ao contrário, na medida em que se avança rumo aos tempos modernos, vê-se o 
casamento desenvolver-se. A rede de elos que ele cria estende-se cada vez mais, as obri- 
gações que ele sanciona multiplicam-se. As condições nas quais ele pode ser concluído, 
aquelas nas quais ele pode ser dissolvido delimitam-se com uma precisão crescente, 
assim como os efeitos desta dissolução. O dever de fidelidade se organiza; primeiramente 
imposto apenas à mulher, mais tarde torna-se recíproco. Quando o dote aparece, regras 
muito complexas vêm fixar os direitos respectivos de cada esposo sobre sua própria for- 
tuna e sobre a do outro. Aliás, é suficienie dar uma olhada nos códigos para ver que 
lugar importante neles ocupa o casamento. A união dos dois esposos deixou de ser efê- 
mera; não é mais um contato exterior, passageiro e parcial, mas uma associação íntima, 
durável, muitas vezes indissolúvel de duas existências inteiras. 

Ora, é certo que, ao mesmo tempo, o trabalho sexual dividiu-se cada vez mais. 
Limitado primeiramente apenas às funções sexuais, estendeu-se pouco a pouco a várias 
outras. Há muito tempo a mulher retirou-se da guerra, dos negócios públicos, há muito 
tempo sua vida concentrou-se totalmente no interior da família. Depois, seu papel não 
fez senão especializar-se mais. Hoje, nos povos cultivados, a mulher leva uma existência 
completamente diferente daquela do homem. Dir-se-ia que as duas grandes funções da 
vida psíquica como que se dissociaram, que um dos sexos açambarcou as funções afeti- 
vas e o outro as funções intelectuais. Vendo, em certas classes, as mulheres se ocuparem 
de arte e de literatura como os homens, poder-se-ia crer, é verdade, que as ocupações dos 
dois sexos tendem a voltar a ser homogêneas. Mas, mesmo nesta esfera de ação, a mulher 
traz sua natureza própria e seu papel permanece muito especial, muito diferente daquele 
dos homens. Além do mais, se as artes e as letras começam a tornar-se coisas femininas, 
o outro sexo parece abandoná-las para dedicar-se mais especialmente à ciência. Portan- 
to, este retorno à homogeneidade primitiva poderia bem ser o começo de uma nova 
diferenciação. Ademais, estas diferenças funcionais tornam-se materialmente sensíveis 
pelas diferenças morfológicas que determinaram. Não apenas a estatura, O peso, as for- 
mas gerais são muito dessemelhantes no homem e na mulher, mas o Dr. Lebon demons- 
trou, como vimos, que com o progresso da civilização o cérebro dos dois sexos diferen- 
cia-se cada vez mais. Segundo este observador, o distanciamento progressivo seria 
devido, simultaneamente, ao desenvolvimento considerável dos crânios masculinos e a 
um estacionamento ou mesmo a uma regressão dos crânios femininos. “Agora”, diz ele, 
“que a média dos crânios parisienses masculinos os coloca entre os maiores crânios 
conhecidos, a média dos crânios parisienses femininos os coloca entre os menores crã- 
nios observados, bem abaixo do crânio das chinesas e um pouco acima do crânio das 
mulheres da Nova Caledônia.” ºº 


50º Op. cit., pág. 154.(N. do A.) 


332 DURK HEIM 


Em todos estes exemplos, o mais notável efeito da divisão do trabalho não é que 
aumenta o rendimento das funções divididas, mas que as torna solidárias. Seu papel em 
todos estes casos não é simplesmente embelezar ou melhorar as sociedades existentes, 
mas tornar possíveis sociedades que, sem ela, não existiriam. Fazei regredir além de um 
certo ponto a divisão do trabalho sexual, e a sociedade conjugal esvanece-se para deixar 
subsistir apenas relações sexuais eminentemente efêémeras; se mesmo os sexos não tives- 
sem se separado completamente, toda uma forma da vida social não teria nascido. É pos- 
sível que a utilidade econômica da divisão do trabalho valha para alguma coisa neste 
resultado, mas, em todo caso, ele ultrapassa infinitamente a esfera dos interesses pura- 
mente econômicos; pois ele consiste no estabelecimento de uma ordem social e moral sui 
generis. Indivíduos estão ligados uns aos outros que, sem aquilo, seriam independentes; 
ao invês de se desenvolverem separadamente, eles conjugam seus esforços; são solidários 
e de uma solidariedade que não age apenas nos curtos instantes em que os serviços se 
trocam, mas que se estende bem além. A solidariedade conjugal, por exemplo, tal como 
existe hoje nos povos mais cultivados, não faz sentir sua ação em cada momento e em 
todos os detalhes da vida? Por outro lado, estas sociedades que a divisão do trabalho 
cria não podem deixar de carregar sua marca. Visto terem elas esta origem especial, não 
podem assemelhar-se âquelas que a atra;;ão do semelhante pelo semelhante determina; 
devem ser constituídas de uma outra maneira, repousar sobre outras bases, apelar para 
outros sentimentos. 

Se frequentemente se fez consistir apenas na troca as relações sociais oriundas da 


divisão do trabalho, foi por se ter desconhecido o que a troca implica e o que dela resul. 
ta. A troca supõe que dois seres dependam mutuamente um do outro, pois ambos são 
incompletos, e não faz senão traduzir exteriormente esta mútua dependência. Portanto, 
ela é a expressão superficial de um estado interno e mais profundo. Precisamente porque 
este estado é constante, suscita todo um mecanismo de imagens que funciona com uma 
continuidade que a troca não tem. A imagem daquele que nos completa torna-se em nós 
mesmos inseparável da nossa, não apenas porque aí está frequentemente associada, mas 
sobretudo porque ela é seu complemento natural: torna-se, portanto, parte integrante e 
permanente de nossa consciência, a tal ponto que não podemos mais passar sem ela e 
procuramos tudo o que pode aumentar-lhe a energia. Por este motivo amamos a socie- 
dade daquele que ela representa, porque a presença do objeto que ela exprime, fazendo-o 
passar para o estado de percepção atual, lhe dá mais realce. Ao contrário, sofremos por 
causa de todas as circunstâncias que, como o distanciamento ou a morte, podem ter por 
efeito impedir o retorno ou diminuir sua vivacidade. 

Por mais breve que seja esta análise, é suficiente para mostrar que este mecanismo 
não é idêntico aquele que serve de base aos sentimentos de simpatia dos quais a seme- 
lhança é a fonte. Sem dúvida, aqui não pode jamais haver solidariedade entre outro e nós 
a não ser que a imagem do outro se una à nossa. Mas, quando a união resulta da seme- 
lhança das duas imagens, consiste em uma aglutinação. As duas representações tornam- 
se solidárias porque, sendo indistintas, totalmente ou em parte, confundem-se e não 
fazem mais senão uma, e são solidárias só na medida em que se confundem. Ao contrá- 
rio, no caso da divisão do trabalho, estão fora uma da outra e estão ligadas apenas por- 
que são distintas. Portanto, os sentimentos não poderiam ser os mesmos nos dois casos, 
nem as relações sociais que derivam. 

Assim, somos conduzidos a perguntar-nos se a divisão do trabalho não desempe- 
nharia o mesmo papel nos grupos mais extensos, se, nas sociedades contemporâneas 
onde ela tomou o desenvolvimento que sabemos, não teria por função integrar o corpo 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 333 


social, assegurar sua unidade. É legítimo supor que os fatos que acabamos de observar 
se reproduzam aqui, mas com mais amplidão; que também estas grandes sociedades 
políticas podem manter-se em equilíbrio só graças à especialização das tarefas; que a 
divisão do trabalho é a fonte, senão única, pelo menos principal da solidariedade social. 
Já Comte se tinha colocado sob este ponto de vista. De todos os sociólogos que conhece- 
mos, ele foi o primeiro que tinha assinalado na divisão do trabalho outra coisa além de 
um fenômeno puramente econômico. Ele viu ali a “condição mais essencial da vida 
social”, contanto que se a conceba “em toda a sua extensão racional, quer dizer, que se 
a aplique ao conjunto de todas as nossas diversas operações quaisquer, em lugar de limi- 
tá-la, como é muito comum, a simples usos materiais”. Considerada sob este aspecto, diz 
ele, “conduz imediatamente a considerar não apenas os indivíduos e as classes, mas tam- 
bém, sob muitos aspectos, os diferentes povos como participando simultaneamente, 
segundo um modo próprio e um grau especial, exatamente determinado, numa obra 
imensa e comum cujo inevitável desenvolvimento gradual liga, aliás, também os coopera- 
dores atuais à série de seus predecessores quaisquer e mesmo à série de seus diversos 
sucessores. É, portanto, a repartição contínua dos diferentes trabalhos humanos que 
constitui principalmente a solidariedade social e que se torna a causa elementar da exten- 
são e da complicação crescente do organismo social”. ** 

Se esta hipótese fosse demonstrada, a divisão do trabalho desempenharia um papel 
muito mais importante do que aquele que se lhe atribui ordinariamente. Ela não serviria 
apenas para dotar nossas sociedades de um luxo, invejável talvez, mas supérfluo; ela 
seria uma condição de sua existência. É por ela, ou pelo menos é sobretudo por ela, que 
estaria assegurada sua coesão; é ela que determinaria os traços essenciais de sua consti- 
tuição. Por isto mesmo, embora ainda não estejamos em condição de resolver a questão 
com rigor, pode-se entretanto entrever desde agora que, se tal é realmente a função da 
divisão do trabalho, ela deve ter um caráter moral, pois as necessidades de ordem, de 
harmonia, de solidariedade social geralmente passam por morais. 

Mas, antes de examinar se esta opinião comum está fundada, é preciso verificar a 
hipótese que acabamos de lançar sobre o papel da divisão do trabalho. Vejamos se, com 
efeito, nas sociedades em que vivemos é dela que deriva essencialmente a solidariedade 
social. 


HJ 


Mas, como proceder a esta verificação? 

Não temos simplesmente que investigar se, nestes tipos de sociedade, existe uma 
solidariedade social que vem da divisão do trabalho. É uma verdade evidente, visto que 
a divisão do trabalho aqui estã muito desenvolvida e produz a solidariedade. Mas é pre- 
ciso sobretudo determinar em que medida a solidariedade que ela produz contribui para 
a integração geral da sociedade: pois é apenas então que saberemos até que ponto é 
necessária, se é um fator essencial da coesão social, ou, ao contrário, se é só uma condi- 
ção acessória e secundária. Para responder a esta questão é preciso, portanto, comparar 
este elo social aos outros, a fim de medir a parte que lhe cabe no efeito total, e para isto 
é indispensável começar por classificar as diferentes espécies de solidariedade social. 

A solidariedade social, porêm, é um fenômeno completamente moral que, por si 
mesmo, não se presta à observação exata nem sobretudo à medida. Para proceder tanto 


81 Curso de Filosofia Positiva, IV, pág. 425. — Encontram-se idéias análogas em Schacifle. Bau und Leben 


des sozialen Koerpers, 1, passim, e Clement, Ciência Social, I, pág. 235 ss. (N. do A.) 


334 DURKHEIM 


a esta classificação quanto a esta comparação, é preciso substituir o fato interno que nos 
escapa por um fato exterior que o simbolize, e estudar o primeiro através do segundo. 

Este simbolo visível é o direito. Com efeito, lá onde a solidariedade social existe, 
malgrado seu caráter imaterial, ela não permanece no estado de pura potência, mas 
manifesta sua presença por efeitos sensíveis. Ali onde ela é forte, inclina fortemente os 
homens uns em direção aos outros, coloca-os frequentemente em contato, multiplica as 
ocasiões de relacionamento. Falando exatamente, no ponto a que chegamos é dificil dizer 
se foi ela que produziu estes fenômenos ou, ao contrário, se ela resulta deles; se os ho- 
mens se aproximam porque é enérgica ou se é enérgica porque eles se aproximaram uns 
dos outros. Mas não é necessário para o momento elucidar a questão, é suficiente consta- 
tar que estas duas ordens de fatos estão ligadas e variam no mesmo tempo e no mesmo 
sentido. Quanto mais os membros de uma sociedade são solidários, tanto mais mantêm 
relações diversas, seja uns com os outros, seja com o grupo tomado coletivamente: pois, 
se seus encontros fossem raros, dependeriam uns dos outros apenas de uma maneira 
intermitente e fraca. Por outro lado, o número destas relações é necessariamente propor- 
cional aquele das regras jurídicas que as determinam. Com efeito, a vida social, em todas 
as partes em que ela existe de uma maneira durável, tende inevitavelmente a tomar uma 
forma definida e a organizar-se; o direito não é outra coisa senão esta organização 
mesma, no que ela tem de mais estável e de mais preciso. A vida geral da sociedade não 
pode se desenvolver num ponto sem que a vida jurídica se estenda ao mesmo tempo e na 
mesma proporção. Portanto, podemos estar certos de encontrar refletidas no direito 
todas as variedades essenciais da solidariedade social. 


Poder-se-ia objetar, é verdade, que as relações sociais podem fixar-se sem tomar por 
isto uma forma jurídica. Existem algumas cuja regulamentação não chega a este grau de 
consolidação e de precisão; não permanecem indeterminadas por isto, mas, ao invés de 
serem reguladas pelo direito, elas o são pelos costumes. O direito reflete, portanto, só 
uma parte da vida social e, por conseguinte, nos fornece apenas dados incompletos para 
resolver o problema. Há mais: acontece frequentemente que os costumes não estão de 
acordo com o direito; diz-se constantemente que eles temperam seus rigores, corrigem 
seus excessos formalistas, algumas vezes diz-se mesmo que eles são animados de um 
espirito completamente diferente. Não poderia então ocorrer que eles manifestem outros 
tipos de solidariedade social que aqueles que exprime o direito positivo? 


Mas esta oposição é feita unicamente em circunstâncias completamente excepcio- 
nais. Por isso, é preciso que o direito não corresponda mais ao estado presente da socie- 
dade e que, entretanto, se mantenha, sem razão de ser, pela força do hábito. Neste caso, 
com efeito, as relações novas que se estabelecem, apesar dele, não deixam de se organi- 
zar; pois elas não podem subsistir sem procurar se consolidar. Apenas, como elas estão 
em conflito com o antigo direito que persiste, não ultrapassam o estádio dos costumes e 
não chegam a penetrar na vida jurídica propriamente dita. É assim que o antagonismo 
explode. Mas ele pode se produzir somente nos casos raros e patológicos, que não podem 
durar sem perigo. Normalmente, os costumes não se opõem ao direito, mas, ao contrário, 
são a sua base. Acontece, é verdade, que sobre esta base nada se constrói. Pode haver 
relações sociais. que comportem apenas esta regulamentação difusa que vem dos costu- 
mes; mas é que elas carecem de importância e continuidade, salvo, bem entendido, os 
casos anormais mencionados. Portanto, se podem existir tipos de solidariedade social 
que os costumes são os únicos a manifestar, são certamente muito secundários; ao 
contrário, o direito reproduz todos aqueles que são essenciais, e estes são os únicos que 
temos necessidade de conhecer. 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 335 


Ir-se-á mais longe e sustentar-se-á que a solidariedade social não está inteiramente 
em suas manifestações sensíveis; que estas a exprimem só em parte e imperfeitamente; 
que além do direito e dos costumes há o estado interno de onde ela deriva e que, para 
conhecê-la verdadeiramente, é preciso atingilla em si mesma e sem intermediário? — 
Mas não podemos conhecer cientificamente as causas senão pelos efeitos que produzem. 
e, para melhor determinar sua natureza, a ciência apenas escolhe, entre estes resultados, 
os mais objetivos e que se prestam melhor para medida. Ela estuda o calor através das 
variações de volume que produzem nos corpos as mudanças de temperatura, a eletrici- 
dade através de seus efeitos físico-químicos, a força através do movimento. Por que a 
solidariedade social seria uma exceção? 

Que subsiste dela, aliás, uma vez que se a despojou de suas formas sociais? O que 
lhe dá suas características específicas é a natureza do grupo do qual ela assegura a uni- 
dade; é por isso que ela varia segundo os tipos sociais. Ela não é a mesma no seio da 
família e na sociedade política; não estamos ligados à nossa pátria como o romano à ci- 
dade ou o germano à sua tribo. Mas, porque estas diferenças dependem de causas sociais, 
só podemos apreendê-las através das diferenças que apresentam os efeitos sociais da 
solidariedade. Portanto, se negligenciamos estas últimas, todas as variedades tornam-se 
indiscerníveis e podemos perceber apenas o que é comum a todas, a saber, a tendência 
geral à sociabilidade, tendência que é sempre e em toda parte a mesma e não está ligada 
a nenhum tipo social em particular. Mas este resíduo é apenas uma abstração; pois a 
sociabilidade em si não está em parte alguma. O que existe e vive realmente são as for- 
mas particulares da solidariedade, a solidariedade doméstica, a solidariedade profissio- 
nal, a solidariedade nacional, a de ontem, a de hoje, etc. Cada uma tem sua natureza pró- 
pria; em consequência, estas generalidades poderiam em todo caso dar somente uma 
explicação bem incompleta do fenômeno, porque necessariamente deixam escapar o que 
há de concreto e vivo. 

Portanto, o estudo da solidariedade pertence à sociologia. É um fato social que se 
pode conhecer bem só por intermédio de seus efeitos sociais. Se tantos moralistas e 
psicólogos puderam tratar a questão sem seguir este método, é porque contornaram a 
dificuldade. Eliminaram do fenômeno tudo o que há de mais social para dele reter apenas 
o germe psicológico do qual ele é o desenvolvimento. É certo, com efeito, que a solidarie- 
dade, mesmo sendo um fato social de suma importância, depende de nosso organismo 
individual. Para que ela possa existir, é preciso que nossa constituição física e psíquica 
a comporte. A rigor, portanto, podemos contentar-nos em estudá-la sob este aspecto. 
Mas, neste caso, vemos unicamente a parte mais indistinta e menos especial; não é nem 
mesmo ela propriamente falando, mas antes o que a torna possível. 

Este estudo abstrato não poderia ainda ser muito fecundo em resultados. Pois, 
enquanto permanece no estado de simples predisposição de nossa natureza psíquica, a 
solidariedade é algo muito indefinido para que se possa facilmente atingi-la. E uma 
virtualidade intangível que não oferece chance à observação. Para que ela tome uma 
forma apreensível, é preciso que algumas consequências sociais a traduzam para o exte- 
rior. Além do mais, mesmo neste estado de indeterminação, ela depende de condições 
sociais que a explicam e das quais, por conseguinte, não pode ser separada. Por isso, é 
muito raro que a estas análises de pura psicologia não se encontrem misturadas algumas 
considerações sociológicas. Por exemplo, dizemos algumas palavras da influência do es- 
tado gregário sobre a formação do estado social em geral; º? ou então indicamos rapida- 
mente as principais relações sociais das quais a sociabilidade depende da maneira mais 
aparente. *º Sem dúvida, estas considerações complementares, introduzidas sem método, 


s2 Bain, Emoções e Vontade, pág. 117 ss. Paris, F. Alcan. (N. do A.) 
s3 Spencer, Princípios de Psicologia, VIH parte; cap. 5, Paris, F. Alcan. (N. do A.) 


> 


% 


336 DURKHEIM 


a título de exemplos e segundo os acasos da sugestão, não poderiam ser suficientes para 
elucidar muito a natureza social da solidariedade. Demonstram, pelo menos, que o ponto 
de vista sociológico se impõe mesmo aos psicólogos. 

Portanto, nosso método está completamente traçado. Visto que o direito reproduz 
as formas principais da solidariedade social, precisamos apenas classificar as diferentes 
espécies de direito para buscar em seguida quais são as diferentes espécies de solidarie- 
dade social que a elas correspondem. É provável, desde já, que exista uma que simbolize 
esta solidariedade especial da qual a divisão do trabalho é a causa. Isto feito, para medir 
a parte desta última, será suficiente comparar o número das regras jurídicas que a expri- 
mem com o volume total do direito. 

Para este trabalho não podemos nos servir das distinções usuais dos jurisconsultos. 
Imaginadas para a prática, podem ser muito cômodas sob este ponto de vista, mas a 
ciência não pode contentar-se com estas classificações empíricas e inexatas. A mais 
difundida é aquela que divide o direito em direito público e em direito privado; o pri- 
meiro deve regular as relações do indivíduo com o Estado; o segundo, aquelas dos indiví- 
duos entre si. Mas, quando se tenta analisar os conceitos de perto, a linha de demarca- 
ção, que parecia tão clara à primeira vista, se apaga. Todo direito é privado, no sentido 
de que sempre e em toda parte se trata de indivíduos e suas ações; mas, sobretudo, todo 
direito é público, no sentido de que é uma função social e de que todos os indivíduos são, 
se bem que sob diversos titulos, funcionários da sociedade. As funções maritais, pater- 
nais, etc., são delimitadas e organizadas como as funções ministeriais e legislativas, não 
sendo sem razão que o direito romano qualificava a tutela de munus publicum. Por outro 
lado, o que é o Estado? Onde começa e onde acaba? Sabe-se quanto esta questão é 
controvertida; não é científico fazer repousar uma classificação fundamental sobre uma 
noção tão obscura e mal analisada. 

Para proceder metodicamente, precisamos encontrar alguma característica que, 
sendo essencial aos fenômenos jurídicos, seja suscetível de variar quando eles variam. 
Ora, todo preceito de direito pode ser definido: uma regra de conduta sancionada. Por 
outro lado, é evidente que as sanções mudam segundo a gravidade atribuída aos precei- 
tos. o lugar que ocupam na consciência pública, o papel que desempenham na sociedade. 
Portanto, convém classificar as regras jurídicas segundo as diferentes sanções a elas 
vinculadas. 

Existem dois tipos. Umas consistem essencialmente numa dor, ou, pelo menos, 
numa diminuição infligida ao agente; têm por objeto atingi-lo em sua fortuna, ou em sua 
honra, ou em sua vida, ou em sua liberdade, privá-lo de algo que ele desfruta. Diz-se que 
são repressivas; é o caso do direito penal. É verdade que aquelas ligadas às regras pura- 
mente morais têm o mesmo caráter: apenas são distribuídas de uma maneira mais difusa 
por todos indistintamente, enquanto que as do direito penal são aplicadas pelo interme- 
diário de um órgão definido; são organizadas. Quanto ao outro tipo, ela não implica 
necessariamente um sofrimento do agente, mas consiste somente na restituição das coi- 
sas nas devidas condições, no restabelecimento das relações perturbadas sob sua forma 
normal, quer o ato incriminado seja reconduzido à força ao tipo do qual foi desviado, 
quer seja anulado, isto é, privado de todo valor social. Portanto, devemos dividir as re- 
gras jurídicas em duas grandes espécies, segundo tenham sanções repressivas organi- 
zadas ou sanções apenas restitutivas. A primeira compreende todo o direito penal; a 
segunda o direito civil, o direito comercial, o direito processual, o direito administrativo 
e constitucional, abstração feita das regras penais que podem aí encontrar-se. 

Procuremos agora a que tipo de solidariedade social corresponde cada uma destas 
espécies. 


CAPÍTULO II 


Solidariedade mecânica ou por similitude 


I 


O elo de solidariedade social ao qual corresponde o direito repressivo é aquele cuja 
ruptura constitui o crime; chamamos por este nome todo ato que, em qualquer grau, 
determina contra seu autor esta reação característica chamada pena. Buscar qual é este 
elo é, portanto, perguntar-se qual é a causa da pena, ou, mais claramente, em que con- 
siste essencialmente o crime. 

Existem sem dúvida crimes de espécies diferentes; mas, entre todas estas espécies, 
há, não menos seguramente, algo de comum. O que o prova é que a reação que eles deter- 
minam por parte da sociedade, a saber, a pena, é, salvo diferenças de grau, sempre e em 
toda parte a mesma. A unidade do efeito revela a unidade da causa. Não apenas entre 
todos os crimes previstos pela legislação de uma única e mesma sociedade, mas entre 
todos aqueles que foram ou que são reconhecidos e punidos nos diferentes tipos sociais, 
existem seguramente semelhanças essenciais. Por mais diferentes que pareçam à primeira 
vista, é impossível que os atos assim qualificados não tenham algum fundamento 
comum. Pois em toda parte afetam da mesma maneira a consciência moral das nações e 
produzem em toda parte a mesma consegluência. Todos são crimes, isto é, atos reprimi- 
dos por castigos definidos. Ora, as propriedades essenciais de uma coisa são aquelas que 
se observam em toda parte em que esta coisa existe e que pertencem só a ela. Portanto, 
se queremos saber em que consiste essencialmente o crime, é preciso depreender os tra- 
ços que são idênticos em todas as variedades criminológicas dos diferentes tipos sociais. 
Não existe nenhum que possa ser negligenciado. As concepções jurídicas das sociedades 
mais inferiores não são menos dignas de interesse que aquelas das sociedades mais avan- 
çadas; elas são fatos não menos instrutivos. Fazer abstração deles seria expormo-nos a 
ver a essência do crime ali onde ela não está. O biólogo teria dado uma definição muito 
inexata dos fenômenos vitais se tivesse desenhado a observação dos seres monocelulares; 
pois, apenas da contemplação dos organismos e sobretudo dos organismos superiores, 
teria concluído falsamente que a vida consiste essencialmente na organização. 

O meio de encontrar este elemento permanente e geral não é evidentemente enume- 
rar os atos que foram, em todos os tempos e em todos os lugares, qualificados como cri- 
mes, para observar as características que apresentam. Pois, se, o que quer que se tenha 
dito, existem ações que foram universalmente vistas como criminosas, elas são a minoria 
infima e, por conseguinte, um tal método só nos poderia dar uma noção singularmente 
truncada do fenômeno, porque se aplicaria somente às exceções. * * Estas variações do 


54 Foi, entretanto, este método que seguiu M. Garofalo. Sem dúvida, parece renunciar a ele quando reco- 
nhece a impossibilidade de lavrar uma lista de fatos universalmente punidos (Criminologia, pág. 5). o que, 
aliás, é excessivo. Mas finalmente retorna a ele porque, em suma, o crime natural é para cle aquele que con- 


338 DURKHEIM 


direito repressivo provam ao mesmo tempo que esta característica constante não poderia 
encontrar-se entre as propriedades intrínsecas dos atos impostos ou proibidos por regras 
penais, porque eles apresentam uma tal diversidade, mas nas relações que eles mantêm 
com alguma condição que lhes é exterior. 

Acreditou-se encontrar esta relação num tipo de antagonismo entre estas ações e os 
grandes interesses sociais, e se disse que as regras penais enunciavam para cada tipo so- 
cial as condições fundamentais da vida coletiva. Sua autoridade viria, pois, de sua neces- 
sidade; por outro lado, como estas necessidades variam com as sociedades, explicar-se-ia 
assim a variabilidade do direito repressivo. Mas já nos explicamos sobre este ponto. 
Além de uma tal teoria fazer com que o cálculo e a reflexão ocupem um lugar muito 
grande na direção da evolução social, há uma variedade de atos que foram e ainda são 
vistos como criminosos, sem que, por si mesmos, sejam nocivos à sociedade. O fato de 
tocar um objeto tabu, um animal ou um homem impuro ou consagrado, de deixar apagar 
o fogo sagrado, de comer certas carnes, de não imolar sobre o túmulo dos pais o sacri- 
fício tradicional, de não pronunciar exatamente a fórmula ritual, de não celebrar certas 
festas, etc., pôde alguma vez constituir um perigo social? Sabe-se, entretanto, que lugar 
ocupa no direito repressivo de muitos povos a regulamentação do rito, da etiqueta, do 
cerimonial, das práticas religiosas. É preciso apenas abrir o Pentateuco para se conven- 
cer disto e, como estes fatos se encontram normalmente em certas espécies sociais, é 
impossível ver aí simples anomalias e casos patológicos que se tem o direito de 
negligenciar. 

Mesmo que o ato seja certamente nocivo à sociedade, é preciso que o grau de noci- 
vidade que apresenta esteja regularmente em relação com a intensidade da repressão que 
o atinge. No direito penal dos povos mais civilizados, o assassínio é universalmente visto 
como o maior dos crimes. Entretanto, uma crise econômica, uma quebra na bolsa, 
mesmo uma falência podem desorganizar muito mais gravemente o corpo social do que 
um homicídio isolado. Sem dúvida, o assassínio é sempre um mal, mas nada prova que 
seja o maior mal. Que é um homem a menos na sociedade? Que é uma célula a menos 
no organismo? Diz-se que a segurança geral estaria ameaçada para o futuro se o ato 
permanecesse impune; mas que se observe a importância deste perigo, por mais real que 
seja, e a da pena: a desproporção é flagrante. Enfim, os exemplos que acabamos de citar 
mostram que um ato pode ser desastroso para a sociedade sem sofrer a menor repressão. 
Esta definição do crime é, pois, de qualquer maneira, inadequada. 

Dir-se-á, modificando-a, que os atos criminosos são aqueles que parecem nocivos à 
sociedade que os reprime; que as regras penais exprimem, não as condições essenciais à 
vida social, mas as que parecem tais ao grupo que as observa? Tal explicação, porém, 
não explica nada; pois não nos faz compreender por que, num número tão grande de 


traria os sentimentos que em toda parte são a base do direito penal, isto é, a parte invariável do sentido moral 
e aquele apenas. Mas, por que o crime que contraria algum sentimento particular de certos tipos sociais seria 
menos crime que os outros? M. Garofalo é assim levado a recusar o caráter de crime a atos que foram 
universalmente reconhecidos como criminosos em certas espécies sociais, e, por conseguinte, a estreitar 
artificialmente os quadros da criminalidade. Resulta disto que sua noção do crime é singularmente incom- 
pleta. Também é vaga, pois o autor não insere em suas comparações todos os tipos sociais, mas exclui um 
grande número que trata de anormais. Pode-se dizer que um fato social é anormal em relação ao tipo da 
espécie, mas uma espécie não poderia ser anormal. Juntas, as duas palavras desafinam. Por mais interessante 
que seja o esforço de M. Garofalo para chegar a uma noção científica do delito, não o faz todavia com um 
método suficientemente preciso e exato. É o que mostra a expressão delito natural que usa. Todos os delitos 
não seriam naturais? É provável que exista aí um retorno da doutrina de Spender, para quem a vida social 
é verdadeiramente natural só nas sociedades industriais. Infelizmente, nada é mais falso. (N. do A.). 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 339 


casos, as sociedades se enganaram e impuseram práticas que, por elas mesmas, não eram 
nem mesmo úteis. Definitivamente, esta pretensa solução do problema reduz-se a um ver- 
dadeiro truísmo; pois, se as sociedades obrigam assim cada indivíduo a obedecer a estas 
regras, é evidentemente porque estimam, com ou sem razão, que esta obediência regular 
e pontual lhes é indispensável; é porque disto fazem questão energicamente. Portanto, é 
como se disséssemos que as sociedades julgam as regras necessárias porque elas as jul- 
gam necessárias. O que nos seria preciso dizer é por que elas as julgam assim. Se este 
sentimento tivesse sua causa na necessidade objetiva das prescrições penais ou, pelo 
menos, na sua utilidade, isto seria uma explicação. Mas é contraditada pelos fatos; a 
questão permanece inteira. 

Entretanto, esta última teoria não é sem algum fundamento; é com razão que ela 
busca em certos estados do sujeito as condições constitutivas da criminalidade. Com 
efeito, a única característica comum a todos os crimes é que eles consistem — salvo 
algumas exceções aparentes que serão examinadas mais adiante — em atos universal- 
mente reprovados pelos membros de cada sociedade. Pergunta-se hoje se esta reprovação 
é racional e se não seria mais sábio ver no crime uma doença ou um erro. Mas não 
vamos entrar nestas discussões; procuramos determinar o que é ou foi, não o que deve 
ser. Ora, a realidade do fato que acabamos de estabelecer não é contestável: quer dizer, 
o crime fere sentimentos que, para um mesmo tipo social, se encontram em todas as 
consciências sãs. 

Não é possível determinar de outra maneira a natureza destes sentimentos, defini- 
los em função de seus objetos particulares; pois estes objetos variaram infinitamente e 
podem variar ainda. * * Hoje, são os sentimentos altruísticos que apresentam esta caracte- 
rística da maneira mais marcada; mas houve uma época, muito próxima a nossa, onde os 
sentimentos religiosos, domésticos e mil outros sentimentos tradicionais tinham exata- 
mente os mesmos efeitos. Agora ainda, é preciso que a simpatia negativa por outro seja, 
como o quer M. Garofalo, a única a produzir este resultado. Mesmo em tempo de paz 
não temos pelo homem que trai sua pátria pelo menos tanta aversão como pelo ladrão e 
pelo escroque? Nos países em que o sentimento monárquico ainda está vivo, os crimes de 
lesa-majestade não despertam uma indignação geral? Nos países democráticos, as injú- 
rias dirigidas ao povo não desencadeiam as mesmas cóleras? Não se poderia, pois, enu- 
merar uma lista dos sentimentos cuja violação constitui o ato criminoso; distinguem-se 
dos outros apenas por um traço: são comuns à grande média dos indivíduos da mesma 
sociedade. Igualmente, as regras que proíbem estes atos e o direito penal sanciona são as 
únicas às quais o famoso axioma jurídico ninguém pode ignorar a lei se aplica sem fic- 
ção. Como estão gravadas em todas as consciências, todo mundo as conhece e sente que 
são fundadas. Isto é verdadeiro pelo menos quanto ao estado normal. Se existem adultos 
que ignoram estas regras fundamentais ou não reconhecem sua autoridade, uma tal igno- 
rância ou uma tal indocilidade são sintomas irrecusáveis de perversão patológica; ou 
então, se ocorre que uma disposição penal se mantenha algum tempo, se bem que seja 
contestada por todos, é graças a um concurso de circunstâncias excepcionais, por conse- 
guinte, anormais, e jamais um tal estado de coisas pode durar. 

É isto que explica a maneira particular pela qual o direito penal se codifica.Todo 
direito escrito tem um duplo objeto: prescrever certas obrigações, definir as sanções que 


8 Não vemos qual razão científica M. Garofalo tem para dizer que os sentimentos morais atualmente 
adquiridos pela parte civilizada da humanidade constituem uma moral “não suscetível de perda, mas de um 
desenvolvimento sempre crescente” (pág. 9). O que permite marcar assim um limite às mudanças que se 
farão num sentido ou noutro? (N. do A.) 


340 DURKHEIM 


a isto estão ligadas. No direito civil. e mais geralmente em toda espécie de direito com 
sanções restitutivas, o legislador aborda e resolve separadamente estes dois problemas. 
Determina primeiramente a obrigação com toda a precisão possível, e é apenas em segui- 
da que diz a maneira pela qual deve ser sancionada. Por exemplo, no capítulo de nosso 
Código Civil consagrado aos deveres respectivos dos esposos, estes direitos e estas obri- 
gações são enunciados de uma maneira positiva; mas nada aqui é dito do que acontece 
quando estes deveres são violados por uma parte ou outra. É preciso buscar esta sanção 
em outro lugar. Algumas vezes está mesmo completamente subentendida. Assim, o arti- 
go 214 do Código Civil ordena à mulher habitar com seu marido: disto se deduz que o 
marido pode forçá-la a reintegrar o domicílio conjugal, mas esta sanção não é em parte 
alguma formalmente indicada. O direito penal, ao contrário, promulga apenas sanções, 
mas não diz nada das obrigações às quais elas se relacionam. Não manda respeitar a 
vida do outro, mas condenar à morte o assassino. Não diz primeiramente, como faz o 
direito civil: “Eis o dever”, mas, imediatamente: “Eis a pena”. Sem dúvida, se a ação é 
punida, é porque é contrária a uma regra obrigatória; mas esta regra não é expressa- 
mente formulada. Para isto pode haver só uma razão: a regra é conhecida e aceita por 
todos. Quando um direito costumeiro passa ao estado de direito escrito e se codifica, é 
porque questões litigiosas reclamam uma solução mais definida; se o costume conti- 
nuasse a funcionar silenciosamente, sem despertar discussões nem dificuldades, não 
haveria razão para que se transformasse. O motivo de o direito penal se codificar só para 
estabelecer uma escala graduada de penas é porque apenas estas estão sujeitas a dúvida. 
Inversamente, se as regras cuja pena pune a violação não têm necessidade de receber 
uma expressão jurídica, é porque não são objeto de nenhuma contestação, é porque todos 
sentem sua autoridade. * * 

É verdade que, algumas vezes, o Pentateuco não promulga sanções, se bem que, 
como o veremos, quase contenha só disposições penais. É o caso dos dez mandamentos, 
tais como se encontram formulados no capítulo 20 do Éxodo e no capítulo 5 do Deutero- 
nômio. Mas o Pentateuco, embora faça o ofício de código, não é, entretanto, um código 
propriamente dito. Não tem por objetivo reunir em um sistema único e precisar em vista 
da prática regras penais seguidas pelo povo hebreu; é mesmo tão pouco uma codificação 
que as diferentes partes de que está composto parecem não ter sido redigidas na mesma 
época. É antes de tudo um resumo das tradições de todo tipo pelas quais os judeus se 
explicavam a si mesmos e à sua maneira a gênese do mundo, sua sociedade, suas princi- 
pais práticas sociais. Portanto, se enuncia alguns deveres que certamente eram sancio- 
nados por penas, isto não representa que fossem ignorados ou desconhecidos dos hebreus 
nem que fosse necessário revelá-lo a eles; ao contrário, porque o livro é apenas um tecido 
de lendas nacionais, pode-se estar seguro que tudo o que ele contém estava escrito em 
todas as consciências. Mas é que se tratava essencialmente de reproduzir, fixando-as, as 
crenças populares sobre a origem destes preceitos sobre as circunstâncias históricas nas 
quais tinham sido promulgados, sobre as fontes de sua autoridade; ora, deste ponto de 
vista, a determinação da pena torna-se algo acessório. * ? 


É pela mesma razão que o funcionamento da justiça repressiva tende sempre a per- 
manecer mais ou menos difuso. Em tipos sociais muito diferentes, ela não se exerce pelo 
órgão de um magistrado especial, mas a sociedade inteira dele participa em maior ou 


38 Cf. Binding, As Normas e Sua Transgressão, Leipzig, 1872, I, pág. 6. (N. do A.) 

87 As únicas exceções verdadeiras a esta particularidade do direito penal produzem-se quando é um ato da 
autoridade pública que cria o delito. Neste caso, o dever é geralmente definido independentemente da san- 
ção; mais longe dar-se-á conta da causa desta exceção. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 341 


menor medida. Nas sociedades primitivas, onde, como o veremos, o direito é inteiro 
penal, é a assembléia do povo que faz a justiça. É o caso dos antigos germanos. º* Em 
Roma, enquanto que os negócios civis incumbiam ao pretor, os casos criminais eram jul- 
gados pelo povo, primeiramente pelas assembléias curiais e em seguida, a partir da Lei 
das Doze Tábuas, pelas assembléias centuriais; até o fim da República, se bem que ele 
delegou seus poderes a comissões permanentes, permaneceu em princípio o juiz supremo 
para estes tipos de processos. ºº Em Atenas, sob a legislação de Sólon, a jurisdição crimi- 
nal pertencia em parte aos heliaía, grande colégio que, nominalmente, compreendia todos 
os cidadãos acima de trinta anos. º*º Enfim, entre as nações germano-latinas, a sociedade 
intervém no exercício destas mesmas funções, representada pelo júri. O estado de difusão 
em que se encontra assim esta parte do poder judiciário seria inexplicável se as regras 
das quais ele assegura a observação e, por conseguinte, os sentimentos aos quais estas re- 
gras correspondem não fossem imanentes a todas as consciências. É verdade que. em ou- 
tros casos, ele é detido por uma classe privilegiada ou por magistrados particulares. Mas 
estes fatos não diminuem o valor demonstrativo do que precede, pois, pelo fato de os 
sentimentos coletivos não reagirem mais senão atravês de certos intermediários, não se 
segue que tenham cessado de ser coletivos para se localizarem num número restrito de 
consciências. Esta delegação, porém, pode ser devida à multiplicidade maior dos negó- 
cios que acarreta a instituição de funcionários especiais, bem como à grande importância 
tomada por certos personagens ou certas classes e que faz delas os intérpretes autori- 
zados dos sentimentos coletivos. 

Todavia, não se definiu o crime quando se disse que consiste numa ofensa aos senti- 
mentos coletivos; pois existem entre estes últimos alguns que podem ser ofendidos sem 
que haja crime. Assim, o incesto é objeto de uma aversão muito geral, e, entretanto, é 
uma ação simplesmente imoral. Ocorre o mesmo com as faltas à honra sexual que come- 
te a mulher fora do estado de casamento, pelo fato de alienar totalmente sua liberdade 
nas mãos de outro ou de aceitar de outro uma tal alienação. Os sentimentos coletivos aos 
quais corresponde o crime devem, portanto, se singularizar dos outros por alguma 
propriedade distintiva: devem ter uma certa intensidade média. Estão gravados em todas 
as consciências; aliás fortemente gravados. Não são de forma alguma veleidades hesitan- 
tes e superficiais, mas emoções e tendências que estão fortemente enraizadas em nós. O 
que o prova é a extrema lentidão com que o direito penal.evolui. Não apenas se modifica 
mais lentamente que os costumes, mas é a parte do direito positivo mais refratária a 
mudança. Que se observe, por exemplo, o que fez a legislação desde o começo do século 
nas diferentes esferas da vida jurídica; as inovações nas matérias de direito penal são 
extremamente raras e restritas, enquanto que, ao contrário, uma variedade de disposições 
novas foi introduzida no direito civil, no direito comercial, no direito administrativo e 
constitucional. Que se compare o direito penal, tal como a Lei das Doze Tábuas fixou-o 
em Roma, com o estado em que se encontra na época clássica; as mudanças constatadas 
são muito poucas ao lado daquelas que sofreu o direito civil durante o mesmo tempo. 
Desde a época das Doze Tábuas, diz Mainz, os principais crimes e delitos estão consti- 
tuídos: “Durante dez gerações, o catálogo dos crimes públicos foi aumentado apenas por 
algumas leis que punem o peculato, a briga e talvez o plagium”,º' Quanto aos delitos 


S8 Tácito, Germania, cap. XII. (N. do A.) 

58 Cf. Walter, História do Processo Civil e do Direito Criminal entre os Romanos, trad. fr., 3 829; Rein, 
Direito Criminal dos Romanos, pág. 63. (N. do A.) 

80 Cf. Gilbert. Handbuch der Griechischen Staatsalterthuimer, Leipzig. 1881.1. pág. 138.(N. do A.) 

Esboço histórico do direito criminal da antiga Roma, in Nouvelle Revue Historique du Droit et Étran- 
ger, 1882, págs. 24e 27. (N. do A.) 


61 


342 DURKHEIM 


privados, reconheceram-se dois novos: a rapina (actio bonorum vi raptorum) e o dano 
causado injustamente (damnum injuria datum). Encontra-se o mesmo fato em toda parte. 
Nas sociedades inferiores, o direito, como o veremos, é quase que exclusivamente penal; 
é também muito estacionário. De uma maneira geral, o direito religioso é sempre repres- 
sivo: é essencialmente conservador. Esta fixidez do direito penal testemunha a força de 
resistência dos sentimentos coletivos aos quais ele corresponde. Inversamente, a maior 
plasticidade das regras puramente morais e a rapidez relativa de sua evolução demons- 
tram a menor energia dos sentimentos que estão em sua base; ou foram mais recente- 
mente adquiridos e ainda não tiveram tempo de penetrar profundamente nas consciên- 
cias, ou estão prestes a perder raiz e sobem do fundo para a superfície. 

Uma última adição é ainda necessária para que nossa definição seja exata. Se, em 
geral, os sentimentos protegem sanções simplesmente morais, isto é, difusas, são menos 
intensos e menos solidamente organizados do que aqueles que protegem penas propria- 
mente ditas; existem, todavia, exceções. Assim, não há nenhuma razão para admitir que 
a piedade filial média ou mesmo as formas elementares da compaixão pelas misérias 
mais aparentes sejam hoje sentimentos mais superficiais que o respeito pela propriedade 
ou pela autoridade pública; entretanto, o mau filho e o egoísta mesmo o mais endurecido 
não são tratados como criminosos. Portanto, não é suficiente que os sentimentos sejam 
fortes, é preciso que sejam precisos. Com efeito, cada um deles é relativo a uma prática 
bem definida. Esta prática pode ser simples ou complexa, positiva ou negativa, isto é, 
consistir em uma ação ou em uma abstenção, mas é sempre determinada. Trata-se de 
fazer ou não fazer isto ou aquilo, de não matar, de não ferir, de pronunciar tal fórmula, 
de realizar tal rito, etc. Ao contrário, os sentimentos como o amor filial ou a caridade 
são aspirações vagas para objetivos muito gerais. Também as regras penais são notáveis 
por sua claridade e sua precisão, enquanto que as regras puramente morais têm geral- 
mente algo de flutuante. Sua natureza indecisa faz mesmo com que, frequentemente, seja 
difícil dar-lhes uma fórmula fixa. Podemos dizer, de uma maneira muito geral, que se 
deve trabalhar, ter piedade do outro, etc.; mas não podemos fixar de que maneira nem em 
que medida. Por conseguinte, aqui há lugar para variações e nuanças. Ao contrário, por- 
que os sentimentos que encarnam as regras penais são determinados, têm maior unifor- 
midade; como não podem ser compreendidos de diferentes maneiras, são em toda parte 
os mesmos. 

O conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma 
mesma sociedade forma um sistema determinado que tem sua vida própria; poderemos 
chamá-lo: a consciência coletiva ou comum. Sem dúvida, ela não tem por substrato um 
órgão único; é, por definição, difusa em toda extensão da sociedade; mas não deixa de ter 
caracteres específicos que fazem dela uma realidade distinta. Com efeito, é independente 
das condições particulares em que os indivíduos estão colocados; eles passam, ela per- 
manece. É a mesma no norte e no sul, nas grandes e pequenas cidades, nas diferentes 
profissões. Da mesma forma, não muda a cada geração, mas, ao contrário, liga umas às 
outras as gerações sucessivas. Portanto, é completamente diversa das consciências parti- 
culares, se bem que se realize somente entre indivíduos. Ela é o tipo psíquico da socieda- 
de, tipo que tem suas propriedades, suas condições de existência, seu modo de desenvol- 
vimento, tudo como os tipos individuais, embora de uma outra maneira. Com razão, 
pois, tem o direito de ser designada por uma palavra especial. Aquela que empregamos 
mais acima não está; é verdade, isenta de ambigiúidades. Como os termos coletivo e so- 
cial são frequentemente tomados um pelo outro, é-se induzido a crer que a consciência 
coletiva é toda a consciência social, isto é, estende-se tão longe quanto a vida psíquica da 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 343 


sociedade, sendo que, sobretudo nas sociedades superiores, ela é só uma parte muito res- 
trita. As funções judiciárias, governamentais, científicas, industriais, em uma palavra, 
todas as funções especiais são de ordem psíquica, visto consistirem em sistemas de repre- 
sentações e de ações: entretanto, estão evidentemente fora da consciência comum. Para 
evitar uma confusão *? que foi cometida, o melhor seria talvez criar uma expressão téc- 
nica que designasse especialmente o conjunto das similitudes sociais. Todavia, como o 
emprego de uma palavra nova, quando não é absolutamente necessária, não se apresenta 
livre de inconvenientes, manteremos a expressão mais habitual de consciência coletiva 
ou comum, mas lembrando-nos sempre do sentido estrito no qual a empregamos. 

Podemos, pois, resumindo a análise que precede, dizer que um ato é criminoso 
quando ofende os estados fortes e definidos da consciência coletiva. *º 

A letra desta proposição quase não é contestada, mas se lhe atribui ordinariamente 
um sentido muito diferente daquele que ela deve ter. É entendida como se exprimisse não 
a propriedade essencial do crime, mas uma de suas repercussões. Sabe-se que ele fere 
sentimentos muito gerais e muito enérgicos; acredita-se, porém, que esta generalidade e 
esta energia provêm da natureza criminosa do ato que, por conseguinte, permanece intei- 
ro para se definir. Não se contesta que todo delito seja universalmente reprovado, mas 
admite-se que a reprovação, da qual ele é objeto, resulta de sua delituosidade. Todavia, 
fica-se em seguida muito embaraçado para dizer em que consiste esta delituosidade. 
Numa imoralidade particularmente grave? Eu o consinto; mas é responder à questão 
pela questão e colocar uma palavra no lugar de outra; pois trata-se de saber precisa- 
mente o que é imoralidade e, sobretudo, esta imoralidade particular que a sociedade 
reprime por meio de penas organizadas e que constitui a criminalidade. Evidentemente 
ela não pode vir senão de uma ou várias características comuns a todas as variedades 
criminológicas; ora, a única que satisfaz esta condição é a oposição que existe entre o 
crime, qualquer que seja, e certos sentimentos coletivos. É, pois, esta oposição que faz o 
crime, em vez de derivar dele. Em outros termos, não é preciso dizer que um ato fere a 
consciência comum porque é criminoso, mas que é criminoso porque fere a consciência 
comum. Não o reprovamos porque é um crime, mas é um crime porque o reprovamos. 
Quanto à natureza intrínseca destes sentimentos, é impossível especificá-la; eles têm os 
objetos mais diversos e não se poderia dar uma forma única. Não se pode dizer que eles 
se relacionam nem aos interesses vitais da sociedade nem a um mínimo de justiça; todas 
estas definições são inadequadas. Mas, apenas porque um sentimento, quaisquer que 
sejam sua origem e seu fim, encontra-se em todas as consciências com um certo grau de 
força e de precisão, todo ato que o fira é um crime. A psicologia contemporânea retorna 
cada vez mais à idéia de Espinosa segundo a qual as coisas são boas porque as amamos 
e não que as amemos por serem boas. O primitivo é a tendência, a inclinação, O prazer 
e a dor são apenas fatos derivados. Acontece o mesmo na vida social. Um ato é social- 
mente mau porque é repelido pela sociedade. Mas, dir-se-á, não existem sentimentos 
coletivos que resultem do prazer ou da dor que a sociedade experimenta aq contato de 
seus objetos? Sem dúvida, mas eles não têm todos esta origem. Muitos, senão a maior 


82 A confusão não é sem perigo. Assim, pergunta-se algumas vezes se a consciência individual varia ou não 
como a consciência coletiva; tudo depende do sentido que se dá à palavra. Se representa similitudes sociais. 
a relação de variação é inversa, nós o veremos; se designa toda a vida psíquica da sociedade, a relação é dire- 
ta. Portanto, é preciso distinguir. (N. do A.) 

ê3 Não entramos na questão de saber se a consciência coletiva é uma consciência como a do indivíduo. Por 
esta palavra designamos simplesmente o conjunto das similitudes sociais, sem prejulgar a categoria pela qual 
este sistema de fenômenos deve ser definido. (N. do A.) 


344 DURK HEIM 


parte, derivam de causas completamente diferentes. Tudo o que determina a atividade a 
tomar uma forma determinada pode originar hábitos dos quais resultam tendências que 
desde então é preciso satisfazer. Além do mais, são estas últimas tendências que, sozi- 
nhas, são verdadeiramente fundamentais. As outras são formas especiais e melhor deter- 
minadas; pois, para encantar-se com tal ou tal objeto, é preciso que a sensibilidade cole- 
tiva já esteja constituída de maneira a poder apreciá-lo. Se os sentimentos correspon- 
dentes são abolidos, o ato mais funesto à sociedade poderá ser não apenas tolerado, mas 
honrado e proposto como exemplo. O prazer é incapaz de criar por si só uma inclinação; 
pode apenas ligá-la áqueles que existem com tal ou tal fim particular, contanto que este 
esteja em relação com sua natureza inicial. 

Entretanto, existem casos em que a explicação precedente não parece explicar-se. 
Existem atos que são mais severamente reprimidos do que fortemente reprovados pela 
opinião. Assim, a coalizão dos funcionários, a invasão das autoridades judiciárias pelas 
autoridades administrativas, das funções religiosas pelas funções civis, são objeto de 
uma repressão que não está em proporção com a indignação que elas suscitam nas 
consciências. A subtração de dinheiro público deixa-nos muito indiferentes e entretanto 
é punida com castigos muito elevados. Acontece mesmo que o ato punido não fira direta- 
mente nenhum sentimento coletivo; não há nada em nós que proteste contra o fato de 
pescar ou caçar em épocas proibidas ou de fazer passar viaturas muito pesadas sobre a 
via pública. Entretanto, não há nenhuma razão para separar completamente estes delitos 
dos outros; toda distinção radical º º seria arbitrária, porque apresentam todos, em dife- 
rentes graus, o mesmo critério externo. Sem dúvida, em nenhum destes exemplos a pena 
parece injusta; se não é repugnada pela opinião pública, esta, abandonada a si mesma, 
ou não a reclamaria ou mostrar-se-ia menos exigente. É porque, em todos os casos deste 
gênero, a delituosidade não deriva, ou não deriva inteiramente da vivacidade dos senti- 
mentos coletivos que são ofendidos, mas tem uma outra causa. 

Com efeito, é certo que, uma vez instituído um poder governamental, ele tem por si 
mesmo muita força para ligar espontaneamente a certas regras de conduta uma sanção 
penal. É capaz, por sua ação própria, de criar certos delitos ou de agravar o valor crimi- 
nológico de outros. Também, todos os atos que acabamos de citar apresentam a caracte- 
rística comum de serem dirigidos contra algum dos órgãos diretores da vida social. 
Precisa-se, pois, admitir que existem dois gêneros de crimes dependentes de duas causas 
diferentes? Não se poderia permanecer com uma tal hipótese. Por mais numerosas que 
sejam suas variedades, o crime é em toda parte essencialmente o mesmo, porque deter- 
mina em toda parte o mesmo efeito, a saber, a pena, que, se pode ser mais ou menos 
intensa, não muda de natureza por isso. Ora, um mesmo fato não pode ter duas causas, 
a menos que esta dualidade seja só aparente e que no fundo as causas sejam apenas uma. 
O poder de reação próprio ao Estado deve portanto ser da mesma natureza que o difuso 
na sociedade. 

E, com efeito, de onde ele viria? Da gravidade dos interesses que gere o Estado e 
que precisam ser protegidos de uma maneira toda particular? Mas sabemos que a única 
lesão de interesses, mesmo grave, não é suficiente para determinar a reação penal; é pre- 
ciso ainda que seja sentida de uma certa maneira. De onde vem, aliás, que o menor dano 
causado ao órgão governamental seja punido, quando desordens muito mais terríveis em 


$* É preciso apenas ver como M. Garofalo distingue o que ele chama os verdadeiros crimes dos outros (pág. 
45); é segundo uma apreciação pessoal que não repousa sobre nenhum caráter objetivo. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 345 


outros órgãos sociais são reparadas apenas civilmente? A menor infração à polícia rodo- 
viária é castigada com uma multa; a violação, mesmo repetida, dos contratos, a falta 
constante de probidade nas relações econômicas obrigam só à reparação do prejuízo. 
Sem dúvida, o aparelho de direção desempenha um papel eminente na vida social, mas 
existem outros cujo interesse não deixa de ser vital e cujo funcionamento não é entretanto 
assegurado desta maneira. Se o cérebro tem sua importância, o estômago também é 
essencial, as doenças de um como as do outro são ameaças à vida. Por que este privilégio 
atribuído ao que se chama às vezes de cérebro social? 

A dificuldade resolve-se facilmente se observamos que, em toda parte onde um 
poder diretor se estabelece, sua primeira e principal função é fazer respeitar as crenças, 
as tradições, as práticas coletivas, isto é, defender a consciência comum contra todos os 
inimigos internos e externos. Assim ele se torna seu simbolo, a expressão viva aos olhos 
de todos. Também a vida que está nela comunica-se a ele, como as afinidades de idéias 
se comunicam às palavras que as representam, e eis aí como ele adquire uma caracte- 
rística que o coloca fora de comparação. Ele não é mais uma função social mais ou 
menos importante, é o tipo coletivo encarnado. Ele participa, pois, da autoridade que este 
último exerce sobre as consciências e é de lá que lhe vem sua força. Uma vez que esta 
força se constituiu sem libertar-se da fonte da qual ela decorre e onde continua a se ali- 
mentar, ela torna-se entretanto um fator autônomo da vida social, capaz de produzir 
espontaneamente movimentos próprios que nenhuma impulsão externa determina, preci- 
samente por causa desta supremacia que ela conquistou. Como, por outro lado, ela é 
apenas uma derivação da força que é imanente à consciência comum, tem necessaria- 
mente as mesmas propriedades e reage da mesma maneira, mesmo quando esta última 
não reage de maneira completamente uníssona. Portanto, ela repele toda força antagô- 
nica como faria a alma difusa da sociedade, mesmo que esta não sinta este antagonismo 
ou não o sinta tão vivamente, quer dizer, ela marca como crimes atos que a ferem sem 
entretanto ferir com o mesmo grau os sentimentos coletivos. Mas é destes últimos que ela 
recebe toda a energia que lhe permite criar crimes e delitos. Além de ela não poder vir de 
outro lugar e entretanto não poder vir de nada, os fatos seguintes, que serão amplamente 
desenvolvidos em toda a seguência desta obra, confirmam esta explicação. A extensão da 
ação que o órgão governamental exerce sobre o número e sobre a qualificação dos atos 
criminosos depende da força que encerra. Esta por sua vez pode ser medida seja pela 
extensão da autoridade que ela exerce sobre os cidadãos, seja pelo grau da gravidade 
reconhecido nos crimes dirigidos contra ela. Ora, veremos que é nas sociedades inferio- 
res que esta autoridade é maior e esta gravidade mais elevada, e, por outro lado, é nestes 
mesmos tipos sociais que a consciência coletiva tem mais potência. * * 

É, pois, sempre a esta última que é preciso retornar; é dela que, direta ou indireta- 
mente, decorre toda a criminalidade. O crime não é apenas a lesão de interesses mesmo 
graves, é uma ofensa contra uma autoridade de alguma forma transcendente. Ora, experi- 
mentalmente, não há força moral! superior ao indivíduo, salvo a força coletiva. 

Existe, aliás, uma maneira de controlar o resultado a que chegamos. O que caracte- 
riza O crime é que cle determina a pena. Portanto, se nossa definição do crime é exata, ela 
deve dar conta de todas as características da pena. Vamos proceder a esta verificação. 

Mas antes é preciso estabelecer quais são estas características. 


85 Aliás. quando a multa é toda a pena, como ela é apenas uma reparação cujo montante é fixo, o ato está 
nos limites do direito penal e do direito restitutivo. (N. do A.) 


346 DURKHEIM 


H 


Em primeiro lugar, a pena consiste numa reação passional. Esta característica é 
tanto mais aparente quanto menos cultivadas são as sociedades. Com efeito, os povos 
primitivos punem por punir, fazem sofrer o culpado unicamente por fazé-lo sofrer e sem 
esperar, para si mesmos, nenhuma vantagem do sofrimento que lhe impõem. O que o 
prova é que não procuram castigar nem justa nem utilmente, mas apenas castigar. É 
assim que castigam os animais que cometeram o ato reprovado º º ou mesmo os seres ina- 
nimados que foram seu instrumento passivo. º*” Quando a pena é aplicada a pessoas, 
estende-se frequentemente bem além do culpado e atinge inocentes, sua mulher, seus 
filhos, seus vizinhos, etc. *º É porque a paixão, que é a alma da pena, só pára uma vez 
esgotada. Portanto, se, quando ela destruiu aquele que a suscitou o mais imediatamente, 
lhe restam forças, estende-se mais longe de uma maneira completamente mecânica. 
Mesmo quando é bastante moderada para prender-se só ao culpado, ela faz sentir sua 
presença pela tendência que tem em ultrapassar em gravidade o ato contra o qual reage. 
É daí que provêm os refinamentos de dor acrescentados ao último suplício. Ainda em 
Roma, o ladrão devia não apenas devolver o objeto roubado, mas ainda pagar uma 
multa do dobro ou quádruplo do preço. Aliás, a pena tão geral de talião não é uma satis- 
fação concedida à paixão da vingança? 

Mas, hoje, diz-se, a pena mudou de natureza; não é mais para vingar-se que a socie- 
dade castiga, é para defender-se. A dor que ela inflige é apenas um instrumento metódico 
de proteção. Ela pune, não porque o castigo lhe ofereça por ele mesmo alguma satisfa- 
ção, mas a fim de que o temor da pena paralise as más vontades. Não é mais a cólera 
mas a previsão refletida que determina a repressão. As observações precedentes não 
poderiam, pois, ser generalizadas: concerniriam só à forma primitiva da pena e não 
poderiam ser estendidas à sua forma atual. 

Mas, para que se tenha o direito de distinguir tão radicalmente estes dois tipos de 
penas, não é bastante constatar que são empregadas em vista de fins diferentes. A natu- 
reza de uma prática não muda necessariamente porque as intenções conscientes daqueles 
que a aplicam modificam-se. Ela podia, com efeito, desempenhar já o mesmo papel que 
antes, mas sem que isto se percebesse. Neste caso, por que se transformaria apenas pelo 
fato de que se dá conta de maneira melhor dos efeitos que ela produz? Ela se adapta às 
novas condições de existência que lhe são assim feitas sem mudanças essenciais. É o que 
ocorre com a pena. 

Com efeito, é um erro acreditar que a vingança seja apenas uma inútil crueldade. É 
bem possível que ela mesma consista numa reação mecânica e sem fim, num movimento 
passional e ininteligente, numa necessidade irracional de destruir: mas, de fato, o que ela 
tende a destruir era para nós uma ameaça. Ela constitui, portanto, na realidade, um ver- 
dadeiro ato de defesa, se bem que instintivo e irrefletido. Nós só nos vingamos daquilo 
que nos fez mal, e o que nos fez mal é sempre um perigo. O instinto de vingança é em 
suma o instinto de conservação exasperado pelo perigo. Assim, não é preciso que a vin- 
gança tenha tido na história da humanidade o papel negativo e estéril que se lhe atribui. 
É uma arma defensiva que tem seu preço; unicamente, é uma arma grosseira. Como ela 
não tem consciência dos serviços que presta automaticamente, não pode regrar-se 
consegientemente; mas difunde-se um pouco ao acaso, à mercê das causas cegas que a 


66 Vide Éx 21,28; Lev 20, 16. (N. do A.) 

87 Por exemplo, a faca que serviu para perpetrar o assassinato. — Ver Post, Baunsteine fiir eine allgemeine 
Rechtswissenschaft, 1, págs. 230-231. (N. do A.) 

68 Ver Éx 20,4 e 5; Dt 12, 12-13; Thonissen, Estudos de História do Direito Criminal, 1, págs. 170 e 178 
ss. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 347 


impelem e sem que nada modere sua exaltação. Hoje, como conhecemos mais o fim a 
atingir, sabemos utilizar melhor os meios de que dispomos; protegemo-nos com mais mé- 
todo e, por conseguinte, mais eficazmente. Mas, desde o princípio, o resultado era obtido, 
se bem que de uma maneira mais imperfeita. Entre a pena de agora e a de antes não exis- 
te, pois, um abismo e, por conseguinte, não era necessário que a primeira se tornasse 
outra coisa senão ela mesma para acomodar-se ao papel que desempenha em nossas 
sociedades civilizadas. Toda diferença vem do fato de ela produzir seus efeitos com mais 
consciência do que faz. Ora, embora a consciência individual ou social não seja despro- 
vida de influência sobre a realidade que ela ilumina, não tem o poder de mudar sua natu- 
reza. A estrutura interna dos fenômenos permanece a mesma, sejam conscientes ou não. 
Podemos, pois, esperar que os elementos essenciais da pena sejam os mesmos de antes. 

E com efeito a pena permaneceu, pelo menos em parte, uma obra de vingança. Diz- 
se que não fazemos sofrer o culpado apenas por fazê-lo sofrer; não é menos verdadeiro 
que achamos justo que ele sofra. Talvez não tenhamos razão; mas não é isto que está em 
questão. Procuramos no momento definir a pena tal como é ou foi, não como deve ser. 
Ora, a expressão vindita pública, que retorna incessantemente nos tribunais, não é uma 
expressão va. Supondo que a pena possa realmente servir para proteger-nos no futuro, 
estimamos que deva ser, antes de tudo, uma expiação do passado. O que o prova são as 
precauções minuciosas que tomamos para proporcioná-la tão exatamente quanto possi- 
vel à gravidade do crime; elas seriam inexplicáveis se acreditássemos que o culpado deve 
sofrer porque fez o mal e na mesma medida. Com efeito, esta graduação não seria neces- 
sária se a pena fosse só um meio de defesa. Sem dúvida, haveria perigo para a sociedade 
se os atentados mais graves fossem assimilados a simples delitos; mas não poderia haver 
senão vantagem, na maior parte dos casos, se os segundos fossem assimilados aos pri- 
meiros. Contra um inimigo, não se saberia demais tomar precauções. Dir-se-ã que os 
autores dos menores delitos têm naturezas menos perversas e que, para neutralizar seus 
maus instintos, são suficientes penas mais fracas? Mas, se suas inclinações são menos 
viciosas, não são por isto menos intensas. Os ladrões estão tão fortemente inclinados ao 
roubo quanto os assassinos ao homicídio; a resistência que oferecem os primeiros não é 
inferior à dos segundos, e, por conseguinte, para triunfar, dever-se-ia recorrer aos mes- 
mos meios. Se, como se disse, se tratasse apenas de recalcar uma força nociva por uma 
força contrária, a intensidade da segunda deveria ser unicamente medida segundo a 
intensidade da primeira, sem que a qualidade desta entrasse em consideração. A escala 
penal deveria, pois, compreender apenas um pequeno número de graus; a pena deveria 
variar na medida em que o criminoso fosse mais ou menos endurecido, não segundo a 
natureza do ato criminoso. Um ladrão incorrigível seria tratado como um assassino 
incorrigível. Ora, de fato, mesmo quando estivesse verificado que um culpado é definiti- 
vamente incurável, sentir-nos-íamos ainda preocupados em não aplicar-lhe um castigo 
excessivo. É a prova de que permanecemos fiéis ao princípio de talião, se bem que o 
entendamos em um sentido mais elevado que antes. Não medimos mais de uma maneira 
tão material e grosseira nem a extensão da falta nem a do castigo; mas pensamos sempre 
que deve haver uma equação entre estes dois termos, tenhamos ou não proveito em esta- 
belecer esta balança. Portanto, a pena permaneceu para nós o que era para nossos pais. 
Ela é ainda um ato de vingança porque é uma expiação. O que nós vingamos, o que o cri- 
minoso expia, é o ultraje feito à moral. 

Existe sobretudo uma pena em que este caráter passional está mais manifesto: é a 
vergonha que acompanha a maior parte das penas e que cresce com elas. Frequente- 
mente, ela não serve para nada. Para que aviltar um homem que não deve mais viver na 


348 DURKHEIM 


sociedade de seus semelhantes e que provou abundantemente pela sua conduta que as 
ameaças mais terríveis não eram suficientes para intimidá-lo? Compreende-se o avilta- 
mento quando não há outra pena ou como complemento de uma pena material muito 
fraca; caso contrário, ela é ambigua. Pode-se mesmo dizer que a sociedade recorre aos 
castigos legais só quando os outros são insuficientes; mas então por que mantê-los? São 
um tipo de suplício suplementar e sem finalidade, ou que não pode ter outra causa senão 
a necessidade de compensar o mal pelo mal. São um produto de sentimentos instintivos, 
irresistíveis, que frequentemente se estendem a inocentes; é assim que o lugar do crime, 
os instrumentos que lhe serviram, os pais do culpado participam às vezes do opróbrio 
com o qual castigamos este último. Ora, as causas que determinam esta repressão difusa 
são também as da repressão organizada que acompanha a primeira. Aliás, é suficiente 
ver nos tribunais como a pena funciona para reconhecer que seu motor é completamente 
passional; pois é às paixões que se dirigem o magistrado que acusa e o advogado que 
defende. Este procura excitar a simpatia pelo culpado, aquele procura despertar os senti- 
mentos sociais que o ato criminoso feriu, sendo sob a influência destas paixões contrá- 
rias que o juiz se pronuncia. 

Assim, a natureza da pena não mudou essencialmente. Tudo o que se pode dizer é 
que a necessidade de vingança está hoje mais bem dirigida do que antes. O espírito de 
previsão que se despertou não deixa mais o campo tão livre à ação cega da paixão; ele 
a contém em certos limites, opõe-se às violências absurdas, às destruições sem razão de 
ser. Mais esclarecida, difunde-se menos ao acaso; não se a vê mais, mesmo para satisfa- 
zer-se, voltar-se contra inocentes. Mas ela ainda permanece a alma da penalidade. Pode- 
mos dizer, pois, que a pena consiste em uma reação passional de intensidade 
graduada. **? 


Mas de onde emana esta reação? Do indivíduo ou da sociedade? 

Todos sabem que é a sociedade que pune; mas poderia acontecer que não fosse por 
sua conta. O que coloca fora de dúvida o caráter social da pena é que, uma vez pronun- 
ciada, pode ser sustada só pelo governo, em nome da sociedade. Se ela fosse uma satisfa- 
ção concedida aos particulares, estes seriam sempre senhores de perdoá-la: não se conce- 
be um privilégio imposto e ao qual o beneficiário não pode renunciar. Se é apenas a 
sociedade que dispõe a repressão, é porque está atingida quando os indivíduos também 
o são, e é o atentado dirigido contra ela que é reprimido pela pena. 


Entretanto, podem-se citar casos em que a execução da pena depende da vontade 
dos particulares. Em Roma, alguns delitos eram punidos com uma multa em benefício da 
parte lesada, que podia renunciar a ela ou fazê-la objeto de uma transação: era o roubo 
não manifesto, a rapina, a injúria, o dano causado injustamente. 7º Esses delitos, chama- 
dos privados (delicta privata), opunham-se aos crimes propriamente ditos cuja repressão 
era exigida em nome da cidade. Encontra-se a mesma distinção na Grécia e entre os 
hebreus. 7! Nos povos primitivos a pena parece ser algumas vezes algo ainda mais priva- 
do, como tende a prová-lo o uso da vendetta. Essas sociedades são compostas de agrega- 


6º É, aliás, o que reconhecem aqueles mesmos que acham ininteligível a idéia de expiação; pois sua conclu- 
são é que, para ser posta em harmonia com a sua doutrina, a concepção tradicional da pena deveria ser total- 
mente transformada e reformada inteiramente. É porque repousa e sempre repousou sobre o princípio que 
eles combatem (Vide Fouillée, Ciência Social, pág. 307 ss.). (N. do A.) 

?º Rein, op. cit. pág. 111.(N. do A.) 

7? Entre os judeus, o roubo, a violação de depósito, o abuso de confiança, os golpes eram tratados como 
delitos privados. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 349 


dos elementares de natureza quase familiar que são comodamente designados pelo nome 
de clãs. Assim que um atentado é cometido por um ou vários membros de um clã contra 
um outro, é este último que pune a ofensa que sofreu. 7? O que acresce ainda, pelo menos 
aparentemente, a importância desses fatos do ponto de vista da doutrina é que frequente- 
mente se sustentou que a vendetta tinha sido primitivamente a única forma da pena: esta 
teria, pois, consistido primeiramente em atos de vingança privada. Mas, então, se a socie- 
dade está hoje armada com o direito de punir, isso pode ocorrer, ao que parece, apenas 
em virtude de um tipo de delegação dos indivíduos. Ela não é senão sua mandatária. São 
os interesses deles que ela gere em seu lugar, provavelmente porque os gere melhor, mas 
não os seus próprios. No princípio, vingavam-se por si mesmos; agora é ela que os vinga: 
mas. como o direito penal não pode ter mudado de natureza em decorrência dessas sim. 
ples transferências, ele não teria, pois, nada de propriamente social. Se a sociedade pare- 
ce aí desempenhar um papel preponderante, é somente como substituta dos indivíduos. 

Mas, por mais difundida que seja essa teoria, é contraria aos tatos mais bem estabe- 
lecidos. Não se pode citar uma única sociedade em que a vendetta tenha sido a forma pri- 
mitiva da pena. Muito pelo contrário, é certo que o direito penal na origem era essencial- 
mente religioso. Esse é um fato evidente para a Índia, para a Judéia, porque aí o direito 
que era praticado era tido como revelado. 'º No Egito, os dez livros de Hermes, que con- 
tinham o direito criminal com todas as outras leis relativas ao governo do Estado, eram 
chamados sacerdotais, e Élien afirma que em toda a antiguidade os padres egípcios exer- 
ceram o poder judiciário. ? * Acontecia o mesmo na antiga Germânia. ?º Na Grécia, a 
justiça era considerada como uma emanação de Júpiter e o sentimento como uma vin- 
gança do deus. ' º Em Roma, as origens religiosas do direito penal são tomadas manifes- 
tas por velhas tradições, ” ” por práticas arcaicas que subsistiram tardiamente e pela pró- 
pria terminologia jurídica. 'º Ora, a religião é uma coisa essencialmente social. Longe de 
perseguir apenas fins individuais, exerce sobre o indivíduo um constrangimento perene. 
Ela o obriga a práticas que o pressionam, a sacrifícios, pequenos ou grandes, que lhe 
custam. Ele deve tomar dos seus bens as oferendas que deve apresentar à divindade, deve 
tomar do tempo do seu trabalho ou de suas distrações os momentos necessários à reali- 
zação dos ritos; deve impor-se todo tipo de privação que lhe é ordenado, renunciar 
mesmo à vida se os deuses o ordenam. A vida religiosa é inteiramente feita de abnegação 
e de desinteresse. Portanto, se o direito criminal é primitivamente um direito religioso, 
pode-se estar certo de que os interesses aos quais ele serve são sociais. São as ofensas à 
sociedade que os deuses vingam pela pena, e não as dos particulares; ora, as ofensas con- 
tra os deuses são ofensas contra a sociedade. 

Também nas sociedades inferiores os delitos mais numerosos são os que lesam a 
coisa pública: delitos contra a religião, contra os costumes, contra a autoridade, etc. 
Basta ver na Bíblia, nas leis de Manou, nos monumentos que nos restam do velho direito 


?2? Ver particularmente Morgan, Sociedade Antiga, Londres, 1870, pág. 56. (N. do A.) 

73 Na Judéia, os juízes não eram padres, mas todo juiz era o representante de Deus, o homem de Deus (D! 
1, 17; Êx 22, 28). Na Índia era o rei que julgava, mas essa função era vista como essencialmente religiosa 
(Manou, VIH, v. 303-31 1). (N. do A.) 

** Thonissen, Estudos sobre a História do Direito Criminal, 1, pág. 107.(N. do A) 

78 Zoepfl, História do Direito Alemão, pág. 909.(N. do A.) 

78 “Foi o filho de Saturno”. diz Hesíodo. “que deu aos homens a justiça” (Os Trabalhos e os Dias, V, pães. 
279 e 280. ed. Didot). — “Quando os mortais se entregam às ações viciosas. Júpiter. a distância. lhes inflige 
um pronto castigo.” (Ihbid. 266. cf. Híada, XVI, pág. 384 ss.) (N. do A) 

7? Walter. op.cit., $ 788. (N. do A) 

?8 Rein. op. cit., págs. 27-36. (N. do A.) 


350 DURKHEIM 


egípcio, o lugar relativamente pequeno dado às prescrições protetoras dos indivíduos e, 
ao contrário, o desenvolvimento luxuriante da legislação repressiva sobre as diferentes 
formas de sacrilégio, sobre a negligência dos diversos deveres religiosos, das exigências 
do cerimonial, etc. 'º Ao mesmo tempo, esses crimes são punidos mais severamente. 
Entre os judeus, os atentados mais abomináveis são os atentados contra a religião. *º 
Entre os antigos germanos, apenas dois crimes eram punidos com a morte, segundo Táci- 
to: a traição e a deserção.º*! Segundo Confúcio e Meng Tseu, a impiedade é uma falta 
maior que o assassinato.º? No Egito, o menor sacrilégio era punido com a morte. ºº Em 
Roma, no cume da escala da criminalidade encontra-se o crimen perduellionis (crime de 
lesa-majestade).* * 

Mas, então, que são essas penas privadas das quais dávamos exemplos acima? Elas 
têm uma natureza mista e participam simultaneamente da sanção repressiva e da sanção 
restitutiva. Assim, o delito privado do direito romano representa um tipo de interme- 
diário entre o crime propriamente dito e a lesão puramente civil. Ela tem traços de um € 
de outro, flutuando nos confins dos dois domínios. Ela é um delito no sentido em que a 
sanção fixada pela lei não consiste simplesmente na restituição sob condição; o delin- 
quente não é apenas obrigado a reparar o dano que causou, mas deve algo mais, uma 
expiação. Entretanto, ele não é completamente um delito, visto que, se é a sociedade que 
pronuncia a pena, não é ela que a aplica. Esse é um direito que ela confere à parte lesada, 
que dispõe dele livremente.º * Igualmente, a vendetta é evidentemente um castigo que a 
sociedade reconhece como legítimo, mas que deixa aos particulares o cuidado de infligi- 
lo. Esses fatos confirmam o que dissemos sobre a natureza da penalidade. Se esse tipo de 
sanção intermediária é, em parte, uma coisa privada, na mesma medida não é uma pena. 
O caráter penal é tanto menos pronunciado quanto mais apagado é o caráter social, e 
inversamente. A vingança privada não pode portanto ser o protótipo da pena; é, ao 
contrário, apenas uma pena imperfeita. Longe de os atentados contra as pessoas terem 
sido os primeiros a serem reprimidos, na origem estão apenas no limiar do direito penal. 
Elevaram-se na escala da criminalidade na medida em que a sociedade se inteirou deles 
completamente, e essa operação, que não descreveremos, não se reduziu simplesmente a 
uma transferência; ao contrário, a história dessa penalidade é uma sequência contínua de 
invasões da sociedade sobre indivíduos, ou antes, sobre os grupos elementares que ela 
contém em seu seio, e o resultado dessas invasões é substituir cada vez mais o direito dos 
particulares pelo da sociedade. * * 

Mas as características precedentes pertencem tanto à repressão difusa que segue as 
ações simplesmente imorais quanto à repressão legal. O que distingue esta última é, nós 
o dissemos, ser organizada; mas em que consiste essa organização? 

Quando se pensa no direito penal, tal qual funciona em nossas sociedades atuais, 
representa-se um código em que penas muito definidas estão ligadas a crimes igualmente 


7º Vide Thonissen, passim. (N. do A.) 


*º Munck, Palestina, pág. 216. (N. do A.) 

81 Germania, XII. (N. do A.) 

82 Plath, Lei e Direito na Velha China, 1865, págs. 69e 70.(N. do A.) 

º3 Thonissen, op. cit. I, pág. 145. (N. do A.) 

84 Walter. op. cit., 8 803.(N. do A.) 

º* Entretanto, o que acentua o caráter penal do delito privado é que implicava infâmia, verdadeira pena pú- 
blica. (Vide Rein, op. cit., pág. 916, e Bouvy, Sobre a Infâmia no Direito Romano, Paris, 1884, pág. 35.)(N. 
do A.) 

8º Em todo caso, é importante observar que a vendetta é algo eminentemente coletivo. Não é o indivíduo 
que se vinga, mas seu clã; mais tarde é ao clã ou à família que a restituição é paga. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 351 


definidos. O juiz dispõe de uma certa flexibilidade para aplicar a cada caso particular 
essas disposições gerais; mas, em suas linhas essenciais, a pena está predeterminada para 
cada categoria de atos delituosos. Entretanto, essa organização engenhosa não é consti- 
tutiva da pena, pois existem várias sociedades em que essa existe sem estar fixada previa- 
mente. Há na Bíblia numerosas proibições que são tão imperativas quanto possível e que, 
entretanto, não são sancionadas por qualquer castigo expressamente formulado. O cará- 
ter penal não é entretanto duvidoso; pois, se os textos se calam sobre a pena, exprimem 
ao mesmo tempo pelo ato proibido um tal horror que não se pode suspeitar um só ins- 
tante que tenha ficado impune. Há, pois. toda razão para se acreditar que esse silêncio da 
lei advém simplesmente do fato de a repressão não estar determinada. E, com efeito, mui- 
tas narrativas do Pentateuco nos ensinam que havia atos cujo teor criminal era incontes- 
tado, e cuja penalidade era estabelecida só pelo juiz que a aplicava. A sociedade sabia 
perfeitamente que se encontrava em presença de um crime; mas a sanção penal que devia 
acompanhá-lo não estava ainda definida.º ? E mais, mesmo entre as penalidades enuncia- 
das pelo legislador, muitas há que não estão especificadas com precisão. Assim sabemos 
que havia diferentes modalidades de suplícios que não eram postos no mesmo nível, e, no 
entanto, num grande número de casos, os textos só falam da morte de maneira geral, sem 
dizer que espécie de morte devia ser infligida. Segundo Sumner Maine, dava-se o mesmo 
na Roma primitiva: os crimina eram julgados diante da assembléia do povo, que fixava 
soberanamente a penalidade através de uma lei, ao mesmo tempo que estabelecia a reali- 
dade do fato incriminado.ºº De resto, mesmo até o século XVI, o princípio geral da 
penalidade “é que a aplicação dela se deixava ao arbítrio do juiz arbitrio et officio judi- 
cis. .. Somente, ao juiz não é permitido inventar penas além daquelas usuais”.*º Outro 
efeito desse poder do juiz era o de tornar inteiramente dependente de sua apreciação até 
a qualificação do ato criminal, que, por conseguinte, era ela própria indeterminada. ºº 

Não é, pois, na regulamentação da pena que consiste a organização distintiva desse 
gênero de repressão. Não é tampouco na instituição de um processo criminal; os fatos 
que acabamos de citar demonstram suficientemente que por muito tempo ela fez falta. A 
única organização que se encontra por toda parte em que há pena propriamente dita se 
reduz, pois, ao estabelecimento de um tribunal. De qualquer forma que seja composto, 
compreenda todo o povo ou somente uma elite, siga ou não um processo regular tanto na 
instrução do caso quanto na aplicação da pena, pela única razão de que a infração, em 
vez de ser julgada por cada um, é submetida à apreciação de um corpo constituído, pela 
única razão de que a reação coletiva tem como intermediário um órgão definido, ela 
cessa de ser difusa: é organizada. A organização poderá ser mais completa, mas desde 
esse momento ela existe. 

A pena consiste, pois, essencialmente numa reação passional, de intensidade gra- 
dual, que a sociedade exerce por intermédio de um corpo constituído sobre aqueles dos 
seus membros que tenham violado certas regras de conduta. 

Ora, a definição que demos do crime presta facilmente contas de todos esses carac- 
teres da pena. 


*? Um homem havia sido encontrado recolhendo lenha no dia de sabbat: “Os que o encontraram conduzi- 
ram-no a Moisés e a Aarão e a toda a assembléia, e puseram-no em prisão, pois não se havia ainda declarado 
o que se lhe devia fazer” (Num 15, 32-36). — Alhures, trata-se de um homem que havia blasfemado contra 
o nome de Deus. Os presentes o prendem, mas não sabem como deve ser tratado. Moisés mesmo o ignora 
e vai consultar o Eterno (Lev 24, 12-16). (N. do A.) 

ºº Direito Antigo, pág. 353. (N. do A.) 

ºº Du Boys, História do Direito Criminal dos Povos Modernos, VI, pág. IL. (N. do A.) 

ºº Du Boys, ibid., pág. 14.(N. do A.) 


352 DURK HEIM 


HI 


Todo estado forte da consciência é uma fonte de vida; é um fator essencial de nossa 
vitalidade geral. Por conseguinte, tudo o que tende a debilitá-la nos diminui e nos depri- 
me; daí resulta uma impressão de desequilibrio e de mal-estar análoga à impressão que 
sentimos quando alguma função importante se interrompe ou torna-se lenta. É, pois, 
inevitável que reajamos energicamente contra a causa que nos ameaça de um tal 
amesquinhamento, que nos esforcemos por afastá-la, a fim de manter a integridade de 
nossa consciência. 

No primeiro plano das causas que produzem este resultado é preciso colocar a 
representação de um estado contrário. Uma representação não é, com efeito, uma sim- 
ples imagem da realidade, uma sombra inerte projetada em nós pelas coisas; é uma força 
que suscita em torno de si todo um turbilhão de fenômenos orgânicos e psíquicos. Não 
apenas a corrente nervosa que acompanha a ideação se irradia nos centros corticais e em 
tomo do ponto onde nasceu e passa de um plexo ao outro, como também ressoa nos cen- 
tros motores onde ela determina movimentos, nos centros sensoriais onde desperta ima- 
gens. excita algumas vezes começos de ilusões e pode mesmo afetar até as funções 
vegetativas:;º! esta ressonância é tanto mais considerável quanto mais intensa é a própria 
representação, quanto mais desenvolvido é o elemento emocional. Assim, a represen- 
tação de um sentimento contrário ao nosso age em nós no mesmo sentido e da mesma 
maneira que o sentimento do qual ela é o substituto; é como se ele mesmo tivesse pene- 
trado em nossa consciência. Ela tem. com efeito. as mesmas afinidades. se bem que 
menos vivas: ela tende a despertar as mesmas idéias, os mesmos movimentos, as mesmas 
emoções. Ela opõe assim uma resistência ao jogo de nosso sentimento pessoal e, por 
conseguinte, enfraquece-o, atraindo em uma direção contrária toda uma parte de nossa 
energia. É como se uma força estranha se tivesse introduzido em nós de maneira a desar- 
ranjar o livre funcionamento de nossa vida psíquica. Eis por que uma convicção oposta 
à nossa não pode se manifestar em nossa presença sem nos perturbar; é porque no 
mesmo instante ela penetra em nós e, estando em antagonismo com tudo o que aí encon- 
tra, determina verdadeiras desordens. Sem dúvida, enquanto o conflito não explode 
senão entre idéias abstratas, não tem nada de muito doloroso, porque não tem nada de 
muito profundo. A região destas idéias é simultaneamente a mais elevada e a mais super- 
ficial da consciência e as mudanças que aí ocorrem, não tendo grandes repercussões, nos 
afetam só fracamente. Mas, quando se trata de uma crença que nos é cara, não permiti- 
mos e não podemos permitir que nela se ponha impunemente a mão. Toda ofensa diri- 
gida contra ela suscita uma reação emocional, mais ou menos violenta, que se volta con- 
tra o ofensor. Nós nos arrebatamos, nos indignamos contra ele, lhe queremos mal e os 
sentimentos assim suscitados não podem deixar de traduzir-se por atos; nós fugimos 
dele. o mantemos a distância. o exilamos de nossa sociedade. etc. 

Sem dúvida, não pretendemos que toda convicção forte seja necessariamente intole- 
rante; a observação corrente é suficiente para demonstrar o contrário. Mas é que as cau- 
sas exteriores neutralizam então aquelas das quais acabamos de analisar os efeitos. Por 
exemplo. pode haver entre os adversários uma simpatia geral que contenha seu antago- 


91 Vide Maudsley, Fisiologia do Espírito, trad. fr., pág. 270. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 353 


nismo e o atenue. Mas é preciso que esta simpatia seja mais forte que esse antagonismo, 
pois de outra maneira ela não lhe sobreviveria. Ou os dois partidos em questão renun- 
ciam à luta quando é averiguado que ela não pode terminar e eles contentam-se em man- 
ter suas situações respectivas, toleram-se mutuamente, não podendo se destruir. A tole- 
rância recíproca que às vezes acaba com as guerras de religião é frequentemente desta 
natureza. Em todos esses casos, se seu conflito de sentimentos não engendra suas conse- 
quências naturais, não é porque ele não as contém, é porque está impedido de 
produzi-las. 

Aliás, elas são ao mesmo tempo úteis e necessárias. Além de derivarem das causas 
que as produzem, elas contribuem para mantê-las. Na realidade, todas essas emoções 
violentas constituem um apelo a forças suplementares que dão ao sentimento atacado a 
energia que lhe retira a contradição. Algumas vezes se disse que a cólera era inútil por- 
que era uma paixão destrutiva; mas isto é vê-la apenas por um de seus aspectos. De fato, 
ela consiste numa superexcitação de forças latentes e disponíveis que auxiliam nosso sen- 
timento pessoal a fazer face aos perigos dando-lhes força. No estado de paz, se podemos 
falar assim, este não estã suficientemente armado para a luta; arriscar-se-ia, pois, a 
sucumbir se reservas passionais não surgissem no momento certo; a cólera é uma mobili- 
zação destas reservas. Pode mesmo acontecer que, o auxílio assim evocado ultrapas- 
sando as necessidades, a discussão tenha como efeito tornar mais firmes nossas convic- 
ções, ao invés de abalá-las. 

Sabe-se que grau de energia podem tomar uma crença ou um sentimento apenas 
pelo fato de serem sentidos por uma mesma comunidade de homens relacionados uns aos 
outros; as causas desse fenômeno são hoje bem conhecidas. Assim como estados de 
consciência contrários enfraquecem-se reciprocamente, estados de consciência idênticos, 
permutando-se, reforçam-se uns aos outros. Enquanto que os primeiros se subtraem, os 
segundos se adicionam. Se alguém exprime diante de nós uma idéia que já era nossa, a 
representação que fazemos dela acrescenta-se à nossa própria idéia, aí se superpõe, 
confunde-se com ela, comunica-lhe o que ela mesma tem de vitalidade; desta fusão sai 
uma idéia nova que absorve as precedentes, sendo mais viva que cada uma delas tomada 
isoladamente. Eis por que nas reuniões numerosas uma emoção pode adquirir uma tal 
violência; pois a vivacidade com a qual ela se reproduz em cada consciência ressoa em 
todas as outras. Nem mesmo é necessário que experimentemos por nós mesmos, apenas 
em virtude de nossa natureza individual, um sentimento coletivo, para que ele tome em 
nós uma tal intensidade; pois o que nós lhe acrescentamos é, em suma, muito pouco. É 
suficiente que não sejamos muito refratários para que, penetrando do exterior com a 
força que traz de suas origens, ele se imponha a nós. Portanto, porque os sentimentos que 
o crime ofende são, no seio de uma mesma sociedade, os mais universalmente coletivos 
que existam, porque eles são estados particularmente fortes da consciência comum, é 
impossível que tolerem a contradição. Sobretudo se esta contradição não é puramente 
teórica, se ela se afirma não apenas por palavras mas por atos, como é então levada ao 
seu maximum, não podemos deixar de resistir a ela com paixão. Uma simples restituição 
da ordem perturbada não poderia ser suficiente; precisamos de uma satisfação mais vio- 
lenta. A força contra a qual o crime se chocou é muito intensa para reagir com modera- 
ção. Aliás, ela não poderia fazê-lo sem se enfraquecer, pois é graças à intensidade da rea- 
ção que volta a dominar-se e se mantém com o mesmo grau de energia. 

Pode-se explicar assim uma característica dessa reação que frequentemente se assi- 
nalou como irracional. É certo que no fundo da noção de expiação há a idéia de uma 
satisfação concedida a alguma potência real ou ideal, que nos é superior. Quando recla- 
mamos a repressão ao crime, não somos nós que queremos pessoalmente nos vingar, mas 


354 DURKHEIM 


algo de sagrado que sentimos mais ou menos confusamente fora e acima de nós. Este 
algo, nós o concebemos de maneiras diferentes segundo os tempos e os meios; às vezes 
ê uma simples idéia, como a moral, o dever; mais frequentemente, nós o representamos 
sob a forma de um ou vários seres concretos: os ancestrais, a divindade. Eis por que o 
direito penal não apenas é essencialmente religioso na origem, mas ainda guarda sempre 
uma certa marca de religiosidade: é que os atos que ele castiga parecem ser atentados 
contra algo de transcedente, ser ou conceito. É por esta mesma razão que nos explicamos 
a nós mesmos como eles parecem reclamar de nós uma sanção superior à simples repara- 
ção com que nos contentamos na ordem dos interesses puramente humanos. 

Seguramente, esta representação é ilusória; em um sentido somos nós que nos vin- 
gamos, nós que nos satisfazemos, porque é em nós e apenas em nós que estão os senti- 
mentos ofendidos. Mas esta ilusão é necessária. Como, em decorrência de sua origem 
coletiva, de sua universalidade, de sua permanência na duração, de sua intensidade 
intrínseca, estes sentimentos têm uma força excepcional, separaram-se radicalmente do 
resto de nossa consciência cujos estados são mais fracos. Eles nos dominam, têm por 
assim dizer algo de sobre-humano e, ao mesmo tempo, ligam-nos a objetos que estão fora 
de nossa vida temporal. Eles nos aparecem, pois, como eco de uma força que nos é estra- 
nha e que, além do mais, é superior âquela que somos. Precisamos assim projetá-la fora 
de nós, relacioná-la a algum objeto exterior; sabemos hoje como se fazem estas aliena- 
ções da personalidade. Esta miragem é de tal maneira inevitável que, de uma forma ou 
de outra, se produzirá enquanto houver um sistema repressivo. Pois, para que fosse de 
outra maneira, seria preciso que houvesse em nós apenas sentimentos coletivos de uma 
intensidade medíocre, e, neste caso, não haveria mais pena. Diremos que o erro se dissi- 
pará por si mesmo assim que os homens dele tiverem tomado consciência? Mas sabemos 
que o sol é um globo imenso e o vemos sempre como um disco de algumas polegadas. O 
entendimento pode ensinar-nos a interpretar nossas sensações; ele não pode mudá-las. 
De resto, o erro é só parcial. Visto os sentimentos serem coletivos, não é a nós que eles 
representam, mas à sociedade. Portanto, vingando-os, é a ela e não a nós que vingamos, 
e, por outro lado, ela é algo superior ao indivíduo. É, pois, inútil ater-se a este caráter 
quase religioso da expiação para fazer dele um tipo de superfetação parasita. Ao contrá- 
rio, é um elemento integrante da pena. Sem dúvida, ele exprime sua natureza de uma 
maneira apenas metafórica, mas a metáfora não está isenta de verdade. 

Por outro lado, compreende-se que a reação penal não seja uniforme em todos os 
casos, visto não serem as emoções que a determinam sempre as mesmas. Com efeito, são 
mais ou menos vivas segundo a vivacidade do sentimento ferido e também segundo a 
gravidade da ofensa sofrida. Um estado forte reage mais que um estado fraco e dois esta- 
dos de mesma intensidade reagem desigualmente, segundo são mais ou menos violenta- 
mente contraditos. Essas variações produzem-se necessariamente, e além do mais aju- 
dam, pois é bom que o recurso de forças esteja em relação com a importância do perigo. 
Muito fraco, ele seria insuficiente; muito forte, seria uma perda inútil. Visto que a gravi- 
dade do ato criminoso varia em função dos mesmos fatores, a proporcionalidade que se 
observa em todas as partes entre o crime e o castigo estabelece-se, pois, com uma espon- 
taneidade mecânica, sem que seja necessário fazer computações engenhosas para calcu- 
lá-la. O que faz a graduação dos crimes faz também a das penas; as duas escalas não 
podem, por conseguinte, deixar de corresponder-se, e esta correspondência, por ser 
necessária, não deixa de ser ao mesmo tempo útil. 

Quanto ao caráter social desta reação, ele deriva da natureza social dos sentimentos 
ofendidos. Porque estes se encontram em todas as consciências, a infração cometida sus- 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 355 


cita em todos aqueles que foram sua testemunha ou que sabem de sua existência uma 
mesma indignação. Todos são atingidos; por conseguinte, todos resistem ao ataque. A 
reação não apenas é geral, mas coletiva, o que não é a mesma coisa; ela não se produz 
isoladamente em cada um, mas com um conjunto e uma unidade, aliás variáveis segundo 
os casos. Com efeito, assim como os sentimentos contrários se repelem, sentimentos 
semelhantes se atraem, e isto de maneira mais forte quanto mais intensos eles são. Como 
a contradição é um perigo que os exaspera, amplifica sua força atrativa. Jamais se expe- 
rimenta tanto a necessidade de rever os compatriotas do que quando se está num país 
estrangeiro; jamais o crente se sente tão fortemente levado em direção de seus correligio- 
nários do que nas épocas de perseguição. Sem dúvida, amamos todo tempo a companhia 
dos que pensam e sentem como nós; mas é com paixão e não apenas com prazer que os 
procuramos ao sair de discussões em que nossas crenças comuns foram vivamente 
combatidas. Portanto, o crime aproxima as consciências honestas e as concentra. Basta 
ver o que se produz, sobretudo numa pequena cidade, quando um escândalo moral é 
cometido. Pára-se na rua, fazem-se visitas, promovem-se encontros nos lugares conve- 
nientes para falar do acontecimento e indigna-se em comum. De todas essas impressões 
similares que se trocam, de todas as cóleras que se exprimem, desprende-se uma cólera 
única, mais ou menos determinada segundo o caso, que é a de todos sem ser a de nin- 
guém em particular. É a cólera pública. 


Apenas ela, aliás, pode servir para alguma coisa. Com efeito, os sentimentos que 
estão em jogo tiram toda a sua força do fato de serem comuns a todo mundo, são enérgi- 
cos porque são incontestes. O que faz o respeito particular do qual são objeto é o fato de 
serem universalmente respeitados. Ora, o crime só é possível se esse respeito não é verda- 
deiramente universal; por conseguinte, implica que não são absolutamente coletivos e 
rompe esta unanimidade, fonte de sua autoridade. Portanto, se, quando ele se produz, as 
consciências que ele fere não se unissem para testemunhar umas às outras que elas per- 
manecem em comunhão, que este caso particular é uma anomalia, não poderiam deixar 
de ser abaladas com o decorrer do tempo. É preciso que elas se reconfortem e se assegu- 
rem mutuamente que estão sempre em uníssono; o único meio para isso é que ajam em 
comum. Em uma palavra, porque foi a consciência comum que foi atingida, também é 
preciso que seja ela que resista e, por conseguinte, que a resistência seja coletiva. 

Resta dizer por que ela se organiza. 

Explicar-se-á esta última característica se se observa que a repressão organizada 
não se opõe à repressão difusa, mas distingue-se dela apenas por diferença de graus: aqui 
a reação tem mais unidade. Ora, a intensidade maior e a natureza mais definida dos 
sentimentos que a pena vinga dão conta facilmente desta unificação mais perfeita. Com 
efeito, se o estado negado é fraco ou se é apenas negado fracamente, ele pode determinar 
apenas uma concentração fraca das consciências ultrajadas; ao contrário, se é forte e se 
a ofensa é grave, todo o grupo atingido se estreita em face do perigo e se reúne sobre si 
mesmo, por assim dizer. Não nos contentamos mais em trocar impressões quando temos 
ocasião, em aproximar-nos aqui ou ali segundo os acasos ou a maior comodidade dos 
encontros, mas a emoção que se formou pouco a pouco leva violentamente uns em dire- 
ção aos outros todos os que se assemelham e reúne-os num mesmo lugar. Esse estreita- 
mento material do agregado, tornando mais íntima a penetração mútua dos espíritos. 
torna também mais fáceis todos os movimentos do conjunto; as reações emocionais, das 
quais cada consciência é o teatro, estão, pois, nas mais favoráveis condições para se uni- 
ficar. Entretanto, se fossem muito diversas, seja em quantidade, seja em qualidade, seria 
impossível uma fusão completa entre esses elementos parcialmente heterogêneos e 


356 DURKHEIM 


irredutíveis. Mas sabemos que os sentimentos que as determinam são muito definidos e, 
por conseguinte, muito uniformes. Elas participam, pois, da mesma uniformidade que, 
por conseguinte, se perdem naturalmente umas nas outras, confundem-se em uma resul- 
tante única que lhes serve de substituto e que é exercida não por cada um isoladamente, 
mas pelo corpo social assim constituído. 

Muitos fatos tendem a provar que tal foi historicamente a gênese da pena. Sabe-se, 
com efeito, que na origem era a assembléia do povo inteiro que fazia o papel de tribunal. 
Reportando-nos aos exemplos que citamos há pouco, tomados ao Pentateuco,º? veremos 
que as coisas se passam como acabamos de escrevê-las. Assim que a notícia do crime se 
difunde, o povo se reúne e, se bem que a pena não esteja predeterminada, a reação se faz 
com unidade. Em alguns casos era o próprio povo que executava coletivamente a sen- 
tença logo após pronunciá-la. ** Depois, ali onde a assembléia se encarnou na pessoa de 
um chefe, este tornou-se total ou parcialmente o órgão da reação penal e a organização 
se dirigia conforme as leis gerais de todo desenvolvimento orgânico. 

É, pois, a natureza dos sentimentos coletivos que presta contas da pena e, por 
conseguinte, do crime. Além do mais, vê-se novamente que o poder de reação de que dis- 
põem as funções governamentais, assim que surgiram, é apenas uma emanação do que 
está difuso na sociedade, pois nasce dela. Um é apenas o reflexo do outro, a extensão do 
primeiro varia como a do segundo. Acrescentemos, aliás, que a instituição deste poder 
serve para manter a própria consciência comum. Pois ela se enfraqueceria se o órgão que 
a representa não participasse do respeito que ela inspira e da autoridade particular que 
ela exerce. Ora, ele não pode participar disto sem que todos os atos que a ofendem sejam 
reprimidos e combatidos como aqueles que ofendem a consciência coletiva, e isto mesmo 
quando ela não está diretamente afetada. 


IV 


Assim, a análise da pena confirmou nossa definição do crime. Começamos estabele- 
cendo indutivamente que este consistia essencialmente em um ato contrário aos estados 
fortes e definidos da consciência comum; acabamos de ver que todas as características 
da pena derivam, com efeito, desta natureza do crime. É porque as regras que ela san- 
ciona exprimem similitudes sociais mais essenciais. 

Vê-se assim que espécie de solidariedade o direito penal simboliza. Com efeito, 
todos sabem que há uma coesão social cuja causa está numa certa conformidade de 
todas as consciências particulares a um tipo comum que não é outra coisa que o tipo psí- 
quico da sociedade. Nestas condições, com efeito, não apenas todos os membros do 
grupo são individualmente atraídos uns pelos outros porque se assemelham, mas estão 
também ligados à condição de existência deste grupo coletivo, isto é, à sociedade que for- 
mam por sua reunião. Os cidadãos não só se amam e se procuram de preferência aos 
estrangeiros, mas amam sua pátria, querem-lhe como querem a si mesmos, almejam que 
dure e progrida, porque, sem ela, existe toda uma parte de sua vida psíquica cujo funcio- 
namento estaria entravado. Inversamente, a sociedade almeja que todos apresentem 
semelhanças fundamentais, porque isto é uma condição de sua coesão. Existem em nós 
duas consciências: uma contém apenas estados que são pessoais a cada um de nós e que 
nos caracterizam, enquanto que os estados que compreendem a outra são comuns em 


92 Vide nota supra 87. (N. do A.) 
º3 Vide Thonissen, Estudos, etc.. 1, págs. 30 e 232. — As testemunhas do crime desempenhavam às vezes 
um papel preponderante na execução. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 357 


toda sociedade.” * A primeira representa nossa personalidade individual e a constitui; a 
segunda representa o tipo coletivo, e, por conseguinte, a sociedade sem a qual ele não 
existiria. Quando é um dos elementos desta última que determina nossa conduta, não é 
em vista de nosso interesse pessoal que agimos, mas perseguimos fins coletivos. Ora, se 
bem que distintas, essas duas consciências são ligadas uma à outra, porque em suma são 
apenas uma, havendo para as duas um mesmo substrato orgânico. São, pois, solidárias. 
Disto resulta uma solidariedade sui generis que, nascida das semelhanças, liga direta- 
mente o indivíduo à sociedade; no próximo capítulo poderemos mostrar melhor por que 
temos tenção de chamá-la mecânica. Esta solidariedade não consiste apenas num vínculo 
geral e indeterminado do indivíduo ao grupo, mas também torna harmônico o detalhe 
dos movimentos. Com efeito, como esses móveis coletivos são em toda parte os mesmos, 
em toda parte produzem os mesmos efeitos. Por conseguinte, cada vez que eles entram 
em jogo, as vontades movem-se espontaneamente e com o conjunto no mesmo sentido. 


É esta solidariedade que exprime o direito repressivo, pelo menos no que cla tem de 
vital. Com efeito, os atos que ele proíbe e qualifica de crimes são de dois tipos: ou mani- 
festam diretamente uma diferença muito violenta entre o agente que os realiza e o tipo 
coletivo, ou ofendem o órgão da consciência comum. Tanto num caso como no outro, a 
força atingida pelo crime que o recalca é a mesma; ela é um produto de similitudes 
sociais mais essenciais, tem por efeito manter a coesão social que resulta destas similitu- 
des. É esta força que o direito penal protege contra todo enfraquecimento, exigindo 
simultaneamente de cada um de nós um mínimo de semelhanças sem as quais o indiví- 
duo seria uma ameaça para a unidade do corpo social, e impondo-nos o respeito ao sim- 
bolo que exprime e resume essas semelhanças ao mesmo tempo que as garante. 

Explica-se assim por que certos atos foram freqientemente reputados como crimi- 
nosos e punidos como tais sem que, por si mesmos, fossem maléficos para a sociedade. 
Com efeito, assim como o tipo individual, o tipo coletivo formou-se sob o império de 
causas muito diversas e mesmo de encontros fortuitos. Produto do desenvolvimento 
histórico, traz a marca das circunstâncias de todo tipo pelas quais a sociedade passou em 
sua história. Seria, pois, milagroso se tudo o que nele se encontra estivesse ajustado a 
algum fim útil; mas não podem ter-se introduzido aí elementos mais ou menos numero- 
sos que não tenham nenhuma relação com a utilidade social. Entre as inclinações, as 
tendências que o indivíduo recebeu de seus ancestrais ou que formou para si no percurso, 
certamente muitas ou não servem para nada ou custam mais do que produzem. Sem dú- 
vida, não poderiam ser nocivas em sua maioria, pois, nestas condições, o ser não poderia 
viver; mas existem algumas que se mantêm sem ser úteis, e mesmo aquelas cujos serviços 
são incontestáveis frequentemente têm uma intensidade que não é proporcional à sua uti- 
lidade, porque parcialmente ela lhes vem de outras causas. Acontece o mesmo com as 
paixões coletivas. Todos os atos que as ferem não são perigosos por si mesmos ou, pelo 
menos, não são tão perigosos como insinua a sua reprovação. Entretanto, a reprovação 
de que eles são o objeto não deixa de ter uma razão de ser; pois, qualquer que seja a ori- 
gem deste sentimento, uma vez que eles fazem parte do tipo coletivo, sobretudo se são 
seus elementos essenciais, tudo o que contribui para abalá-los abala simultaneamente a 
coesão social e compromete a sociedade. O seu nascimento não foi necessariamente útil; 
mas, uma vez que duraram, torna-se necessário que persistam malgrado sua irracionali- 


º* Para simplificar a exposição, supomos que o indivíduo pertence apenas a uma sociedade. De fato faze- 
mos parte de vários grupos e existem em nós várias consciências coletivas; mas esta complicação não muda 
nada em relação ao que estamos prestes a estabelecer. (N. do A.) 


358 DURKHEIM 


dade. Eis por que, em geral, é bom que os atos que os ofendem não sejam tolerados. Sem 
dúvida, raciocinando abstratamente pode-se facilmente demonstrar que não há razão 
para que uma sociedade se prive de comer tal ou tal carne por si mesma inofensiva. Mas, 
uma vez que o horror a este alimento se tornou parte integrante da consciência comum, 
não pode desaparecer sem que o elo social se afrouxe, e é isto que as consciências sãs 
obscuramente sentem.º * 

Acontece o mesmo com a pena. Embora proceda de uma reação completamente 
mecânica, de movimentos passionais e em grande parte irrefletidos, não deixa de desem- 
penhar um papel útil. Este papel apenas não está ali onde se o vê ordinariamente. Ela não 
serve, ou não serve senão secundariamente para corrigir o culpado ou intimidar seus imi- 
tadores possíveis; sob este duplo ponto de vista, sua eficácia é justamente duvidosa e, em 
qualquer caso, medíocre. Sua verdadeira função é manter intata a coesão social man- 
tendo toda a vitalidade da consciência comum. Negada tão categoricamente, esta neces- 
sariamente perderia sua energia se uma reação emocional da comunidade não viesse 
compensar esta perda, resultando disto um afrouxamento da solidariedade social. É pre- 
ciso, pois, que ela se afirme com brilho no momento em que é contradita, e o único meio 
de afirmar-se é exprimir a aversão unânime, que o crime continua a inspirar, por um ato 
autêntico que apenas pode consistir em uma dor infligida ao agente. Assim, mesmo 
sendo um produto necessário das causas que a engendram, esta dor não é uma crueldade 
gratuita. Ela é o signo que atesta que os sentimentos coletivos são sempre coletivos, que 
a comunhão dos espíritos na mesma fé permanece inteira, e, através disto, ela repara o 
mal que o crime fez à sociedade. Eis por que se tem razão de dizer que o criminoso deve 
sofrer na proporção de seu crime, pois as teorias que recusam à pena todo caráter expia- 
tório parecem a tantos espíritos teorias subversivas da ordem social. É que, com efeito, 
essas dotrinas apenas poderiam ser praticadas em uma sociedade na qual toda cons- 
ciência comum estivesse quase abolida. Sem esta satisfação necessária, a chamada cons- 
ciência moral não poderia ser conservada. Poder-se-ia, pois, dizer, sem paradoxo, que o 
castigo está destinado a agir sobretudo sobre as pessoas honestas; pois, porque serve 
para curar as feridas feitas nos sentimentos coletivos, só pode preencher este papel onde 
estes sentimentos existem na medida em que estão vivos. Sem dúvida, prevenindo entre 
os espíritos já abalados um novo enfraquecimento da alma coletiva, ele pode impedir a 
multiplicação dos atentados; mas esse resultado, aliás útil, é apenas um contragolpe 
particular. Numa palavra, para se fazer uma idéia da pena, é preciso reconciliar as duas 
teorias contrárias que foram dadas; aquela que aí vê uma expiação e aquela que faz da 
pena uma arma de defesa social. Com efeito, é certo que tem por função proteger a socie- 
dade, mas o faz por ser expiatória; por outro lado, se deve ser expiatória, não é porque, 
em consequência de não sei que virtude mística, a dor resgata a falta, mas porque só 
pode produzir seu efeito socialmente útil sob esta única condição. º 8 


º8 Isto não quer dizer que seja preciso conservar uma regra penal porque num dado momento ela corres- 
pondeu a algum sentimento coletivo. Ela só tem razão de ser se este último ainda está vivo e enérgico. Se ele 
desapareceu ou se enfraqueceu, nada mais vão e mesmo mais maldoso do que tentar mantê-la artificialmente 
e pela força. Pode mesmo acontecer que seja preciso combater uma prática que foi comum, mas não o é mais 
e opõe-se ao estabelecimento de práticas novas e necessárias. Não entraremos, porém, nesta questão de 
casuística. (N. do A.) 

*º* Dizendo que a pena, tal qual é, tem uma razão de ser, não dizemos que seja perfeita e não possa ser 
melhorada. É evidente, ao contrário, que, sendo produzida em parte por causas completamente mecânicas, 
apenas pode ser imperfeitamente ajustada ao seu papel..Trata-se somente de uma justificação em geral. (N, 
do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 359 


Resulta deste capítulo que existe uma solidariedade social que provém do fato de 
que um certo número de estados de consciência é comum a todos os membros de uma 
mesma sociedade. É a ela que o direito repressivo figura materialmente, pelo menos no 
que ela tem de essencial. A parte que ela tem na integração geral da sociedade depende 
evidentemente da maior ou menor extensão da vida social que a consciência comum 
compreende e regulamenta. Quanto mais existem relações diversas em que esta última 
faz sentir a sua ação, mais também ela cria elos que ligam o indivíduo ao grupo, mais a 
coesão social deriva completamente desta causa e traz a sua marca. Mas, por outro lado, 
o próprio número destas relações é proporcional ao de regras repressivas; determinando 
qual fração do aparelho jurídico representa o direito penal, mediremos simultaneamente 
a importância relativa desta solidariedade. É verdade que, procedendo desta maneira, 
não levaremos em conta certos elementos da consciência coletiva que, por causa de sua 
menor energia ou de sua indeterminação, permanecem estranhos ao direito repressivo, 
mesmo contribuindo para assegurar a harmonia social; são aqueles protegidos por penas 
simplesmente difusas. Mas acontece o mesmo com as outras partes do direito. Não existe 
nenhuma que seja completada por costumes e, como não há razão para supor que a rela- 
ção entre o direito e os costumes seja diferente nestas diversas esferas, esta eliminação 
não oferece o risco de alterar os resultados de nossa comparação. 


E 


CAPÍTULO HI 


A solidariedade orgânica ou devida à divisão do trabalho 


I 


A própria natureza da sanção restituitória é suficiente para mostrar que a solidarie- 
dade social à qual corresponde esse direito é de uma espécie completamente outra. 

O que distingue esta sanção é o fato de não ser expiatória. mas se reduz a uma sim- 
ples restituição sob condição. Um sofrimento proporcional a seu malfeito não é infligido 
aquele que violou o direito ou que o desconheceu: é simplesmente condenado a se subme- 
ter a ele. Se já existem fatos consumados, o juiz os estabelece tais quais teriam sido. Ele 
diz o direito, não diz penas. As perdas e ganhos não têm um caráter penal; são apenas 
um meio de regredir ao passado para instituí-lo tanto quanto possível, sob sua forma nor- 
mal. M. Tarde acreditou, é verdade, reencontrar uma espécie de penalidade civil na 
condenação às custas que estão sempre ao encargo da parte derrotada.” ? Mas, tomada 
neste sentido, a palavra tem somente um valor metafórico. Para que existisse pena, seria 
preciso que houvesse pelo menos alguma proporção entre a punição e a falta, e para isto 
seria necessário que o grau de gravidade dessa última fosse seriamente estabelecido. Ora, 
de fato, aquele que perde o processo paga as custas mesmo quando suas intenções te- 
nham sido puras, mesmo quando ele não tenha sido culpado senão por ignorância. As 
razões desta regra parecem ser completamente diferentes: sendo dado que a justiça não 
é feita gratuitamente, parece eglitativo que suas injunções sejam suportadas por aquele 
que as ocasionou. É possível, no entanto, que a perspectiva dessas despesas detenha o 
litigante temerário, mas isso não basta para fazer delas uma pena. O receio da ruína. que 
segue de ordinário a preguiça ou a negligência, pode tornar o negociante ativo e aplica- 
do, e no entanto a ruína não é, no sentido próprio da palavra, a sanção penal de suas 
faltas. 

A omissão dessas regras não é nem mesmo punida por uma pena difusa. O litigante 
que perdeu seu processo não é aviltado, sua honra não fica maculada. Podemos imaginar 
que estas regras sejam diferentes, sem que isso nos revolte. A idéia de que o homicídio 
possa ser tolerado nos indigna, mas aceitamos muito bem que o direito sucessorial seja 
modificado, e muitos chegam a conceber que possa ser suprimido. É ao menos uma ques- 
tão que não recusamos discutir. Igualmente. admitimos sem problemas que o direito das 
servidões e dos usufrutos seja organizado de outra maneira, que as obrigações do vende- 
dor e do comprador sejam determinadas de uma outra maneira, que as funções adminis- 
trativas sejam distribuídas segundo outros princípios. Como essas prescrições não 
correspondem em nós a nenhum sentimento, e como geralmente não conhecemos cientifi- 
camente suas razões de ser, uma vez que esta ciência não foi feita, elas não têm raízes 
entre a maioria de nós. Sem dúvida há exceções. Não toleramos a idéia de que um 


*7 Tarde, Criminalidade Comparada, pág. 113, Paris, F. Alcan. (N. do A.) 


362 DURKHEIM 


compromisso contrário aos costumes ou obtido seja pela violência seja pela fraude possa 
unir os contratantes. Igualmente, quando a opinião pública se encontra diante de um 
caso deste gênero, mostra-se menos indiferente do que diziamos ainda há pouco e agrava 
pela sua repreensão a sanção legal. É que os diferentes domínios da vida moral não estão 
radicalmente separados uns dos outros; ao contrário, são contínuos e em segliência, há 
entre eles regiões limítrofes onde características diferentes se encontram simultanea- 
mente. Entretanto, a proposição precedente permanece verdadeira na maior parte dos 
casos. É a prova de que as regras de sanção restituitória ou não fazem absolutamente 
parte da consciência coletiva, ou dela são estados frágeis. O direito repressivo corres- 
ponde ao coração, centro da consciência comum; as regras puramente morais são dele 
uma parte já menos central; enfim, o direito restituitório nasce em regiões muito excên- 
tricas para se estender muito além. Quanto mais se torna ele mesmo, tanto mais se 
distancia. 

Aliás, essa característica é manifestada pela maneira como funciona. Enquanto que 

o direito repressivo tende a permanecer difuso na sociedade, o direito restituitório cria 
órgãos mais e mais especiais: tribunais consulares, conselhos prud hommes, tribunais 
administrativos de todos os tipos. Mesmo em sua parte mais geral, isto é, o direito civil, 
não entra em exercício senão graças a funcionários particulares: magistrados, advoga- 
dos, etc., que se tornaram aptos para esse papel graças a uma cultura toda especial. 
Mas, ainda que essas regras estejam mais ou menos fora da consciência coletiva, 
não interessam somente aos particulares. Se assim fosse, o direito restituitório não teria 
nada em comum com a solidariedade social, pois as relações que ele regulamenta reuni- 
riam os indivíduos uns aos outros, sem ligá-los à sociedade. Seriam simples aconteci- 
mentos da vida privada, como são, por exemplo, as relações de amizade. É preciso, 
porém, que a sociedade esteja ausente desta esfera da vida jurídica. É verdade que geral- 
mente não intervém por si mesma e por seu próprio movimento; é preciso que seja solici- 
tada pelos interessados. Mas, por ser provocada, sua intervenção não deixa de ser a 
engrenagem essencial no mecanismo, visto ser ela que a faz funcionar. É ela que dita o 
direito através do órgão de seus representantes. 

Sustentou-se, entretanto, que esse papel não tinha nada de propriamente social, mas 
se reduzia ao de conciliador dos interesses privados; que, por conseguinte, todo particu- 
lar podia preenchê-lo, e que, se a sociedade dele se encarregou, foi unicamente por razões 
de comodidade. Mas nada é mais inexato que fazer da sociedade uma espécie de terceiro 
árbitro entre as partes. Quando é levada a intervir, não é para fazer acordo entre interes- 
ses individuais; não procura qual pode ser a solução mais vantajosa para os adversários 
e não lhes propõe compromissos; mas aplica ao caso particular que lhe é submetido as 
regras gerais e tradicionais do direito. Ora, o direito é uma coisa primeiramente social, 
tem um objeto completamente outro que o interesse dos litigantes. O juiz que examina 
uma demanda de divórcio não se preocupa em saber se esta separação é verdadeiramente 
desejável para os esposos, mas se as causas que são invocadas entram em uma das cate- 
gorias previstas pela lei. 

Mas, para melhor apreciar a importância da ação social, é preciso observá-la não 
somente no momento em que se aplica a sanção, em que é restabelecida a relação inter- 
rompida, mas também quando esta é instituída. 

Com efeito, ela é necessária, quer para fundar, quer para modificar numerosas rela- 
ções jurídicas que regem esse direito e que o consentimento dos interessados não basta 
nem para criar nem para mudar. Tais são particularmente as que concernem ao estado 
das pessoas. Embora o casamento seja um contrato. os esposos não podem nem estabele- 
cê-lo nem rescindi-lo a seu bel-prazer. Acontece o mesmo com todas as outras relações 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 363 


domésticas e, com mais forte razão, com todas aquelas que o direito administrativo regu- 
lamenta. É verdade que as obrigações propriamente contratuais podem ser feitas e desfei- 
tas apenas pelo acordo das vontades. Mas é necessário não esquecer que, se o contrato 
tem o poder de ligar, é a sociedade que o comunica. Suponhamos que ela não sancione 
as obrigações contraídas; estas se tornam simples promessas que têm apenas uma autori- 
dade moral.ºº Todo contrato supõe que, atrás das partes que se comprometem, está a 
sociedade prestes a intervir para fazer respeitar os compromissos que foram tomados; ela 
também comunica esta força obrigatória só aos contratos que têm por si mesmos um 
valor social, quer dizer, são conformes às regras do direito. Nós veremos que às vezes 
sua intervenção é ainda mais positiva. Ela está, pois, presente em todas as relações que 
o direito restituitório determina, mesmo naquelas que parecem as mais completamente 
privadas, e sua presença, por não ser sentida, pelo menos no estado normal, não é por 
isto menos essencial. ºº 

Uma vez que as regras para a sanção restituitória são estranhas à consciência 
comum, as relações que elas determinam não são aquelas que atingem indistintamente a 
todos; isto é, elas se estabelecem imediatamente, não entre o indivíduo e a sociedade, mas 
entre partes restritas e especiais da sociedade que as relações ligam entre si. Mas, por 
outro lado, uma vez que esta não está ausente, é necessário que ela esteja nisto mais ou 
menos interessada, que sinta os contragolpes. Então, segundo a vivacidade com que os 
sente, intervém mais ou menos de perto e mais ou menos ativamente, por intermédio de 
órgãos especiais encarregados de representá-la. Estas relações são, pois, muito diferentes 
daquelas que regulamentam o direito repressivo, pois estas ligam diretamente e sem 
intermediário a consciência particular à consciência coletiva, quer dizer. o indivíduo à 
sociedade. 

Mas essas relações podem tomar duas formas muito diferentes: ora são negativas e 
se reduzem a uma pura abstração, ora são positivas ou de cooperação. Às duas classes 
de regras que determinam umas e outras correspondem duas espécies de solidariedade 
social que é necessário distinguir. 


H 


A relação negativa que pode servir de tipo às outras é a que une a coisa à pessoa. 

As coisas, com efeito, fazem parte da sociedade assim como as pessoas, e nela 
desempenham um papel específico; também é necessário que suas relações com o orga- 
nismo social sejam determinadas. Pode-se então dizer que há uma solidariedade das coi- 
sas cuja natureza é bastante especial para se traduzir exteriormente por conseguências 
jurídicas de um caráter muito particular. 

Os jurisconsultos, com efeito, distinguem duas espécies de direitos: dão a uns o 
nome de reais, aos outros o de pessoais. O direito de propriedade, a hipoteca pertencem 
à primeira espécie, o direito de crédito à segunda. O que caracteriza os direitos reais é O 
fato de apenas eles darem origem a um direito de preferência e de continuidade. Neste 
caso, o direito que tenho sobre a coisa exclui qualquer outro que viria estabelecer-se após 
o meu. Se, por exemplo, um bem foi sucessivamente hipotecado a dois credores, a segun- 
da hipoteca não pode em nada restringir os direitos da primeira. Por outro lado, se meu 
devedor vender a coisa sobre a qual tenho um direito de hipoteca, este não é lesado em 


98 E ainda esta autoridade moral provém dos costumes, quer dizer, da sociedade. (N. do A.) 
** Devemos nos deter aqui a essas indicações gerais, comuns a todas as formas do direito restituitório. (N. 
do A.) 


364 DURK HEIM 


nada, mas o terceiro comprador é obrigado ou a me pagar, ou a perder aquilo que adqui- 
riu. Ora, para que isto seja assim, é necessário que o vínculo de direito una diretamente, 
e sem o intermédio de nenhuma outra pessoa, esta coisa determinada à minha personali- 
dade jurídica. Esta situação privilegiada é, pois, a consegiiência da solidariedade própria 
às coisas. Ao contrário. quando o direito é pessoal. a pessoa que é obrigada perante mim 
pode, contraindo novas obrigações, dar-me co-credores cujo direito é igual ao meu, e, 
embora eu tenha por garantia todos os bens de meu devedor, se ele os vender, deixam de 
ser minha garantia saindo de seu patrimônio. A razão disso é que não há uma relação 
especial entre esses bens e eu mas entre a pessoa de seu proprietário e minha própria 
pessoa. 'ºº 

Vê-se em que consiste esta solidariedade real: liga diretamente as coisas às pessoas, 
mas não as pessoas entre si. A rigor, pode-se exercer um direito real acreditando-se soz1- 
nho no mundo, fazendo abstração dos outros homens. Por conseguinte, como é somente 
por intermédio de pessoas que as coisas são integradas na sociedade, a solidariedade que 
resulta desta integração é completamente negativa. Ela não faz com que as vontades se 
movam para fins comuns, mas apenas com que as coisas gravitem em ordem ao redor 
das vontades. Porque os direitos reais são assim delimitados, não entram em conflito; 
tenta-se evitar as hostilidades, mas não há concurso ativo, não há consensus. Suponha-se 
um tal acordo tão perfeito quanto possível; a sociedade em que ele reina — se reina sozi- 
nho — parecerá uma imensa constelação onde cada astro se move em sua órbita sem 
perturbar os movimentos dos astros vizinhos. Uma tal solidariedade não faz assim dos 
elementos que ela aproxima um todo capaz de agir como um conjunto; não contribui em 
nada para a unidade do corpo social. 

Segundo o que precede, é fácil determinar qual é a parte do direito restituitório à 
qual corresponde esta solidariedade: é o conjunto dos direitos reais. Ora, da própria defi- 
nição que foi dada resulta que o direito de propriedade é seu tipo mais perfeito. De fato, 
a relação mais completa que possa existir entre uma coisa e uma pessoa é aquela que co- 
loca a primeira sob a inteira dependência da segunda. Esta relação é muito complexa, os 
diversos elementos de que está formada podem tornar-se o objeto de vários direitos reais 
secundários, como o usufruto, os aluguéis, a posse e a habitação. Em suma, pode-se dizer 
que os direitos reais compreendem o direito de propriedade sob suas diversas formas 
(propriedade literária, artística, industrial, mobiliária, imobiliária) e suas diferentes 
modalidades, tais como as regulamenta o segundo livro de nosso Código Civil. Fora 
deste livro, nosso direito reconhece ainda quatro outros direitos reais, mas que são ape- 
nas auxiliares e substitutos eventuais de direitos pessoais: a garantia, a anticrese, O privi- 
légio e a hipoteca (art. 2 071-2 203). Convém acrescentar a isto tudo o que é relativo ao 
direito sucessoral, ao direito de testar e, por conseguinte, à ausência, visto que quando é 
declarada ela cria um tipo de sucessão provisória. Com efeito, a herança é uma coisa ou 
um conjunto de coisas sobre as quais os herdeiros e os legatários têm um direito real, 
quer seja este adquirido ipso facto pelo óbito do proprietário, quer ele se abra após um 
ato judiciário, como acontece para os herdeiros indiretos e legatários particulares. Em 
todos estes casos, a relação jurídica é diretamente estabelecida, não entre duas pessoas, 
mas entre uma pessoa e uma coisa. Acontece o mesmo com a doação testamentária que 
é apenas o exercício do direito real que o proprietário tem sobre os seus bens, ou pelo 
menos sobre a porção aqui disponível. 


"99 Algumas vezes já se disse que as qualidades de pai. de filho, etc. eram o objeto de direitos reais (vide 
Ortolan. Institutos, I, pág. 660). Mas estas qualidades são apenas simbolos abstratos de direitos diversos, uns 
reais (por exemplo, o direito do pai sobre a fortuna dos filhos menores), outros pessoais. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 365 


Mas existem relações entre pessoas que, por não serem reais, são todavia tão negati- 
vas quanto as precedentes e exprimem uma solidariedade da mesma natureza. 

Em primeiro lugar estão as ocasionadas pelo exercício do direito real propriamente 
dito. É inevitável que o funcionamento destas últimas leve. às vezes, as próprias pessoas 
de seus detentores a se defrontarem. Por exemplo, quando uma coisa vem acrescentar-se 
a outra, o proprietário daquela reputada como principal torna-se simultaneamente 
proprietário da segunda; ele apenas “deve pagar ao outro o valor da coisa que foi unida” 
(art. 566). Esta obrigação é evidentemente pessoal. Igualmente, todo proprietário de um 
muro médio que quer aumentá-lo deve pagar ao co-proprietário a indenização da despesa 
(art. 658). Um legatário particular é obrigado a dirigir-se ao legatário universal para 
obter a liberação da coisa legada, embora tenha um direito sobre esta desde a morte do 
signatário do testamento (art. 1 014). Mas a solidariedade que estas relações exprimem 
não difere daquela que acabamos de falar: apenas se estabelecem para reparar ou preve- 
nir uma lesão. Se o detentor de cada direito real pudesse sempre exercê-lo sem jamais 
ultrapassar seus limites, cada um permanecendo sozinho, não haveria nenhum comércio 
jurídico. Mas, de fato. acontece constantemente que estes diferentes direitos são de tal 
forma emaranhados uns nos outros que não se pode valorizar um sem invadir aqueles 
que o limitam. Aqui, a coisa à qual tenho um direito está nas mãos de um outro; é o que 
acontece com os legados. Aliás, não posso desfrutar de meu direito sem prejudicar o de 
outro; é o caso de certas servidões. As relações são, pois, necessárias para reparar o pre- 
Juízo, se está consumado, ou para impedi-lo; mas elas nada têm de positivo. Elas não 
fazem convergir as pessoas que colocam em contato, não supõem nenhuma cooperação; 
mas restauram simplesmente ou mantêm, nas condições novas que se produziram, esta 
solidariedade negativa da qual as circunstâncias vieram perturbar o funcionamento. 
Longe de unir, elas surgem apenas para separar melhor o que se uniu pela força das coi- 
sas, para restabelecer os limites que foram violados e recolocar cada um em sua esfera 
própria. São tão idênticas às relações da coisa com a pessoa, que os redatores do Código 
não lhes deram nenhum lugar à parte, mas trataram-nas ao mesmo tempo que os direitos 
reais. 

Enfim, as obrigações que nascem do delito e do quase delito têm exatamente o 
mesmo caráter. 'º" Com efeito, obrigam cada um a reparar o dano que causou com sua 
falta aos interesses legítimos de outro. Elas são pois pessoais; mas a solidariedade à qual 
correspondem é evidentemente toda negativa, visto consistir não em servir, mas em não 
prejudicar. O elo do qual elas sancionam a ruptura é completamente exterior. Toda a 
diferença que existe entre estas relações e as precedentes é que, num caso, a ruptura pro- 
vém de uma falta e, no outro, de circunstâncias determinadas e previstas pela lei. Mas a 
ordem perturbada é a mesma; resulta, não de uma convergência, mas de uma absten- 
ção. 'º? Aliás, os direitos cuja lesão dá origem a estas obrigações são reais; pois sou 
proprietário de meu corpo, de minha saúde, de minha honra, de minha reputação, ao 
mesmo título e da mesma maneira que coisas materiais a mim submetidas. 

Em resumo, as regras referentes aos direitos reais e às relações pessoais que se esta- 
belecem por ocasião desses direitos formam um sistema definido que tem por função não 
a de ligar entre si partes diferentes da sociedade mas, ao contrário, colocá-las exteriores 


101 


Art. 1382-86 do Código Civil. — Poder-se-iam acrescentar os artigos sobre a repetição irregular. (N. 
do A.) 

'º2 O contratante que não cumpre seus compromissos também deve indenizar a outra parte. Mas. neste 
caso. as perdas e danos servem dc sanção a um elo positivo. Não é por ter prejudicado que o violador do 
contrato paga, mas por não ter efetuado a prestação prometida. (N. do A.) 


366 DURKHEIM 


umas às outras, marcar nitidamente as barreiras que as separam. Elas não correspon- 
dem, pois, a um elo social positivo; a própria expressão de solidariedade negativa da 
qual nos servimos não é perfeitamente exata. Não é uma solidariedade verdadeira, tendo 
uma existência própria e uma natureza especial, mas antes o lado negativo de toda espé- 
cie de solidariedade. A primeira condição para que um todo seja coerente é que as partes 
que o compõem não se choquem em movimentos discordantes. Mas esse acordo externo 
não faz a coesão, ao contrário, a supõe. A solidariedade negativa apenas é possível onde 
existe uma outra, de natureza positiva, da qual é simultaneamente a resultante e a 
condição. 

Com efeito, o direito dos indivíduos, tanto sobre si mesmos como sobre as coisas, 
só pode ser determinado graças a compromissos e a concessões mútuas; pois tudo que é 
concedido a uns é necessariamente abandonado pelos outros. Foi dito algumas vezes que 
se podia deduzir a extensão normal do desenvolvimento do indivíduo seja do conceito de 
personalidade humana (Kant), seja da noção de organismo individual (Spencer). Isso é 
possível, embora o rigor desses raciocínios seja muito contestável. Em todo caso, é certo 
que, na realidade histórica, não foi sobre essas considerações abstratas que a ordem 
moral se fundou. De fato, para que o homem tenha reconhecido direitos a outrem, não 
apenas na lógica mas na prática da vida, foi preciso que consentisse em limitar os seus 
e, por conseguinte, esta limitação mútua só pôde ser feita num espírito de entendimento 
e de concórdia. Ora, supondo-se uma multidão de indivíduos sem laços prévios entre si, 
que razão poderia levá-los a esses sacrifícios recíprocos? A necessidade de viver em paz? 
Mas a paz por si mesma não é mais desejável que a guerra. Esta tem seus pesos e suas 
vantagens. Não houve povos, não há em todos os tempos indivíduos dos quais ela é à 
paixão? Os instintos a que ela responde não são menos fortes do que aqueles que a paz 
satisfaz. Sem dúvida, a fadiga pode durante algum tempo pôr fim às hostilidades. mas 
essa simples trégua não pode ser mais durável do que a lassidão temporária que a deter- 
mina. Com mais razão acontece o mesmo com os desfechos devidos apenas ao triunfo da 
força. São tão provisórios e precários quanto os tratados que põem fim às guerras inter- 
nacionais. Os homens apenas precisam da paz na medida em que já estão unidos por 
algum ele de sociabilidade. Neste caso, os sentimentos que os inclinam uns para os ou- 
tros moderam naturalmente as exaltações do egoísmo, e, por outro lado, a sociedade que 
os envolve, podendo viver apenas sob a condição de não ser a cada instante sacudida por 
conflitos, pesa com toda a força sobre eles para obrigá-los a fazer as concessões necessá- 
rias. É verdade que se vêem algumas vezes sociedades independentes entenderem-se para 
determinar a extensão dos seus direitos respectivos sobre as coisas, isto é, sobre seus 
territórios. Mas a extrema instabilidade dessas relações é a melhor prova de que a solida- 
riedade negativa não é por si só suficiente. Hoje, se entre os povos cultivados ela parece 
ter mais força, se esta parte do direito internacional que regula aquilo que se poderia cha- 
mar de direitos reais das sociedades européias tem talvez mais autoridade do que antes, 
é porque as diferentes nações da Europa também são muito menos independentes umas 
das outras; é porque, em certos aspectos, todas fazem parte de uma mesma sociedade, 
ainda incoerente, é verdade, mas que toma cada vez mais consciência de si. O que se 
chama de equilíbrio europeu é um começo da organização dessa sociedade. 

É costume distinguir com cuidado a justiça da caridade, isto é, o simples respeito 
dos direitos de outrem, de todo ato que ultrapasse esta virtude puramente negativa. 
Vêem-se estes dois tipos de prática como duas camadas independentes da moral: a justi- 
ça por si só formaria suas bases fundamentais; a caridade seria seu coroamento. A dis- 
tinção é tão radical que, segundo os partidários de uma certa moral, apenas a justiça 
seria necessária para o bom funcionamento da vida social; o desinteresse seria apenas 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 367 


uma virtude privada que é bom para o particular perseguir, mas que a sociedade pode 
muito bem dispensar. Muitos vêem com inquietude a sua intervenção na vida pública. 
Vê-se, pelo que precede, como essa concepção concorda pouco com os fatos. Na realida- 
de, para que os homens reconheçam e garantam mutuamente seus direitos, é preciso 
primeiramente que se amem, que, por uma razão qualquer, se apeguem uns aos outros e 
a uma mesma sociedade da qual façam parte. A justiça plena de caridade, ou, para reto- 
mar nossas expressões, a solidariedade negativa é uma emanação de uma outra solidarie- 
dade de natureza positiva: é a repercussão, na esfera dos direitos reais, de sentimentos 
sociais que vêm de uma outra fonte. Ela não tem, pois, nada de específico, mas é o 
acompanhamento necessário de toda espécie de solidariedade. Encontra-se necessaria- 
mente em toda parte onde os homens vivem uma vida comum, resulte esta da divisão do 
trabalho social ou da atração do semelhante pelo semelhante. 


HI 


Se do direito restituitório separamos as regras que foram mencionadas, o que per- 
manece constitui um sistema não menos definido, que compreende o direito doméstico, o 
direito contratual, o direito comercial, o direito de processos, o direito administrativo e 
constitucional. As relações que aqui são reguladas são de natureza totalmente diferente 
das precedentes; exprimem um concurso positivo, uma cooperação que deriva essencial- 
mente da divisão do trabalho. 

As questões que o direito doméstico resolve podem ser reduzidas aos dois tipos 
seguintes: 

1.º Quem é o encarregado das diferentes funções domésticas? Quem é esposo. pai, 
filho legítimo, tutor, etc.? 

2.º Qualéo tipo normal dessas funções e das suas relações? 

É à primeira dessas questões que respondem as disposições que determinam as qua- 
lidades e as condições referidas para contratar casamento, as formalidades necessárias 
para que o casamento seja válido, as condições da filiação legítima, natural, adotiva, a 
maneira pela qual o tutor deve ser escolhido, etc. 

Ao contrário, a segunda questão é resolvida pelos capítulos sobre os direitos e os 
deveres respectivos dos esposos, sobre o estado de suas relações em caso de divórcio, 
anulação de casamento, separação de corpos e bens, sobre o poder paterno, sobre os efei- 
tos da adoção, sobre a administração do tutor e suas relações com o pupilo, sobre o 
papel do conselho de família frente ao primeiro e ao segundo, sobre o papel dos pais nos 
casos de interdição e de conselho judiciário. 

Portanto, esta parte do direito civil tem por objetivo determinar a maneira pela qual 
se distribuem as diferentes funções familiares e o que devem ser em suas relações mú- 
tuas; é dizer que ele exprime a solidariedade particular que une entre si os membros da 
família em decorrência da divisão do trabalho doméstico. É verdade que não se está 
habituado a enfocar a família sob este aspecto; acredita-se frequentemente que o que faz 
a sua coesão é exclusivamente a comunidade dos sentimentos e das crenças. Com efeito, 
existem tantas coisas comuns entre os membros do grupo familiar que o caráter especial 
das tarefas atribuídas a cada um deles escapa-nos frequentemente; por causa disto dizia 
A. Comte: a união doméstica exclui “todo pensamento de cooperação direta e contínua 
para uma meta qualquer”. 'ºº Mas a organização jurídica da família, da qual lembramos 
sumariamente as linhas essenciais, demonstra a realidade dessas diferenças funcionais e 
sua importância. A história da família, a partir de sua origem, é apenas um movimento 


103 Curso de Filosofia Positiva, IV, pág. 419.(N. do A.) 


368 DURKHEIM 


ininterrupto de dissociação no decorrer do qual estas diversas funções, primeiramente 
indivisas e confundidas umas nas outras, separaram-se pouco a pouco, constituiram-se à 
parte, repartidas entre os diferentes parentes segundo seu sexo, idade, relações de depen- 
dência, de maneira a fazer de cada um deles um funcionário especial da sociedade 
doméstica. Longe de ser apenas um fenômeno acessório e secundário, esta divisão do tra- 
balho familiar domina, ao contrário, todo o desenvolvimento da família. 

A relação da divisão do trabalho com o direito contratual não é menos acusada. 

Com efeito, o contrato é, por excelência, a expressão jurídica da cooperação. Exis- 
tem, é verdade, os contratos ditos de beneficência, aos quais apenas uma das partes está 
vinculada. Se dou a outrem algo sem condições, se me obrigo gratuitamente a um depó- 
sito ou a um mandato, resultam para mim obrigações precisas e determinadas. Entre- 
tanto, não existe concorrência propriamente dita entre os contratantes, visto não haver 
obrigações senão de um lado. Todavia, a cooperação não está ausente do fenômeno, é 
apenas gratuita ou unilateral. O que é, por exemplo, a doação, senão uma permuta sem 
obrigações recíprocas? Esses tipos de contratos são portanto apenas uma variedade dos 
contratos verdadeiramente cooperativos. 

Aliás, são muito raros; pois é apenas excepcionalmente que os atos de benfeitoria se 
incluem na regulamentação legal. Quanto aos outros contratos, que são a imensa maio- 
ria, as obrigações às quais eles dão origem são correlativas, ou de obrigações recíprocas, 
ou de prestações já efetuadas. O compromisso de uma parte resulta ou do compromisso 
assumido pela outra ou de um serviço já prestado por esta última. Ora, esta reciproci- 
dade apenas é possível onde há cooperação e esta, por sua vez, depende da divisão do 
trabalho. Com efeito, cooperar é dividir uma tarefa comum. Se esta é dividida em tarefas 
qualitativamente similares, embora indispensáveis umas às outras, há divisão do traba- 
lho simples ou do primeiro grau. Se elas são de natureza diferente, há divisão do trabalho 
composta, especialização propriamente dita. 

Esta última forma de cooperação é, aliás, aquela que sobretudo se exprime mais 
geralmente no contrato. O único que tem uma outra significação é o contrato de socie- 
dade e, talvez, também o contrato de casamento enquanto determina a parte contributiva 
dos esposos a expensas do casal. Para que isto seja assim, é preciso ainda que o contrato 
de sociedade coloque todos os associados no mesmo nível, que suas contribuições sejam 
idênticas, que suas funções sejam as mesmas, e este êé um caso que jamais surge exata- 
mente nas relações matrimoniais, em decorrência da divisão do trabalho conjugal. Frente 
a estas espécies raras, que se coloque a multiplicidade dos contratos que têm por objetivo 
ajustar umas às outras funções especiais e diferentes: contratos entre comprador e vende- 
dor, contratos de troca, contratos entre empresários e operários, entre o locatário da 
coisa e o locador, entre o que empresta e o que toma emprestado, entre o depositário e 
o depositante, entre o hoteleiro e o viajante, entre o mandatário e o mandante, entre o 
credor e a caução do devedor, etc. De uma maneira geral, o contrato é o símbolo da 
troca; assim, M. Spencer pôde qualificar, não sem justeza, de contrato fisiológico a troca 
de materiais que se faz a cada instante entre os diferentes órgãos do corpo vivo. 'º * Ora, 
é claro que a troca supõe sempre alguma divisão do trabalho mais ou menos desenvol- 
vida. É verdade que os contratos que acabamos de citar têm ainda um caráter um pouco 
geral. Mas não se pode esquecer que o direito figura apenas os contornos gerais, as gran- 
des linhas das relações sociais, aquelas que se encontram identicamente nas diferentes 
esferas da vida coletiva. Igualmente, cada um desses tipos de contratos supõe uma varie- 
dade de outros mais particulares, dos quais é como que o selo comum e simultaneamente 


104 Bases da Moral Evolucionista, pág. 124, Paris. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 369 


o regulador, mas onde as relações se estabelecem entre funções mais especiais. Portanto, 
malgrado a simplicidade relativa desse esquema, seria suficiente para manifestar a extre- 
ma complexidade dos fatos que resume. 


Aliás, esta especialização das funções aparece mais imediatamente no Código de 
Comércio que regulamenta sobretudo os contratos especiais de comércio: contratos entre 
O comissionário e o comitente, entre o almocreve e o expedidor, entre o portador da letra 
de troca e o sacador, entre o proprietário do navio e seus credores, entre o primeiro e O 
segundo capitão e o pessoal das máquinas, entre o fretado e o fretador, entre o que 
empresta e o que toma emprestado, entre o segurador e o segurado. Portanto, ainda aqui 
há uma grande distância entre a generalidade relativa das prescrições jurídicas e a diver- 
sidade das funções particulares das quais elas regulam as relações, como o prova o lugar 
importante dado ao direito consuetudinário no direito comercial. 

Quando o Código de Comércio não regulamenta contratos propriamente ditos, 
determina o que devem ser certas funções especiais, como a do agente de troca, do corre- 
tor, do capitão, do juiz comissário em caso de falência, a fim de assegurar a solidarie- 
dade de todas as partes do aparelho comercial. 

O direito processual — trate-se de processo criminal, civil ou comercial — desem- 
penha o mesmo papel no aparelho judiciário. As sanções das regras jurídicas de toda 
espécie só podem ser aplicadas pelo concurso de um certo número de funções, funções de 
magistrados, de defensores, de advogados, de jurados, de promotores e advogados de 
defesa, etc.; O processo fixa a maneira pela qual devem entrar em cena e em relações. Ele 
diz o que devem ser e qual a parte de cada uma na vida geral do órgão. 

Parece-nos que, em uma classificação racional das regras jurídicas, o direito proces- 
sual deveria ser considerado como uma variedade do direito administrativo: não vemos 
qual diferença radical separa a administração da justiça do restante da administração. O 
que quer que seja desta visão, o direito administrativo propriamente dito regulamenta as 
funções mal definidas que são chamadas administrativas, !'º º assim como o precedente o 
fez para as funções judiciárias. Ele determina seu tipo normal e suas relações, seja umas 
com as outras, seja com as funções difusas da sociedade; seria preciso apenas separar 
dele um certo número de regras que geralmente são classificadas sob esta rubrica, embo- 
ra tenham um caráter penal. !'º º Enfim, o direito constitucional faz a mesma coisa para 
as funções governamentais. 

Espantar-se-á talvez em ver reunidos numa mesma classe o direito administrativo e 
político e o que é ordinariamente chamado de direito privado. Mas este relacionamento 
se impõe quando se toma por base da classificação a natureza das sanções; e não nos pa- 
rece ser possível tomar uma outra quando se quer proceder cientificamente. Além do 
mais, para separar completamente estes dois tipos de direito, seria preciso admitir que hã 
verdadeiramente um direito privado, sendo que acreditamos que todo direito é público, 
porque todo direito é social. Todas as funções da sociedade são sociais, como todas as 
funções do organismo são orgânicas. As funções econômicas têm este caráter como as 
outras. Aliás, mesmo entre as mais difusas, não existe nenhuma que não esteja mais ou 
menos submetida à ação do aparelho governamental. Portanto, deste ponto de vista, 
entre elas há apenas diferenças de graus. 


198 Mantemos a expressão empregada correntemente; mas precisaria ser definida e não estamos em condi- 
ção de fazê-lo. Parece-nos, grosso modo, que estas funções são imediatamente colocadas sob a ação dos cen- 
tros governamentais. Mas muitas distinções seriam necessárias. (N. do A.) 

198 E também aquelas que concernem aos direitos reais das pessoas morais da ordem administrativa. pois 
as relações que elas determinam são negativas. (N. do A.) 


370 DURKHEIM 


Resumindo, as relações que o direito cooperativo regula com sanções constitutivas 
e a solidariedade por elas expressa resultam da divisão do trabalho social. Por outro 
lado, explica-se por que, em geral, as relações cooperativas não comportam outras san- 
ções. Com efeito, é da natureza das tarefas especiais escapar à ação da consciência cole- 
tiva; pois, para que uma coisa seja objeto de sentimentos comuns, a primeira condição é 
que ela seja comum, isto é, que esteja presente em todas as consciências e que todas pos- 
sam representá-la de um único e mesmo ponto de vista. Sem dúvida, enquanto as funções 
têm uma certa generalidade, todos podem ter algum sentimento: mas, quanto mais elas 
se especializam, mais também se circunscreve o número daqueles que têm consciência de 
cada uma delas; cada vez mais, por conseguinte, elas transbordam a consciência comum. 
As regras que as determinam não podem, pois, ter esta força superior, esta autoridade 
transcendente que, quando ela é ofendida, reclama uma expiação. É igualmente da opi- 
nião que lhes vem sua autoridade, assim como a das regras penais, mas de uma opinião 
localizada em regiões restritas da sociedade. 

Além do mais, mesmo nos círculos especiais em que se aplicam e onde, por conse- 
guinte, são representadas pelos espíritos, não correspondem a sentimentos muito vivos, 
nem mesmo a alguma espécie de estado emocional. Pois, como elas fixam a maneira pela 
qual as diferentes funções devem concorrer nas diversas combinações de circunstâncias 
que se podem apresentar, os objetos aos quais elas se relacionam não estão sempre pre- 
sentes às consciências. Não se tem sempre que administrar uma tutela, uma curatela, 'º? 
nem exercer seus direitos de credor ou de comprador, etc., nem, sobretudo, exercê-los em 
tal ou qual condição. Ora, os estados de consciência são fortes na medida em que são 
permanentes. A violação dessas regras não atinge, pois, em suas partes vivas, nem a 
alma comum da sociedade nem mesmo, pelo menos em geral, a dos grupos especiais, não 
podendo por conseguinte determinar senão uma reação muito moderada. Tudo o que 
precisamos é que as funções concorram de uma maneira regular; portanto, se esta regula- 
ridade é abalada, é suficiente que seja restabelecida. Isso não é dizer, seguramente, que 
o desenvolvimento da divisão do trabalho não possa repercutir no direito penal. Existem, 
já o sabemos, funções administrativas e governamentais das quais algumas relações são 
reguladas pelo direito repressivo, por causa do caráter particular do órgão da cons- 
ciência comum e de tudo que a ele se relaciona. Em outros casos, ainda, os elos de soli- 
dariedade que unem certas funções sociais podem ser tais que de sua ruptura resultem 
repercussões demasiadamente gerais para suscitar uma reação penal. Mas, pela razão 
que dissemos, esses contragolpes são excepcionais. 

Definitivamente, esse direito desempenha na sociedade um papel análogo ao do sis- 
tema nervoso no organismo. Este tem como tarefa regular as diferentes funções do corpo, 
de maneira a fazê-las trabalhar harmonicamente: exprime assim, naturalmente, o estado 
de concentração a que chegou o organismo, em decorrência da divisão do trabalho fisio- 
lógico. Igualmente, nas diferentes etapas da escala animal, pode-se medir o grau desta 
concentração segundo o desenvolvimento do sistema nervoso. É dizer que se pode igual- 
mente medir o grau de concentração ao qual chegou uma sociedade em decorrência da 
divisão do trabalho social, segundo o desenvolvimento do direito cooperativo com san- 
ções restituitórias. Prevêem-se todos os serviços que esse critério nos prestará. 


IV 


Porque a solidariedade negativa não produz por si mesma nenhuma integração e 
porque, aliás, não tem nada de específico, reconheceremos apenas dois tipos de solidarie- 
dade positiva, discriminados com as características seguintes: 


"9? Eis por que o direito que regula as relações das funções domésticas não é penal, embora essas funções 
sejam bastante gerais. (N. do A.) 


DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 371 


1.º A primeira liga diretamente o indivíduo à sociedade, sem nenhum interme- 
diário. Na segunda, ele depende da sociedade, porque depende das partes que a 
compõem. 


2.º A sociedade não é vista sob o mesmo aspecto nos dois casos. No primeiro caso, 
o que se designa por este nome é um conjunto mais ou menos organizado de crenças e de 
sentimentos comuns a todos os membros do grupo: é o tipo coletivo. Ao contrário, a 
sociedade à qual somos solidários no segundo caso é um sistema de funções diferentes e 
especiais que unem relações definidas. Aliás, estas duas sociedades são apenas uma. São 
duas faces de uma única e mesma realidade, mas que precisam ser distinguidas. 


3.º Desta segunda diferença decorre uma terceira, que nos vai permitir caracterizar 
e nomear estes dois tipos de solidariedade. 


A primeira só pode ser forte na medida em que as idéias e as tendências comuns a 
todos os membros da sociedade ultrapassam em número e em intensidade as que perten- 
cem pessoalmente a cada um deles. É tanto mais enérgica quanto este excedente é mais 
considerado. Ora, o que faz nossa personalidade é o que cada um de nós tem de próprio | 
e de característico, é o que o distingue dos outros. Portanto, esta solidariedade apenas 
pode crescer na razão inversa da personalidade. Existe em cada uma de nossas consciên- 
cias, nós o dissemos, duas consciências: uma é comum com o nosso grupo inteiro e, por 
conseguinte, não somos nós mesmos, mas a sociedade inteira vivendo e agindo dentro de 
nós. A outra representa, ao contrário, o que temos de pessoal e distinto, o que faz de nós 
um indivíduo.'º8 A solidariedade que deriva das semelhanças está em seu maximum 
quando a consciência coletiva recobre exatamente nossa consciência total e coincide em 
todos os pontos com ela: mas, neste momento, nossa individualidade é nula. Ela só pode 
nascer se a comunidade ocupa menos lugar em nós. Existem aí duas forças contrá- 
rias. uma centripeta e outra centrífuga, que não podem crescer ao mesmo tempo. Não 
podemos desenvolver-nos simultaneamente em dois sentidos tão opostos. Se temos uma 
viva inclinação a pensar e agir por nós mesmos, não podemos estar fortemente inclina- 
dos a pensar e a agir como os outros. Se o ideal é fazer-se uma fisionomia própria e pes- 
soal, não poderia ser o de assemelhar-se a todos. Além do mais, no momento em que a 
solidariedade exerce a sua ação, nossa personalidade se esvai, pode-se dizer, por defini- 
ção; pois não somos mais nós mesmos, mas o ser coletivo. 


As moléculas sociais, que apenas dessa maneira seriam coerentes, só poderiam pois 
mover-se com o conjunto na medida em que não têm movimentos próprios, como o 
fazem as moléculas dos corpos inorgânicos. É por isso que propomos chamar mecânica 
essa espécie de solidariedade. Esta palavra não significa que seja produzida por meios 
mecânicos e artificialmente. Chamamo-la assim apenas pela analogia com a coesão que 
une entre si os elementos dos corpos brutos, em oposição àquela que faz a unidade dos 
corpos vivos. O que completa para justificar esta denominação é o fato de o elo que une 
assim o indivíduo à sociedade ser completamente análogo aquele que liga a coisa à pes- 
soa. A consciência individual, considerada sob este aspecto, é uma simples dependência 
do tipo coletivo, que segue todos os seus movimentos, assim como o objeto possuído 
segue aqueles que lhe imprime seu proprietário. Nas sociedades em que esta solidarie- 
dade é muito desenvolvida, o indivíduo não se pertence, nós o veremos mais adiante: ele 


ê literalmente uma coisa da qual a sociedade dispõe. Igualmente, nesses mesmos tipos 
sociais, OS direitos pessoais não se distinguem ainda dos direitos reais. 

É completamente diferente a solidariedade produzida pela divisão do trabalho. 
Enquanto a precedente implica que os indivíduos se assemelhem, esta supõe que difiram 


198 Entretanto, essas duas consciências não são regiões geograficamente distintas de nós mesmos. mas 
penetram-se por todos os lados. (N. do A.) 


372 DURKHEIM 


uns dos outros. A primeira só é possível na medida em que a personalidade individual é 
absorvida pela personalidade coletiva. A segunda é apenas possível se cada um tem uma 
esfera de ação que lhe é própria, por conseguinte, uma personalidade. É preciso, pois, 
que a consciência coletiva deixe descoberta uma parte da consciência individual, para 
que aí se estabeleçam estas funções especiais que ela não pode regulamentar; quanto 
mais extensa esta região, tanto mais forte é a coesão resultante desta solidariedade. Por 
outro lado, cada um depende tanto mais estreitamente da sociedade quanto mais dividido 
é o trabalho, e, além disto, a atividade de cada um é tanto mais pessoal quanto mais 
especializada. Sem dúvida, por mais circunscrita que seja, não é jamais completamente 
original; mesmo no exercício de nossa profissão, conformamo-nos a usos, a práticas que 
nos são comuns com toda a nossa corporação. Mas, mesmo nesse caso, o jugo que sofre- 
mos é menos pesado do que quando a sociedade inteira pesa sobre nós, e deixa muito 
mais lugar à livre ação de nossa iniciativa. Portanto, aqui a individualidade do todo cres- 
ce ao mesmo tempo que a das partes; a sociedade torna-se mais capaz de mover-se como 
conjunto, ao mesmo tempo que cada um de seus elementos tem mais movimentos pró- 
prios. Esta solidariedade assemelha-se aquela que se observa nos animais superiores. 
Cada órgão aqui tem sua fisionomia especial, sua autonomia e, entretanto, a unidade do 
organismo é tanto maior quanto mais marcada é a individuação das partes. Em razão 
desta analogia, propomos chamar orgânica a solidariedade devida à divisão do trabalho. 

Ao mesmo tempo, este capítulo e o precedente nos fornecem os meios de calcular a 
parte que cabe a cada um desses elos sociais no resultado total e comum que concorrem 
a produzir por vias diferentes. Sabemos sob quais formas exteriores se simbolizam estes 
dois tipos de solidariedade, isto é, qual corpo de regras jurídicas corresponde a cada um 
deles. Por conseguinte, para conhecer sua importância respectiva num tipo social dado, 
é suficiente comparar a extensão respectiva dos dois tipos de direitos que os exprimem, 
porque o direito varia sempre como as relações sociais que regula. !ºº 


"09 Para precisar as idéias. desenvolvemos no quadro seguinte a classificação das regras jurídicas. implici- 
tamente encerrada neste capítulo e no precedente: 


| — Regras com sanção repressiva organizada. 
Il — Regras com sanções restituitórias determinando: 
Da coisa com a * Direito de propriedade sob suas diversas formas 
j (mobiliária, imobiliária, etc.). 
Relações pessoa. Modalidades diversas do direito de propriedade 
(servidão, usufruto, etc.). 
negativas 
ou de abstenção ( Determinadas pelo exercício normal dos direitos 
reais. 
Das pessoas entre si. | Determinadas pela violação faltosa dos direitos 
reais. 
Entre as funções domésticas. 
Entre as funções eco- Relações contratuais em geral. 
nômicas difusas. Contratos especiais. 
Relações 
positivas Das funções Entre si. 
ou de coo- administrativas. | Com as funções governamentais. 
peração Com as funções difusas da sociedade. 
Das funções go- Entre si. 
vernamentais. Com as funções administrativas. 
Com as funções políticas difusas. 


(N. do A.) 


ÉMILE DURKHEIM 


AS REGRAS DO 
MÉTODO SOCIOLÓGICO 


TRADUÇAO DE DRA. 


PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO 


Estamos tão pouco habituados a tratar cientificamente os fatos sociais que certas 
proposições contidas nesta obra correm o risco de surpreender o leitor. No entanto, se 
existe uma ciência das sociedades, é de desejar que ela não consista simplesmente numa 
paráfrase dos preconceitos tradicionais, mas nos faça ver as coisas de maneira diferente 
da sua aparência vulgar; de fato, o objeto de qualquer ciência é fazer descobertas, e toda 
descoberta desconcerta mais ou menos as opiniões herdadas. Desde que, em sociologia, 
não se conceda ao senso comum uma autoridade que há muito deixou de possuir nas ou- 
tras ciências — e que não vemos em que é que se poderia fundamentar —, é dever do 
estudioso não se deixar intimidar pelos resultados a que conduzem as suas investigações, 
na condição de elas terem sido metodicamente conduzidas. Se procurar o paradoxo é 
apanágio do sofista, não o enfrentar, quando os fatos o impõem, é próprio de um espírito 
sem coragem ou sem fé na ciência. 

Infelizmente, é em princípio mais fácil admitir esta regra teoricamente do que apli- 
cá-la com perseverança. Estamos ainda demasiado habituados a equacionar todos estes 
problemas de acordo com as sugestões do senso comum, para que possamos sem dificul- 
dade mantê-lo afastado das discussões sociológicas. No preciso momento em que julga- 
mos tê-lo abandonado, estamos por vezes a submeter-nos aos seus juízos sem que demos 
por isso. Nada, para além de uma longa prática especializada, nos pode acautelar contra 
tais fraquezas. É isto que pedimos ao leitor para não perder de vista. Para ter sempre em 
mente que os modos de pensar a que está melhor afeito são mais contrários do que favo- 
ráveis ao estudo científico dos fenômenos sociais e, por conseguinte, que deve acautelar- 
se com as suas primeiras impressões. Se a elas se abandonar sem resistência, arrisca-se 
a julgar-nos sem nos ter compreendido. Assim, poderia acontecer que viesse a acusar-nos 
de termos querido absolver o crime, a pretexto de fazermos dele um fenômeno de sociolo- 
gia normal. No entanto, a objeção seria pueril pois que, se em todas as sociedades é nor- 
mal a existência do crime, não é menos normal que ele seja punido. A instituição de um 
sistema repressivo não é fato menos universal do que a existência de uma criminalidade, 
nem menos indispensável à sanidade coletiva. Para que não houvesse crimes seria neces- 
sário um nivelamento das consciências individuais, o que, por razões mais adiante indi- 
cadas, não é possível nem desejável; mas, para que não houvesse repressão, não devia 
haver homogeneidade moral, o que é irreconciliável com a existência de uma sociedade. 
Simplesmente, partindo do fato de que o crime é detestado e detestável, o senso comum 
conclui, erradamente, que ele poderia muito bem desaparecer completamente. Com o seu 
simplismo habitual, não concebe que uma coisa que repugna possa ter qualquer razão 
para ser útil; no entanto, não há nisso contradição alguma. Não há no organismo fun- 
ções repugnantes cujo funcionamento regular é necessário à saúde individual. Não detes- 


376 DURKHEIM 


tamos nós o sofrimento e, no entanto, um ser que o não conhecesse não seria um mons- 
tro? O caráter normal de uma coisa e o sentimento de afastamento que ela inspira podem 
mesmo ser solidários. Se a dor é um fato normal, é-o na condição de não ser amada; se 
o crime é normal, é-o na condição de ser detestado. ' O nosso método não tem, portanto, 
nada de revolucionário. É até, num certo sentido, essencialmente conservador, uma vez 
que considera os fatos sociais como coisas cuja natureza, por mais elástica e maleável 
que seja, não é, no entanto, modificável à nossa vontade. Muito mais perigosa é a dou- 
trina que vê apenas na sociedade o produto de combinações mentais, que um simples 
artifício dialético pode, num instante, revolver de uma ponta a outra. 

Do mesmo modo, uma vez que estamos habituados a imaginar a vida social como 
o desenvolvimento lógico de conceitos ideais, julgaremos talvez grosseiro um método 
que faça depender a evolução coletiva de condições objetivas, definidas no espaço, e não 
é de todo impossível que sejamos tratados como materialistas. No entanto, poderíamos 
reivindicar a qualificação contrária. Com efeito, não consiste a essência do espiritua- 
lismo na idéia de que os fenômenos psíquicos não podem ser imediatamente deduzidos 
dos fenômenos orgânicos? Ora, o nosso método não é, em parte, mais do que uma apli- 
cação deste princípio aos fatos sociais. Tal como os espiritualistas separam o reino 
psicológico do reino biológico, nós separamos o primeiro do reino social; e, tal como 
eles, recusamo-nos a explicar o mais complexo pelo mais simples. Contudo, nem uma 
nem outra apelação nos convêm exatamente; a única que aceitaríamos seria a de racio- 
nalista. O nosso principal objetivo, com efeito, é o de estender à conduta humana o racio- 
nalismo científico, fazendo ver que, considerado no passado, ele é redutível a relações de 
causa a efeito que uma operação não menos racional pode transformar seguidamente em 
regras de ação para o futuro. Aquilo a que se chamou o nosso positivismo é apenas uma 
consegiiência deste racionalismo.? Não poderemos cair na tentação de ultrapassar os 
fatos, quer para os explicar quer para os dirigir no seu curso, salvo na medida em que os 
supusermos irracionais. Se eles são inteiramente inteligíveis, então bastam tanto à ciên- 
cia como à pratica: à ciência porque, nesse caso, não há motivo para procurar fora deles 
próprios as suas razões de ser; e à prática, porque o seu valor útil é uma destas razões. 
Parece-nos portanto que, sobretudo nesta época de renascente misticismo, um tal 
empreendimento pode e deve ser acolhido sem inquietude e mesmo com simpatia por 
todos os que, divergindo de nós em alguns pontos, compartilham conosco a fé no futuro 
da razão. 


" Mas, objetam-nos, se a saúde contém elementos detestáveis, como podemos apresentá-la, tal como o faze- 


mos mais adiante, como o objetivo imediato da conduta? Continua a não haver nisso qualquer contradição. 
É frequente que uma coisa, sendo nociva por algumas das suas consequências, seja, por outras, útil e mesmo 
necessária à vida; ora, se os seus maus efeitos são regularmente neutralizados por uma influência contrária, 
acontece de fato que ela serve sem prejudicar, continuando no entanto a ser detestável, visto não deixar de 
constituir por si própria um perigo eventual, só conjurado pela ação de uma força antagônica. É o caso do 
crime: o mal que faz à sociedade é anulacio pela pena, se esta funcionar regularmente. Portanto, desde que 
não produza o mal que implica, sustenta com as condições fundamentais da vida social as relações positivas 
que a seguir veremos. No entanto, como é por existir que, por assim dizer, se pode torná-lo inofensivo, os 
sentimentos de aversão para com o crime não deixam de ser fundamentados. 

? Quer dizer que não deve ser confundido com a metafísica positiva de Comte e de Spencer. 


PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO 


Quando este livro apareceu pela primeira vez, suscitou controvérsias bastante vivas. 
As idéias correntes, como que desconcertadas, resistiram, a princípio, com uma tal ener 
gia que, durante algum tempo, foi quase impossível fazermo-nos ouvir. Mesmo sobre os 
pontos em que nos exprimíramos mais explicitamente, foram-nos atribuídos gratuita: 
mente pontos de vista que nada tinham de comum com os nossos, e houve quem julgasse 
refutar-nos rebatendo-os. Apesar de termos declarado em muitas ocasiões que a cons: 
ciência, tanto a individual como a social, não era para nós nada de substancial mas ape. 
nas um conjunto mais ou menos sistematizado de fenômenos sui generis, acusaram-nos 
de realismo e de ontologismo. Apesar de termos dito expressamente e repetido de todas 
as maneiras que a vida social era inteiramente feita de representações, acusaram-nos de 
eliminar o elemento mental da sociologia. Houve mesmo quem chegasse ao ponto de res- 
taurar contra nós processos de discussão que se poderia julgar terem definitivamente 
desaparecido. Imputaram-nos, com efeito, certas opiniões que não havíamos sustentado, 
com o pretexto de estarem “de acordo com os nossos princípios”. A experiência provara 
já, no entanto, todos os perigos deste método que, permitindo construir arbitrariamente 
os sistemas em discussão, permite também destruí-los sem dificuldade. 

Julgamos não estarmos a gabar-nos ao dizer que, depois, as resistênciaas foram 
progressivamente enfraquecendo. Sem dúvida, é-nos ainda contestada mais do que uma 
proposição. Mas não nos poderíamos queixar ou espantar com essas contestações saluta- 
res; é perfeitamente claro que as nossas fórmulas deverão sofrer remodelações futuras. 
Sendo o resumo de uma prática pessoal e, forçosamente, restrita, as fórmulas evoluirão 
necessariamente à medida que formos adquirindo uma experiência mais extensa e mais 
profunda da realidade social. Em questões de método, aliás, só é possível fazer-se algo de 
provisório, já que os métodos mudam à medida que a ciência avança. Mas não é menos 
verdade que, durante estes últimos anos, e a despeito das oposições, a causa da sociolo- 
gia objetiva, específica e metódica, tenha ganho terreno sem cessar. A fundação de 
L Année Sociologique teve, certamente, bastante influência neste resultado. Abarcando 
simultameamente todo o domínio da ciência, permitiu assim, melhor do que qualquer 
outra obra especial, dar a antever o que a sociologia pode e deve alcançar. Revelou-se que 
ela não estava condenada a permanecer um mero ramo da filosofia geral e que, por outro 
lado, podia tomar contato com os detalhes dos fatos sem degenerar em pura erudição. 
Por isso, nunca será excessiva a homenagem que prestarmos ao ardor e à devoção dos 
nossos colaboradores; foi graças a eles que esta demonstração pelos fatos póde ser tenta 
da e póde prosseguir. 

No entanto, por muito efetivos que sejam estes progressos, é incontestável que os 
enganos e as confusões passadas não estão ainda inteiramente dissipados. É esse o moti- 


378 DURKHEIM 


vo por que gostariamos de aproveitar esta segunda edição para juntar algumas explica- 
ções a todas quantas já demos, responder a certas críticas e precisar alguns dos pontos 
focados. 


A proposição segundo a qual os fatos sociais devem ser tratados como coisas — 
proposição que se situa na base do nosso método — foi das que provocaram mais 
controvérsias. Houve quem achasse paradoxal e escandaloso que tivéssemos assimilado 
às realidades do mundo exterior as realidades do mundo social. Trata-se de um singular 
engano sobre o sentido e o alcance desta assimilação, cujo objetivo não é o de rebaixar 
as formas superiores do ser até às formas inferiores mas, pelo contrário, é reivindicar 
para as primeiras um grau de realidade pelo menos igual ao que é por todos reconhecido 
as segundas. Não afirmamos, com efeito, que os fatos sociais são coisas materiais, mas 
sim que são coisas, tal como as materiais, embora de uma outra maneira. 

Em que consiste, então, uma coisa? A coisa opõe-se à idéia como o que conhecemos 
do exterior se opõe ao que conhecemos do interior. É coisa todo objeto de conhecimento 
que não é naturalmente compenetrável pela inteligência, tudo aquilo de que não podemos 
ter uma noção adequada por um simples procedimento de análise mental, tudo o que o 
espirito só consegue compreender na condição de se extroverter por meio de observações 
e de experimentações, passando progressivamente dos caracteres mais externos e mais 
imediatamente acessíveis aos menos visíveis e aos mais profundos. Tratar certos fatos 
como coisas não é, portanto, classificá-los numa ou noutra categoria do real: é ter para 
com eles uma certa atitude mental; é abordar o seu estudo partindo do princípio de que 
se desconhecem por completo e que as suas propriedades características, tal como as 
causas de que dependem, não podem ser descobertas pela introspecção, por mais atenta 
que seja. 

Definida nestes termos, a nossa proposição, longe de constituir um paradoxo, pode- 
ria quase passar por um truísmo se não fosse tão frequentemente ignorada nas ciências 
que tratam do homem, e, sobretudo, na sociologia. Com efeito, pode dizer-se, neste senti- 
do, que o objeto de qualquer ciência é uma coisa, salvo, talvez, os objetos matemáticos, 
pois, por sermos nós quem os constrói, desde os mais simples aos mais complexos, basta- 
rá, para os conhecermos, que olhemos para dentro de nós mesmos e analisemos interior- 
mente o processo mental de que resultaram. Mas, desde que se trate de fatos propria- 
mente ditos, são para nós, no momento de elaborar a sua ciência, necessariamente 
desconhecidos, coisas ignoradas, pois as representações que deles fizemos ao longo da 
vida, tendo sido levadas a cabo sem método e sem crítica, são desprovidas de valor cien- 
tífico e devem pór-se de parte. Até mesmo os fatos da psicologia individual apresentam 
esta característica e devem encarar-se sob este aspecto. Na verdade, ainda que nos sejam 
interiores por definição, a consciência que deles temos não nos revela a sua natureza 
interna nem a sua gênese. Conhecemo-los até certo ponto, mas de modo semelhante às 
sensações que nos dão a conhecer o calor ou a luz, o som ou a eletricidade; a consciência 
dá-nos a seu respeito impressões confusas, passageiras, subjetivas, mas não noções cla- 
ras e distintas, conceitos explicativos. É este precisamente o motivo por que foi criada 
neste século uma psicologia objetiva, cuja regra fundamental é a de estudar os fatos men- 
tais a partir do exterior, isto é, como coisas. Por maioria de razão, o mesmo se deverá 
aplicar aos fatos sociais, porquanto a consciência não poderia ser mais competente para 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 379 


os conhecer do que para conhecer os que lhe são próprios* — ao que se objetará que, 
sendo eles obra nossa, não temos mais do que tomar consciência de nós próprios para 
saber como e com que é que os formamos. Mas, em primeiro lugar, a maior parte das 
instituições sociais ê-nos legada já elaborada pelas gerações anteriores, pelo que não 
tomamos parte alguma na sua formação e, por conseguinte, não é interrogando-nos que 
poderemos descobrir as causas que lhes deram origem. Além disso, mesmo que tivés- 
semos colaborado na sua gênese, seria com dificuldade que entreveríamos, da maneira 
mais confusa e por vezes a menos exata, as verdadeiras razões que nos teriam levado a 
agir e a natureza da nossa ação. Até mesmo quando se trata simplesmente dos nossos 
empreendimentos privados, sabemos bem mal quais os móbiles relativamente simples 
que nos guiam: cremo-nos desinteressados quando agimos como egoístas, julgamos obe- 
decer ao ódio quando cedemos ao amor, e à razão quando somos escravos de precon- 
ceitos irracionais, etc. Como poderíamos, então, possuir a faculdade de discernir com 
mais clareza as causas muito mais complexas de que procedem os empreendimentos da 
coletividade se, no máximo, cada um de nós toma parte neles apenas numa infima parte? 
Cada um de nós tem uma multidão de colaboradores, e o que se passa nas outras cons- 
ciências escapa-nos. 

A nossa regra não implica, portanto, qualquer concepção metafísica, qualquer espe- 
culação sobre o mais fundo dos seres. O que ela reclama do sociólogo é que este adote 
o estado de espírito em que se colocam os físicos, químicos ou fisiologistas, quando se 
embrenham numa região ainda inexplorada do seu domínio científico. O sociólogo, ao 
penetrar no mundo social, precisa ter consciência de que penetra no desconhecido; é pre- 
ciso que ele se sinta em presença de fatos cujas leis lhe são tão insuspeitas como eram as 
da vida antes da biologia se ter constituído; é preciso que esteja preparado para fazer 
descobertas que o surpreenderão e o desconcertarão. Ora, falta à sociologia atingir este 
grau de maturidade intelectual. Enquanto que o estudioso da natureza física tem a viva 
sensação das resistências que ela lhe opõe e da dificuldade que experimenta para triunfar. 
parece, em boa verdade, que o sociólogo se move no meio de coisas imediatamente trans- 
parentes ao espírito, tão grande é a facilidade com que o vemos resolver as questões mais 
obscuras. No estado atual da ciência, não sabemos verdadeiramente o que são sequer as 
primeiras instituições sociais, como o Estado ou a família, o direito de propriedade ou o 
contrato, a pena e a responsabilidade; ignoramos quase completamente as causas de que 
dependem, as funções que desempenham, as leis da sua evolução; mal começamos, nal- 
guns pontos, a entrever algumas luzes. E, no entanto, basta percorrer as obras de sociolo- 
gia para ver como é rara a consciência desta ignorância e destas dificuldades. Não 
somente as pessoas se consideram obrigadas a dogmatizar sobre todos os problemas ao 
mesmo tempo, mas ainda por cima crêem poder, nalgumas páginas ou nalgumas frases, 
atingir a própria essência dos fenômenos mais complexos. Tais teorias exprimem, não os 
fatos, impossíveis de serem esgotados com essa rapidez, mas a noção prévia que deles 
tem o autor antes da pesquisa. E a idéia que temos das práticas coletivas, do que são ou 
do que devem ser, é sem dúvida um fator do seu desenvolvimento. Mas esta idéia é em 
si mesma um fato que, para ser convenientemente determinado, deve, por sua vez, ser 
estudado a partir do exterior, pois o que importa saber não é a maneira como um qual- 
quer pensador analisa uma dada instituição, mas a concepção que dela tem o grupo; esta 


3 Vê-se que, para admitir esta proposição, não é necessário sustentar que a vida social seja constituída por 
algo mais do que representações; basta estabelecer que as representações, individuais ou coletivas, só podem 
ser estudadas cientificamente na condição de o serem objetivamente. 


380 DURKHEIM 


última é, com efeito, a única socialmente eficaz. Ora, ela não pode ser conhecida por sim- 
ples observação interior, na medida em que não se encontra integralmente em nenhum de 
nós; é preciso, portanto, encontrar alguns sinais exteriores que a tornem sensível. Além 
disso, não nasceu do nada; é um efeito de causas externas que é preciso conhecer para 
poder apreciar o seu papel no futuro. Faça-se o que se fizer, é sempre necessário recorrer 
ao mesmo método. 


H 


Foi discutida uma outra proposição, não menos vivamente do que a anterior, na 
qual se apresentam os fenômenos sociais como exteriores ao indivíduo. Hoje em dia, 
admite-se de boa vontade que os fatos da vida individual e da vida coletiva são heterogê- 
neos; pode mesmo dizer-se que se esboça um acordo, se não unânime, pelo menos bas- 
tante generalizado, acerca deste ponto. Já não há sociólogos que neguem especificidade 
à sociologia. Mas, porque a sociedade é composta de indivíduos, * parece ao senso 
comum que a vida social não pode ter outro substrato além da consciência individual; de 
outro modo, pareceria flutuar, planar no vazio. 

No entanto, o que se julga tão facilmente inadmissível quando se trata dos fatos 
sociais é correntemente admitido noutros domínios da natureza. Sempre que um certo 
número de elementos, sejam eles quais forem, ao combinarem-se, e pelo fato de se combi- 
narem, provocam fenômenos novos, é preciso conceber esses fenômenos como resul- 
tando não dos elementos isolados, mas do todo formado pela sua união. A célula viva 
nada possui para além das partículas minerais, tal como a sociedade nada possui para 
alêm dos indivíduos; e, no entanto, é evidentemente impossível que os fenômenos carac- 
terísticos da vida residam nos átomos de hidrogênio, de oxigênio, de carbono e de azoto. 
Como se poderiam produzir os movimentos vitais no seio de elementos não-vivos? 
Como se repartiriam as propriedades biológicas entre os elementos? Não poderiam 
encontrar-se igualmente em todos, visto não terem a mesma natureza: o carbono não é o 
azoto e, por conseguinte, não pode assumir as mesmas propriedades nem desempenhar o 
mesmo papel. Não é menos inadmissível que cada aspecto da vida, cada uma das suas 
características principais, se encarne num grupo diferente de átomos. A vida não poderia 
decompor-se deste modo; ela é una e, consequentemente, só pode resultar da substância 
viva na sua totalidade. Reside no todo e não nas partes. Não são as partículas não-vivas 
que se reproduzem, se alimentam, isto é, que vivem; é a própria célula, e só ela. E o que 
dizemos da vida poderia repetir-se para todas as sínteses possíveis. A dureza do bronze 
não reside no cobre, no estanho ou no chumbo que serviram para o formar, e que são 
corpos moles e dúcteis, mas sim na sua mistura. A fluidez da água, as suas propriedades 
alimentares e outras não se encontram nos dois gases que a compõem, mas na substância 
complexa resultante da sua associação. 

Apliquemos este princípio à sociologia. Se, como nos concedem, essa síntese sui 
generis que é uma qualquer sociedade dá origem a fenômenos novos, diferentes dos que 
ocorrem nas consciências solitárias, é necessário admitir que esses fatos específicos resi- 
dem na sociedade que os produz e não nas suas partes, quer dizer, nos seus membros. 
São, portanto, neste sentido, exteriores as consciências individuais consideradas como 
tais, do mesmo modo que os caracteres distintivos da vida são exteriores às substâncias 


* A proposição só é, aliás, parcialmente exata. Para além dos indivíduos, há as coisas, que são elementos 
integrantes da sociedade. É apenas verdade que os indivíduos são os seus únicos elementos vivos e ativos. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 381 


minerais que formam o ser vivo. Não podemos assimilá-los aos elementos sem nos 
contradizermos, uma vez que, por definição, supõem algo mais do que está contido nes- 
ses mesmos elementos. Está assim justificada a separação que atrás estabelecemos entre 
psicologia propriamente dita, ou ciência do indivíduo mental, e sociologia. Os fatos 
sociais não diferem dos fatos psíquicos apenas qualitativamente; têm um outro substrato, 
não evoluem no mesmo meio, e não dependem das mesmas condições. Isto não significa 
que não sejam também psíquicos, em certa medida, pelo fato de todos eles consistirem 
em maneiras de pensar ou de agir. Mas os estados de consciência coletiva são de natu- 
reza diferente da dos estados de consciência individual; são representações de outro tipo. 
A mentalidade dos grupos não é a dos particulares; tem as suas leis próprias. As duas 
ciências, portanto, são tão nitidamente distintas quanto o podem ser duas ciências, quais- 
quer que sejam as relações existentes entre elas. 

Todavia, este ponto requer uma distinção que lançará, talvez, alguma luz sobre o 
debate. 

Parece-nos pura evidência que a matéria da vida social não se possa explicar por 
fatos puramente psicológicos, quer dizer, por estados da consciência individual. Com 
efeito, as representações coletivas traduzem a maneira como o grupo se pensa nas suas 
relações com os objetos que o afetam. Ora, o grupo é constituído de modo diferente do 
indivíduo e as coisas que o afetam são de uma outra natureza. Logo, representações que 
não exprimem nem os mesmos sujeitos nem os mesmos objetos não poderiam depender 
das mesmas causas. Para compreender a maneira como a sociedade se representa a si 
própria e ao mundo que a rodeia, precisamos considerar a natureza da sociedade e não 
a dos particulares. Os simbolos com que ela se pensa mudam de acordo com a sua natu- 
reza. Se, por exemplo, ela se concebe como saída de um animal epônimo, é porque forma 
um desses grupos especiais a que se dá o nome de clãs; e, sempre que esse animal for 
substituído por um antepassado humano, mas igualmente mítico, significa que o clã 
mudou de natureza. Se, acima das divindades locais ou familiares, ela imagina outras de 
que julga depender, quer dizer que os grupos locais e familiares de que se compõe tendem 
a concentrar-se e unificar-se, correpondendo o grau de unidade de um panteão religioso 
ao grau de unidade atingido no mesmo momento pela sociedade. Se ela condena certos 
modos de conduta, é porque entram em choque com alguns dos seus sentimentos funda- 
mentais, sentimentos esses que pertencem à sua constituição, tal como os sentimentos do 
indivíduo pertencem ao seu temperamento físico e à sua organização mental. Assim, 
mesmo que a psicologia individual não tivesse já segredos para nós, seria incapaz de nos 
dar a solução de qualquer destes problemas, uma vez que eles se referem a categorias de 
fatos por ela ignorados. 

Mas, uma vez reconhecida esta heterogeneidade, poderíamos perguntar se as repre- 
sentações individuais e as representações coletivas não se assemelharão pelo fato de 
serem ambas representações, e se, devido a essas semelhanças, certas leis abstratas não 
seriam comuns aos dois reinos. Os mitos, as lendas populares, as concepções religiosas 
de todas as espécies, as crenças morais, etc. exprimem uma realidade diferente da reali- 
dade individual; mas poderia acontecer que o modo como se atraem ou repelem, se agre- 
gam ou desagregam, fosse independente do seu conteúdo e estivesse apenas ligado à sua 
qualidade geral de representações. Sendo feitos de um material diferente, comportar-se- 
iam nas suas relações mútuas como as sensações, as imagens ou as idéias no indivíduo. 
Não se poderia pensar, por exemplo, que a contigúidade e a semelhança, os contrastes e 
os antagonismos lógicos atuam da mesma maneira quaisquer que sejam as coisas repre- 
sentadas? Chega assim a conceber-se a possibilidade de uma psicologia formal que seria 


382 DURKHEIM 


uma espécie de terreno comum à psicologia individual e à sociologia; e é possivelmente 
esta consideração que dá origem aos escrúpulos de certos espíritos em distinguir dema- 
siado nitidamente estas duas ciências. 

Para falar com todo o rigor, e no estado atual dos nossos conhecimentos, a questão 
posta nestes termos não poderia ter uma solução categórica. Por um lado, tudo o que 
sabemos sobre o modo como se combinam as idéias individuais reduz-se a algumas 
proposições muito gerais e muito vagas, a que se chama vulgarmente leis da associação 
das idéias. E, quanto às leis da ideação coletiva, são ainda mais completamente ignora- 
das. A psicologia social, que deveria ter por tarefa a sua determinação, limita-se a ser 
uma designação para toda espécie de generalidades, variadas e imprecisas, sem objeto 
definido. O que seria necessário procurar, pela comparação dos temas míticos, das len- 
das e das tradições populares, bem como das línguas, seria o modo como as representa- 
ções sociais se atraem ou se excluem, se fundem entre si ou se distinguem, etc. Ora, em- 
bora o problema merecesse a curiosidade dos investigadores, mal podemos dizer que ele 
tenha sido abordado; e, enquanto não se tiverem encontrado algumas dessas leis, será 
evidentemente impossível saber com exatidão se elas repetem ou não as da psicologia 
individual. 

No entanto, à falta de uma certeza, é pelo menos provável que, existindo seme- 
lhanças entre estas duas espécies de leis, as diferenças entre elas não devam ser menos ní- 
tidas. Parece com efeito inadmissível que a matéria de que são feitas as representações 
não tenha influência nos seus modos de combinação. É certo que os psicólogos falam às 
vezes das leis da associação de idéias como se fossem as mesmas para todas as espécies 
de representações individuais. Mas nada é menos verossímil: as imagens não se com- 
põem entre si como as sensações, nem os conceitos como as imagens. Se a psicologia 
estivesse mais avançada constataria, certamente, que cada categoria de estados mentais 
tem as suas leis formais próprias. Assim sendo, deveremos esperar a fortiori que as leis 
correspondentes ao pensamento social sejam específicas, tal como esté pensamento o é 
em si mesmo. Efetivamente, por pouco que tenhamos contatado com esta ordem de fatos, 
é difícil não sentir essa especificidade. Não é ela, com efeito, quem nos faz parecer tão 
estranha a maneira especial como as concepções religiosas (coletivas por excelência) se 
misturam, se separam, se transformam umas nas outras dando origem a resultantes 
contraditórias com os produtos vulgares do nosso pensamento privado? Se, como é de 
presumir, certas leis da mentalidade social lembram efetivamente as que são estabele- 
cidas pelos psicólogos, não quer dizer que as primeiras sejam um simples caso particular 
das segundas, mas sim que entre umas e outras, embora paralelamente a diferenças subs- 
tanciais, há semelhanças que abstrativamente se poderão isolar, mas que são ainda igno- 
radas. Quer dizer: em caso algum a sociologia poderia pura e simplesmente servir-se 
desta ou daquela proposição da psicologia para a aplicar tal e qual aos fatos sociais. O 
pensamento coletivo global deve ser estudado, tanto na forma como no conteúdo, por sí 
e em si mesmo, na sua especificidade, deixando para o futuro a tarefa de procurar em que 
medida ele se parece com o pensamento dos particulares. Trata-se de um problema que 
pertence mais ao âmbito da filosofia geral e da lógica abstrata do que ao estudo cientí- 
fico dos fatos sociais. º 


* É inútil mostrar como, deste ponto de vista, a necessidade de estudar os fatos a partir do exterior surge 
ainda mais evidente, visto eles resultarem de sínteses que têm lugar fora de nós e das quais não temos sequer 
a percepção confusa que a consciência nos pode dar dos fenômenos interiores. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 383 


III 


Resta-nos dizer algumas palavras sobre a definição dos fatos sociais dada por nós 
no primeiro capítulo. Fizemo-los consistir em maneiras de fazer ou pensar, reconhecíveis 
pela particularidade de serem suscetíveis de exercer uma influência coerciva sobre as 
consciências particulares. Produziu-se a este respeito uma confusão que merece ser 
apontada. 

É de tal modo habitual aplicar às coisas da sociologia as formas do pensamento 
filosófico, que esta nossa definição preliminar foi frequentemente considerada como uma 
espécie de filosofia do fato social, na qual, segundo se disse, explicaríamos os fenômenos 
sociais pela coação, do mesmo modo que Tarde os explica pela imitação. Não tínhamos 
tal ambição nem sequer nos ocorrera que no-la pudessem atribuir, tão contrária ela é a 
qualquer método. O que pretendiamos não era antecipar as conclusões da ciência por 
uma visão filosófica mas, simplesmente, indicar quais os sinais exteriores que permitem 
reconhecer os fatos do domínio da sociologia, a fim de que o estudioso possa aperceber- 
se deles e não os confundir com outros. Tratava-se de delimitar o campo de pesquisas tão 
corretamente quanto possível, e não de nos embrenharmos numa espécie de intuição 
exaustiva. Assim, aceitamos de bom grado as censuras que foram feitas a esta definição 
por não exprimir todos os caracteres do fato social e, consequentemente, por não ser a 
única possível. Nada há, com efeito, de inconcebível no fato de ele poder caracterizar-se 
de várias maneiras diferentes; não há qualquer razão para que tenha uma única proprie- 
dade distintiva. 8 Tudo o que importa é escolher a que parece melhor para o fim que nos 
propomos. É mesmo possível utilizar correntemente vários critérios, de acordo com as 
circunstâncias. E foi o que nós reconhecemos ser por vezes necessário em sociologia; há 
casos em que o caráter coercivo não é facilmente reconhecível (ver pág. 392). Tudo quan- 
to é necessário, desde que se trate de uma definição inicial, é que as características de que 
nos servimos sejam imediatamente discerníveis e possam ser percebidas antes da pesqui- 
sa. Ora, é esta a condição a que não satisfazem as definições que por vezes opuseram à 
nossa. Disse-se, por exemplo, que o fato social é tudo o que é produzido na e pela socie- 
dade, ou, ainda, o que interessa e afeta o grupo de qualquer modo. Mas não se pode saber 
se a sociedade é ou não a causa de um fato, ou se esse fato tem efeitos sociais, a não ser 
quando a ciência está já avançada. Tais definições não poderiam, portanto, servir para 
determinar o objeto da investigação no set começo. Para as podermos utilizar será preci- 
so que o estudo dos fatos sociais tenha ido já suficientemente longe e, por conseguinte, se 
tenha descoberto previamente um outro meio de os reconhecer onde quer que se 


encontrem. 
A pat dos que acharam a nossa definição demasiado estreita, houve também quem 


a acusasse dé ser excessivamente lata e abarcar assim quase todo o real. Com efeito, dis- 


8 O poder coercivo que lhes atribuímos é em tão fraca medida característico dos fatos sociais que eles 
podem igualmente apresentar o caráter oposto. Na verdade, apesar das instituições se nos imporem nós ama- 
mo-las e conservamo-las; e, apesar de nos constrangerem, lucramos com o seu funcionamento e, até, com 
esse constrangimento. Tal antítese equivale à assinalada pelos moralistas entre as noções de bem e de dever, 
definidoras de dois aspectos diferentes, mas igualmente reais, da vida moral. Ora, não há talvez práticas 
coletivas que não exerçam sobre nós esta dupla ação, aliás só contraditória na aparência. Se não as defini- 
mos por esse apego que lhes tributamos, simultaneamente interessado e desinteressado, foi simplesmente 
pelo fato de ele não se manifestar através de sinais exteriores facilmente perceptíveis. O bem tem algo mais 
de interno e mais íntimo que o dever, sendo portanto menos compreensível. 


384 DURKHEIM 


se-se que todo meio físico exerce uma pressão sobre os seres submetidos à sua ação, uma 
vez que estes são, numa certa medida, obrigados a adaptar-se a ele. Mas há entre estes 
dois modos de coerção toda a diferença que separa um meio físico de um meio moral. A 
pressão exercida por um ou mais corpos sobre outros corpos, ou mesmo sobre as vonta- 
des, não é confundível com a exercida pela consciência de um grupo sobre a consciência 
dos seus membros. O que há de perfeitamente característico na pressão social é o fato de 
ela se dever, não à rigidez de certos arranjos moleculares, mas ao prestígio de que usu- 
fruem certas representações. É verdade que os hábitos individuais ou hereditários têm, 
sob certos pontos de vista, esta mesma propriedade: dominam-nos, impõôem-nos crenças 
ou práticas. Só que nos dominam a partir do interior, visto estarem inteiramente em cada 
um de nós. Pelo contrário, as crenças e as práticas sociais atuam sobre nós a partir do 
exterior, pelo que o ascendente exercido por umas e por outras é, no fundo, muito 
diferente. 


Não nos devemos espantar, aliás, que outros fenômenos da natureza apresentem, 
sob outras formas, a característica pela qual definimos os fenômenos sociais. Esta simili- 
tude decorre simplesmente de tanto uns como outros serem coisas reais, porquanto tudo 
o que é real se impõe pela sua natureza definida, com a qual é necessário contar e que, 
mesmo quando conseguimos neutralizar, nunca fica completamente vencida. No fundo, 
é isso o que há de mais essencial na noção de constrangimento social, pois tudo o que ela 
implica é que as maneiras coletivas de agir ou de pensar têm uma realidade exterior aos 
indivíduos que, em cada momento, a ela se conformam. São coisas dotadas de existência 
própria, que o indivíduo encontra completamente formadas e não pode impedir que exis- 
tam ou fazer com que existam de modo diferente; é obrigado a contar com elas, e é-lhe 
tanto mais difícil (não dizemos impossível) modificá-las quanto maior for o seu grau de 
participação na supremacia material e moral que a sociedade tem sobre os seus mem- 
bros. O indivíduo desempenha sem dúvida um papel na sua gênese. Mas, para que haja 
fato social, é necessário que vários indivíduos tenham, pelo menos, combinado a sua 
ação e que desta combinação tenha resultado um produto novo. Ora, como esta síntese 
se processa fora de cada um de nós (uma vez que há pluralidade de consciências), ela tem 
também necessariamente por efeito fixar, instituir fora de nós certas maneiras de agir e 
certos juízos que não dependem de cada vontade particular. Tal como fizemos notar, ? há 
uma palavra que, desde que se lhe dilate um pouco a acepção vulgar, exprime bastante 
bem esta maneira de ser muito especial: é a palavra instituição. Pode-se, com efeito, sem 
desvirtuar o sentido deste termo, chamar instituição a todas as crenças e a todos os 
modos de conduta instituídos pela coletividade; a sociologia pode então ser definida 
como a ciência das instituições, da sua gênese e do seu funcionamento. 


Sobre as outras controvérsias suscitadas por esta obra, parece-nos inútil insistir; 
não abordam nada de essencial. A orientação geral do método não depende dos proces- 


? Ver art. “Sociologia”, da Grande Enciclopédia, de Fauconnet e Mauss. 

* Pelo fato de as crenças e as práticas sociais nos chegarem do exterior, não quer dizer que as recebamos 
passivamente e sem as submetermos a modificações. Ao pensarmos e assimilarmos as instituições coletivas, 
individualizamo-las e incutimos-lhes em maior ou menor grau o nosso cunho pessoal; é por este motivo que, 
ao pensarmos o mundo sensível, cada um de nós lhe dá um colorido à sua maneira e se adapta de modo dife- 
rente a um mesmo meio físico — razão por que cada indivíduo possui, em certa medida, a sua moral, a sua 
religião, a sua técnica. Não há conformismo social que não comporte toda uma gama de nuanças indivi- 
duais, O que não impede que o campo de variações permitidas seja limitado. Este é nulo ou muito restrito no 
âmbito dos fenômenos religiosos e morais, onde a variação degenera facilmente em crime, e mais vasto no 
que se referc à vida econômica. Mas, tarde ou cedo, mesmo neste último caso se encontra um limite que não 
pode ser franqueado. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 385 


sos escolhidos quer para classificar os tipos sociais, quer para distinguir o normal do 
patológico. Aliás, estas contestações partiram muitas vezes do fato de as pessoas se recu- 
sarem a admitir, ou não admitirem sem reservas, o nosso princípio fundamental: a reali- 
dade objetiva dos fatos sociais. Tudo repousa, portanto, e finalmente, neste princípio, e 
tudo a ele retorna. Pareceu-nos por isso útil pô-lo uma vez mais em relevo, separando-o 
de todas as questões secundárias. E estamos certos de que, assegurando-lhe uma tal 
preponderância, permanecemos fiéis à tradição sociológica; no fundo, é desta concepção 
que saiu toda a sociologia. Esta ciência, com efeito, só poderia surgir quando se tivesse 
pressentido que os fenômenos sociais, não sendo materiais, não deixam por isso de ser 
coisas reais que admitem um estudo. Para ter chegado à conclusão de que se podia inves- 
tigar a sua natureza era necessário ter compreendido que eles existem de uma forma defi- 
nida, que possuem uma maneira de ser constante, e uma natureza que não depende do 
arbítrio individual e de onde derivam relações necessárias. Por isso, a história da sociolo- 
gia não é mais do que um longo esforço para precisar esta convicção, para a aprofundar, 
para desenvolver todas as conseguências que ela implica. Mas, apesar dos grandes pro- 
gressos que se fizeram neste sentido, veremos no seguimento deste trabalho que restam 
ainda muitas sobrevivências do postulado antropocêntrico que, aqui como noutros lados, 
bloqueia o caminho da ciência. Desagrada ao homem ter de renunciar ao poder ilimitado 
sobre a ordem social que durante muito tempo se lhe atribuiu e, por outro lado, admi- 
tindo a existência de forças coletivas, desagrada-lhe a idéia de que está necessariamente 
condenado a suportá-las sem as poder modificar. É isto que o leva a negá-las. As expe- 
riências repetidas ensinaram-lhe em vão que esta força toda-poderosa, na ilusão da qual 
se mantém com complacência, foi sempre para ele uma causa de fraqueza, e que o seu 
império sobre as coisas só começou realmente a partir do momento em que lhes reconhe- 
ceu uma natureza própria e se resignou a analisá-las para saber o que elas são. Expulso 
de todas as outras ciências, este deplorável preconceito mantém-se pertinazmente na 
sociologia. Nada há portanto de mais urgente do que procurar bani-lo definitivamente da 
nossa ciência; é este o principal objetivo dos nossos esforços. 


INTRODUÇÃO 


Até agora, os sociólogos têm-se preocupado pouco com a caracterização e defini- 
ção do método que aplicam ao estudo dos fatos sociais. Assim, na obra de Spencer, o 
problema metodológico é pura e simplesmente esquecido; a Introdução a Ciência Social, 
cujo título poderia iludir-nos, é consagrada a demonstrar as dificuldades e as possibili- 
dades da sociologia, e não a expor os processos de que ela se deve servir. Mill, por sua 
vez, ocupou-se longamente desta questão,º mas limitou-se a fazer passar pelo crivo da 
sua dialética o que Comte dissera a este respeito, sem nada lhe acrescentar de verdadeira- 
mente pessoal. Sobre o assunto, dispomos apenas de um capitulo do Curso de Filosofia 
Positiva, como único estudo original e importante desta matéria. 'º 

Esta despreocupação aparente não tem, aliás, nada de surpreendente. Com efeito, 
os grandes sociólogos cujos nomes acabamos de referir não passaram das generalidades 
sobre a natureza das sociedades, as relações do reino social e do reino biológico, e a mar- 
cha geral do progresso; mas a volumosa sociologia de Spencer tem por único objetivo 
mostrar como a lei da evolução universal se aplica às sociedades. Ora, para tratar destas 
questões filosóficas não são precisos processos especiais e complexos, pelo que se 
contentavam em comparar e pesar os méritos da dedução e da indução, e fazer um inqué- 
rito sumário dos recursos mais gerais ao dispor da investigação sociológica. Mas as 
precauções a tomar na observação dos fatos, a maneira como os principais problemas 
devem ser colocados, o sentido em que as pesquisas devem ser dirigidas, as práticas espe- 
ciais que podem permitir-lhes o sucesso e as regras que devem presidir à apresentação 
das provas continuaram indeterminadas. 

Um feliz conjunto de circunstâncias, à frente das quais é justo colocar a iniciativa 
da qual resultou a nosso favor a criação de um curso regular de sociologia na Faculdade 
de Letras de Bordéus, permitiu que cedo nos consagrássemos ao estudo da ciência social 
e a constituíssemos em matéria das nossas ocupações profissionais, podendo assim aban- 
donar estas questões demasiado gerais e abordar um certo número de problemas particu- 
fares. Fomos, portanto, pela força das próprias circunstâncias, levados a elaborar um 
método mais definido, ao que julgamos, e mais exatamente adaptado à natureza particu- 
lar dos fenômenos sociais. São os resultados desta nossa prática que gostaríamos de 
expor aqui no seu conjunto, submetendo-os a discussão. Eles estão sem dúvida implicita- 
mente contidos no livro que recentemente publicamos sobre 4 Divisão do Trabalho 
Social. Mas parece-nos que tem algum interesse separá-los, formulá-los à parte, acompa- 
nhando-os das suas provas e ilustrando-os com exemplos tirados quer dessa obra, quer 
de trabalhos ainda inéditos. Poder-se-á assim julgar melhor a orientação que gostaríamos 
de tentar imprimir aos estudos de sociologia. 


9º Sistema de Lógica, 1 VI. caps. VI-XIL 
*9 Ver 2.º edição, pãgs. 294-336. 


nr 


CAPÍTULO PRIMEIRO 


O QUE É UM FATO SOCIAL? 


O fato social não pode definir-se pela sua generalidade no interior da sociedade. Caracteristicas distintivas do 
fato social: 1.º — a sua exterioridade em relação às consciências individuais; 2.º — a ação coerciva que exer- 
ce ou é suscetível de exercer sobre essas mesmas consciências. Aplicação desta definição às práticas consti- 
tuídas e às correntes sociais. Verificação desta definição. Outra maneira de caracterizar o fato social: o estado 
de independência em que se encontra em relação às suas manifestações individuais. Aplicação desta caracte- 
ríistica às práticas constituídas e às correntes sociais. O fato social generaliza-se por ser social, mas não é so- 
cial porque se generaliza. Como esta segunda definição se reduz à primeira. Como os fatos de morfologia so- 
cial se enquadram nesta mesma definição. Fórmula geral do fato social. 


Antes de procurar saber qual é o método que convém ao estudo dos fatos sociais, 
importa dar a conhecer os fatos que assim designamos. 

A questão é tanto mais necessária quanto as pessoas se servem desta qualificação 
sem grande precisão. Empregam-na correntemente para designar, pouco mais ou menos, 
todos os fenômenos que ocorrem na sociedade, mesmo que apresentem, apesar de certas 
generalidades, pouco interesse social. Mas, partindo desta acepção, não hã, por assim 
dizer, acontecimentos humanos que não possam ser apelidados de sociais. Cada indivi- 
duo bebe, dorme, come, raciocina, e a sociedade tem todo o interesse em que estas fun- 
ções se exerçam regularmente. Assim, se estes fatos fossem sociais, a sociologia não teria 
um objeto que lhe fosse próprio e o seu domínio confundir-se-ia com os da biologia e da 
psicologia. 

Mas, na realidade, há em todas as sociedades um grupo determinado de fenômenos 
que se distinguem por características distintas dos estudados pelas outra ciências da 
natureza. 

Quando desempenho a minha obrigação de irmão, esposo ou cidadão, quando satis- 
faço os compromissos que contraí, cumpro deveres que estão definidos, para além de 
mim e dos meus atos, no direito e nos costumes. Mesmo quando eles estão de acordo 
com os meus próprios sentimentos e lhes sinto interiormente a realidade, esta não deixa 
de ser objetiva, pois não foram estabelecidos por mim, mas sim recebidos através da edu- 
cação. Quantas vezes acontece ignorarmos os pormenores das obrigações que nos 
incumbem e, para os conhecer, termos de recorrer ao Código e aos seus intérpretes auto- 
rizados ! Do mesmo modo, os fiéis, quando nascem, encontram já feitas as crenças e prá- 
ticas da sua vida religiosa; se elas existiam antes deles é porque existiam fora deles. O 
sistema de sinais de que me sirvo para exprimir o pensamento, o sistema monetário que 
emprego para pagar as dívidas, os instrumentos de crédito que utilizo nas minhas rela- 
ções comerciais, as práticas seguidas na minha profissão, etc., etc. funcionam indepen- 
dentemente do uso que deles faço. Tomando um após outro todos os membros de que a 
sociedade se compõe, pode repetir-se tudo o que foi dito, a propósito de cada um deles. 


390 DURKHEIM 


Estamos pois em presença de modos de agir, de pensar e de sentir que apresentam a notá- 
vel propriedade de existir fora das consciências individuais. 

Não somente estes tipos de conduta ou de pensamento são exteriores ao indivíduo, 
como são dotados dum poder imperativo e coercivo em virtude do qual se lhe impõem, 
quer ele queira quer não. Sem dúvida, quando me conformo de boa vontade, esta coerção 
não se faz sentir ou faz-se sentir muito pouco, uma vez que é inútil. Mas não é por esse 
motivo uma característica menos intrínseca de tais fatos, e a prova é que ela se afirma 
desde o momento em que eu tente resistir. Se tento violar as regras do direito, elas rea- 
gem contra mim de modo a impedir o meu ato, se ainda for possível, ou a anulá-lo e a 
restabelecê-lo sob a sua forma normal, caso já tenha sido executado e seja reparável, ou 
a fazer-me expiá-lo, se não houver outra forma de reparação. Tratar-se-á de máximas 
puramente morais? A consciência pública reprime todos os atos que as ofendam, através 
da vigilância que exerce sobre a conduta dos cidadãos e das penas especiais de que dis- 
põe. Noutros casos, a coação é menos violenta, mas não deixa de existir. Se não me sub- 
meto às convenções do mundo, se, ao vestir-me, não levo em conta os usos seguidos no 
meu país e na minha classe, o riso que provoco e o afastamento a que me submeto produ- 
zem, ainda que duma maneira mais atenuada, os mesmos efeitos de uma pena propria- 
mente dita. Aliás, a coação não é menos eficaz por ser indireta. Não sou obrigado a falar 
francês com os meus compatriotas, nem a usar as moedas legais, mas é impossível fazê- 
lo de outro modo. Se tentasse escapar a esta necessidade, a minha tentativa falharia 
miseravelmente. Se for industrial, nada me proíbe de trabalhar com processos e métodos 
do século passado, mas, se o fizer, arruíno-me pela certa. Mesmo quando posso libertar- 
me dessas regras e violá-las com sucesso, nunca é sem ser obrigado a lutar contra elas. 
Mesmo quando são finalmente vencidas, ainda fazem sentir suficientemente a sua força 
constrangedora, pela resistência que opõem. Não há inovador, mesmo bem sucedido, 
cujos empreendimentos não acabem por chocar com oposições deste tipo. 

Aqui está, portanto, um tipo de fatos que apresentam características muito espe- 
ciais: consistem em maneiras de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo, e dotadas 
de um poder coercivo em virtude do qual se lhe impõem. Por conseguinte, não poderiam 
ser confundidos com os fenômenos orgânicos, visto consistirem em representações e 
ações; nem com os fenômenos psíquicos, por estes só existirem na consciência dos indivi- 
duos, e devido a ela. Constituem, pois, uma espécie nova de fatos, aos quais deve atri- 
buir-se e reservar-se a qualificação de sociais. Tal qualificação convém-lhes, pois, não 
tendo o indivíduo por substrato, não dispõem de outro para além da sociedade, quer se 
trate da sociedade política na sua integra ou de um dos grupos parciais que engloba: or- 
dens religiosas, escolas políticas, literárias, corporações profissionais, etc. Por outro 
lado, a designação convém unicamente a estes fatos, visto a palavra “social” só ter um 
sentido definido na condição de designar apenas os fenômenos que não se enquadrem em 
nenhuma das categorias de fatos já constituídas e classificadas. Eles são, portanto, o 
domínio próprio da sociologia. É certo que este conceito de coação, pelo qual definimos 
os fatos sociais, corre o risco de enfurecer os zelosos partidários de um individualismo 
absoluto. Como eles professam a crença de que o indivíduo é perfeitamente autônomo, 
parece-lhes estarem a diminuí-lo ao fazê-lo sentir que não depende unicamente de si pró- 
prio. Ora, uma vez que hoje é incontestável que as nossas idéias e tendências não são, na 
sua maior parte, elaboradas por nós, mas nos chegam do exterior, só poderão infiltrar-se 
se se impuserem; isto é tudo quanto a nossa definição pretende significar. Sabe-se, aliás, 
que a coação social não exclui necessariamente a personalidade individual." 


1º Isto não significa, de resto, que toda a coação seja normal. Voltaremos a este assunto mais adiante. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 391 


No entanto, como os exemplos que acabamos de citar (regras jurídicas, morais, 
dogmas religiosos, sistemas financeiros, etc.) consistem todos em crenças e em práticas 
constituídas, poder-se-ia, de acordo com o que precede, supor que só há fatos sociais 
onde houver organização definida. Mas há outros fatos que, sem apresentar estas formas 
cristalizadas, têm a mesma objetividade e o mesmo ascendente sobre o indivíduo. São as 
chamadas correntes sociais. Assim, numa assembléia, as grandes manifestações de entu- 
siasmo, de indignação e de piedade que se desencadeiam não têm a sua origem em 
nenhuma consciência particular. Chegam a cada um de nós do exterior e são suscetíveis 
de nos arrastar, mesmo contra a vontade. Pode acontecer que, abandonando-me a elas 
sem reservas, não venha a sentir a pressão que exercem sobre mim. Mas esta pressão 
manifesta-se a partir do momento em que eu tentar lutar contra ela. Se um indivíduo 
experimentar opor-se a uma destas manifestações coletivas, os sentimentos que nega 
voltar-se-ão contra ele. Ora, se este poder de coação externa se afirma com tal nitidez nos 
casos de resistência, é porque existe, embora inconsciente, nos casos contrários. Estamos 
então a ser vítimas de uma ilusão que nos faz acreditar termos sido nós quem elaborou 
aquilo que se nos impós do exterior. Mas, se a complacência com que nos deixamos levar 
mascara a pressão sofrida, não a suprime. Do mesmo modo, o ar não deixa de ter peso 
pelo fato de não o sentirmos. Mesmo quando colaboramos espontaneamente na emoção 
comum, a impressão que sentimos é totalmente diferente da que teríamos sentido se tivés- 
semos estado sós. Uma vez dispersa a assembléia, finda a ação das influências sociais 
sobre nós, e ficados a sós, os sentimentos por que passamos dão-nos a impressão de ser 
algo de estranho em que já não nos reconhecemos. Apercebemo-nos nessa altura que 
fomos sua presa, mais do que seus criadores. Chegam mesmo a horrorizar-nos, tão 
contrários eram à nossa natureza. É assim que indivíduos, perfeitamente inofensivos na 
sua maioria, podem, reunidos em multidão, deixar-se conduzir a atos de atrocidade. Ora, 
o que dizemos acerca destas explosões passageiras aplica-se também aos movimentos de 
opinião mais duradouros que se produzem incessantemente à nossa volta, mesmo em cir- 
culos mais restritos, sobre questões religiosas, políticas, literárias, artísticas, etc. 

Esta definição do fato social pode, aliás, confirmar-se por uma experiência caracte- 
rística. Basta observar a maneira como são educadas as crianças. Quando reparamos 
nos fatos tais como são, e como sempre foram, salta aos olhos que toda a educação con- 
siste num esforço contínuo para impor à criança maneiras de ver, de sentir e de agir às 
quais ela não teria chegado espontaneamente. Desde os primeiros tempos da sua vida a 
coagimos a comer, a dormir e a beber a horas regulares. Coagimo-la à limpeza, à calma, 
à obediência; mais tarde, coagimo-la a ter em conta os outros, a respeitar os usos, as 
conveniências, a trabalhar, etc., etc. Se, com o tempo, essa coação deixa de ser sentida, 
é porque fez nascer hábitos e tendências internas que a tornam inútil, mas que só a subs- 
tituem porque derivam dela. Segundo Spencer, uma educação racional deveria reprovar 
tais processos e deixar a criança agir com toda a liberdade; mas, como esta teoria peda- 
gógica nunca foi praticada por qualquer povo conhecido, não passa de um desideratum 
pessoal, não constituindo um fato que possa opor-se aos precedentes. Ora, estes últimos 
são particularmente instrutivos por a educação ter justamente o objetivo de criar o ser 
social. Podemos compreender assim, de modo sumário, como esse ser se constituiu na 
história. Esta coação permanente exercida sobre a criança é a pressão do meio social que 
tende a moldá-la à sua imagem, e da qual os pais e professores não passam de represen- 
tantes e de intermediários. 

Não é pois a sua generalidade que serve para caracterizar os fenômenos socioló- 
gicos. Um pensamento comum a todas as consciências particulares ou um movimento 


392 DURKHEIM 


repetido por todos os indivíduos não são por isso fatos sociais. Se houve quem se conten- 
tasse com este caráter para os definir, foi por os ter confundido, erradamente, com aquilo 
a que se poderia chamar as suas encarnações individuais. O que os contitui são as cren- 
ças, as tendências, as práticas do grupo tomado coletivamente; quanto às formas de que 
se revestem os estados coletivos ao refletir-se nos indivíduos, são coisas de uma outra 
espécie. O que demonstra categoricamente esta dualidade de naturezas é a ocorrência 
destes dois tipos de fatos inúmeras vezes dissociados. Com efeito, certas maneiras de agir 
ou de pensar adquirem, devido à repetição, uma espécie de consistência que as isola dos 
acontecimentos particulares que as refletem. Tomam assim uma forma sensível que lhes 
é própria, e constituem uma realidade sui generis muito distinta dos fatos individuais que 
as manifestam. O hábito coletivo não existe apenas no estado de imanência nos atos 
sucessivos que determina: por um privilégio de que não encontramos exemplos no reino 
biológico, exprime-se, de uma vez para sempre, numa fórmula que se repete de boca em 
boca, que se transmite através da educação, que se fixa por escrito. Tal é a origem e a 
natureza das regras jurídicas, morais, dos aforismos e dos ditados populares, dos artigos 
de fé em que as seitas religiosas ou políticas condensam as suas crenças, códigos de 
gosto que disciplinam escolas literárias, etc. Nenhuma delas se encontra inteiramente nas 
aplicações que delas são feitas pelos particulares, uma vez que podem subsistir mesmo 
sem serem atualmente aplicadas. 

Esta dissociação não se apresenta sempre com a mesma nitidez, mas basta que ela 
exista de um modo incontestável nos casos que enumeramos para provar que o fato so- 
cial é distinto das suas repercussões individuais. Aliás, mesmo quando a dissociação não 
nos é evidente, podemos, por vezes, realizá-la com a ajuda de certos artifícios de método; 
somos até obrigados a utilizá-los quando queremos isolar o fato social e observá-lo num 
estado de pureza. Há certas correntes de opinião que nos levam, com intensidades desi- 
guais segundo o tempo e os países, ao casamento, ao suicídio ou a uma natalidade mais 
ou menos forte; estes são, evidentemente, fatos sociais. À primeira impressão parecem 
inseparáveis das formas que tomam nos casos particulares, mas a estatística fornece-nos 
o meio de os isolar. Com efeito, são retratados pela taxa de natalidade, de nupcialidade, 
de suicídios, quer dizer, pelo número que se obtém dividindo o total médio anual dos 
nascimentos, casamentos e mortes voluntárias pelo número de homens na idade de pro- 
criar, de se casar, de se suicidar.'? Como cada um destes números compreende todos os 
casos individuais indistintamente, as circunstâncias particulares que podem ter tomado 
parte na produção do fenômeno neutralizam-se mutuamente e, por conseguinte, não con- 
tribuem para o determinar. O que ele exprime é um certo estado de alma coletivo. 

Eis o que são os fenômenos sociais, desembaraçados de todos os elementos estra- 
nhos. As suas manifestações privadas têm sempre algo de social, uma vez que reprodu- 
zem em parte um modelo coletivo; mas cada uma delas depende também, e numa larga 
medida, da constituição orgânico-psíquica do indivíduo, das circunstâncias particulares 
em que está colocado. Não são, portanto, fenômenos propriamente sociológicos. Perten- 
cem ao mesmo tempo a dois reinos e poderíamos chamar-lhes sócio-psíquicos. Interes- 
sam ao sociólogo sem constituírem a matéria imediata da sociologia. Aliás, também se 
encontram no interior dos organismos fenômenos de natureza mista que são estudados 
por ciências mistas, como a químico-biologia. 

Mas. dir-se-á, um fenômeno não pode ser coletivo se não for comum a todos o mem- 
bros da sociedade ou, pelo menos, à maior parte deles. Sem dúvida; mas ele é geral por 
ser coletivo (quer dizer. mais ou menos obrigatório). e nunca coletivo por ser geral. É um 


'2 As pessoas não se suicidam em todas as idades, nem em todas as idades com a mesma intensidade. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 393 


estado do grupo que se repete nos indivíduos porque se impõe a eles; está em cada parte 
porque está no todo, não está no todo por estar nas partes. Isto é evidenciado pelas cren- 
ças e práticas que nos são transmitidas pelas gerações anteriores; recebemo-las e adota- 
mo-las porque, sendo ao mesmo tempo uma obra coletiva e uma obra secular, estão 
investidas de uma particular autoridade que a educação nos ensinou a reconhecer e a res- 
peitar. Devemos notar que a imensa maioria dos fenômenos sociais chega atê nós por 
essa via; mas, mesmo quando o fato social é devido em parte à nossa colaboração direta. 
a sua natureza não muda. Um sentimento coletivo que surja numa assembléia não expri- 
me apenas o que há de comum entre todos os sentimentos individuais. Há nele algo de 
diferente, como já mostramos; resulta da vida comum, é um produto das ações e das rea- 
ções entre as consciências individuais; e, se ressoa em cada uma delas, é em virtude de 
uma energia especial que se deve justamente à sua origem coletiva. Se todos os corações 
vibram em uníssono, não é no seguimento de uma concordância espontânea e preestabe- 
lecida; é que uma mesma força os move num mesmo sentido. Cada um é levado por 
todos. 


Esperamos ter definido exatamente o domínio da sociologia, domínio esse que só 
compreende um determinado grupo de fenômenos. Um fato social reconhece-se pelo seu 
poder de coação externa que exerce ou é suscetível de exercer sobre os indivíduos; e a 
presença desse poder reconhece-se, por sua vez, pela existência de uma sanção determi- 
nada ou pela resistência que o fato opõe a qualquer iniciativa individual que tenda a 
violentá-lo. No entanto, podemos defini-lo também pela difusão que tem no interior do 
grupo, desde que, de acordo com as observações que fizemos, se tenha o cuidado de jun- 
tar como segunda e essencial característica a de que ele exista independentemente das 
formas individuais que toma ao difundir-se. Este último critério é aliás, em certos casos, 
mais fácil de aplicar do que o precedente. Com efeito, a coação é fácil de constatar quan- 
do se traduz exteriormente por uma reação direta da sociedade, como é o caso do direito. 
da moral, das crenças, usos, e até das modas. Mas, quando é apenas indireta, como a que 
exerce uma organização econômica, a coação nem sempre é tão evidente. A generalidade 
e a objetividade podem, nesse caso, ser mais fáceis de estabelecer. Aliás, esta segunda 
definição não ê mais do que uma outra forma da primeira; de fato, uma maneira de se 
conduzir, exterior às consciências dos indivíduos, só se generaliza se for imposta. '* 


No entanto, poderíamos perguntar se esta definição está completa. Os fatos sociais 
que tomamos como base são todos maneiras de fazer; são de ordem fisiológica. Mas 
também existem maneiras de ser coletivas, quer dizer, fatos sociais de ordem anatômica 
ou morfológica. A sociedade não pode desinteressar-se do que diz respeito ao substrato 
da vida coletiva. No entanto, o número e a natureza das partes elementares de que se 


13 Vê-se como esta definição do fato social se afasta da que serve de base ao engenhoso sistema de Tarde. 
Em primeiro lugar. devemos declarar que as nossas investigações não nos fizeram constatar em parte alguma 
a tal influência preponderante que Tarde-atribui à imitação da gênese dos fatos coletivos. Além disso, da 
definição precedente, que não é uma teoria mas um simples resumo dos dados imediatos de observação, pa- 
rece resultar que a imitação nunca exprime o que há de essencial e de mais característico no fato social. Sem 
dúvida, todo o fato social é imitado, isto é, tem uma tendência para generalizar-se:; mas isto se deve ao fato 
de ser social, quer dizer, obrigatório. O seu poder de expansão não é a causa, mas a consequência do seu 
caráter sociológico. Se os fatos sociais fossem os únicos a produzir esta conseglência, a imitação poderia 
servir, se não para os explicar, pelo menos para os definir, mas um estado individual que faz ricochete não 
deixa por isso de ser individual. Poderemos ainda perguntar se a palavra “imitação” é a que melhor convém 
para designar uma propagação devida à influência coerciva. Nesta expressão confundem-se fenômenos 
muito diferentes e que seria necessário distinguir. 


394 DURK HEIM 


compõe a sociedade, a maneira como elas se dispõem, o grau de coalescência a que che- 
garam, a distribuição da população pela superfície do território, o número e a natureza 
das vias de comunicação, a forma das habitações, etc. não parecem, num primeiro 
exame, poder ser relacionados com maneiras de agir, sentir ou pensar. 

Mas estes diversos fenômenos apresentam uma mesma característica que nos permi- 
te definir os outros; estas maneiras de ser impõóem-se ao indivíduo tal como as maneiras 
de fazer, atrás referidas. Com efeito, quando se quer conhecer a maneira como uma 
sociedade é dividida politicamente, como se compõem essas divisões, a fusão mais ou 
menos completa que existe entre elas, não é com a ajuda de uma inspeção material e por 
observações geográficas que podemos consegui-lo. Mesmo quando têm uma base qual- 
quer de natureza física, essas divisões são também morais; e é somente através do direito 
público que é possível estudar essa organização, uma vez que é ela que a determina, tal 
como determina as nossas relações domésticas e cívicas. Ela não deixa por isso de ser 
obrigatória, pois se a população se aglomera nas nossas cidades em vez de se dispersar 
pelos campos é porque há uma corrente de opinião, um impulso coletivo que impõe aos 
indivíduos esta concentração. Não podemos escolher a forma das nossas casas tal como 
não podemos escolher a forma do nosso vestuário. Os nossos gostos são obrigatórios 
tanto num campo como noutro. As vias de comunicação determinam de uma maneira 
imperiosa o sentido no qual se fazem as migrações interiores e as trocas, e até a intensi- 
dade destas trocas e migrações; logo, deveríamos acrescentar uma nova categoria à lista 
dos fenômenos que enumeramos como apresentando o sinal distintivo do fato social. 
Porém, como esta enumeração nada tinha de rigorosamente exaustiva, a adição não é 
indispensável. 

Convém frisar que, por outro lado, essa adição não teria qualquer utilidade; as 
maneiras de ser não são mais do que maneiras de fazer consolidadas. A estrutura política 
de uma sociedade é apenas a maneira como os diferentes segmentos que a compõem 
adquiriram o hábito de viver uns com os outros. Se as suas relações são tradicionalmente 
estreitas, os segmentos tendem a confundir-se; tenderão a distinguir-se no caso contrário. 
O tipo de habitação que se nos impõe não é senão a maneira como toda a gente à nossa 
volta e, em parte, as gerações anteriores, se acostumaram a construir as casas. As vias de 
comunicação não são mais do que o leito que esta foi cavando para si própria ao correr 
no mesmo sentido; veja-se, por exemplo, a corrente regular das trocas e das migrações, 
etc. Se os fenômenos de ordem morfológica fossem os únicos a apresentar esta fixidez, 
poder-se-ia acreditar que constituem uma classe à parte; mas uma regra jurídica é tão 
permanente como um tipo de arquitetura e, no entanto, é um fato fisiológico. Poder-se-ia 
objetar citando as máximas morais, muito mais maleáveis; mas mesmo elas têm formas 
muito mais rígidas do que um simples uso profissional ou uma moda. Há assim uma 
gama de cambiantes que, sem solução de continuidade, ligam os fatos de estrutura mais 
caracterizados a essas correntes livres da vida social que ainda não se fixaram em ne- 
nhum molde definido. Quer dizer, portanto, que não há entre eles mais do que diferenças 
de grau de consolidação; tanto uns como outros não passam de vida mais ou menos cris- 
talizada. Pode haver interesse em reservar o nome de morfológicos para os fatos sociais 
a que se refere o substrato social, mas com a condição de que nunca se perca de vista que 
eles têm todos a mesma natureza. A única definição que permite englobar tudo o que dis- 
semos é a seguinte: 

“É um fato social toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 395 


indivíduo uma coação exterior”; ou ainda, “que é geral no conjunto de uma dada socie- 


dade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das suas manifesta- 


ções individuais”. * 


14 Este parentesco estreito entre a vida e a estrutura. entre o órgão e a função pode ser facilmente estabele- 
cido na sociologia porque, entre estes dois termos extremos, existe toda uma série de intermediários imedia- 
tamente observáveis que mostram a ligação entre eles. A biologia não tem o mesmo recurso. Mas pode-se 
acreditar que as induções da primeira destas ciências sobre este assunto são aplicáveis à outra e que nos 
organismos, tal como nas sociedades, só existem diferenças de grau entre estas duas ordens de fatos. 


CAPÍTULO SEGUNDO 


REGRAS RELATIVAS À OBSERVAÇÃO DOS FATOS SOCIAIS 


Regra fundamental: Tratar os fatos sociais como coisas. | — Fase ideológica que atravessam todas as ciên- 
cias, durante a qual elaboram noções vulgares e práticas em vez de descreverem e explicarem as coisas. Moti- 
vo por que esta fase devia prolongar-se na sociologia mais do que nas outras ciências. Fatos extraídos à socio- 
logia de Comte, à de Spencer, e ao estado atual da moral e da economia política, mostrando que este estágio 
ainda não foi ultrapassado. Razões para o ultrapassar: 1.º — Os fatos sociais devem ser tratados como coisas 
porque são os data imediatos da ciência, enquanto que as idéias, de que os fatos sociais são supostamente os 
desenvolvimentos, não são diretamente dados. 2.º — Têm todas as características da coisa. Analogia desta 
reforma com a que transformou recentemente a psicologia. Razões para esperar, no futuro, um progresso rá- 
pido da sociologia. II — Corolários imediatos da regra precedente: 1.º — Afastar da ciência todas as noções 
prévias. Acerca do ponto de vista místico que se opõe à aplicação desta regra. 2.º — Maneira de constituir 
o objeto positivo da investigação: agrupar os fatos segundo as suas características exteriores comuns. Rela- 
ções do conceito assim formado com o conceito vulgar. Exemplos de erros a que nos expomos ao negligen 
ciar esta regra ou ao aplicá-la mal: Spencer e a sua teoria sobre a evolução do casamento; Garofalo e a sua 
definição de crime; o erro comum que recusa a moral às sociedades inferiores. Que a exterioridade das carac- 
terísticas que entram nestas definições iniciais não constituam um obstáculo às explicações científicas. 3.º — 
Estas características exteriores devem, além disso, ser o mais objetivas possivel. Método para o conseguir: 
apreender os fatos sociais de modo que se apresentem isolados das suas manifestações individuais. 


A primeira regra e a mais fundamental é a de considerar os fatos sociais como coisas. 
ma. 


Quando uma nova ordem de fenômenos se torna objeto de ciência, tais fenômenos 
encontram-se já representados no espírito, não somente por imagens sensíveis, mas por 
uma espécie de conceitos grosseiramente formados. Antes dos primeiros rudimentos da 
física e da química, os homens tinham já sobre os fenômenos físico-químicos algumas 
noções que ultrapassavam a pura percepção; tais como, por exemplo, as que encon- 
tramos misturadas em todas as religiões. A reflexão é anterior à ciência; esta limita-se a 
servir-se dessa reflexão mais metodicamente. O homem não pode viver no meio de obje- 
tos sem ter uma idéia deles que lhe permita regular a sua conduta. Como essas noções 
estão mais ao nosso alcance do que as realidades a que correspondem, tendemos natural- 
mente a fazer delas a matéria das nossas especulações, substituindo as realidades por 
elas; em vez de observar as coisas, de as descrever, de as comparar, contentamo-nos 
então com a tomada de consciência das nossas idéias, analisando-as, combinando-as. 
Em vez de uma ciência das realidades, temos uma mera análise ideológica. Esta análise 
não exclui necessariamente e por completo as observações; podemos fazer apelo aos 
fatos para confirmar certas noções ou as conclusões que delas tiramos. Mas nesse caso, 
os fatos não intervêm senão secundariamente, a título de exemplo ou de provas confirma- 
tórias; não são os objetos da ciência. A ciência vai das idéias às coisas e não das coisas 
as idéias. 

É claro que um método como este não poderia conduzir a resultados objetivos. 
Estas noções ou conceitos, seja qual for o nome que lhes queiramos dar, não são substi- 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 399 


tutos legítimos das coisas. Produtos da experiência vulgar, eles têm como objetivo pôr as 
nossas ações em harmonia com o mundo que nos rodeia; são formados pela prática e 
para ela. Ora, uma representação pode ser capaz de desempenhar utilmente o seu papel 
sendo, ao mesmo tempo, teoricamente falsa. Copérnico, ao fim de muitos séculos, dissi- 
pou as ilusões dos nossos sentidos acerca dos movimentos dos astros: e, no entanto, é 
ainda segundo essas ilusões que regulamos muitas vezes a distribuição do nosso tempo. 
Para que uma idéia suscite corretamente as atitudes reclamadas pela natureza das coisas 
não é necessário que exprima fielmente essa natureza; basta que nos faça sentir o que 
essas coisas têm de útil ou de prejudicial, como nos podem servir, como nos podem 
contrariar. E convém ainda notar que estas noções só se ajustam à prática de um modo 
aproximado e apenas na generalidade dos casos. Quantas vezes se tornam perigosamente 
inadequadas! Não é, portanto, elaborando-as, seja de que modo for, que se conseguirá 
descobrir as leis da realidade. Não são mais do que um véu que se interpõe entre as coi- 
sas e nós e que as mascara tanto melhor quanto mais acreditarmos na sua transparência. 

Uma tal ciência, além de truncada, não contém matéria de que se possa alimentar. 
Mal começa a existir, desaparece imediatamente, transformando-se em arte. Com efeito, 
e dado que são confundidas com o real, estas noções deveriam conter tudo o que há de 
essencial nele; e a partir daí elas parecem ter tudo quanto é necessário para nos habilitar 
não somente a compreender o que existe, mas também para prescrever o que deve existir 
e os meios para o executar. É bom o que concorda com a natureza das coisas; o resto é 
mau, € os meios para atingir um e fugir do outro derivam dessa mesma natureza. Se, por- 
tanto, nós a possuímos à partida, o estudo da realidade presente não tem já qualquer inte- 
resse prático e, como é este interesse a razão de ser do estudo, também este perde a sua 
finalidade. A reflexão é assim incitada a voltar as costas ao próprio objeto da ciência, a 
saber, o presente e o passado, e a lançar-se num salto para o futuro. Em vez de procurar 
compreender os fatos adquiridos e realizados, ela empreende imediatamente a constru- 
ção de fatos novos, mais conformes aos fins perseguidos pelos homens. Quando alguém 
julga saber em que consiste a essência da matéria esse alguém põe-se imediatamente à 
procura da pedra filosofal. Esta usurpação da arte em desfavor da ciência, impedindo-a 
de se desenvolver, é, aliás, facilitada pelas próprias circunstâncias que determinam o des- 
pertar da reflexão científica visto que, como ela nasce para satisfazer as necessidades 
vitais, acha-se naturalmente orientada para a prática. As necessidades que é chamada a 
aliviar são sempre prementes e, por conseguinte, apressam-na a conclusões; as necessi- 
dades reclamam remédios e não explicações. 

Este modo de proceder está tão de acordo com as inclinações naturais do nosso 
espírito que o encontramos mesmo na origem das ciências físicas. É ele quem diferencia 
a química da alquimia, a astronomia da astrologia. E pelo modo de proceder que Bacon 
se diferencia dos seus contemporâneos e os combate. As noções que acabamos de referir 
são as prenoções ou noções vulgares! * que ele assinala na base de todas as ciências! º e 
que nestas tomam o lugar dos fatos. !? 

São uma espécie de fantasmas que desfiguram o verdadeiro aspecto das coisas e que 
nós confundimos com as verdadeiras coisas. Como esse meio imaginário não oferece ao 
espírito qualquer resistência este abandona-se a ambições ilimitadas e crê possível cons- 
truir, ou melhor, reconstruir o mundo pelas suas próprias forças e à vontade dos seus 
desejos. 


158 Novum Organum, 1, pãg. 26. 
16 Ibid.. 1, pág. 17. 
17 Ibid.. L, pág. 36. 


398 DURKHEIM 


Se aconteceu assim com as ciências naturais, com muito mais razão deveria aconte- 
cer o mesmo com a sociologia. Os homens não esperaram pela ciência social para ter 
idéias sobre o direito, a moral, a família, o Estado, e a própria sociedade. Não podem 
passar sem estas coisas para viver. Ora, é sobretudo na sociologia que estas prenoções, 
para utilizar a expressão de Bacon, são capazes de dominar o espírito e substituir a reali- 
dade. Com efeito, os objetos sociais não se realizam senão através do homem; são um 
produto da atividade humana. Parecem, portanto, uma mera execução das idéias, inatas 
ou não, que temos; uma sua aplicação às diversas circunstâncias que acompanham as 
relações dos homens entre si. A organização familiar, do contrato, da repressão, do Esta- 
do, da sociedade aparece assim como um simples desenvolvimento das idéias que temos 
sobre a sociedade, o Estado, a justiça, etc. Por consequência, estes fatos e os seus análo- 
gos parecem não ter realidade senão nas idéias e através delas. Sendo estas idéias os seus 
germes, tornam-se assim, desde logo, a matéria da sociologia. 

Os créditos desta maneira de ver são aumentados pelo fato de a minúcia da vida so- 
cial transbordar em todos os sentidos a consciência e de esta não ter uma percepção 
suficientemente forte para sentir a realidade dessa vida social. Como esta não está 
suficientemente próxima de nós, julgamos que não está ligada a coisa alguma e que flu- 
tua no vazio, que é uma matéria meio irreal, infinitamenre plástica. É por essa razão que 
tantos pensadores viram nos arranjos sociais meras combinações artificiais, mais ou 
menos arbitrárias. Mas, se o detalhe, se as formas concretas e particulares nos escapam, 
pelo menos podemos ter a representação dos aspectos mais gerais da existência coletiva 
em conjunto e por aproximação; e são precisamente essas representações esquemáticas e 
sumárias que constituem as prenoções de que nos servimos para os usos comuns da vida. 
Não podemos, portanto, duvidar da sua existência, uma vez que nos apercebemos dela 
ao mesmo tempo que de nós próprios. Não só elas estão em nós, mas, como são um pro- 
duto de experiências repetidas, tiram da repetição e do hábito assim adquirido uma espé- 
cie de ascendente, de autoridade. Sentimo-las resistir quando tentamos libertar-nos, e não 
podemos deixar de encarar como realidade aquilo que se opõe a nós. Tudo contribui, 
portanto, para nos fazer ver aí a verdadeira realidade social. 

Até agora, a sociologia tem tratado mais ou menos exclusivamente, não das coisas, 
mas dos conceitos. De fato, Comte proclamou que os fenômenos sociais são fatos natu- 
rais, submetidos a leis naturais. Reconheceu, assim, o seu caráter de coisas, visto que na 
natureza só há coisas. Mas quando, ao sair destas generalidades filosóficas tenta aplicar 
o seu princípio e extrair dele a ciência que nele estava contida, acaba por tomar as idéias 
como objeto de estudo. Com efeito, a principal matéria da sua sociologia é o progresso 
da humanidade no tempo. Parte da idéia de que há uma evolução contínua do gênero 
humano, a qual consiste numa realização sempre mais completa da natureza humana; e 
preocupa-se em encontrar a ordem desta evolução. Ora, supondo que esta evolução exis- 
te, só o poderemos demonstrar quando dispusermos de uma verdadeira ciência. Comte 
não poderia, portanto, considerar essa evolução como objeto de pesquisas senão definin- 
do-a como uma concepção do espírito e não como uma coisa. Com efeito, não se provou 
a existência desse progresso da humanidade. O que existe, a única coisa que se pode 
observar, são sociedades particulares que nascem, que se desenvolvem e que morrem 
independentemente umas das outras. Se, além disso, se considera que as mais recentes 
continuam as que as precederam, então cada tipo superior poderá ser considerado como 
a simples repetição do tipo imediatamente inferior, com alguns acrescentos; poder-se-ia, 
portanto, colocá-las topo a topo, por assim dizer, confundindo as que se encontram no 
mesmo grau de desenvolvimento, e a série assim formada poderia ser encarada como 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 399 


representativa da humanidade. Mas os fatos não se apresentam com tanta simplicidade. 
Um povo que substitui um outro não é apenas um prolongamento deste último com al- 
guns caracteres novos; é diferente, tem propriedades a mais e outras a menos; constitui 
uma individualidade nova e todas estas individualidades distintas, sendo heterogêneas, 
não podem fundir-se numa mesma série contínua nem numa série única, pois uma série 
de sociedades não pode ser figurada por uma linha geométrica, parecendo-se mais com 
uma árvore cujos ramos têm sentidos divergentes. Em suma, Comte tomou a noção que 
tinha do desenvolvimento histórico, e que não diferia muito da noção vulgar, pelo pró- 
prio desenvolvimento. Vista de longe, com efeito, a história toma esta aparência engana- 
dora; só nos apercebemos dos indivíduos que se sucedem uns aos outros e que caminham 
todos na mesma direção porque têm uma natureza comum. Como aliás não se concebe 
que a evolução social possa ser outra coisa para além do desenvolvimento de uma idéia 
humana, é perfeitamente natural defini-la pela idéia que os homens dela têm. Ora, proce- 
dendo deste modo, não só permanecemos na ideologia como damos à sociologia, como 
objeto, um conceito que não tem nada de sociológico. 

Spencer não aceita este conceito mas o substitui por um outro formado do mesmo 
modo. Faz das sociedades, não da humanidade, o objeto da ciência; mas dá das primei- 
ras uma definição que as afasta imediatamente pondo em seu lugar a prenoção que delas 
tem. Spencer afirma, como proposição evidente, que “uma sociedade só existe a partir do 
momento em que à justaposição se junta uma cooperação ”, só assim uma união de indi- 
víduos se transforma em sociedade propriamente dita.'º Depois, partindo do princípio 
de que a cooperação é a essência da vida social, divide as sociedades em duas classes 
segundo a natureza da cooperação nelas dominante. “Há uma cooperação espontânea 
que se efetua sem premeditação quando se tenta atingir fins de caráter privado; e há uma 
cooperação conscientemente instituída que supõe fins de interesse público nitidamente 
reconhecidos."'º As primeiras Spencer dá o nome de sociedades industriais; às segun- 
das, o de sociedades militares; e pode-se dizer que esta idéia é a mãe da sua sociologia. 


Mas esta definição inicial enuncia como uma coisa aquilo que não é mais do que 
um fruto da sua imaginação. Apresenta-se, com efeito, como a expressão de um fato 
imediatamente visível e cuja observação basta para provar, visto surgir-nos como um 
axioma da ciência. E, no entanto, é impossível saber por uma simples inspeção se real- 
mente a vida social se pode reduzir à cooperação. Tal atitude não é legítima cientifica- 
mente a menos que se passem em revista todas as manifestações da existência coletiva e 
se conclua que todas elas são formas diversas de cooperação. Trata-se, portanto, de uma 
certa maneira de conceber a realidade social que se vai substituir a essa mesma realida- 
de.?º O que se define não é a sociedade mas a idéia que dela faz Spencer. E se não sente 
qualquer escrúpulo em proceder deste modo é porque, para ele, a sociedade não passa de 
realização de uma idéia, neste caso a idéia de cooperação.?! Seria fácil mostrar que, em 
cada um dos problemas particulares que aborda, o seu método é o mesmo. Assim, ainda 
que pretenda proceder empiricamente, como os fatos acumulados na sua sociologia são 
mais usados para ilustrar análises de noções do que para descrever e explicar as coisas, 
parecem só existir para representarem o papel de argumentos. Na realidade, tudo o que 


18 Sociologie, tradução francesa. III, págs. 331-332. 

19 Sociologie, II, pág. 332. 

20 Concepção. aliás, controversa. (Ver Divisão do Trabalho Social, 11,2,8 4.) n es 
21 “A cooperação não poderia, portanto, existir sem a sociedade, e é o fim que esta se propõe.” (Princípios 
de Sociologia, Il, pãg. 332.) 


400 DURKHEIM 


há de essencial na sua doutrina pode ser imediatamente deduzido da sua definição de 
sociedade e das diferentes formas de cooperação, visto que, se tivermos possibilidades de 
escolher apenas entre uma cooperação tiranicamente imposta e uma cooperação livre e 
espontânea, é evidente que esta última será o ideal para o qual a humanidade tende e 
deve tender. 

Não é apenas na base da ciência que se encontram estas noções vulgares; encontra- 
mo-las a cada instante na trama dos raciocínios. No estado atual dos nossos conheci- 
mentos, não sabemos com exatidão o que é Estado, soberania, liberdade política, demo- 
cracia, socialismo, comunismo, etc.; o método aconselha que não utilizemos estes 
conceitos, enquanto não forem cientificamente constituídos. No entanto, as palavras que 
Os exprimem aparecem incessantemente nas discussões dos sociólogos. Empregam-se 
correntemente e com segurança como se correspondessem a coisas bem conhecidas e 
definidas quando, na verdade, não evocam em nós senão noções confusas, misturas 
indistintas de impressões vagas, preconceitos e paixões. Troçamos hoje em dia dos singu- 
lares raciocínios que construíam os médicos da Idade Média com as noções de quente, 
frio, úmido ou seco, e não nos apercebemos de que continuamos a aplicar o mesmo mé- 
todo a uma ordem de fenômenos que também não o comporta, tendo em vista a sua 
extrema complexidade. 

Nos ramos especiais da sociologia o caráter ideológico é ainda mais acentuado. 

É, sobretudo, o caso da moral. Pode-se dizer, com efeito, que não há um único siste- 
ma em que ela não seja representada como simples desenvolvimento de uma idéia inicial 
que a conteria em potência, na sua totalidade. Esta idéia, segundo uns encontra-se já feita 
no íntimo do homem desde que nasce; outros, pelo contrário, entendem que ela se forma 
mais ou menos lentamente no decurso da história. Mas, para uns como para outros, para 
os empiristas como para os racionalistas, essa idéia é o que há de mais verdadeiramente 
real na moral. Quanto às regras jurídicas e morais, afirma-se que elas não têm existência 
por si próprias, que se resumem a tal noção fundamental aplicada às circunstâncias 
particulares da vida e diversificadas segundo os casos. A partir daqui, o objeto da moral 
não poderia ser este sistema de preceitos sem realidade, mas sim a idéia da qual decor- 
rem e de que não passam de aplicações várias. Do mesmo modo, todas as questões que 
à ética vulgarmente se pôem dizem respeito, não a coisas, mas a idéias; trata-se de saber 
em que consiste a idéia do direito, a idéia da moral, e não qual é a natureza da moral e 
do direito em si. Os moralistas não chegaram ainda à simples concepção de que, tal 
como a nossa representação das coisas sensíveis vem dessas mesmas coisas e as exprime 
mais ou menos exatamente, a nossa representação da moral vem do próprio espetáculo 
das regras que funcionam sob os nossos olhos e as representa esquematicamente; por 
consegiência, a matéria da ciência é formada por estas regras e não pela visão sumária 
que delas temos, do mesmo modo que a física tem por objeto os corpos tal qual existem 
e não a idéia que deles faz a pessoa vulgar. Daqui resulta que se tome por base da moral 
o que é apenas o seu cume, a saber, a maneira segundo a qual ela se prolonga nas cons- 
ciências individuais e aí ressoa. E não é só nos problemas mais gerais da ciência que este 
método é seguido, mas também nas questões especiais. Das idéias essenciais que pri- 
meiro estuda, o moralista passa às idéias secundárias de família, de pátria, de responsa- 
bilidade, de caridade, de justiça; e é sempre as idéias que ele aplica a sua reflexão. 

O mesmo se passa com a economia política. Esta tem por objeto, diz Stuart Mill, os 
fatos sociais que se executam principalmente, ou exclusivamente, visando à aquisição 
das riquezas.?? Mas, para que os fatos assim definidos pudessem ser designados como 


22 Sistema de Lógica, HI, pág. 496. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 401 


coisas à observação do investigador. seria necessário, pelo menos, que se pudesse indicar 
qual o sinal que permite identificar os fatos que satisfazem esta condição. Ora, no início 
de uma ciência, não podemos sequer afirmar que tais fatos existem, e muito menos 
nomeá-los. Em toda a ordem de pesquisas, com efeito. é apenas quando a explicação dos 
fatos está suficientemente avançada que se pode definir o fim para o qual tendem. Não 
há problema mais complexo nem mais insuscetível de ser abreviado logo de início. Nada, 
portanto, nos assegura de antemão que haja uma esfera de atividade social em que o de- 
sejo de riqueza desempenhe realmente este papel preponderante. Logo, a matéria da eco- 
nomia política, assim compreendida, não é feita de realidades que se possam apontar a 
dedo, mas de simples hipóteses, de puras concepções mentais, de fatos que o economista 
concebe em íntima relação com um fim considerado. Stuart Mill tentou, por exemplo. 
estudar aquilo a que chama produção. Logo à partida crê poder enumerar os principais 
agentes que participam na produção, e julga poder analisá-los. Isto significa que não 
reconhece a sua existência observando as condições de que depende o objeto em estudo, 
pois, nesse caso, teria começado por expor as experiências que o levaram a essa conclu- 
são. Se logo no início da investigação, e em algumas palavras, propõe uma forma de 
classificar, devemos concluir que a obteve por uma simples análise lógica. Parte da idéia 
de produção; ao decompó-la verifica que ela implica logicamente as idéias de forças 
naturais, de trabalho, de instrumento ou de capital e trata em seguida, pelo mesmo pro- 
cesso, estas idéias derivadas. ?? 

A mais fundamental de todas as teorias econômicas, a do valor, é manifestamente 
construída segundo o mesmo método. Se o valor fosse, aí, estudado como na realidade o 
deve ser, o economista indicaria primeiro como é possível reconhecer o objeto a que se 
dá este nome; em seguida, classificaria as suas espécies, procuraria por induções metódi- 
cas as causas das suas variações, compararia enfim estes diversos resultados para deles 
tirar uma fórmula geral. A teoria só deveria surgir quando a ciência tivesse já sido levada 
bastante longe. Em vez disso, encontramo-la desde o princípio. . . O economista conten- 
ta-se em recolher a idéia que tem do valor, quer dizer, de um objeto suscetível de ser tro- 
cado; e afirma que ela implica a idéia do útil, do raro, etc., construindo uma definição 
com estes produtos da sua análise. É verdade que essa teoria é confirmada por alguns 
exemplos; mas, quando se pensa nos incontáveis fatos a que essa teoria se refere, qual é 
o valor demonstrativo dos fatos, necessariamente bastante raros, que nos são 
apresentados? 

Também na economia política, como na moral, a parte de investigação científica é 
bastante restrita; a da arte, preponderante. Na moral, a parte teórica está reduzida a 
algumas discussões sobre a idéia do dever, do bem e do direito, especulações abstratas 
que não constituem uma ciência propriamente dita, uma vez que não têm por objeto 
determinar a regra suprema da moralidade, mas o que esta deva ser. Do mesmo modo, 
o que ocupa mais lugar nas investigações econômicas é a questão de saber, por exemplo, 
se a sociedade deve ser organizada segundo as concepções dos individualistas ou segun- 
do as dos socialistas; se é melhor que o Estado intervenha nas relações industriais e 
comerciais ou que as abandone inteiramente à iniciativa privada; se o sistema monetário 
deve ser o monometalismo ou o bimetalismo, etc., etc. As leis propriamente ditas são 
pouco numerosas; mesmo aquelas a que temos o costume de assim chamar não merecem 


23 Esta característica ressalta das próprias expressões que os economistas empregam. Trata-se sempre de 
idéias, da idéia de útil. de poupança. de investimento. de despesa. (Ver: Gide, Princípios de Economia Políti- 
ca, liv. II, cad. 1,3 |; cad. 11,8 1.) 


402 DURKHEIM 


tal qualificação; não são mais do que máximas a orientar a nossa ação, preceitos práti- 
cos disfarçados. Vejamos, por exemplo, a famosa lei da oferta e da procura. Nunca foi 
estabelecida indutivamente, como expressão da realidade econômica; jamais foi insti- 
tuída uma experiência, uma comparação metódica, para estabelecer que, de fato, é segun- 
do esta lei que se processam as relações econômicas. Tudo quanto se pôde fazer e tudo 
quanto se fez foi afirmar que os indivíduos devem proceder assim para orientar bem os 
seus interesses; toda e qualquer maneira de proceder diferente seria prejudicial e implica- 
ria da parte dos que a ela se prestassem uma verdadeira aberração lógica. É lógico que 
as indústrias mais produtivas sejam as mais procuradas; que os detentores dos produtos 
mais procurados e mais raros os vendam a um preço mais elevado. Mas esta necessidade 
lógica não se parece em nada com a necessidade que as verdadeiras leis da natureza 
apresentam. Estas exprimem as relações segundo as quais os fatos se encadeiam real- 
mente, não o modo como seria bom que eles se encadeassem. 

O que dizemos desta lei podemos repeti-lo acerca de todas as que a escola econô- 
mica ortodoxa qualifica como naturais e que, aliás, são meros casos particulares da 
precedente. São naturais, se assim quisermos, no sentido em que enunciam os meios que 
é natural empregar para atingir um dado fim; mas não devem ser assim chamadas se, por 
lei natural, se entende toda maneira de ser da natureza indutivamente constatada. Em 
suma, constituem meros conselhos de sabedoria prática e, se se pôde, mais ou menos 
especiosamente, apresentá-los como a própria expressão da realidade, foi porque, com 
razão ou sem ela, se acreditou que tais conselhos eram seguidos pela generalidade dos 
homens e na generalidade dos casos. 

No entanto, os fenômenos sociais são objetos e devem ser tratados como tais. Para 
demonstrar esta proposição não é necessário filosofar sobre a sua natureza nem discutir 
as analogias que apresentam com os fenômenos dos reinos inferiores. Basta constatar 
que eles são o único datum oferecido ao sociólogo. É objeto, com efeito, tudo o que é 
dado, tudo o que se oferece, ou antes, se impõe à observação. Tratar dos fenômenos 
como coisas é tratá-los na qualidade de data que constituem o ponto de partida da ciên- 
cia. Os fenômenos sociais apresentam incontestavelmente esta característica. O que nos 
é dado não é a idéia que os homens têm do valor, visto que ela é inacessível; são os valo- 
res que se trocam realmente no decurso das relações econômicas. Não é uma ou outra 
concepção de ideal moral; é o conjunto das regras que determinam efetivamente a condu- 
ta. Não é a idéia do útil ou da riqueza; é todo o detalhe da organização econômica. É 
possível que a sociedade proceda a um mero desenvolvimento de certas noções; mas, 
mesmo que isso aconteça, essas noções não são dadas imediatamente. Logo, não as 
podemos atingir diretamente mas sim através da realidade fenomenal que as exprime. 
Não sabemos a priori quais as idéias que estão na origem das diversas correntes entre as 
quais se partilha a vida social, nem sequer se existem; só depois de as ter seguido até às 
fontes saberemos de onde provêm. 

Devemos, portanto, considerar os fenômenos sociais em si mesmos, desligados dos 
sujeitos conscientes que, eventualmente, possam ter as suas representações; é preciso 
estudá-los de fora, como coisas exteriores, porquanto é nesta qualidade que eles se nos 
apresentam. Se esta exterioridade não é senão aparente, a ilusão dissipar-se-á à medida 
que a ciência for avançando e ver-se-á, por assim dizer, o exterior entrar no interior. Mas 
a solução não pode ser inventada previamente; mesmo que os fenômenos sociais não te- 
nham todas as características de um objeto, deveremos primeiramente tratá-los como se 
as tivessem. Esta regra aplica-se a toda a realidade social e não admite quaisquer exce- 
ções. Mesmo os fenômenos que pareçam consistir em simples arranjos artificiais devem 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 403 


ser considerados deste ponto de vista. O caráter convencional de uma prática ou de uma 
instituição nunca deve ser presumido. Se, aliás, nos for permitido invocar a nossa expe- 
riência pessoal, julgamos poder assegurar que, procedendo deste modo, teremos muitas 
vezes a satisfação de ver os fatos aparentemente mais arbitrários apresentarem, na 
sequência de uma observação mais atenta das suas características de constância e regu- 
laridade, os sintomas de uma verdadeira objetividade. 

De resto, e de uma maneira geral, o que foi dito anteriormente sobre as caracterís- 
ticas distintivas do fato social basta para nos tranglilizar acerca da natureza desta obje- 
tividade e para nos provar que ela não é ilusória. Com efeito, reconhece-se uma coisa por 
um dado sinal característico; ela não pode ser modificada por um simples decreto da 
vontade. Ela não é evidentemente refratária a toda modificação; mas para que haja uma 
mudança não basta que a desejemos, é preciso ainda um esforço mais ou menos labo- 
rioso tendente a vencer a resistência que ela nos opõe e que, aliás, nem sempre pode ser 
vencida. Ora, nós já vimos que os fatos sociais têm esta propriedade. Longe de serem um 
produto da nossa vontade, determinam-na do exterior; são como que moldes nos quais 
temos a necessidade de vazar as nossas ações. Frequentemente essa necessidade é tal que 
não podemos escapar-lhe; mas, mesmo quando conseguimos triunfar dos fatos sociais, a 
oposição que encontramos basta para nos advertir de que estamos em presença de algo 
que não depende de nós. Portanto, considerando os fenômenos sociais como coisas, não 
faremos mais do que conformarmo-nos com a sua natureza. 

Em definitivo, a reforma que se trata de introduzir na sociologia é idêntica. ponto 
por ponto, à que transformou a psicologia nestes últimos trinta anos. Do mesmo modo 
que Comte e Spencer declaram que os fatos sociais são fatos naturais sem, no entanto, os 
tratarem como coisas, também as diferentes escolas empiristas tinham, desde havia 
muito, reconhecido o caráter natural dos fenômenos psicológicos continuando a aplicar- 
lhes um método puramente ideológico. Com efeito, também os empiristas, tal como os 
seus opositores, procediam exclusivamente por introspecção. Ora, os fatos que observa- 
mos em nós mesmos são demasiado raros, demasiado fugidios, demasiado maleáveis 
para poderem impor-se às noções que o hábito fixou em nós e para se poder fixar-lhes as 
leis. Quando, portanto, estas noções não são submetidas a um outro controle. nada lhes 
faz contrapeso; por conseguinte, tomam o lugar dos fatos e constituem a matéria da 
ciência. 

Nem Locke nem Condillac consideraram os fenômenos psíquicos objetivamente. 
Não estudaram a sensação, mas sim uma certa idéia de sensação. É por isso que, apesar 
de terem preparado o surgimento da psicologia científica, esta só nasce verdadeiramente 
muito mais tarde, quando se chegou à concepção de que os estados de consciência 
podem e devem ser considerados a partir do exterior e não do ponto de vista da cons- 
ciência que os experimenta. Tal é a grande revolução que se efetuou neste campo de estu- 
dos. Todos os procedimentos particulares, todos os métodos novos que enriqueceram 
esta ciência não são mais do que meios diversos de realizar mais completamente essa 
idéia fundamental. É este mesmo progresso que resta à sociologia fazer; é necessário que 
ela passe do estado subjetivo, que ainda não ultrapassou, à fase objetiva. 

Esta passagem é, aliás, menos dificil de efetuar do que na psicologia. Na realidade, 
os fatos psíquicos são naturalmente dados como estados do sujeito do qual não parecem 
sequer separáveis. Interiores por definição, parece não ser possível tratá-los como exte- 
riores senão violentando a sua natureza. Para os poder considerar assim, é necessário um 
esforço de abstração e todo um conjunto de procedimentos e artifícios. Pelo contrário, os 
fatos naturais têm imediatamente todas as características da coisa. O direito existe nos 


404 DURKHEIM 


códigos, os movimentos da vida cotidiana inscrevem-se nos números da estatística, os 
monumentos na história, as modas nos fatos, os gostos nas obras de arte. Tendem em vir- 
tude da sua própria natureza a constituir-se fora das consciências individuais, uma vez 
que as dominam. Para os ver sob o aspecto de coisa não é, portanto, necessário torturá- 
los engenhosamente. Deste ponto de vista a sociologia tem sobre a psicologia uma séria 
vantagem que não tinha sido percebida até aqui e que deve apressar o seu desenvolvi- 
mento. Os fatos são, talvez, mais difíceis de interpretar, uma vez que são mais comple- 
xos, mas são mais fáceis de atingir. A psicologia tem dificuldade em os elaborar e em 
atingi-los. .. Quando este princípio do método científico for unanimemente reconhecido 
e praticado, veremos a sociologia progredir com uma rapidez que a lentidão atual do seu 
desenvolvimento não faz de modo algum prever, e conquistar o avanço que a psicologia 
agora apresenta mas que deve unicamente à sua anterioridade histórica.” ? 


HN 


Mas, a experiência dos nossos antecessores mostrou-nos que, para assegurar a reali- 
zação prática da verdade acabada de estabelecer, não basta dar-lhe uma demonstração 
teórica nem assimilá-la. As barreiras que o espírito naturalmente lhe opõe são de tal 
modo fortes que somos inevitavelmente conduzidos a antigos erros se não tivermos a 
preocupação de nos submeter a uma disciplina rigorosa, cujas regras principais, corolá- 
rios da precedente, passamos a formular: 

1.º — É necessário afastar sistematicamente todas as noções prévias. Torna-se 
necessário uma demonstração especial desta regra, pois resulta de tudo o que anterior- 
mente dissemos. Constitui, aliás, a base de todos os métodos científicos. A dúvida metó- 
dica de Descartes não passa, no fundo, de mais uma das suas aplicações. Se, no momen- 
to em que se dispôs a fundar uma ciência, Descartes pôs em causa todas as idéias 
anteriores, é porque pretendeu utilizar apenas conceitos cientificamente elaborados, isto 
é. construídos segundo o método por ele instituído; todos os que provierem de outra ori- 
gem devem, pois, ser rejeitados, pelo menos provisoriamente. Vimos já que a teoria dos 
idolos tem, em Bacon, o mesmo sentido. As duas grandes doutrinas, tantas vezes consi- 
deradas como opostas, concordam neste ponto essencial. É portanto necessário que o 
sociólogo. quer no momento em que determina o objeto das suas pesquisas, quer no 
decurso das suas demonstrações, se abstenha resolutamente de empregar conceitos for- 
mados fora da ciência e pensados em função de necessidades que nada têm de científico. 
É preciso que o sociólogo se liberte das falsas evidências que dominam o espírito do 
vulgo, que sacuda de uma vez por todas o jugo das categorias empíricas que uma longa 
habituação acaba, muitas vezes, por tornar tirânico. Se por vezes a necessidade o obriga 
a servir-se delas, que o faça com a consciência do seu pouco valor, para não lhes atribuir, 
na sua doutrina, um papel que não mereçam. 

O que torna esta depuração particularmente difícil em sociologia é o fato de o senti- 
mento entrar muitas vezes em jogo. Apaixonamo-nos frequentemente pelas nossas cren- 
ças políticas e religiosas, bem como pelas nossas práticas morais, de um modo muito 
diferente do adotado para com as coisas do mundo físico; este caráter passional tende a 


24 É verdade que a maior complexidade dos fatos sociais torna a sua ciência mais difícil. Mas. em compen- 
sação, precisamente porque a sociologia foi a última a aparecer. está habilitada a aproveitar os progressos 
realizados pelas ciências anteriores c a instruir-se nas suas escolas. Esta utilização das experiências feitas 
não pode deixar de acelerar o seu desenvolvimento. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 405 


influir na maneira como concebemos e explicamos tais crenças. A forma como as conce- 
bemos e os objetos que delas fazem parte são-nos de tal modo gratos que adquirem uma 
autoridade difícil de contradizer. Qualquer opinião que as perturbe é tratada como inimi- 
ga. Se uma proposição não está de acordo com a idéia que temos do patriotismo ou da 
dignidade individual, por exemplo, é negada quaisquer que sejam as provas sobre que 
assenta. Custa-nos admitir que seja verdadeira, e a nossa atitude é rejeitá-la. A paixão, 
para se justificar, não tem aliás problemas em sugerir razões que facilmente adotamos 
como decisivas. Pode até dar-se o caso de essas noções terem um tal prestígio que nem 
sempre tolerem o exame científico. O simples fato de serem submetidas, conjuntamente 
com os fenômenos afins, a uma análise fria e seca revolta certos espíritos. Quem se deci- 
dir a estudar a moral como uma realidade exterior será visto por esses espíritos delicados 
como um ser sem moral. Longe de admitir que esses sentimentos relevam da ciência, 
crê-se ser a eles que deve recorrer-se para fazer a ciência das coisas a que dizem respeito. 
Como diz um eloquente historiador das religiões: “Desgraça ao sábio que aborde as coi- 
sas de Deus sem ter no fundo da sua consciência, na mais profunda e indestrutível cama- 
da do seu ser, onde descansa a alma dos antepassados, um santuário desconhecido do 
qual se eleve por instantes um perfume de incenso, um salmo, um grito doloroso ou triun- 
fal que em criança lançou para o céu, na esteira dos seus irmãos, e o coloque em súbita 
comunhão com os profetas de outrora”.? * 


Não vale a pena erguermo-nos com demasiada violência contra esta doutrina mís- 
tica que, como todo o misticismo, não passa de um empirismo disfarçado, negador da 
ciência. Os sentimentos que têm por objeto as coisas sociais não gozam de privilégios 
relativamente aos outros, porquanto possuem a mesma origem, isto é, também se forma- 
ram historicamente. São um produto da experiência humana, mas de uma experiência 
confusa e desorganizada. Não se devem a uma antecipação transcendental da realidade, 
mas a toda uma gama de impressões e de emoções desordenadamente acumuladas, ao 
sabor das circunstâncias, sem interpretações metódicas. Longe de nos trazerem esclareci- 
mentos superiores aos racionais, tais sentimentos são na verdade fortes, mas confusos. 
Conceder-lhes grande preponderância seria conceder às faculdades inferiores da inteli- 
gência a supremacia sobre as mais elevadas, seria condenar-se a uma oratória infrutifera. 
Uma ciência assim fundamentada só pode satisfazer os espíritos que preferem pensar 
com a sensibilidade a pensar com o entendimento, que preferem as sínteses imediatas e 
confusas da sensação às análises pacientes e esclarecedoras da razão. O sentimento é ob- 
jeto de ciência, e não critério da verdade científica. De resto, todas as ciências encon- 
traram de início resistências análogas. Houve tempos em que os sentimentos para com as 
coisas do mundo físico, elas próprias dotadas de um caráter religioso ou moral, se opu- 
nham com não menos ímpeto ao estabelecimento das ciências físicas. Podemos portanto 
acreditar que, expulso de ciência em ciência, este preconceito acabará por desaparecer da 
própria sociologia, seu último refúgio, para deixar o terreno livre ao estudioso. 


2.º — Mas a regra precedente é totalmente negativa. Ensina ao sociólogo a escapar 
ao império das noções vulgares e a dar atenção aos fatos, mas não diz como ele se deve 
apoderar dos fatos para proceder ao seu estudo objetivo. 

Todas as investigações científicas se debruçam sobre um determinado grupo de 
fenômenos abrangidos por uma mesma definição. A primeira tarefa do sociólogo deve 
ser, portanto, a de definir aquilo que irá tratar, para que todos saibam, incluindo ele pró- 
prio, o que está em causa. Esta é a primeira e a mais indispensável das condições para 


25 J. Darmesteter, Os Profetas de Israel, pág. 9. 


406 DURK HEIM 


o estabelecimento de qualquer prova e de qualquer verificação; uma teoria só pode ser 
controlada se se conhecerem os fatos a que se reporta. Para além disso, dado que é atra- 
vés desta definição inicial que se estabelece o objeto de uma ciência, esse objeto será ou 
não uma coisa, consoante a forma como tal definição for feita. 

Para que seja objetiva, é necessário que exprima os fenômenos não em função de 
uma idéia concebida pelo espírito mas sim das suas propriedades concretas, mediante 
uma caracterização baseada num elemento integrante da sua natureza e não em confor- 
midade com uma noção mais ou menos ideal. Ora, no momento em que a pesquisa se ini- 
cia e os fatos ainda não foram submetidos a qualquer elaboração, as únicas caracterís- 
ticas a que podemos recorrer são as imediatamente visíveis. As que se situam mais 
profundamente são, sem dúvida, mais essenciais e de maior valor explicativo; mas são 
desconhecidas nesta fase da ciência e só podem ser antecipadas se substituirmos a reali- 
dade por um conceito qualquer do espírito. É portanto entre as primeiras características 
que deve procurar-se a matéria desta definição fundamental. Claro que esta definição 
deverá compreender, sem qualquer exceção ou distinção, todos os fenômenos que apre- 
sentem essas mesmas características, porquanto não dispomos ainda de nenhum meio 
para as selecionar. Tais propriedades são, nesta etapa, tudo o que sabemos do real, por 
conseguinte, devem determinar soberanamente a maneira de agrupar os fatos. Como não 
há outro critério que possa, mesmo parcialmente, suspender os efeitos do precedente, 
adota-se a seguinte regra: Tomar sempre para objeto de investigação um grupo de fenó- 
menos previamente definidos por certas características exteriores que lhes sejam comuns, 
e incluir na mesma investigação todos os que correspondam a esta definição. Conside- 
rando, por exemplo, o conjunto dos atos que apresentam a característica exterior comum 
de, uma vez executados, determinarem por parte da sociedade a reação particular a que 
se chama pena, constituimo-los num grupo sui generis a que impomos a rubrica genérica 
de crime; os atos assim definidos formam o objeto de uma ciência especial, a criminolo- 
gia. Do mesmo modo, no seio de todas as sociedades conhecidas constata-se a existência 
de uma sociedade parcial reconhecível pela característica externa de ser composta por 
indivíduos na sua maioria consanguíneos e unidos entre si por laços jurídicos; os fatos 
que lhes são afins formam um grupo particular a que damos o nome de fenômenos da 
vida doméstica; chamamos família a todos os agregados deste tipo e fazemos da família 
assim definida o objeto de uma investigação especial que ainda não recebeu uma denomi- 
nação específica na terminologia sociológica. Posteriormente, ao passar da família em 
geral para os diferentes tipos familiares, aplicar-se-á a mesma regra. Quando se abordar, 
por exemplo, o estudo do clã, da família matriarcal ou da família patriarcal, começar-se- 
à por defini-los segundo o mesmo método. O objeto de cada problema, quer seja geral 
quer seja particular, deve ser estabelecido de acordo com o mesmo princípio. 

Procedendo desta maneira, o sociólogo radica-se, desde a primeira tentativa, na rea- 
lidade. Esta classificação dos fatos não depende efetivamente dele, dos aspectos particu- 
lares do seu espírito, mas da natureza das coisas. A característica que os engloba nesta 
ou naquela categoria pode ser reconhecida por todos e as afirmações de cada observador 
podem ser controladas pelos restantes. É certo que a noção assim constituída nem sem- 
pre concorda com a noção comum. Assim, para o senso comum, o livre pensamento ou 
as faltas de etiqueta, tão regular e severamente punidos em tantas sociedades, não são 
olhados como crimes mesmo relativamente a essas sociedades. Do mesmo modo. um clã 
não é uma família na acepção usual da palavra. Mas como o que está em causa não é a 
simples questão de descobrir um modo que nos permita encontrar com suficiente segu- 
rança os fatos a que se aplicam as palavras da língua corrente e as idéias que elas tradu- 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 407 


zem, o que se impõe é formar com o auxílio de todas as peças conceitos novos, apro- 
priados às necessidades da ciência e expressos através de uma terminologia especial. 
Não é que o conceito vulgar seja inútil ao investigador, pois serve-lhe de indicador. Ele 
informa-nos da existência de conjuntos de fenômenos reunidos sob um mesmo nome e, 
consequentemente, devendo possuir características comuns; e como nunca existe sem ter 
tido um qualquer contato com os fenômenos, o conceito vulgar indica-nos por vezes, em- 
bora grosseiramente, qual a direção em que os fenômenos devem ser procurados. Contu- 
do, sendo de natureza grosseira, é perfeitamente natural que não coincida exatamente 
com o conceito científico a que serviu de veículo. ? * 

Por mais evidente e mais importante que seja esta regra, nunca é observada em 
sociologia. Precisamente porque ela se ocupa de coisas a que nos referimos incessante- 
mente, como família, propriedade, crime, etc., parece, na maioria das vezes, inútil ao 
sociólogo dar-lhes uma definição prévia e rigorosa. Estamos de tal modo habituados a 
servir-nos dessas palavras no decurso das conversas, que parece inútil precisar o sentido 
em que as tomamos. Atribuímos-lhes simplesmente a noção comum. Ora, esta é fregiien- 
temente ambígua, e tal ambiguidade faz com que se reúnam sob um mesmo nome, e 
numa mesma explicação, coisas efetivamente muito diferentes. Daqui resultam inextri- 
cáveis confusões. Existem, por exemplo, duas espécies de uniões monogâmicas: umas de 
fato e outras de direito. Nas primeiras, o marido tem apenas uma mulher, ainda que juri- 
dicamente possa ter mais; nas segundas, é-lhe legalmente proibido ser polígamo. A 
monogamia encontra-se em muitas espécies animais e em certas sociedades inferiores, 
não no estado esporádico, mas com a mesma generalidade que teria se fosse imposta por 
lei. Quando a população se encontra dispersa numa vasta superfície, a trama social é 
muito frouxa e, por conseguinte, os indivíduos vivem isolados uns dos outros. Logo, cada 
homem procura naturalmente encontrar uma mulher, e só uma, porque, nesse estado de 
isolamento, é-lhe difícil ter várias. A monogamia obrigatória, pelo contrário, só se obser- 
va nas sociedades mais complexas. Estas duas espécies de sociedades conjugais têm, por- 
tanto, um significado muito diferente, existindo no entanto uma só palavra para as desig- 
nar; diz-se, correntemente, de certos animais que são monogâmicos, ainda que não haja 
neles nada que se pareça com uma obrigação jurídica. Ora, Spencer, ao abordar o casa- 
mento, emprega a palavra monogamia sem a definir, com o seu sentido usual e equívoco. 
Daí resulta o fato de a evolução do casamento lhe parecer apresentar uma incompreen- 
sivel anomalia, uma vez que julga observar a forma superior da união sexual desde as 
primeiras fases do desenvolvimento histórico, parecendo desaparecer no período inter- 
médio para reaparecer em seguida. Conclui daqui que não há relação regular entre o pro- 
gresso social em geral e o avanço progressivo para um tipo perfeito de vida familiar. 
Uma definição oportuna teria evitado este erro.” ? 

Outros casos há em que se toma o cuidado de definir o objeto do qual se ocupa a 
investigação; mas, em vez de incluir e agrupar na definição, sob a mesma rubrica, todos 


26 Na prática, é sempre do conceito vulgar e da palavra vulgar que se parte. Procuram-se, entre as coisas 
que conota confusamente essa palavra, as que apresentem características exteriores comuns. Se estas existi- 
rem e se o conceito formado pelo agrupamento dos fatos assim aproximados coincide, se não totalmente (o 
que é raro), pelo menos na maior parte dos casos, com o conceito vulgar, poder-se-á continuar a designar o 
primeiro pela mesma palavra que designa o segundo e conservar na ciência a expressão usada na língua cor: 
rente. Mas se o afastamento é demasiado importante, se a noção comum confunde uma pluralidade de 
noções distintas, impõe-se a criação de termos novos e específicos. 

27 Foi esta mesma ausência de definição que conduziu, por vezes, à afirmação de que a democracia se 
encontra no começo e no fim da história. A verdade é que a democracia primitiva e a de hoje são muito dife- 
rentes uma da outra. 


408 DURKHEIM 


os fenômenos com as mesmas propriedades exteriores, procede-se a uma seleção. Esco- 
lhem-se alguns, uma espécie de elite, que são olhados como os únicos a ter direito a tais 
características. Quanto aos outros, consideram-se como tendo usurpado esses sinais 
característicos e não são levados em linha de conta. Mas é fácil de ver que, deste modo, 
só pode conseguir-se uma noção subjetiva e truncada. Tal eliminação, com efeito, só 
pode ser feita mediante uma idéia preconcebida, pois, nos primórdios de uma ciência, 
não houve ainda uma investigação que pudesse estabelecer a natureza dessa usurpação, 
supondo-a possível. Os fenômenos escolhidos só podem ter sido retidos por serem, mais 
que os outros, conformes à concepção ideal existente desse tipo de realidade. Garofalo, 
por exemplo, no início da sua Criminologia demonstra bastante bem que o ponto de par- 
tida desta ciência deve ser “a noção sociológica do crime”.?º Somente, para constituir 
esta noção, não compara indistintamente todos os atos que, nos diferentes tipos sociais, 
foram reprimidos por penas regulares, mas apenas alguns deles, a saber, os que ofendem 
a parte imutável do sentido moral. Quanto aos sentimentos morais que desapareceram 
com a evolução, não lhe parecem baseados na natureza das coisas pelo fato de não terem 
conseguido manter-se; por conseguinte, os atos que foram considerados criminosos por 
os violarem, parecem-lhe dever exclusivamente esta denominação a circunstâncias aci- 
dentais e mais ou menos patológicas. Mas é em virtude de uma concepção perfeitamente 
pessoal de moral que ele procede a esta eliminação. Parte da idéia de que a evolução 
moral, tomada na sua fonte, ou próximo dela, comporta toda espécie de escórias e impu- 
rezas e as vai eliminando progressivamente, só tendo conseguido hoje desembaraçar-se 
de todos os elementos adventícios que, primitivamente, perturbavam o seu curso. Mas 
este princípio não é nem um axioma evidente, nem uma verdade demonstrada; não passa 
de uma hipótese sem qualquer justificação. As partes variáveis do sentido moral não se 
baseiam menos na natureza das coisas do que as partes imutáveis; as variações por que 
passaram as primeiras testemunham simplesmente que as próprias coisas variaram. Em 
zoologia, as formas especiais das espécies inferiores não são encaradas como menos 
naturais do que as que se repetem em todos os degraus da escala animal. Do mesmo 
modo, os atos considerados como crime pelas sociedades primitivas, e que perderam essa 
qualificação, são realmente criminosos para essas sociedades, tal como os que conti- 
nuamos a reprimir hoje em dia. Os primeiros correspondem às condições mutáveis da 
vida social, e os segundos às condições constantes; mas não são mais artificiais uns do 
que os outros. 

Mas, mesmo que esses atos tivessem revestido indevidamente o caráter de crime, 
mesmo assim não deveriam ser separados radicalmente dos outros; as formas mórbidas 
de um fenômeno têm a mesma natureza das formas normais e, por conseguinte, devem 
ser observadas do mesmo modo para lhes determinar a natureza. A doença não se opõe 
à saúde; são duas variantes do mesmo gênero, que se esclarecem mutuamente. É uma 
regra desde há muito reconhecida e praticada na biologia e na psicologia, e que o soció- 
logo não é menos obrigado a respeitar. A menos que se admita que um mesmo fenômeno 
possa ser devido umas vezes a uma causa e outras a outra, quer dizer, a não ser que se 
negue o princípio de causalidade, as causas que imprimem a um ato, de uma maneira 
anormal, o sinal distintivo do crime não poderiam ser de um gênero diferente das que 
produzem normalmente esse mesmo efeito; distinguem-se em grau ou por não agirem 
num mesmo conjunto de circunstâncias. O crime anormal também é, portanto, um crime. 
Vemos assim que Garofalo toma por gênero o que é apenas uma espécie ou uma simples 


28 Criminologia, pág. 2. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 409 


variedade. Os fatos a que aplica a sua fórmula da criminalidade só representam uma ínfi- 
ma minoria dos que a sua fórmula deveria abarcar, pois não convém nem aos crimes reli- 
giosos, nem aos crimes contra a etiqueta, o cerimonial, a tradição, etc., que, se desapare- 
ceram dos nossos códigos modernos, enchem porém quase todo o direito penal das 
sociedades anteriores. 

É essa mesma falta de método que permite a certos observadores recusarem aos sel- 
vagens toda e qualquer espécie de moralidade.?º Partem da idéia de que nossa moral é a 
moral; ora, é evidente que ela é desconhecida dos povos primitivos, onde só existe num 
estado rudimentar. Mas esta definição é arbitrária. Apliquemos a nossa regra: para deci- 
dir se um preceito é moral ou não, devemos examinar se apresenta ou não o signo exte- 
rior da moralidade, que consistirá numa sanção repressiva difusa, quer dizer, numa cen- 
sura da opinião pública que vinga todas as violações do preceito. Sempre que estamos 
em presença de um fato que apresenta esta característica, qualificamo-lo de moral por- 
que ela prova que o fato é da mesma natureza dos outros fatos morais. Ora, este tipo de 
regras, além de se encontrar nas sociedades inferiores, é aí mais numeroso do que nas 
civilizadas. Uma multidão de atos que, atualmente, são abandonados à livre apreciação 
dos indivíduos, eram então impostos obrigatoriamente. Vemos assim os erros a que 
somos levados quando damos más definições ou não as damos. 

Mas definir os fenômenos pelas suas características aparentes não será atribuir às 
qualidades superficiais uma espécie de preponderância sobre os atributos fundamentais? 
Não será, por uma verdadeira subversão da ordem lógica, fazer repousar as coisas sobre 
os seus cumes e não sobre as suas bases? De fato, se definirmos o crime pela pena, expo- 
mo-nos quase inevitavelmente a ser acusados de querer fazer derivar o crime da pena ou, 
segundo uma citação bem conhecida, de ver no cadafalso a origem da vergonha, não no 
ato expiado. Mas esta censura repousa numa confusão. Posto que a definição cuja regra 
acabamos de dar surge no início da ciência, nunca poderia ter por objetivo exprimir a 
essência da realidade; deve somente ajudar-nos a lá chegar mais tarde. Tem por única 
função pór-nos em contato com as coisas e, como o nosso espírito só as pode atingir do 
exterior, é pelo exterior que a definição as exprime. Mas não as explica: fornece apenas 
um primeiro ponto de apoio necessário às nossas explicações. Não é decerto a pena que 
faz o crime, mas é através dela que o crime se nos revela exteriormente e é dela que tere- 
mos de partir se quisermos compreendê-lo. 

A objeção só teria fundamento quando estas características exteriores fossem ao 
mesmo tempo acidentais, quer dizer, não estivessem ligadas às propriedades fundamen- 
tais. Nestas condições, a ciência, depois de as ter assinalado, não poderia ir mais longe; 
não poderia descer mais ao fundo da realidade uma vez que não haveria nenhuma rela- 
ção entre a superficie e o fundo. Mas, a menos que o princípio da causalidade seja uma 
palavra vã, quando certos caracteres se encontram identicamente e sem exceção alguma 
em todos os fenômenos de uma certa ordem, podemos estar certos de que estão estreita- 
mente ligados à natureza dos fenômenos e que são solidários com ela. Se um dado grupo 
de atos apresenta a particularidade de estar ligado a uma sanção penal poderemos con- 
cluir que existe um laço íntimo entre a pena e os atributos constitutivos desses atos. 
Logo, por muito superficiais que sejam, estas propriedades, se forem metodicamente 
observadas, mostram ao investigador a via que deve seguir para penetrar no fundo das 
coisas; são O primeiro e indispensável anel da cadeia que a ciência desenrolará seguida- 
mente no decurso das suas explicações. 


29 Ver Lubbock, As Origens da Civilização, cap. VIH. Mais geralmente ainda, diz-se, o que é incorreto, que 
as religiões antigas são amorais ou imorais. A verdade é que elas têm a sua própria moral. 


410 DURKHEIM 


Dado que o exterior das coisas nos é dado pela sensação, poderemos dizer, em resu- 
mo: a ciência, para ser objetiva, deve partir da sensação e não dos conceitos que se for- 
maram sobre ela. É aos dados sensíveis que ela deve pedir os elementos das suas defini- 
ções iniciais. Com efeito, basta recordar em que consiste a obra da ciência para 
compreender que ela não pode proceder de outro modo. Necessita de conceitos que 
exprimam adequadamente as coisas tais como são, e não tais como seria útil à prática 
concebê-las. Os conceitos que se constituíram fora da sua ação não respondem a esta 
condição; a ciência deve portanto criar conceitos novos e, para isso, afastar as noções 
comuns e as palavras que as exprimem, voltando à sensação, matéria primeira e neces- 
sária de todos os conceitos. É da sensação que saem todas as idéias gerais, verdadeiras 
ou falsas, científicas ou não. O ponto de partida da ciência ou conhecimento especulativo 
não poderia ser diferente do ponto de partida do conhecimento vulgar ou prático. As 
divergências entre esses dois tipos de conhecimento só começam mais tarde, na forma 
como cada um deles é elaborado. 


3.º— Mas a sensação é facilmente subjetiva. Por isso é de regra, nas ciências natu- 
rais, afastar os dados sensíveis que se arriscam a ser demasiado pessoais, retendo exclusi- 
vamente os que apresentam um suficiente grau de objetividade. É assim que o físico subs- 
titui as vagas impressões produzidas pela temperatura ou pela eletricidade por uma 
representação visual das oscilações do termômetro ou do eletrômetro. O sociólogo é 
obrigado às mesmas precauções. As características exteriores que lhe permitem definir o 
objeto das suas pesquisas devem ser tão objetivas quanto possível. 

Podemos pôr como princípio que os fatos sociais são tanto mais suscetíveis de ser 
objetivamente representados quanto mais livres estiverem dos fatos individuais que os 
manifestam. 


Uma sensação é tanto mais objetiva quanto mais definido estiver o objeto a que diz 
respeito; porque a condição de toda a objetividade é a existência de um ponto de referên- 
cia, constante e idêntico, com o qual a representação pode ser relacionada e que permite 
eliminar tudo o que ela tiver de variável, logo, de subjetivo. Se os únicos pontos de refe- 
rência dados forem também variáveis, se são diferentes de si mesmos, falta-nos uma me- 
dida comum e não temos processo algum de distinguir, nas nossas impressões, o que 
depende do exterior e o que nós lhes acrescentamos. A vida social, enquanto não conse- 
guir isolar-se dos acontecimentos particulares para se constituir à parte, tem justamente 
esta propriedade; como estes acontecimentos não têm sempre a mesma fisionomia, são 
inseparáveis do observador, comunicam-lhe a sua mobilidade. A vida social consiste 
então de tendências perpetuamente em via de transformação e que o olhar do observador 
não consegue fixar. Nestas condições, o investigador não pode abordar o estudo da reali- 
dade social. Mas sabemos que a vida social apresenta a particularidade de, sem travar o 
seu movimento, se cristalizar; além dos atos individuais, os hábitos coletivos exprimem- 
se sob formas definidas, regras jurídicas, morais, ditados populares, fatos de estrutura 
social, etc. Como estas formas existem de uma maneira permanente, não mudando com 
as diversas aplicações que delas são feitas, constituem um objeto fixo, padrão constante 
que está sempre à mão do observador e que não dá azo às impressões subjetivas e às 
observações pessoais. Uma regra de direito é o que é e não há duas maneiras de a perce- 
ber. Uma vez que, por outro lado, estas práticas não são senão práticas da vida social 
consolidada, é legítimo. salvo indicações em contrário,*º estudá-la através dessas 
práticas. 


3º Para que esta substituição não fosse legítima seria preciso, por exemplo, ter razões para acreditar que 
num dado momento o direito já exprime o verdadeiro estado das relações sociais. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 411 


Quando, portanto, o sociólogo empreende a exploração de uma qualquer ordem de 
fatos sociais, deve esforçar-se por considerá-los sob um ângulo em que eles se apresen- 
tem isolados das suas manifestações individuais. Foi a partir deste princípio que estuda- 
mos a solidariedade social, as suas formas diversas e a sua evolução através do sistema 
das regras jurídicas que as exprimem.?! Do mesmo modo, se tentarmos distinguir e clas- 
sificar os diferentes tipos familiares segundo as descrições literárias que deles nos dão os 
viajantes €, por vezes, os historiadores, expomo-nos a confundir as espécies mais diferen- 
tes, a aproximar os tipos mais afastados. Se, pelo contrário, tomarmos para base dessa 
classificação a constituição jurídica da família e, mais especialmente, o direito sucessó- 
rio, teremos um critério objetivo que, sem ser infalível, nos prevenirá, no entanto, contra 
muitos erros.*? Pretende-se classificar as diferentes espécies de crimes? Tentemos 
reconstruir as maneiras de viver, os costumes profissionais usados nos diferentes mundos 
do crime, e definamos tantos tipos criminológicos quantas as formas diferentes apresen- 
tadas por esta organização. Para atingir os costumes, as crenças populares, teremos em 
conta os provérbios, os ditados que os exprimem. Sem dúvida, ao proceder assim, deixa- 
mos provisoriamente de lado a matéria concreta da vida coletiva, apesar de não termos 
o direito de postular a sua ininteligibilidade a priori; mas, se queremos seguir uma via 
metódica, é preciso estabelecer as primeiras bases da ciência sobre um terreno firme e 
não sobre areias movediças. Temos de abordar o reino social pelos aspectos em que ele 
se oferece mais facilmente à investigação científica. Só depois poderemos levar mais 
longe a investigação e, por aproximações sucessivas, encerrar pouco a pouco essa reali- 
dade fugidia da qual o espírito humano talvez nunca possa apoderar-se completamente. 


31 Ver Divisão do Trabalho Social, I, 1. 
32 Cf. a nossa Introdução à Sociologia da Família, in Anais da Faculdade de Letras de Bordéus, ano de 
1889. 


CAPÍTULO TERCEIRO 


REGRAS RELATIVAS À DISTINÇÃO ENTRE O NORMAL 
E O PATOLÓGICO 


Utilidade teórica e prática desta distinção. É preciso que ela seja possível cientificamente para que a ciência 
possa servir para dirigir a conduta. 1 — Exame dos critérios correntemente utilizados: a dor não é o sinal dis- 
tintivo da doença, porque faz parte da saúde, nem a diminuição das probabilidades de sobrevivência, na medi- 
da em que por vezes é produzida por fatos normais (velhice, parto, etc.) e não resulta necessariamente da 
doença; para além disso, este critério é, na maior parte das vezes, inaplicável, sobretudo em sociologia. A 
doença distinguida do estado de saúde como o anormal do normal. O tipo médio ou específico. Necessidade 
de levar em linha de conta a idade para determinar se o fato é normal ou não. Como esta definição do patoló- 
gico coincide em geral com o conceito corrente de doença: o anormal é o acidental; porque o anormal, em 
geral, constitui o ser em estado de inferioridade. II — Utilidade que há em verificar os resultados do método 
precedente, procurando as causas da normalidade do fato, quer dizer, da sua generalidade. Necessidade que 
há em proceder a esta verificação quando se trata de fatos que se reportam a sociedades que não acabaram 
a sua história. Por que não pode este segundo critério ser usado senão a título complementar e em segundo 
lugar. Enunciado das regras. II — Aplicação destas regras a quaisquer casos, designadamente à questão do 
crime. Por que & que a existência de uma criminalidade é um fenômeno normal. Exemplos de erros em que 
se cai quando não se seguem estas regras. A própria ciência torna-se impossível. 


A observação, quando guiada pelas regras precedentes, confina duas ordens de 
fatos bastante diferentes: aqueles que são o que devem ser e aqueles que deveriam ser 
diferentes daquilo que são, os fenômenos normais e os fenômenos patológicos. Vimos 
que era necessário englobar uns e outros numa mesma definição prévia ao ato de investi- 
gar; mas, se em certos aspectos têm natureza idêntica, não deixam de constituir duas 
variedades diferentes que importa distinguir. Disporá a ciência de meios que lhe permi- 
tam fazer esta distinção? 

Esta pergunta é de uma importância fundamental; da resposta que se lhe der depen- 
derá a nossa concepção de ciência, particularmente de ciência do homem. Segundo uma 
teoria que encontra partidários nas escolas mais diversas, a ciência nada nos ensina 
sobre o que devemos querer. Atribui aos fatos um valor e interesse idênticos; observa-os, 
explica-os, mas não os valora, não admitindo a existência de fatos censuráveis. A seu ver 
o bem e o mal não existem. Pode perfeitamente explicar-nos o modo como as causas 
geram os efeitos, mas não os fins que se deve procurar atingir. Para conhecer o que é 
desejável, somos obrigados a recorrer às sugestões do inconsciente a que podemos cha- 
mar sentimento, instinto, impulsos vitais, etc. A ciência, afirma um escritor que já cita- 
mos, pode na verdade alumiar o mundo, mas os corações, esses, deixa-os nas trevas; 
compete ao coração alumiar-se a si próprio. A ciência é assim quase destituída de toda 
a eficácia prática e, por conseguinte, perde a sua razão de ser; com efeito, qual o sentido 
de tentarmos conhecer o real se esse conhecimento não tem qualquer utilidade na vida? 
Poder-se-á argumentar que, ao revelar-nos as causas dos fenômenos, a ciência nos forne- 
ce os meios para os produzirmos à nossa vontade e, consequentemente, para realizar os 
fins que por razões supracientíficas a vontade humana pretende atingir. Mas, de certo 
modo, um meio é também um fim, pois para utilizá-lo é preciso querê-lo tanto como ao 
próprio fim que prepara. Há sempre diferentes vias que levam a um objetivo determi- 
nado; portanto, é preciso escolher entre elas. Ora, se a ciência não 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 413 


nos diz qual é o melhor objetivo, como poderá dizer-nos qual é a melhor via para o atin- 
gir? Como nos poderia recomendar a via mais rápida em vez da mais econômica, a mais 
segura em vez da mais simples, ou inversamente? Se não nos pode ajudar a determinar 
os fins superiores será também impotente quando se trata de escolher os fins secundários 
e subordinados a que chamamos meios. 

O método ideológico permite, de fato, escapar a este misticismo, e é aliás deste dese- 
jo de fuga que advém a persistência de tal método. Efetivamente, os que o praticam são 
demasiado racionalistas para admitir que a conduta humana não tivesse necessidade de 
ser dirigida através da reflexão; e, no entanto, não viam nos fenômenos, quando tomados 
em si e independentemente de qualquer dado subjetivo, nada que permitisse classificá-los 
segundo o valor prático. Parecia portanto que a única maneira de classificá-los consistia 
em relacioná-los com um conceito que os dominasse; a partir desse momento, a utiliza- 
ção de noções que presidissem à harmonização dos fatos, em vez de deles derivarem, tor- 
nou-se indispensável a qualquer sociologia racional. Mas sabemos que, se nessas condi- 
ções a prática se torna uma prática refletida, a reflexão que se utiliza não é científica. 

O problema que acabamos de levantar vai permitir-nos reivindicar os direitos da 
razão sem que caiamos na ideologia. Com efeito, tal como para os indivíduos, a saúde é 
boa e desejável para as sociedades, ao contrário da doença, que é coisa má e de evitar. 
Se, portanto, encontrarmos um critério objetivo, inerente aos próprios fatos, que nos per- 
mita distinguir cientificamente a saúde da doença nas diferentes espécies de fenômenos 
sociais, a ciência terá a possibilidade de dirigir a prática permanecendo fiel ao método 
que lhe é específico. É óbvio que, dado que presentemente não lhe é possível atingir o 
indivíduo, só nos pode fornecer indicações gerais que só podem ser diversificadas na me- 
dida em que se entre em contato com o particular através da sensação. A noção de saúde 
que a ciência pode definir não será aplicável exatamente a nenhum sujeito individual, 
pois este conceito só pode ser definido em relação a circunstâncias gerais que não exis- 
tem tais e quais em todas as pessoas; o que não impede que seja um ponto de referência 
precioso para orientar a conduta. O fato de se ser obrigado a ajustá-lo a cada caso espe- 
cífico não significa que não haja interesse em conhecê-lo. Pelo contrário, constitui a 
norma que deve servir de base aos nossos raciocínios práticos. Nestas condições, perde- 
se o direito de afirmar que o pensamento é inútil para a ação. Entre a ciência e a arte já 
não há um abismo; em vez disso, passa-se de uma para a outra sem solução de continui- 
dade. A ciência só pode descer aos fatos por intermédio da arte; mas é unicamente um 
prolongamento da ciência. Aliás, podemos perguntar-nos se a insuficiência prática desta 
última não irá diminuindo à medida que as leis que estabelece exprimirem de um modo 
cada vez mais completo a realidade individual. 


Habitualmente, o sofrimento é encarado como o sinal da doença e é fato que, em 
geral, existe uma relação entre estes dois fatores, se bem que a esta relação falte cons- 
tância e precisão. Há graves diáteses que são indolores, enquanto que certas perturba- 
ções sem importância, como as que resultam de um grão de carvão que se introduz num 
olho, provocam um verdadeiro suplício. Em certos casos, é até a ausência de dor ou 
mesmo o prazer que constituem sintomas de doença. Há um certo tipo de invulnerabi- 
lidade que é patológico. Em circunstâncias em que o homem são sofreria, o neurastênico 
pode ter uma sensação de prazer cuja natureza mórbida é incontestável. Inversamente, a 
dor é correlativa de muitos estados tais como a fome, a fadiga, o parto, que são fenôme- 
nos puramente fisiológicos. 


414 DURKHEIM 


Poderemos então afirmar que a saúde, consistindo num desenvolvimento feliz das 
forças vitais, se identifica com a perfeita adaptação do organismo ao meio, classificando, 
pelo contrário, como doença tudo o que perturba esta adaptação? De acordo com o que 
diremos mais tarde sobre este assunto, não está ainda provado que cada estado do orga- 
nismo corresponda a um estado externo. Além disso, e mesmo que este critério fosse real- 
mente probante do estado saudável, seria necessário um outro critério que o reconhe- 
cesse, pois seria forçoso indicar o princípio em função do qual este ou aquele modo de 
adaptação é mais perfeito do que um outro. 

Teria esse outro critério que ver com as nossas possibilidades de sobrevivência? A 
saúde seria assim o estado de um organismo em que essas possibilidades são máximas e 
a doença, pelo contrário, caracterizar-se-ia por tudo o que tem como consegiiência enfra- 
quecê-las. Com efeito, e em geral, a doença tem realmente como consequência um enfra- 
quecimento do organismo. Mas não é apenas ela que produz este efeito. As funções de 
reprodução, em certas espécies inferiores, implicam fatalmente a morte, e mesmo nas 
espécies mais desenvolvidas implicam sempre certos riscos. No entanto, são normais. A 
velhice e a infância têm os mesmos efeitos, pois o velho e a criança são mais acessíveis 
às causas de destruição. Quer isto dizer que são doentes e que só o adulto representa o 
tipo são? O domínio da saúde e da fisiologia ver-se-ia assim singularmente restringido. 
Aliás, se a velhice é já por si uma doença, como distinguir nesse caso o velho são do 
velho doente? Do mesmo modo, seria necessário enquadrar a menstruação entre os fenô- 
menos mórbidos; efetivamente, dadas as perturbações que determina, aumenta a vulnera- 
bilidade da mulher face à doença. No entanto, como classificar de doentio um estado 
cuja ausência ou desaparecimento prematuro constituem incontestavelmente um fenó- 
meno patológico? Raciocina-se neste campo como se, num organismo são, cada detalhe 
tivesse, por assim dizer, um papel útil a desempenhar, como se cada estado interno 
respondesse exatamente a uma dada condição externa e, por conseguinte, contribuísse 
para assegurar o equilíbrio vital e diminuir os riscos de morte. Ora, é legítimo pensar que 
certas composições anatômicas ou funcionais não servem diretamente para nada, mas 
existem porque existem, porque não podem deixar de existir dadas as condições gerais da 
vida. No entanto, não as podemos classificar como mórbidas; porque a doença é antes de 
mais nada qualquer coisa de evitável que não é inerente à constituição regular do ser 
vivo. Mas pode acontecer que, em vez de fortalecerem o organismo, estas composições 
diminuam a capacidade de resistência deste e, por conseguinte, aumentem os riscos de. 
morte. 

Por outro lado, não é certo que a doença tenha sempre o resultado através do qual 
a pretendemos definir. Não será verdade que existem inúmeras afecções demasiado ligei- 
ras para que lhes possamos atribuir uma influência sensível sobre as bases vitais do orga- 
nismo? Mesmo dentro das doenças graves há algumas que não terão consegliências 
desastrosas se soubermos lutar contra elas utilizando as armas de que dispomos. O 
homem que tem perturbações gástricas pode viver tanto tempo como o homem são se se- 
guir uma boa higiene. É sem dúvida obrigado a ter cuidado com a sua pessoa; mas não 
o somos todos nós? Poderá a vida prolongar-se de outro modo? Cada um de nós tem 
uma higiene; a do doente não se assemelha à que pratica a média dos homens do seu 
tempo e do seu meio; mas é a única diferença que, sob este aspecto, existe entre eles. A 
doença nem sempre nos deixa desamparados, num estado de irremediável desadaptação; 
obriga-nos simplesmente a adaptarmo-nos de maneira diferente da dos nossos semelhan- 
tes. Quem nos diz que não há mesmo doenças que afinal se revelam úteis? A varíola que 
inoculamos a nós próprios através da vacina é uma verdadeira doença que voluntaria- 
mente provocamos e que, no entanto, aumenta as nossas possibilidades de sobrevivência. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 415 


Há talvez muitos outros casos em que a perturbação causada pela doença é insignifi- 
cante quando confrontada com a imunidade assim adquirida. 

Este critério é inaplicável na maior parte dos casos. Rigorosamente, pode-se deter- 
minar que a mortalidade mais baixa que se conhece é apanágio dum grupo determinado 
de indivíduos; mas não se pode demonstrar a impossibilidade de haver outra mais baixa. 
Quem nos diz que não seriam possíveis outras combinações que tivessem como conse- 
quência diminuí-la ainda mais? Este mínimo real não constitui, portanto, a prova de uma 
perfeita adaptação nem é, por conseguinte, o índice certo de um estado saudável. Além 
disso, é bastante difícil constituir e isolar um grupo de todos os outros de modo a obser- 
var a constituição orgânica de que tem o privilégio e que é a causa presumida desta 
superioridade. Inversamente, se as probabilidades de sobrevivência do ser se encontram 
diminuídas quando de uma doença mortal, é difícil fornecer a prova disso quando se 
trata de uma afecção que não implica diretamente a morte. Efetivamente, só há uma 
maneira objetiva de provar que certos seres colocados em condições determinadas têm 
menos possibilidades de sobreviver do que outros; é a que consiste em provar que, com 
efeito, a maior parte deles vive menos tempo. Ora, se no que respeita às doenças indivi- 
duais esta demonstração é muitas vezes possível, é absolutamente impraticável na socio- 
logia. De fato, não possuímos neste caso o ponto de referência de que dispõe o biologista. 
a saber, o valor da mortalidade média. Não sabemos sequer com uma exatidão, digamos, 
simplesmente aproximada, em que momento nasce uma sociedade e em que momento 
morre. Todos estes problemas, que já na biologia estão longe de estar claramente resolvi- 
dos, permanecem, na sociologia, envoltos em mistério. Aliás, os acontecimentos que se 
produzem no decorrer da vida social e que se repetem de um modo mais ou menos idên- 
tico em todas as sociedades do mesmo tipo são demasiado variados para que seja possi- 
vel determinar a medida em que um deles contribuiu para o desfecho final. Quando se 
trata de indivíduos, e devido ao fato de serem muito numerosos, pode-se escolher uma 
amostra cujos elementos só tenham em comum uma única e mesma anomalia; esta apa- 
rece assim isolada de todos os fenômenos concomitantes e pode-se em seguida estudar a 
natureza da influência que exerce sobre o organismo. Se, por exemplo, um milhar de 
reumáticos, escolhidos ao acaso, apresenta uma mortalidade sensivelmente superior à 
média, há boas razões para atribuir este resultado à diátese reumatismal. Mas, como em 
sociologia cada espécie social só contém um pequeno número de exemplares, o campo 
das comparações é demasiado restrito para que tais agrupamentos sejam demonstrativos. 

Ora, na ausência desta prova de fato, só nos restam os raciocínios dedutivos cujas 
conclusões têm apenas um valor de presunções subjetivas. Não se demonstra que este ou 
aquele acontecimento tem efeito debilitante sobre o organismo social, mas que deve ter 
esse efeito. Para isso, demonstra-se que não pode deixar de provocar esta ou aquela 
consequência considerada prejudicial para a sociedade e, com base nisso, será declarado 
mórbido. Mas, admitindo que ele provoca efetivamente esta consegliência, pode aconte- 
cer que os inconvenientes desta sejam mais do que compensados por vantagens de que 
não nos apercebemos. Além disso, só há uma razão que nos pode levar a considerá-lo 
funesto: o fato de perturbar o funcionamento normal das funções. Mas uma prova deste 
gênero presume o problema já resolvido; com efeito, só tem sentido se tivermos determi- 
nado previamente em que consiste o estado normal e qual o sinal que nos permite 
reconhecê-lo. Dever-se-á recorrer à construção integral e feita a priori? Não é preciso 
mostrar o que vale uma construção deste tipo; é devido a especulações deste tipo que 
tanto na história como na sociologia os mesmos acontecimentos são classificados, de 
acordo com os sentimentos pessoais do estudioso, como salutares ou desastrosos. Acon- 
tece assim que um teórico incrédulo assinale como um fenômeno mórbido os restos de fé 
que sobrevivem à derrocada geral das crenças religiosas, enquanto para o crente é a 
incredulidade que constitui a grande doença social. Da mesma forma, para o socialista 


416 DURKHEIM 


a organização econômica atual é um fato de teratologia social enquanto para o econo- 
mista ortodoxo são as tendências socialistas que são fundamentalmente patológicas. E 
cada um encontra silogismos que considera bem elaborados para fundamentar as opi- 
niões respectivas. 

O defeito comum a estas definições é a pretensão de atingirem prematuramente a 
essência dos fenômenos. Assim, supõem irrefutáveis proposições que, verdadeiras ou 
não, só podem ser confirmadas se a ciência estiver suficientemente avançada. É portanto 
conveniente obedecer à regra que há pouco estabelecemos. Em vez de tentarmos determi- 
nar prematuramente as relações entre o estado normal ou o seu contrário e as forças 
vitais, procuremos algumas manifestações exteriores, imediatamente perceptíveis mas 
objetivas, que nos permitam reconhecer qualquer destas duas ordens de fatos. 

Qualquer fenômeno sociológico, como aliás qualquer fenômeno biológico, é susce- 
tível de revestir formas diferentes apesar de permanecer essencialmente o mesmo. Ora, 
estas formas são de dois tipos. Umas são comuns a toda a espécie; encontram-se, se não 
em todos os indivíduos, pelo menos na maior parte deles e apresentam variações de um 
sujeito para outro compreendidas entre limites muito próximos. Outras são excepcionais; 
além de surgirem apenas em minorias, muitas vezes não chegam a durar a vida inteira do 
indivíduo. São uma exceção tanto no tempo como no espaço. *º Estamos portanto em 
presença de duas variedades distintas de fenômenos e que devem ser designadas sob ter- 
mos diferentes. Chamaremos normais aos fatos que apresentam as formas mais gerais e 
daremos aos outros a designação de mórbidos ou de patológicos. Se se considerar que o 
tipo médio é o ser esquemático que resultaria da reunião num mesmo ser, numa espécie 
de individualidade abstrata, das características mais frequentes da espécie e das formas 
mais frequentes destas características, poder-se-á afirmar que o tipo normal se confunde 
com o tipo médio, e que qualquer desvio em relação a este padrão de saúde é um fenô- 
meno mórbido. É verdade que o tipo médio não pode ser determinado com a mesma cla- 
reza com que nos surge o tipo individual dado que os atributos que o constituem não são 
absolutamente fixos e podem variar. Mas não duvidamos de que possa ser elaborado pois 
constitui de próprio a matéria imediata da ciência; com efeito, confunde-se com o tipo 
genérico. O que o fisiologista estuda são as funções do organismo médio e em sociologia 
passa-se o mesmo. A partir do momento em que sabemos distinguir as espécies sociais 
umas das outras — examinaremos esta questão mais à frente — é possível isolar a forma 
mais geral que um fenômeno apresenta numa espécie determinada. 

Vê-se que um fato só pode ser considerado patológico quando referido a uma dada 
espécie. As condições da saúde e da doença não podem ser definidas in abstracto e de 
uma maneira absoluta. Esta regra não é contestada em biologia; ninguém pensou que o 
que é normal para um molusco o é igualmente para um vertebrado. Cada espécie tem 
uma saúde que lhe é específica, porque tem um tipo médio que lhe é peculiar, e a saúde 
das espécies mais inferiores não é menor do que a das espécies superiores. O mesmo prin- 
ápio aplica-se à sociologia ainda que, neste caso, seja muitas vezes ignorado. É preciso 
renunciar ao hábito, ainda demasiado corrente, que consiste em avaliar uma instituição, 


33 Pode-se distinguir assim a doença da monstruosidade. A segunda só constitui uma exceção no espaço; 
não se encontra na média da espécie mas perdura durante toda a vida dos indivíduos em que se encontra. 
Vê-se aliás que estas duas ordens de fatos só diferem por uma questão de grau e são no fundo de idêntica 
natureza; as fronteiras entre elas são muito indecisas porque a doença pode fixar-se e a monstruosidade pode 
perdurar futuramente. Não convém portanto separá-las radicalmente quando se procede a uma definição das 
mesmas. A distinção entre elas não pode ser mais categórica do que a distinção entre o morfológico e o fisio- 
lógico, sendo o mórbido o anormal na ordem fisiológica e o teratológico o anormal na ordem anatômica. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 417 


uma prática, uma máxima social ou moral, como se fossem boas ou más por natureza e 
em si próprias, e indistintamente para todos os tipos sociais. 

Dado que o ponto de referência que permite avaliar o estado de saúde ou de doença 
varia com as espécies, pode variar igualmente para uma única e mesma espécie se esta se 
modificar. É assim que, sob um ângulo estritamente biológico, o que é normal para o sel- 
vagem nem sempre o é para o civilizado e reciprocamente. * * Existe aliás uma ordem de 
variações que é importante tomar em consideração porque se produz regularmente em 
todas as espécies: as que se relacionam com a idade. A saúde do velho não é igual à do 
adulto assim como a do adulto não é igual à da criança; o mesmo se passa com as 
sociedades. * * Um fato social só pode ser considerado normal para uma dada espécie so- 
cial quando relacionado com uma fase bem determinada do seu desenvolvimento; por 
conseguinte, para saber se ele tem direito a essa designação, não é suficiente observar a 
forma sob a qual se apresenta na generalidade das sociedades que pertencem a esta espé- 
cie; é ainda necessário considerá-las numa fase correspondente da evolução respectiva. 

Pode parecer que acabamos de proceder a uma simples definição de termos; com 
efeito, nada mais fizemos do que agrupar os fenômenos segundo as suas semelhanças e 
diferenças e conferir uma designação aos grupos que deste modo constituímos. Mas, na 
realidade, os conceitos que elaboramos, ao mesmo tempo que têm a grande vantagem de 
serem identificáveis através de características objetivas e facilmente perceptíveis, não se 
afastam da noção que normalmente se tem da saúde e da doença. Com efeito, a doença 
é encarada por toda a gente como um acidente que a natureza do ser vivo implica mas 
que não gera necessariamente. Era isto que os filósofos antigos exprimiam ao afirmar 
que ela não deriva da natureza das coisas, e que é o produto duma espécie de contin- 
gência imanente dos organismos. Uma tal concepção constitui, indiscutivelmente, a 
negação de toda a ciência; com efeito, a doença não é mais miraculosa do que a saúde, 
pois fundamenta-se igualmente na natureza dos seres. Mas a doença não se baseia na 
natureza normal destes, não é inerente ao seu temperamento normal nem está ligada às 
condições de existência de que geralmente dependem; por outro lado, a noção de saúde 
identifica-se para toda a gente com a de espécie. Não se pode conceber uma espécie que, 
por si só e em virtude da sua constituição fundamental, fosse irremediavelmente doente; 
ela é a norma por excelência e, consequentemente, não pode conter nada que seja 
anormal. 

Normalmente, identifica-se com a noção de saúde um estado geralmente preferível 
à doença. Mas esta definição está englobada na precedente. Se, com efeito, as caracteris- 
ticas cuja reunião forma o tipo normal puderam generalizar-se numa espécie, é porque há 
uma razão para isso. Esta generalidade é ela própria um fato que necessita de uma expli- 
cação e que, por isso, reclama uma causa. Ora, seria inexplicável se as formas de organi- 
zação mais frequentes não fossem também, pelo menos no conjunto, as mais vantajosas. 
Como poderiam ter-se mantido numa tão grande variedade de circunstâncias se não 
pusessem os indivíduos em condição de resistirem mais eficazmente contra as causas de 
destruição? 

E se as outras são mais raras é porque, na média dos casos, os sujeitos que as apre- 


34 Por exemplo, o selvagem que tivesse o tubo digestivo atrofiado e o sistema nervoso desenvolvido do civi- 
lizado seria um doente em relação ao seu meio. 

38 Abreviamos aqui esta parte do nosso estudo; com efeito, só repetimos a propósito dos fatos sociais em 
geral o que já dissemos noutras ocasiões a propósito da distinção entre fatos morais normais c anormais. (Cf. 
Division du Travail Social, pags. 33-39.) 


418 DURKHEIM 


sentam têm mais dificuldade em sobreviver. A maior frequência das primeiras é portanto 


a prova da sua superioridade. º * 


8! 


Esta última observação fornece um meio de controlar os resultados do método 
precedente. 

Dado que a generalidade que caracteriza exteriormente os fenômenos normais é ela 
própria um fenômeno explicável, é necessário, depois de diretamente estabelecida pela 
observação, procurar explicá-la. Sabe-se de antemão que tem uma causa, mas é conve- 
niente saber exatamente em que consiste esta causa, pois o caráter normal do fenômeno 
será mais incontestável se se demonstrar que o sinal exterior que inicialmente o tinha 
revelado não é puramente aparente e se baseia na natureza das coisas; se, em resumo, se 
erigir esta normalidade de fato numa normalidade de direito. Tal demonstração não 
consistirá sempre em mostrar que o fenômeno é útil para o organismo, ainda que este 
seja O caso mais frequente pelas razões que acabamos de apontar; pode acontecer tam- 
bém, como assinalamos precedentemente, que uma combinação seja normal e não sirva 
para nada, e isto por ser inerente à natureza do ser. Por exemplo, talvez fosse útil que o 
parto não provocasse perturbações tão violentas no organismo feminino; mas é impos- 
sível consegui-lo. Logo, a normalidade do fenômeno baseia-se no fato de estar relacio- 
nado com as condições de existência da espécie considerada, seja como um efeito meca- 
nicamente necessário destas condições seja como um meio que permite aos organismos 
adaptarem-se a estas. ? 

Esta prova não é apenas útil como meio de controle. É preciso não esquecer que o 
maior interesse em distinguir o normal do anormal advém da necessidade de esclarecer 
a prática. Ora, para agir com conhecimento de causa, não basta saber o que devemos 
desejar mas também por que o desejamos. As proposições científicas relativas ao estado 
normal serão mais imediamente aplicáveis aos casos particulares se forem acompa- 
nhadas das razões que as justificam; porque então será mais fácil reconhecer os casos em 
que convém modificá-las para as aplicar e qual o sentido da modificação. 

Existem mesmo circunstâncias em que esta verificação é rigorosamente necessária 
pois a aplicação exclusiva do primeiro método poderia induzir em erro. É o que acontece 
nos períodos de transição em que a espécie inteira está em via de evoluir sem se ter ainda 
definitivamente sob uma forma nova. Neste caso o único tipo normal que já se realizou 
e concretizou nos fatos é o do passado, e já não convém às novas condições de existên- 
cia. Um fato pode assim persistir em toda a espécie apesar de já não corresponder às 


36 Garofalo tentou fazer uma distinção entre o mórbido e o anormal. (Cronologie, pags. 109, 110.) Mas os 
dois únicos argumentos em que bascia essa distinção são os seguintes: 

1º — A palavra “doença” significa sempre qualquer coisa que tende para a destruição total ou parcial do 
organismo; se não há destruição há cura, nunca estabilização, como em numerosas outras anomalias. Mas 
acabamos de ver que o anormal é também uma ameaça para o ser vivo na média dos casos. É verdade que 
nem sempre é assim; mas os perigos que a doença implica também só existem na generalidade das circuns- 
tâncias. Quanto à ausência de estabilidade que distinguiria o mórbido, é-se obrigado a esquecer as doenças 
crônicas e a separar radicalmente o teratológico do patológico. As monstruosidades são definitivas. 

2.º — Diz-se que o normal e o anormal variam segundo as raças, enquanto a distinção entre o fisiológico e 
o patológico é válida para todo o genus homo. Acabamos de mostrar que, pelo contrário, acontece muitas 
vezes que o que é mórbido para o selvagem não o é para o civilizado. As condições da saúde física variam 
segundo os meios. 

37 Pode-se perguntar se, no caso de um fenômeno derivar necessariamente das condições gerais da vida, 
isso não o torna útil. Não podemos debruçar-nos aqui sobre esta questão filosófica. No entanto voltaremos 
a ela um pouco mais adiante. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 419 


exigências da situação. Conserva somente as aparências da normalidade; a generalidade 
que apresenta não é senão uma etiqueta mentirosa, pois, mantendo-se apenas pela força 
cega do hábito, deixou de ser o indício de que o fenômeno observado está estreitamente 
ligado às condições gerais da existência coletiva. Esta dificuldade é, aliás, específica da 
sociologia. Não existe para O biologista; é bastante raro que as espécies animais sejam 
levadas a tomar formas imprevistas. As únicas modificações normais por que passam 
são as que se reproduzem regularmente em cada indivíduo, principalmente sob a 
influência da idade. São, portanto, conhecidas ou podem sê-lo, dado que já se realizaram 
numa grande quantidade de casos; em consegiiência, pode-se saber para cada momento 
do desenvolvimento do animal, e mesmo para os períodos de crise, em que consiste o es- 
tado normal. O mesmo acontece na sociologia no que respeita as espécies inferiores, 
pois, como muitas já cumpriram todo o percurso, a lei da evolução normal pode já estar 
definida. Mas quando se trata de sociedades mais evoluídas e mais recentes esta lei é, por 
definição, desconhecida, dado que estas ainda não percorreram todas as diferentes etapas 
da sua história. O sociólogo pode assim ficar embaraçado quando pretende saber se um 
fenômeno é normal ou não, pois não tem qualquer ponto de referência. 

Resolverá a dificuldade se proceder como acabamos de indicar. Depois de ter esta- 
belecido através da observação que o fato é geral, irá até as condições que no passado 
determinaram esta generalidade e procurará em seguida determinar se estas condições 
existem no presente ou se, pelo contrário, se modificaram. No primeiro caso poderá con- 
siderar o fenômeno como normal e, no segundo, recusa-lhe este carâter. Por exemplo, 
para determinar se o estado econômico atual dos povos europeus, caracterizado pela 
ausência de organização, **º é normal ou não, deverá procurar-se o que no passado o 
gerou. Se estas condições estão ainda subjacentes às nossas sociedades é porque esta 
situação é normal apesar dos protestos que provoca. Mas se se provar, pelo contrário, 
que está ligada a essa velha estrutura social que classificamos noutra obra como 
segmentária *º e que, depois de ter constituído a ossatura essencial das sociedades, vai 
desaparecendo, cada vez mais, concluiremos que constitui presentemente um estado mór- 
bido, por muito universal que este possa ser. É seguindo este mesmo método que terão de 
ser resolvidos todos os problemas deste tipo que se encontram em debate, como seja o de 
saber se o pretenso enfraquecimento das crenças religiosas e o desenvolvimento dos 
poderes do Estado são fenômenos normais ou não. *º 
38 Consultar a este propósito um apontamento que publicamos na Revue Philosophique (número de novem- 
bro de 1893) acerca de La Définition du Socialisme. 
3º As sociedades segmentárias e nomeadamente as sociedades segmentárias com uma base territorial são 
aquelas cujas articulações correspondem às divisões territoriais. (Cf. Division du Travail Social, pães. 
189-210.) 

“0 Em certos casos pode-se proceder de um modo um pouco diferente e verificar se um fato, de cujo caráter 
normal se suspeita, se liga estreitamente ao desenvolvimento anterior do tipo social considerado ou ao con- 
junto da evolução social em geral ou se, pelo contrário, contradiz tanto um como o outro. Foi assim que 
demonstramos que o enfraquecimento atual das crenças religiosas ou, mais geralmente, dos sentimentos 
coletivos é normal; provamos que este enfraquecimento se acentua à medida que as sociedades se aproxi- 
mam do nosso tipo atual e que este é, por sua vez, mais desenvolvido (Division du Travail Social, pãgs. 
73-182). Mas, no fundo, este método constitui unicamente um caso particular do precedente. Porque, se a 
normalidade deste fenômeno pôde ser estabelecida por este processo, foi porque ao mesmo tempo se estabe- 
leceu a relação entre ele e as condições mais gerais da nossa vida coletiva. Com efeito, se por um lado esta 
regressão da consciência religiosa é tanto mais acentuada quanto mais sólidas são as estruturas das nossas 
sociedades, é porque não depende de qualquer causa acidental mas sim da própria constituição do nosso 
meio social; como, por outro lado, as particularidades características desta última estão certamente mais 
desenvolvidas hoje do que no passado, é normal que os fenômenos que dependem dela estejam também 
amplificados. Este método só difere do precedente pelo fato de as condições que explicam e justificam a 


generalidade do fenômeno serem induzidas e não diretamente observadas. Sabe-se que depende da natureza 
do meio social sem que se saiba de que depende exatamente e como. 


420 DURKHEIM 


Todavia, este método de forma nenhuma poderia substituir o precedente nem se- 
quer ser utilizado em primeiro lugar. Primeiramente, levanta problemas a que nos referi- 
remos mais adiante e que não podem ser abordados antes de se estar bastante avançado 
no estudo científico; com efeito. implica uma explicação quase completa dos fenômenos 
na medida em que supõe determinadas as causas ou as funções destes. Mas importa que 
desde o início da investigação se possam classificar os fatos como normais e anormais. 
com exceção para alguns casos de exceção, a fim de se poder delimitar o domínio da 
fisiologia e da patologia. Seguidamente, o fato terá de ser considerado útil ou necessário 
em relação ao tipo normal para poder ser considerado como normal. De outro modo 
poder-se-ia demonstrar que a doença se confunde com a saúde, pois deriva necessaria- 
mente do organismo que atingiu. Da mesma forma, a aplicação de um remédio, dado que 
é útil ao doente, pode surgir como um fenômeno normal quando é evidentemente anor- 
mal, pois só em circunstâncias anormais é que tem esta utilidade. Logo, não se poderá 
utilizar este método se o tipo normal não tiver sido constituído anteriormente, o que 
implica a recorrência a um outro processo. Por último, e isto é o mais importante, se é 
verdade que tudo o que é normal é útil, é falso que tudo o que é útil seja normal. Pode- 
mos estar certos de que os estados que se generalizaram na espécie são mais úteis do que 
os que permaneceram excepcionais; mas não podemos ter a certeza de serem mais úteis 
do que outros que pudessem existir. Nada nos leva a pensar que todas as combinações 
possíveis foram tentadas no decorrer da experiência; entre as que nunca foram realizadas 
mas que são concebíveis, há talvez muitas mais vantajosas do que as que conhecemos. A 
noção de útil ultrapassa a de normal; está para esta como o gênero estã para a espécie. 
Ora, é impossível deduzir o mais do menos, a espécie do gênero. Pode-se apenas encon- 
trar O gênero na espécie, dado que esta o contém. É por isso que, a partir do momento em 
que a generalidade do fenômeno foi constatada, pode-se, mostrando para que serve, con- 
firmar os resultados do primeiro método. *" Podemos, portanto, formular as três seguin- 
tes regras: 


1.º — Um fato social é normal para um tipo social determinado, considerado numa 
fase determinada de desenvolvimento, quando se produz na média das sociedades 
desta espécie, consideradas numa fase correspondente de desenvolvimento. 

2.º — Os resultados do método precedente podem verificar-se mostrando que a 
generalidade do fenômeno está ligada às condições gerais da vida coletiva do tipo 
social considerado. 

3.º — Esta verificação é necessária quando este fato diz respeito a uma espécie so- 
cial que ainda não cumpri wma evolução integral. 


HI 


Está-se de tal modo habituado a resolver de modo categórico estas questões difíceis 
e a decidir rapidamente, em função de observações sumárias e por meio de silogismos, da 


*1 Mas então, dir-se-á, a realização do tipo normal não é o objetivo mais elevado que pode ser proposto; e, 
para o ultrapassar, seria necessário também ultrapassar a ciência. Não é aqui o lugar para tratar desta ques- 
tão ex professo; respondamos simplesmente: 

1.º — Que é absolutamente teórica porque, na realidade, o tipo normal, o estado saudável, é bastante difícil 
de realizar, e tão raramente atingido que não vale a pena tentar encontrar algo de melhor. 

2.º — Que estes melhoramentos, objetivamente mais vantajosos, não passam por isso a ser objetivamente 
desejáveis. pois ou não respondem a nenhuma tendência latente e a nenhum ato, não acrescentando assim 
nada à felicidade, ou só respondem a qualquer tendência porque o tipo normal não se encontra realizado. 
3.º — E, por último, que para melhorar o tipo normal é preciso conhecê-lo. Portanto, de qualquer modo, não 
podemos ultrapassar a ciência senão apoiando-nos nela. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 421 


normalidade de um fato social, que talvez se ache este procedimento inutilmente compli- 
cado. Não parece que seja necessária tanta ponderação para distinguir a doença da 
saúde. Com efeito, fazemos distinções deste gênero todos os dias; mas resta saber se as 
fazemos judiciosamente. O que nos esconde as dificuldades destes problemas é fato de 
vermos o biólogo resolvê-las com uma certa facilidade. Mas esquecemos que lhe é muito 
mais fácil do que ao sociólogo compreender até que ponto cada fenômeno afeta a capaci- 
dade de resistência do organismo e determinar, por conseguinte, o caráter normal ou 
anormal daquele com uma exatidão na prática suficiente. Na sociologia, a complexidade 
e mobilidade mais acentuadas dos fatos exigem um maior número de precauções como 
o provam os juízos contraditórios de que um mesmo fenômeno é alvo por parte dos 
diversos partidos. Para que fique bem clara a necessidade desta circunspecção mostre- 
mos, atravês de alguns exemplos, os erros a que estamos sujeitos quando a desprezamos 
e o aspecto diferente sob o qual nos surgem os fenômenos mais essenciais quando são 
tratados metodicamente. 

Se há um fato cujo caráter patológico parece incontestável é sem dúvida o crime. 
Todos os criminólogos estão de acordo sobre este ponto. Apesar de explicarem esta mor- 
bidez de maneiras diferentes, são unânimes na sua constatação. Contudo, o problema 
merecia ser tratado com menos superficialidade. 

Com efeito, apliquemos as regras precedentes. O crime não se produz só na maior 
parte das sociedades desta ou daquela espécie, mas em todas as sociedades, qualquer que 
seja o tipo destas. Não há nenhuma em que não haja criminalidade. Muda de forma. 
os atos assim classificados não são os mesmos em todo o lado; mas em todo o lado e em 
todos os tempos existiram homens que se conduziram de tal modo que a repressão penal 
se abateu sobre eles. Se, pelo menos, a taxa de criminalidade, ou seja, o quociente entre 
o número anual de crimes e o da população, tivesse tendência para baixar à medida que 
as sociedades passam dos tipos inferiores para os tipos superiores, poder-se-ia admitir 
que, apesar de permanecer um fenômeno normal, o crime tendia, no entanto. para perder 
este caráter. Mas não temos nenhum motivo para acreditar na realidade desta regressão. 
Pelo contrário, vários fatores parecem demonstrar a existência de um movimento no sen- 
tido inverso. A estatística fornece-nos desde o princípio do século o meio de seguir a evo- 
lução da criminalidade; ora, ela aumentou por todo o lado. Na França o aumento é 
quase de trezentos por cento. Não há portanto um fenômeno que apresente de maneira 
tão irrefutável como a criminalidade todos os sintomas da normalidade, dado que surge 
como estreitamente ligada às condições da vida coletiva. Transformar o crime numa 
doença social seria o mesmo que admitir que a doença não é uma coisa acidental mas 
que, pelo contrário, deriva em certos casos da constituição fundamental do ser vivo; 
consistiria em eliminar qualquer distinção entre o fisiológico e o patológico. Pode sem 
dúvida acontecer que o crime tome formas anormais; é o que acontece quando. por 
exemplo, atinge uma taxa exagerada. Efetivamente, não será de duvidar da natureza mór- 
bida deste excesso. Mas é normal a existência de uma criminalidade que atinja mas não 
ultrapasse, para cada tipo social, um certo nível que talvez não seja impossível de deter- 
minar de acordo com as regras precedentes. *? 

Eis-nos perante uma conclusão aparentemente paradoxal. Classificar O crime 
como um fenômeno de sociologia normal não significa apenas que seja um fenômeno 
inevitável, ainda que lastimável, provocado pela incorrigível maldade dos homens; é afir- 
mar que é um fator da saúde pública, que é parte integrante de qualquer sociedade sã. 


“2 Do fato de o crime ser um fenômeno de sociologia normal não se deduz que o criminoso seja um indiví 
duo normalmente constituído do ponto de vista biológico e psicológico. As duas questões são independentes 
uma da outra. Compreender-se-á melhor esta independência quando mostrarmos mais à frente a diferença 
que existe entre os fatos psíquicos e os fatos sociológicos. 


422 DURKHEIM 


Este resultado é à primeira vista tão surpreendente que nos desconcertou durante muito 
tempo. Contudo, a partir do momento em que se consegue dominar esta primeira impres- 
são de surpresa, não é difícil encontrar as razões que explicam esta normalidade e ao 
mesmo tempo a confirmam. 


Em primeiro lugar, o crime é normal porque uma sociedade que estivesse livre dele 
é impossível. 

Já mostramos que o crime consiste num ato que ofende certos sentimentos coletivos 
dotados de uma energia e de uma clareza particulares. Para que, numa dada sociedade. 
os atos considerados como criminosos pudessem deixar de existir seria necessário, por- 
tanto, que os sentimentos que chocam se encontrassem, sem exceção, em todas as cons- 
ciências individuais e possuíssem a força necessária para conterem os sentimentos opos- 
tos. Ora, admitindo que esta condição pudesse efetivamente ser realizada, o crime não 
desapareceria por isso e apenas mudaria de forma; seria a própria causa que assim elimi- 
nava as origens da criminalidade, que viria a gerar as novas fontes desta. 

Com efeito. para que os sentimentos coletivos que o direito penal de um povo prote- 
ge, num dado momento de sua história, possam penetrar nas consciências que lhes eram 
avessas até esse momento ou alargar o seu domínio naquelas a que tinham um acesso 
relativo, é necessário que adquiram uma intensidade superior à que tiveram até essa altu- 
ra. É preciso que a comunidade os sinta mais intensamente; com efeito, não podem ir 
buscar a outro lado a força que lhes permite agora impor-se aos indivíduos que no passa- 
do lhes eram adversos. Para que os assassinos desapareçam é preciso que o horror pelo 
sangue vertido se acentue nessas camadas sociais donde provêm os assassinos; mas para 
que isto aconteça é necessário que a sociedade global se ressinta do mesmo modo. Aliás, 
a própria ausência do crime contribuiria diretamente para produzir este efeito: porque 
um sentimento surge como muito mais respeitável quando é sempre e uniformemente 
respeitado. Mas não se repara que estes estados fortes da consciência comum não podem 
ser reforçados sem que ao mesmo tempo os estados mais fracos, cuja violação não origi- 
nava até aí senão erros puramente morais, sejam igualmente reforçados; porque os 
segundos são apenas o prolongamento, a forma atenuada dos primeiros. Assim, o roubo 
e a simples desonestidade não chocam senão um único sentimento, o do respeito pela 
propriedade de outrem. Mas este sentimento é menos chocado por um destes atos do que 
pelo outro; e como, por outro lado, não tem na consciência média a intensidade sufi- 
ciente para sentir vivamente a mais ligeira destas duas ofensas, esta é alvo de uma maior 
tolerância. Eis a razão por que apenas se critica o desonesto enquanto se pune o ladrão. 
Mas se este sentimento se torna suficientemente forte para fazer calar em todas as cons- 
ciências a tendência que leva o homem ao roubo, tornar-se-á mais sensível às lesões que 
até esse momento só o atingiam ligeiramente; reagir-se-à portanto contra elas com mais 
violência, serão alvo de uma reprovação mais enérgica que as elevará ao grau de crime 
quando no passado eram meros erros morais. Por exemplo, os contratos desonestos ou 
executados desonestamente que não originam senão uma reprovação pública ou repara- 
ções civis tornar-se-ão delitos. Imaginai uma sociedade de santos, um convento exemplar 
e perfeito. Os crimes propriamente ditos serão desconhecidos; mas os erros que conside- 
ramos veniais ou vulgares provocarão o mesmo escândalo que o delito normal provoca 
nas consciências normais. Se, portanto, esta sociedade tem o poder de julgar e de punir, 
qualificará estes atos como criminosos e agirá em conseqiiência. É por esta razão que o 
homem perfeitamente honesto julga as suas menores fraquezas morais com uma severi- 
dade que a maioria reserva para os atos delituosos. No passado, as violências contra as 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 423 


pessoas eram mais frequentes do que hoje porque o respeito pela dignidade individual era 
menor. Como se tornou maior, estes crimes tornaram-se mais raros; mas também bas- 
tantes atos que lesavam este sentimento entraram no direito penal de que não faziam 
parte inicialmente. *? 

Poder-se-á perguntar, tentando esgotar todas as hipóteses possíveis, qual a razão de 
esta unanimidade não abranger todos os sentimentos coletivos; por que razão os mais 
fracos não têm energia suficiente para evitar qualquer dissidência. A consciência moral 
da sociedade encontrar-se-ia em todos os indivíduos com uma vitalidade suficiente para 
impedir qualquer ato que a ofendesse, quer se tratasse de erros puramente morais quer de 
crimes. Mas uma uniformidade tão universal e absoluta é radicalmente impossível; com 
efeito, o meio físico imediato que envolve cada um de nós, os antecedentes hereditários, 
as influências sociais de que dependemos variam de um indivíduo para outro e, por 
conseguinte, diversificam as consciências. Não é possível que toda a gente seja seme- 
lhante até este ponto pela simples razão de que cada um de nós tem um organismo espe- 
cífico e que estes organismos ocupam porções diferentes do espaço. É por isso que 
mesmo nos povos inferiores, onde a originalidade individual se encontra pouco desenvol- 
vida, esta nunca é, no entanto, nula. Dado que não pode haver uma sociedade em que os 
indivíduos não se diferenciem de um modo mais ou menos acentuado do tipo coletivo, é 
inevitável também que entre estas divergências haja algumas que apresentem um caráter 
criminoso. Porque o que lhes confere este caráter não é a sua importância intrínseca mas 
a que lhes atribui a consciência comum. Se, portanto, esta é forte, se tem a autoridade 
suficiente para tornar estas divergências muito fracas em valor absoluto, será igualmente 
mais sensivel, mais exigente e, ao reagir contra desvios mais insignificantes com a ener- 
gia que noutros casos só despende contra dissidências mais consideráveis, atribui âque- 
las a mesma gravidade destas, isto é, classifica-as como criminosas. 


O crime é portanto necessário; está ligado às condições fundamentais de qualquer 
vida social e, precisamente por isso, é útil; porque estas condições a que está ligado são 
indispensáveis para a evolução normal da moral e do direito. 


Com efeito, hoje já não é possível contestar que o direito e a moral não variam ape- 
nas de um tipo social para outro mas também dentro de um mesmo tipo social desde que 
as condições de existência coletiva se modifiquem. Para que estas transformações sejam 
possíveis, é necessário que os sentimentos que se encontram na base da moral não sejam 
refratários à mudança e que, por conseguinte, tenham uma energia moderada. Se fossem 
demasiado fortes não seriam suficientemente moldáveis. Qualquer ordem estabelecida 
constitui um obstáculo à nova ordem e isto tanto mais intensamente quanto a ordem pri- 
mitiva é sólida. Quanto mais se acusa uma estrutura tanto maior é a resistência que ela 
opõe a qualquer modificação e isto tanto acontece com as ordens funcionais como com 
as anatômicas. Ora, se não existissem crimes, esta condição não estaria preenchida; com 
efeito, uma hipótese desse gênero subentenderia que os sentimentos coletivos tinham 
atingido um grau de intensidade desconhecido na história. Nada é bom de um modo infi- 
nito. É preciso que a autoridade que a consciência moral usufrui não seja excessiva; de 
outro modo, ninguém ousaria opor-lhe resistência e facilmente estagnaria dentro de uma 
forma imóvel. Para que possa evoluir é preciso que a originalidade individual se possa 
manifestar; ora, para que a originalidade do idealista que ambiciona ultrapassar o seu sé- 
culo se possa manifestar, é preciso que a do criminoso que está aquém do seu tempo o 
possa igualmente. Não podem existir uma sem a outra. 


“3 Calúnias, injúrias, difamação, etc. 


424 DURKHEIM 


Além desta utilidade indireta verifica-se ainda que o crime desempenha um papel 
útil nesta evolução. Não só significa que o caminho está aberto às modificações necessá- 
rias, como ainda, em certos casos, prepara diretamente estas mudanças. Não só os senti- 
mentos coletivos estão num estado de maleabilidade perfeita para tomarem novas formas 
nas regiões em que há crimes, como este pode por vezes predeterminar a forma que eles 
tomarão. Quantas vezes, com efeito, o crime não é uma simples antecipação da moral 
futura, um encaminhamento para o mundo do futuro ! Segundo o direito ateniense, Só- 
crates era um criminoso e a sua condenação era justa. Contudo, o seu crime, a saber, a 
independência de pensamento, era útil não só à humanidade como também à sua pátria, 
pois servia para preparar uma moral e uma fé novas de que os atenienses necessitavam 
nesse momento porquanto as tradições em que se tinham apoiado até então já não esta- 
vam em harmonia com as condições de existência. Ora, o caso de Sócrates não é um 
caso isolado, reproduz-se periodicamente na história. A liberdade de pensamento de que 
gozamos hoje nunca poderia ter sido proclamada se as regras que a proibiam não tives- 
sem sido violadas antes de serem solenemente abolidas. No entanto, nesse momento, esta 
violação era um crime pois ofendia sentimentos que a generalidade das consciências 
ainda ressentia vivamente. Contudo, este crime era útil pois era o prelúdio de transforma- 
ções que de dia para dia se tornavam mais necessárias. A livre filosofia teve como 
precursores os heréticos de toda a espécie que o braço secular abateu durante toda a 
Idade Média e até a véspera da época contemporânea. 

Vistos assim, os fatos fundamentais da criminologia surgem-nos sob um aspecto 
inteiramente novo. Contrariamente às idéias correntes o criminoso já não aparece como 
um ser radicalmente insociável, como uma espécie de elemento parasitário, de corpo 
estranho e inassimilável, introduzido no seio da sociedade; * * é um agente regular da vida 
social. Por seu lado, o crime deve deixar de ser concebido como um mal que nunca é de- 
mais limitar; pelo contrário, em vez de nos felicitarmos quando desce demasiado em 
relação ao nível habitual, podemos estar certos de que este progresso aparente é ao 
mesmo tempo anunciador e corolário de qualquer perturbação social. O número de ofen- 
sas corporais nunca desce tão baixo como durante uma época de miséria. ** Ao mesmo 
tempo, e por via indireta, a teoria penal surge renovada, ou antes, necessita ser renovada. 
Com efeito, se o crime é uma doença, a pena é o remédio para ele e não pode ser conce- 
bida de modo diferente; assim, todas as discussões que levanta incidem sobre a questão 
de saber em que deve consistir para desempenhar o seu papel de remédio. Mas, se o 
crime não tem nada de mórbido, a pena não pode ter como objetivo curá-lo e a sua ver- 
dadeira função deve ser outra. 

As regras precedentemente enunciadas não têm como única razão de ser a satisfa- 
ção de um formalismo lógico sem grande utilidade pois modificam totalmente a interpre- 
tação dos fatos sociais mais essenciais. Aliás, se este exemplo é especialmente elucida- 
tivo — e foi por isso que lhe fizemos referência —, há muitos outros que se poderiam 


*4 Nós próprios cometemos o erro de falar do criminoso desta maneira porque não aplicamos a nossa regra 
(Division du Travai! Social, págs. 3953-396). 

“8 Aliás, por o crime ser um fato normal de sociologia, não devemos deixar de o odiar. Também a dor não 
tem nada de desejável; o indivíduo odeia-a tal como a sociedade odeia o crime e no entanto aquela faz parte 
da fisiologia normal. Não só deriva necessariamente da própria constituição do ser vivo como desempenha 
um papel útil na vida. papel esse em que não pode ser substituído. Seria deformar singularmente o nosso pen- 
samento considerar que fazemos uma apologia do crime. Não nos ocorreria sequer protestar contra uma 
interpretação deste gêncro se não conhecêssemos as estranhas acusações e os mal-entendidos a que nos expo- 
mos quando se tenta estudar objetivamente os fatos morais e falar deles numa linguagem diferente da vulgar. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 425 


igualmente citar. Não existe nenhuma sociedade em que a proporcionalidade entre a 
pena e o delito não seja uma regra; no entanto, para a escola italiana, este princípio não 
é mais do que uma invenção de juristas despida de qualquer solidez. “º Inclusivamente, 
segundo estes criminólogos, é a própria instituição penal, tal como tem funcionado até 
hoje em todos os povos conhecidos, um fenômeno antinatural. Já vimos que, para Garo- 
falo, a criminalidade específica das sociedades inferiores não tem nada de natural. Para 
os socialistas, é a organização capitalista que, apesar da generalidade que apresenta, 
constitui um desvio em relação ao estado normal, provocado pela violência e pelo artifi- 
cio. Pelo contrário, segundo Spencer, é na centralização administrativa e na extensão dos 
poderes governamentais que reside o vício radical das nossas sociedades, e isto apesar de 
tanto uma como outra destas características progredirem de um modo regular e universal 
a medida que se avança na história. Não pensamos que se seja obrigado por sistema a 
decidir se os fatos sociais são normais ou anormais através do grau de generalidade que 
apresentam. É sempre necessário recorrer à dialética para resolver estas questões. 

Contudo, se se põe de lado este critério, não só se está exposto a confusões e a erros 
parciais do gênero daqueles para que chamamos a atenção, como se torna impossível a 
própria ciência. Com efeito, esta tem como objetivo imediato o estudo do tipo normal: 
ora, se os fatos mais gerais são mórbidos, isto significa que o tipo normal nunca existiu 
de fato. Nesse caso, para que serve estudá-los? Só servem para confirmar os nossos 
preconceitos e enraizar os nossos erros dado que resultam deles. Se o castigo e a respon- 
sabilidade têm existido tal como na história, se são unicamente um produto da igno- 
raância e da barbárie, qual a utilidade de os conhecermos com o fim de determinarmos as 
formas normais? É assim que o espírito é levado a desviar-se da realidade para se fechar 
sobre si próprio e procurar no seu interior os materiais necessários para a reconstruir. 
Para que a sociologia possa tratar os fatos como coisas, é preciso que o sociólogo sinta 
a necessidade de aprender junto deles. Ora, como o objetivo principal de qualquer ciên- 
cia da vida, seja ela individual ou social, é, em suma, definir o estado normal, explicá-lo 
e diferenciá-lo do seu contrário, se a normalidade não existe nas coisas, se é uma caracte- 
rística que lhes impomos do exterior ou que lhes recusamos por uma razão qualquer. 
acabou-se esta salutar dependência. O espírito está à vontade face ao real que não tem 
nada a ensinar-lhe; já não se encontra englobado na matéria que estuda porque é ele que 
de certo modo a determina. As diferentes regras que estabelecemos até agora são estreita- 
mente solidárias umas das outras. Para que a sociologia seja uma ciência das coisas, é 
necessário que a generalidade dos fenômenos seja considerada como o critério probante 
de normalidade. 

O nosso método tem, aliás, a vantagem de orientar a ação ao mesmo tempo que 
orienta o pensamento. Se o que é desejável não é dado pela observação mas pode e deve 
ser determinado por uma espécie de cálculo mental, então nenhum limite pode ser posto 
às livres invenções da imaginação na sua busca do melhor. Com efeito, como impor à 
perfeição um limite a não ultrapassar? O objetivo da humanidade recua até ao infinito. 
desencorajando uns com o seu afastamento, e excitando outros que, para se aproxi- 
marem um pouco dele, apressam o passo e se lançam nas revoluções. Evita-se este dile- 
ma prático se o desejável for a saúde e se a saúde for qualquer coisa de definido e dado 
pelas coisas porque o objetivo desse esforço surge-nos bem definido. Não se trata de ten 
tar desesperadamente atingir um fim que se vai afastando à medida que lhe chegamos 
perto, mas de trabalhar com uma perseverança constante para manter o estado normal. 
para o restabelecer no caso de se encontrar perturbado, e para redefinir as suas condições 
no caso de estas virem a modificar-se. O dever do homem de Estado deixa de consistir 


*8 V. Garofalo, Criminologie, pág. 299. 


426 DURKHEIM 


em empurrar violentamente as sociedades para um ideal que se lhe afigura sedutor, para 
passar a assemelhar-se ao papel do médico: prevenir o desencadeamento das doenças 
através de uma boa higiene e uma vez que elas se declaram procurar curá-las. *”7 


*7 A partir da teoria desenvolvida neste capítulo concluiu-se por vezes que, segundo nós. o movimento 
ascendente da criminalidade durante o século XIX era um fenômeno normal. Nada é mais contrário ao 
nosso pensamento do que isto. Vários fatos que indicamos a propósito do suicídio (ver Le Suicide, págs. 420 
e seguintes) levam-nos, pelo contrário, a crer que este desenvolvimento é, em geral, mórbido. No entanto, 


poderia acontecer que um certo aumento de algumas formas de criminalidade fosse normal porque cada esta- 
do de desenvolvimento tem uma criminalidade específica. Mas temos de ficar no domínio das hipóteses. 


CAPÍTULO QUARTO 


REGRAS RELATIVAS À CONSTITUIÇÃO DOS TIPOS SOCIAIS 


A distinção do normal e do anormal implica a constituição de espécies sociais. Utilidade deste conceito de 
espécie, intermediário entre a noção do genus homo e a de sociedades particulares. | — O modo de as consti- 
tuir não é elaborando monografias. Impossibilidade de sucesso por esta via. Inutilidade da classificação que 
seria construída deste modo. Princípio do método a aplicar: distinguir as sociedades segundo o seu grau de 
composição. II — Definição da sociedade simples: a horda. Exemplos de algumas das maneiras como a 
sociedade simples se compõe consigo mesma e as combinações destes compostos entre si. No seio das espê- 
cies assim constituídas, distinguir variedades conforme os segmentos componentes forem coalescentes ou 
não. Enunciado da regra. III — Como o que precede demonstra que há espécies sociais. Diferenças na natu- 
reza da espécie na biologia e na sociologia. 


Dado que um fato social só pode ser classificado como normal ou anormal quando 
posto em relação com uma espécie social determinada, é forçoso consagrar um ramo da 
sociologia à constituição destas espécies e à respectiva classificação. 

Esta noção de espécie social tem, aliás, a grande vantagem de nos fornecer um 
termo intermédio entre as duas concepções opostas de vida coletiva que durante muito 
tempo dividiram os espíritos: refiro-me ao nominalismo dos historiadores *º e ao rea- 
lismo extremo dos filósofos. Para o historiador, as sociedades constituem individuali- 
dades heterogêneas que não se podem comparar. Cada povo tem uma fisionomia especi- 
fica, uma constituição especial, um direito, uma moral, uma organização econômica que 
só a ele se adaptam sendo quase impossível qualquer generalização. Para o filósofo, pelo 
contrário, todos estes grupos particulares a que se chama tribos, cidades, nações, consti- 
tuem meras combinações contingentes e provisórias destituídas de realidade própria. A 
única coisa real é a humanidade e é dos atributos gerais da natureza humana que provém 
a evolução social. Por conseguinte, para o primeiro, a história é unicamente uma série de 
acontecimentos que se encadeiam sem se reproduzirem; para o segundo, estes aconteci- 
mentos só têm valor e interesse como ilustrações das leis gerais que estão inscritas na 
constituição do homem e que dominam todo o desenvolvimento histórico. Para aquele o 
que é bom para uma dada sociedade não o é para outra. As condições de um estado sau- 
dável variam de um povo para outro e não podem ser determinadas teoricamente; é uma 
questão de prática, de experiência, de intuição. Para este, podem ser calculadas de modo 
diferente e definitivo para toda a espécie humana. Dir-se-ia que a realidade social só 
pode ser alvo de uma filosofia abstrata e vaga ou de monografias puramente descritivas. 
Mas evitamos esta alternativa a partir do momento em que reconhecemos que entre a 
multidão confusa das sociedades históricas e o conceito único, mas ideal, de humani- 
dade, há intermediários: as espécies sociais. Com efeito, na noção de espécie encontra-se 
a unidade que qualquer investigação verdadeiramente científica exige e a diversidade 
própria aos fatos, porquanto a espécie é a mesma para todos os indivíduos que fazem 
parte dela se bem que, por outro lado, as espécies difiram umas das outras. É verdade 
que as instituições morais, jurídicas, econômicas, etc., são infinitamente variáveis; mas 
estas variações não são de molde a impossibilitar totalmente uma investigação cientifica. 


48 Chamo-lhe assim porque a denominação é frequente nos historiadores. 


428 DURKHEIM 


Foi por desconhecer a existência das espécies sociais que Comte julgou poder repre- 
sentar o progresso das sociedades humanas pelo progresso de um povo único “com o 
qual idealmente se podiam relacionar todas as modificações consecutivas observadas em 
populações distintas”. *º Efetivamente, se só existe uma espécie social, as sociedades 
particulares só podem diferir por uma questão de grau, conforme apresentam mais ou 
menos características constitutivas desta espécie única, conforme exprimem de um modo 
mais ou menos perfeito a humanidade. Se, pelo contrário, existem tipos sociais qualitati- 
vamente distintos uns dos outros, por mais que se tente a aproximação entre eles nunca 
se conseguirá uni-los como se fossem segmentos homogêneos de uma reta geométrica. O 
desenvolvimento histórico perde assim a unidade ideal e simplista que lhe era atribuída; 
digamos que se fragmenta numa multidão de troços que, pelo fato de diferirem especifi- 
camente uns dos outros, não podem ligar-se de um modo contínuo. A famosa metáfora 
de Pascal, que posteriormente Comte retomou, deixará de ser verdadeira daqui para 
diante. 

Mas como devemos proceder para constituirmos estas espécies? 


- 


A primeira vista pode parecer que deveremos estudar cada sociedade em particular, 
fazer uma monografia tão exata quanto possível de cada uma, comparar em seguida 
todas estas monografias e ver os pontos em que concordam e aqueles em que divergem. 
A partir daí, segundo a importância relativa destas semelhanças ou destas divergências, 
classificar-se-iam os povos em grupos semelhantes ou diferentes. Para justificar este mé- 
todo faz-se notar que só ele é compatível com uma ciência baseada na observação. Na 
realidade, a espécie é apenas um resumo dos indivíduos; logo, como deveremos consti- 
tuí-la se não começarmos por descrever cada um dos indivíduos de um modo completo? 
Não é verdadeira a regra de que só se deve passar ao geral depois de se ter observado o 
particular de um modo exaustivo? É por essa mesma razão que por vezes se pretendeu 
adiar a sociologia até a época infinitamente longínqua em que a história chegasse a resul- 
tados suficientemente objetivos e definidos no estudo das sociedades particulares para 
que a comparação entre estas fosse útil. 

Mas, na realidade, esta circunspecção só é científica aparentemente. Com efeito, é 
inexata a afirmação de que a ciência só pode formular leis depois de ter analisado todos 
os fatos que estas exprimem ou de que só possa formar gêneros depois de ter descrito 
integralmente os indivíduos que estes englobam. O verdadeiro método experimental 
tende de preferência para substituir os fatos vulgares, que só são demonstrativos quando 
são muito numerosos, por fatos decisivos ou cruciais, como dizia Bacon, *º que por si, e 
independentemente do número, têm um valor e um interesse científico. É necessário pro- 
ceder deste modo principalmente quando se trata de constituir gêneros e espécies, por- 
quanto é impossível proceder a um inventário de todas as características de um indiví- 
duo. O indivíduo é um infinito, e não se pode esgotar o infinito. Limitarmo-nos às 
propriedades mais essenciais? Mas que critério nos permite distingui-las? Seria preciso 
esboçar um critério que ultrapassasse o indivíduo e que as monografias, por muito bem 
feitas que fossem, seriam portanto incapazes de fornecer. Sem ir tão longe pode-se prever 
que, quanto mais numerosas forem as características que servirão de base à classifica- 


1º Cours de Philosophie Positive, IV, pág. 263. 
5º Novum Organum, 1. 8 36. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 429 


ção, tanto maior será a dificuldade de as suas diversas combinações apresentarem seme- 
lhanças suficientemente evidentes e diferenças suficientemente nítidas para permitirem a 
constituição de grupos e de subgrupos definidos. 

Mas ainda que fosse possível proceder a uma classificação segundo este método ela 
teria sempre o grande defeito de ser incapaz de prestar os serviços para que seria criada. 
Com efeito, em primeiro lugar, esta classificação deve ter como objetivo reduzir o traba- 
lho científico substituindo o número indefinido de indivíduos por um número restrito de 
tipos; mas perde esta vantagem se os tipos só forem constituídos depois de todos os seus 
elementos terem sido inspecionados e analisados inteiramente. Pouco pode facilitar uma 
investigação que se limita a resumir as investigações já feitas. Só será verdadeiramente 
útil se nos permitir classificar outros fatos além daqueles que lhe servem de base, se nos 
fornecer um enquadramento para os fatos vindouros. O seu papel consiste em possibili- 
tar-nos pontos de referência que possam servir para enquadrar outras observações alêm 
daquelas que permitiram a constituição de tais pontos de referência. Mas é então 
necessário que esta classificação não tenha sido feita depois de um inventário completo 
de todas as características individuais, mas em função de um pequeno número destas, 
cuidadosamente escolhidas. Nestas condições não servirá unicamente para pôr um 
pouco de ordem nos conhecimentos já estabelecidos; servirá para adquirir outros, novos. 
Poupará muitas diligências ao observador porque o guiará. Se a classificação se basear 
neste princípio, já não será necessário observar todas as sociedades de uma espécie deter- 
minada para saber se um dado fato é geral nesta espécie; bastarão algumas. Em muitos 
casos, uma só observação bem feita será bastante, assim como basta muitas vezes uma 
única experiência bem conduzida para se chegar à formulação de uma lei. 

Portanto, devemos escolher para a nossa classificação características particular- 
mente essenciais. É verdade que só é possível conhecê-las se a explicação dos fatos esti- 
ver suficientemente avançada. Estas duas partes da ciência são solidárias uma com a 
outra e são tributárias dos progressos mútuos. No entanto, mesmo sem irmos muito 
longe no estudo dos fatos, não é dificil imaginar de que lado devemos procurar as 
propriedades características dos fatos sociais. Sabemos, com efeito, que as sociedades 
são constituídas por partes que se juntam umas às outras. Dado que qualquer resultante 
depende necessariamente da natureza, do número dos elementos que a compõem e do 
modo de combinação destes, estas características são evidentemente as que devemos 
tomar como base; delas dependerão os fatos gerais da vida social. Por outro lado, como 
estas características são de ordem morfológica, poder-se-ia cnamar morfologia social à 
parte da sociologia que tem como objetivo constituir e classificar os tipos sociais. 

Pode-se, aliás, precisar o princípio desta classificação. Sabe-se efetivamente que as 
partes que compõem uma sociedade são sociedades mais simples do que ela. Um povo 
provém da reunião de dois ou vários povos que o precederam. Se, portanto, conhecês- 
semos a sociedade mais simples de todas, bastar-nos-ia seguir a maneira como esta socie- 
dade se ordena a ela própria e como os seus componentes se harmonizam entre si para 
estabelecer a classificação em causa. 


H 


Spencer compreendeu perfeitamente que a classificação metódica dos tipos sociais 
só podia basear-se nestas considerações. 

“Vimos”, afirma, “que a evolução social começa a partir de pequenos agregados 
simples; que progride através da união de alguns destes agregados em agregados maiores 


430 DURK HEIM 


e que, uma vez consolidados, estes grupos se unem a outros semelhantes para formarem 
agregados ainda maiores. A nossa classificação deve começar portanto pelas sociedades 
de primeira ordem, isto é, pelas mais simples.” º' 

Infelizmente, para pór este princípio em prática, seria preciso começar por definir 
com precisão o que se considera como uma sociedade simples. Ora, esta definição não é 
dada por Spencer, que aliás a considera mais ou menos impossível. *? É que a simplici- 
dade, tal como ele a concebe, consiste essencialmente numa certa forma grosseira de 
organização, e não é fácil definir rigorosamente o momento em que a organização social 
é suficientemente rudimentar para poder ser considerada como simples; é uma questão 
de apreciação. É por isso que a definição dada por Spencer é de tal modo vaga que se 
aplica a todas as espécies de sociedades. “O que temos a fazer”, afirma, “é considerar 
como uma sociedade simples aquela que é formada por um todo que não depende de 
outra e cujas partes cooperam, com ou sem centro regulador, com vista a certos fins de 
interesse público.” *º Há numerosos povos que satisfazem esta condição; englobam-se 
aqui, um pouco ao acaso, todas as sociedades menos civilizadas. É fácil imaginar o que 
possa ser uma classificação que assenta num tal ponto de partida. Aparecem relaciona- 
das, na mais espantosa confusão, sociedades muito diferentes, como os gregos homéricos 
e os feudos do século X tendo por base os dos bechuanas ou dos zulus, e a confederação 
ateniense juntamente com os feudos da França do século XIII assentando nos iroqueses 
e nos araucanos. | 

A palavra simplicidade só tem um sentido definido quando significa uma ausência 
total de partes. Por sociedade simples é preciso, portanto, subentender qualquer socie- 
dade que não contém outras mais simples do que ela; que não só está atualmente redu- 
zida a um segmento único como não apresenta nenhum vestígio de segmentação anterior. 
A horda, tal como a definimos num outro trabalho, º * corresponde exatamente a esta 
definição. É um agregado social que não abrange e que nunca abrangeu nenhum outro 
agregado mais elementar e que se decompõe imediatamente em indivíduos. Estes não for- 
mam no interior do grupo total grupos especiais e diferentes do precedente; estão justa- 
postos atomicamente. Não pode haver sociedade mais simples do que esta; é o proto- 
plasma e, por conseguinte, a base natural de qualquer classificação. 

Talvez não exista nenhuma sociedade histórica que corresponda exatamente a esta 
definição; mas, como provamos no livro já citado, conhecemos uma quantidade delas 
que são formadas, de forma imediata e sem qualquer intermediário, por uma repetição de 
hordas. Quando a horda deixa assim de constituir uma sociedade inteira para se tornar 
num segmento social, muda de nome, passa a chamar-se clã; mas conserva as mesmas 
características constitutivas. Efetivamente, o clã é um agregado social que não se decom- 
põe em nenhum outro mais restrito. Poder-se-à talvez observar que, geralmente, os clãs 
hoje existentes englobam uma pluralidade de famílias particulares. Mas, primeiramente, 
e por razões que não podemos desenvolver aqui, cremos que a formação destes pequenos 
grupos familiares é posterior ao clã; em segundo lugar, não se pode afirmar que consti- 
tuam segmentos sociais pois não são divisões políticas. Em qualquer lado em que o 
encontremos, o clã constitui a última divisão deste gênero. Por conseguinte, ainda que 
não tivéssemos outras provas para postular a existência da horda — e como teremos um 


51 Sociologie, II, pág. 135. 

52 “Nem podemos determinar com precisão o que constitui uma sociedade simples.” (Ihid., págs. 135-1 36.) 
53 Ihid., pag. 136. 

54 Division du Travail Social, pãg. 189. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 431 


dia a oportunidade de mostrar, há outros fatos que o provam —,, a existência do clã, isto 
é, de sociedades formadas por-uma reunião de hordas, permite-nos admitir que houve 
primeiramente sociedades mais simples que se reduziam à horda propriamente dita e 
considerar esta como a origem de todas as espécies sociais. 

Definida esta noção de horda ou sociedade de segmento único — quer a conceba- 
mos como uma realidade histórica ou como um postulado da ciência — tem-se o ponto 
de apoio necessário para construir a escala completa dos tipos sociais. Distinguir-se-ão 
tantos tipos fundamentais quantas as maneiras como a horda se organiza a ela própria 
para dar origem a sociedades novas e as maneiras como estas se combinam entre si. 
Primeiramente, temos os agregados formados por uma simples repetição de hordas ou de 
clãs, sem que estes clãs estejam associados entre si de modo a formar grupos interme- 
diários entre cada um deles e o grupo global que os abrange a todos. Estão simplesmente 
Justapostos tal como os indivíduos da horda. Encontram-se exemplos destas sociedades 
a que poderíamos chamar polissegmentárias simples em certas tribos iroquesas e austra- 
lianas. A arch ou tribo cabília tem a mesma característica; é a reunião de clãs sob a 
forma de aldeias. Muito possivelmente houve um momento histórico em que a cúria ro- 
mana ou a sociedade ateniense constituíam um grupo deste tipo. Virão em seguida as 
sociedades formadas pela reunião das sociedades precedentes, ou seja, as sociedades 
polissegmentárias simplesmente compostas. É o caso da confederação iroquesa e da for- 
mada pela reunião das tribos cabílias; passou-se o mesmo com as três tribos primitivas 
cuja associação deu mais tarde origem à cidade romana. Viriam seguidamente as socie- 
dades polissegmentárias duplamente compostas que resultam da justaposição ou fusão 
de várias sociedades polissegmentárias simplesmente compostas. É o caso da cidade, 
agregado de tribos, que são por sua vez agregados de cúrias, que por seu lado se com- 
põem de gentes ou clãs, e o caso da tribo germânica com os seus condados que se subdi- 
videm em grupos, que por sua vez têm como elemento último o cla sob forma de aldeia. 

Não é o momento de desenvolver este assunto pois não interessa proceder aqui a 
uma classificação das sociedades. É um problema demasiado complexo para poder ser 
tratado de um modo ligeiro; supõe todo um conjunto de longas investigações. Quisemos 
simplesmente precisar idéias e mostrar como deve ser aplicado o método através de al- 
guns exemplos. Mas não se deve considerar o que precedeu como uma classificação com- 
pleta das sociedades inferiores. Simplificamos um pouco as coisas para tornar a explica- 
ção mais clara. Com efeito, supusemos que cada tipo superior era formado por uma 
repetição de sociedades do mesmo tipo, a saber, do tipo imediatamente inferior. Mas não 
é impossível que sociedades de espécies diferentes situadas a níveis desiguais na árvore 
genealógica dos tipos sociais se reúnam de modo a formarem uma nova espécie; conhe- 
ce-se pelo menos o caso do Império Romano, que abrangia no seu seio povos de natureza 
bastante diferente. º * 

Uma vez constituídos estes tipos, será necessário distinguir neles diferentes varie- 
dades, conforme as sociedades segmentárias que servem de base à sociedade resultante 
conservem ou não uma certa individualidade. Efetivamente, compreende-se que os fenó- 
menos sociais devam variar não só em função da natureza dos elementos que os com- 
póem mas também de acordo com a forma como estes se combinam; devem ser até 
muito diferentes quando cada grupo parcial conserva a vida local ou adere à vida geral, 
isto é, conforme está mais ou menos concentrado. Por conseguinte, dever-se-á investigar 


ss Todavia, é possível que normalmente a distância entre as sociedades componentes não seja tão grande; 
de outro modo, não poderia haver entre elas nenhuma afinidade moral. 


432 DURKHEIM 


se em qualquer momento se produz uma coalescência completa destes segmentos. Convi- 
rá não esquecer que esta composição original da sociedade não afeta a organização 
administrativa e política. Neste aspecto a cidade distingue-se claramente das tribos 
germânicas; nestas últimas a organização com base nos clãs permaneceu, ainda que de 
um modo apagado, até ao fim da sua história, enquanto em Roma ou em Atenas, as gen- 
tes e os réus deixaram muito rapidamente de serem divisões políticas para se tornarem 
agrupamentos privados. 

No seio dos enquadramentos que deste modo se formaram pode-se tentar introduzir 
novas distinções de acordo com as características morfológicas secundárias. No entanto, 
e por razões a que nos referiremos posteriormente, achamos pouco verossimil que possa 
haver qualquer utilidade em ultrapassar as divisões gerais que acabamos de indicar. 
Além disso, não somos obrigados a descer a estes detalhes; basta-nos ter definido o prin- 
cípio de classificação, que pode ser enunciado do seguinte modo: Começar-se-á por clas- 
sificar as sociedades segundo o grau de composição que apresentam, tomando como 
base a sociedade perfeitamente simples ou de segmento único; no interior destas classes 
proceder-se-á à distinção das diferentes variedades conforme se produz ou não uma 
coalescência completa dos segmentos iniciais. 


HI 


Estas regras respondem implicitamente a uma pergunta que o leitor fez talvez a si 
mesmo quando nos viu falar de espécies sociais como uma realidade, sem que antes 
tenhamos estabelecido diretamente a sua existência. Esta prova está contida no próprio 
princípio do método que acaba de ser exposto. 

Efetivamente, acabamos de ver que as sociedades são meras combinações diferentes 
de uma só e única sociedade original. Ora, um só elemento não pode combinar-se com 
ele próprio, e os compostos que dele resultam só podem por sua vez combinar-se entre si 
segundo um número limitado de maneiras, sobretudo quando os elementos componentes 
são pouco numerosos, o que é o caso dos segmentos sociais. A gama de combinações 
possíveis é, portanto, finita, e por conseguinte a maior parte delas deve repetir-se. É 
assim que surgem as espécies sociais. Aliás, é possível que certas combinações só se pro- 
duzam uma vez; isto não impede que as espécies existam. Dir-se-á simplesmente que nos 
casos deste tipo a espécie só abrange um indivíduo. * º 


Portanto, as espécies sociais existem pela mesma razão que existem espécies bioló- 
gicas. Na realidade, estas são devidas ao fato de os organismos serem meras combina- 
ções variadas de uma única e mesma unidade anatômica. Todavia, sob este ponto de 
vista, há uma grande diferença entre os dois domínios. Com efeito, nos animais há um 
fator especial que dá uma força de resistência às características específicas que as outras 
não têm; é a geração. Os primeiros, pelo fato de serem comuns a toda a linha dos ascen- 
dentes, estão mais enraizados no organismo. Portanto, não se deixam influenciar facil- 
mente pela ação dos meios individuais; pelo contrário, mantêm-se idênticos a si próprios 
apesar da diversidade das circunstâncias exteriores. Há uma força interna que os fixa 
apesar das solicitações para a variação que podem provir do exterior; é a força dos hábi- 
tos hereditários. É por isso que se encontram claramente definidos e que podem ser deter- 
minados com precisão. No domínio social, esta causa interna está ausente. As caracterís- 
ticas específicas não podem ser reforçadas pela geração porque só duram uma geração. 


88 Não será este o caso do Império Romano, que parece único na história? 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 433 


Com efeito, é habitual que as sociedades geradas sejam de uma espécie diferente da das 
sociedades geradoras porque, ao combinarem-se, estas últimas dão origem a arranjos 
totalmente novos. Só a colonização poderia ser equiparada a uma geração por gemina- 
ção; em todo o caso, para que a comparação fosse exata, seria necessário que o grupo de 
colonos não se misturasse com qualquer sociedade de outra espécie ou de outra varieda- 
de. Os atributos distintivos da espécie não recebem portanto da hereditariedade uma 
força suplementar que lhes permita resistir às variações individuais; modificam-se e va- 
riam infinitamente sob a ação das circunstâncias. Quando se pretende atingi-los, após se 
terem afastado todas as variantes que os dissimulam, acontece muitas vezes obter-se ape- 
nas um resíduo bastante vago. Esta indeterminação acentua-se tanto mais quanto maior 
é a complexidade das características; quanto mais complexo é um dado objeto, mais 
numerosas são as combinações que as suas partes podem formar. Resulta daqui que o 
tipo específico não apresenta, para além das características mais gerais e mais simples, 
contornos tão definidos como na biologia. º? 


87 Quando redigimos este capítulo para a primeira edição desta obra, nada dissemos acerca do mêtodo que 
consiste em classificar as sociedades segundo o respectivo grau de civilização. Naquele momento nenhuma 
classificação deste gênero fora proposta por sociólogos competentes, salvo talvez a de Comte ainda que 
evidentemente arcaica. Mais tarde, várias tentativas foram feitas neste sentido, nomeadamente por Vierkandt 
(Die Kulturtypen der Menschheit, in Archiv. £ Anthropologie, 1898), por Sutherland (The Origin and 
Growth of the Moral Instinct) e por Steinmetz (Classification des Types Sociaux, in Année Sociologique, WI, 
págs. 43-147). Não obstante, não as discutiremos porque não correspondem ao problema levantado neste 
capítulo. Nessas tentativas não transparece uma classificação das espécies sociais mas, o que é muito dife- 
rente, das fases históricas. Desde a sua formação, a França passou por formas de civilização muito diferen- 
tes; começou por ser agrícola passando em seguida à indústria artesanal e ao pequeno comércio, depois para 
a manufatura e, por último, para a grande indústria. Ora, é impossível pensar que uma individualidade cole- 
tiva possa mudar de espécie três ou quatro vezes. Uma espécie deve definir-se através de características mais 
constantes. O estado econômico, tecnológico. etc., apresenta fenômenos demasiado instáveis e complexos 
para constituir a base de uma classificação. É inclusivamente muito possível que uma mesma civilização 
industrial, científica ou artística, possa encontrar-se em sociedades de constituição congenital muito diferen- 
te. O Japão poderá adotar a nossa arte, a nossa indústria, até mesmo a nossa organização política: mas não 

- deixará por isso de pertencer a uma espécie social diferente da da França e da da Alemanha. Acrescentemos 
que estas tentativas, ainda que partindo de sociólogos de valor. só deram resultados vagos. contestáveis e 
com pouca utilidade. 


CAPÍTULO QUINTO 


REGRAS RELATIVAS À EXPLICAÇÃO DOS FATOS SOCIAIS 


A constituição das espécies é essencialmente um modo de agrupar os fatos a fim de facilitar a sua interpreta- 
ção; a morfologia social encara os verdadeiros problemas da explicação cientifica. Qual é o método desta? I 
— Caráter finalista das explicações em vigor. A utilidade de um fato não explica a sua existência. Dualidade 
das duas questões, estabelecida pelos fatos de sobrevivência, pela independência do órgão e da função, e a 
diversidade de serviços que pode prestar sucessivamente uma mesma instituição. Necessidade da investigação 
das causas eficientes dos fatos sociais. Importância preponderante destas causas na sociologia, demonstrada 
pela generalidade das práticas sociais, mesmo as mais minuciosas. A causa eficiente deve, portanto, ser deter- 
minada independentemente da função. Por que deve a primeira investigação preceder à segunda. Utilidade 
desta última. II — Caráter psicológico do mêtodo de explicação geralmente seguido. Este método desco- 
nhece a natureza do fato social que é irredutível aos fatos puramente psíquicos em virtude da sua definição. 
Os fatos sociais só podem ser explicados por fatos sociais. Como isto acontece mesmo que a sociedade não 
tenha por matéria mais do que consciências individuais. Importância da associação que dá nascimento a um 
novo ser e a uma nova ordem de realidades. Solução de continuidade entre a sociologia e a psicologia, aná- 
loga à que separa a biologia das ciências físico-químicas. Se esta proposição se aplica ao fato da formação da 
sociedade. Relação positiva entre os fatos psíquicos e os fatos sociais. Os primeiros são a matéria indetermi- 
nada que o fator social transforma: exemplos. Se os sociólogos lhes atribuíram um papel mais direto na gêne- 
se da vida social é porque tomaram por fatos puramente psíquicos estados de consciência que são apenas 
fenômenos sociais transformados. Outras provas em apoio da mesma proposição: 1.º —— independência dos 
fatos sociais em relação ao fator ético, o qual é de ordem orgânico-psíquica; 2.º — a evolução social não é 
explicável por causas puramente psíquicas. Enunciado das regras sobre esta questão. É por estas regras serem 
desconhecidas que as explicações sociológicas têm um caráter demasiado geral, que as desacredita. Necessi- 
dade de uma cultura propriamente sociológica. III — Importância primária dos fatos de morfologia social 
nas explicações sociológicas: o meio interno é a origem de todo o processo social de alguma importância. 
Papel particularmente preponderante do elemento humano desse meio. O problema sociológico consiste, por- 
tanto, e, sobretudo, em encontrar as propriedades desse meio que têm mais influências sobre os fenômenos 
sociais. Duas espécies de características correspondem, em particular, a esta condição: o volume da socie- 
dade e a densidade dinâmica medida pelo grau de coalescência dos segmentos. Os meios internos secundá- 
rios; as suas relações com o meio geral e o detalhe da vida coletiva. Importância desta noção de meio social. 
Se a rejeitamos, a sociologia deixa de poder estabelecer relações de causalidade mas, apenas, relações de 
sucessão, não comportando a previsão científica: exemplos tirados de Comte e de Spencer. Importância desta 
mesma noção para explicar como pode variar o valor útil das práticas sociais sem depender de arranjos arbi- 
trários. Relações desta questão com a dos tipos sociais. A vida social assim concebida depende de causas 
internas. [V — Caráter geral desta concepção sociológica. Para Hobbes, a ligação entre o psíquico e o social 
é sintética e artificial; para Spencer e para os economistas, a ligação é natural mas analítica; para nós, é natu- 
ral e sintética. Como estas duas características são conciliáveis. Consequências gerais que daqui resultam. 


A maior parte dos sociólogos julga ter explicado os fenômenos a partir do momento 
em que definiu a sua utilidade e o papel que desempenham. Raciocina-se como se tais 
fenômenos só existissem para desempenhar esse papel e tivessem como única causa 
determinante o sentimento, claro ou confuso, dos serviços que são chamados a prestar. 
É por essa razão que se julga tê-los tornado compreensíveis quando se estabeleceu a rea- 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 435 


lidade dos seus serviços e se mostrou a que necessidade social satisfazem. Comte, por 
exemplo, reduz toda a força progressiva da espécie humana à tendência fundamental 
“que incita diretamente o homem a melhorar continuamente e sob todos os aspectos a 
situação em que se encontra”, ºº enquanto Spencer a reduz ao desejo de atingir uma 
maior felicidade. Parte desse princípio para explicar a formação da sociedade pelas van- 
tagens que resultam da cooperação, a instituição do governo pela utilidade que há em 
regularizar a cooperação militar, ºº as transformações por que passou a família pela 
necessidade de conciliar cada vez mais perfeitamente os interesses dos pais, dos filhos e 
da sociedade. 

Mas este método confunde duas questões muito diferentes. Mostrar a utilidade de 
um fato não explica o seu nascimento nem a aparência com que nos surge, pois as fun- 
ções para que serve supõem as propriedades específicas que o caracterizam, mas não o 
criam. A nossa necessidade das coisas não as determina; tal necessidade não pode 
extraí-las do nada e conferir-lhes existência. Esta depende de causas de um outro gênero. 
O nosso sentimento da sua utilidade pode incitar-nos a provocar estas causas € a apro- 
veitar os resultados que implicam, mas não a suscitar estes resultados a partir do nada. 
Isto é evidente quando se trata de fenômenos materiais ou mesmo psicológicos; mas tam- 
bém não seria contestado em sociologia se os fatos sociais, dada a sua imaterialidade 
extrema, não nos parecessem, erradamente, destituídos de qualquer realidade intrínseca. 
Dado que só vemos neles combinações puramente mentais, julgamos que surgem por si 
mesmos a partir do momento em que se tem uma idéia deles, e são considerados como 
sendo úteis. Mas como cada um deles é uma força que domina a nossa, pois é dotado de 
uma natureza que lhe é própria, nem o desejo nem a vontade são suficientes para lhe con- 
ferir existência; seria necessário que possuíssemos forças capazes de produzir esta força 
determinada, uma natureza capaz de produzir esta natureza especial. Para despertar o 
espírito de família onde este se revela mais fraco, não basta que todos compreendam as 
vantagens de tal necessidade; é necessário fazer atuar as suas causas, pois só elas o 
podem produzir. Para conferir a um governo a autoridade que lhe é necessária, não basta 
sentir esta necessidade; é preciso encontrar as origens da autoridade, isto é, constituir 
tradições, um espírito comum, etc., etc.; para tal, é ainda necessário procurar um ponto 
em que a ação do homem possa inserir-se eficazmente. 

A dualidade destas duas séries de investigações é bem demonstrada quando se sabe 
que um fato pode existir sem servir para nada, por nunca ter correspondido a qualquer 
fim vital ou por, depois de ter sido útil, ter perdido essa utilidade continuando a existir 
unicamente pela força do hábito. De fato, há ainda mais reminiscências na sociedade do 
que no organismo. Há casos em que um costume ou uma instituição social mudam de 
funções sem que a sua natureza se modifique. A regra is pater est quem justae nuptiae 
declarant *º permaneceu no nosso código idêntica àquilo que era no velho direito roma- 
no; mas, ao passo que então tinha como objetivo salvaguardar os direitos de propriedade 
do pai em relação aos filhos da mulher legítima, atualmente tende a proteger os direitos 
das crianças. O juramento começou por ser uma espécie de prova judiciária para se tor- 
nar simplesmente uma forma solene e imponente de testemunho. Desde há séculos que 
os dogmas religiosos do cristianismo não mudaram; mas o papel que desempenham nas 
nossas sociedades modernas já não é o mesmo que desempenhavam na Idade Média. As 


58 Cours de Philosophie Positive, IV, pág. 262. 
89 Sociologie, II, pág. 336. 
8º Pai é aquele que é apontado pelo casamento. (N. do E.) 


436 DURKHEIM 


palavras servem para exprimir idéias novas sem que a sua estrutura se modifique. A afir- 
mação de que o órgão é independente da função, isto é, de que, embora permanecendo o 
mesmo, pode servir para fins diferentes, é tão verdadeira em sociologia como em biolo- 
gia. Isto significa que as causas que o fazem existir são independentes dos fins para que 
serve. 


Não pretendemos afirmar que as tendências, as necessidades ou os desejos dos ho- 
mens nunca intervêm de uma maneira ativa na evolução social. Pelo contrário, não há 
dúvida de que lhes é possível, conforme a maneira como agem sobre as condições de que 
depende um fato, apressar ou moderar o desenvolvimento deste. Porém, e além de nunca 
poderem fazer algo a partir do nada, a sua intervenção só pode realizar-se atravês do 
aproveitamento de causas eficientes. Com efeito, uma tendência só pode contribuir para 
a produção de um fenômeno novo se for ela própria nova, isto é, se se constituir total- 
mente como inovação ou for devida a qualquer transformação de uma tendência ante- 
rior. A menos que se postule uma harmonia preestabelecida e providencial, não se pode 
admitir que o homem tenha em si mesmo desde a sua origem e em estado virtual todas 
as tendências que se possam considerar oportunas no decorrer da sua evolução. Uma 
tendência também é uma coisa; não é pelo simples fato de lhe encontrarmos uma utili- 
dade que ela se pode constituir ou modificar. É uma força que tem a sua natureza pró- 
pria, e que não pode ser suscitada ou alterada pelo fato de vermos nisso alguma vanta- 
gem. Para que tais modificações se produzam é necessário que existam causas ativas que 
as impliquem fisicamente. 


Por exemplo, explicamos os progressos constantes da divisão do trabalho social 
mostrando a sua necessidade a fim de que o homem se possa conservar nas novas condi- 
ções de existência que se lhe deparam; atribuímos pois a esta tendência, a que se chama 
muito impropriamente instinto de conservação, um papel muito importante. Mas, por 
exemplo, ela nunca poderia explicar por si só a especialização, mesmo a mais rudimen- 
tar, pois não a pode criar se as condições de que depende este fenômeno não se encon- 
tram já realizadas, isto é, se as diferenças individuais não aumentarem suficientemente 
devido à indeterminação progressiva da consciência comum e das influências hereditá 
rias. º* Além disso, seria necessário que a divisão do trabalho já tivesse surgido para que 
a sua utilidade e necessidade fosse reconhecida; o simples desenvolvimento das divergên 
cias individuais, ao implicar uma maior diversidade de gostos e de aptidões, produzia 
necessariamente este primeiro resultado. Mas o instinto de conservação não veio por si 
só, e sem qualquer causa justificativa, fecundar este primeiro germe da especialização. Se 
nos orientou nesta nova via, é porque o caminho seguido até então foi bloqueado, pois a 
maior intensidade da luta, devida à maior condensação das sociedades, tornou cada vez 
mais difícil a sobrevivência dos indivíduos que continuavam a dedicar-se a tarefas gerais. 
Houve portanto necessidade de mudar de direção. Por outro lado, se a nossa atividade 
foi desviada no sentido de uma divisão de trabalho cada vez mais desenvolvida, é porque 
era este o sentido que opunha uma menor resistência. As outras soluções possíveis eram 
a emigração, o suicídio, o crime. Ora, em regra, os laços que nos ligam ao nosso país, à 
vida, a simpatia que temos pelos nossos semelhantes são sentimentos mais fortes e mais 
resistentes do que os hábitos suscetíveis de nos afastar de uma especialização mais rigi- 
da. Foram portanto estes que cederam quando foi necessário dar um passo em frente. 
Logo, não somos obrigados a recorrer ao finalismo pois não nos recusamos a fazer inter- 
vir as necessidades humanas nas explicações sociológicas; aquelas só podem influir na 


81 Division du Travail, 1. JJ, caps. le IV. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 437 


evolução social porque também evoluem, e as modificações por que passam não podem 
ser explicadas por causas finalistas. 

Mas ainda mais convincentes do que as considerações anteriores é a própria prática 
dos fatos sociais. Onde existe finalismo, existe também uma grande contingência pois 
não há fins ou meios que se imponham necessariamente a todos os homens, mesmo que 
estes se encontrem nas mesmas circunstâncias. Num ambiente idêntico, cada indivíduo, 
conforme o humor próprio, adapta-se-lhe à sua maneira. Um tentará modificá-lo a fim de 
o pôr de acordo com as suas necessidades; outro preferirá modificar-se a si mesmo e 
refrear os seus desejos. Para chegar a um mesmo fim, quantas vias diferentes podem ser 
e são efetivamente seguidas! Se o desenvolvimento histórico tivesse procurado fins cla- 
ros ou obscuramente sentidos, os fatos sociais apresentariam portanto uma diversidade 
infinita e seria praticamente impossível estabelecer qualquer espécie de comparação. 
Ora, o contrário é que é a verdade. Não há dúvida de que os acontecimentos exteriores 
cuja trama constitui a parte superficial da vida social variam de um povo para outro; 
mas é precisamente isso que justifica o fato de cada indivíduo ter a sua história, apesar 
de as bases da organização física e moral serem as mesmas para todos. Na realidade, 
quando se está em contato com os fenômenos sociais, fica-se surpreendido com a espan- 
tosa regularidade com que eles se reproduzem nas mesmas circunstâncias. Mesmo as 
práticas mais minuciosas, e aparentemente mais pueris, repetem-se com grande uniformi- 
dade. Uma cerimônia nupcial, puramente simbólica ao que parece, como o rapto da 
noiva, encontra-se sempre que existe um determinado tipo familiar ligado a toda uma 
organização política. Muitos costumes estranhos podem ser observados nos povos mais 
diversos e são sintomáticos de um determinado estado social. O direito de fazer testa- 
mento surge numa determinada fase da história e, de acordo com as restrições mais ou 
menos importantes que o limitam, pode-se afirmar em que momento da evolução social 
nos encontramos. Seria fácil multiplicar os exemplos. Esta generalidade das formas cole- 
tivas seria inexplicável se as causas finais tivessem em sociologia a preponderância que 
se lhes atribui. 

Portanto, quando nos lançamos na explicação de um fenômeno social, temos de 
investigar separadamente a causa eficiente que o produz e a função que ele desempenha. 
Preferimos servir-nos do termo função em vez de fim ou de objetivo, precisamente por- 
que os fenômenos sociais não existem geralmente com vista aos resultados úteis que pro- 
duzem. O que é necessário determinar é se existe correspondência entre o fato conside- 
rado e as necessidades gerais do organismo social e em que consiste esta 
correspondência, sem nos preocuparmos em saber se foi ou não intencional. Todas estas 
questões de intenção são, aliás, demasiado subjetivas para poderem ser discutidas 
cientificamente. 

Estas duas séries de problemas devem ser desligadas uma da outra; e em geral con- 
vém estudar a primeira antes da segunda. Esta série corresponde, com efeito, à dos fatos. 
É natural que se procure a causa de um fenômeno antes de tentar determinar os seus efei- 
tos.o que é lógico, pois, uma vez resolvida a primeira questão. a resolução da segunda é 
muito facilitada. Com efeito, o laço de solidariedade que liga a causa ao efeito tem um 
caráter de reciprocidade que não tem sido suficientemente reconhecido. O efeito não 
pode existir sem a causa, mas esta, por sua vez, tem necessidade do efeito. É a partir dela 
que o efeito obtém a sua energia, se bem que, dado que este lha restitui na altura devida. 
ela se ressente se o efeito desaparecer. º? Por exemplo, a reação social materializada pela 


s2 Não era nossa intenção levantar problemas de filosofia geral cujo lugar não é aqui. Reparemos, no 
entanto, que, se for estudada mais cuidadosamente, esta reciprocidade entre a causa e o efeito poderia forne- 
cer um meio para reconciliar o mecanismo científico e o finalismo que a existência e, em especial. a persis- 
tência da vida implicam. 


438 DURKHEIM 


pena é devida à intensidade dos sentimentos coletivos que o crime ofende; mas tem como 
função útil conservar estes sentimentos no mesmo grau de intensidade, pois eles não tar- 
dariam a modificar-se se as ofensas que lhes são infligidas não fossem castigadas. º* Da 
mesma forma, à medida que o meio social se torna mais complexo e mais instável, as tra- 
dições e as crenças desmoronam-se, tornam-se mais vacilantes e flexíveis, e as faculdades 
de reflexão desenvolvem-se; mas estas mesmas faculdades são indispensáveis às socieda- 
des e aos indivíduos para poderem adaptar-se a um meio mais instável e mais comple. 
xo. º* À medida que os homens são obrigados a executar um trabalho mais intenso, os 
produtos deste trabalho tornam-se mais numerosos e de qualidade superior; e estes pro- 
dutos, melhores e mais abundantes, são necessários para compensar as despesas que este 
trabalho mais considerável implica. º* Assim, a causa dos fenômenos sociais não con- 
siste numa antecipação da função que são chamados a desempenhar; pelo contrário, esta 
função, pelo menos num grande número de casos, consiste em conservar a causa preexis 
tente donde derivam. Portanto, se a segunda já é conhecida, encontrar-se-à mais facil- 
mente a primeira. Mas, se só se deve proceder à determinação da função em segundo 
lugar, ela não deixa de ser necessária para que a explicação do fenômeno seja completa. 
Com efeito, se não é a utilidade do fato que o faz nascer, ela é porém necessária para que 
o fato se mantenha. Se não servir para nada, tal fato será prejudicial pois implicará uma 
despesa não recompensada. Se a generalidade dos fenômenos sociais revestisse este cará- 
ter parasitário, o orçamento do organismo estaria em deficit e a vida social seria impossí- 
vel; logo, para que esta se revele satisfatoriamente compreensível, é necessário mostrar 
como os fenômenos que constituem a sua matéria contribuem para a harmonia da socie- 
dade, no seu seio e com o exterior. Sem dúvida que a fórmula corrente que define a vida 
como uma correspondência entre o meio interno e o meio externo não é senão uma apro- 
ximação; mas é em geral verdadeira e, portanto, para explicar um fato de ordem vital, 
não basta mostrar a causa de que depende, e é ainda necessário, pelo menos na maior 
parte dos casos, achar a parte que lhe cabe na criação desta harmonia geral. 


o! 


Uma vez diferenciadas estas duas questões, temos de determinar o método segundo 
o qual devem ser resolvidas. 

Ao mesmo tempo que é finalista, o método de explicação geral seguido pelos soció- 
logos é essencialmente psicológico. Estas duas tendências são solidárias. Com efeito, se 
a sociedade é apenas um sistema de meios instituídos com vista a certos fins, estes fins 
só podem ser individuais pois, antes da sociedade, só podiam existir indivíduos. É por- 
tanto do indivíduo que emanam as idéias e as necessidades que determinam a formação 
das sociedades e, se tudo provém dele, é necessariamente através dele que tudo deve ser 
explicado. Aliás, na sociedade só existem consciências particulares; é portanto nestas úi- 
timas que se encontra a origem de toda a evolução social. Logo, as leis sociológicas são 
apenas um corolário das leis mais gerais da psicologia; a explicação suprema da vida 
coletiva consistirá em mostrar como ela deriva da natureza humana em geral, por dedu- 
ção direta e sem observação prévia ou depois de a ter observado. 


83 Division du Travail Social, 1. II, cap. II, e especialmente págs. 105 e seguintes. 
84 Division du Travail Social, págs. 52 e 53. 


£ 


€S fbid., págs. 301 e seguintes. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 439 


Estes termos correspondem mais ou menos às palavras utilizadas por Auguste 
Comte para caracterizar o seu método. Dado que afirma que “o fenômeno social, conce- 
bido na totalidade, não é, no fundo, senão um simples desenvolvimento da humanidade, 
sem qualquer espécie de criação de faculdades”, º º* como mais acima afirmamos, todas 
as disposições efetivas que a observação sociológica poderá revelar deverão portanto 
reencontrar-se pelo menos em germe neste tipo primordial que a biologia elaborou 
antecipadamente para a sociologia. Segundo este autor, o fato dominante da vida social 
é o progresso e este, por outro lado, depende de um fator exclusivamente psíquico, a 
saber, a tendência que leva o homem a desenvolver cada vez mais a sua natureza. Os 
fatos sociais derivariam de um modo tão imediato da natureza humana, que, durante as 
primeiras fases da história, poderiam ser diretamente deduzidos sem que fosse necessário 
recorrer à observação. º” Comte confessou ser impossível aplicar este método dedutivo 
aos períodos mais avançados da evolução; mas esta impossibilidade é puramente prática, 
e provém do fato de a distância entre o ponto de partida e o ponto de chegada se tornar 
demasiado grande para que o espírito humano se perca se tentar percorrer essa distância 
sem um guia. *º Mas a relação entre as leis fundamentais da natureza humana e os resul- 
tados finais do progresso não deixa de ser analítica. As formas mais complexas da civili- 
zação correspondem precisamente à vida psíquica desenvolvida. Assim, mesmo que as 
teorias da psicologia não possam bastar como premissas do raciocínio sociológico, elas 
constituem a peça fundamental do tabuleiro, a única que permite avaliar a validade das 
proposições estabelecidas indutivamente. Comte afirma que “nenhuma lei da sucessão 
social, ainda que o método histórico a defenda com toda a sua autoridade, poderá ser 
admitida senão após ter sido relacionada direta ou indiretamente com a teoria positiva 
da natureza humana”. º*º Portanto, é sempre a psicologia que tem a última palavra a 
dizer. 

É este também o método seguido por Spencer. Com efeito, segundo este, os dois 
fatos primários dos fenômenos sociais são o meio cósmico e a constituição fisica e moral 
do indivíduo. 7º Ora, o primeiro só poderá influir sobre a sociedade através do segundo. 
que é deste modo o motor essencial da evolução social. A sociedade constitui-se para 
permitir ao indivíduo realizar a sua natureza, e todas as transformações pelas quais pas- 
sou não têm outro fim senão o de tornar esta realização mais fácil e mais completa. É em 
virtude deste princípio que, antes de se lançar em qualquer investigação sobre a organi- 
zação social, Spencer achou por bem dedicar quase todo o primeiro tomo dos seus Prin- 
cípios de Sociologia ao estudo do homem primitivo físico, emocional e intelectual. “A 
ciência da sociologia”, afirma, “parte das unidades sociais, submetidas às condições que 
vimos, constituídas por elementos fisicos, emocionais e intelectuais, de posse de certas 
idéias cedo adquiridas e dos sentimentos correspondentes.” ”" E é em dois destes senti- 
mentos, o receio dos vivos e o receio dos mortos, que este autor encontra a origem do 
governo político e do governo religioso. "2 Este autor admite que, uma vez constituída, a 
socredade reage contra os indivíduos; 'º mas tal não significa que ela tenha o poder de 


66 


Cours de Philosophie Positive, IV. pág. 333. 
87 Ibid., pág. 345. 

88 Cours de Philosophie Positive, pág. 346. 

69 Ihid., pág. 335. 

7º Principes de Sociologie, I, 14, 14. 

7 Op.cit., I, pág. 583. 

72 Ibid., pág. 582. 

73 Ibid., pág. 18. 


440 DURKHEIM 


produzir diretamente o mais pequeno fato social; deste ponto de vista, só tem alguma efi- 
cácia causal por intermédio das modificações que determina no indivíduo. Portanto, é 
sempre da natureza humana, tanto primitiva como derivada, que tudo dimana. Aliás, 
esta ação que o corpo social exerce sobre os seus membros não pode ter nada de especi- 
fico dado que os fins políticos não são nada em si mesmos e se constituem como mera 
expressão resumida dos fins individuais. ? * Portanto, ela é apenas uma espécie de retorno 
da atividade particular sobre si mesma. Nas sociedades industriais, que têm precisamente 
o objetivo de deixar o indivíduo entregue a si próprio e aos seus impulsos naturais, liber 
tando-o de toda e qualquer sujeição social, não se vê em que possa ela consistir. 

Este princípio não está apenas na origem destas grandes doutrinas de sociologia 
geral; inspira igualmente um número enorme de teorias particulares. Por exemplo, expli- 
ca-se vulgarmente a organização doméstica através dos sentimentos dos pais em relação 
aos filhos e destes em relação aos primeiros; a instituição do casamento pelas vantagens 
que oferece aos esposos e à respectiva descendência; o castigo pela cólera que provoca 
no indivíduo qualquer lesão grave aos seus interesses. Toda a vida econômica tal como 
os economistas a concebem e a explicam, em especial os da escola ortodoxa, está decisi- 
vamente dependente deste fator puramente individual, o desejo da riqueza. No campo da 
moral, consideram-se os deveres do individuo para consigo próprio como a base da ética. 
A religião é considerada como um produto das impressões que as grandes forças da 
natureza ou certas personalidades eminentes despertam no homem, etc., etc. 

Mas só se poderá aplicar um tal método aos fenômenos sociológicos se ele não os 
desnaturar. Para o provarmos, basta que nos refiramos à definição dada mais atrás. 
Dado que a característica essencial destes fenômenos reside no poder que têm de exercer, 
a partir do exterior, uma pressão sobre as consciências individuais, não é daí que deri- 
vam; logo, a sociologia não é um corolário da psicologia, pois este poder de coação reve- 
la-nos que exprimem uma natureza diferente da nossa, dado que só penetram em nós pela 
força ou, pelo menos, exercendo uma maior ou menor pressão. Se a vida social fosse um 
mero prolongamento do ser individual, não a veríamos elevar-se até à origem e invadi-la 
impetuosamente. Dado que a autoridade diante da qual o indivíduo se submete quando 
age, sente ou pensa socialmente o domina até esse ponto, é porque ela é um produto de 
forças que o ultrapassam e que, por consequência, não conseguiria explicar. Não é dele 
que pode provir esse impulso exterior a que está submetido; não é portanto o que se 
passa com ele que a poderá explicar. Não somos incapazes de nos reprimir a nós pró- 
prios; podemos refrear as nossas tendências, hábitos, os próprios instintos e até mesmo 
impedir o seu desenvolvimento através de um ato de inibição. Mas não devemos confun- 
dir os atos inibitivos com aqueles que constituem a coação social. O processo dos pri- 
meiros é centrífugo; o dos segundos é centrípeto. Uns elaboram-se na consciência indivi- 
dual e tendem em seguida a exteriorizar-se; os outros são inicialmente exteriores ao 
indivíduo, mas tendem a moldá-lo à sua imagem e semelhança. A inibição é, por assim 
dizer, o meio através do qual a coação social produz os seus efeitos psíquicos; ela não é 
essa coação. 

Ora, posto de lado o indivíduo, resta-nos apenas a sociedade; é portanto necessário 
ir até à natureza da própria sociedade para se encontrar a explicação da vida social. 
Dado que ela ultrapassa infinitamente o indivíduo tanto no tempo como no espaço, 


74 “A sociedade existe para benefício dos seus membros, os membros não existem para o benefício da socie- 
dade. ..: os direitos do corpo político não são nada em si mesmos, só podem vir a ser alguma coisa com a 
condição de encarnarem os direitos dos indivíduos que o constituem.” (Op. cit., II, pág. 20.) 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 441 


compreende-se que esteja apta a impor-lhe as maneiras de agir e de pensar que foram 
sancionadas pela sua autoridade. Esta pressão, que é o sinal distintivo dos fatos sociais, 
é a que todos exercem sobre cada um deles. 

Mas, poder-se-á ripostar, dado que os únicos elementos que constituem a sociedade 
são os indivíduos, a origem principal dos fenômenos sociológicos só pode ser psicoló- 
gica. Raciocinando deste modo, também se pode afirmar que os fenômenos biológicos se 
explicam analiticamente pelos fenômenos inorgânicos. Com efeito, na célula viva só exis- 
tem moléculas de matéria bruta; simplesmente, estão associadas e é esta associação que 
é a causa dos fenômenos novos que caracterizam a vida e cujo germe é impossível encon- 
trar em qualquer um dos elementos associados. Um todo não é idêntico à soma das par- 
tes que o constituem; é algo de diferente cujas propriedades diferem das que revelam as 
partes de que é composto. A associação não é, como por vezes se pensou, um fenômeno. 
por si mesmo, infecundo, que consiste simplesmente em relacionar exteriormente fatos 
adquiridos e propriedades constituídas. Não será antes, pelo contrário, a origem de todas 
as novidades que se foram produzindo sucessivamente no decorrer da evolução geral das 
coisas? Em última análise, todos estes seres se convertem em elementos da mesma natu- 
reza; mas estes elementos encontram-se ora justapostos ora associados de uma maneira 
ou de outra. Podemos perguntar a nós próprios se esta lei não se aplicará inclusive no 
mundo mineral e se as diferenças que separam os corpos não organizados não terão a 
mesma origem. 

Em virtude deste princípio, a sociedade não é uma simples soma de indivíduos, pois 
o sistema formado pela associação destes representa uma realidade específica que tem as 
suas características próprias. Sem dúvida que nada se pode produzir de coletivo sem que 
se manifestem consciências particulares; mas esta condição necessária não é suficiente. 
É necessário ainda que estas consciências se associem, de uma certa maneira; é desta 
combinação que resulta a vida social e, por conseguinte, é esta combinação que a expli- 
ca. Ao agregarem-se, ao penetrarem-se, ao fundirem-se, as almas individuais dão origem 
a um ser, psíquico por assim dizer, mas que constitui uma individualidade psíquica de 
um estilo novo. 7º É portanto na natureza desta individualidade, e não na das unidades 
componentes, que se deve procurar as causas próximas e determinantes dos fatos que 
nela se produzem. O grupo pensa, sente e age de um modo muito diferente do que o fa- 
riam os seus membros caso estivessem isolados. Portanto, se se parte destes últimos, não 
se compreenderá absolutamente nada do que se passa no grupo. Resumindo, entre a psi- 
cologia e a sociologia existe a mesma solução de continuidade que entre a biologia e as 
ciências físico-químicas. Todas as vezes que um fenômeno social é diretamente explicado 
por um fenômeno psíquico, podemos estar certos de que a explicação é falsa. 

Argumentar-se-á, talvez, que, se a sociedade, uma vez constituída, é com efeito a 
causa próxima dos fenômenos sociais, as causas que determinaram a sua constituição 
são de natureza psicológica. Aceita-se que, quando os indivíduos estão associados, esta 


78 Eis em que sentido e por que razões se pode e deve falar de uma consciência coletiva distinta das cons- 
ciências individuais. A fim de justificar esta distinção, não é necessário atribuir existência real à primeira; 
constitui qualquer coisa de particular e deve ser designada por um termo especial simplesmente pelo fato de 
os estados que a constituem diferirem especificamente dos que constituem as consciências particulares. Esta 
especificidade provém do fato de cles não serem constituídos pelos mesmos elementos. Com efeito, uns deri- 
vam da natureza do ser orgânico-psíquico considerado isoladamente, e os outros da combinação de uma 
pluralidade de seres deste gênero. As resultantes não podem portanto deixar de diferir, dado que os compo- 
nentes diferem neste ponto. Aliás, a nossa definição do fato social assinalava simplesmente esta linha de 
demarcação de uma outra mancira. 


442 DURKHEIM 


associação pode dar origem a uma vida nova, mas entende-se que ela só pode existir por 
razões individuais. Porém, por muito que se recue na história, a associação é o fato mais 
obrigatório de todos, porquanto é a causa de todas as outras obrigações. Em virtude do 
meu nascimento, estou obrigatoriamente ligado a um determinado povo. Diz-se que, 
mais tarde, uma vez adulto, aquiesço a esta obrigação pelo simples fato de continuar a 
viver no meu país. Porém, este consentimento não lhe tira o caráter imperativo. Uma 
pressão que é aceita e suportada de bom grado não deixa de constituir uma pressão. 
Aliás, qual poderá ser o significado de uma tal adesão? Em primeiro lugar é forçada, 
pois na grande maioria dos casos é-nos materialmente e moralmente impossível renun- 
ciar à nossa nacionalidade; uma tal renúncia é mesmo geralmente considerada como 
uma abjuração. Em seguida, não podemos pôr em causa um passado que não foi esco- 
lhido e que, no entanto, determina o presente. Não quis a educação que recebi: mas é ela 
que, mais do que qualquer outra causa, me prende ao solo natal. Por outro lado, dado 
que o futuro me é desconhecido, que não conheço todos os deveres que qualquer dia me 
poderão exigir na minha qualidade de cidadão, como poderia eu aquiescer com antece- 
dência? Tudo o que é obrigatório, como o demonstramos, tem a sua origem fora do indi- 
víduo. Portanto, enquanto não sairmos do âmbito da história, a associação apresenta o 
mesmo caráter dos outros fatos e, por conseguinte, explica-se da mesma maneira. Por 
outro lado, como todas as sociedades nasceram de outras sociedades sem solução de 
continuidade, podemos estar certos de que, no decorrer da evolução social, não houve 
uma ocasião em que os indivíduos tivessem tido verdadeiramente de deliberar a fim de 
saberem se entrariam ou não numa dada vida coletiva. Para que se pudesse pôr este pro- 
blema seria necessário ir às origens de qualquer sociedade. Mas as soluções, sempre 
duvidosas, que podemos dar a tais problemas nunca poderiam afetar o método segundo 
o qual devem ser analisados os fatos da história; não temos portanto de os discutir. 

Não queremos dizer com isto que a: sociologia deve ou pode fazer abstração do 
homem e das suas faculdades. Pelo contrário, é claro que as características gerais da 
natureza humana entram no trabalho de elaboração de que resulta a vida social. Mas não 
são elas que a suscitam ou lhe conferem a sua forma particular; tornaram-na unicamente 
possível. As causas geradoras das representações, das emoções, das tendências coletivas 
não são constituídas por certos estados da consciência dos particulares, mas pelas condi- 
ções em que se encontra o corpo social tomado em conjunto. É claro que só se podem 
realizar se as naturezas individuais não se revelarem refratárias a este; mas estas consti- 
tuem apenas a matéria indeterminada que o fator social determina e transforma. A sua 
contribuição limita-se aos estados muito gerais, as predisposições vagas e, por conse- 
guinte, plásticas que não conseguiriam, por si sós, tomar as formas definidas e comple- 
xas que caracterizam os fenômenos sociais. 

Que abismo existe, por exemplo, entre os sentimentos que o homem sente diante de 
forças superiores à sua e a instituição religiosa com os seus credos, as suas práticas tão 
múltiplas e complexas, a sua organização material e moral; entre as condições psíquicas 
da simpatia que dois seres do mesmo sangue sentem um pelo outro ?º e o conjunto pro- 
lixo de regras jurídicas e morais que determinam a estrutura da família, as relações das 
pessoas entre elas, das coisas com as pessoas, etc. ! Vimos que, mesmo quando a socie- 
dade se reduz a uma multidão desorganizada, os sentimentos coletivos que nela se consti- 
tuem não só podem ser diferentes como podem opor-se à média dos sentimentos indivi- 


76 Na condição de que exista antes de qualquer vida social. Ver, sobre esta questão, Espinas, Sociétés Ani- 
males, pãg. 474. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 443 


duais. Quanto maior ainda não será o afastamento quando a pressão que o indivíduo 
suporta é a de uma sociedade regular, em que à ação dos contemporâneos se acrescenta 
a das gerações anteriores e da tradição! Uma explicação puramente psicológica dos 
fatos sociais acaba portanto por deixar escapar tudo o que eles têm de específico, isto é, 
de social. . 

O que fez com que tantos sociólogos não se apercebessem da insuficiência deste mé- 
todo foi o fato de, ao tomarem o efeito pela causa, terem freguentemente citado como 
condições determinantes dos fenômenos sociais certos estados psíquicos, relativamente 
definidos e especiais, mas que, na realidade, são consequência daqueles. Por exemplo. 
considerou-se inato um certo sentimento de religiosidade do homem, um certo mínimo de 
ciúme sexual, de devoção filial, de amor paterno, etc., e foi a partir daí que se quis expli- 
car a religião, o casamento, a família. Mas a história revela que estas tendências, longe 
de serem inerentes à natureza humana, ou não existem em certas condições sociais, ou 
manifestam tais variações de uma sociedade para outra que o resíduo que se obtém de- 
pois de se eliminarem todas estas diferenças, e que unicamente se pode considerar como 
sendo de origem psicológica, reduz-se a algo de vago e de esquemático que deixa os fatos 
que interessa explicar a uma distância infinita. Quer isto dizer portanto que, longe de 
constituírem a base desta, estes sentimentos resultam da organização coletiva. Além 
disso, não está de forma nenhuma provado que a tendência para a sociabilidade tenha 
constituído, desde a origem, um instinto congenital da espécie humana. É muito mais 
natural que se veja nela um produto da vida social que lentamente se organizou em nós, 
porquanto é fácil observar que os animais são ou não sociáveis conforme as disposições 
dos seus habitats os obriguem à vida em comum ou os levem a afastarem-se dela. É 
ainda necessário acrescentar que a diferença entre estas tendências mais determinadas e 
a realidade social permanece considerável. 

Existe, aliãs, um meio de isolar quase completamente o fator psicológico de forma 
que se possa precisar o alcance deste: é investigar de que maneira a raça afeta a evolução 
social. Com efeito, os caracteres étnicos são de ordem orgânico-psíquica. A vida social 
deve portanto variar quando eles variam, isto na hipótese de os fenômenos psicológicos 
exercerem sobre a sociedade a eficácia causal que se lhes atribui. Ora, não temos conhe- 
cimento de nenhum fenômeno social que esteja incontestavelmente na dependência da 
raça. É claro que não poderíamos conferir a esta proposição o valor de uma lei; mas, 
pelo menos, podemos apresentá-la como um fato constante da nossa prática. Encon- 
tram-se as formas mais diversas de organização no seio de sociedades de raças semelhan- 
tes, ao passo que se observam semelhanças evidentes entre sociedades de raças diferen- 
tes. A cidade existiu na Fenícia, assim como em Roma e na Grécia; encontramo-la em 
via de formação nos Cabílios. A família patriarcal encontrava-se quase tão desenvolvida 
no seio dos hindus como no seio dos judeus, embora já não a encontremos nos eslavos 
que, no entanto, são de raça ariana. Em compensação, o tipo familiar que encontramos 
neste povo existe também nos árabes. Por toda a parte encontra-se a família maternal e 
o clã. De um ponto de vista étnico, o detalhe das provas judiciárias e das cerimônias nup- 
ciais é idêntico nos mais diferentes povos. Isto acontece porque a contribuição psíquica 
é demasiado geral para poder predeterminar o desenvolvimento dos fenômenos sociais. 
Dado que não implica uma forma social com preferência a uma outra, não pode explicar 
nenhuma. Há, é claro, um determinado número de fatos que é costume serem atribuídos 
a influência da raça; assim se explica, nomeadamente, que o desenvolvimento das letras 
e das artes tenha sido tão rápido e intenso em Atenas e tão lento e medíocre em Roma. 
Mas, apesar de clássica, esta interpretação dos fatos nunca foi demonstrada metodica- 


444 DURKHEIM 


mente; toda a sua autoridade provém da tradição. Nem sequer se tentou descobrir uma 
possível explicação sociológica dos mesmos fenômenos; e estamos convencidos de que 
ela poderia ser tentada com sucesso... Em suma, quando se atribui, com esta facili- 
dade, o caráter artístico da civilização ateniense a propriedades estéticas congenitais, 
está-se mais ou menos a agir como na Idade Média, quando se explicava o fogo pelo flo- 
gisto e os efeitos do ópio pela sua propriedade soporiífera. 

Por último, se de fato a origem da evolução social fosse inerente à constituição 
psicológica do homem, não se compreende como poderia ter-se realizado; seria neces- 
sário admitir que tivesse como propulsor alguma força inerente à natureza humana. Mas 
de que força se poderia tratar? Tratar-se-ia dessa espécie de instinto a que se refere 
Comte e que incitaria o homem a realizar cada vez mais a sua natureza? Mas isso equi- 
vale a responder à pergunta com outra pergunta e explicar o progresso por uma tendên- 
cia inata para o progresso, verdadeira entidade metafísica cuja existência, aliás, nada 
prova; porquanto mesmo as espécies animais mais avançadas não sentem necessidade de 
progredir e, inclusivamente, nas sociedades humanas, existem muitas que preferem man- 
ter-se indefinidamente estacionárias. Tratar-se-ia, como parece crer Spencer, da necessi- 
dade de uma maior felicidade que as formas cada vez mais complexas da civilização 
estariam destinadas a realizar? Seria então necessário afirmar que a felicidade aumenta 
com a civilização e nós já mostramos todas as dificuldades que esta hipótese levanta. ”” 
Mais ainda: mesmo que se acabasse por aceitar um ou outro destes dois postulados, não 
.seria por isso que o desenvolvimento histórico se tornaria inteligível, porquanto a expli- 
cação que daí resultaria seria puramente finalista e nós já mostramos que os fatos 
sociais, assim como todos os fenômenos naturais, não podem ser explicados pela mera 
indicação do fim a que se destinam. Embora se tenha provado que as organizações 
sociais cada vez mais científicas que se sucederam no decorrer da história têm tido sem- 
pre como efeito satisfazer de um modo mais completo esta ou aquela nossa tendência 
fundamental, isto não quer dizer que se tenha explicado como se produziram. O fato de 
se terem revelado úteis não nos indica o que as originou. Ainda que explicássemos a 
forma como conseguimos imaginá-las e planificá-las com antecedência de modo a ter- 
mos uma idéia dos serviços que podemos esperar delas — e este é já um problema dificil 
—, o desejo que delas tivéssemos não bastaria para as tirar do nada. Resumindo, e 
mesmo admitindo que elas constituem os meios necessários para se atingir o fim que se 
pretende, o problema mantêm-se: como, isto é, a partir de que e para que estes meios 
foram constituídos? 

Chegamos portanto à seguinte regra: A causa determinante de um fato social deve 
ser procurada nos fatos sociais antecedentes e não nos estados da consciência individual. 
Por outro lado, concebe-se facilmente que tudo o que precede se aplica tanto à determi- 
nação da função como da causa. A função de um fato social não pode ser senão social, 
isto é, só pode consistir na produção de efeitos socialmente úteis. Sem dúvida que pode 
acontecer, e acontece na realidade, que, por via indireta, sirva também o indivíduo. Mas 
a sua razão de ser imediata não é este resultado feliz. Podemos portanto completar a 
proposição anterior dizendo: A função de um fato social deve ser sempre procurada na 
relação existente entre ele e um determinado fim social. 


É pelo fato de os sociólogos terem frequentemente ignorado esta regra e conside- 
rado os fenômenos sociais de um ponto de vista demasiado psicológico que as suas teo- 
rias se revelaram, para muitos, como demasiado vagas, vacilantes e afastadas da natu- 


7? Division du Travail Social, 1, IH, cap. I. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 445 


reza particular das coisas que julgam explicar. O historiador, nomeadamente, que vive 
na intimidade da realidade social, não pode deixar de sentir fortemente até que ponto 
estas interpretações demasiado gerais se revelam impotentes para alcançarem os fatos; e 
é sem dúvida isto que fez em parte com que a história tivesse frequentemente testemu- 
nhado uma desconfiança em relação à sociologia. Isto não significa que o estudo dos 
fatos psíquicos não seja indispensável ao sociólogo. Se a vida coletiva não deriva da vida 
individual, é porque ambas estão relacionadas intimamente; se a segunda não pode expli 
car a primeira, poderá, pelo menos, facilitar a sua explicação. Em primeiro lugar, como 
mostramos, é incontestável que os fatos sociais são produzidos por uma elaboração sui 
generis de fatos psíquicos. Mas, além disso, esta própria elaboração está relacionada 
com a que se realiza em cada consciência individual e que transforma progressivamente 
os elementos primários (sensações, reflexos, instintos) que originalmente a constituem. É 
com um certo fundamento que se afirmou que o próprio eu era uma sociedade, da mesma 
forma que o organismo, embora de uma outra maneira, e há já muito que os psicólogos 
mostraram toda a importância do fator associação para a explicação da vida espiritual. 
Mais ainda do que uma cultura biológica, uma cultura psicológica constitui portanto 
para o sociólogo uma propedêutica necessária; mas só lhe será útil com a condição de se 
libertar dela depois de a ter admitido e de a ultrapassar completando-a com uma cultura 
verdadeiramente sociológica. É necessário que renuncie a fazer da psicologia, de certa 
forma, o centro das suas operações, o ponto de onde devem partir e aonde devem recon- 
duzi-lo as incursões a que se aventura no mundo social, e que se coloque mesmo no cen- 
tro dos fatos sociais para observá-los bem de frente e sem intermediários, exigindo ape- 
nas à ciência do indivíduo uma preparação geral e, se necessário, sugestões úteis. 7º 


HO 


Dado que os fatos de morfologia social são da mesma natureza que os fenômenos 
fisiológicos, devem ser explicados segundo esta mesma regra. Todavia, podemos concluir 
de tudo o que foi dito anteriormente que eles desempenham um papel preponderante na 
vida coletiva e, por conseguinte, nas explicações sociológicas. 

Com efeito, se a condição determinante dos fenômenos sociais consiste, como mos- 
tramos, no próprio fato da associação, é porque têm de variar consoante as formas desta 
associação, isto é, consoante as maneiras como estão agrupadas as partes constituintes 
da sociedade. Por outro lado, dado que o conjunto determinado que deriva da reunião 
dos diferentes elementos que entram na composição de uma sociedade constitui o meio 
interno desta, tal como o conjunto dos elementos anatômicos, dispostos no espaço de 
uma certa maneira, constitui o meio interno dos organismos, poder-se-á afirmar: 4 ori- 
gem primária de qualquer processo social de uma certa importância deve ser procurada 


78 Os fenômenos psíquicos só podem ter consegiiências sociais quando estão tão intimamente unidos a 
fenômenos sociais que a ação de uns e de outros se confundem necessariamente. É o caso de certos fatos 
sócio-psíquicos. Assim, um funcionário é simultaneamente uma força social e um indivíduo. Daí resulta o 
fato de poder servir-se da energia social que detém, num sentido determinado pela sua natureza individual, 
e de poder exercer uma influência sobre a constituição da sociedade. É o que acontece aos homens de Estado 
e, de uma forma mais geral, aos homens de talento. Estes, ainda que não desempenhem uma função social, 
adquirem dos sentimentos coletivos de que são alvo uma autoridade que constitui, também, uma força social, 
e que, em certa medida, podem pôr ao serviço de idéias pessoais. Mas constata-se que estes casos são devidos 
a acidentes individuais €, por conseguinte, não poderiam afetar as características que constituem a natureza 
social, a única que interessa à ciência. A restrição ao princípio enunciado anteriormente não tem portanto 
uma grande importância para o sociólogo. 


446 DURKHEIM 


na constituição do meio social interno. É mesmo possível um maior rigor; com efeito, os 
elementos que constituem este meio são de duas espécies: as coisas e as pessoas. Nas coi- 
sas é necessário englobar, além dos objetos materiais que estão incorporados na socieda- 
de, os produtos da atividade social anterior, o direito constituído, os costumes instituí- 
dos, as obras literárias, artísticas, etc. Não é nem de uns nem de outros que poderá vir o 
estimulo que determina as transformações sociais; porquanto não contêm nenhuma força 
motriz; mas é claro que se devem levar em conta nas explicações que tentarmos dar. 
Têm, com efeito, um certo peso na evolução social cuja velocidade e direção variam em 
função deles mas não contêm nenhum fator que a ponha em movimento. São a matéria 
à qual se aplicam as forças vivas da sociedade mas, só por eles, não criam nenhuma 
força viva. Fica, portanto, como fator ativo, o meio propriamente humano. 

O esforço principal do sociólogo deverá tender portanto para a descoberta das dife- 
rentes propriedades deste meio que são suscetíveis de exercer uma influência sobre o 
desenvolvimento dos fenômenos sociais. Até agora, encontramos duas séries de tipos que 
correspondem excelentemente a esta condição: é a quantidade das unidades sociais ou. 
como dissemos também, o volume da sociedade, e o grau de concentração da massa, ou 
aquilo a que chamamos a densidade dinâmica. Deve-se subentender por este termo não 
o encerramento puramente material do agregado que só pode ter efeito se os indivíduos. 
ou melhor, os grupos de indivíduos se mantiverem separados por vácuos morais, mas o 
encerramento moral de que o anterior não é senão um auxiliar e, muitas vezes, uma 
consequência. A densidade dinâmica pode definir-se, para um volume igual, em função 
do número dos indivíduos que efetivamente têm relações não só comerciais mas também 
morais; isto é, que não só trocam serviços ou fazem concorrência entre eles, mas que 
também vivem uma vida comum. Como as relações puramente econômicas fazem com 
que os homens vivam isolados, pode haver alguns que apesar de estarem muito próximos 
não participam na mesma existência coletiva. Os negócios que se realizam ultrapassando 
as fronteiras que separam os povos não fazem com que essas fronteiras deixem de existir. 
Ora, a vida em comum só pode ser influenciada por aqueles que nela colaboram eficaz- 
mente; é essa a razão por que o grau de coalescência dos segmentos sociais é o que me- 
lhor exprime a densidade dinâmica de um povo. Se cada agregado parcial constitui um 
todo, uma individualidade distinta, separada das outras, é porque, em geral, a atividade 
dos seus membros limita-se a ele; se, pelo contrário, estas sociédades parciais estão todas 
misturadas no seio da sociedade total ou tendem para nela se misturarem, é porque o cír- 
culo da vida social se alargou. 

Quanto à densidade material — se se entender por este termo não só o número dos 
habitantes por unidade de superfície mas também o desenvolvimento dos meios de comu. 
nicação e de transmissão —, evolui habitualmente da mesma forma que a densidade 
dinâmica e, em geral, pode servir para medi-la, pois se as diferentes partes da população 
tendem a aproximar-se é inevitável que abram caminhos que permitam esta aproximação 
e, por outro lado, só se podem estabelecer relações entre pontos distantes da massa socia! 
se esta distância não constituir um obstáculo. Há no entanto exceções "º e expor-nos- 
iamos a sérios erros se apreciássemos sempre a concentração moral de uma sociedade 
segundo o grau de concentração material respectivo. As estradas, as linhas de caminho 


'º Em Division du Travail Social, fizemos mal em apresentar, com demasiada insistência, a densidade 
material como a expressão exata da densidade dinâmica. Todavia, a substituição da segunda pela primeira 
é absolutamente legitima para tudo o que diz respeito aos efeitos econômicos daquela: por exemplo, a divi- 
são do trabalho como fato puramente econômico. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 447 


de ferro, etc., podem servir mais ao desenvolvimento dos negócios do que à união das 
populações que exprimem de uma forma muito imperfeita. É o caso da Inglaterra, cuja 
densidade material é superior à da França e onde, no entanto, a coalescência dos seg 
mentos está muito menos desenvolvida, como atesta a constância do espirito local e de 
vida regional. 

Já anteriormente mostramos como qualquer aumento do volume e da densidade 
dinâmica das sociedades, tornando a vida social mais intensa é alargando o horizonte 
que cada indivíduo abrange com o seu pensamento e preenche com a sua atividade. 
modifica profundamente as condições fundamentais da existência coletiva. Não vamos 
referir novamente a aplicação que então fizemos deste princípio; acrescentemos apenas 
que nos serviu para analisar não só a questão ainda muito geral que constituía o objetivo 
deste estudo, mas também muitos outros problemas mais particulares, e que pudemos 
deste modo verificar a sua exatidão através de um número considerável de experiências. 
Todavia, estamos longe de pensar que encontramos todas as particularidades do meio so 
cial suscetíveis de desempenhar um papel na explicação dos fatos sociais. Tudo o que 
podemos dizer é que foram as únicas que descobrimos e que não houve nenhum motivo 
que nos levasse a procurar outras. 

Esta espécie de preponderância que atribuímos ao meio social e, mais particular 
mente, ao meio humano, não implica que se deva ver nele uma espécie de fato último e 
absoluto para além do qual não seja necessário ir. É evidente que, pelo contrário, a situa- 
ção em que se encontra em cada período da história depende de causas sociais, algumas 
das quais são inerentes à própria sociedade, ao passo que outras estão ligadas às ações 
e às reações que se estabelecem entre esta sociedade e as suas vizinhas. Aliás, para a 
ciência não existem causas principais no sentido absoluto do termo. Para ela, um fato é 
principal quando é suficientemente geral para poder explicar um grande número de ou- 
tros fatos. Ora, o meio é um fator deste gênero pois, quaisquer que sejam as causas, as 
modificações que nele se produzem repercutem-se em todas as direções do organismo so- 
cial e não podem deixar de influenciar mais ou menos todas as funções. 

O que acabamos de afirmar acerca do meio geral da sociedade pode também ser 
dito acerca dos meios específicos próprios a cada um dos grupos particulares que nela 
existem. Por exemplo, a vida doméstica será diferente consoante a família for mais ou 
menos numerosa, mais ou menos fechada sobre si mesma. Da mesma maneira, se as 
corporações profissionais se reconstituem de forma que cada uma delas esteja ramificada 
em toda a extensão do território em vez de continuar isolada, como antigamente, dentro 
dos limites de uma cidade, a ação exercida será muito diferente da que exerceram outro- 
ra. De um modo mais geral, a vida profissional será muito diferente no caso de o meio 
próprio a cada profissão estar fortemente constituído em vez de estar frouxo como atual- 
mente. Todavia, a ação destes meios particulares nunca poderia revestir a importância 
do meio geral, pois estão submetidos à influência deste. Acaba-se sempre por voltar a 
este meio geral. É a pressão que ele exerce sobre estes grupos especiais que faz variar a 
constituição destes. 

Esta concepção do meio social como fator determinante da evolução coletiva é da 
maior importância. Se não a aceitarmos, a sociologia ver-se-à na impossibilidade de esta- 
belecer qualquer relação de causalidade. 

Com efeito, uma vez posto de lado este tipo de causas, não existem condições 
concomitantes das quais possam depender os fenômenos sociais; pois se o meio social 
externo, isto é, aquele que é constituído pelas sociedades circundantes, é suscetível de 
exercer alguma ação, esta só se exercerá sobre as funções que têm como objetivo o ata- 


448 DURKHEIM 


que e a defesa e, além disso, a sua influência só poderá ser sentida através do meio social 
interno. As causas principais do desenvolvimento histórico não estariam portanto entre 
as circumfusa; estariam todas no passado; elas próprias constituiriam fases ultrapas- 
sadas deste desenvolvimento. Os acontecimentos atuais da vida social não derivariam do 
estado atual da sociedade mas dos acontecimentos anteriores, dos precedentes históricos, 
e as explicações sociológicas consistiriam exclusivamente em ligar o presente ao 
passado. 

É verdade que isto pode parecer suficiente. Afirma-se correntemente que a história 
tem o objetivo de encadear os acontecimentos segundo a ordem e sucessão destes. Mas 
não se pode pensar que o estado a que chegou a civilização num determinado momento 
pudesse ser a causa determinante do estado seguinte. As etapas que a humanidade per- 
corre sucessivamente não dão origem umas às outras. Compreende-se que os progressos 
realizados numa determinada época no campo juridico, econômico, político, etc. possibi- 
litam novos progressos, mas em que é que eles os predeterminam? São um ponto de par- 
tida que permite ir mais longe; mas o que é que nos incita a ir mais longe? Seria neces- 
sário então admitir uma tendência interna que leva a humanidade a ultrapassar 
indefinidamente os resultados adquiridos, para se realizar completamente ou para 
aumentar a sua felicidade, e o objetivo da sociologia seria encontrar a ordem segundo a 
qual se desenvolveu esta tendência. Mas, sem voltarmos às dificuldades que implica tal 
hipótese, em todo o caso, a lei que exprime este desenvolvimento não poderia ter nada de 
causal. Com efeito, uma relação de causalidade só poderá ser estabelecida entre dois 
fatos determinados; ora, a tendência que se supõe ser a causa deste desenvolvimento não 
é nada; é apenas postulada e construída pelo espirito com base nos efeitos que se lhe atri- 
buem. É uma espécie de faculdade motriz que imaginamos sob o movimento, a fim de 
explicá-lo; mas a causa eficiente de um movimento não pode ser senão um outro movi- 
mento e não uma virtualidade deste gênero. Tudo aquilo que atingimos portanto experi- 
mentalmente é uma sucessão de modificações entre as quais não existe relação causal. O 
estado antecedente não produz o consegiente, sendo a relação entre eles exclusivamente 
cronológica. Nestas condições, é impossível fazer qualquer previsão científica. Podemos 
dizer de que forma as coisas se sucederam até agora mas não a ordem por que se sucede- 
rão de hoje em diante, pois a causa donde se supõe dependerem não está cientificamente 
determinada, nem é determinável. Admite-se muitas vezes que a evolução prosseguirá no 
mesmo sentido do passado; mas isto é um mero postulado. Nada nos confirma que os 
fatos realizados exprimam suficientemente a natureza desta tendência para que se possa 
conjeturar a partir deles o objetivo a que aspira. Por que razão haveria de ser retilínea a 
direção que segue e que transmite? 

Eis a razão por que o número das relações causais estabelecidas pelos sociólogos é 
tão restrito. À parte algumas exceções, de que Montesquieu é o exemplo mais ilustre, a 
antiga filosofia da história interessou-se unicamente por descobrir a direção geral do 
desenvolvimento da humanidade, sem procurar ligar as fases desta evolução a qualquer 
condição concomitante. Por muito grandes que tenham sido os serviços que Comte pres- 
tou à filosofia social, os termos em que ele põe o problema sociológico não diferem dos 
anteriores. Assim a sua célebre lei dos três estados não tem nada a ver com uma relação 
de causalidade; mesmo que fosse exata, só poderia ser empírica. É uma vista de olhos 
sumária à história do gênero humano. É de uma forma perfeitamente arbitrária que 
Comte considera o terceiro estado como o estado definitivo da humanidade. Quem nos 
diz que não surgirá um outro no futuro? Por outro lado, a lei que govemna a sociologia 
de Spencer não parece ser de natureza diferente. Mesmo que fosse verdade que tendamos 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 449 


atualmente para procurar a nossa felicidade dentro de uma civilização industrial, nada 
nos afiança que, mais tarde, não a procuremos algures. Ora, a generalidade e a persis- 
tência deste método provêm do fato de vermos frequentemente no meio social um susten- 
táculo do progresso e não a causa que o determina. 

É também em relação a este meio que devemos calcular o valor útil ou, como disse- 
mos, a função dos fenômenos sociais. Entre as modificações que ocasiona, interessam- 
nos as que se relacionam com o estado em que ele se encontra, dado que este é a condi- 
ção essencial da existência coletiva. Deste ponto de vista, cremos que a concepção que 
acabamos de expor é fundamental, pois permite explicar a variação do caráter útil dos 
fenômenos sociais sem que esta dependa de arranjos arbitrários. Com efeito, se conside- 
rarmos que a evolução histórica é movida por uma espécie de vis a tergo*º que compele 
os homens para a frente, dado que uma tendência motriz só pode ter um único fim, só 
poderá existir um ponto de referência em relação ao qual se calcule a utilidade ou a noci- 
vidade dos fenômenos sociais. Daí resulta que só existe e só pode existir um único tipo 
de organização social que convenha perfeitamente à humanidade e que as diferentes 
sociedades históricas constituem meras aproximações sucessivas deste modelo único. 
Não é necessário mostrar como é inconciliável hoje em dia um tal simplismo com a 
variedade e a complexidade próprias às formas sociais. Se, pelo contrário, a vantagem ou 
a desvantagem das instituições só se podem estabelecer em relação a um determinado 
meio, dado que estes meios são diversos, há portanto uma diversidade de pontos de refe- 
rência e, por conseguinte, de tipos que, embora sendo qualitativamente distintos uns dos 
outros, estão todos baseados na natureza dos meios sociais. 

A questão que analisamos depende portanto da que diz respeito à constituição dos 
tipos sociais. Se existem espécies sociais, é porque a vida coletiva depende antes do mais 
de condições concomitantes que revelam uma certa diversidade. Se, pelo contrário, as 
causas principais dos acontecimentos sociais se situassem todas no passado, cada povo 
seria simplesmente o prolongamento daquele que o precedeu e as diferentes sociedades 
perderiam a sua individualidade para não serem mais do que momentos diversos de um 
único e mesmo desenvolvimento. Dado que, por outro lado, a constituição do meio social 
resulta do modo de composição dos agregados sociais, ou seja, que estas duas expressões 
são, no fundo, sinônimas, temos agora a prova de que não existem tipos mais essenciais 
do que aqueles que citamos como base da classificação sociológica. 

Juigamos ter demonstrado que seria injusto partir dos conceitos de condições exte- 
riores e meto, para acusar o nosso método e procurar as origens da vida fora dela. As 
considerações feitas refletem a idéia de que as causas dos fenômenos sociais são internas 
à sociedade. É a teoria que faz derivar a sociedade do indivíduo que devemos acusar de 
tentar justificar o conteúdo através do invólucro, pois ela explica o ser social através de 
algo diferente dele próprio e tenta deduzir o todo a partir das partes. Os princípios que 
precedem desconhecem tão pouco o caráter espontâneo de qualquer ser vivo que, se os 
aplicarmos à biologia e à psicologia, teremos de admitir que também a vida individual se 
elabora inteiramente no interior do indivíduo. 


IV 


A partir do conjunto de regras estabelecidas, deduz-se uma certa concepção da 
sociedade e da vida coletiva. 


80º Impulso pelas costas. (N. do E.) 


450 DURKHEIM 


Existem, relativamente a esta questão, duas teorias opostas. 

Para alguns, como Hobbes e Rousseau, existe uma solução de continuidade entre o 
indivíduo e a sociedade. O homem é portanto naturalmente refratário à vida em comum, 
e só obrigado se conforma com ela. Os fins sociais não constituem simplesmente o ponto 
de encontro dos fins indivuais; são-lhes, até, contrários. Assim, para fazer com que o 
indivíduo os siga, é necessário exercer sobre ele uma pressão, e é na instituição e na orga- 
nização desta pressão que consiste, por excelência, a obra social. Simplesmente, visto 
que o indivíduo é considerado como a única e exclusiva realidade do reino humano, esta 
organização, que tem por objetivo contrariá-lo e refreá-lo, só pode ser concebida como 
artificial, não baseada na natureza, pois destina-se a exercer violência sobre o indivíduo, 
impedindo-lhe os seus atos anti-sociais. É uma obra de arte, uma máquina construída 
inteiramente pelo homem que, à semelhança de todos os produtos deste gênero, é aquilo 
que é porque os homens assim a quiseram: um decreto da vontade criou-a, um outro 
decreto poderá transformá-la. Nem Hobbes nem Rousseau parecem ter compreendido 
tudo o que há de contraditório no ato de admitir que o indivíduo é ele próprio autor de 
uma máquina que tem por função essencial dominá-lo e oprimi-lo ou, pelo menos, no ato 
de supor que para fazer desaparecer esta contradição bastava dissimulá-la aos olhos das 
suas vitimas através do hábil artifício do pacto social. 

Os teóricos do direito natural, os economistas e, mais recentemente, Spencer, inspi- 
raram-se na idéia contrária.” Para estes, a vida social é essencialmente espontânea, e a 
sociedade uma coisa natural. Mas, ao conferir-lhe este caráter, não o fazem porque lhe 
reconheçam uma natureza específica e sim por lhe encontrarem um fundamento na natu- 
reza do indivíduo. À semelhança dos pensadores anteriores, não vêem nela um sistema 
de coisas existindo por si só e devido a causas que lhe sejam específicas. Mas enquanto 
os primeiros a concebiam unicamente como um dispositivo convencional sem qualquer 
ligação com a realidade e, por assim dizer, suspenso no ar, estes consideram os instintos 
fundamentais do coração humano como a causa da sociedade. O homem manifestaria 
uma tendência natural para a vida política, doméstica, religiosa, para o comércio, etc., e 
destas tendências naturais é que derivaria a organização social. Assim sendo, onde quer 
- que ele fosse normal não teria necessidade de se impor. E, sempre que recorresse à coa- 
ção, é porque não corresponderia ao que devia ser ou porque as circunstâncias seriam 
anormais. Em princípio, bastaria deixar desenvolver livremente as forças individuais 
para que estas se organizassem socialmente. 

Nenhuma destas doutrinas é partilhada por nós. 

É claro que consideramos a coação como característica de qualquer fato social. 
Simplesmente, esta coação não resulta de uma maquinação mais ou menos sapiente, des- 
tinada a esconder aos homens as armadilhas em que caíram. É simplesmente devida ao 
fato de o indivíduo se encontrar diante de uma força que o domina e à qual se submete; 
mas esta força é natural, não deriva de um dispositivo convencional que a vontade huma- 
na acrescentou à realidade; emana das próprias entranhas da realidade; é o produto 
necessário de determinadas causas. Assim, para fazer com que o indivíduo se submeta 
voluntariamente a ela, não é necessário recorrer a nenhum artifício; basta fazer com que 
ele tome consciência do seu estado de dependência e de inferioridade naturais, quer por 
uma representação sensível e simbólica, através da religião, quer por uma noção ade- 
quada e definida, atravês da ciência. Dado que a superioridade da sociedade perante ele 
não é simplesmente física, mas também intelectual e moral, a independência de opinião 


81 A posição de Comte sobre este assunto é dum ecletismo bastante ambíguo. 


AS REGRAS DO METODO SOCIOLÓGICO 451 


não ameaça esta superioridade desde que aquela seja utilizada corretamente. A reflexão 
que faz com que o homem compreenda quanto o ser social ê mais rico, mais complexo 
e mais duradouro do que o ser individual revela-lhe precisamente as razões inteligíveis da 
subordinação que dele se exige e dos sentimentos de dedicação e de respeito que o hábito 
gravou no seu coração. *? 

Portanto, só uma crítica particularmente superficial poderia acusar a nossa con- 
cepção da coação social de ser uma segunda edição das teorias de Hobbes e de Maquia- 
vel. Mas, se, contrariamente a estes filósofos, afirmamos que a vida social é natural, não 
é porque tenhamos encontrado a sua origem na natureza do indivíduo; é por ela derivar 
diretamente do ser coletivo tido como uma natureza sui generis; e por resultar da elabo- 
ração especial a que estão submetidas as consciências particulares devido à sua associa- 
ção, da qual emana uma nova forma de existência. *º? Se estamos portanto de acordo com 
uns para afirmar que ela se apresenta ao indivíduo sob o aspecto da coação, admitimos 
também, à semelhança dos outros, que ela é um produto espontâneo da realidade; e o que 
liga logicamente estes dois elementos, aparentemente contraditórios, é o fato de a reali- 
dade de que emana ultrapassar o indivíduo. Quer isto dizer que os termos coação e 
espontaneidade não têm na nossa terminologia o sentido dado por Hobbes ao primeiro e 
por Spencer ao segundo. 

Em resumo, relativamente à maior parte das tentativas que foram feitas para expli- 
car racionalmente os fatos sociais, pode-se objetar que todas faziam desaparecer qual- 
quer idéia de disciplina social ou só conseguiam conservá-la graças a falsos subterfúgios. 
Pelo contrário, as regras que expusemos permitiriam construir uma sociologia que veria 
no espírito de disciplina a condição essencial de qualquer vida em comunidade, embora 
fundamentando-o na razão e na verdade. 


82 Eis a razão pela qual nem toda coação é normal. Só merece este nome a que corresponder a alguma 
superioridade social, isto é, intelectual ou moral. Mas a que um indivíduo exerce sobre outro pelo fato de ser 
mais forte ou mais rico, em especial se esta riqueza não exprime o seu valor social, é anormal e só poderá 
conservar-se pela violência. 

83 A nossa teoria é mesmo mais oposta à de Hobbes do que à do direito natural. Com efeito, para os parti- 
dários desta última doutrina, a vida coletiva só é natural na medida em que pode ser deduzida da natureza 
individual. Ora, só as formas mais gerais da organização social podem, com rigor, derivar desta origem. 
Quanto ao detalhe, está demasiado longe da extrema generalidade das propriedades psíquicas para poder 
estar em conexão com elas. Parece portanto tão artificial aos discípulos desta escola como aos seus adversa- 
rios. Para nós, pelo contrário, tudo é natural, inclusivamente os dispositivos mais particulares, porquanto 
tudo se fundamenta na natureza da sociedade. 


CAPÍTULO SEXTO 


REGRAS RELATIVAS AO ESTABELECIMENTO DAS PROVAS 


I— O método comparativo ou experimental indireto é o mêtodo da prova na sociologia. Inutilidade do mêto 
do chamado histórico por Comte. Resposta às objeções de Mill relativamente à aplicação do método compa 
rativo à sociologia. Importância do princípio: A um mesmo efeito corresponde sempre uma mesma causa. II 
— Por que, dos diversos procedimentos do método comparativo, é o método das variações concomitantes o 
instrumento por excelência da investigação sociológica; a sua superioridade: 1.º — na medida em que atinge 
a relação casual a partir de dentro; 2.º — na medida em que permite a utilização de documentos mais escolhi- 
dos e melhor criticados. Como a sociologia, por estar reduzida a um único procedimento, não se acha, relati- 
vamente a outras ciências, num estado de inferioridade, em virtude da riqueza de variações de que o sociólogo 
dispõe. Necessidade de só comparar séries continuas e extensões de variações, e não variações isoladas. III 
— Diferentes maneiras de compor estas séries. Casos em que os termos podem ser extraídos de uma única 
sociedade. Casos em que é necessário extraí-los de sociedades diferentes mas da mesma espécie. Casos em 
que é preciso comparar espécies diferentes. Por que é este o caso mais geral. A sociologia comparada é a 
sociologia propriamente dita. Precauções a tomar para evitar certos erros no decurso destas comparações. 


Dispomos unicamente de um processo comprovativo de que um fenômeno é a causa 
de outro, de acordo com o qual se comparam os casos em que estes se encontram simul- 
taneamente presentes ou ausentes e se procura saber se as variações por eles apresen- 
tadas nessas diferentes combinações de circunstâncias testemunham a dependência de 
um para com o outro. Quando os fatos podem ser produzidos artificialmente ao gosto do 
observador, o método é a experimentação propriamente dita. Quando, pelo contrário, a 
sua produção não está ao nosso alcance e só podemos confrontá-los tais como se produ- 
ziram espontaneamente, o método utilizado é o da experimentação indireta ou método 
comparativo. 

Vimos que a explicação sociológica consiste exclusivamente no estabelecimento de 
relações de causalidade, quer se trate de confrontar um fenômeno com a sua causa, ou 
uma causa com os seus efeitos úteis. Como os fenômenos sociais escapam evidentemente 
à ação do operador, o método comparativo é o único que convém à sociologia. É verdade 
que Comte não o considerou suficiente; achou necessário completá-lo com aquilo a que 
chamou método histórico — fato motivado pela sua concepção particular das leis socio- 
lógicas. Para ele, tais leis não devem exprimir principalmente relações definidas de 
causalidade, mas sim o sentido da evolução humana em geral, não podendo portanto ser 
descobertas através de comparações: para se poderem comparar as diferentes formas que 
reveste um fenômeno social em povos diferentes, seria necessário destacâá-lo das séries 
temporais a que pertence. Ora, começando por fragmentar deste modo o desenvolvi- 
mento humano, torna-se impossível conhecer-lhe a segiência. Não é por meio de análi- 
ses, mas sim de amplas sínteses que isto se consegue. Torna-se necessário aproximar os 
estados sucessivos da humanidade e, de certo modo, reuni-los numa mesma intuição, 
para posar “o crescimento contínuo de cada disposição fisica, intelectual, moral e 

22 


política”. 


8“ Cours de Philosophie Positive, IV, pág. 328. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 453 


Tal é a razão de ser deste método a que Comte chama histórico e que, por conse- 
guinte, perde todo o significado a partir do momento em que se rejeita a sua concepção 
fundamental da sociologia. 

É certo que Mill declara a experimentação, mesmo indireta, inaplicável à sociolo- 
gia. Mas, para desautorizar em grande parte a sua argumentação, basta lembrar que ele 
também a aplicava aos fenômenos biológicos, e até mesmo aos fatos físico-químicos 
mais complexos;* * ora, hoje em dia, já não é necessário demonstrar que a química e a 
biologia são ciências experimentais. Não existe portanto motivo para considerar as suas 
críticas mais válidas no que se refere à sociologia: os fenômenos sociais só se distinguem 
dos anteriores por uma maior complexidade. Esta diferença pode perfeitamente significar 
que a utilização do raciocínio experimental em sociologia oferece ainda mais dificul- 
dades do que nas outras ciências, mas não que seja radicalmente impossível. 

Esta teoria de Mill assenta sem dúvida num postulado ligado aos princípios funda- 
mentais de sua lógica, o que não impede que esteja em contradição com todos os resulta- 
dos da ciência. Ele admite, com efeito, que um mesmo consegiente nem sempre resulta 
de um mesmo antecedente, podendo derivar ora de uma causa, ora de outra. Esta concep- 
ção da relação causal, tirando-lhe toda a determinação, torna-a praticamente inacessível 
a análise científica, pois introduz uma tal complicação no conjunto das causas e dos efei- 
tos que o espírito acaba por se perder. Se um efeito pode derivar de causas diferentes, 
para sabermos o que o determina num conjunto de circunstâncias determinadas seria 
necessário que a experiência se fizesse em condições de isolamento praticamente irreali- 
záveis, em especial na sociologia. 

Mas este pretenso axioma da pluralidade das causas é uma negação do princípio da 
causalidade. É claro que, se admitirmos como Mill que a causa e o efeito são absoluta- 
mente heterogêneos, que não existe entre eles nenhuma relação lógica, não há qualquer 
contradição em admitir que um efeito possa acompanhar ora uma causa, ora outra. Se a 
relação que liga € a 4 é puramente cronológica, não é exclusiva de uma outra relação 
da mesma espécie que ligaria C a B, por exemplo. Mas se, pelo contrário, a relação cau- 
sal tem qualquer coisa de inteligível, não poderia ser indeterminada até esse ponto. Se 
consiste numa relação que resulta da natureza das coisas, um mesmo efeito só poderá 
manter essa relação com uma única causa, pois só poderá exprimir uma única natureza. 
Só os filósofos puseram em dúvida a inteligibilidade da relação causal; para o sábio, ela 
não põe qualquer problema e é suposta pelo método da ciência. Como explicar de outra 
forma o papel tão importante da dedução no raciocínio experimental e o princípio funda- 
mental da proporcionalidade entre a causa e o efeito? Nos casos que se citam e em que 
se pretende observar uma pluralidade de causas, para que fossem demonstrativos, seria 
necessário ter estabelecido previamente que esta pluralidade não é aparente ou que a uni- 
dade exterior do efeito não encobre uma real pluralidade. Quantas vezes aconteceu à 
ciência ter de procurar uma única causa em situações cuja diversidade, à primeira vista. 
parecia irredutível! O próprio Stuart Mill dá um exemplo ao lembrar que, segundo as 
teorias modernas, a produção do calor por fricção, a percussão, a ação química, etc.. 
derivam de uma única e mesma causa. Inversamente, quando se trata do efeito, o sábio 
diferencia muitas vezes o que o homem vulgar confunde. Para o senso comum, o termo 
febre designa uma mesma e única entidade mórbida; para a ciência, existem diversas fe- 
bres especificamente diferentes e a pluralidade das causas está em relação com a dos efei- 
tos; e se, entre todas essas condições nosológicas, há no entanto algo comum é porque as 
próprias causas apresentam algumas características comuns. 


88 Systême de Logique, II, pág. 478. 


454 DURKHEIM 


É tanto mais importante esconjurar este princípio da sociologia quanto é verdade 
que existem ainda muitos sociólogos que sofrem a sua influência, apesar de não levanta- 
rem qualquer objeção à utilização do método comparativo. É corrente afirmar que o 
crime pode ser produzido pelas mais diferentes causas; o mesmo se passa com o suicídio, 
a punição, etc. Utilizando desta forma o raciocínio experimental, mesmo que se reúna 
um número considerável de fatos, nunca conseguiremos obter leis precisas, relações 
determinadas de causalidade. Só vagamente se poderá definir um consegiente mal defi- 
nido de um grupo confuso de antecedentes. Se quisermos portanto utilizar de uma forma 
científica o método comparativo, isto é, respeitando o princípio de causalidade tal como 
ele se deduz da própria ciência, deveremos tomar como base para as comparações que se 
estabelecem a seguinte proposição: A um mesmo efeito corresponde sempre uma mesma 
causa. Assim, voltando aos exemplos que mais acima citamos, se o suicídio depende de 
mais de uma causa é porque, na realidade, existem várias espécies de suicídios. O mesmo 
se passa com o crime. Quanto à punição, pelo contrário, se se julga que ela tem causas 
diferentes, é porque se descurou o elemento comum que se encontra em todos estes ante- 
cedentes e que está na base desse efeito produzido. * 


H 


Todavia, se os diferentes processos do método comparativo podem ser aplicados à 
sociologia, isso não significa que mantenham um mesmo poder demonstrativo. 

O chamado método dos resíduos, embora constitua uma forma do raciocínio experi- 
mental, não tem, por assim dizer, qualquer utilidade no estudo dos fenômenos sociais. 
Além de servir apenas às ciências bastante evoluídas, dado que supõe já conhecida uma 
grande quantidade de leis, os fenômenos sociais são demasiado complexos para que se 
possa, num determinado caso, eliminar exatamente o efeito produzido por todas as cau- 
sas que não nos interessam. 

Pela mesma razão, é também difícil utilizar o mêtodo da concordâcia e o da diferen- 
ça. Com efeito, ambos supõem que os casos comparados concordam ou diferem num 
único ponto. Nunca houve uma ciência capaz de estabelecer experiências em que o cará- 
ter rigorosamente único de uma concordância ou de uma diferença fosse estabelecido de 
maneira irrefutável; nunca se pode estar certo de não ter deixado escapar algum antece- 
dente cujo comportamento se assemelhe ao do único antecedente conhecido. No entanto, 
embora a eliminação de qualquer elemento acidental seja um limite ideal que não pode 
ser realmente atingido, as ciências físico-químicas e as biológicas aproximam-se o bas- 
tante para, num grande número de casos, a demonstração poder ser considerada sufi- 
ciente. Mas já o mesmo não acontece em sociologia em virtude da demasiada complexi- 
dade dos fenômenos, à qual se acrescenta ainda a impossibilidade de proceder a qualquer 
experiência artificial. Como não se pode fazer um inventário, ainda que incompleto, de 
todos os fatos que coexistem no seio de uma mesma sociedade ou que se sucederam no 
decorrer da sua história, nunca se pode ter a certeza de que dois povos concordam ou 
diferem sob todos os aspectos, salvo naquele que nos interessa. Por consequência, um tal 
método de demonstração só pode dar origem a conjeturas praticamente desprovidas de 
qualquer caráter científico. 

Nade disto acontece com o método das variações concomitantes. Com efeito, para 
que este seja demonstrativo, não é necessário que todas as variações diferentes daquelas 


86 Division du Travail Social, pág. 87. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 455 


que se comparam tenham sido rigorosamente eliminadas. O simples paralelismo dos 
valores por que passam dois fenômenos, desde que tenha sido efetuado num número de 
casos suficientemente variados, é a prova de que existe uma relação entre eles. Isso deve- 
se ao fato de tal método não atingir a relação causal pelo exterior como os métodos 
precedentes, mas pelo interior. Não nos mostra apenas dois fatos que se acompanham ou 
se excluem exteriormente,º ? sem nos referir qualquer vínculo interno; pelo contrário, 
mostra-nos como os dois fatos se relacionam entre si de uma maneira continua. Por si só, 
esta relação basta para demonstrar que eles não são estranhos um ao outro. A maneira 
como um fenômeno se desenvolve exprime a sua natureza; para que os dois desenvolvi- 
mentos correspondam, é necessário que haja também uma correspondência nas nature- 
zas que manifestam. A concomitância é portanto, por si só, uma lei, qualquer que seja o 
estado dos fenômenos que não entraram na comparação. Assim, para invalidá-la não 
basta mostrar que é contestada por algumas aplicações particulares do método da 
concordância ou da diferença; isso seria atribuir a este gênero de provas uma autoridade 
que não podem ter em sociologia. Quando dois fenômenos variam regularmente e em 
mútua relação é necessário manter esta relação ainda que, em certos casos, um dos fenô- 
menos se apresente sozinho; pode acontecer que a causa aparentemente desaparecida 
não produza o seu efeito devido a alguma causa contrária, ou esteja presente de um 
modo diferente do já conhecido. Não se devc abandonar imediatamente as conclusões de 
uma demonstração feita corretamente. 

As leis estabelecidas por este processo nem sempre se apresentam sob a forma de 
relações de causalidade. A concomitância pode não ser devida ao fato de um dos fenô- 
menos ser a causa do outro, mas ao fato de serem ambos efeitos de uma mesma causa, 
ou de existir entre eles um terceiro fenômeno, intercalado mas despercebido, efeito do 
primeiro e causa do segundo. Os resultados a que este método conduz devem portanto 
ser interpretados. Mas qual é o método experimental que permite obter mecanicamente 
uma relação de causalidade sem que os fatos que estabelece tenham necessidade de ser 
elaborados pelo espírito? O que importa é que esta elaboração seja conduzida metodica- 
mente. Primeiramente, tentar-se-á deduzir a forma como um dos dois termos pôde produ- 
zir o outro; esforçar-nos-emos em seguida por verificar o resultado desta dedução com a 
ajuda de experiências, isto é, de novas comparações. Se a dedução é possível e se a verifi- 
cação tem êxito, poder-se-á considerar a prova como feita. Se, pelo contrário, não se des- 
cobre nenhuma relação direta entre estes fatos e, em especial, se a hipótese de uma tal 
relação contradiz leis já demonstradas, iremos procurar um terceiro fenômeno de que 
dependem igualmente os dois outros ou que tenha podido servir de intermediário entre 
eles. Por exemplo, pode-se afirmar com toda a certeza que a tendência para o suicídio 
varia como a tendência para a instrução. Mas é impossível afirmar que a instrução con- 
duza ao suicídio; uma tal explicação contradiz as leis da psicologia. A instrução, sobre- 
tudo quando se reduz aos conhecimentos elementares, só atinge as regiões mais superfi- 
ciais da consciência; e o instinto de conservação é uma das nossas tendências 

“fundamentais. Não poderia portanto ser influenciado sensivelmente por um fenômeno 
tão longínquo e de tão pequena repercussão. É lógico pensar, portanto, que estes dois 
fenômenos sejam conseguência de um mesmo estado. Esta causa comum é o enfraqueci- 
mento do tradicionalismo religioso, que torna simultaneamente mais forte a necessidade 
de saber e a tendência para o suicídio. 

Mas há uma outra razão que faz do método das variações concomitantes o instru 
mento por excelência das investigações sociológicas. Com efeito, mesmo quando as 


87 No caso do método da diferença, a ausência da causa exclui a presença do efeito. 


456 DURKHEIM 


circunstâncias lhes são o mais possível favoráveis, os outros métodos só podem ser utili- 
zados utilmente se a quantidade dos fatos comparados for considerável. Se não se conse- 
gue encontrar duas sociedades que só difiram ou que só se assemelhem num ponto. 
pode-se, pelo menos, constatar que, de uma forma muito geral, dois fatos se acompa- 
nham necessariamente um ao outro ou se excluem um ao outro. Mas, para que esta cons- 
tatação tenha um valor científico, é necessário que tenha sido feita um grande número de 
vezes; seria quase necessário ter a certeza de que todos os fatos foram examinados. Ora. 
não só não é possível um inventário tão completo, como ainda os fatos que assim acumu- 
lamos nunca podem ser estabelecidos com uma precisão suficiente, precisamente por 
serem demasiado numerosos. Não só nos arriscamos a omitir alguns essenciais e que 
contradizem os que são conhecidos, como ainda não podemos estar certos de conhecer 
bem estes últimos. Na realidade, o que desacreditou muitas vezes os raciocínios dos 
sociólogos foi que, dado que utilizaram de preferência o método da concordância ou o da 
diferença e em especial o primeiro, preocuparam-se mais com a acumulação dos docu- 
mentos do que com a crítica e a escolha destes. É por isso que lhes acontece porem 
frequentemente no mesmo plano as observações confusas e feitas às pressas dos viajantes 
e os textos exatos da história. Ao vermos estes exemplos não podemos deixar de pensar 
que um só fato poderia chegar para os invalidar e que os próprios fatos de que esses 
exemplos tratam nem sempre merecem confiança. 

O método das variações concomitantes não nos obriga a essas enumerações incom- 
pletas nem a essas observações superficiais. Para que dê resultados bastam alguns fatos. 
A partir do momento em que se provou que, num determinado número de casos, dois 
fenômenos variam da mesma forma, podemos ter a certeza de estarmos perante uma lei. 
Não necessitando serem numerosos, os documentos podem ser escolhidos e, além disso, 
estudados de perto pelo sociólogo que os utiliza. Por conseguinte, ele poderá e deverá 
considerar como matéria principal das suas induções as sociedades cujas crenças. tradi- 
ções, costumes e direito se materializaram em monumentos escritos e autênticos. Sem 
dúvida que ele não desprezará as informações da etnografia (não existem fatos que pos- 
sam ser desprezados pelo sábio), mas pô-las-á no seu devido lugar. Em vez de fazer delas 
o centro de gravidade das suas investigações, só as utilizará em geral como complemento 
daquelas que ele deve à história ou, pelo menos, esforçar-se-á por confirmá-las por inter- 
médio destas informações. Não só limitará assim. com mais discernimento, a amplitude 
das suas comparações, como também as conduzirá com um maior sentido crítico: por- 
quanto, pelo fato de se interessar por uma categoria restrita de fatos. poderá controlá-los 
com mais cuidado. Não deverá refazer a obra dos historiadores; mas também não poderá 
receber passivamente e de qualquer parte as informações de que se serve. 

Não se julgue, porque a sociologia só se pode servir de um único processo experi- 
mental, que ela esteja numa situação de sensível inferioridade em relação às outras ciên- 
cias. Com efeito, este inconveniente é compensado pela riqueza das variações que se ofe- 
recem espontaneamente às comparações do sociólogo e das quais não se encontra 
nenhum exemplo nos outros reinos da natureza. As modificações que se dão num orga- 
nismo no decurso de uma existência individual são pouco numerosas e muito limitadas; 
as que se podem provocar artificialmente sem destruir a vida estão também compreen- 
didas entre estreitos limites. É verdade que se produziram modificações importantes 
durante a evolução zoológica, mas só há delas vestígios raros e obscuros e é ainda mais 
difícil encontrar as condições que as determinaram. Pelo contrário, a vida social é uma 
sucessão ininterrupta de transformações, paralelas a outras transformações nas condi- 
ções da existência coletiva; e não temos apenas à nossa disposição as que se referem a 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 457 


uma época recente, pois um grande número daquelas por que passaram os povos desapa- 
recidos chegou até nós. Apesar de suas lacunas, a história da humanidade é muito mais 
clara e completa que a das espécies animais. Além disso, existe uma grande quantidade 
de fenômenos sociais que se produzem em toda a extensão da sociedade, mas que se 
revestem de formas diversas segundo as regiões, as profissões, as confissões, etc. É o 
caso, por exemplo, do crime, da natalidade, da nupcialidade, da poupança, etc. Da diver- 
sidade destes meios particulares resultam, para cada uma destas categorias de fatos, 
novas séries de variações, independentemente das que a evolução histórica produz. Se 
portanto o sociólogo não pode utilizar todos os processos de investigação experimental 
com uma igual eficácia, o único método de que tem de se servir, quase exclusivamente, 
pode, em seu poder. tornar-se muito fecundo. 

Mas este método só produzirá os resultados esperados se for utilizado com rigor. 
Não provamos nada quando, como muitas vezes acontece, nos contentamos em mostrar 
através de exemplos mais ou menos numerosos que, em alguns casos dispersos, os fatos 
variaram de acordo com a hipótese. Não se consegue tirar nenhuma conclusão geral a 
partir destas concordâncias esporádicas e fragmentárias. Ilustrar uma idéia não é 
demonstrá-la. O que é preciso é não comparar variações isoladas mas séries de varia- 
ções, constituídas regularmente, cujos termos se liguem entre si atravês de uma gradação 
tão continua quanto possível e que, além disso, tenham uma amplitude suficiente; as 
variações de um fenômeno só permitem induzir a lei se elas exprimirem claramente a 
maneira como ele se desenvolve em determinadas circunstâncias. Ora, para tal, é neces- 
sário que exista entre elas a mesma sequência que existe entre os diferentes momentos de 
uma mesma evolução natural e que, além disso, esta evolução que representam seja 
suficientemente demorada para que o sentido não seja duvidoso. 


HI 


A maneira como se devem formar estas séries difere conforme os casos. Podem 
compreender fatos reproduzidos de uma única sociedade — ou de várias sociedades da 
mesma espécie — ou de várias espécies sociais distintas. 

O primeiro processo pode bastar, na pior das hipóteses, quando se trata de fatos de 
uma grande generalidade e em relação aos quais possuímos informações estatísticas bas- 
tante amplas e variadas. Por exemplo, comparando a curva que exprime o movimento do 
suicídio durante um período suficientemente longo, com as variações que o mesmo fenô- 
meno apresenta conforme as províncias, as classes, os habitats rurais ou urbanos, os 
sexos, as idades, o estado civil, etc., podemos chegar, mesmo sem estender as investiga- 
ções para além de um só país, a estabelecer verdadeiras leis, embora seja sempre prefe- 
rível confirmar estes resultados com outras observações feitas sobre povos da mesma 
espécie. Mas só nos podemos contentar com comparações tão limitadas quando estuda- 
mos algumas destas correntes sociais que se encontram espalhadas em toda a sociedade. 
embora variando de um ponto para outro. Quando se trata, pelo contrário, de uma insti- 
tuição, de uma regra jurídica ou moral, de um costume organizado, que é o mesmo e que 
funciona da mesma maneira em toda a extensão do país e que só muda com o tempo, não 
nos podemos limitar ao estudo de um único povo; porquanto, nesse caso, só teríamos 
como matéria de prova um único par de curvas paralelas, ou seja, aquelas que exprimem 
o movimento histórico do fenômeno considerado e da causa conjeturada, mas nesta 
única e exclusiva sociedade. Sem dúvida que, se for constante, este simples paralelismo 
constitui já um fato considerável, mas não poderia, por si só, constituir uma 
demonstração. 


458 DURKHEIM 


Se tomarmos em consideração vários povos da mesma espécie, possuímos já um 
campo de observação mais extenso. Em primeiro lugar, podemos confrontar a história de 
um povo com a dos outros e ver em cada um deles, considerado individualmente, se o 
mesmo fenômeno evolui no tempo em função das mesmas condições. Podemos em segui- 
da estabelecer comparações entre estes diferentes desenvolvimentos. 

Determinar-se-á, por exemplo, a forma que reveste nas diferentes sociedades o fato 
estudado, no momento em que atinge o apogeu. Dado que estas sociedades, embora 
pertencendo ao mesmo tipo, constituem individualidades distintas, esta forma não é a 
mesma em toda a parte; é mais ou menos acentuada conforme os casos. Obteremos 
assim uma nova série de variações que compararemos com as que apresenta, no mesmo 
momento e em cada um destes países, a condição presumida. Assim, depois de se ter 
seguido a evolução da família patriarcal através da história de Roma, de Atenas, de 
Esparta, classificar-se-ão estas mesmas cidades segundo o grau mais elevado de desen- 
volvimento que este tipo familiar atinge em cada uma delas, vendo depois, se, em relação 
ao estado do meio social do qual parece depender segundo a primeira experiência, elas se 
classificam ainda da mesma maneira. 

Mas este método não se basta a si mesmo. Com efeito, só se aplica aos fenômenos 
que surgiram durante a vida dos povos comparados. Ora, uma sociedade não cria total- 
mente a sua organização; recebe-a, em parte, já feita daquelas que a precederam. O que 
lhe é deste modo transmitido, no decorrer da sua história, não é o produto de nenhum 
desenvolvimento e, por conseguinte, não pode ser explicado se não sairmos dos limites 
da espécie de que faz parte. Só as adições que se juntam por acréscimo a este fundo pri- 
mitivo e o transformam deverão ser tratadas desta maneira. Mas, quanto mais nos eleva- 
mos na escala social, menos importância têm as características adquiridas por cada povo 
ao lado das características transmitidas. É esta, aliás, a condição de todo o progresso. 
Assim, Os novos elementos que introduzimos no direito doméstico, no direito de proprie- 
dade, na moral, desde o começo da nossa história, são relativamente pouco numerosos e 
pouco importantes comparados com aqueles que o passado nos legou. As novidades que 
deste modo se produzem não poderiam portanto ser compreendidas se não se estudaram 
primeiramente estes fenômenos mais fundamentais que constituem as suas raízes e só 
podem ser estudados através de comparações muito mais extensas. Para poder explicar 
o estado atual da família, do casamento, da propriedade, etc., seria necessário conhecer 
quais são as suas origens, quais são os elementos simples de que se compõem estas insti- 
tuições; sobre estes assuntos a história comparada das grandes sociedades européias não 
nos pode dar grandes explicações. É necessário subirmos mais alto. 

Por conseguinte, para explicar uma instituição social que pertence a uma espécie 
determinada, comparar-se-ão as formas diferentes que apresenta nos povos desta espécie 
e ainda em todas as espécies anteriores. Suponhamos, por exemplo, que se trata da orga- 
nização doméstica. Constituir-se-á primeiro o tipo mais rudimentar que tenha existido, 
para acompanharmos em seguida, passo a passo, a maneira como progressivamente se 
complicou. Este método, a que se poderia chamar genético, daria imediatamente a aná- 
lise e a sintese do fenômeno, pois mostrar-nos-ia os elementos que o compõem dissocia- 
dos, pelo simples fato de nos surgirem cronologicamente e, graças a este vasto campo de 
comparação, estaria em boa situação para determinar as condições de que depende a for- 
mação e a associação dos fenômenos. Só se pode explicar um fato social de uma certa 
complexidade se acompanharmos o seu desenvolvimento integral através de todas as 
espécies sociais. A sociologia comparada não é um ramo particular da sociologia; é a 
própria sociologia, na medida em que deixa de ser puramente descritiva e ambiciona 
explicar os fatos. 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 459 


Durante estas extensas comparações, comete-se frequentemente um erro que falsi- 
fica os resultados. Por vezes, para se interpretar o sentido em que se desenvolvem os 
acontecimentos sociais, acontece que se comparou simplesmente aquilo que se passa no 
declínio de cada espécie com aquilo que se produz no início da espécie seguinte. Proce- 
dendo deste modo, julgou-se poder afirmar, por exemplo, que o enfraquecimento das 
crenças religiosas e de qualquer tradicionalismo nunca podia ser senão um fenômeno 
passageiro da vida dos povos dado que surge unicamente durante o último período de 
sua existência para desaparecer a partir do momento em que uma nova evolução recome- 
ça. Mas, com um tal método, arriscamo-nos a considerar como desenvolvimento regular 
e necessário do progresso aquilo que é, efetivamente, o efeito de outra causa. Com efeito, 
a situação em que se encontra uma sociedade jovem não é o simples prolongamento da 
situação a que tinham chegado no final da sua carreira as sociedades que ela substitui; 
os produtos das experiências realizadas pelos povos anteriores não são todos imediata- 
mente assimiláveis e utilizáveis. É do mesmo modo que a criança recebe dos pais certas 
faculdades e predisposições que só tardiamente entram em jogo na sua vida. É portanto 
possível, para voltarmos ao mesmo exemplo, que este regresso do tradicionalismo que se 
observa no início de cada história seja devido não à transitoriedade do retrocesso de tal 
fenômeno mas às condições particulares em que se encontra qualquer sociedade que se 
inicia. A comparação só poderá ser demonstrativa se eliminarmos este fator da idade que 
a perturba; para chegarmos a tal, bastará considerar as sociedades comparadas no 
mesmo período de desenvolvimento. Assim, para sabermos em que sentido evolui um 
fenômeno social, compararemos o que ele é durante a juventude de cada espécie com 
aquilo em que se torna durante a juventude da espécie seguinte, e, conforme ele apresen 
tar, de uma destas etapas até à outra, maior, menor ou igual intensidade, afirmar-se-á 
então que progride, que recua ou que se mantém. 


CONCLUSÃO 


Características gerais deste método: 1.º — A sua independência face a toda a filosofia (independência que 
é útil à própria filosofia) e face às doutrinas práticas. Relações entre a sociologia e essas doutrinas. Como 
permite dominar os partidos. 2.º -— A sua objetividade. Os fatos sociais considerados como coisas. Como 
este princípio determina todo o método. 3.º — O seu caráter sociológico: os fatos sociais explicados conser- 
vando a sua especificidade; a sociologia como ciência autônoma. A conquista desta autonomia é o progresso 
mais importante que resta à sociologia empreender. Maior autoridade da sociologia assim praticada. 


Em resumo, as características deste método são as seguintes: em primeiro lugar, é 
independente de qualquer filosofia. Por ter nascido das grandes doutrinas filosóficas, a 
sociologia conservou o hábito de se apoiar num sistema qualquer, ao qual passava por- 
tanto a ficar solidária. Foi por este motivo que se chamou sucessivamente positivista, 
evolucionista e espiritualista, quando se devia ter contentado em ser apenas sociologia. 
Nós hesitaríamos até em qualificá-la de naturalista, a menos que se queira somente indi- 
car por essa palavra que a sociologia considera os fatos sociais como explicáveis natural- 
mente e, nesse caso, o epíteto é perfeitamente inútil, uma vez que significa simplesmente 
que o sociólogo faz uma obra de ciência, não sendo por isso um místico. Mas repudia- 
mos o termo se se lhe der um sentido doutrinal sobre a essência das coisas sociais; se, por 
exemplo, se pretender dizer que elas são redutíveis às outras forças cósmicas. A sociolo- 
gia não tem que optar entre as grandes hipóteses que dividem os metafísicos. Não lhe 
cabe mais o direito de afirmar a liberdade do que de afirmar o determinismo. Tudo quan- 
to pretende que lhe concedam é que o princípio de causalidade se aplique aos fenômenos 
sociais. Este princípio é ainda considerado pela sociologia não como uma necessidade 
racional, mas unicamente como um postulado empírico, produto de uma indução legiíti- 
ma. Uma vez que a lei da causalidade se verificou nos outros reinos da natureza e que, 
progressivamente, estendeu o seu império do mundo fisico-químico ao mundo biológico, 
e deste ao mundo psicológico, estamos no direito de admitir que é igualmente válida para 
o mundo social; e, hoje em dia, é possível acrescentar que as investigações empreendidas 
com base neste postulado tendem a confirmá-lo. Mas a questão de saber se a natureza da 
ligação casual exclui toda a contingência não fica por isso encerrada. 

De resto, a própria filosofia tem todo o interesse na emancipação da sociologia, 
visto que, enquanto o sociólogo não despojar suficientemente o filósofo, este apenas con- 
sidera as coisas sociais pelo seu lado mais geral, ou seja, o lado em que mais se asseme- 
lham às outras coisas do universo. Ora, se a sociologia assim concebida pode servir para 
ilustrar com fatos curiosos uma filosofia, não pode enriquecê-la com novas perspectivas, 
pois nada assinala de novo no objeto que estuda. Mas, na realidade, se os fatos funda- 


462 DURKHEIM 


mentais dos outros reinos se encontram no reino social, é sob formas especiais que me- 
lhor lhe dão a conhecer a natureza, visto serem a sua expressão mais elevada. Só que, 
para os aperceber sob este aspecto torna-se necessário sair das generalidades e entrar na 
particularidade dos fatos. Deste modo, e à medida que se for especializando, a sociologia 
fornecerá materiais mais originais à reflexão filosófica. O que ficou dito permite já entre- 
ver como noções essenciais tais como a de espécie, órgão, função, saúde e doença, causa 
e fim aí se apresentam sob novas luzes. Aliás, não será à sociologia que caberá a tarefa 
de dar o devido relevo a uma idéia que pode muito bem constituir a base não somente de 
uma psicologia mas de toda uma filosofia: a idéia de associação? 

Relativamente às doutrinas práticas, o nosso método permite e requer a mesma 
independência. A sociologia assim entendida não é nem individualista, nem comunista, 
nem socialista, no sentido em que vulgarmente se empregam estas palavras. Por princi- 
pio, a sociologia ignora tais teorias, às quais não poderia reconhecer valor científico por 
tenderem diretamente não a exprimir os fatos, mas a reformá-los. E, se se interessa por 
elas, é na medida em que aí descortina fatos sociais que podem ajudá-la a compreender 
a realidade social, ao patentearem as necessidades que atormentam a sociedade. Isto não 
quer dizer, todavia, que ela deva desinteressar-se das questões práticas. Vimos, pelo 
contrário, que a nossa preocupação constante era a de orientá-la de modo que desse 
resultados práticos. A sociologia depara-se necessariamente com estes problemas no 
termo das investigações. Mas, justamente porque eles apenas se lhe apresentam nesse 
momento e surgem dos fatos e não das paixões, podemos prever que se apresentem ao 
sociólogo em termos muito diferentes daqueles em que se pôem à multidão, e que as solu- 
ções, aliás parciais, que ele lhes pode dar não poderão coincidir exatamente com nenhu- 
ma das que os partidos adotam. Mas, sob este ponto de vista, o papel da sociologia deve 
justamente consistir em libertar-nos de todos os partidos, não opondo uma doutrina as 
doutrinas mas fazendo com que os espíritos partilhem, face a estas questões, uma atitude 
especial que só a ciência pode dar pelo contato direto com as coisas. Só ela, com efeito. 
pode ensinar a tratar com respeito, mas sem fetichismo, as instituições históricas, sejam 
elas quais forem, fazendo-nos sentir o que elas possuem ao mesmo tempo de necessário 
e de provisório, a sua capacidade de resistência e sua infinita variabilidade. 

Em segundo lugar, o nosso método é objetivo. É totalmente dominado pela idéia de 
que os fatos sociais são coisas e devem ser tratados como tais. Este princípio encontra- 
se, sem dúvida, sob uma forma um pouco diferente na base das doutrinas de Comte e de 
Spencer. Mas estes pensadores preocuparam-se mais com a sua formulação teórica do 
que com como pô-lo em prática. Para que não continuasse letra morta, não bastava 
promulgá-lo: era preciso fazer dele a base de toda uma disciplina que dominasse o sábio 
no próprio momento em que abordasse o objeto da sua investigação, e que o acompa- 
nhasse, passo a passo, em todas as suas iniciativas. Foi à instituição dessa disciplina que 
nos dedicamos. Mostramos como o sociólogo devia afastar as noções antecipadas que 
tinha dos fatos para se debruçar sobre os próprios fatos; como devia abordá-los pelos 
seus caracteres mais objetivos; como devia extrair deles o processo de os classificar 
como sãos ou mórbidos; como, por fim, deveria inspirar-se no mesmo princípio tanto 
para antecipar explicações como para prová-las. Na realidade, quando temos o senti- 
mento de que nos encontramos na presença de coisas, não sonhamos sequer explicá-las 
por cálculos utilitários ou por raciocínios de qualquer espécie. Compreende-se dema- 
siado bem o afastamento que há entre tais causas e tais efeitos. Uma coisa é uma força 
que só pode ser engendrada por outra força. Procuram-se, portanto, para explicar os 
fatos sociais. energias capazes de os produzir. Não somente as explicações são diferentes 
como são diversamente explicadas, ou melhor, só nesse momento se experimenta a neces- 


AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 463 


sidade de as demonstrar. Se os fenômenos sociológicos não são mais do que sistemas de 
idéias objetivadas, explicá-los é repensá-los na sua ordem lógica que, em si mesma, cons- 
titui a sua própria prova; quando muito, poder-se-á confirmá-la com alguns exemplos. 
Pelo contrário, só as experiências metódicas podem arrancar às coisas o seu segredo. 

Mas, se considerarmos os fatos sociais como coisas, consideramo-los como coisas 
sociais. A terceira característica do nosso método é ser exclusivamente sociológico. Jul- 
gou-se muitas vezes que estes fenômenos, dada a sua extrema complexidade, ou eram 
refratários à ciência, ou só podiam penetrar nela reduzidos às suas condições elementa- 
res, psíquicas ou orgânicas, isto é, despojados da sua própria natureza. Nós, pelo contrá- 
rio, tentamos estabelecer que era possivel tratá-los cientificamente, nada lhes tirando dos 
seus caracteres específicos. Recusamo-nos mesmo a reduzir a imaterialidade sui generis 
que os caracteriza à dos fenômenos psíquicos que, no entanto, é já complexa: com muito 
maior razão nos impedimos de a incorporar, na segtência da escola italiana, nas proprie- 
dades gerais da matéria organizada.ºº Mostramos que um fato social só pode ser expli- 
cado por um outro fato social e, simultaneamente, como este tipo de explicação é possi- 
vel assinalando no meio social interno o motor principal da evolução coletiva. A 
sociologia não é, portanto, o anexo de qualquer outra ciência, sendo em si mesma uma 
ciência distinta e autônoma: a noção da especificidade da realidade social é de tal modo 
necessária ao sociólogo que só uma cultura especialmente sociológica pode prepará-lo 
para a compreensão dos fatos sociais. 

Pensamos que este progresso é o mais importante dos que resta à sociologia 
empreender. Quando uma ciência está a nascer, é-se sem dúvida obrigado, para a cons- 
truir, a tomar como referência os únicos modelos existentes, quer dizer, as ciências já for- 
madas. Há nelas um tesouro de experiências já feitas que seria insensato não aproveitar. 
No entanto, uma ciência só pode olhar-se como definitivamente constituída quando con- 
seguiu adquirir uma personalidade independente, porquanto não teria razão de existir se 
não tivesse por matéria um tipo de fatos que as outras ciências não estudam. Ora, é 
impossível que as mesmas noções possam convir identicamente a coisas de natureza 
diferente. 

Tais nos parecem ser os princípios do método sociológico. 

Este conjunto de regras parecerá inutilmente complicado se o compararmos com os 
procedimentos correntemente usados. Todo este aparelho de precauções pode parecer 
bem laborioso para uma ciência que até aqui apenas reclamava, dos que a ela se dedica- 
vam, uma cultura geral e filosófica; e é de fato certo que o pôr em prática um tal método 
não poderia ter por efeito a vulgarização da curiosidade das coisas sociológicas. Quan- 
do, como condição de iniciação prévia, se pede as pessoas para se desfazerem dos con- 
ceitos que habitualmente aplicam a um tipo de coisas, para as repensar com novos esfor- 
ços, não se pode esperar recrutar uma grande clientela. Mas não é esse o fim para que 
tendemos. Cremos, pelo contrário, que chegou o momento de a sociologia renunciar aos 
sucessos mundanos, por assim dizer, e tomar o caráter esotérico que convém a todas as 
ciências. Ganhará assim em dignidade e autoridade o que talvez perca em popularidade. 
Porque, enquanto estiver misturada com as lutas de partidos e se contentar com a elabo- 
ração de idéias comuns, apenas um pouco mais lógica do que o habitual, e, por conse- 
guinte, não supondo qualquer competência específica, a sociologia não tem o direito de 
falar suficientemente alto para calar as paixões e os preconceitos. Seguramente, vem 
ainda longe o tempo em que ela poderá desempenhar esse papel eficazmente; no entanto, 
é para aprontá-la para o desempenhar um dia que precisamos, desde já. trabalhar. 


88 É portanto despropositado qualificar o nosso método de materialista. 


EMILE DURKHEIM 


O SUICÍDIO 
ESTUDO SOCIOLÓGICO 


(INTRODUCAO LIVRO II, CAP IE LIVRO HI,CAP |) 


Tradução de Luz CARY, MARGARIDA GARRIDO e J. VASCONCELOS ESTEVES 


Introdução 


Como a palavra suicídio é frequentemente utilizada, poder-se-ia pensar que todos 
lhe conhecem o sentido e que, portanto, seria supérfluo defini-lo. Mas, na realidade, as 
palavras da língua corrente, como os conceitos que exprimem, são sempre ambíguos e o 
estudioso que os explorasse tais como os recebe na utilização que deles é feita diaria- 
mente, haveria necessariamente de incorrer em graves confusões. Não só a compreensão 
destas palavras e conceitos é de tal maneira pouco circunscrita que varia de caso para 
caso, segundo as necessidades do discurso, mas também, visto que a classificação de que 
eles são o produto não procede de uma análise metódica mas traduz apenas as impres- 
sões confusas da massa, acontece com demasiada frequência que categorias de fatos 
muito díspares são indistintamente reunidas sob uma mesma rubrica, ou que realidades 
da mesma natureza são apelidadas de nomes diferentes. Assim, aquele que se deixa con- 
duzir pela acepção recebida corre o risco de distinguir o que deve ser confundido ou de 
confundir o que deve ser distinguido, de desconhecer portanto o verdadeiro parentesco 
das coisas entre si e, por conseguinte, de se enganar sobre a natureza destas. Só a compa- 
ração nos pode fornecer explicações. Uma investigação científica só pode portanto atin- 
gir o seu fim se se debruçar sobre fatos comparáveis, e tem tanto mais hipóteses de o con- 
seguir quando se certificar de ter reunido todos os fatos que podem ser utilmente 
comparados. Porém, estas afinidades naturais dos seres não poderiam ser atingidas com 
um mínimo de segurança através de um exame superficial como aquele de que resultou 
a terminologia vulgar; por conseguinte, o estudioso não pode tomar como objeto das 
suas investigações os grupos de fatos já constituídos a que correspondem as palavras da 
língua corrente. É obrigado a constituir ele próprio os grupos que pretende estudar, a fim 
de lhes conferir a homogeneidade e a especificidade que lhes são necessárias para pode- 
rem ser tratados cientificamente. É assim que o botânico, ao falar de flores ou de frutos. 
que o zoólogo, ao falar de peixes ou de insetos, utilizam estes diferentes termos em senti- 
dos previamente estabelecidos. 

A nossa tarefa primordial deve portanto ser a de determinar a ordem de fatos que 
nos propomos estudar sob o nome de suicídios. Nesse sentido, vamos procurar ver se. 
entre os diferentes tipos de mortes, existem alguns que têm em comum caracteres 
suficientemente objetivos para poderem ser reconhecidos por qualquer observador de 
boa fé, suficientemente especiais para não serem encontrados noutros tipos. mas. ao 
mesmo tempo. suficientemente próximos dos que são qualificados sob o nome de suici- 
dios para que possamos, sem forçar o uso, conservar esta mesma expressão. Reuniremos 
sob esta denominação todos os fatos, sem exceção, que apresentarem estes caracteres 
distintivos, e isto sem nos preocuparmos se a classe assim constituída não compreende 
todos os casos que normalmente se denominam assim, ou se, pelo contrário, compreende 


468 DURKHEIM 


outros casos que estamos acostumados a designar de outra forma. Porque o que é impor- 
tante não é exprimir com alguma precisão a noção de suicídio criada pela média das 
inteligências, mas constituir uma categoria de objetos que, embora possa ser sem incon- 
veniente etiquetada sob esta rubrica, seja objetivamente fundada, isto é, corresponda a 
uma natureza de coisas determinada. 

Ora, entre as diversas espécies de mortes, há as que apresentam o seguinte traço 
particular: o fato de serem obra da própria vítima, de resultarem de um ato de que o 
paciente é o autor; e, por outro lado, acontece que este mesmo traço se encontra na base 
da idéia que normalmente se tem de suicídio. A natureza intrínseca dos atos que produ- 
zem este resultado não é aliás muito importante. Embora de uma maneira geral o suicí- 
dio seja pensado como uma ação positiva e violenta que implica um investimento de 
força muscular, pode acontecer que uma atitude puramente negativa ou uma simples abs- 
tenção tenham a mesma consegiiência. As pessoas tanto se matam pela recusa de se 
alimentarem como pela destruição pelo ferro e pelo fogo. Nem sequer é necessário que o 
ato emanado do paciente tenha sido o antecedente imediato da morte para que esta possa 
ser considerada como o efeito de tal ato: a relação de causalidade pode ser indireta, o 
fenômeno no entanto não se altera na sua natureza. O iconoclasta que, para conquistar 
as palmas do martírio, comete um crime de lesa-majestade que sabe ser capital e que 
morre às mãos do carrasco é o autor do seu fim como 0 seria se tivesse sido ele a desferir 
o golpe mortal sobre si próprio; não se pode classificar em gêneros diferentes estas duas 
variedades de mortes voluntárias, visto que as diferenças existentes entre elas se verifi- 
cam apenas nos pormenores materiais da execução. Chegamos assim a uma primeira fór- 
mula: o suicídio é toda morte que resulta mediata ou imediatamente de um ato positivo 
ou negativo realizado pela própria vítima. 

Mas esta definição é incompleta; não se faz qualquer distinção entre duas espécies 
de mortes muito diferentes. Não podemos alinhar na mesma classe e tratar da mesma 
maneira a morte do alucinado que se precipita de uma janela alta porque a julga perto do 
solo e a do homem são de espírito que atenta contra a vida sabendo que o faz. Aliás, em 
certo sentido, há poucas mortes que não sejam a consequência próxima ou longínqua de 
procedimentos do paciente. As causas de morte estão situadas fora de nós mais que em 
nós e só nos atingem se nos aventurarmos a entrar na sua esfera de ação. 

Diremos então que só há suicídio se o ato de que a morte resulta tiver sido realizado 
pela vítima tendo em vista o resultado? Que só se mata verdadeiramente aquele que quis 
matar-se e que o suicídio é um homicídio intencional de si próprio? Isto corresponderia 
a definir o suicídio através de uma característica que, apesar do interesse e da impor- 
tância que pudesse ter, possuiria pelo menos a desvantagem de não ser facilmente 
reconhecível, porque difícil de observar. Como saber que móbil determinou o agente, 
como saber se, ao tomar a sua resolução, desejava efetivamente a morte, ou tinha outro 
fim em vista? A intenção é algo de demasiado íntimo para poder ser atingida do exterior, 
a não ser por aproximações grosseiras. Até da observação interior ela se defende. Quan- 
tas vezes nos enganamos sobre as verdadeiras razões que nos levam a agir! Quantas 
vezes explicamos por paixões generosas ou por considerações elevadas atos que nos 
foram inspirados por simples sentimentos ou por uma rotina cega! 

Aliás, de uma maneira geral, um ato não pode ser definido pelo fim que o agente 
persegue, pois um mesmo sistema de movimento, sem mudar de natureza, pode servir a 
muitos fins diferentes. De fato, se só houvesse suicídio nos casos em que houvesse inten- 
ção de pôr termo à vida, seria preciso recusar esta denominação a fatos que, apesar das 
aparentes dessemelhanças, são, no fundo, idênticos àqueles que todos designam assim e 


O SUICÍDIO 469 


que não podem ser designados de outra maneira a não ser que o termo perca a utilização. 
O soldado que corre para uma morte certa para salvar o seu pelotão não quer perecer; 
e, no entanto, não será o autor da sua própria morte como o é o industrial ou comer- 
ciante que se mata para se poupar à vergonha da falência? O mesmo se pode dizer do 
mártir que dá a vida pela fé, da mãe que morre para salvar o filho, etc. Quer a morte seja 
simplesmente aceita como uma condição lamentável mas inevitável, quer seja expressão 
desejada e procurada em si, num caso e noutro, o sujeito renuncia à existência; e as dife- 
rentes expressões desta renúncia não são senão variedades de uma mesma classe. Há 
entre elas demasiadas semelhanças fundamentais para que não sejam reunidas sob a 
mesma expressão genérica embora se tenha de distinguir espécies no gênero assim consti- 
tuído. Sem dúvida, o suicídio é vulgarmente e antes de mais nada o ato de desespero de 
um indivíduo a quem a vida já não interessa. Mas, na realidade, e visto que se está ainda 
ligado à vida no momento de a deixar, não deixa de ser difícil abandoná-la; e, entre todos 
os atos pelos quais um ser vivo abandona assim o mais precioso dos seus bens, existem 
traços comuns que são evidentemente essenciais. Pelo contrário, a diversidade dos mó- 
beis que podem ter ditado estas resoluções só pode dar lugar a diferenças secundárias. 
Portanto, quando o desvelo vai até ao sacrifício certo da vida, é cientificamente um suici- 
dio; veremos mais adiante de que espécie. 

O que é comum a todas as formas possíveis desta renúncia suprema é que o ato que 
a consagra é realizado com conhecimento de causa; é que a vítima, no momento de agir, 
sabe o que vai resultar da sua conduta, seja qual for a razão que a levou a conduzir-se 
assim. Todos os fatos de morte que apresentam esta particularidade característica se dis- 
tinguem claramente dos outros, em que o paciente ou não é o agente do seu próprio fale- 
cimento ou o é apenas de uma maneira inconsciente. Distinguem-se dos outros através de 
uma característica facilmente reconhecível, pois não constitui problema insolúvel saber 
se previamente o indivíduo conhecia ou não as conseglências naturais da sua ação. Estes 
óbitos constituem portanto um grupo definido, homogêneo, discernível de outro qualquer 
e que, por conseguinte, deve ser designado por um termo específico. O de suicídio 
convém-lhe bastante bem, pelo que não vale a pena criar outro; porque a grande generali- 
dade dos fatos que diariamente se designam assim integra-se perfeitamente nele. Definiti- 
vamente, diremos então: Chama-se suicídio todo caso de morte que resulta direta ou 
indiretamente de um ato positivo ou negativo praticado pela própria vítima, ato que a ví- 
tima sabia dever produzir este resultado. A tentativa de suicídio é o ato assim definido, 
mas interrompido antes que a morte daí tenha resultado. 

Esta definição é suficiente para excluir do nosso trabalho tudo o que se relacione 
com suicídios de animais. Com efeito, o que sabemos sobre a inteligência animal não nos 
permite atribuir aos animais uma representação antecipada da sua morte, nem, sobretu- 
do, dos meios capazes de a produzir. Há animais que se recusam a penetrar num local 
onde foram mortos outros animais; dir-se-ia que pressentem o destino que os espera. 
Mas, na realidade, basta o cheiro a sangue para determinar este movimento instintivo de 
recuo. Todos os casos providos de autencidade que se costuma citar e nos quais se pre- 
tende ver suicídios propriamente ditos podem ser explicados de outra maneira. Se o 
escorpião irritado se pica a si próprio (o que aliás nem sempre acontece), fá-lo provavel- 
mente em virtude de uma reação automática e irrefletida. A energia motora desenca- 
deada pelo seu estado de irritação é desferida ao acaso; embora o animal seja a vítima 
desta descarga de energia, não podemos dizer que ele se tenha representado previamente 
a consequência do seu movimento. Inversamente, se há cães que recusam alimentar-se 
após terem perdido o dono, é porque a tristeza em que estão mergulhados lhes suprime 


470 DURKHEIM 


mecanicamente o apetite; embora a morte possa resultar de uma situação dessas, não se 
pode dizer que tenha sido prevista. Nem o jejum, neste caso, nem a picada no primeiro 
são utilizados como meios cujo efeito é conhecido. Os caracteres distintivos do suicídio, 
tal como os definimos, não estão presentes nestes exemplos. É por isso que a partir de 
aqui nos debruçaremos apenas sobre o suicídio humano. ' 

Mas esta definição não tem apenas a vantagem de evitar as aproximações engana- 
doras ou as exclusões arbitrárias; dá-nos imediatamente uma idéia do lugar que os suici- 
dios ocupam no conjunto da vida moral. Mostra-nos de fato que, ao contrário do que se 
poderia pensar, os suicídios não constituem um grupo isolado, uma classe à parte de 
fenômenos monstruosos, sem relação com os outros modos da conduta, mas, pelo 
contrário. que estão ligados a eles através de uma série contínua de intermediários. Não 
são mais que a forma exagerada de práticas usuais. Com efeito, e como dissemos, há sui- 
cídio quando a vitima, no momento em que comete o ato que deve pór fim aos seus dias, 
sabe com toda certeza o que normalmente daí deve resultar. Mas esta certeza pode ser 
mais ou menos forte. Matizada de algumas dúvidas, constitui um fato novo, que não é o 
suicídio, mas que é seu parente próximo visto que só existem entre eles diferenças de 
grau. Um homem que conscientemente se expõe por outrem, sem saber se o desfecho da 
situação lhe traz ou não a morte, não é, sem dúvida, um suicida, mesmo no caso de 
sucumbir, como não o é o imprudente que em pleno conhecimento de causa brinca com 
a morte embora procurando evitá-la, ou o apático, que, não tendo nada que o prenda à 
vida, não cuida da saúde e a compromete por negligência. E, no entanto, estas diferentes 
maneiras de agir não se distinguem radicalmente dos suicídios propriamente ditos. Pro- 
cedem de estados de espírito análogos, visto que implicam igualmente riscos mortais não 
ignorados pelo agente, e que a perspectiva destes riscos não o impede de prosseguir os 
seus intentos; a diferença reside no fato de os riscos de morte serem menores. Assim, não 
é sem fundamento que frequentemente se diz do estudioso que se esgotou a trabalhar que 
deu cabo de si próprio. Todos estes fatos constituem portanto espécies de suicídios 
embrionários, e, se não é metodologicamente correto confundi-los com o suicídio com- 
pleto e desenvolvido, também é preciso não perder de vista as relações de parentesco que 
os ligam a este último. Porque o suicídio surge sob um aspecto novo, se reconhecermos 
que se liga sem solução de continuidade aos atos de coragem e de desvelo, por um lado. 
e, por outro, aos atos de imprudência e de simples negligência. Adiante se verá o que 
estas aproximações têm de instrutivo. 


N 


Mas, assim definido, o fato interessará ao sociólogo? Visto que o suicídio é um ato 
do indivíduo que apenas afeta o indivíduo, dir-se-ia que depende exclusivamente de fato- 
res pessoais e que o estudo de tal fenômeno se situa no campo da psicologia. E, aliás, não 
é pelo temperamento do suicida, pelo seu caráter, pelos seus antecedentes, pelos aconteci- 
mentos da sua vida privada que normalmente este ato se explica? 


Resta contudo um número muito restrito de casos que não podem ser assim explicados, mas que são mais 
que duvidosos. Assim por exemplo o fato, relatado por Aristóteles, de um cavalo que, percebendo que copu- 
lara com a mãe, sem o saber e depois de a tal se ter recusado várias vezes, se teria intencionalmente precipi- 
tado do alto de uma montanha (Histoire des Animaux (História dos Animais), IX, 47). Os criadores afirmam 
que o cavalo não é de modo algum refratário ao incesto. Sobre toda esta questão, ver Westcott, Suicide, 
págs. 174-179. 


O SUICÍDIO 471 


Por agora não tentaremos aprofundar em que medida e em que condições é legítimo 
estudar assim os suicídios, mas o que é certo é que podem ser analisados sob um aspecto 
completamente diferente. Assim, se, em vez de vermos neles apenas acontecimentos 
particulares isolados uns dos outros e que necessitam cada um por si de um exame parti- 
cular, considerarmos o conjunto dos suicídios cometidos numa sociedade dada, o total 
assim obtido não é uma simples soma de unidades independentes, um todo de coleção. 
mas constitui em si um fato novo e sui generis, que possui a sua unidade e a sua indivi- 
dualidade, a sua natureza própria por conseguinte, e que, além disso, tal natureza é 
eminentemente social. De fato, para uma mesma sociedade, e desde que a observação 
não se estenda por um período demasiado longo, este número é pouco mais ou menos 
invariável, como o prova o quadro I. É que, de um ano para O outro, as circunstâncias 
em que a vida dos povos se desenvolve são sensivelmente as mesmas. Não quer isto dizer 
que por vezes não se produzam variações. Aliás pode verificar-se que são sempre 
contemporâneas de alguma crise que venha afetar o estado social. ? 

Assim. em 1848 houve uma descida brusca em todos os Estados europeus. 


Considerando um intervalo de tempo maior, contam-se modificações mais graves. 
Mas elas tornam-se crônicas; provam portanto e muito simplesmente que os caracteres 
constitucionais da sociedade sofreram, entretanto, transformações profundas. É interes- 
sante notar que estas modificações não se produzem com a extrema lentidão que um 
grande número de observadores lhes atribui, mas são simultaneamente bruscas e progres- 
sivas. De repente, após uma série de anos ao longo dos quais os números oscilaram entre 
limites muito próximos, manifesta-se uma subida que, após hesitações em sentidos 
contraditórios, se afirma, se acentua e acaba por fixar-se. Isto quer dizer que a rotura do 
equilíbrio social, mesmo surgindo bruscamente, leva sempre tempo a produzir todas as 
suas consequências. A evolução do suicídio é assim composta por ondas de movimento, 
distintas e sucessivas, que se verificam por arranques, se desenvolvem durante um tempo. 


para depois estacionar, para em seguida recomeçar. No quadro I, p. 472 pode-se verificar 
que uma dessas ondas se constituiu em quase toda a Europa após os acontecimentos de 
1848, isto é, por volta dos anos de 1850-1853, segundo os países; uma outra teve início 
na Alemanha após a guerra de 1866; na França um pouco mais cedo, em 1860, na época 
que marca o apogeu do governo imperial; na Inglaterra em 1868, isto é, após a revolução 
comercial que os tratados de comércio então determinaram. Talvez a nova recrudes- 
cência que se constata entre nós por volta de 1865 seja devida à mesma causa. Depois da 
guerra de 1870 verificou-se outra subida que ainda dura e que é geral na Europa.? 


Cada sociedade tem portanto, em cada momento da sua história, uma aptidão defi- 
nida para o suicídio. Mede-se a intensidade relativa desta aptidão tomando a relação 
entre o número global de mortos voluntários e a população global (todas as idades e 
ambos os sexos). Designaremos este dado numérico por taxa de mortalidade-suicídio 
própria à sociedade considerada. Esta taxa é geralmente considerada relativamente a um 
milhão ou a cem mil habitantes. 


Não só esta taxa é constante durante longos períodos de tempo. como a sua invaria- 
bilidade é também maior que a dos principais fenômenos demográficos. A mortalidade 


2 Pusemos entre parênteses os números referentes a esses anos excepcionais. 

3 No quadro representamos alternativamente por algarismos normais ou por algarismos itálicos as séries de 
números que representam estas diferentes ondas de movimento, a fim de tornar materialmente sensível a 
individualidade de cada uma delas. 


472 DURKHEIM 


QUADRO I 


Constância do suicidio nos principais paises da Europa 


(números absolutos) 


INGLATERRA 
BAVIERA 
DINAMARCA 


1630 

1598 
1270 
1575 

1700 
1707 
(1 852) 
(1 649) 
(1527) 
1736 

1 809 
2073 
1942 

2918 
2351 
2377 
2 038 
2126 
2 146 
2105 
2 185 
2112 
2374 
2 203 
2361 
2 485 
3625 
3 658 
3 544 
3270 
3135 
3 467 


O SUICÍDIO 473 


geral, sobretudo, varia mais de um ano para outro e as variações por que passa são muito 
mais consideráveis. Para se ficar seguro disso, basta comparar, durante vários períodos, 
a forma como estes dois fenômenos evoluem. Foi o que fizemos no quadro II(v.pág.476). 
Para facilitar a aproximação, exprimimos, tanto no que respeita aos óbitos como aos 
suicídios, a taxa de cada ano em função da taxa média do período referida a 100. As dife- 
renças de ano para ano ou relativamente à taxa média tornam-se assim suscetíveis de 
comparação nas duas colunas. Ora, desta comparação resulta que em cada período a 
amplitude das variações é muito mais considerável no quadro da mortalidade geral que 
no quadro dos suicídios; é em média o dobro. O afastamento mínimo entre dois anos 
consecutivos tem sensivelmente a mesma importância em ambos os casos durante os 
dois últimos períodos. Simplesmente, este mínimo é uma exceção na coluna dos óbitos, 
enquanto pelo contrário as variações anuais dos suicídios só excepcionalmente se afas- 
tam dele. Verifica-se isso comparando os afastamentos médios. * 

É verdade que, se compararmos já não os anos sucessivos de um mesmo período, 
mas as médias de períodos precedentes, as variações que se observam na taxa de mortali- 
dade se tornam quase insignificantes. As alterações em sentido contrário que se verifi- 
cam de uns anos para outros, e que são devidas à ação de causas passageiras e aciden- 
tais, neutralizam-se mutuamente quando se toma por base do cálculo uma unidade de 
tempo mais extensa; desaparecem portanto do número médio que, devido a esta elimina- 
ção, apresenta uma grande invariabilidade. Assim, na França, de 1841 a 1870 foi suces- 
sivamente, para cada período decenal, 23,18, 23,72, 22,87. Mas sobretudo é um fato 
notável que o suicídio tenha, de ano para ano, um grau de constância igual ou até supe- 
rior ao que a mortalidade geral manifesta apenas de período para período. Além disso, a 
taxa média da mortalidade só atinge esta regularidade quando se torna algo de geral e de 
impessoal que só muito imperfeitamente pode servir para caracterizar uma dada socieda- 
de. Com efeito, é sensivelmente a mesma para todos os povos que atingiram um idêntico 
grau de civilização; pelo menos as diferenças existentes de uns para outros são muito 
fracas. 


Assim, na França, como aliás vimos, oscila de 1841 a 1870 em tomo de 23 óbitos 
para mil habitantes; durante o mesmo período foi sucessivamente 23, 93, 22.5, 20.04 na 
Bélgica; 22,32, 22,21, 22,68 na Inglaterra; 22,65 (1845-49), 20,44 (1855-59), 20,4 
(1871-68) na Dinamarca. Abstraindo da Rússia, que por enquanto só geograficamente é 
européia, os únicos grandes países da Europa em que a dízima mortuária se afasta de 
uma maneira relativamente vincada dos números precedentes são a Itália, pais onde ela 
se elevava ainda de 1861 a 1867 a 30,6, e a Áustria, onde era ainda mais considerável 
(32,52). º 


Pelo contrário, a taxa dos suicídios, ao mesmo tempo que acusa apenas alterações 
anuais fracas, varia segundo as sociedades do singular para o duplo, para o triplo, para 
o quádruplo e até para mais (v. quadro III, pág. 477). Ela é portanto num grau muito 
mais elevado que a taxa de mortalidade, pessoal a cada grupo social, do qual pode ser 
considerada como um índice característico. Inclusivamente, está tão estreitamente ligada 
ao que há de mais profundamente constitucional em cada temperamento nacional que a 
ordem segundo a qual se classificam, sob este aspecto, as diferentes sociedades, perma- 
nece quase rigorosamente a mesma em épocas muito diferentes. 


* Wagner já comparara do mesmo modo a mortalidade e a nupcialidade (Die Gesetzmassigkeit, etc., pág. 
87). : 

S Segundo Bertillon, artigo Mortalité do Dictionnaire Encyclopédique des Sciences Médicales, t. LXI, pag. 
738. 


474 DURKHEIM 


QUADRO II 


Variações comparadas da taxa de mortalidade - suicídio 
e da taxa de mortalidade geral 


PERÍODO 
1856-60 


PERÍODO 
1849-55 


PERÍODO 
1841-46 


SUICÍDIOS POR 
100 000 HABITANTES 
MORTES POR 
1000 HABITANTES 
SUICÍDIOS POR 
100 000 HABITANTES 
MORTES POR 
1000 HABITANTES 
SUICÍDIOS POR 
100 000 HABITANTES 
MORTES POR 
1000 HABITANTES 


A — Números absolutos 


1849 
1850 
1851 
1852 
1853 
1854 
1855 


Médias 


Médias 


C — Grandeza do desvio 


ENTRE DOIS ANOS ACIMA E ABAIXO 
CONSECUTIVOS DA MEDIA 


Ss) 
E x 
x = 
Meteo 
ed 


DESVIO 
MÁXIMO 
DESVIO 
MÍNIMO 


Período 1841-46: 
Mortatidade geral 
Taxa dos suicídios 

Período 1849-55 
Mortalidade geral 
Taxa dos suicídios 

Periodo 1856-60 
Mortalidade geral 
Taxa dos suicídios 


O SUICÍDIO 475 
É o que prova o exame deste mesmo quadro. Ao longo dos três periodos nele 
comparados, o suicídio aumentou por toda parte; mas, neste crescendo, os diversos 
povos mantiveram-se dentro dos seus respectivos limites. Cada um tem o seu coeficiente 
de aceleração que lhe é próprio. 
QUADRO III 


Taxa dos suicídios por milhão de habitantes 
em diversos países da Europa 


NÚMEROS À ORDEM DO 


PERÍODO 1866-70 
1871-75 
1874-78 


o) 
[am 
e 
[oe 
uu 
a. 
o. 
pe 


2.º PERÍODO 
3.º PERÍODO 


Itália 
Bélgica 
Inglaterra. 
Noruega 
Áustria 
Suécia 
Baviera 
Franca 
Prússia 
Dinamarca 
Saxe 


“0LONDOABRWUNA 
>OCDODANENO- 
>OVODANWIO Do 


-— — 
— — 
—+ — 


A taxa de suicídios constitui portanto uma ordem de fatos una e determinada; é o 
que demonstram, simultaneamente, a sua permanência e a sua variabilidade. Porque esta 
permanência seria inexplicável se não dependesse de um conjunto de caracteres distinti- 
vos, solidários, que, apesar da diversidade das circunstâncias ambientes, se afirmam 
simultaneamente; e esta variabilidade prova a natureza individual e concreta destes mes- 
mos caracteres, visto que eles variam com a própria individualidade social. Em suma, o 
que estes dados estatísticos exprimem é a tendência para o suicídio de que cada socie- 
dade estã coletivamente afetada. Não pretendemos estudar aqui em que consiste esta 
tendência, se é um estado sui generis da alma coletiva, º com a sua realidade própria, ou 
se representa apenas uma soma de estados individuais. Embora as considerações prece- 
dentes sejam dificilmente conciliáveis com esta última hipótese, reservamos por agora o 
problema que será tratado adiante. ? Apesar do que se possa pensar sobre a questão, o 
que acontece é que esta tendência existe de uma maneira ou de outra. Cada sociedade 
está predisposta a fornecer um determinado contingente de mortos voluntários. Esta 
predisposição pode portanto ser objeto de um estudo especial, que se situa no domínio da 
sociologia. É este estudo que vamos empreender. 


8 É claro. servindo-nos desta expressão, não pretendemos de maneira nenhuma hipostasiar a consciência 
coletiva. Tanto admitimos a existência de uma alma substancial na sociedade como no indivíduo. Voltare- 
mos a esta questão. 

? Vide liv. HI, cap. I. 


476 DURKHEIM 


A nossa intenção não é pois fazer um inventário o mais completo possível de todas 
as condições que poderão eventualmente entrar na gênese dos suicídios particulares, mas 
apenas procurar as condições de que depende este fato distinto a que chamamos taxa so- 
cial dos suicídios. De fato, as duas questões são independentes apesar da relação que 
possa haver entre elas. É claro, entre as condições individuais haverá certamente muitas 
que não são suficientemente gerais para afetar a relação entre o número total das mortes 
voluntárias e a população. Talvez possam fazer com que este ou aquele indivíduo isoiado 
se mate, não que a sociedade in globo tenha uma propensão mais ou menos intensa para 
o suicídio. Estas condições, do mesmo modo que não provêm de certo estádio de organi- 
zação social, também não têm reações sociais. Portanto, são do interesse do psicólogo, 
não do sociólogo. O que este último procura são as causas atravês das quais é possível 
agir, não sobre os indivíduos isolados, mas sobre o grupo. Por conseguinte, entre os fato- 
res dos suicídios, os únicos que lhe dizem respeito (ao sociólogo) são os que se fazem 
sentir no conjuto da sociedade. A taxa dos suicídios é o produto destes fatores. É por isso 
que nos vamos debruçar sobre eles. 

Tal é o objeto do presente trabalho, que compreenderá três partes. 

O fenômeno em cuja explicação nos empenhamos só pode ser imputado a causas 
extra-sociais de uma grande generalidade ou a causas propriamente sociais. Começando 
por nos interrogar sobre a influência das primeiras, concluiremos que é nula ou muita 
restrita. 

Determinaremos depois a natureza das causas sociais, a maneira como elas produ- 
zem os seus efeitos, e as suas relações com os estados individuais que acompanham as 
diversas espécies de suicídios. 

Feito isto, poderemos precisar em que consiste o elemento social do suicídio, isto é, 


8 Seguem-se as indicações relativas à bibliografia geral do suicídio. 

PUBLICAÇÕES ESTATÍSTICAS OFICIAIS 

DE QUE NOS SERVIMOS 

Oesterreischische Statistik (Statistik des Sanitatiswesens). 
Annuaire Statistique de la Belgique. 
Zeitschrift des Koeniglisch Bayerischen Statistischen Bureau. 
Preussische Statistik (Sterblichkeit nach Todesursachen und Altersclassen der Gestorbenen). 
Wiirtembirgische Jahrbiicher fiir Statistik und Landeskunde. 
Badische Statistik. 
Tenth Census of the United States. Report on the Mortality and Vital Statistic of the United States 1880, 2.º 
parte. Annuario Statistico Italiano. — Statistica delle Cause delle Morti in Tutti i Comuni del Regno. — 
Relazione Medico-Statistica sulle Condizioni Sanitarie dell'Esercito Haliano. — Statistische Nachrichten 
des Grossherzogthums Oldenburg. 
Compte Rendu Général de "Administration de la Justice Criminelle en France. 
Statistisches Jahrbuch der Stadt Berlin. 
Statistik der Stadt Wien. 
Statistisches Handbuch fiir den Hamburgischen Staat. 
Jahrbuch fiir die Amitliche Statistik der Bremischen Staaten. 
Annuaire Statistique de la Ville de Paris. 


Os seguintes artigos encerram igualmente informações úteis: 


Platter, Ueber die Selbstmorde in Oesterreich on den Jahren 1819-1872, in Statist, Monatsch., 1876. 
Brattassévic, Die Selbstmorde in Oesterreich in den Jahren 1873-77, in Stat, Monatsch., 1878, pág. 429. 


Ogle, Suicides in England and Wales in Relation to Age, Sex, Season and Occupation, in Journal of the 
Statistical Society, 1886. 


O SUICÍDIO 477 


a tendência coletiva a que nos referimos, quais são as suas relações com os outros fatos 
sociais e atravês de que meios é possível agir sobre ela. * 


Rossi, Il Suicidio nella Spagna nel 1994, Arch. di Psichiatria, Turim, 1886. 


II Estudos Sobre o Suicídio em Geral. 


De Guerry, Statistique Morale de la France, Paris, 1835, e Statistique Morale Comparée de la France et de 
UAngleterre, Paris, 1864. 

Tissot, De la Manie du Suicide et de [Esprit de Révolte, de Leurs Causes et de Leurs Remedes, Paris, 1841. 
Etoc-Demazy, Recherches Statistiques sur le Suicide, Paris, 1844. 

Lisle, Du Suicide, Paris, 1856. 

Wappãus, Bevólkerungsstatistik, Leipzig, 1861. 

Wagner, Die Gesetzmassigkeit in den Scheinbar Willkúrlichen Menschlichen Handlungen, Hamburgo, 1864, 
2.º Parte. 

Brierre de Boismont, Du Suicide et de la Folie-Suicide, Paris, Germer, 1865. 

Douay, Le Suicide ou la Mort Volontaire, Paris, Bailliêre, 1870. 

Leroy, Étude sur le Suicide et les Maladies Mentales dans le Département de Seine-et-Marne, Paris, 1870. 
Oettingen, Die Moralstatistik, 3 Auflage, Erlangen, 1882, págs. 786-832 e quadros anexos 103-120. 

Du Même, Ueber Acuten und Chronischen Selbstmord, Dorpat, 1881. 

Morselhi, 1! Suicidio, Milão. 1879. 

Legoyt, Le Suicide Ancien et Moderne, Paris, 1881. 

Masaryk, Der Selbstmord als Soziale Massenerscheinung, Viena, 1881. 

Westcott, Suicide, its History, Litterature, etc., Londres, 1885. 

Motta, Bibliografia del Suicidio, Bellinzona, 1890. 

Corre, Crime et Suicide, Paris, 1891. 

Bonomelli, JH Suicídio, Milão. 1892. 

Mayr, Selbstmordstatistik, in Handworterbuch der Staatswissenschaften, Herausgegeben von Conrad, Erster 
Supplementband, lena, 1895. 

Hauviller D., Suicide, these, 1898-99. 


Livro Il 


CAUSAS SOCIAIS E TIPOS SOCIAIS 


CAPÍTULO PRIMEIRO 


Método para os determinar 


Os resultados do livro precedente não são unicamente negativos. Estabelecêramos. 
com efeito, que em cada grupo social há uma tendência específica para o suicídio que 
não se pode explicar nem através da constituição orgânico-psíquica dos indivíduos nem 
através da natureza do meio físico. Portanto, por eliminação, depende necessariamente 
das causas sociais e constitui, por si só, um fenômeno coletivo; alguns dos próprios fatos 
que examinamos, nomeadamente as variações geográficas e periódicas do suicídio, 
tinham-nos conduzido precisamente a esta conclusão. É esta tendência que temos de 
estudar agora mais em detalhe. 


Para o conseguirmos-o melhor seria, ao que parece, investigar primeiramente se ela 
é simples e indecomponível ou se não consistiria antes numa pluralidade de tendências 
diferentes que a análise pode isolar e que conviria estudar separadamente. Neste caso, eis 
como se deveria proceder. Dado que, única ou não, só através dos suicídios individuais 
que a manifestam é que podemos observá-la, é por estes últimos que teremos de começar. 
Observaríamos, portanto, o maior número possível destes, não contando. é claro, com 
aqueles que derivam da alienação mental, e descrevê-los-tamos. Se todos eles apresen- 
tassem as mesmas características essenciais, reuni-losiamos numa mesma e única clas- 
se; no caso contrário, que é de longe o mais verossímil — dado que são demasiado dife- 
rentes para não abrangerem diversas variedades —, estabelecer -se-ia um certo número 
de espécies conforme as respectivas analogias e diferenças. 

Quanto mais tipos distintos se reconhecessem tanto mais correntes suicidogêneas se 
admitiriam, procurando-se, em seguida, determinar as causas e a importância respectiva 
destas. Trata-se pouco mais ou menos do método que seguimos no exame sumário do 
suicídio vesânico. 

Infelizmente, uma classificação dos suicídios racionais segundo as suas formas ou 
características morfológicas revela-se impraticável, pois os documentos necessários são 
quase inexistentes. Com efeito, para tentarmos tal classificação, seria necessário possuir 
boas descrições relativas a um grande número de casos particulares. Teriamos de saber 
em que estado psíquico se encontrava o suicida no momento em que tomou a resolução, 
como preparou ele a realização, como finalmente a executou, se estava agitado ou depri- 
mido, calmo ou entusiasta, ansioso ou irritado, etc. Ora, não possuímos informações 
deste gênero senão para os casos dos suicídios vesânicos, e é precisamente graças às 
observações e as descrições assim recolhidas pelos alienistas que foi possível definir os 
principais tipos de suicídios relativamente aos quais a loucura é a causa determinante. 
No que diz respeito aos outros, não temos praticamente nenhuma informação. Sozinho. 


480 DURKHEIM 


Brierre de Boismont tentou realizar este trabalho descritivo relativamente a 1328 casos 
em que o suicida deixa cartas ou escritos que o autor resumiu no seu livro. Mas, em pri- 
meiro lugar, este resumo é demasiado breve. Depois, as confidências que o próprio sujei- 
to nos faz são na maior parte das vezes insuficientes, quando não são suspeitas. Tem 
uma enorme tendência para se enganar a respeito de si próprio e a respeito da natureza 
das suas disposições; imagina, por exemplo, agir com sangue-frio, quando, na realidade, 
está no cúmulo da superexcitação. Enfim, além de não serem suficientemente objetivas, 
essas observações apóiam-se num número demasiado reduzido de fatos para que se pos- 
sam tirar conclusões precisas. Consegue-se descortinar algumas linhas muito vagas de 
demarcação e podemos tirar proveito das indicações que nos fornecem; mas são dema- 
siado pouco definidas para servirem de base a uma classificação regular. De mais a mais, 
dada a maneira como são executados a maior parte dos suicídios, é praticamente impos- 
sível obter informações de maneira conveniente. 

Mas podemos atingir o nosso objetivo por uma outra via. Bastará inverter a ordem 
das investigações. Com efeito. para que haja tipos diferentes de suicídios é necessário que 
as causas de que dependem sejam elas próprias de naturezas diferentes. Para que cada 
um deles possua uma natureza que lhe seja própria, é necessário que possua também 
condições de existência que lhe sejam específicas. Um mesmo antecedente ou um mesmo 
grupo de antecedentes não pode produzir ora uma consegiiência ora outra, pois, nesse 
caso, a diferença que distingue o segundo do primeiro não teria ela própria uma causa; 
o que significaria a negação do princípio da causalidade. Qualquer diferença específica 
constatada entre as causas implica portanto uma distinção semelhante quanto aos efei- 
tos. Por consegliência podemos definir os tipos sociais do suicídio sem que os classifi- 
quemos diretamente segundo as características previamente descritas, mas classificando 
as causas que os determinam. Sem nos preocuparmos em saber qual a razão por que são 
diferentes uns dos outros, procuraremos imediatamente quais as condições sociais de que 
dependem; reuniremos em seguida estas condições, segundo as semelhanças e diferenças 
apresentadas, num certo número de classes separadas, e poderemos estar certos de que a 
cada uma destas classes corresponderá um tipo determinado de suicídio. Em resumo, a 
nossa classificação, em vez de morfológica, será, logo à primeira vista, etiológica. Não se 
trata, aliás, de uma inferioridade, pois penetra-se muito mais na natureza de um fenô- 
meno quando se conhece a causa do que quando se conhecem unicamente as caracteris- 
ticas, mesmo as essenciais. 

É fato que este método tem o defeito de postular a diversidade dos tipos sem os atin- 
gir diretamente. Pode estabelecer a existência, o número, mas não as características 
distintivas. Mas é possível evitar este inconveniente, pelo menos numa certa medida. 
Logo que é conhecida a natureza das causas, poderemos tentar deduzir a natureza dos 
efeitos, que se encontrarão assim caracterizados e classificados simultaneamente em vir- 
tude de serem postos em relação com as suas origens respectivas. É certo que, se esta 
dedução não fosse orientada pelos fatos, arriscar-se-ia a diluir-se em combinações mera- 
mente fantasistas. Mas poderemos orientá-la com a ajuda de algumas informações de 
que dispomos, relativamente à morfologia dos suicídios. Estas informações, por si sós, 
são demasiado incompletas e demasiado incertas para poderem representar um princípio 
de classificação; mas poderão ser utilizadas a partir do momento em que as linhas gerais 
desta classificação estiverem definidas. Indicar-nos-ão em que sentido a dedução deverá 
ser dirigida e, pelos exempios que nos fornecerão, teremos a certeza de que as espécies 
assim constituídas dedutivamente não são imaginárias. Passaremos deste modo das cau- 
sas aos efeitos e a nossa classificação etiológica será completada por uma classificação 
morfológica que poderá servir para verificar a primeira e reciprocamente. 


O SUICÍDIO 481 


Este método invertido é, sob todos os aspectos, o único que convém ao problema 
particular que pusemos. Não se deve perder de vista, com efeito, que o que estudamos é 
a taxa social dos suicídios. Os únicos tipos que devem interessar-nos são portanto aque- 
les que contribuem para a sua formação e em função dos quais varia. Ora, não estã pro- 
vado que todas as modalidades individuais da morte voluntária tenham esta propriedade. 
Algumas há que, embora dotadas de um certo grau de generalidade, não estão, ou não 
estão suficientemente, ligadas ao temperamento moral da sociedade para poderem entrar. 
como elemento característico, na fisionomia particular que cada povo apresenta no 
respeitante ao suicídio. Vimos assim que o alcoolismo não constitui um fator que inter- 
vêm na inclinação específica de cada sociedade; e, no entanto, há evidentemente suici- 
dios provocados pelo alcoolismo, e em número bastante elevado. Não será portanto 
nunca uma descrição, ainda que bem feita, dos casos particulares, que poderá determinar 
aqueles que revestem um caráter sociológico. Se quisermos saber de que confluentes 
resulta o suicídio, considerado como fenômeno coletivo, é sob a sua forma coletiva, isto 
é, através dos dados estatísticos, que será necessário tomar diretamente como objeto de 
análise; é preciso partir do todo para chegar às partes. Mas é claro que só pode ser anali- 
sado em relação às causas diferentes de que depende; porque as unidades cuja adição 
forma a taxa social são por natureza homogêneas e não se distinguem qualitativamente. 
Devemos portanto consagrar-nos, sem mais demora, à determinação das causas, sob o 
risco de termos de investigar em seguida como se repercutem nos indivíduos. 


I 


Mas como atingir estas causas? 

Nas constatações judiciárias que se fazem cada vez que há um suicídio, aponta-se 
o motivo (desgosto da família, dor física ou outra, remorso, embriaguez, etc.) que se ad- 
mite ter sido a causa determinante e, nos resumos estatísticos de quase todos os países, 
encontra-se um quadro especial em que os resultados destes inquéritos estão reunidos 
sob o título: Motivos Presumidos dos Suicídios. Parece portanto natural aproveitar este 
trabalho já feito e começar a nossa investigação pela comparação destes documentos. 
Com efeito, ao que parece, revelam-nos os antecedentes imediatos dos diferentes suicií- 
dios; ora, cremos ser um bom método de estudo de qualquer fenômeno partir das causas 
mais próximas, sob risco de em seguida se ter de continuar a investigação se a primeira 
tentativa se revelar infrutífera. 

Mas, como já dizia Wagner hã muito tempo, aquilo a que se chama estatística dos 
motivos dos suicídios é, na realidade, uma estatística das opiniões que têm, sobre estes 
motivos, os funcionários, muitas vezes subalternos, encarregados deste serviço de infor- 
mações. Sabe-se, infelizmente, que as constatações oficiais são muitas vezes defeituosas, 
embora elas respeitem a fatos materiais e ostensivos que qualquer observador conscien- 
cioso pode compreender e que dispensam comentário. Mas quantas não devem ser consi- 
deradas como suspeitas quando têm por objetivo não registrar simplesmente um fato 
consumado, mas interpretá-lo e explicá-lo ! É sempre difícil precisar a causa de um fenó- 
meno. O sábio necessita de toda espécie de observações e de experiências para resolver 
uma única destas questões. Ora, de todos os fenômenos, as volições humanas são os mais 
complexos. Vê-se portanto o que podem valer estes juízos improvisados que, com base 
em algumas informações recolhidas à pressa, pretendem marcar uma origem definida 
nara cada caso particular. Logo que se crê ter descoberto entre os antecedentes da vítima 
alguns destes fatos que são em geral considerados como conduzindo ao desespero, julga- 
se inútil procurar mais e, conforme se considera que o sujeito perdeu recentemente 


482 DURKHEIM 


dinheiro, teve desgostos de família ou denota uma certa tendência para a bebida, incrimi- 
na-se ou a embriaguez ou os desgostos domésticos ou as decepções econômicas. Não se 
poderia aceitar informações mais suspeitas como base para uma explicação dos 
suicídios. 

Mas, mesmo que fossem mais dignas de fé, não poderiam prestar-nos grandes servi- 
ços, pois os motivos que são deste modo, certa ou erradamente, atribuídos aos suicídios, 
não constituem as verdadeiras causas. O que o demonstra é que os números proporcio- 
nais de casos, imputados pelas estatísticas a cada uma destas causas presumidas, man- 
têm-se quase idênticos, ainda que os números absolutos apresentem, pelo contrário, as 
variações mais consideráveis. Na França, de 1856 a 1878, o suicídio aumenta cerca de 
quarenta por cento e na Saxônia mais de cem por cento durante o período 1854-1880 
(1171 casos em vez de 547). Ora, nos dois países, cada categoria de motivos conserva de 
uma época para a outra a mesma importância relativa. É o que mostra o quadro XVII. 

Se se considera que os números citados não são e não podem ser senão aproxima- 
ções grosseiras, e, se, por consegiiência, não se dá grande importância a ligeiras diferen- 
ças, ter-se-á de reconhecer que se mantêm sensivelmente constantes. Mas, para que a 
parte contributiva de cada razão presumida se mantenha proporcionalmente a mesma, 
ainda que o suicídio esteja duas vezes mais desenvolvido, é necessário admitir que cada 
uma delas adquiriu uma eficácia dupla. Ora, não pode ser em virtude de um aconteci- 
mento fortuito que se tornam todas simultaneamente duas vezes mais mortiferas. Somos 
portanto forçosamente levados a concluir que estão todas na dependência de um estado 
mais geral de que são, quando muito, reflexos mais ou menos fiéis. É ele que faz com que 
estas razões se tornem mais ou menos suicidogêneas e, por consegiuência, é ele a verda- 
deira causa determinante dos suicídios. É portanto este estado que temos de atingir, se 
nos detivermos nas repercussões longínquas que pode ter nas consciências particulares. 

Um outro fato que fomos buscar a Legoyt mostra ainda mais claramente a que é 
que se reduz a ação causal destes diferentes motivos. Não há profissões mais diferentes 
uma da outra do que a agricultura e as funções liberais. A vida de um artista, de um 
sábio, de um advogado, de um oficial, de um magistrado não se assemelha em nada à de 
um agricultor. Pode-se portanto ter a certeza de que as causas sociais do suicídio não são 
as mesmas para uns e para outros. Ora, não só os suicídios destas duas categorias de 
sujeitos são atribuídos as mesmas razões, como ainda a importância respectiva destas 
diferentes razões é quase rigorosamente idêntica num e noutro caso. Eis, com efeito. 
quais foram na França, durante o período 1874-78, as proporções respectivas dos princi- 
pais motivos de suicídio nestas duas profissões: 


PROFISSÕES 
AGRICULTURA LIBERAIS 


Perda de emprego, reveses da sorte, miséria 
Desgostos de familia 

Amor contrariado e ciúme 

Embriaguez 

Suicídios de criminosos e delinquentes 
Dores físicas 

Doenças mentais 

Repulsa pela vida, contrariedades diversas 
Causas desconhecidas 


TOTAL 


O SUICÍDIO 483 


QUADRO XVII 


Repartição de cem suicídios anuais de cada sexo 
por categoria de motivos 


França? 1856-60 1874-78 1856-60 1874-78 


Miséria e 

reveses da sorte 
Desgosto de família .. 
Amor, ciúme, devassidão, 

mau procedimento '. 
Desgostos diversos 
Doenças mentais . 
Remorsos, 

receio de condenação 

depois de crime 
Outras causas e 

causas desconhecidas . 


TOTAL 


1854-78 1880 1854-78 1880 


Dores fisicas. e 
Desgostos domésticos ... 
Reveses da sorte e miséria 
Devassidão e jogo 
Remorsos, 

receio de perseguições, etc.. 
Amor infeliz . 
Perturbações mentais, 

loucura religiosa ... 
Cólera .... NR 
Repulsa pela vida .... 
Causas desconhecidas .. 


TOTAL 


º* Segundo Legoyt, pág. 342. 
1º Segundo Oettirgen, Moralstatistik, quadros anexos, pág. 110. 


484 DURKHEIM 


Salvo para a embriaguez, os valores, sobretudo aqueles que têm maior importância 
numérica, diferem muito pouco de uma coluna para a outra. Assim, se se tomassem uni- 
camente em consideração os motivos, poder-se-ia ser levado a crer que as causas suicido- 
gêneas são nos dois casos não só da mesma intensidade como da mesma natureza. E, no 
entanto, na realidade, são forças muito diferentes que levam o trabalhador e o elegante 
citadino ao suicídio. Quer isto dizer, portanto, que estas razões com que se justifica o sui- 
cídio ou que o suicida arranja para si próprio para explicar o ato não são, na maior parte 
das vezes, senão as causas aparentes. Não só não são senão as repercussões individuais 
de um estado geral, mas exprimem-no muito infielmente, dado que permanecem as mes- 
mas e que ele difere. Estas razões marcam, por assim dizer, os pontos fracos do indivi- 
duo, através dos quais a corrente que vem do exterior para incitá-lo a destruir-se se intro- 
duz mais facilmente. Mas não fazem parte da corrente e não podem, por conseguinte, 
ajudar-nos a compreendê-la. 

Vemos, portanto, sem mágoa, certos países, como a Inglaterra e a Áustria, recusarem 
estas pretensas causas de suicídio. Os esforços da estatística devem ser orientados num 
sentido muito diferente. Em lugar de procurar resolver estes problemas insolúveis de 
casuística moral, que note com mais cuidado as características sociais do suicídio. Em 
todo caso, quanto a nós, pusemo-nos como regra não fazer intervir nas nossas investiga- 
ções informações tão duvidosas quanto pouco instrutivas; efetivamente, os suicidógrafos 
nunca conseguiram retirar delas qualquer lei interessante. Só recorreremos a elas aciden- 
talmente quando nos parecerem ter um significado especial e apresentarem garantias 
particulares. Sem nos preocuparmos em saber sob que formas podem traduzir-se nos 
sujeitos particulares as causas produtoras do suicídio, trataremos de as determinar dire- 
tamente. Para tal, deixando de lado, por assim dizer, o indivíduo como indivíduo, os seus 
móbiles e as suas idéias, interrogar-nos-emos sobre o estado dos diferentes meios sociais 
(confissões religiosas, família, sociedade política, grupos profissionais, etc.), em função 
dos quais varia o suicídio. É só em seguida que, voltando aos indivíduos, investigaremos 
como estas causas gerais se individualizam para produzir os efeitos homicidas que as 
acompanham. 


Livro HI 


DO SUICÍDIO COMO FENÔMENO SOCIAL EM GERAL 


CAPÍTULO PRIMEIRO 


O elemento social do suicídio 


Agora que já conhecemos os fatores em função dos quais varia a taxa social dos 
suicídios, podemos precisar a natureza da realidade a que corresponde e que exprime 
numericamente. 


As condições individuais de que se admite a priori depender o suicídio são de duas 
espécies. 

Primeiramente temos a situação exterior em que se encontra colocado o agente. Os 
hemens que se matam tanto podem ter sofrido desgostos familiares ou decepções de 
amor-próprio como podem ter passado pela miséria ou pela doença ou ainda arrastarem 
o fardo de um erro moral, etc. Vimos no entanto que essas particularidades individuais 
não explicam a taxa social dos suicídios; na realidade esta varia em proporções conside- 
ráveis enquanto as diversas combinações de circunstâncias, que deste modo surgem 
como antecedentes imediatos dos suicídios particulares, apresentam sensivelmente a 
mesma frequência relativa. Concluiu-se portanto não serem estas as causas determi- 
nantes do ato que precedem. O papel importante que por vezes desempenham na delibe- 
ração não é uma prova da sua eficiência. Sabe-se, com efeito, que as deliberações huma- 
nas, da forma como as atinge a consciência refletida, são muitas vezes puramente 
formais, tendo como único objetivo corroborar uma resolução já tomada e motivada por 
razões que a consciência desconhece. 

Aliás, as circunstâncias que são consideradas como causas do suicídio pelo fato de 
o acompanharem frequentemente são em número quase infinito. Um se mata no bem-es- 
tar e outro na pobreza; um tinha uma vida familiar infeliz e o outro acabava de desfazer 
com o divórcio um casamento que o tinha feito infeliz. Aqui é um soldado que renuncia 
à vida após ter sido castigado por um erro que não cometera; além é um criminoso, cujo 
crime ficou impune, que se castiga a si próprio. Os fatos mais diversos e mesmo os mais 
contraditórios da vida podem servir igualmente de pretexto para o suicídio. Quer isto 
portanto dizer que nenhum deles é a sua causa específica. Será que pelo menos se pode 
atribuir esta causalidade às características comuns a todos eles? Mas será isto verdade? 
O máximo que se pode afirmar é que consistem geralmente em contrariedades, em desilu- 
sões, mas é impossível determinar a intensidade que devem atingir para provocar esta 
trágica consequência. Não existe desgosto, por mais insignificante que seja, que permita 
afirmar a priori que de forma alguma pode tornar a existência intolerável; por outro lado 
não existe nenhum que tenha necessariamente este efeito. Vemos homens resistir a des- 
graças horríveis enquanto outros se suicidam depois de aborrecimentos ligeiros. E, aliás, 


486 DURKHEIM 


mostramos que as pessoas que sofrem mais não são as que se matam mais. É antes o 
desafogo econômico que arma o homem contra si próprio. É nas épocas e nas classes em 
que a vida é menos dura que as pessoas a abandonam com mais facilidade. Em todo 
caso, se realmente acontecer que a situação pessoal da vítima seja a causa determinante 
da resolução, estes casos são certamente muito raros e, portanto, não será deste modo 
que se poderá explicar a taxa social dos suicídios. 

Assim, mesmo aqueles que atribuem uma influência determinante às condições indi- 
viduais relacionam-nas mais com a natureza intrínseca do sujeito que com estes inciden- 
tes exteriores. ou seja, com a sua constituição biológica e as características físicas de que 
esta depende. O suicídio foi assim apresentado como o produto de um certo tempera- 
mento, como um episódio da neurastenia, submetido à influência dos mesmos fatores que 
ela. No entanto não descobrimos nenhuma relação imediata e regular entre a neurastenia 
e a taxa social dos suicídios. Acontece inclusivamente que estes dois fenômenos variem 
na razão inversa um do outro, estando um no mínimo no momento exato e nos mesmos 
lugares em que o outro está no apogeu. Também não descobrimos relações definidas 
entre o movimento dos suicídios e os estados do meio físico que se consideram como 
tendo uma ação poderosa sobre o sistema nervoso, tais como a raça, o clima, a tempera- 
tura. É que, se o neuropata pode, dentro de certas condições, manifestar uma certa ten- 
dência para o suicídio, não está predestinado necessariamente a suicidar-se; e a ação dos 
fatores cósmicos não é suficiente para conduzir nesta direção precisa as tendências muito 
gerais da sua natureza. 

Muito diferentes são os resultados que obtivemos quando, abandonando o indiví- 
duo, procuramos na natureza das próprias sociedades as causas da inclinação que cada 
uma delas manifesta para o suicídio. Tanto eram equívocas e duvidosas as relações do 
suicídio com os fatores de ordem biológica e de ordem física quanto são imediatas e 
constantes com certos estados do meio social. Desta vez encontramo-nos enfim na pre- 
sença de verdadeiras leis que nos permitiram tentar estabelecer uma classificação metó- 
dica dos tipos de suicídios. As causas sociológicas que determinamos deste modo torna- 
ram compreensíveis estas concordâncias diversas atribuídas muitas vezes à influência de 
causas materiais em que se pretendeu ver uma prova desta influência. Se a mulher se 
mata muito menos do que o homem é porque está muito menos integrada na vida cole- 
tiva do que ele; portanto, ressente-se muito menos intensamente da ação boa ou má. O 
mesmo se passa em relação à criança e ao velho, ainda que por outras razões. E, por últi- 
mo, se o suicídio aumenta de janeiro até junho é porque a atividade social passa por 
variações idênticas. É portanto natural que os diferentes efeitos que produz estejam sujei- 
tos ao mesmo ritmo e sejam, por conseguinte, mais intensos durante o primeiro destes 
dois períodos: ora, o suicídio é um deles. 

De todos esses fatos resulta que a taxa social dos suicídios só se possa explicar 
sociologicamente. É a constituição moral da sociedade que fixa em cada instante o 
contingente dos mortos voluntários. Existe portanto para cada povo uma energia deter- 
minada que leva os homens a matarem-se. Os movimentos que o paciente executa e que 
à primeira vista parecem representar exclusivamente o seu temperamento pessoal consti- 
tuem, na realidade, a continuação e o prolongamento de um estado social que manifes- 
tam exteriormente. 

Eis portanto resolvido o problema que levantamos no início deste trabalho. Não é 
uma metáfora a afirmação que se faz a propósito das sociedades humanas, a saber, que 
têm uma tendência mais ou menos acentuada para o suicídio: a expressão baseia-se na 
natureza das coisas. Cada grupo social tem efetivamente uma inclinação coletiva especi- 


O SUICÍDIO 487 


fica para este ato da qual derivam as inclinações individuais, em vez de ser a primeira a 
derivar destas últimas. O que a constitui são as correntes de egoísmo, de altruísmo ou de 
anomia que atuam dentro da sociedade (em consideração) com as tendências para a 
melancolia langorosa ou para o renunciamento ativo ou para a lassidão exasperada, 
conseguências daquelas. São estas tendências da coletividade que, penetrando nos indivi- 
duos, os levam a matar-se. Quanto aos acontecimentos privados, que são geralmente 
considerados como as causas próximas do suicídio, têm como única ação a que lhe é 
atribuída pelas disposições morais da vítima, eco do estado moral da sociedade. Para 
explicar o desinteresse pela vida o sujeito recorre as circunstâncias que o rodeiam de 
forma imediata; acha a vida triste porque está triste. Sem dúvida que num certo sentido 
a tristeza lhe vem de fora mas não provém deste ou daquele incidente que se produziu na 
sua carreira, provêm do grupo de que faz parte. Eis a razão por que tudo pode servir de 
causa ocasional do suicídio, Tudo depende da intensidade com que agiram sobre o indi- 
víduo as causas suicidogêneas. 


H 


Aliás, a estabilidade da taxa social dos suicídios seria suficiente por si só para pro- 
var a exatidão desta conclusão. Se, por uma questão de método, nos pareceu que devia- 
mos manter o problema sem resolução até agora, é um fato que ele não pode ter outra 
além desta. 

Quando Quételet chamava a atenção dos filósofos ! * para a surpreendente regulari- 
dade com que certos fenômenos sociais se repetem durante períodos de tempo idênticos. 
Julgou poder explicá-la pela teoria do homem médio. que continua a ser, aliás, a única 
explicação sistemática dessa propriedade notável. Segundo ele, há em cada sociedade um 
tipo determinado que a generalidade dos indivíduos reproduz mais ou menos exatamente 
e de que unicamente a minoria tende a afastar-se sob a influência de causas perturba- 
doras. Há, por exemplo, um conjunto de características físicas e morais que se manifes- 
tam na maior parte dos franceses mas que não se encontram com a mesma intensidade 
nos italianos ou nos alemães e reciprocamente. Como, por definição, essas caracteris- 
ticas são de longe as mais fregientes, os atos que delas derivam são igualmente de longe 
OS mais numerosos; são eles que formam os grandes batalhões. Aqueles que. pelo contrá- 
rio, são determinados pelas propriedades divergentes são relativamente raros à seme- 
lhança das propriedades de que derivam. Por outro lado, sem que seja absolutamente 
inalterável, este tipo geral varia, no entanto, muito mais lentamente do que um tipo indi- 
vidual; pois é muito mais difícil uma modificação global da sociedade do que a modifica- 
ção deste ou daquele indivíduo em particular. Esta constância comunica-se naturalmente 
aos atos que derivam dos atributos característicos deste tipo; os primeiros permanecem 
os mesmos em grandeza e em quantidade desde que os segundos se mantenham inalte- 


11 Nomeadamente nas obras Sur Homme et le Développement de ses Facultés ou Essai de Physique Socia- 
le, 2 vols.. Paris, 1835, e Du Systême Social et des Lois que le Régissent, Paris, 1848. Ainda que Quételet 
seja O primeiro que tenta explicar cientificamente esta regularidade, não foi o primeiro a assinalá-la. O verda- 
deiro fundador da estatística moral é o pastor Sússmilch com a obra Die Góttliche Ordnung in den Verânde- 
rung des Menschlichen Geschlechts, aus der Geburt, dem Tode und der Fortpflanzung Desselben, Erwiesen, 
3 vols., 1742. Vide sobre o mesmo assunto: Wagner, Die Gesetzimassigkeit, etc., primeira parte: Drobisch. 
Die Moralische Statistik und die Menschliche Willensfreiheit, Leipzig, 1867 (sobretudo pãgs.1, 58): Mayr. 
Die Gesetz mássigkeit im Gesellschaftsleben, Munique, 1877; Oettingen, Moralstatistik, págs. 90 ss. 


488 DURKHEIM 


rados e, como estas maneiras de agir são também as mais usuais, é inevitável que a cons- 
tância seja a lei geral das manifestações da atividade humana suscetível de investigações 
estatísticas. Com efeito, o (técnico) estatístico estabelece a relação de todos os fatos de 
espécie idêntica que se produzem no seio de uma sociedade determinada. Portanto, dado 
que a maior parte desses permanece invariável desde que o tipo geral da sociedade não 
mude e dado que, por outro lado, esta mudança só se efetua dificilmente, os recensea- 
mentos estatísticos devem necessariamente ser iguais durante longas séries de anos 
consecutivos. Quanto aos fatos que derivam das características particulares e dos aciden- 
tes individuais, é verdade que não são obrigados a obedecer a uma tal regularidade; é por 
esta razão que a constância nunca é absoluta. No entanto, constituem uma exceção; e daí 
a invariabilidade ser a regra e a mudança a exceção. 

A este tipo geral Quételet deu o nome de tipo médio, visto ser obtido, quase exata- 
mente, fazendo a média aritmética dos tipos individuais. Por exemplo, se depois de ter- 
mos recenseado as alturas dos membros de uma sociedade somarmos estas e as dividir- 
mos pelo número dos indivíduos medidos, o resultado obtido exprime, com um grau de 
aproximação muito satisfatório, a estatura mais frequente. Porque podemos admitir que 
os desvios para mais ou para menos, os anões e os gigantes, apresentam uma fregiiência 
sensivelmente igual. Compensam-se, portanto, uns aos outros, anulam-se mutuamente e, 
por conseguinte, não afetam o quociente. 

A teoria parece muito simples. Mas, para que possa ser considerada como uma 
explicação, é necessário, primeiramente, que permita compreender a razão por que o tipo 
médio se realiza na generalidade dos indivíduos. Para que permaneça igual a si próprio, 
embora os indivíduos variem, é necessário que de certa forma seja independente deles; e, 
no entanto, é igualmente necessário que haja qualquer via que lhe permita insinuar-se 
neles. A questão, é fato, resolve-se por si só se admitirmos que este tipo médio se identi- 
fica com o tipo étnico. Porque os elementos constitutivos da raça, tendo as suas origens 
fora do indivíduo, não estão submetidos às mesmas variações que ele; e, no entanto, é 
nele e unicamente nele que se realizam. Concebe-se portanto muito bem que penetrem 
nos elementos propriamente individuais e que até lhes sirvam de base. Mas, para que esta 
explicação pudesse ser satisfatória no caso do suicídio, seria necessário que a tendência 
que leva o homem a matar-se dependesse intimamente da raça; ora, sabemos que os fatos 
contrariam esta hipótese. Será que o estado geral do meio social, sendo igual para a 
maior parte dos indivíduos, os afeta mais ou menos da mesma maneira e que portanto 
lhes imprime, em parte, uma fisionomia idêntica? Mas o meio social é essencialmente 
constituído por idéias, por crenças, por hábitos, por tendências comuns. Para que estes 
penetrem nos indivíduos é indispensável que tenham uma existência de certa forma inde- 
pendente da deles; aproximamo-nos então da solução que propusemos. Porque admiti- 
mos implicitamente que existe uma tendência coletiva para o suicídio da qual derivam as 
tendências individuais e, a partir daqui, a questão está em saber no que consiste e como 
age esta tendência coletiva. 

Mas há mais; seja qual for a explicação que se dê da generalidade do homem médio, 
esta concepção não pode, de forma alguma, justificar a regularidade com que se repro- 
duz a taxa social dos suicídios. Com efeito, por definição, as únicas características que 
definem este tipo são as que se encontram na maior parte da população. Ora, o suicídio 
é um ato praticado por uma minoria. Nos países em que se encontra mais desenvolvido 
contam-se, no máximo, trezentos a quatrocentos casos por milhão de habitantes. A ener- 
gia com que se manifesta o instinto de conservação no homem médio exclui-o radical- 
mente: o homem médio não se mata. Mas então, se a tendência para o suicídio é uma 


O SUICÍDIO 489 


raridade e uma anomalia, é completamente alheia ao tipo médio e, por conseguinte, um 
conhecimento ainda que profundo deste último está longe não só de nos ajudar a 
compreender a razão por que o número dos suicídios é constante numa determinada 
sociedade, como ainda a razão por que existem suicídios. Em definitivo, a teoria de Qué- 
telet assenta sobre uma observação inexata. Considerava como estabelecido que a cons- 
tância só se observa nas manifestações mais gerais da atividade humana; ora, observa-se 
igualmente, e em grau idêntico, nas manifestações esporádicas que se produzem unica- 
mente em raros e isolados pontos do campo social. Quételet julgava ter respondido a 
todos os desiderata ao mostrar como, rigorosamente, se podia tornar inteligível a 
invariabilidade do que não é excepcional; mas a própria exceção tem a sua invariabi- 
lidade que, aliás, não é inferior a nenhuma outra. Toda a gente morre; qualquer orga- 
nismo vivo é constituído de tal forma que a dissolução é inevitável. Pelo contrário, são 
poucos os que se matam; na imensa maioria dos homens nada há que os incline para o 
suicídio. E, contudo, a taxa dos suicídios é ainda mais constante do que a da mortalidade 
geral. Portanto, não há entre a difusão de uma característica e a sua permanência essa 
estreita solidariedade que pretendia Quételet. 

Aliás, os resultados a que conduz o seu método confirmam esia conclusão. Em vir- 
tude do princípio enunciado por Quêételet, para calcular a intensidade duma caracte- 
rística qualquer do tipo médio seria necessário dividir a soma dos fatos através dos quais 
se manifesta no seio da sociedade ' pelo número dos indivíduos aptos a produzi-los. 
Assim, num país como a França, onde durante muito tempo não houve mais do que 150 
suicídios por milhão de habitantes, a intensidade média da tendência para o suicídio 
exprimir-se-ia pela relação 150/1 000 000 = 0,00015; e na Inglaterra, em que não há 
senão oitenta casos para uma população idêntica, esta relação ê unicamente de 0,00008. 
Existe, portanto, no indivíduo médio, uma tendência desta grandeza para o suicídio. Mas 
tais números são praticamente iguais a zero. Uma inclinação tão fraca está tão longe do 
ato que pode ser considerada como nula. Não tem força suficiente para, por si só, deter. 
minar um suicídio. Não é por consegliência, a generalidade de uma tal tendência que 
pode explicar a razão por que tantos suicídios são anualmente cometidos numa ou nou- 
tra destas sociedades. E esta estimativa é ainda infinitamente exagerada. Quételet foi 
conduzido até ela pelo fato de atribuir arbitrariamente à média dos homens uma certa 
afinidade com o suicídio e de avaliar a energia desta intensidade através de manifesta- 
ções que só se observam num pequeno número de sujeitos excepcionais e nunca no 
homem médio. Utilizou-se, assim, o anormal para determinar o normal. 

Quételet pensava, é certo, escapar a esta objeção ao acrescentar que os casos anor- 
mais, produzindo-se uma vez num sentido outra vez no sentido oposto, se compensam e 
se anulam mutuamente. Mas esta compensação verifica-se unicamente no caso das 
características que se encontram, em diferentes graus, em todas as pessoas, como, por 
exemplo, a altura. Com efeito, admite-se que os sujeitos excepcionalmente altos ou 
excepcionalmente baixos sejam quase igualmente numerosos. A média destas estaturas 
exageradas deve ser, portanto, sensivelmente igual à estatura mais vulgar: por conse- 
guinte, esta é a única a sobressair do cálculo. Mas é o contrário que se produz quando 
se trata de um fato que é excepcional por natureza, como a tendência para o suicídio; 
neste caso, o processo de Quêtelet acaba por introduzir artificialmente no tipo médio um 
elemento que está fora da média. Sem dúvida, e acabamos de o constatar, este elemento 
surge num estado de extrema diluição precisamente porque o número dos indivíduos, 
entre os quais está fracionado, é muito superior ao que devia ser. Se o erro é pratica- 
mente pouco importante, não deixa, no entanto, de existir. 


490 DURKHEIM 


Na realidade, o que exprime a relação calculada por Quételet é simplesmente a 
probabilidade que existe de um homem, pertencente a um grupo social determinado, se 
matar durante o ano. Se, numa população de 100 000 almas há anualmente quinze suici- 
dios, pode-se concluir que há a probabilidade de quinze em 100 000 de que um sujeito 
qualquer se suicide durante esta unidade de tempo. Mas esta probabilidade não nos dá de 
forma alguma a medida da tendência média nem pode servir para provar que esta tendên- 
cia existe. O fato de tantos indivíduos em cem se matarem não implica que os outros 
estejam expostos ao mesmo, consoante um grau mais ou menos intenso, nem nos traz 
nada de novo sobre a natureza e a intensidade das causas que levam ao suicídio. !? 

Assim, a teoria do homem médio não resolve o problema. Retomemo-lo, portanto, 
e vejamos como se apresenta. Os suicidas constituem uma ínfima minoria, dispersa pelos 
quatro cantos do horizonte; cada um deles leva a cabo o seu ato individualmente sem 
saber que há outros que, por seu lado, fazem o mesmo; e, no entanto, enquanto a socie- 
dade não muda, o número dos suicidas mantém-se inalterado. É. portanto, necessário 
que todas estas manifestações individuais, por muito independentes que possam parecer, 
sejam, na realidade, o produto de uma mesma causa ou de um mesmo grupo de causas 
que dominam os indivíduos. Senão, como explicar que, todos os anos, estas vontades 
particulares, que se ignoram mutuamente, venham, em número igual, conduzir ao mesmo 
resultado? Não agem, em geral, umas sobre as outras; não existe nenhum acordo entre 
elas; e no entanto tudo se passa como se obedecessem à mesma palavra de ordem. 
Concluiu-se, portanto, que no meio comum que as rodeia existe uma força qualquer que 
as determina no mesmo sentido e cuja intensidade, mais ou menos acentuada, motiva um 
maior ou menor número de suicídios particulares. Ora os efeitos através dos quais se 
manifesta esta força não variam consoante os meios orgânicos e cósmicos mas exclusiva- 
mente consoante o estado do meio social. Quer isto dizer, portanto, que é coletiva. Ou, 
por outras palavras, cada povo tem uma tendência coletiva para o suicídio que lhe é 
específica e de que depende a importância do tributo que paga à morte voluntária. 

Nesta óptica, a invariabilidade da taxa dos suicídios, assim como a sua individuali- 
dade, não tem nada de misterioso. Porque, como cada sociedade tem um temperamento 
específico que não pode modificar de um dia para o outro e como esta tendência para o 
suicídio nasce da constituição moral dos grupos, é inevitável que varie dum grupo para 
outro e que se mantenha sensivelmente igual durante longos anos no seio de cada grupo. 
É um dos elementos essenciais da cenestesia social; ora, tanto nos seres coletivos como 
nos indivíduos, o estado cenestésico é o que há de mais pessoal e de mais inalterável, pois 
é o que há de mais fundamental. Mas, nesse caso, os efeitos que resultam deste estado 
devem ter a mesma personalidade e a mesma estabilidade. É natural que tenham uma 
estabilidade superior à da mortalidade geral. Porque a temperatura, as influências climá- 


*2 Estas considerações provam mais uma vez que a raça não explica a taxa social dos suicídios. Com efeito, 
o tipo étnico é também um tipo genérico; compreende unicamente os caracteres que são comuns à uma gran- 
de massa de indivíduos. Portanto, a raça não possui nada que chegue para determinar o suicídio: de outro 
modo, este teria uma generalidade que na realidade não possui. Pode-se perguntar se, sendo verdade que a 
raça não possui nenhum elemento que possa ser considerado como uma causa suficiente do suicídio, não 
pode, no entanto, em função das variações que apresenta, tornar os homens mais ou menos acessíveis à ação 
das causas suicidogêneas? Mas, ainda que os fatos corroborassem esta hipótese, o que não é verdade, seria- 
mos forçados a reconhecer que o tipo étnico seria fator com uma eficiência muito medíocre, pois que a 
influência presumida seria impedida de se manifestar na quase totalidade dos casos e só muito excepcional- 
mente é que se faria sentir. Em resumo, não é recorrendo à raça que conseguiremos explicar a razão por que, 
em um milhão de sujeitos que pertencem todos ao mesmo tipo étnico, há todos os anos unicamente cem ou 
duzentos que se matam. 


O SUICÍDIO 491] 


ticas, geológicas, em resumo, as condições diversas de que depende a saúde pública, va- 
riam muito mais facilmente de um ano para outro do que o humor das nações. 

Há, no entanto, uma outra hipótese, aparentemente diferente da precedente, que 
poderia seduzir alguns espíritos. Para resolver a dificuldade, não bastaria supor que os 
diversos incidentes da vida privada, que são habitualmente considerados como as causas 
determinantes do suicídio, se reproduzem regularmente e em proporções idênticas todos 
os anos? Todos os anos, dir-se-á,'º? há mais ou menos o mesmo número de casamentos 
infelizes, de falências, de ambições frustradas, de miséria, etc. É, portanto, natural que. 
colocados em número igual face a situações análogas, haja o mesmo número de indiví- 
duos a tomar a decisão que a situação exige. Não é necessário imaginar que cedem a 
uma força que os domina; basta supor que, em face das mesmas circunstâncias, racioci- 
nam de maneira semelhante. 

Mas nós sabemos que estes acontecimentos individuais, apesar de precederem, na 
quase generalidade, os suicídios, não são, na realidade, as causas destes. Insistamos., 
mais uma vez, em que não há nenhuma infelicidade na vida que leve um homem a 
matar-se se este não estiver, por uma razão diferente, inclinado para o suicídio. Portanto. 
a regularidade com que se reproduzem estas diversas circunstâncias não pode explicar a 
do suicídio. Além disso, seja qual for a influência que se lhes atribua, uma solução deste 
gênero limita-se a deslocar o problema sem o resolver. Porque é preciso explicar a razão 
da repetição destas situações desesperadas que se reproduzem de forma idêntica todos os 
anos de acordo com uma lei específica a cada país. Por que razão, para uma sociedade 
determinada, suposta estacionária, há sempre tantas famílias desunidas, tantas ruínas 
econômicas, etc.? Esta repetição regular dos mesmos acontecimentos, e que para um 
mesmo povo mantém proporções constantes, seria inexplicável se em cada sociedade não 
existissem correntes definidas que conduzem, com uma força determinada, os habitantes 
a aventuras comerciais e industriais, a ações de toda espécie que são de molde a pertur- 
bar o equilíbrio familiar, etc. Ora, isto significa voltar, sob uma forma ligeiramente dife- 
rente, à hipótese que se supunha ter eliminado. ! 4 


HI 


Mas esforcemo-nos por compreender claramente o sentido e o alcance dos termos 
que acabam de ser utilizados. 

Habitualmente, quando se faz referência a tendências ou paixões coletivas, tem-se 
propensão para encarar estas expressões unicamente como metáforas e maneiras de falar 


13 No fundo é a opinião exposta por Drobsoch no livro a que fizemos referência anteriormente. 

14 Esta argumentação não se aplica unicamente ao suicídio, ainda que seja especialmente convincente no 
caso deste. Aplica-se também ao crime sob todas as suas formas. O criminoso é, à semelhança do suicida, 
um indivíduo excepcional e, por conseguinte, não é a natureza do tipo médio que pode explicar os movimen- 
tos da criminalidade. Mas acontece o mesmo com o casamento ainda que a tendência para contrair matri- 
mônio seja mais geral que a inclinação para o suicídio ou para o crime. O número das pessoas que se casam 
representa, em todas as idades, uma pequena minoria em relação à população celibatária da mesma idade. 
Assim, na França, na casa dos vinte e cinco para os trinta anos, ou seja, no período em que a nupcialidade 
é mais elevada, há unicamente por ano 176 homens e 135 mulheres que se casam por mil celibatários de 
ambos os sexos (período 1877-81). Se, portanto, a tendência para o casamento, que é preciso não confundir 
com o gosto pelo comércio sexual, só tem a força suficiente para se satisfazer numa pequena minoria, não 
ê a energia que tem no tipo médio que explica o estado da nupcialidade num momento determinado. A verda- 
de é que, tanto aqui como no caso do suicídio, os números estatísticos exprimem. não a intensidade média 
das diposições individuais, mas a da força coletiva que leva ao casamento. 


492 DURKHEIM 


que não designam nada de real salvo uma espécie de média entre um certo número de 
estados reais. Manifesta-se uma recusa sistemática em considerá-las como coisas, como 
forças sui generis que dominam as consciências particulares. No entanto é esta a sua 
natureza e é isso que a estatística do suicídio demonstra brilhantemente. ' * Os indivíduos 
que compõem uma sociedade mudam de um ano para o outro; e, no entanto, o número 
dos suicídios permanece constante desde que a sociedade não mude. A população de 
Paris renova-se com uma extrema rapidez; contudo, a parte de Paris no conjunto dos sui- 
cídios franceses mantém-se sensivelmente constante. Ainda que bastem alguns anos para 
renovar o efetivo do exército, a taxa dos suicídios militares varia com uma lentidão extre- 
ma numa nação determinada. Em todos os países, a vida coletiva evolui durante o ano 
segundo um ritmo estável; aumenta aproximadamente de janeiro até julho e diminui em 
seguida. Assim, embora os membros das diferentes sociedades européias pertençam a 
tipos médios muito diferentes uns dos outros, as variações anuais e até mensais dos suicií- 
dios obedecem à mesma lei em toda a Europa. Da mesma forma, qualquer que seja a 
diversidade dos humores individuais, a relação entre a tendência para o suicídio das pes- 
soas casadas e a dos viúvos e viúvas é idêntica nos grupos sociais mais diversos, pela 
simples razão de que a relação entre o estado moral da viuvez e a constituição moral 
específica ao casamento é a mesma em todo o lado. As causas que fixam deste modo os 
mortos voluntários para uma sociedade ou para uma parte determinada da sociedade 
têm de ser, portanto, independentes dos indivíduos, dado que conservam a mesma inten- 
sidade quaisquer que sejam os sujeitos particulares sobre os quais se exerce a sua ação. 
Dir-se-á que é o tipo de vida que, sempre igual, produz sempre os mesmos efeitos. Sem 
dúvida, mas um tipo de vida é qualquer coisa cuja invariabilidade é necessário explicar. 
Se se mantém invariável enquanto se produzem modificações nas fileiras dos que o prati- 
cam, é impossível que sejam estes a conferir-lhe a sua autenticidade. 

Julgou-se que se eludia esta consequência com a observação de que a continuidade 
era, ela própria, obra dos indivíduos e que, por conseguinte, não era necessário conferir 
aos fenômenos sociais uma espécie de transcendência em relação à vida individual para 
Justificá-la. Com efeito, afirmou-se que “uma coisa social qualquer, uma palavra de uma 
lingua, um rito de uma religião, um segredo de profissão, um processo artístico, um arti- 
go de lei, uma máxima moral transmite-se e passa de um indivíduo, parente, patrão, 
amugo, vizinho, camarada, para outro indivíduo”. ! 8 

É evidente que, se se tratasse unicamente de explicar o processo pelo qual, de 
maneira geral, uma idéia ou um sentimento passa de uma geração para outra, pelo qual 
a recordação não se esvai, esta explicação poderia ser considerada, na pior das hipóteses, 
como suficiente.! ? Mas a transmissão de fatos tais como o suicídio e, de um modo mais 


*8 Não é, aliás, a única; como provamos na nota precedente, todos cs fatos da sociologia moral levam a 
esta conclusão. 

18 Vide Tarde, La Sociologie Élémentaire, in Annales de Institut International de Sociologie, pág. 213. 

"? Dizemos na pior das hipóteses porque não se pode considerar como resolvido o que há de essencial nesta 
questão. Com efeito, o que é importante, se se quer explicar esta continuidade, é mostrar, não única e 
simplesmente como os costumes em vigor num período não são esquecidos no periodo seguinte, mas também 
a razão por que conservam a autoridade e continuam a funcionar. Pelo fato de as novas gerações poderem 
conhecer, por intermédio das transmissões puramente interindividuais, o que faziam os antepassados não se 
deduz que sejam obrigadas a comportar-se de mode idêntico. O que é que as obriga a isso? O respeito pela 
tradição, a autoridade dos antepassados? Mas então a causa da continuidade não reside no fato de os indivi- 
duos transmitirem as idéias e os costumes, mas sim neste estado de espírito eminentemente coletivo que faz 
com que os antepassados sejam alvo, por parte deste ou daquele povo, de um respeito particular. Este estado 
de espírito impõe-se aos indivíduos. Tem inclusivamente, tal como a tendência para o suicídio, uma intensi- 
dade definida para cada tipo de sociedade que determina o maior ou menor conformismo com que os indiví- 
duos encaram a tradição. 


O SUICÍDIO 493 


geral, dos atos de toda espécie sobre os quais nos informa a estatística moral apresenta 
um caráter muito particular que não se pode apreender tão facilmente como isso. Com 
efeito, além de incidir na generalidade sobre uma certa maneira de agir, incide igual- 
mente sobre o número dos casos em que esta maneira de agir foi utilizada. Não só há sui- 
cídios todos os anos como, regra geral, são tão numerosos como os do ano precedente. 
O estado de espírito que leva os homens a matar-se não se transmite pura e simples- 
mente, mas, fato muito mais notável, transmite-se a um número igual de sujeitos que têm 
em comum o fato de se encontrar todos confrontados com situações idênticas. Como é 
isto possível se só estão indivíduos em jogo? Em si mesmo o número não pode ser alvo 
de nenhuma transmissão direta. A população atual não herdou da população do passado 
o conhecimento da importância do imposto que tem de pagar ao suicídio, e, no entanto, 
é exatamente a mesma se as circunstâncias não se alteraram. 

Será portanto necessário imaginar que cada suicida tem, por assim dizer, como ini- 
ciador e mestre uma das vítimas do ano anterior de que é o herdeiro moral? Só assim é 
possível conceber que a taxa social dos suicídios se perpetue por intermédio de tradições 
interindividuais. Porque, se o número total não pode ser transmitido por inteiro, é neces- 
sário que as unidades que o formam se transmitam individualmente. Cada suicida deve- 
ria, portanto, ter recebido a tendência de um dos seus predecessores e cada suicídio deve- 
ria ser como que um eco de um suicídio anterior. Mas não existe nenhum fato em que se 
possa basear esta espécie de filiação pessoal entre os vários acontecimentos morais que 
a estatística registra, por exemplo, este ano, e os acontecimentos similares que se produ- 
ziram no ano passado. É absolutamente excepcional, assim como o mostramos anterior- 
mente, que um ato seja provocado por um outro da mesma natureza. Aliás, por que 
razão se repetiriam estes ricochetes regularmente, todos os anos? Por que razão o fato 
gerador levaria um ano a produzir o seu semelhante? E, por último, por que razão daria 
origem a uma única cópia? Porque é necessário que, em média, cada modelo só se repro- 
duza uma vez: de outro modo, o total não seria constante. Dispensar-nos-ão de prolon- 
gar a análise de unia hipótese tão arbitrária quanto irrepresentável. Mas, se afastamos a 
hipótese de que a igualdade numérica dos contingentes anuais resulta do fato de que cada 
particular gera o seu semelhante no período posterior, então esta igualdade só pode pro- 
vir da ação permanente de uma causa qualquer, impessoal, que paira sobre todos estes 
casos particulares. 

É preciso, portanto, empregar os termos com rigor. As tendências coletivas têm 
uma existência que lhes é específica; são forças tão reais quanto as forças cósmicas, 
ainda que sejam de uma outra natureza: agem igualmente sobre o indivíduo a partir do 
exterior, ainda que seguindo outras vias. O que permite afirmar que a realidade das pri- 
meiras não é inferior à das segundas é que ela se demonstra de uma forma semelhante, 
a saber, pela constância dos efeitos. Quando constatamos que o número dos óbitos varia 
muito pouco de um ano para o outro, justificamos esta regularidade dizendo que a 
mortalidade depende do clima, da temperatura, da natureza do solo, em resumo, de um 
certo número de forças materiais que, sendo independentes dos indivíduos, se mantêm 
constantes enquanto as gerações mudam. Por conseguinte, dado que os atos morais tais 
como o suicídio se reproduzem com uma uniformidade não só igual como ainda supe- 
rior, devemos admitir que dependem também de forças exteriores aos indivíduos. 
Simplesmente, como estas forças só podem ser morais e como, para além do homem 
individual, não existe no mundo nenhum outro ser moral a não ser a sociedade, é neces- 
sário que elas sejam sociais. Mas, seja qual for o nome que se lhes dê. o que importa é 
reconhecer-lhes a realidade e concebê-las como um conjunto de energias que. a partir do 


494 DURKHEIM 


exterior, nos determinam a agir à semelhança das energias físico-químicas cuja açao 
sofremos. Efetivamente, são coisas tão sui generis, e não entidades verbais, que as pode- 
mos medir, comparar a sua grandeza relativa, ou seja, proceder do mesmo modo que 
para a intensidade de correntes elétricas ou luminosas. Assim, esta proposição funda- 
mental segundo a qual os fatos sociais são objetivos, proposição que tivemos oportuni- 
dade de definir num outro trabalho 'º e que consideramos como o princípio do método 
sociológico, vem encontrar na estatística moral e, sobretudo, na do suicídio, uma nova 
prova particularmente demonstrativa. É evidente que desafia o senso comum. Mas, cada 
vez que a ciência revelou aos homens a existência de uma força ignorada, teve sempre de 
enfrentar a incredulidade. Como é necessário modificar o sistema das idéias preestabele- 
cidas para dar lugar à nova ordem das coisas e elaborar novos conceitos, os espíritos 
resistem preguiçosamente. No entanto, é preciso que nos entendamos. Se a sociologia 
existe, só pode consistir no estudo de um mundo ainda desconhecido, diferente daqueles 


que estudam as outras ciências. Ora, este mundo ou é um mundo de realidades ou não é 
nada. 


Mas, precisamente porque esta concepção fere os preconceitos tradicionais, susci- 
tou objeções a que temos de responder. 

Em primeiro lugar implica que tanto as tendências como os pensamentos coletivos 
sejam de natureza diferente da das tendências e pensamentos individuais, que as primei- 
ras possuam características que estão ausentes das segundas. Ora, pergunta-se, como é 
isto possível se a sociedade se compõe exclusivamente de indivíduos? Mas sendo assim 
podemos também dizer que a natureza viva não possui nada que a matéria bruta não 
possua, pois que a célula é exclusivamente composta de átomos sem vida. Do mesmo 
modo, é um fato que as únicas forças ativas da sociedade são os indivíduos; simples- 
mente, ao unirem-se, os indivíduos formam um ser psíquico de uma nova espécie que, 
por conseguinte, tem a sua própria maneira de pensar e de sentir. Sem dúvida que as 
propriedades elementares de que resulta o fato social estão contidas em germe nos espíri- 
tos particulares. Mas o fato social só surge como tal a partir do momento em que estas 
são transformadas pela associação. A associação é também um fator ativo que produz 
efeitos especiais. Ora, em si mesma, ela é qualquer coisa de novo. Quando as consciên- 
cias, em vez de ficarem isoladas umas das outras, se agrupam e se combinam, há qual- 
quer coisa que mudou no mundo. Em seguida é natural que esta modificação implique 
outras, que esta novidade gere outras novidades, que apareçam fenômenos cujas proprie- 
dades características estão ausentes dos elementos que os compõem. 


O único meio de contestar esta proposição seria admitir que um todo é qualitativa- 
mente idêntico à soma das partes, que um efeito é qualitativamente reduzível à soma das 
causas que o geraram; o que redunda ou em negar toda e qualquer modificação ou em 
torná-la inexplicável. Chegou-se, no entanto, ao ponto de defender esta tese extrema ape- 
sar de só se encontrarem duas razões, verdadeiramente extraordinárias, que a justifi- 
quem. Afirmou-se, primeirô, que “na sociologia, por um privilégio singular, temos o 
conhecimento íntimo do elemento constituído pela nossa consciência individual assim 
como o do composto formado pelo conjunto das consciências”; segundo, que através 
desta dupla introspecção “verificamos claramente que, posto de lado o indivíduo, o so- 


cial não é nada”. !º 


A primeira asserção é uma negação ousada de toda a psicologia contemporânea. 


'8 Vide Reglês de la Méthode Sociologique, cap. II. 
'º Vide Tarde, op. cit. in Annales de [Institut de Sociologie, pág. 222. 


O SUICÍDIO 495 


Hoje em dia, reconhece-se unanimemente que a vida psíquica, longe de poder ser 
apreendida de uma forma imediata, tem, pelo contrário, abismos profundos em que o 
juízo íntimo não penetra e que só penosamente atingimos através de processos indiretos 
e complexos, análogos aos que utilizam as ciências do mundo exterior. É portanto neces- 
sário que, de futuro, a natureza da consciência deixe de ser misteriosa. A segunda propo- 
sição é profundamente arbitrária. O autor pode perfeitamente afirmar que a sua impres- 
são pessoal é que, para além do indivíduo, não existe nada de real na sociedade, mas 
faltam-lhe as provas para fundamentar esta opinião e, por conseguinte, a discussão tor- 
na-se impossível. Seria tão fácil opor a este sentimento o sentimento contrário de um 
grande número de pessoas que pensam a sociedade, não como a forma que adquire 
espontaneamente a natureza individual desenvolvendo-se exteriormente, mas como uma 
força antagonista que os limita e contra a qual lutam! Que pensar, aliás, desta intuição 
que nos permite conhecer diretamente e sem intermediário, não só o elemento, ou seja, o 
indivíduo, mas ainda o composto, isto é, a sociedade? Se, na verdade, bastasse abrir os 
olhos e olhar com atenção para se descobrirem imediatamente as leis do mundo social, 
a sociologia seria inútil ou pelo menos muito simples. Infelizmente os fatos mostram até 
que ponto a consciência é incompetente nesta matéria. Nunca por si só ela seria capaz de 
desconfiar da existência desta necessidade que faz renascer todos os anos, em número 
idêntico, os fenômenos demográficos, se não tivesse recebido um aviso do mundo exte- 


rior a este respeito. Ainda com mais razão, é incapaz, quando entregue a si própria, de 
descobrir as causas deste fato. 


No entanto, apesar de separarmos desta forma a vida social da vida individual, não 
temos de forma alguma a intenção de afirmar que ela não tem nada de psíquico. É evi- 
dente que, pelo contrário, é essencialmente formada por representações. Simplesmente, 
as representações coletivas são de uma natureza muito diferente da das representações 
individuais. Não vemos nenhum inconveniente em se afirmar que a sociologia é uma 
psicologia, se se tomar a precaução de acrescentar que a psicologia social tem as suas 
leis próprias que não são as mesmas da psicologia individual. O seguinte exemplo 
completará o nosso pensamento. Habitualmente, consideram-se como origem da religião 
as impressões de medo ou de deferência que os seres misteriosos e temidos inspiram aos 
sujeitos conscientes; desta óptica, a religião surge como o simples desenvolvimento de 
estados individuais e de sentimentos privados. Mas esta explicação simplista não tem 
relação com os fatos. Basta ver que no reino animal, onde a vida social é sempre muito 
rudimentar, a instituição religiosa é desconhecida, que esta só aparece onde há uma orga- 
nização coletiva, que muda consoante a natureza das sociedades, para se poder concluir 
que só os homens em grupo pensam religiosamente. Nunca o indivíduo teria concebido 
a idéia de forças que o ultrapassam tão infinitamente, a ele e a tudo o que o rodeia, se 
não conhecesse mais nada do que ele próprio e o universo físico. Não foram as grandes 
forças naturais que conhece que lhe inspiraram esta noção; porque, no início, estava 
longe de saber, como acontece hoje em dia, até que ponto estas forças o dominavam; jul- 
gava, pelo contrário, poder controlá-las à vontade dentro de certas condições.?º Foi com 
a ciência que aprendeu a medir a sua inferioridade. O poder que deste modo conquistou 
o respeito do indivíduo e que se tornou o objeto da sua adoração é a sociedade, de que 
os deuses foram unicamente a forma substancial. Definitivamente, a religião é o sistema 
de símbolos através dos quais a sociedade toma consciência de si própria; é a maneira de 
pensar do ser coletivo. Eis, portanto, um vasto conjunto de estados mentais que não se te- 


20 Vide Frazer, Golden Bough, pág. 9 ss. 


496 DURKHEIM 


riam produzido se as consciências particulares não estivessem unidas, que resultam desta 
união e que se adicionam aos que derivam das naturezas individuais. Por mais que se 
analisem estas últimas tão minuciosamente quanto possível, nunca se descobrirá nada 
nelas que explique o processo de criação e do desenvolvimento destas crenças e destes 
costumes religiosos de que nasceu o totemismo, a maneira como geraram o naturismo e 
como o próprio naturismo se transformou, aqui na religião abstrata de Javé, além no 
politeísmo dos gregos e dos romanos, etc. Ora, o que pretendemos dizer quando defende- 
mos a heterogeneidade do social e do individual é que as observações precedentes se apli- 
cam não só à religião mas também ao direito, à moral, às modas, às instituições políti- 
cas, aos métodos pedagógicos, etc., em resumo, a todas as formas de vida coletiva.?' 

Mas há uma outra objeção que nos foi levantada e que, à primeira vista, pode pare- 
cer mais grave. Não só admitimos que os estados sociais diferem qualitativamente dos 
estados individuais, como ainda que são, num certo sentido, exteriores aos indivíduos. 
Vamos mesmo mais longe e comparamos esta exterioridade com a das forças físicas. 
Mas, perguntou-se, se a sociedade se compõe única e exclusivamente de indivíduos como 
é possível que exista qualquer coisa que lhes seja exterior? 

Se a objeção tivesse fundamento, estaríamos em presença de uma antinomia. Por- 
que é preciso não esquecer o que foi estabelecido precedentemente. Dado que a pequena 
minoria de pessoas que se matam todos os anos não constitui um grupo natural, não 
estão em contato umas com as outras, o número constante de suicídios só pode ser devi- 
do à ação de uma causa comum que domina os indivíduos e que lhes sobrevive. A força 
que determina a unidade do feixe formado pela multidão dos casos particulares espalha- 
dos pela superfície do globo deve, necessariamente, ser exterior a cada um deles. Se, por- 
tanto, fosse realmente impossível que ela lhes fosse exterior, o problema seria insolúvel. 
Mas a impossibilidade é só aparente. 

Primeiramente, não é verdade que a sociedade seja composta exclusivamente de 
indivíduos; abrange, também, coisas materiais que desempenham um papel essencial na 
vida coletiva. Por vezes, o fato social materializa-se, tornando-se um elemento do mundo 
exterior. Por exemplo, um determinado tipo de arquitetura é um fenômeno social; ora, 
este se encarna, em parte, nas casas, em toda espécie de edifícios que, uma vez construí- 
dos, se tornam realidades autônomas, independentes dos indivíduos. Assim acontece 
com os meios de comunicação e de transporte, com os instrumentos e as máquinas utili- 
zadas na indústria ou na vida privada e que exprimem o estado da técnica nos diferentes 
momentos da história, da linguagem escrita, etc. A vida social que é deste modo como 
que cristalizada e fixada nos suportes materiais, exterioriza-se, e é a partir do exterior 
que age sobre nós. Os meios de comunicação que foram construídos no passado impri- 
mem ao andamento dos negócios atuais uma direção determinada, na medida em que nos 
põem em contato com um grupo de países determinados. A criança elabora o senso artís- 
tico quando entra em contato com os monumentos de cunho nacional, herdados das 
gerações passadas. Inclusive vê-se, por vezes, um desses monumentos cair no esqueci- 
mento durante séculos e renascer posteriormente, quando as nações que o tinham erigido 
já desapareceram há muito, para recomeçar, no seio de novas sociedades, uma existência 


21 Acrescentemos, para evitar qualquer interpretação inéxata, que não queremos dizer com isto que exista 


um ponto preciso em que termina o individual e em que começa o social. A associação não se estabelece de 
uma só vez e não produz todos os seus efeitos de forma imediata; necessita de tempo e, consequentemente, 
há momentos em que a realidade é indecisa. Assim, transita-se, sem interrupções, de uma ordem de fatos 
para uma outra; mas não é razão para não fazermos uma distinção entre eles. De outro modo, se se admi- 
tisse que não há gêneros distintos e que a evolução é contínua, não haveria no mundo nada que se 
distinguisse. 


O SUICÍDIO 497 


nova. É o que caracteriza esse fenômeno muito particular a que se chama as renascenças. 
Uma renascença é vida social que, depois de se ter como que cristalizado nas coisas e 
permanecido latente durante muito tempo, desperta subitamente e vem modificar a orien- 
tação intelectual de povos que não tinham participado na sua criação. É evidente que 
este despertar não seria possível se as consciências vivas não estivessem presentes para 
receber a sua ação; mas, por outro lado, estas consciências teriam pensado e sentido de 
maneira muito diferente caso esta ação não se tivesse produzido. 

Pode-se fazer uma observação idêntica a respeito das fórmulas definidas em que se 
condensam ou os dogmas da fé ou os preceitos do direito quando aqueles e estes se fixam 
exteriormente sob uma forma consagrada. Seguramente que por muito bem redigidas que 
estivessem seriam totalmente ineficazes se não houvesse ninguém para apreendê-las e 
pô-las em prática. No entanto, apesar de não serem tudo, não deixam de ser fatores sui 
generis da atividade social, visto que têm um modo de ação que lhes é peculiar. As rela- 
ções jurídicas diferem consoante se trate do direito escrito ou não. Quando existe um có- 
digo elaborado, a jurisprudência é mais regular mas menos flexível, a legislação mais 
uniforme mas também mais inalterável. Adapta-se menos facilmente à diversidade dos 
casos particulares e opõe uma maior resistência às tentativas inovadoras. As formas 
materiais que reveste não são, portanto, simples combinações verbais sem eficiência mas 
realidades ativas visto que provocam efeitos que não se produziriam se elas não existis- 
sem. Ora, não só estas formas materiais são exteriores aos indivíduos como é a exteriori- 
dade que lhes confere o caráter específico. É porque são menos acessíveis aos indivíduos 
que estes as adaptam menos facilmente às circunstâncias e, ao mesmo tempo, é isso que 
as torna mais refratárias às mudanças. 

Todavia é incontestável que nem toda consciência social consegue exteriorizar-se e 
materializar-se a este grau. A estética nacional não se concentra integralmente nas obras 
que inspira; os preceitos definidos não esgotam toda a moral. A maior parte dela fica 
difusa. A liberdade caracteriza uma parte da vida coletiva; as mais variadas espécies de 
correntes vão, vêm, circulam em todas as direções, cruzam-se e misturam-se de mil e 
uma maneiras diferentes e precisamente porque estão num perpétuo estado de mobili- 
dade não chegam a tomar uma forma objetiva. Hoje é um vento de tristeza e de desenco- 
rajamento que sopra sobre a sociedade; amanhã, pelo contrário, será um sopro de alegre 
confiança que virá aliviar os corações. Durante um tempo, todo o grupo se orienta para 

.O individualismo; vem um outro período e são as aspirações sociais e filantrópicas que se 
tornam preponderantes. Ontem era-se cosmopolita, hoje é-se patriota. E todos estes rede- 
moinhos, todos estes fluxos e refluxos, se produzem sem que os preceitos cardinais do 
direito e da moral, imobilizados dentro de formas hieráticas, sofram a menor alteração. 
Aliás, estes preceitos limitam-se a exprimir uma vida subjacente de que fazem parte; 
resultam dela mas não a suprimem. Na base de todas estas máximas jazem sentimentos 
atuais e vivos que estas fórmulas resumem mas de que são unicamente a capa superficial. 
Não provocariam nenhum eco se não correspondessem a emoções e impressões concre- 
tas espalhadas pela sociedade. Portanto, quando lhes atribuímos uma realidade, não 
pretendemos transformá-las na realidade global. Isso seria tomar o sinal pela coisa assi- 
nalada. Um sinal é seguramente qualquer coisa; não é uma espécie de epifenômeno 
super-rogatório; hoje está-se ciente do papel que ele desempenha no desenvolvimento 


intelectual. Mas de qualquer modo não passa de um sinal.?? 


2? Julgamos que depois desta explicação não haverá ninguém que nos acuse de pretendermos, na sociolo- 
gia, substituir o interior pelo exterior. Partimos do exterior, que nos é imediatamente acessível, com o obje- 
tivo de atingir o interior. O processo é, confessamo-lo, complicado; mas não podemos recorrer a outro se 
- Queremos evitar que a investigação acabe por incidir, não sobre a ordem de fatos que se pretende estudar, 
mas sobre o sentimento pessoal que temos a seu respeito. 


498 DURKHEIM 


Mas. porque esta vida não possui um grau de consistência suficiente para se poder 
fixar, não deixa por isso de ter um caráter semelhante ao dos preceitos formulados a que 
nos referimos há pouco. É exterior aos indivíduos médios considerados individualmente. 
Eis, por exemplo, que um grande perigo público provoca uma exacerbação do sentimento 
patriótico. Resultará um impulso coletivo em virtude do qual a sociedade, no seu conjun- 
to, imporá como axioma que os interesses particulares, inclusive aqueles que eram habi- 
tualmente considerados como os mais responsáveis, dêem primazia ao interesse comum. 
E o princípio não é unicamente enunciado como uma espécie de desideratum; se necessá- 
rio, será aplicado à letra. Observai nesse momento a média dos indivíduos ! Encontrareis 
certamente alguma coisa deste estado moral num grande número deles mas infinitamente 
atenuado. São raros aqueles que, mesmo em tempo de guerra, estão prontos espontanea- 
mente a uma abdicação tão completa de si próprios. Portanto, a corrente coletiva é quase 
exclusivamente exterior às consciências particulares que compõem a grande massa da 
nação, dado que cada uma delas só contém uma parcela desta corrente. 

Pode-se formular uma observação idêntica a propósito de sentimentos morais mais 
estáveis e fundamentais. Por exemplo, qualquer sociedade respeita a vida humana em 
geral, com uma intensidade que se pode determinar e medir através da gravidade relati- 
va2º das penas que sancionam o homicídio. Por outro lado, o homem médio partilha 
também este sentimento, mas de uma forma muito menos acentuada e muito diferente da 
da sociedade. Para termos uma idéia desta diferença, basta comparar a emoção que sen- 
timos pessoalmente quando vemos um assassino ou quando somos testemunhas de um 
crime, e a que sentem, nas mesmas circunstâncias, as multidões concentradas. Conhe- 
cem-se os extremos a que podem chegar se não houver nada que se lhes oponha. É que, 
neste caso, a cólera é coletiva. Ora, a diferença que existe entre a maneira como a socie- 
dade ressente estes atentados e a maneira como estes afetam os indivíduos manifesta-se 
a todo momento; ou seja, entre a forma individual e a forma social do sentimento que 
ofendem. A indignação social é de tal forma enérgica que muitas vezes só se satisfaz com 
a expiação suprema. Individualmente, se a vítima nos for desconhecida ou alguém que 
nos é indiferente, se o autor do crime não pertencer ao nosso meio e, portanto, não repre- 
sentar uma ameaça direta para a nossa pessoa, ainda que achemos justo que o ato seja 
punido, não sentimos uma emoção suficientemente forte para termos sede de vingança. 
Não daremos um passo para descobrir o culpado; repugnar-nos-ia inclusivamente entre- 
gá-lo à polícia. A coisa só muda de aspecto a partir do momento em que a opinião pú- 
blica se encarrega do caso. Tornamo-nos então mais exigentes e mais ativos. Mas é a opi- 
nião que fala pela nossa boca; é sob a pressão da coletividade que agimos e não como 
indivíduos isolados. 

Na maior parte das vezes, a distância entre o estado social e as repercussões indivi- 
duais que provoca é ainda mais considerável. No caso precedente, quando o sentimento 
coletivo se individualizava, conservava ainda, na maior parte dos sujeitos, a força sufi- 
ciente para se opor aos atos que o contrariavam; o horror pelo sangue humano está hoje 
suficientemente bem arreigado na generalidade das consciências para evitar a manifesta- 


23 Para determinarmos se este sentimento de respeito é mais forte nesta sociedade do que naquela não pode- 
mos considerar unicamente a violência intrínseca das medidas que constituem a repressão; devemos também 
considerar o lugar que a pena ocupa na escala penal tanto hoje como nos séculos passados. O assassinato 
sóé punido com a morte. Mas hoje em dia a pena de morte simples tem uma maior gravidade relativa; por- 
quanto constitui o castigo supremo enquanto no passado podia ainda ser agravada. E dado que estas agrava- 
ções não se aplicavam nessa época ao assassinato comum, concluiu-se, portanto, que este era alvo de uma 
menor reprovação. 


O SUICÍDIO 499 


ção de idéias homicidas. Mas o simples desvio de dinheiro, a fraude silenciosa e isenta de 
violência, está longe de nos inspirar a mesma repulsa. Não são muito numerosos os que 
têm o respeito suficiente pelos direitos de outrem para esmagarem no embrião qualquer 
tentação de enriquecimento injusto. É fato que a educação desenvolve uma certa aversão 
pelos atos que são contrários à egiiidade. Mas quanta distância entre este sentimento 
vago, hesitante, sempre disposto aos compromissos, e o estigma categórico, sem reservas 
nem reticências, com que a sociedade sanciona o roubo sob todas as suas formas! E que 
diremos de tantos outros deveres ainda menos enraizados no homem médio como o que 
nos ordena que contribuamos com a nossa parte para as despesas públicas, que não 
defraudemos o fisco, que não procuremos habilmente evitar o serviço militar, que cum- 
pramos lealmente os nossos contratos, etc. Se, em todos estes aspectos, a moralidade 
fosse unicamente assegurada pelos sentimentos vacilantes das consciências médias, seria 
singularmente precária. 

É, portanto, um erro fundamental confundir, como tantas vezes tem acontecido, o 
tipo coletivo duma sociedade com o tipo médio dos indivíduos que a compõem. O 
homem médio tem uma moralidade muito medíocre. Só as máximas mais essenciais da 
ética estão gravadas nele com alguma força e mesmo assim nunca com a precisão e a 
autoridade com que se manifestam no tipo coletivo, isto é, no conjunto da sociedade. 
Esta confusão em que caiu precisamente Quételet transforma a questão da gênese da 
moral num problema incompreensível. Pois se o indivíduo é, em geral, de uma tal medio- 
cridade, como é possível que se tenha criado uma moralidade que o ultrapassa tão 
incontestavelmente e que exprime unicamente a média dos temperamentos indivi- 
duais? Só por milagre é que o mais pode nascer do menos. Se a consciência comum coin- 
cide com a consciência mais geral, não é possível que vá além do nível vulgar. Mas então 
donde provêm estes preceitos elevados e claramente imperativos que a sociedade se 
esforça por inculcar nas crianças e por fazer respeitar aos seus membros? Não é sem 
razão que as religiões e, no seu seguimento, tantos filósofos consideraram que a moral só 
podia ter realidade total em Deus. É que o pálido e muito incompleto esboço que as cons- 
ciências individuais fazem dela não pode ser considerado como o tipo original. Asseme- 
lha-se mais a uma reprodução infiel e grosseira de um modelo que deve existir em qual- 
quer lado fora dos indivíduos. É por isso que, com o seu simplismo vulgar, a imaginação 
popular o identifica com Deus. É evidente que a ciência não é obrigada a preocupar-se 
com esta concepção que nem sequer é suposta conhecer.? * Simplesmente, se a pomos de 
lado, não temos outra alternativa senão a de deixar a moral ao acaso e inexplicada, ou 
então a de a considerarmos como um sistema de estados coletivos. Ou bem que não pro- 
vém de nada que pertença ao mundo da experiência, ou bem que vem da sociedade. Só 
pode existir numa consciência; se não for na do indivíduo é na do grupo. Mas, então, for- 
çoso nos é admitir que a segunda, em vez de se confundir com a consciência média, a 
ultrapassa em todos os sentidos. 

A observação confirma a hipótese. Por um lado, a regularidade dos dados estatís- 
ticos implica que existam tendências coletivas, exteriores ao individuos; por outro lado, 
num número considerável de casos importantes, podemos constatar esta exterioridade 
diretamente. Aliás, esta não tem nada de surpreendente para quem reconhecer a hetero- 


24 Da mesma forma que a ciência da física não tem que discutir a fé em Deus, criador do mundo físico, 
também a ciência moral não é suposta conhecer a doutrina que considera Deus como o criador da moral. A 
questão não é da nossa competência; não temos que lhe dar qualquer resposta. Só temos que nos preocupar 
com as suas causas secundárias. 


500 DURKHEIM 


geneidade dos estados individuais e dos estados sociais. Com efeito, por definição, estes 
últimos só podem chegar até nós vindos do exterior, dado que não provêm das nossas 
predisposições pessoais; sendo constituídos por elementos que nos são alheios, exprimem 
outra coisa que não nós próprios. É evidente que, na medida em que estamos totalmente 
unidos ao grupo e em que vivemos a vida através dele, estamos expostos à influência des- 
tes estados sociais; mas, inversamente, no caso de sermos possuidores de uma personali- 
dade distinta da do grupo, ser-lhes-emos refratários e tentaremos escapar-lhes. E, como 
não existe ninguém que não leve concomitantemente esta existência dupla, acontece que 
cada um de nós está animado simultaneamente por um duplo movimento. Somos condu- 
zidos no sentido social e temos tendência para seguir a propensão da nossa natureza. O 
resto da sociedade exerce, portanto, pressão sobre nós com o objetivo de conter as nossas 
tendências centrifugas e, pelo nosso lado, nós contribuímos para exercer pressão sobre 
outrem a fim de neutralizar as suas. Nós próprios sofremos a pressão para a qual contri- 
buímos com o fim de a exercer sobre os outros. Estão em presença duas forças antago- 
nistas. Uma tem origem na coletividade e tenta apoderar-se do indivíduo; a outra vem do 
indivíduo e repele a precedente. A primeira é, efetivamente, bastante superior à segunda, 
pois resulta de uma combinação de todas as forças particulares; mas como se lhe depa- 
ram tantas resistências quantos os sujeitos particulares existentes, gasta-se parcialmente 
nestas lutas numerosas e penetra-nos já desfigurada e enfraquecida. Quando é muito 
intensa, quando as circunstâncias que a fazem agir se repetem frequentemente, pode 
ainda marcar fortemente as constituições individuais; suscita nelas estados caracteri- 
zados por uma certa vivacidade e que, uma vez organizados, funcionam com a esponta- 
neidade própria do instinto; é o que acontece com as idéias morais mais essenciais. Mas 
a maior parte das correntes sociais ou é demasiado fraca ou não está em contato conosco 
senão de uma forma demasiado intermitente para poder desenvolver raízes profundas; a 
sua ação é superficial. Consegientemente, permanecem sempre totalmente externas. 
Assim, o processo de calcular um elemento qualquer do tipo coletivo não consiste em 
medir a grandeza que adquire nas consciências individuais e de fazer em seguida a média 
de todas estas medidas; é de preferência a soma que deveríamos fazer. Mas este processo 
de avaliação está ainda muito aquém da realidade; porque desta forma obter-se-ia o sen- 
timento social desfalcado de tudo o que perdeu quando se individualizou. 


Portanto, a afirmação de que a nossa concepção é escolástica e que fundamenta os 
fenômenos sociais sobre não sabemos que princípio vital de um novo gênero revela uma 
certa leviandade. Se nos recusamos a admitir que os fenômenos sociais tenham como 
substrato a consciência individual, conferimos-lhes, no entanto, um outro: o que é forma- 
do pela união e pela combinação de todas as consciências individuais. Este substrato não 
tem nada de substancial nem de ontológico dado que não é mais do que um todo com- 
posto por partes. Mas não deixa de ser tão real quanto o são os elementos que o com- 
põem; visto que também estes são constituídos da mesma maneira. São igualmente com- 
postos. Com efeito, sabe-se hoje que o eu é a resultante de uma multidão de consciências 
sem eu; que cada uma destas consciências elementares é por sua vez o produto de unida- 
des vitais sem consciência assim como cada unidade vital é formada por uma associação 
de partículas inanimadas. Se, portanto, o psicólogo e o biólogo têm razão ao considerar 
bem fundamentados os fenômenos que estudam, pela simples razão de que estes estão 
ligados a uma combinação de elementos de ordem imediatamente inferior, por que razão 
seriam as coisas diferentes no que respeita à sociologia? E, no entanto, esses, que não 
renunciaram à hipótese de uma força vital e de uma alma substancial, seriam os únicos 
que poderiam considerar como insuficiente uma base deste gênero. Assim, não há nada 


O SUICÍDIO 501 


de menos estranho do que esta proposição com que alguns acharam por bem deverem 
escandalizar-se:? º Uma crença ou uma prática social é suscetível de existir independen- 
temente do modo como se exprime individualmente. É evidente que não pretendíamos 
dizer com isto que a sociedade pode existir sem indivíduos, absurdidade tão manifesta 
que nos poderiam poupar a simples suspeita de a termos algum dia afirmado. Mas achá- 
vamos: primeiro, que o grupo formado pelos indivíduos associados é uma realidade de 
espécie diferente da do indivíduo isolado; segundo, que os estados coletivos existem no 
grupo de natureza idêntica à deles, antes de atingirem o indivíduo como tal e de se orga- 
nizarem nele, sob uma nova forma, para iniciarem uma existência puramente interior. 

Esta maneira de encarar as relações entre o individuo e a sociedade faz lembrar, 
aliás, a idéia que os zoologistas contemporâneos estão inclinados a aceitar acerca das 
relações entre aquele e a espécie ou a raça. A teoria muito simples segundo a qual a espé- 
cie não seria senão um indivíduo perpetuado no tempo e generalizado no espaço está 
cada vez mais posta de lado. Com efeito, esbarra-se contra o fato de as variações que um 
sujeito acusa só se tornarem específicas em casos muito raros e talvez duvidosos. * º Os 
caracteres distintos da raça só se alteram no indivíduo se se alterarem na raça em geral. 
Portanto, em vez de a raça ser uma generalização das formas individuais, deveria ter al- 
guma realidade da qual pudessem derivar as formas diversas que adquire nos seres parti- 
culares. Sem dúvida que não podemos considerar estas doutrinas como definitivamente 
demonstradas. Mas basta-nos mostrar que as nossas concepções sociológicas, embora 
não sejam copiadas de outras investigações, apresentam, no entanto, certas analogias 
com as ciências mais positivas. 


IV 


Apliquemos esta idéia à questão do suicídio; a solução que apresentamos no início 
deste capítulo adquirirá uma maior precisão. 

Não há ideal moral que não alie, em proporções que variam consoante as socieda- 
des, o egoísmo, o altruísmo e uma certa anomia. Porque a vida social pressupõe simulta- 
neamente que o indivíduo tenha uma certa personalidade de que estará pronto a abdicar 
se a comunidade assim o exigir e que seja de certa forma receptivo a idéias de progresso. 
É por isso que não existe nenhum povo em que não coexistam estas três correntes de opi- 
nião que solicitam o homem em três direções divergentes e até mesmo contraditórias. 
Quando estas três correntes se compensam mutuamente, o agente moral encontra-se num 
estado de equilíbrio que o preserva de qualquer idéia de suicídio. Mas, se uma delas 
ultrapassar um certo grau de intensidade em prejuízo das outras, tornar-se-á, ao indivi- 
dualizar-se e pelas razões expostas, suicidogênea. 

Naturalmente, quanto mais forte for a corrente tantos mais sujeitos contaminará de 
forma suficientemente profunda para os levar ao suicídio e inversamente. Mas, por sua 
vez, esta intensidade só pode estar dependente dos três seguintes fatores: primeiro, a 
natureza dos indivíduos que compõem a sociedade; segundo, a maneira como estão asso- 
ciados, ou seja, a natureza da organização social; terceiro, os acontecimentos passa- 
geiros que perturbam o funcionamento da vida coletiva sem alterar no entanto a consti- 
tuição anatômica desta, tais como as crises nacionais, econômicas, etc. As propriedades 


25 Vide Tarde, op. cit., pág. 212. 
26 Vide Delage, Structure du Protoplasme, passim; Weissmann, L'Heérédité, e todas as teorias que se apro- 
ximam das de Weissmann. 


502 DURKHEIM 


individuais são as únicas a poderem desempenhar um papel que é comum a todos os 
indivíduos. Porque as que são estritamente pessoais ou que não pertencem senão a 
pequenas minorias diluem-se na massa formada pelas outras; além disso, como diferem 
umas das outras, neutralizam-se e anulam-se mutuamente durante a elaboração de que 
resulta o fenômeno coletivo. Portanto, só as características gerais da humanidade são 
suscetíveis de provocarem algum efeito. Ora, estas são quase imutáveis; pelo menos, para 
que mudem são necessários mais séculos do que aqueles que dura geralmente uma nação. 
Por conseguinte, as condições sociais de que depende o número dos suicídios são as úni- 
cas em função das quais este pode variar; porque são as únicas que podem variar. Eis a 
razão por que permanece constante desde que a sociedade não mude. Esta constância 
não provém de um estado de espírito gerador do suicídio que, por uma razão que ignora- 
mos, existiria num número determinado de particulares, que por sua vez, e por motivo 
que também ignoramos, transmitiriam a um número igual de imitadores. Provêm sim da 
estabilidade das causas impessoais que o originaram e que o conservam. Não houve 
nada que viesse modificar nem a forma como as unidades sociais estão agrupadas, nem 
a natureza do seu consensus. As ações e reações que exercem umas sobre as outras são 
idênticas; por conseguinte, as idéias e os sentimentos que delas resultam não poderiam 
variar. 

Todavia é muito raro, senão mesmo impossível, que uma destas correntes venha a 
adquirir uma tal preponderância em todos os aspectos da sociedade. É sempre em meios 
restritos, onde encontra condições particularmente favoráveis para o seu desenvolvi- 
mento, que atinge este grau de energia. É esta ou aquela condição social, esta ou aquela 
profissão, esta ou aquela confissão religiosa que a estimulam particularmente. Assim se 
explica o caráter duplo do suicídio. Quando o analisamos através das manifestações 
exteriores é-se levado a formar uma imagem de uma série de acontecimentos indepen- 
dentes uns dos outros; porque ele se produz em pontos distintos, sem relações visíveis 
entre eles. E, no entanto, a soma de todos estes casos particulares reunidos tem uma uni- 
dade e uma individualidade, pois que a taxa social dos suicídios é uma característica dis- 
tintiva das personalidades coletivas. É que, se estes meios particulares onde prefere 
produzir-se são distintos uns dos outros, fragmentados em mil bocados que se distribuem 
pela superfície do território, estão, no entanto, estreitamente ligados uns aos outros; por- 
que são partes de um todo comum, órgãos de um mesmo organismo. O estado de um 
depende do estado geral da sociedade; há uma íntima solidariedade entre o grau de viru- 
lência que esta ou aquela tendência atinge num meio determinado e a intensidade com 
que se manifesta no conjunto do corpo social. O altruísmo é mais ou menos acentuado 
no exército consoante o grau que atinge na população civil; o individualismo intelec- 
tual é tanto mais desenvolvido e tanto mais fértil em suicídios nos meios protestantes 
quanto mais acentuado está no resto da nação. etc. Está tudo ligado. 

Mas se, eliminada a loucura, não há nenhum estado individual que possa ser consi- 
derado como um fator determinante do suicídio, é, no entanto, muito provável que um 
sentimento coletivo não possa incrustar-se nos indivíduos quando estes lhe são absoluta- 
mente refratários. Poder-se-á, portanto, pensar que a explicação precedente é incompleta 
enquanto não tivermos demonstrado que as correntes suicidogêneas encontram sempre 
um número suficiente de sujeitos acessíveis à sua influência no momento e nos meios em 
que se desenvolvem. 

Mas, supondo que esta colaboração é na realidade sempre necessária e que uma ten- 
dência coletiva não pode impor-se aos particulares pela força, independentemente de 
qualquer predisposição prévia, então a harmonia estabelecer-se-á por si própria; porque 
as causas que determinam a corrente social agem simultaneamente sobre os indivíduos 


O SUICÍDIO 503 


criando neles as disposições adequadas à ação. Entre estas duas ordens de fatores existe 
um parentesco natural pelo fato de dependerem duma mesma causa e de a exprimirem: 
é por isso que se combinam e se adaptam mutuamente. A hipercivilização que dá origem 
à tendência anômica e à tendência egoísta tem também como resultado afinar os siste- 
mas nervosos, tornando-os excessivamente delicados; por isso, são menos capazes de se 
dedicarem fielmente a um objeto definido, mais contrários à disciplina, mais acessíveis 
tanto à irritação violenta como à depressão exagerada. Inversamente, a cultura grosseira 
e rude que o altruísmo excessivo dos primitivos pressupõe desenvolve uma insensibi- 
lidade que facilita o renunciamento. Em suma, como é a sociedade que, em grande parte, 
faz O indivíduo, fá-lo à sua imagem e semelhança. A matéria de que necessita não deve 
faltar-lhe pois que, digamos, a preparou com as próprias mãos. 

Temos agora uma idéia mais precisa acerca do papel que os fatores individuais 
desempenham na gênese do suicídio. Se em determinado meio moral, por exemplo, numa 
confissão religiosa, num regimento, numa profissão, há indivíduos que são atingidos e 
outros que não o são, é porque, de uma maneira geral, a constituição mental dos primei- 
ros, produtos da natureza e dos acontecimentos, apresenta menos resistência à corrente 
suicidogênea. Mas se estas condições podem contribuir para determinar os sujeitos parti- 
culares em que se encarna esta corrente, não é no entanto delas que dependem nem os 
caracteres distintivos nem a intensidade desta última. Não é porque haja estes ou aqueles 
neuropatas num grupo social que se contam anualmente estes ou aqueles suicidas. A neu- 
ropatia limita-se unicamente a favorecer de preferência a morte destes últimos. Eis por- 
tanto o ponto essencial em que divergem as opiniões do clínico e do sociólogo. O pri- 
meiro só vê os casos particulares, isolados uns dos outros. Assim, constata muitas vezes 
que a vítima era um nervoso ou um alcoólico e explica o ato por um destes estados psico- 
páticos. Num certo sentido tem razão; porque, se o sujeito se matou mais cedo do que os 
seus vizinhos, é frequentemente por este motivo. Mas não é por este motivo que, de uma 
maneira geral, há indivíduos que se matam, nem, sobretudo, é por este motivo que se 
matam, em cada sociedade, e num espaço de tempo determinado, um número definido de 
indivíduos. A causa produtora do fenômeno escapa necessariamente a quem só observa 
os indivíduos; porque ela é exterior aos indivíduos. Para a descobrir é necessário ir além 
dos suicídios particulares e aperceber o que determina a unidade destes. Poder-se-á obje- 
tar que, se não existissem os neurastênicos suficientes, as causas sociais não podiam pro- 
duzir efeitos totais. Mas não há nenhuma sociedade em que a degenerescência nervosa 
não forneça mais candidatos ao suicídio do que os que são necessários. Os eleitos são só 
alguns. se é que podemos exprimir deste modo. São os que, pela ação das circunstâncias, 
se encontravam mais próximos das correntes pessimistas e que, portanto, sofreram mais 
profundamente os efeitos da sua ação. 

Mas resta-nos resolver um último problema. Se todos os anos há um número igual 
de suicídios, é porque a corrente não fulmina de uma só vez todos os que pode e deve ful- 
minar. Os sujeitos que vai atingir no próximo ano já existem; têm atualmente, na maior 
parte dos casos, uma vida coletiva e estão, por conseguinte, submetidos à sua influência. 
Por que razão ela os poupa provisoriamente? Compreende-se facilmente que necessite de 
um ano para produzir uma ação total; porque, como as condições da atividade social 
diferem segundo as estações, ela varia também, consoante os diferentes momentos do 
ano, de intensidade e de direção. É só quando a revolução anual está completa que todas 
as combinações de circunstâncias, em função das quais é suscetível de variar, se efetua- 
ram. Mas, dado que o ano seguinte se limita, por hipótese, a uma repetição do precedente 
e a reconstruir as mesmas combinações, por que é que o primeiro não bastou? Por que 


504 DURKHEIM 


razão, como se diz habitualmente, a sociedade só paga a renda em prazos fixos 
sucessivos? 

O que explica, julgamos nós, esta temporização, é a maneira como o tempo age 
sobre a tendência para o suicídio. É um fator auxiliar mas importante desta. Com efeito, 
é do conhecimento geral que esta progride ininterruptamente desde a juventude até a 
maturidade, 2? 7 e que é dez vezes mais elevada no fim da vida do que no princípio. Portan- 
to, a força coletiva que leva o homem a matar-se vai penetrando nele lentamente. Nas 
mesmas condições, é à medida que a idade avança que o homem se torna mais acessível, 
sem dúvida porque necessita de experiências repetidas para sentir o vazio de uma exis- 
tência egoísta ou a pobreza das ambições sem limites. Eis a razão por que os suicídios só 
cumprem o seu destino por camadas sucessivas de gerações. ?º 


27 Notemos, todavia, que esta progressão só foi determinada para as sociedades européias em que o suicí- 
dio altruísta é relativamente raro. Talvez não seja verdadeira no caso deste. É possível que ele atinja o apo- 
geu na maturidade, altura em que o homem participa mais apaixonadamente na vida social. As relações que 
existem entre o suicídio e o homicídio, e que serão examinadas no capítulo seguinte, confirmam esta 
hipótese. 

28 Sem que pretendamos levantar uma questão da metafísica, que está fora do âmbito do nosso trabalho, 
gostaríamos, no entanto, de chamar a atenção para o fato de que esta teoria da estatística não obriga a recu- 
sar toda espécie de liberdade ao homem. Pelo contrário, o livre arbítrio é muito mais respeitado do que quan- 
do se considera o indivíduo como o gerador dos fenômenos sociais. Com efeito, quaisquer que sejam as cau- 
sas a que se deva a regularidade das manifestações coletivas, é evidente que não deixarão de produzir os seus 
efeitos onde quer que se encontrem: pois, de outro modo, estes efeitos variariam caprichosamente em vez de 
apresentarem a uniformidade que os caracteriza. Se, portanto, são inerentes aos indivíduos, determinarão 
necessariamente os individuos em que se encontram. Por conseguinte, nesta hipótese, não há possibilidade de 
escapar ao determinismo mais rigoroso. Mas as coisas já não se passam deste modo se esta constância dos 
dados demográficos provier de uma força exterior aos indivíduos. Porque, neste caso, esta não determina uns 
indivíduos mais do que outros. Reclama um número definido de certos atos mas tanto lhe faz que estes pro- 
venham deste ou daquele. Pode-se admitir que alguns lhe resistem e outros a satisfazem. Definitivamente, a 
nossa concepção limita-se a acrescentar às forças físicas, químicas, biológicas forças sociais que agem sobre 
o homem a partir do exterior à semelhança das primeiras. Se, portanto, estas não excluem a liberdade huma- 
na, não há razão para que as coisas se passem diferentemente no caso daquelas. O problema põe-se do 
mesmo modo para umas e para outras. Quando um foco epidêmico se declara é a sua menor ou maior inten- 
sidade que vai determinar a importância da mortalidade que provocará; mas isso não implica que os futuros 
doentes estejam ja designados. A situação dos suicidas em relação às correntes suicidogêneas é a mesma. 


EMILE DURKHEIM 


AS FORMAS 
ELEMENTARES DA 
VIDA RELIGIOSA 


(O SISTEMA TOTÊMICO NA AUSTRALIA) 


INTRODUCAO E CONCLUSAO 


Tradução de CARLOS ALBERTO RIBEIRO de MOURA 


INTRODUÇÃO 


Objeto de Investigação — sociologia religiosa e teoria do conhecimento 


I 
Objeto principal do livro: análise da religião mais simples que seja conhecida, com vistas a determinar as for- 
mas elementares da vida religiosa. — Por que elas são mais fáceis de atingir e de explicar através das religiões 


primitivas. 


Propomo-nos estudar, neste livro, a religião mais primitiva e mais simples que 
atualmente seja conhecida, fazer sua análise e tentar explicá-la. Dizemos de um sistema 
religioso que ele é o mais primitivo que nos seja dado à observação quando ele preenche 
as seguintes condições: em primeiro lugar, é preciso que ele se encontre em sociedades 
cuja organização não seja ultrapassada por nenhuma outra em simplicidade; " além do 
mais, é preciso que seja possível explicá-lo sem fazer intervir nenhum elemento tomado 
de empréstimo a uma sociedade anterior. 

Esforçar-nos-emos em descrever a economia deste sistema com a exatidão e a fideli- 
dade que poderiam ter um etnógrafo ou um historiador. Mas nossa tarefa não se limitará 
a isto. A sociologia coloca-se problemas diferentes da história ou da etnografia. Ela não 
procura conhecer as formas caducas da civilização com o único fim de conhecê-las e 
reconstituí-las. Mas, como toda ciência positiva, antes de tudo ela tem por objeto expli- 
car uma realidade atual, próxima de nós e capaz, por conseguinte, de afetar nossas idéias 
e nossos atos: esta realidade é o homem e, mais especialmente, o homem de hoje, pois 
não existe outro que estejamos mais interessados em conhecer bem. Portanto, não estu- 
daremos a religião mais antiga, objeto de nossa pesquisa, pelo único prazer de relatar 
coisas bizarras e singularidades. Se nós a tomamos como objeto de nossa investigação, 
é porque ela nos pareceu mais apta do que qualquer outra para fazer compreender a 
natureza religiosa do homem, isto é, para nos revelar um aspecto essencial e permanente 


da humanidade. 

Mas esta proposição não deixa de suscitar vivas objeções. Acha-se estranho que 
para chegar a conhecer a humanidade presente seja preciso começar por distanciar-se 
dela e transportar-se ao começo da história. Esta maneira de proceder surge como parti- 
cularmente paradoxal na questão que nos ocupa. Com efeito, as religiões passam a ter 
um valor e uma dignidade desiguais; geralmente, diz-se que elas não contêm todas a 
mesma parte de verdade. Portanto, parece que não se pode comparar as formas mais 
altas do pensamento religioso às mais baixas sem rebaixar as primeiras para o nível das 
segundas. Admitir, por exemplo, que os cultos grosseiros das tribos australianas podem 


* No mesmo sentido, diremos destas sociedades que clas são primitivas e chamaremos primitivo ao homem 
destas sociedades. A expressão carece, sem dúvida, de precisão, mas dificilmente é evitável e, aliás. quando 
se tomou o cuidado de determinar sua significação, ela não apresenta inconvenientes. (N. do A.) 


508 DURKHEIM 


auxiliar-nos a compreender o cristianismo não é supor que este procede da mesma 
mentalidade, isto é, que ele é feito das mesmas superstições e repousa sobre os mesmos 
erros? Eis aí como a importância teórica que algumas vezes foi atribuída às religiões pri- 
mitivas pode passar pelo índice de uma irreligiosidade sistemática que, prejulgando os 
resultados da investigação, viciava-os de início. 

Não precisamos examinar aqui se existem realmente investigadores que mereceram 
esta censura e que fizeram da história e da etnografia religiosa uma máquina de guerra 
contra a religião. De qualquer maneira, não poderia ser este o ponto de vista de um 
sociólogo. Com efeito, é um postulado essencial da sociologia que uma instituição huma- 
na não poderia repousar sobre o erro e sobre a mentira: sem o que ela não poderia durar. 
Se ela não estivesse fundada na natureza das coisas, ela teria encontrado resistência nas 
coisas, contra a qual não poderia triunfar. Portanto, quando abordamos o estudo das 
religiões primitivas, o fazemos com a segurança de que elas se apóiam no real e o expri- 
mem; ver-se-á este princípio ressurgir incessantemente no decorrer das análises e das 
discussões que seguirão e o que censuraremos às escolas das quais nos separaremos é 
precisamente tê-lo desconhecido. Sem dúvida, quando não se considera senão a letra des- 
tas fórmulas, estas crenças e práticas religiosas algumas vezes parecem desconcertantes 
e pode-se ficar tentado a atribuí-las a um tipo de aberração profunda. Mas, atravês do 
símbolo, é preciso saber atingir a realidade que ele figura e que lhe dá sua verdadeira 
significação. Os mais bárbaros ritos ou os mais bizarros, os mais estranhos mitos tradu- 
zem alguma necessidade humana, algum aspecto, seja individual, seja social da vida. As 
razões que o fiel se dá a si mesmo para justificá-los podem ser, o são mesmo frequente- 
mente, errôneas; mas as razões verdadeiras não deixam de existir e é tarefa da ciência 
descobri-las. 

Portanto, no fundo, não existem religiões falsas. À sua maneira, todas são verdadei- 
ras, todas respondem, mesmo que de diferentes formas, a condições dadas da existência 
humana. Sem dúvida, é possível dispô-las segundo uma ordem hierárquica. Umas podem 
ser ditas superiores às outras no sentido em que elas pôem em jogo funções mentais mais 
elevadas, são mais ricas em idéias e sentimentos, nelas figuram mais conceitos, menos 
sensações e imagens, sua sistematização é mais engenhosa. Mas, por mais reais que 
sejam esta maior complexidade e esta mais alta idealidade, elas não são suficientes para 
classificar as religiões correspondentes em gêneros separados. Todas são igualmente reli- 
giões, assim como todos os seres vivos são igualmente vivos, desde os mais humildes 
plastídios até o homem. Portanto, se nos dirigimos às religiões primitivas, não é com a 
segunda intenção de depreciar a religião em geral, pois aquelas religiões não são menos 
respeitáveis que as outras. Elas respondem às mesmas necessidades, desempenham o 
mesmo papel, dependem das mesmas causas; portanto, elas podem servir para manifes- 
tar igualmente bem a natureza da vida religiosa e, por conseguinte, para resolver o pro- 
blema que desejamos tratar. 

Mas por que conferir-lhes um tipo de prerrogativa? Por que escolhê-las de prefe- 
rência a todas as outras como objeto de nosso estudo? — Unicamente por razões de 
método. 

Primeiramente, não podemos chegar a compreender as religiões mais recentes senão 
seguindo na história a maneira pela qual elas se compuseram progressivamente. Com 
efeito, a história é o único método de análise explicativa que é possível aplicar-lhes. Ape- 
nas ela nos permite resolver uma instituição em seus elementos constitutivos, porque ela 
no-los mostra nascendo no tempo, uns após os outros. Por outro lado, situando cada um 
deles no conjunto das circunstâncias nas quais ele nasceu, ela coloca em nossas mãos o 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 509 


único meio que temos para determinar as causas que os suscitaram. Portanto, todas as 
vezes que se empreende explicar uma coisa humana, tomada em um momento determi- 
nado do tempo — quer se trate de uma crença religiosa, de uma regra moral, quer de um 
preceito jurídico, de uma técnica estética, de um regime econômico —, é preciso come- 
çar por retroceder até a sua forma mais primitiva e mais simples, procurar dar conta dos 
caracteres pelos quais ela se define neste período de sua existência, depois mostrar como 
ela se desenvolveu e se complicou pouco a pouco, como ela se tornou o que é no momen- 
to considerado. Ora, concebe-se facilmente de que importância é para esta série de expli- 
cações progressivas a determinação do ponto de partida ao qual estão subordinadas. Era 
um princípio cartesiano que, na cadeia das verdades científicas, o primeiro elo desempe- 
nha um papel preponderante. Certamente, não poderia ser o caso de colocar na base da 
ciência das religiões uma noção elaborada à maneira cartesiana, isto é, um conceito lógi- 
co, um puro possível, construído apenas pelas forças do espírito. O que precisamos 
encontrar é uma realidade concreta que unicamente a observação histórica pode nos 
revelar. Mas, se esta concepção fundamental deve ser obtida por processos diferentes, 
permanece verdadeiro que ela é chamada a desempenhar uma influência considerável 
sobre toda a sequência das proposições que a ciência estabelece. A evolução biológica 
foi concebida de maneira completamente diferente a partir do momento em que se soube 
que existiam seres monocelulares. Igualmente, o detalhe dos fatos religiosos é explicado 
diferentemente, segundo se coloca na origem da evolução o naturismo. o animismo ou 
qualquer outra forma religiosa. Mesmo os sábios mais especializados, se não pretendem 
limitar-se a uma tarefa de pura erudição, se querem tentar dar conta dos fatos que anali- 
sam, são obrigados a escolher tal ou tal destas hipóteses e inspirar-se nela. Quer eles o 
queiram, quer não, as questões que eles se colocam tomam necessariamente a seguinte 
forma: como o naturismo ou o animismo foram determinados a tomar aqui ou ali tal 
aspecto particular, a enriquecer-se ou empobrecer-se de tal ou tal maneira? Portanto, 
porque não se pode evitar tomar um partido sobre este problema inicial e porque a solu- 
ção que se dá está destinada a afetar o conjunto da ciência, convém abordá-lo de frente; 
é o que nos propomos fazer. 

Por outro lado, mesmo fora destas repercussões indiretas, o estudo das religiões pri- 
mitivas tem por si mesmo um interesse imediato que é de primeira importância. 

Com efeito, se é útil saber em que consiste tal ou tal religião particular, importa 
mais ainda investigar o que é a religião de uma maneira geral. É este problema que em 
todos os tempos tentou a curiosidade dos filósofos e não sem razão, pois ele interessa à 
humanidade inteira. Infelizmente, o método que eles ordinariamente empregam para 
resolvê-lo é puramente dialético: eles se limitam a analisar a idéia que se fazem da reli- 
gião, sob condição de ilustrar os resultados desta análise mental por exemplos empres- 
tados às religiões que realizam da melhor maneira seu ideal. Mas, se este método deve ser 
abandonado, o problema permanece inteiro e o grande serviço prestado pela filosofia foi 
o de impedir que ele tenha sido prescrito pelo desdenho dos eruditos. Ora, ele pode ser 
retomado por outras vias. Porque todas as religiões são comparáveis, porque elas são 
todas espécies do mesmo gênero, existem necessariamente elementos essenciais que lhes 
são comuns. Com isto não pretendemos simplesmente falar dos caracteres exteriores e 
visíveis que elas todas apresentam igualmente e que permitem dar delas, desde o começo 
da investigação, uma definição provisória; a descoberta destes signos aparentes é relati- 
vamente fácil, pois a observação que ela exige não necessita ultrapassar a superfície das 
coisas. Mas estas semelhanças exteriores supõem outras que são profundas. Na base de 
todos os sistemas de crenças e de todos os cultos deve necessariamente haver um certo 


510 DURKHEIM 


número de representações fundamentais e de atitudes rituais que, malgrado a diversidade 
das formas que umas e outras puderam revestir, em todas as partes têm a mesma signifi- 
cação objetiva e em todas as partes preenchem as mesmas funções. São estes elementos 
permanentes que constituem o que há de eterno e de humano na religião; eles são todo o 
conteúdo objetivo da idéia que se exprime quando se fala da religião em geral. Como é 


possível chegar a atingi-los? 
Certamente, não é observando as religiões complexas que aparecem no decorrer da 


história. Cada uma delas está formada de uma tal variedade de elementos que é muito 
difícil distinguir nelas o secundário do principal, o essencial do acessório. Que se consi- 
derem religiões como as do Egito, da Índia ou da antiguidade clássica! São um emara- 
nhado espesso de cultos múltiplos, variáveis com as localidades, com os templos, com as 
gerações, as dinastias, as invasões, etc. Nelas as superstições populares estão misturadas 
aos mais refinados dogmas. Nem o pensamento nem a atividade religiosa estão igual- 
mente distribuídos na massa dos fiéis; segundo os homens. os meios e as circunstâncias, 
tanto as crenças quanto os ritos são sentidos de maneiras diferentes. Aqui existem 
padres, ali monges, em outro lugar leigos; existem místicos e racionalistas, teólogos e 
profetas, etc. Nestas condições, é difícil perceber o que é comum a todos. Pode-se encon- 
trar o meio de estudar utilmente, através de um ou de outro destes sistemas, tal ou tal 
fato particular que ali se encontra especialmente desenvolvido, como o sacrifício ou o 
profetismo, o monacato ou os mistérios. Mas como descobrir o fundo comum da vida 
religiosa sob a luxuriante vegetação que a recobre? Como, sob a contradição das teolo- 
gias, as variações dos rituais, a multiplicidade dos agrupamentos, a diversidade dos indi- 
víduos, reencontrar os estados fundamentais, característicos da mentalidade religiosa em 
geral? 

Nas sociedades inferiores, tudo é completamente diferente. O menor desenvolvi- 
mento das individualidades, a extensão mais fraca do grupo, a homogeneidade das 
circunstâncias exteriores, tudo contribui para reduzir ao mínimo as diferenças e as varia- 
ções. O grupo realiza, de maneira regular, uma uniformidade intelectual e moral de que 
só encontramos raros exemplos nas sociedades mais adiantadas. Tudo é comum a todos. 
Os movimentos são estereotipados, todo mundo executa os mesmos atos, nas mesmas 
circunstâncias, e esta conformidade da conduta não faz senão traduzir aquela do pensa- 
mento. Todas as consciências estando encadeadas nas mesmas correntes, o tipo indivi- 
dual quase se confunde com o tipo genérico. Ao mesmo tempo que tudo é uniforme, tudo 
é simples. Nada é mais rude do que estes mitos compostos de um único e mesmo tema 
que se repete sem fim, do que estes ritos que são feitos de um pequeno número de gestos 
recomeçados à saciedade. A imaginação popular e sacerdotal ainda não teve nem o 
tempo nem os meios de refinar e de transformar a matéria-prima das idéias e das práticas 
religiosas; portanto, esta matéria se mostra a nu e se oferece por si mesma à observação, 
bastando um esforço mínimo para descobri-la. O acessório, o secundário, os desenvolvi- 
mentos de luxo ainda não vieram esconder o principal. ? Tudo está reduzido ao indispen- 
sável, aquilo sem o que não poderia haver religião. Mas o indispensável é também o 
essencial, isto é, o que antes de tudo importa conhecer. 


2 Isto não é dizer. sem dúvida, que todo luxo esteja ausente dos cultos primitivos. Veremos, ao contrário, 
que em toda religião se encontram crenças e práticas que não visam a fins estritamente utilitários (livro HI, 
cap. IV, 82). Mas este luxo é indispensável à vida religiosa, ele pertence à sua própria essência. Por outro 
lado, ele é muito mais rudimentar nas religiões inferiores do que nas outras e é isto que nos permitirá deter- 
minar melhor sua razão de ser. (N. do A.) 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 511 


Portanto, as civilizações primitivas constituem casos privilegiados, porque são 
casos simples. Eis aí por que, em todas as ordens de fatos, as observações dos etnógrafos 
frequentemente foram verdadeiras revelações que renovaram o estudo das instituições 
humanas. Por exemplo, antes da metade do século XIX, estava-se convencido de que o 
pai era o elemento essencial da família; não se concebia que pudesse haver uma organi- 
zação familiar na qual o poder paterno não fosse o princípio. A descoberta de Bachofen 
veio transformar esta velha concepção. Até épocas muito recentes, considerava-se como 
evidente que as relações morais e jurídicas que constituem o parentesco eram apenas um 
aspecto das relações fisiológicas que resultam da comunidade de descendência; Bachofen 
e seus sucessores. Mac Lennan, Morgan e muitos outros, ainda estavam sob a influência 
deste prejuízo. Desde que conhecemos a natureza do clã primitivo, sabemos, ao contrá- 
rio, que o parentesco não poderia definir-se pela consangúinidade. Para retornar às reli- 
giões, a consideração apenas das formas religiosas que nos são mais familiares fez com 
que se acreditasse durante muito tempo que a noção de deus era característica de tudo o 
que é religioso. Ora, a religião que estudamos mais adiante é, em grande parte. estranha 
a toda idéia de divindade; aqui, as forças às quais se dirigem os ritos são muito diferentes 
daquelas que ocupam o primeiro lugar em nossas religiões modernas, e, entretanto, elas 
auxiliar-nos-ão a compreender melhor estas últimas. Portanto, nada mais injusto que o 
desdenho que muitos historiadores têm ainda pelos trabalhos dos etnógrafos. Ao contrá- 
rio, é certo que a etnografia frequentemente determinou, nos diferentes setores da socio- 
logia, as mais fecundas revoluções. Por outro lado, foi pela mesma razão que a desco- 
berta dos seres monocelulares, da qual falávamos há pouco, transformou a idéia que 
correntemente se fazia da vida. Como nestes seres muito simples a vida está reduzida a 
seus traços essenciais, é mais dificil que estes traços permaneçam desconhecidos. 

Mas as religiões primitivas não permitem apenas distinguir os elementos constitu- 
tivos da religião; gozam também a vantagem muito grande de facilitar sua explicação. 
Porque aqui os fatos são mais simples, as relações entre os fatos também são mais apa- 
rentes. As razões pelas quais os homens explicam seus atos ainda não foram elaboradas 
e desnaturadas por uma reflexão erudita; elas estão mais próximas, mais aparentadas aos 
móveis que realmente determinaram estes atos. Para compreender bem um delírio e 
poder aplicar-lhe o tratamento mais apropriado, o médico precisa saber qual foi o seu 
ponto inicial. Ora, este acontecimento é tanto mais fácil de discernir quando se pode 
observar este delírio em um período mais próximo de seu começo. Ao contrário, mais se 
deixa à doença o tempo de se desenvolver, mais ela se esquiva à observação; é que, no 
percurso, intervieram todos os tipos de interpretações que tendem a reprimir no incons- 
ciente o estado original e a substituí-lo por outros através dos quais é algumas vezes pe- 
noso reencontrar o primeiro. Entre um delírio sistematizado e as primeiras impressões 
que lhe deram nascimento, frequentemente a distância é considerável. Acontece o mesmo 
com o pensamento religioso. Na medida em que ele progride na História, as causas que 
o chamaram à existência, permanecendo sempre ativas, não são mais percebidas senão 
através de um vasto sistema de interpretações que as deformam. As mitologias populares 
e as teologias sutis fizeram seu trabalho: elas sobrepuseram aos sentimentos primitivos 
sentimentos muito diferentes que, dependendo dos primeiros, dos quais eles são a forma 

“elaborada, entretanto não deixam transparecer sua natureza verdadeira senão muito 
imperfeitamente. A distância psicológica entre a causa e o efeito, entre a causa aparente 
e a causa efetiva, tornou-se mais considerável e mais difícil para o espírito percorrê-la. 
Esta obra será uma ilustração e uma verificação desta observação metodológica. Aqui 
ver-se-á como, nas religiões primitivas, o fato religioso traz ainda visivel o cunho de suas 


Se DURKHEIM 


origens: ter -nos-ia sido bem mais árduo inferi-lo considerando apenas as religiões mais 
desenvolvidas. 

Portanto. o estudo que empreendemos é uma maneira de retomar, mas em condi- 
ções novas, o velho problema da origem das religiões. Certamente, se por origem se 
entende um primeiro começo absoluto, a questão não tem nada de científica e deve ser 
afastada resolutamente. Não há um instante radical em que a religião tenha começado a 
existir e não se trata de encontrar um atalho que nos permita transportarmo-nos até lá 
pelo pensamento. Como toda instituição humana, a religião não começa em parte algu- 
ma. Todas as especulações deste gênero também estão justamente desacreditadas; elas 
não podem passar de construções subjetivas e arbitrárias que não comportam controle de 
tipo algum. O problema que nós nos colocamos é completamente diferente. O que queria- 
mos era encontrar um meio de discernir as causas, sempre presentes, das quais dependem 
as formas mais essenciais do pensamento e da prática religiosa. Ora, pelas razões que 
acabamos de expor, estas causas são tanto mais facilmente observáveis quanto as socie- 
dades onde ocorrem são menos complicadas. Eis aí por que procuramos aproximar-nos 
das origens. ? Isto não representa que pretendamos atribuir virtudes particulares às reli- 
giões inferiores. Ao contrário, elas são rudimentares e grosseiras; portanto, não poderia 
ser o caso de fazer delas modelos que as religiões ulteriores se limitaram apenas a repro- 
duzir. Mas sua própria grosseria as torna instrutivas; pois elas constituem assim expe- 
riências cômodas. onde os fatos e suas relações são mais fáceis de perceber. O físico, 
para descobrir as leis dos fenômenos que estuda, procura simplificá-los, desembaraçá-los 
de seus caracteres secundários. No que concerne as instituições, a natureza faz esponta- 
neamente simplificações do mesmo gênero, no começo da história. Nós queremos apenas 
tirar proveito disto. Sem dúvida, por este método, só poderemos atingir fatos muito 
elementares. Quando tivermos dado conta deles, na medida em que isto nos for possível, 
as novidades de todo tipo, que se produziram no decorrer da evolução, não serão por isto 
explicadas. Mas, se não pretendemos negar a importância dos problemas que elas susci- 
tam. estimamos que eles ganham se forem tratados em tempo oportuno e que há interesse 
em abordá-los somente após aqueles cujo estudo vamos empreender. 


? Vê-se que damos à palavra origem, como à palavra primitivo, um sentido completamente relativo. Enten- 
demos por isto não um começo absoluto, mas o mais simples estado social que atualmente é conhecido, 
aquele além do qual não nos é presentemente possível remontar. Quando falarmos das origens. dos começos 
da história ou do =2ns1"" ento religioso. é neste sentido que tais expressões deverão ser entendidas. (N. do A.) 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 513 


H 
Objeto secundário da investigação: gênese das noções fundamentais do pensamento ou categorias. — Razões 
para acreditar que elas têm uma origem religiosa e, por conseguinte, social. — Como, deste ponto de vista, 


se entrevê um meio de renovar a teoria do conhecimento. 


Mas nossa investigação não interessa apenas à ciência das religiões. Com efeito, 
toda religião tem um lado pelo qual ela ultrapassa o círculo das idéias propriamente reli- 
giosas e, através disto, o estudo dos fenômenos religiosos fornece um meio de renovar 
problemas que, até o presente, não foram debatidos senão entre filósofos. 

Sabe-se desde muito tempo que os primeiros sistemas de representações que o 
homem se fez do mundo e de si mesmo são de origem religiosa. Não existe religião que 
não seja uma cosmologia ao mesmo tempo que uma especulação sobre o divino. Se a 
filosofia e as ciências nasceram da religião, é que a própria religião começou por ocupar 
o lugar das ciências e da filosofia. Mas o que foi menos notado é que ela não se limitou 
a enriquecer com um certo número de idéias um espírito humano previamente formado; 
ela contribuiu também para formá-lo. Os homens não lhe deveram apenas uma notável 
parcela da matéria de seus conhecimentos, mas também a forma segundo a qual esses 
conhecimentos são elaborados. 

Existe, na base de nossos julgamentos, um certo número de noções essenciais que 
dominam toda a nossa vida intelectual; são aquelas que os filósofos, desde Aristóteles, 
chamam de categorias do entendimento: noções de tempo, de espaço, * de gênero, núme- 
ro, causa, substância, personalidade, etc. Elas correspondem às propriedades mais uni- 
versais das coisas. Elas são como quadros rígidos que encerram o pensamento; este pare- 
ce não poder libertar-se delas sem se destruir, pois não parece que possamos pensar 
objetos que não estejam no tempo ou no espaço, que não sejam numeráveis, etc. As ou- 
tras noções são contingentes e móveis; nós concebemos que elas possam faltar a um 
homem, a uma sociedade, a uma época; aquelas nos parecem quase inseparáveis do 
funcionamento normal do espírito. São como a ossatura da inteligência. Ora, quando se 
analisam metodicamente as crenças religiosas primitivas, encontram-se naturalmente em 
seu caminho as principais dessas categorias. Estas nasceram na religião e da religião; 
são um produto do pensamento religioso. É uma constatação que faremos várias vezes 
no decorrer desta obra. 


* Dizemos do tempo e do espaço que são categorias, porque não há nenhuma diferença entre o papel que 
desempenham estas noções na vida intelectual e aquele atribuído às noções de gênero ou de causa. (Ver sobre 
este ponto Hamelin. Essai sur les Éléments Principaux de la Représentation, pp. 63. 76. Paris, Alcan, depois 
P.U.F.)(N. do A.) 


514 DURKHEIM 


Esta observação já tem por si mesma origem interesse; mas eis o que lhe dá sua ver- 
dadeira importância. 

A conclusão geral do livro que se vai ler é que a religião é uma coisa eminentemente 
social. As representações religiosas são representações coletivas que exprimem realida- 
des coletivas; os ritos são maneiras de agir que nascem no seio dos grupos reunidos e que 
são destinados a suscitar, a manter ou a refazer certos estados mentais desses grupos. 
Mas então, se as categorias são de origem religiosa, elas devem participar da natureza 
comum a todos os fatos religiosos: elas também devem ser coisas sociais, produtos do 
pensamento coletivo. Pelo menos — pois, no estado atual de nossos conhecimentos nesta 
matéria, devemos nos guardar de toda tese radical e exclusiva — é legítimo supor que 
elas são ricas em elementos sociais. 

É isto, aliás. que, desde já, se pode entrever para algumas delas. Que se tente, por 
exemplo, representar o que seria a noção de tempo, abstração feita dos processos pelos 
quais nós o dividimos, o medimos, o exprimimos por meio de signos objetivos, um tempo 
que não seria uma sucessão de anos, de meses, de semanas. de dias, de horas! Isto seria 
algo quase impensavel. Não podemos conceber o tempo senão sob condição de distinguir 
nele momentos diferentes. Ora, qual é a origem desta diferenciação? Sem dúvida, os esta- 
dos de consciência que nós já experimentamos podem produzir-se em nós, na própria 
ordem em que primitivamente se desenvolveram; e assim porções de nosso passado tor- 
nam-se presentes, distinguindo-se espontaneamente do presente. Mas, por mais impor- 
tante que seja esta distinção para nossa experiência privada, falta muito para que ela seja 
suficiente para constituir a noção ou categoria de tempo. Esta não consiste simplesmente 
em uma comemoração parcial ou integral de nossa vida passada. Ela é um quadro abs- 
trato e impessoal que envolve não apenas nossa existência individual mas a da humani- 
dade. Ela é um quadro ilimitado onde toda duração está exposta sob o olhar do espírito 
e onde todos os acontecimentos possíveis podem ser situados em relação a pontos de 
referência fixos e determinados. Não é meu tempo que assim pode ser organizado; é o 
tempo tal como é objetivamente pensado por todos os homens de uma mesma civiliza- 
ção. Apenas isto já é suficiente para fazer entrever que uma tal organização deve ser 
coletiva. E, com efeito, a observação estabelece que estes pontos de apoio indispensáveis, 
em relação aos quais todas as coisas são classificadas temporalmente, são emprestados 
à vida social. As divisões em dias, semanas, meses, anos, etc., correspondem à periodici- 
dade dos ritos, das festas, das cerimônias públicas. * Um calendário exprime o ritmo da 
atividade coletiva ao mesmo tempo que tem por função assegurar sua regularidade. R 

O mesmo acontece com o espaço. Como o demonstrou Hamelin, * o espaço não é 
este meio vago e indeterminado que Kant tinha imaginado: pura e absolutamente homo- 
gênco, ele não serviria para nada e mesmo não apresentaria problemas ao pensamento. 


* Ver, em apoio a esta asserção, em Hubert e Mauss, Mélanges d Histoire Religieuse (Travaux de V'Année 
Sociologique), o capítulo sobre “A Representação do Tempo na Religião” (Paris, Alcan). (N. do A.) 

8 Através disto vê-se toda a diferença que existe entre o complexo de sensações e de imagens que serve para 
nos orientar na duração e a categoria de tempo. As primeiras são o resumo de experiências individuais que 
não são válidas senão para o indivíduo que as fez. Ao contrário, o que exprime a categoria de tempo é um 
tempo comum ao grupo, é o tempo social, se assim se pode falar. Ela mesma é uma verdadeira instituição 
social. É também particular ao homem; o animal não tem representação deste gêncro. 

Esta distinção entre a categoria de tempo e as sensações correspondentes poderia igualmente ser feita a pro- 
pósito do espaço e da causa. Talvez cla ajudasse a dissipar algumas confusões que alimentam as contro- 
vérsias das quais estas questões são objeto. Retornaremos a este ponto na conclusão desta obra (84). (N. do 
A) 

? Op. cit., p. 75 e seguintes. (N. do A.) 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 515 


A representação espacial consiste essencialmente numa primeira coordenação introdu- 
zida entre os dados da experiência sensível. Mas esta coordenação seria impossível se as 
partes do espaço fossem qualitativamente equivalentes, se elas realmente fossem substi- 
tuíveis umas às outras. Para poder dispor espacialmente as coisas, é preciso poder situá- 
las diferentemente: colocar umas à direita, outras à esquerda, estas no alto, aquelas 
embaixo, no norte ou no sul, a leste ou a oeste, etc., etc., da mesma maneira que. para 
dispor temporalmente os estados de consciência, é preciso poder localizá-los em datas 
determinadas. O que representa dizer que o espaço não poderia ser ele mesmo se, assim 
como o tempo, ele não fosse dividido e diferenciado. Mas estas divisões, que lhe são 
essenciais, de onde provêm? Por si mesmo, ele não tem nem direita nem esquerda. nem 
alto nem baixo, nem norte nem sul, etc. Todas estas distinções evidentemefte provêm do 
fato de que valores afetivos diferentes foram atribuídos às regiões. E como todos os ho- 
mens de uma mesma civilização representam o espaço de uma mesma maneira, é preciso 
evidentemente que estes valores afetivos e as distinções que dele dependem lhes sejam 
igualmente comuns; o que implica quase necessariamente que elas são de origem social. * 


Existem, aliás, casos em que este caráter social se torna manifesto. Existem socieda- 
des na Austrália e na América do Norte onde o espaço é concebido sob a forma de um 
círculo imenso, porque o próprio acampamento tem uma forma circular,” e o círculo 
espacial é exatamente dividido como o circulo tribal e à imagem deste último. Na tribo 
existem tantas regiões distintas quantos clãs e é o lugar ocupado pelos clãs no interior do 
acampamento que determina a orientação das regiões. Cada região se define pelo totem 
do clã ao qual ela é atribuída. Junto aos Zuni, por exemplo, o pueblo compreende sete 
partes; cada uma destas partes é um grupo de clãs que teve sua unidade: segundo toda a 
probabilidade, ele era primitivamente um clã único que em seguida se subdividiu. Ora, o 
espaço compreende igualmente sete regiões e cada uma destas sete partes do mundo está 
em relações íntimas com uma parte do pueblo, isto é, com um grupo de clãs. 'º “Assim” 
diz Cushing, “uma divisão é considerada estar em relação com o norte; uma outra repre- 
senta o oeste, uma outra o sul, '" etc.” Cada parte do pueblo tem uma cor característica 
que O simboliza; cada região tem a sua que é exatamente aquela do bairro correspon- 
dente. No decorrer da história, o número dos clãs fundamentais variou; o número das 
regiões do espaço também variou da mesma maneira. Assim, a organização social foi o 
modelo da organização espacial que é como um decalque da primeira. Não existe nem 
mesmo distinção da esquerda e da direita que, longe de estar implicada na natureza do 
homem em geral, não seja verossimilhantemente o produto de representações religiosas, 
logo, coletivas. !? 


8 De outra maneira, para explicar este acordo, seria preciso admitir que todos os individuos, em virtude de 
sua constituição orgânico-psíquiça, são espontaneamente afetados da mesma maneira pelas diferentes partes 
do espaço: o que é tanto mais inverossimilhante quanto as diferentes regiões são por si mesmas afetivamente 
indiferentes. Aliás, as divisões do espaço mudam com as sociedades; é a prova de que elas não são exclusiva- 
mente fundadas na natureza congenial do homem. (N. do A.) 

* Ver Durkheim e Mauss, Sobre Algumas Formas Primitivas de Classificação, in Année Sociologique, VI, 
p. 47 e seguintes. (N. do A.) 

1º Thid, p. 34 e seguintes. (N. do A.) 

1 Zuri Creation Myths, in 13th Report of the Bureau of American Ethnology, p. 367 e seguintes. (N. do 
A.) 

12 v. Hertz, A Preeminência da Mão Direita. Estudo de Polaridade Religiosa, in Revue Philosophique, 
dezembro de 1909. Sobre a mesma questão das relações entre a representação do espaço e a forma da coleti- 
vidade, ver em Ratzel, Politische Geograpkie, o capítulo intitulado “Der Raum im Geist der Vôlker” — O 
Espaço no Espírito do Povo. (N. do A.) 


516 DURKHEIM 


Encontrar-se-ão, mais adiante, provas análogas relativas às noções de gênero, 
força, personalidade e eficácia. Pode-se também perguntar se a noção de contradição não 
depende também de condições sociais. O que leva a isso é que o império que ela exerceu 
sobre o pensamento variou segundo o tempo e as sociedades. O princípio de identidade 
domina hoje o espírito científico; mas existem vastos sistemas de representações que 
desempenharam na história das idéias um papel considerável e onde ele é frequentemente 
desconhecido: são as mitologias, desde as mais grosseiras até as mais engenhosas. 'º 
Nelas, sem cessar, estão em questão seres que têm simultaneamente os atributos mais 
contraditórios, que simultaneamente são unos e vários, materiais e espirituais, que 
podem subdividir-se indefinidamente sem nada perder do que os constitui; em mitologia, 
é um axioma que a parte equivale ao todo. Estas variações pelas quais passou na história 
a regra que parece governar nossa lógica atual provam que, longe de estar inscrita por 
toda a eternidade na constituição mental do homem, ela depende, pelo menos em parte, 
de fatores históricos, por conseguinte sociais. Não sabemos exatamente quais são eles; 
mas podemos presumir que existem. ! 


Uma vez admitida esta hipótese, o problema do conhecimento coloca-se em termos 
novos. 

Até o presente, apenas duas doutrinas estavam em pauta. Para uns, as categorias 
não podem ser derivadas da experiência: elas lhe são logicamente anteriores e a condicio- 
nam. São representadas como tantos dados simples, irredutíveis, imanentes ao espírito 
humano em virtude da sua constituição nativa. Eis por que se diz que são a priori. Para 
outros, ao contrário, elas seriam construídas, feitas de peças e pedaços, e o indivíduo 
seria o operário desta construção. ! * 


Mas uma e outra solução levantam graves dificuldades. 

Adota-se a tese empirista? Então é preciso retirar às categorias todas as suas carac- 
terísticas. Com efeito, elas distinguem-se de todos os outros conhecimentos por sua 
universalidade e necessidade. São os conceitos mais gerais que existem porque se apli- 
cam a todo o real e, da mesma maneira que não estão ligadas a nenhum objeto particu- 
lar, são independentes de todo sujeito individual: elas são o lugar comum onde se encon- 
tram todos os espíritos. Além do mais, estes se encontram aqui necessariamente; pois a 
razão, que não é outra coisa que o conjunto das categorias fundamentais, é investida de 
uma autoridade à qual não podemos nos subtrair à vontade. Quando tentamos nos insur- 
gir contra ela e nos livrar de algumas destas noções essenciais, chocamo-nos contra vivas 


'? Não pretendemos dizer que o pensamento mitológico o ignore, mas que ele o abole mais frequentemente 
e mais abertamente que o pensamento científico. Inversamente, mostraremos que a ciência não pode não vio- 
lá-lo, ao mesmo tempo conformando-se a ele mais escrupulosamente que a religião. Entre a ciência e a reli- 
gião só existem, sob este aspecto como sob vários outros, diferenças de graus; mas, se não é preciso exagerá- 
las, é importante notá-las, pois elas são significativas. (N. do A.) 

'* Esta hipótese já tinha sido emitida pelos fundadores da Vôlkerpsychologie. Encontra-se notadamente 
indicada em um curto artigo de Windelband, intitulado Die Erkenntnisslehre unter dem vólkerpsycolo- 
gischem Gesichtspunkte, in Zeitsch. f Volkerpsychologie, VIII, p. 166 e seguintes. Cf. uma nota de Steinhal 
sobre o mesmo tema, ibid., p. 178 e seguintes. (N. do A.) 

*8 Mesmo na teoria de Spencer, é com a experiência individual que são construídas as categorias. Sob este 
aspecto, a única diferença que existe entre o empirismo ordinário e o empirismo evolucionista é que, segundo 
este último, os resultados da experiência individual são consolidados pela hereditariedade. Mas esta consoli- 
dação não lhes acrescenta nada de essencial; não penetra na sua composição nenhum elemento que não 
tenha sua origem na experiência do indivíduo. Igualmente, nesta teoria, a necessidade com a qual as catego- 
rias se impõem atualmente a nós é o produto de uma ilusão, de um prejuízo supersticioso, fortemente enrai- 
zado no organismo, mas sem fundamento na natureza das coisas. (N. do A.) 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 517 


resistências. Portanto, não apenas elas independem de nós, mas impõe-se a nós. Ora, os 
dados empíricos apresentam caracteres diametralmente opostos. Uma sensação, uma 
imagem relacionam-se a um objeto determinado ou a uma coleção de objetos deste gêne- 
ro e exprimem o estado momentâneo de uma consciência particular: ela é essencialmente 
individual e subjetiva. Também podemos dispor, com uma liberdade relativa, das repre- 
sentações que têm esta origem. Sem dúvida, quando nossas sensações são atuais, elas 
impóem-se a nós de fato. Mas, de direito, permanecemos senhores de concebê-las de 
outra maneira, de nos representá-las como desenrolando-se em uma ordem diferente 
daquela na qual elas foram produzidas. Face a elas, nada nos prende, enquanto conside- 
rações de um outro gênero não intervêm. Portanto, eis aí dois tipos de conhecimento que 
são como que dois pólos contrários da inteligência. Nestas condições, reconduzir a razão 
à experiência é fazê-la dissipar-se; pois é reduzir a universalidade e a necessidade que a 
caracterizam a puras aparências, ilusões que podem ser praticamente cômodas mas que 
não correspondem a nada nas coisas; é, por conseguinte, recusar toda a realidade obje- 
tiva à vida lógica que as categorias têm por função regular e organizar. O empirismo 
clássico chega ao irracionalismo; talvez seja mesmo por este último nome que conviria 
designá-lo. 


Os aprioristas, malgrado o sentido ordinariamente ligado aos rótulos, são mais 
respeitosos com os fatos. Visto que eles não admitem como verdade evidente que as cate- 
gorias são feitas dos mesmos elementos que nossas representações sensíveis, eles não são 
obrigados a empobrecê-las sistematicamente, a esvaziá-las de todo conteúdo real, a redu- 
zi-las a simples artifícios verbais. Eles lhes deixam, ao contrário, todos os seus caracteres 
especificos. Os aprioristas são racionalistas; eles crêem que o mundo tem um aspecto ló- 
gico que a razão exprime em grau eminente. Mas para isso, é-lhes preciso atribuir ao 
espírito um certo poder de ultrapassar a experiência, de acrescer ao que lhe é imediata- 
mente dado; ora, deste poder singular eles não oferecem nem explicação nem justifica- 
ção. Pois limitar-se a dizer que ele é inerente à natureza da inteligência humana não o 
explica. Seria preciso ainda fazer entrever de onde nós temos esta surpreendente prerro- 
gativa e como podemos ver nas coisas relações que o espetáculo das coisas não poderia 
nos revelar. Dizer que a própria experiência só é possível sob esta condição é talvez des- 
locar o problema, não é resolvê-lo. Pois trata-se precisamente de saber de onde provém 
que a experiência não seja suficiente por si mesma, mas supõe condições que lhe são 
anteriores e exteriores e como acontece que estas condições são realizadas quando e 
como convém. Para responder a estas questões, imaginou-se algumas vezes, acima das 
razões individuais, uma razão superior e perfeita da qual as primeiras emanariam e de 
que elas teriam, por um tipo de participação mística, sua maravilhosa faculdade: era a 
razão divina. Mas esta hipótese tem pelo menos o grave inconveniente de estar subtraída 
a todo controle experimental; portanto, ela não satisfaz as condições exigíveis de uma 
hipótese científica. Além do mais, as categorias do pensamento humano jamais estão 
fixadas sob uma forma definida; fazem-se, desfazem-se e refazem-se ininterruptamente; 
mudam segundo os lugares e os tempos. A razão divina é, ao contrário, imutável. Como 
esta imutabilidade poderia dar conta desta incessante variabilidade? 


Tais são as duas concepções que se chocam uma contra a outra desde séculos; e, se 
o debate se eterniza, é porque em verdade os argumentos trocados se equivalem sensivel- 
mente. Se a razão é apenas uma forma da experiência individual, não existe mais razão. 
Por outro lado, se lhe reconhecermos os poderes que ela se atribui, sem se dar conta 
disso, parece que a colocamos fora da natureza e da ciência. Em presença destas obje- 
ções opostas. o espírito permanece indeciso. — Mas. se se admite a origem social das 


518 DURKHEIM 


categorias, uma nova atitude torna-se possível, permitindo, acreditamos, escapar destas 
dificuldades contrárias. 

A proposição fundamental do apriorismo é que o conhecimento é formado de dois 
tipos de elementos irredutíveis um ao outro e como que de duas camadas distintas e 
superpostas. 'º Nossa hipótese mantém integralmente este princípio. Com efeito, os 
conhecimentos chamados empíricos, os únicos dos quais os teóricos do empirismo sem- 
pre se serviram para construir a razão, são aqueles que a ação direta dos objetos suscita 
em nossos espíritos. São portanto estados individuais, que se explicam inteiramente"? 
pela natureza psíquica do indivíduo. Ao contrário, se, como nós o pensamos, as catego- 
rias são representações essencialmente coletivas, elas traduzem antes de tudo estados da 
coletividade: dependem da maneira pela qual esta é constituída e organizada, de sua 
morfologia, de suas instituições religiosas, morais, econômicas, etc. Portanto, entre estas 
duas espécies de representações existe toda a distância que separa o individual do social 
e tanto não se pode derivar as segundas das primeiras quanto não se pode deduzir a 
sociedade do indivíduo, o todo da parte, o complexo do simples.'* A sociedade é uma 
realidade sui generis; ela tem seus caracteres próprios que não se reencontram, ou não se 
reencontram sob a mesma forma, no resto do universo. As representações que a expri- 
mem têm, portanto, um conteúdo completamente diferente que as representações pura- 
mente individuais e pode-se de início estar seguro de que as primeiras acrescentam algu- 
ma coisa às segundas. 


A própria maneira pela qual se formam umas e outras as diferencia. As representa- 
ções coletivas são o produto de uma imensa cooperação que se estende não apenas no 
espaço, mas no tempo; para fazê-las, uma multidão de espíritos diversos associaram, 
misturaram, combinaram suas idéias e sentimentos; longas séries de gerações acumula- 
ram aqui sua experiência e seu saber. Uma intelectualidade muito particular, infinita- 
mente mais rica e mais complexa do que a do indivíduo, está aqui, portanto, como que 
concentrada. Compreende-se desde então como a razão tem o poder de ultrapassar a 
capacidade dos conhecimentos empíricos. Ela não o deve a não sei qual virtude miste- 
riosa, mas simplesmente ao fato de que, segundo uma fórmula conhecida, o homem é 
duplo. Nele existem dois seres: um ser individual que tem sua base no organismo, cujo 
círculo de ação se encontra, por isto mesmo, estreitamente limitado; e um ser social que 
representa em nós a mais alta realidade na ordem intelectual e moral que possamos 
conhecer pela observação. isto é. a sociedade. Esta dualidade de nossa natureza tem por 


16 Pode alguém se surpreender talvez porque não definimos o apriorismo pela hipótese do inatismo. Mas na 
realidade esta concepção desempenha na doutrina um papel apenas secundário. É uma maneira simplista de 
se representar a irredutibilidade dos conhecimentos racionais aos dados empíricos. Dizer dos primeiros que 
eles são inatos não passa de uma maneira positiva de dizer que eles não são um produto da experiência tal 
como ela é ordinariamente concebida. (N. do A.) 

*? Pelo menos na medida em que existem representações individuais e, por conseguinte, integralmente empí- 
ricas. Mas de fato, verossimilhantemente, não existe nenhuma na qual estes dois tipos de elementos não se 
encontrem estreitamente unidos. (N. do A.) 

'8 Por outro lado, não é preciso entender esta irredutibilidade em sentido absoluto. Não queremos dizer que 
não exista nada nas representaçoes empíricas que anuncie as representações racionais, nem que não exista 
nada no indivíduo que possa ser olhado como o anúncio da vida social. Se a experiência fosse completa- 
mente estranha a tudo o que é racional, a razão não poderia aplicar-se a ela; igualmente, se a natureza psi- 
quica do indivíduo fosse absolutamente refratária à vida social, a sociedade seria impossivel. Portanto, uma 
análise completa das categorias deveria investigar até na consciência individual estes germes de racionali- 
dade. Nós teremos ocasião de retornar a este ponto em nossa conclusão. Tudo quanto queremos estabelecer 
aqui é que, entre estes germes indistintos de razão e a razão propriamente dita, existe uma distância compa- 
rável aquela que separa as propriedades dos elementos minerais dos quais está formado o ser vivo e os atri- 
butos característicos da vida, uma vez que ela está constituída. (N. do A.) 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 519 


consequência, na ordem prática, a irredutibilidade do ideal moral ao móvel utilitário, e, 
na ordem do pensamento, a irredutibilidade da razão à experiência individual. Na medi- 
da em que participa da sociedade, o indivíduo ultrapassa naturalmente a si mesmo, tanto 
quando pensa como quando age. 

Esse mesmo caráter social permite compreender de onde vem a necessidade das 
categorias. Diz-se de uma idéia que ela é necessária quando, por um tipo de virtude inter- 
na, se impõe ao espírito sem ser acompanhada por nenhuma prova. Portanto, existe nela 
algo que obriga a inteligência, que arrebata a adesão sem exame prévio. Esta eficácia sin- 
gular, o apriorismo a postula mas dela não se dá conta; pois dizer que as categorias são 
necessárias porque são indispensáveis ao funcionamento do pensamento é simplesmente 
repetir que elas são necessárias. Mas, se elas têm a origem que nós lhes atribuímos, sua 
influência não tem mais nada que surpreenda. Com efeito, elas exprimem as relações 
mais gerais que existem entre as coisas; ultrapassando em extensão todas as nossas ou- 
tras noções, elas dominam todo o detalhe de nossa vida intelectual. Portanto, se a cada 
momento do tempo os homens não se entendessem sobre estas idéias essenciais, se eles 
não tivessem uma concepção homogênea do tempo, do espaço, da causa, do número, 
etc., todo acordo entre as inteligências tornar-se-ia impossível e, por conseguinte, toda a 
vida comum. Igualmente, a sociedade não pode abandonar as categorias ao livre arbítrio 
dos particulares sem abandonar a si mesma. Para poder viver, ela não só tem necessi- 
dade de um suficiente conformismo moral, mas existe também um mínimo de confor- 
mismo lógico, sem o qual ela não pode subsistir. Por esta razão, ela pesa com toda a sua 
autoridade sobre seus membros, a fim de prevenir as dissidências. Um espírito derroga 
ostensivamente estas normas de todo pensamento? Ela não o considera mais como um 
espírito humano no pleno sentido da palavra e o trata como tal. É porque quando, 
mesmo em nosso foro interior, tentamos libertar-nos destas noções fundamentais, senti- 
mos que não somos completamente livres, que algo nos opõe resistência, em nós e fora 
de nós. Fora de nós, existe a opinião que nos julga; mas, além disto, como a sociedade 
está também representada em nós, ela se opõe de dentro de nós mesmos, a estas veleida- 
des revolucionárias; temos a impressão que não podemos abandonar-nos a isto sem que - 
nosso pensamento cesse de ser um pensamento verdadeiramente humano. Tal parece ser 
a origem da autoridade muito especial que é inerente à razão e que faz com que aceite- 
mos com confiança suas sugestões. É a própria autoridade da sociedade, 'º comunican- 
do-se a certas maneiras de pensar que são como que as condições indispensáveis de toda 
ação comum. A necessidade com a qual as categorias se impõem a nós não é portanto o 
efeito de simples hábitos dos quais poderíamos nos libertar com um pouco de esforço; 
ela não é, além do mais, uma necessidade física ou metafísica, porque as categorias 
mudam segundo os lugares e os tempos; ela é um tipo particular de necessidade moral 
que está para a vida intelectual assim como a obrigação moral está para a vontade. ?º 


'º Observou-se frequentemente que os distúrbios sociais tinham como efeito a multiplicação dos distúrbios 
mentais. É uma prova a mais de que a disciplina lógica é um aspecto particular da disciplina social. A pri- 
meira se desmazela quando a segunda se enfraquece. (N. do A.) 

20 Existe analogia entre esta necessidade lógica e a obrigação moral, mas não há identidade, pelo menos 
atualmente. Hoje, a sociedade trata os criminosos de outra maneira que as pessoas das quais apenas a inteli- 
gência é anormal; é a prova de que a autoridade ligada às normas lógicas e a inerente às normas morais, 
malgrado importantes similitudes, não são da mesma natureza. São duas espécies diferentes de um mesmo 
gênero. Seria interessante investigar em que consiste e de onde provém esta diferença que, verossimilhan- 
temente, não é primitiva, pois, durante muito tempo, a consciência pública mal distinguiu o alienado do 
delinquente. Limitamo-nos a indicar a questão. Vê-se , por este exemplo, o número de problemas que levanta 
a análise destas noções que geralmente passam por ser elementares e simples e que são, na realidade, de uma 
extrema complexidade. (N. do A.) 


520 DURKHEIM 


Mas, se originalmente as categorias traduzem apenas estados sociais, não segue 
disto que elas só podem aplicar-se ao resto da natureza a título de metáforas? Se elas são 
feitas unicamente para exprimir coisas sociais, parece que não poderiam ser estendidas 
aos outros reinos senão por via de convenção. Assim, enquanto elas nos servem para 
pensar o mundo físico ou biológico, só poderiam ter o valor de símbolos artificiais, prati- 
camente úteis talvez, mas sem relação com a realidade. Retornar-se-ia, portanto, por 
outra via, ao nominalismo e ao empirismo. 


Mas interpretar desta maneira uma teoria sociológica do conhecimento é esquecer 
que, se a sociedade é uma realidade específica, não é entretanto um império dentro de um 
império; ela faz parte da natureza, é sua mais alta manifestação. O reino social é um 
reino natural, que não difere dos outros senão por sua complexidade maior. Ora, é 
impossível que a natureza, no que ela tem de mais essencial, seja radicalmente diferente 
de si mesma aqui e lá. As relações fundamentais que existem entre as coisas — aquelas 
justamente que as categorias têm por função exprimir — não poderiam portanto ser 
essencialmente dessemelhantes segundo os reinos. Se, por razões que teremos de inves- 
tigar,?" elas desprendem-se de uma maneira mais aparente no mundo social, é impossível 
que elas não se reencontrem em outro lugar, mesmo que sob formas mais encobertas. A 
sociedade as torna mais manifestas mas delas não tem o privilégio. Eis como noções que 
foram elaboradas sobre o modelo das coisas sociais podem auxiliar-nos a pensar coisas 
de uma outra natureza. Pelo menos, se, quando elas são assim desviadas de sua significa- 
ção primeira, estas noções desempenham, em um sentido, o papel de símbolos, é o de 
simbolos bem fundados. Se, pelo único fato de serem conceitos construídos, neles entra 
o artifício, é um artifício que segue de perto a natureza e que se esforça por se aproximar 
dela sempre mais.?? Do fato de que as idéias de tempo, de espaço, de gênero, de causa, 
de personalidade são construídas com elementos sociais, não é preciso portanto concluir 
que elas são desprovidas de todo valor objetivo. Ao contrário, sua origem social faz 
antes presumir que elas não estão sem fundamento na natureza das coisas. *? 


Renovada desta maneira, a teoria do conhecimento parece portanto chamada a reu- 
nir as vantagens contrárias das duas teorias rivais sem ter seus inconvenientes. Ela con- 
serva todos Os princípios essenciais do apriorismo; mas ao mesmo tempo, se inspira 
neste espírito de positividade ao qual o empirismo se esforçava em satisfazer. Ela deixa 
à razão seu poder específico, mas se dá conta dele e isto sem sair do mundo observável. 
Ela afirma como real a dualidade de nossa vida intelectual, mas explica-a por causas 
naturais. As categorias cessam de ser consideradas como fatos primeiros e inanalisáveis; 


21 A questão é tratada na conclusão do livro. (N. do A.) 


22 O racionalismo imanente a uma teoria sociológica do conhecimento é portanto intermediário entre o 
empirismo e o apriorismo clássico. Para o primeiro, as categorias são construções puramente artificiais; 
para o segundo, elas são, ao contrário, dados naturais; para nós, elas são, em um sentido, obras de arte, mas 
de uma arte que imita a natureza com uma perfeição suscetível de crescer sem limite. (N. do A.) 

2º Por exemplo, o que está na base da categoria de tempo é o ritmo da vida social; mas, se existe um ritmo 
da vida coletiva, pode-se estar seguro de que existe um outro na vida individual, mais geralmente, naquela 
do universo. O primeiro é apenas mais marcado e aparente que os outros. Igualmente, veremos que a noção 
de gênero formou-se sobre a de grupo humano. Mas, se os homens formam grupos naturais, pode-se presu- 
mir que existem, entre as coisas, grupos simultaneamente análogos e diferentes. São estes grupos naturais de 
coisas que formam os gêneros e as espécies. 

Se parece a numerosíssimos espíritos que não se pode atribuir uma origem social às categorias sem lhes reti- 
rar todo o valor especulativo, é porque a sociedade ainda muito frequentemente passa por não ser uma coisa 
natural, de onde se conclui que as representações que a exprimem não exprimem nada da natureza. Mas a 
conclusão só vale tanto quanto vale o princípio. (N. do A.) 


Ho 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 521 


e, entretanto, elas permanecem de uma complexidade da qual análises tão simplistas 
quanto aquelas com que se contentava o empirismo não poderiam se dar conta. Pois elas 
aparecem agora, não como noções muito simples que qualquer um pode apreender de 
suas observações pessoais e que a imaginação popular teria desgraçadamente compli- 
cado, mas, ao contrário, como engenhosos instrumentos de pensamento, que os grupos 
humanos laboriosamente forjaram no decorrer dos séculos e onde acumularam o melhor 
de seu capital intelectual. ? * Toda uma parte da história da humanidade está aqui resumi- 
da. É chegar a dizer que, para compreendê-las e para julgá-las, é preciso recorrer a pro- 
cessos outros que os usados até o presente. Para saber de que são feitas estas concepções 
que nós mesmos não fizemos, não poderia ser suficiente que interrogássemos nossa cons- 
ciência. Precisamos olhar para fora de nós mesmos, observar a história, instituir toda 
uma ciência, ciência complexa, que não pode avançar senão lentamente, por um trabalho 
coletivo, e à qual a presente obra traz, a título de ensaio, algumas contribuições fragmen- 
tárias. Sem fazer destas questões o objeto direto de nosso estudo, exploraremos todas as 
ocasiões que se oferecerão a nós de apreender em seu nascimento pelo menos algumas 
destas noções que, sendo religiosas por suas origens, deviam entretanto permanecer na 
base da mentalidade humana. 


2* Por isso é legitimo comparar as categorias a utensílios; pois o utensílio, por seu lado, é capital material 
acumulado. Aliás, entre as três noções, de utensílio, de categoria e de instituição, existe um parentesco estrei- 
to. (N. do A.) 


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CONCLUSAO 


Em que medida os resultados obtidos podem ser generalizados 


Anunciamos no início desta obra que a religião da qual empreenderiamos o estudo 
continha os elementos mais característicos da vida religiosa. Pode-se verificar agora a 
exatidão desta proposição. Por mais simples que seja o sistema que estudamos, nós reen- 
contramos nele todas as grandes idéias e todas as principais atitudes rituais que estão na 
base das religiões mais avançadas: distinção das coisas em sagradas e profanas, noção 
de alma, de espírito, de personalidade mítica, de divindade nacional e mesmo interna- 
cional, culto negativo com as práticas ascéticas que são sua forma exasperada, ritos de 
oblação e de comunhão, ritos imitativos, ritos comemorativos, ritos de expiação. Aqui 
nada falta de essencial. Portanto, temos fundamentos para esperar que os resultados aos 
quais chegamos não são particulares apenas ao totemismo, mas podem auxiliar-nos a 
compreender o que é a religião em geral. 

Objetar-se-á que apenas uma religião, qualquer que possa ser sua área de extensão, 
constitui uma base estreita para tal indução. Não pretendemos desconhecer o que uma 
verificação extensa pode acrescentar em autoridade a uma teoria. Mas não é menos ver- 
dade que, quando uma lei foi provada por uma experiência bem feita, esta prova é univer- 
salmente válida. Se, mesmo num caso único, um sábio chegasse a surpreender o segredo 
da vida, fosse este caso aquele do ser protoplásmico mais simples que se pudesse conce- 
ber, as verdades assim obtidas seriam aplicáveis a todos os seres vivos, mesmo aos mais 
elevados. Portanto, se nas humildes sociedades que acabaram de ser estudadas conse- 
guimos realmente perceber alguns dos elementos dos quais são feitas as noções religiosas 
mais fundamentais, não existe razão para não estender às outras religiões os resultados 
mais gerais de nossa investigação. Com efeito, não é concebível que, segundo as circuns- 
tâncias, um mesmo efeito possa ser devido ora a uma causa, ora a outra, a menos que, 
no fundo, as duas causas não passem de uma só. Uma mesma idéia não pode aqui expri- 
mir uma realidade e ali uma realidade diferente, a menos que esta dualidade seja simples- 
mente aparente. Se, junto a certos povos, as idéias de sagrado, de alma, de deuses expli- 
cam-se sociologicamente, deve-se cientificamente presumir que, em princípio, a mesma 
explicação vale para todos os povos em que as mesmas idéias se encontram com os mes- 
mos caracteres essenciais. Supondo portanto que não tenhamos nos enganado, pelo 
menos algumas de nossas conclusões podem legitimamente ser generalizadas. É chegado 
o momento de distingui-las. E uma indução desta natureza, tendo por base uma expe- 
riência bem definida, é menos temerária que tantas generalizações sumárias que, ten- 
tando atingir de uma só vez a essência da religião sem apoiar-se na análise de nenhuma 
religião em particular, arriscam-se muito a perder-se no vazio. 


524 DURKHEIM 


A religião apóia-se sobre uma experiência bem fundada mas não privilegiada. — Necessidade de uma ciência 
para atingir a realidade que funda esta experiência. — Qual é esta realidade: os agrupamentos humanos. — 
Sentido humano da religião. — Sobre a objeção que opõe sociedade ideal e sociedade real. Como se expli- 
cam, nesta teoria, o individualismo e o cosmopolitismo religioso. 


Frequentemente, os teóricos que tentaram exprimir a religião em termos racionais 
nela viram, antes de tudo, um sistema de idéias respondendo a um objeto determinado. 
Este objeto foi concebido de maneiras diferentes: natureza, infinito, incognoscível, ideal, 
etc.; mas estas diferenças pouco importam. Em todos os casos, eram as representações, 
as crenças que eram consideradas como o elemento essencial da religião. Quanto aos 
ritos, eles não apareciam, deste ponto de vista, senão como uma tradução exterior, 
contingente e material destes estados internos que, únicos, passavam por ter um valor 
intrínseco. Esta concepção é de tal maneira difundida que, na maioria das vezes, os deba- 
tes em que a religião é o tema giram em torno da questão de saber se ela pode ou não 
conciliar-se com a ciência, isto é, se ao lado do conhecimento científico existe lugar para 
outra forma de pensamento que seria especificamente religioso. 


Mas os crentes, os homens que, vivendo da vida religiosa, têm a sensação direta 
daquilo que a constitui, a esse modo de ver objetam que ele não corresponde à sua expe- 
riência cotidiana. Eles sentem, com efeito, que a verdadeira função da religião não é 
fazer-nos pensar, enriquecer nosso conhecimento, acrescentar às representações que 
devemos à ciência representações de uma outra origem e de um outro caráter, mas a de 
fazer-nos agir, auxiliar-nos a viver. O fiel que se comunicou com seu deus não é apenas 
um homem que vê novas verdades que o descrente ignora; ele é um homem que pode 
mais. Ele sente em si mais força, seja para suportar as dificuldades da existência, seja 
para vencê-las. Ele está como que elevado acima das misérias humanas porque está ele- 
vado acima de sua condição de homem; acredita-se salvo do mal, sob qualquer forma, 
aliás, que ele conceba o mal. O primeiro artigo de toda fé é a crença na salvação pela fé. 
Ora, não se vê como uma simples idéia poderia ter esta eficácia. Uma idéia, com efeito, 
não é senão um elemento de nós mesmos; como poderia ela conferir-nos poderes superio- 
res aqueles que temos por nossa natureza? Por mais que ela seja rica em virtudes afeti- 
vas, não poderia nada acrescentar à nossa vitalidade natural; pois ela só pode liberar as 
forças emotivas que estão em nós, não criá-las nem aumentá-las. Do fato de que nós nos 
representamos um objeto como digno de ser amado e procurado não se segue que nos 
sintamos mais fortes; mas é preciso que deste objeto emanem energias superiores âquelas 
de que dispomos e, além do mais, que tenhamos algum meio de fazê-las penetrar em nós 
e de misturá-las à nossa vida interior. Ora, para isto não é suficiente que nós as pense- 
mos, mas é indispensável que nos coloquemos em sua esfera de ação, que nos voltemos 
para lado pelo qual podemos sentir melhor sua influência. Numa palavra, é preciso que 
ajamos e que repitamos os atos que são assim necessários, todas as vezes em que isso é 
útil para renovar seus efeitos. Deste ponto de vista, entrevê-se como este conjunto de atos 
regularmente repetidos, que constitui o culto, retoma toda a sua importância. De fato, 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 25 


quem quer que realmente praticou uma religião bem sabe que é o culto que suscita estas 
impressões de alegria, de paz interior, de serenidade, de entusiasmo, que são, para o fiel, 
a prova experimental de suas crenças. O culto não é simplesmente um sistema de signos 
pelos quais a fé se traduz para o exterior, ele é a coleção dos meios pelos quais ela se cria 
e se recria periodicamente. Que ele consista em manobras materiais ou em operações 
mentais, é sempre ele que é eficaz. 

Todo o nosso estudo repousa sobre este postulado segundo o qual este sentimento 
unânime dos crentes de todos os tempos não pode ser puramente ilusório. Assim como 
um recente apologista da fé,? * admitimos portanto que as crenças religiosas repousam 
sobre uma experiência específica da qual o valor demonstrativo, num sentido, não é infe- 
rior aquele das experiências científicas, mesmo sendo diferente. Nós também pensamos 
“que uma árvore se conhece por seus frutos”? º e que sua fecundidade é a melhor prova 
do que valem suas raízes. Mas do fato de que existe, se se quiser, uma “experiência reli- 
giosa” e do fato de que ela é fundada de alguma maneira — existe, aliás, uma expe- 
riência que não o seja? — não se segue em hipótese alguma que a realidade que a funda 
objetivamente seja conforme à idéia que dela fazem os crentes. O próprio fato de que a 
maneira pela qual ela foi concebida variou infinitamente segundo os tempos é suficiente 
para provar que nenhuma destas concepções a exprime adequadamente. Se um sábio co- 
loca como um axioma que as sensações de calor, de luz, que experimentam os homens, 
correspondem a alguma causa objetiva, disto ele não conclui que esta seja tal qual apare- 
ce aos sentidos. Igualmente, se as impressões que sentem os fiéis não são imaginárias, 
não constituem entretanto intuições privilegiadas; não existe nenhuma razão para pensar 
que elas nos instruem melhor sobre a natureza de seu objeto do que as sensações vulgares 
sobre a natureza dos corpos e suas propriedades. Para descobrir em que consiste este 
objeto, é portanto preciso fazê-lo submeter-se a uma elaboração análoga áquela que 
substituiu, à representação sensível do mundo, uma representação científica e conceitual. 

Ora, é precisamente isto que tentamos fazer e vimos que esta realidade, que as mito- 
logias representaram sob tantas formas diferentes mas que é a causa objetiva, universal 
e eterna destas sensações sui generis das quais é feita a experiência religiosa, é a socieda- 
de. Mostramos que forças morais ela desenvolve e como desperta este sentimento de 
apoio, de salvaguarda, de dependência tutelar que liga o fiel a seu culto. É ela que o eleva 
acima de si mesmo: é ela propriamente que o faz. Pois quem faz o homem é este conjunto 
de bens intelectuais que constitui a civilização e a civilização é obra da sociedade. E 
assim se explica o papel preponderante do culto em todas as religiões, quaisquer que 
sejam. Pois a sociedade só pode exercer influência se ela for um ato e ela só pode ser um 
ato se os indivíduos que a compõem estiverem reunidos e agirem em comum. É pela ação 
comum que ela toma consciência de si e se põe; antes de tudo ela é uma cooperação 
ativa. Mesmo as idéias e os sentimentos coletivos apenas são possíveis graças a movi- 
mentos exteriores que os simbolizam, assim como o estabelecemos. Portanto, a ação do- 
mina a vida religiosa apenas porque a sociedade é sua fonte. 

A todas as razões que foram dadas para justificar esta concepção pode ser acrescen- 
tada uma última que se distinguiu em toda esta obra. Estabelecemos no percurso que as 
categorias fundamentais do pensamento e, por conseguinte, a ciência, têm origens religio- 


28 William James, The Varieties of Religious Experience. (N. do A.) 
28 James, op. cit. (p. 19 da tradução francesa). (N. do A.) 


526 DURKHEIM 


sas. Vimos que acontece o mesmo com a magia e, em consegiuência, com as diversas téc- 
nicas que dela derivam. Por outro lado, sabe-se há muito tempo que, até um momento 
relativamente avançado da evolução, as regras da moral e do direito não se diferen- 
ciavam das prescrições rituais. Portanto, pode-se dizer, resumindo, que quase todas as 
grandes instituições sociais nasceram da religião. 27 Ora, para que os principais aspectos 
da vida coletiva tenham começado por aspectos variados da vida religiosa, é preciso 
evidentemente que a vida religiosa seja a forma eminente e como que uma expressão 
abreviada da vida coletiva inteira. Se a religião engendrou tudo o que há de essencial na 
sociedade, é porque a idéia da sociedade é a alma da religião. 

As forças religiosas são pois forças humanas, forças morais. Sem dúvida, porque os 
sentimentos coletivos não podem tomar consciência de si mesmos senão fixando-se sobre 
objetos exteriores, tais forças não puderam se constituir sem tomar às coisas alguns dos 
seus caracteres: adquiriram assim um tipo de natureza física; a este título elas vieram 
misturar-se à vida do mundo material e é por elas que se acreditou poder explicar o que 
nele se passa. Mas, quando são consideradas somente por este lado e nesta atribuição, 
vê-se apenas o que elas têm de mais superficial. Na realidade é à consciência que são 
emprestados os elementos essenciais dos quais elas são feitas. Ordinariamente parece que 
elas não teriam um caráter humano senão quando são pensadas sob forma humana; ?* no 
entanto, mesmo as mais impessoais e mais anônimas não passam de sentimentos 
objetivados. 

Só vendo as religiões sob este ângulo é possível perceber sua verdadeira significa- 
ção. Prendendo-se às aparências, os ritos frequentemente parecem o efeito de operações 
puramente manuais: são unções, lavagens, refeições. Para consagrar uma coisa, se a co- 
loca em contato com uma fonte de energia religiosa, assim como hoje, para esquentar ou 
eletrizar um corpo, se o coloca em ligação com uma fonte de calor ou de eletricidade; os 
procedimentos empregados por uma e outra parte não são essencialmente diferentes. 
Assim compreendida, a técnica religiosa parece um tipo de mecânica mística. Mas estas 
manobras materiais são o invólucro exterior sob o qual se dissimulam operações men- 
tais. Finalmente, trata-se não de exercer um tipo de coação física sobre forças cegas e, 
aliás, imaginárias, mas de atingir consciências, de tonificá-las, discipliná-las. Tem-se 
afirmado algumas vezes que as religiões inferiores eram materialistas. A expressão é ine- 
xata. Todas as religiões, mesmo as mais grosseiras, são, em certo sentido, espiritualistas: 
pois as potências que elas colocam em jogo são antes de tudo espirituais e, por outro 
lado, é sobre a vida moral que elas têm por principal função agir. Compreende-se assim 
que o que foi feito em nome da religião não poderia ter sido feito em vão: pois foi neces- 
sariamente a sociedade dos homens, a humanidade que recolheu seus frutos. 

Mas, diz-se, qual é exatamente a sociedade da qual se tirou o substrato da vida reli- 
giosa? É a sociedade real, tal como ela existe e funciona sob nossos olhos, com a organi- 
zação moral, jurídica que ela laboriosamente modelou no decorrer da história? Mas ela 
está repleta de taras e de imperfeições. Aqui, o mal rodeia o bem, a injustiça fregiiente- 
mente reina como soberana, a verdade é em cada instante obscurecida pelo erro. Como 


27 Apenas uma forma da atividade social ainda não foi expressamente ligada à religião: é a atividade 
econômica. Entretanto, as técnicas que derivam da magia têm, por isto mesmo, origens indiretamente religio- 
sas. Além do mais, o valor econômico é um tipo de poder, de eficácia, e nós sabemos as origens religiosas 
da idéia de poder. A riqueza pode conferir maná; & portanto porque ela o tem. Através disto, entrevê-se que 
a idéia de valor econômico e a de valor religioso devem estar relacionadas. Mas a questão de saber qual é 
a natureza destas relações ainda não foi estudada. (N. do A.) 

28 É por esta razão que Frazer e mesmo Preuss colocam as forças religiosas impessoais fora da religião ou, 
pelo menos, no seu umbral, para ligá-las à magia. (N. do A.) 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 52) 


um ser tão grosseiramente constituído poderia inspirar os sentimentos de amor, o entu- 
siasmo ardente, o espírito de abnegação que todas as religiões reclamam de seus fiéis? 
Estes seres perfeitos que são os deuses não podem ter emprestado suas feições a uma rea- 
lidade tão medíocre, algumas vezes tão baixa. 

Trata-se, ao contrário, da sociedade perfeita, onde a justiça e a Meda seriam sobe- 
ranas, de onde o mal sob todas as suas formas estaria extirpado? Não se contesta que ela 
esteja em estreita relação com o sentimento religioso; pois, diz-se, as religiões tendem a 
realizá-la. Apenas, esta sociedade não é um dado empírico, definido e observável; ela é 
uma quimera, um sonho no qual os homens acalentaram suas misérias, mas que eles ja- 
mais viveram na realidade. Ela é uma simples idéia que vem traduzir na consciência nos- 
sas aspirações mais ou menos obscuras para o bem, o belo, o ideal. Ora, estas aspirações 
têm em nós suas raízes, vêm das próprias profundezas de nosso ser; portanto, não existe 
nada fora de nós que possa explicá-las. Aliás, já são religiosas por si mesmas; portanto, 
a sociedade ideal supõe a religião, longe de poder explicá-la.?º 

Mas, de início, é simplificar arbitrariamente as coisas ver a religião só por seu lado 
idealista: ela é realista à sua maneira. Não existe fealdade física ou moral, não existem 
vícios nem males que não tenham sido divinizados. Houve deuses do roubo e da astúcia, 
da luxúria e da guerra, da doença e da morte. O próprio cristianismo, por mais alta que 
seja a idéia que ele se faz da divindade, foi obrigado a dar ao espírito do mal um lugar 
em sua mitologia. Satã é uma peça essencial do sistema cristão; ora, se ele é um ser 
impuro, não é um ser profano. O antideus é um deus, inferior e subordinado, é verdade, 
mas dotado de poderes extensos; ele é mesmo objeto de ritos, pelo menos negativos. Por- 
tanto, longe de a religião ignorar a sociedade real e dela fazer abstração, ela é sua ima- 
gem; reflete todos os seus aspectos, mesmo os mais vulgares e os mais repugnantes. Tudo 
se reencontra nela e se, frequentemente, se vê o bem subjugar o mal, a vida a morte, as 
potências da luz as potências das trevas, é porque não ocorre diferentemente na realida- 
de. Pois, se a relação entre estas forças contrárias fosse inversa, a vida seria impossível: 
ora, de fato, ela se mantêm e mesmo tende a se desenvolver. 

Mas se, através das mitologias e das teologias, se vê claramente transparecer a reali- 
dade, é bem verdade que ela se encontra aqui aumentada, transformada e idealizada. Sob 
este aspecto, as religiões mais primitivas não diferem das mais recentes e mais refinadas. 
Vimos, por exemplo, como os Arunta colocam na origem dos tempos uma sociedade mí- 
tica, cuja organização reproduz exatamente a que existe ainda hoje; ela compreende os 
mesmos clãs e as mesmas fratrias, está submetida à mesma regulamentação matrimonial, 
pratica os mesmos ritos. Mas os personagens que a compõem são seres ideais, dotados 
de poderes e virtudes aos quais não pode pretender o comum dos mortais. Sua natureza 
não é apenas mais alta, é diferente, porque pertence simultaneamente à animalidade e à 
humanidade. Aqui, as potências análogas sofrem uma metamorfose análoga: o próprio 
mal está como que sublimado e idealizado. A questão que se coloca é a de saber de onde 
vem esta idealização. 

Responde-se que o homem tem uma faculdade natural de idealizar, isto é, de substi- 
tuir o mundo da realidade por um mundo diferente para onde ele se transporta pelo 
pensamento. Mas isto é trocar os termos do problema, sem resolvê-lo, nem fazê-lo pro- 
gredir. Esta idealização sistemática é uma característica essencial das religiões. Explicá- 
las por um poder inato de idealizar é, portanto, substituir uma palavra por outra equiva- 
lente à primeira; é como dizer que o homem criou a religião porque tem uma natureza 
religiosa. Entretanto, o animal só conhece um único mundo: é o que ele percebe pela 


2º Boutroux, Science et Religion, pp. 206-207.(N. do A.) 


528 DURKHEIM 


experiência tanto interna quanto externa. Apenas o homem tem a faculdade de conceber 
o ideal e de acrescentar ao real. De onde lhe advém este singular privilégio? Antes de 
fazer dele um fato primeiro, uma virtude misteriosa que se subtrai à ciência, é preciso 
estar seguro de que ele não depende de condições empiricamente determináveis. 

A explicação que propusemos da religião tem precisamente a vantagem de trazer 
uma resposta a tal questão. Pois o que define o sagrado é o fato de ser acrescentado ao 
real; ora, O ideal corresponde à mesma definição: não se pode portanto explicar um sem 
explicar o outro. Vimos, com efeito, que se a vida coletiva, quando atinge um certo grau 
de intensidade, desperta o pensamento religioso, é porque ela determina um estado de 
efervescência que modifica as condições da atividade psíquica. As energias vitais estão 
superexcitadas, as paixões mais vivas, as sensações mais fortes; existem mesmo algumas 
que não se produzem senão neste momento. O homem não se reconhece; sente-se como 
que transformado e, por conseguinte, transforma o meio que o rodeia. Para explicar-se as 
impressões muito particulares que experimenta, ele atribui às coisas, com as quais 
estã mais diretamente em relação, propriedades que elas não têm, poderes excepcionais, 
virtudes que não possuem os objetos da experiência vulgar. Numa palavra, ao mundo 
real em que se escoa sua vida profana ele superpõe um outro que, num sentido, existe 
apenas em seu pensamento, mas ao qual ele atribui, em relação ao primeiro, um tipo de 
dignidade mais elevada. Ele é portanto, sob seu duplo aspecto, um mundo ideal. 

Desta maneira, a formação de um ideal não constitui um fato irredutível que escape 
a ciência; depende de condições que a observação pode atingir, pois é um produto natu- 
ral da vida social. Para que a sociedade possa tomar consciência de si e manter, no grau 
de intensidade necessário, o sentimento que ela tem de si mesma, é preciso que se reúna 
e se concentre. Ora, esta concentração determina uma exaltação da vida moral que se 
traduz por um conjunto de concepções ideais onde se exprime a vida nova que assim des- 
pertou; elas correspondem a este afluxo de forças psíquicas que se acrescentam então 
aquelas das quais dispomos para as tarefas cotidianas da existência. Uma sociedade não 
pode criar-se nem recriar-se sem, no mesmo instante, criar o ideal. Para ela, esta criação 
não é um tipo de ato sub-rogatório, pelo qual ela se completaria, uma vez formada; é o 
ato pelo qual ela se faz e se refaz periodicamente. Igualmente, quando se opõe a socie- 
dade ideal à sociedade real como dois antagonistas que nos arrastariam em direções 
contrárias, realizam-se e opóem-se abstrações. A sociedade ideal não estã fora da socie- 
dade real, mas faz parte dela. Longe de estarmos divididos entre elas como entre dois 
pólos que se repelem, não podemos conservar uma sem conservar outra. Pois uma socie- 
dade não é simplesmente constituída pela massa dos indivíduos que a compõem, pelo 
movimentos que eles realizam, mas, antes de tudo, pela idéia que ela faz de si mesma. E, 
sem dúvida, acontece que ela hesita sobre a maneira pela qual deve se conceber: sente-se 
puxada em sentidos divergentes. Mas estes conflitos, quando explodem, têm lugar não 
entre o ideal e a realidade, mas entre ideais diferentes, entre o de ontem e o de hoje, entre 
aquele que tem para si a autoridade da tradição e aquele que apenas está na iminência de 
vir a ser. Seguramente pode-se investigar de onde vem que os ideais evoluam; mas, para 
qualquer solução que se dê a este problema, ainda permanece o fato de que tudo se passa 
no mundo ideal. 

Portanto, em vez de o ideal coletivo, expresso pela religião, ser devido a um não sei 
que poder inato do individuo. foi, muito pelo contrário, na escola da vida coletiva que o 
individuo aprendeu a idealizar. Foi assimilando os ideais elaborados pela sociedade que 
ele se tornou capaz de conceber o ideal. Foi a sociedade que. encadeando-o em sua esfera 
de ação, fez com que ele adquirisse a necessidade de levantar-se acima do mundo da 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 529 


experiência e ao mesmo tempo forneceu-lhe os meios de conceber outro. Pois este mundo 
novo foi ela quem o construiu, construindo-se a si mesma, porque é por ele expressa. 
Assim, tanto no indivíduo quanto no grupo, a faculdade de idealizar não tem nada de 
misterioso. Não é um tipo de luxo do qual o homem poderia privar-se, mas uma condi- 
ção de sua existência. Ele não seria um ser social, isto é, não seria um homem, se não a 
tivesse adquirido. Sem dúvida, encarnando-se nos indivíduos, os ideais coletivos tendem 
a individualizar-se. Cada um os compreende à sua maneira, os marca com o seu cunho; 
retiram-se elementos, acrescentam-se outros. O ideal pessoal destaca-se assim do ideal 
social, na medida em que a personalidade individual se desenvolve e se torna uma fonte 
autônoma de ação. Mas, para compreender esta aptidão, tão singular na aparência, de 
viver fora do real, é suficente relacioná-la às condições sociais das quais ela depende. 

Portanto, é preciso guardar-se de ver nesta teoria da religião um simples rejuvenes- 
cimento do materialismo histórico: isto seria equivocar-se completamente sobre nosso 
pensamento. Mostrando na religião uma coisa essencialmente social, não pretendemos 
de maneira alguma dizer que ela se limita a traduzir, em uma outra linguagem, as formas 
materiais da sociedade e suas necessidades imediatas e vitais. Sem dúvida, consideramos 
como uma evidência que a vida social depende de seu substrato e traz sua marca, assim 
como a vida mental do indivíduo depende do encéfalo e mesmo do organismo inteiro. 
Mas a consciência coletiva é outra coisa que um simples epifenômeno de sua base morfo- 
lógica, assim como a consciência individual é outra coisa que uma simples eflorescência 
do sistema nervoso. Para que a primeira apareça, é preciso que se produza uma síntese 
sui generis das consciências particulares. Ora, esta síntese tem por efeito produzir todo 
um mundo de sentimentos, de idéias, de imagens que, uma vez nascidos, obedecem a leis 
que lhes são próprias. Atraem-se, repelem-se, fundem-se, segmentam-se, sem que todas 
estas combinações sejam diretamente comandadas e tornadas necessárias pelo estado da 
realidade subjacente. A vida assim estimulada goza mesmo de uma independência muito 
grande, para jogar-se algumas vezes, em manifestações sem fim, sem nenhum tipo de uti- 
lidade, apenas pelo prazer de se afirmar. Mostramos precisamente que este é frequente- 
mente o caso da atividade ritual do pensamento mitológico. *º 

Mas, se a religião é um produto de causas sociais. como explicar o culto individual 
e o caráter universalista de certas religiões? Se ela nasceu in foro externo, como pode 
passar para o foro interno do indivíduo e nele engajar-se mais e mais profundamente? Se 
ela é o trabalho de sociedades definidas e individualizadas, como pode se desvencilhar 
delas até ser concebida como a coisa comum da humanidade? 

Encontramos, no decorrer de nossa investigação, os primeiros germes da religião 
individual e do cosmopolitismo religioso, vimos como eles se formaram; possuímos 
assim os elementos mais gerais da resposta que pode ser dada a esta dupla questão. 

Mostramos, com efeito, como a força religiosa que anima o clã, encarnando-se nas 
consciências particulares, também se particulariza. Assim se formam seres sagrados 
secundários; cada individuo tem os seus, feitos à sua imagem, associados à sua vida ínti- 
ma, solidários com seu destino: é a alma, o totem individual, o ancestral protetor, etc. 
Estes seres são objeto de ritos que o fiel pode celebrar sozinho, fora de todo agrupa- 
mento; portanto, é bem uma primeira forma de culto individual. Seguramente, ainda não 
passa de um culto muito rudimentar; mas é porque, como a personalidade individual está 
então muito pouco marcada, como se lhe atribui muito pouco valor, o culto que a expri- 


30 Cf. sobre esta mesma questão nosso artigo: “Representações individuais e representações coletivas”. in 
Revue de Métaphysique, maio de 1898. (N. do A.) 


530 DURKHEIM 


me ainda não podia ser muito desenvolvido. Mas, na medida em que os indivíduos 
diferenciam-se mais e que o valor da pessoa aumenta, o culto correspondente ocupa um 
lugar maior no conjunto da vida religiosa, ao mesmo tempo que se fecha mais hermetica- 
mente ao exterior. 

Portanto, a existência de cultos individuais não implica nada que contradiga ou que 
embarace uma explicação sociológica da religião; pois as forças religiosas às quais eles 
se dirigem são apenas formas individualizadas das forças coletivas. Assim, mesmo quan- 
do a religião parece pertencer inteiramente ao foro interno do indivíduo, é ainda na socie- 
dade que se encontra fonte viva da qual ela se alimenta. Podemos agora apreciar quanto 
vale este individualismo radical que queria fazer da religião uma coisa puramente indivi- 
dual: ele desconhece as condições fundamentais da vida religiosa. Se permaneceu até o 
presente no estágio de aspiração teórica que jamais se realizou, é porque ela é irreali- 
zável. Uma filosofia pode elaborar-se no silêncio da meditação interior, mas não uma fé. 
Pois uma fé é, antes de tudo, calor, vida, entusiasmo, exaltação de toda atividade mental, 
transporte do indivíduo acima de si mesmo. Ora, como poderia ele, sem sair de si, acres- 
cer algo às energias que possui? Como poderia ultrapassar-se apenas com suas forças? 
O único foco de calor junto ao qual podemos nos reaquecer moralmente é o formado 
pela sociedade de nossos semelhantes; as únicas forças morais pelas quais podemos sus- 
tentar e aumentar as nossas são aquelas que outro nos fornece. Admitamos mesmo que 
existam seres mais ou menos análogos àqueles que nos representam as mitologias. Para 
que eles possam ter sobre as almas a ação útil que é sua razão de ser, é preciso que se 
acredite neles. Ora, as crenças são ativas somente quando partilhadas. Pode-se conser- 
vá-las por algum tempo mediante um esforço completamente pessoal; mas não é assim 
que elas nascem, nem que são adquiridas: é mesmo duvidoso que possam conservar-se 
nestas condições. De fato, o homem que tem uma verdadeira fé experimenta invencivel- 
mente a necessidade de difundi-la; para isto, ele sai de seu isolamento, aproxima-se dos 
outros, procura convencê-los e é o ardor das convicções por ele suscitadas que vem 
reconfortar a sua. A fé estiolar-se-ia rapidamente se permanecesse sozinha. 

Com o universalismo religioso acontece o mesmo que com o individualismo. Longe 
de ser um atributo exclusivo de algumas grandes religiões, nós o encontramos, sem dúvi- 
da, não na base, mas no vértice do sistema australiano. Bunjil, Daramulun, Baiame não 
são simples deuses tribais; cada um deles é reconhecido por uma pluralidade de tribos 
diferentes. Seu culto é, em certo sentido, internacional. Portanto, esta concepção está 
muito próxima daquela que se encontra nas teologias mais recentes. Por esta razão, al- 
guns escritores acreditaram dever negar sua autenticidade, por mais incontestável que ela 
seja. 

Ora, nós pudemos mostrar como ela se formou. 

Tribos vizinhas e de civilização igual não podem estar sem relações constantes 
umas com as outras. Todos os tipos de circunstâncias lhes fornecem a ocasião para isto: 
além do comércio, que então é rudimentar, existem os casamentos; pois os casamentos 
internacionais são muito frequentes na Austrália. No decorrer destes encontros, os ho- 
mens tomam naturalmente consciência do parentesco moral que os une. Eles têm a 
mesma organização social, a mesma divisão em fratrias, clãs, classes matrimoniais; pra- 
ticam os mesmos ritos de iniciação ou ritos bastante similares. Empréstimos mútuos ou 
convenções terminam por reforçar estas semelhanças espontâneas. Os deuses aos quais 
estavam ligadas instituições tão manifestamente idênticas dificilmente podiam permane- 
cer distintos nos espíritos. Tudo os aproximava e. em consegiiência, mesmo supondo que 
cada tribo tenha elaborado a noção de uma maneira independente, eles necessariamente 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 531 


deviam tender a confundir-se uns com os outros. Aliás, é provável que primitivamente te- 
nham sido concebidos em assembléias intertribais. Pois são, antes de tudo, deuses de ini- 
ciação e, nas cerimônias de iniciação, tribos diferentes estão geralmente representadas. 
Portanto, se se formaram entes sagrados que não se relacionam a nenhuma sociedade 
geograficamente determinada, não é que eles tenham uma origem extra-social. Mas é 
que, acima destes agrupamentos geográficos, já existem outros cujos contornos são mais 
indecisos: não têm fronteiras fixas, mas compreendem todo tipo de tribos mais ou menos 
vizinhas e parentes. A vida social muito particular que daí se origina tende a difundir-se 
sobre uma área de extensão sem limites definidos. Naturalmente, os personagens mitoló- 
gicos que a ela correspondem têm o mesmo caráter; sua esfera de influência não é delimi- 
tada; eles planam acima das tribos particulares e acima do espaço. São os grandes deu- 
ses internacionais. 

Ora, não há nada nesta situação que seja especial às sociedades australianas. Não 
existe povo nem Estado que não esteja engajado em uma outra sociedade, mais ou menos 
ilimitada, que compreende todos os povos, todos os Estados com os quais o primeiro está 
direta ou indiretamente em relação; não existe vida nacional que não esteja dominada 
por uma vida coletiva de natureza internacional. Na medida em que se avança na histó- 
ria, estes agrupamentos internacionais atingem maior importância e extensão. Entrevê-se 
assim como, em certos casos, a tendência universalista pode se desenvolver ao ponto de 
afetar não apenas as idéias mais altas do sistema religioso mas os próprios princípios 
sobre os quais ele repousa. 


532 DURKHEIM 


H 


O que há de eterno na religião. — Sobre o conflito entre a religião e a ciência; ele versa unicamente sobre a 
função especulativa da religião. — O que esta função parece destinada a vir a ser. 


Portanto, há na religião algo de eterno que está destinado a sobreviver a todos os 
símbolos particulares nos quais o pensamento religioso sucessivamente se envolveu. Não 
pode haver sociedade que não sinta necessidade de conservar e de reforçar, em intervalos 
regulares, os sentimentos coletivos e as idéias coletivas que fazem sua unidade e sua 
personalidade. Ora, esta refeição moral só pode ser obtida por meio de reuniões, assem- 
bléias, congregações onde os indivíduos, estreitamente ligados uns aos outros, reafirmam 
em comum seus sentimentos comuns. Daí cerimônias que, por seu objeto, pelos resulta- 
dos que produzem, pelos procedimentos que nelas são empregados, não diferem em natu- 
reza das cerimônias propriamente religiosas. Que diferença essencial existe entre uma 
assembléia de cristãos celebrando as principais datas da vida de Cristo, ou uma de ju- 
deus festejando seja a saída do Egito, seja a promulgação do decálogo, e uma reunião de 
cidadãos comemorando a instituição de uma nova constituição moral ou algum grande 
acontecimento da vida nacional? 

Se hoje nós temos talvez alguma dificuldade em representar em que poderão consis- 
tir estas festas e cerimônias do futuro, é porque atravessamos uma fase de transição e de 
mediocridade moral. As grandes coisas do passado, aquelas que entusiasmavam nossos 
pais, não excitam mais em nós o mesmo ardor, seja porque elas entraram no uso comum 
a ponto de para nós se tornarem inconscientes, seja porque elas não correspondem mais 
às nossas aspirações atuais; entretanto, nada se fez ainda que as substitua. Não podemos 
mais nos apaixonar pelos princípios em nome dos quais o cristianismo recomendava aos 
senhores tratar humanamente seus escravos e, por outro lado, a idéia que ele se faz da 
igualdade e da fraternidade humanas hoje nos parece deixar muito lugar a injustas 
desigualdades. Sua piedade pelos humildes nos parece demasiado platônica; nós deseja- 
riamos uma que fosse mais eficaz; mas ainda não vemos claramente o que tal piedade 
deve ser, nem como ela poderá se realizar nos fatos. Numa palavra, os antigos deuses 
envelhecem ou morrem e outros ainda não nasceram. Foi isto que tornou vã a tentativa 
de Comte para organizar uma religião com as velhas recordações históricas, artificial- 
mente despertadas: é da própria vida e não de um passado morto que pode sair um culto 
vivo. Mas este estado de incerteza e de agitação confusa não poderá durar eternamente. 
Um dia virá em que nossas sociedades conhecerão horas de efervescência criadora no 
decorrer das quais novos ideais surgirão, novas fórmulas hão de aparecer e servir, duran- 
te algum tempo, de guia para a humanidade; e uma vez vividas estas horas, os homens 
experimentarão espontaneamente a necessidade de revivê-las de tempos em tempos pelo 
pensamento. isto é. de conservar sua recordação por meio de festas que regularmente 
renovam os frutos. Já vimos como a revolução instituiu todo um ciclo de festas para 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 333 


manter em estado de perpétua juventude os princípios em que se inspirava. Se a institui- 
ção periclitou rapidamente, foi porque a fé revolucionária durou pouco tempo, foi porque 
as decepções e o desencorajamento se sucederam rapidamente ao primeiro entusiasmo. 
Mas, mesmo que a obra tenha abortado, ela nos permite imaginar o que teria podido ser 
em outras condições; e tudo leva a pensar que cedo ou tarde será repetida. Não existem 
evangelhos que sejam imortais e não há razão para acreditar que a humanidade futura- 
mente seja incapaz de conceber novos. Quanto a saber o que serão os símbolos que virão 
a exprimir a nova fé, se se assemelharão ou não aos do passado, se serão mais adequados 
à realidade que terão por objetivo traduzir, esta é uma questão que ultrapassa a facul- 
dade humana de precisão e que, aliás, não concerne o fundamento das coisas. 


Mas as festas, os ritos, em uma palavra, o culto, não constituem toda a religião. 
Esta não é apenas um sistema de práticas; é também um sistema de idéias, cujo objetivo 
é exprimir o mundo. Vimos que mesmo as mais simples têm sua cosmologia. Qualquer 
que seja a relação existente entre estes dois elementos da vida religiosa, eles não deixam 
de ser muito diferentes. Um está voltado para a ação, que ele solicita e regula; o outro 
para o pensamento, que ele enriquece e organiza. Portanto, eles não dependem das mes- 
mas condições e, por conseguinte, pode-se perguntar se o segundo corresponde a necessi- 
dades tão universais e tão permanentes quanto o primeiro. 


Quando se atribuem ao pensamento religioso caractensticas especificas, quando se 
acredita que ele tem por função exprimir, por métodos que lhe são próprios, todo um 
aspecto do real, que escapa tanto ao conhecimento vulgar como à ciência, então nos 
recusamos naturalmente a admitir que a religião possa ser despida de seu papel especula- 
tivo. Mas a análise dos fatos não nos pareceu demonstrar esta especificidade. A religião 
que acabamos de estudar é uma daquelas onde os símbolos empregados são o que há de 
mais desconcertante para a razão. Aqui tudo parece misterioso. Estes seres que partici- 
pam simultaneamente dos reinos mais heterogêneos, que se multiplicam sem deixar de 
ser unos, que se fragmentam sem diminuir, parecem à primeira vista pertencer a um 
mundo inteiramente diferente daquele em que vivemos; chegou-se mesmo a dizer que o 
pensamento que o construiu ignorava totalmente as leis da lógica. Jamais, talvez, o con- 
traste entre a razão e a fé foi mais marcante. Portanto, se houve um momento na história 
em que sua heterogeneidade deveria ressaltar com evidência, foi exatamente aquele. Ora, 
contrariamente às aparências, constatamos que as realidades às quais se aplica agora a 
especulação religiosa são aquelas mesmas que servirão mais tarde de objeto à reflexão 
dos sábios: a natureza, o homem e a sociedade. O mistério que parece envolvê-las é 
completamente superficial e dissipa-se diante” de uma observação mais aprofundada: é 
suficiente afastar o véu com o qual a imaginação mitológica as cobriu para que elas apa- 
reçam tais como são. Estas realidades, a religião esforça-se por traduzi-las em uma lin- 
guagem inteligível que não difere em natureza daquela que a ciência emprega; nos dois 
lados, trata-se de ligar as coisas umas às outras, de estabelecer entre elas relações inter- 
nas, classificá-las e sistematizá-las. Vimos que mesmo as noções essenciais da lógica 
científica são de origem religiosa. Sem dúvida, a ciência, para utilizá-las, submete-as a 
uma elaboração nova, purificando-as de todo tipo de elementos adventícios. De uma 
maneira geral ela apresenta, em todos os seus passos, um espírito crítico que a religião 
ignora; cerca-se de precauções para “evitar a precipitação e a prevenção”, para manter 
a distância as paixões, os preconceitos e todas as influências subjetivas. Mas estes 
aperfeiçoamentos metodológicos não bastam para diferenciá-la da religião. Uma e outra, 
sob este aspecto, perseguem o mesmo fim; o pensamento científico não é senão uma 


534 DURKHEIM 


forma mais perfeita do pensamento religioso. Portanto, parece natural que o segundo se 
apague progressivamente diante do primeiro, na medida em que este se torna mais apto 
a dar conta da tarefa. 

Com efeito, é possível que esta regressão tenha se produzido no decorrer da história. 
Saída da religião, a ciência tende a substituí-la em tudo o que concerne às funções cogni- 
tivas e intelectuais. Já o cristanismo consagrou definitivamente esta substituição na 
ordem dos fenômenos materiais. Vendo na matéria a coisa profana por excelência, ele 
facilmente abandonou seu conhecimento a uma disciplina estranha, tradidit mundum 
hominum disputationi;?" foi assim que as ciências da natureza puderam estabelecer-se e 
fazer reconhecer sua autoridade sem dificuldades muito grandes. Mas ele não podia 
despojar-se tão facilmente do mundo das almas; pois é sobre as almas que o deus dos 
cristãos aspira, antes de tudo, a reinar. Foi porque, durante muito tempo, a idéia de sub- 
meter a vida psíquica à ciência tinha o efeito de um tipo de profanação; mesmo hoje, ela 
ainda repugna a numerosos espíritos. Entretanto, a psicologia experimental e compara- 
tiva constituiu-se e é preciso contar com ela hoje em dia. Mas o mundo da vida religiosa 
e moral ainda permanece interdito. A grande maioria dos homens continua a crer que ali 
existe uma ordem de coisas onde o espírito não pode penetrar senão por vias muito espe- 
ciais. Dai as vivas resistências que se encontram quando se tenta tratar cientificamente 
os fenômenos religiosos e morais. Mas, a despeito das oposições, estas tentativas se repe- 
tem e tal persistência permite mesmo prever que esta última barreira terminará por ceder 
e que a ciência se estabelecerá como senhora também nesta região reservada. 

Eis aí em que consiste o conflito da religião com a ciência. Fregientemente se fez 
dele uma idéia inexata. Diz-se que em princípio a ciência nega a religião. Mas a religião 
existe, é um sistema de fatos dados; numa palavra, ela é uma realidade. Como poderia a 
ciência negar uma realidade? Além do mais, enquanto a religião é ação, enquanto é um 
meio de fazer viver os homens, a ciência não poderia tomar o seu lugar, pois, se ela expri- 
me a vida, não a cria; ela pode procurar explicar a fé mas, por isto mesmo, a supõe. Por- 
tanto, não há conflito senão sobre um ponto limitado. Das duas funções que preenchia 
primitivamente a religião, existe uma, apenas uma, que tende cada vez mais a lhe esca- 
par: é a função especulativa. O que a ciência contesta à religião, não é o direito de existir, 
é o direito de dogmatizar sobre a natureza das coisas, é a espécie de competência especial 
que ela se atribuía para conhecer o homem e o mundo. De fato, ela não se conhece a si 
mesma. Não sabe nem de que ela é feita nem a quais necessidades ela responde. Ela 
mesma é objeto de ciência; pouco importa que possa impor leis à ciência! E como, por 
outro lado, fora do real a que se aplica a reflexão científica não existe objeto próprio 
sobre o qual verse a especulação religiosa, é evidente que essa não poderia desempenhar 
no futuro o mesmo papel que no passado. 

Entretanto, ela parece destinada a se transformar antes que a desaparecer. 

Dissemos que na religião há algo de eterno; é o culto, a fé. Mas os homens não 
poderiam celebrar cerimônias nas quais eles não veriam razão de ser, nem aceitar uma fé 
que eles não compreenderiam de nenhuma maneira. Para estendê-la ou simplesmente 
para conservâ-la, é preciso justificá-la, isto é, elaborar sua teoria. Sem dúvida, uma teoria 
deste gênero é obrigada a se apoiar sobre as diferentes ciências, a partir do momento em 
que elas existem; primeiramente, ciências sociais, porque a fé religiosa tem suas origens 
na sociedade; psicologia, porque a sociedade é uma síntese de consciências humanas; 
enfim, ciências da natureza, porque o homem e a sociedade são função do universo e não 


31 Entregou o mundo à discussão dos homens. (N, do E.) 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 559 


podem ser abstraídos dele senão artificialmente. Mas, por mais importantes que possam 
ser estes empréstimos feitos às ciências constituídas, não poderiam ser suficientes; pois a 
fé é antes de tudo impulso para agir e a ciência, por mais longe que se a conduza, perma- 
nece sempre a distância da ação. A ciência é fragmentária, incompleta; só avança lenta- 
mente e jamais estã concluída; a vida, entretanto, não pode esperar. Teorias destinadas 
a fazer viver, a fazer agir, são, portanto, obrigadas a passar adiante da ciência, e comple- 
tá-la prematuramente. Elas são possíveis unicamente se as exigências da prática e as 
necessidades vitais, tais como nós as sentimos sem concebê-las distintamente, impelem o 
pensamento adiante, além daquilo que a ciência nos permite afirmar. Assim as religiões, 
mesmo as mais racionais e as mais laicizadas, não podem e não poderão jamais passar 
sem um tipo muito particular de especulação que, tendo os mesmos objetos que a ciência, 
não poderia entretanto ser propriamente científica: aqui as intuições obscuras da sensa- 
ção e do sentimento fregientemente substituem razões lógicas. Por um lado, esta especu- 
lação assemelha-se portanto aquela que encontramos nas religiões do passado; por um 
outro, distingue-se dela. Dando-se o direito de ultrapassar a ciência, ela deve começar 
por conhecê-la e por inspirar-se nela. Desde que a autoridade da ciência foi estabelecida. 
é preciso dela ter conta; pode-se ir mais longe do que ela sob a pressão da necessidade, 
mas é dela que é preciso partir. Não se pode afirmar nada que ela negue, nada negar que 
ela afirme, nada estabelecer que não se apóie, direta ou indiretamente, sobre princípios 
tomados emprestado dela. Desde então, a lei não exerce mais a mesma hegemonia que 
antes sobre o sistema de representações que se pode continuar a chamar religiosas. Em 
face dela ergue-se uma potência rival que, nascida dela, a submete doravante à sua cri- 
tica e ao seu controle. E tudo faz prever que este controle se tornará sempre mais extenso 
e mais eficaz, sem que seja possível atribuir limite à sua influência futura. 


536 DURKHEIM 


HI 


Como a sociedade pode ser uma fonte do pensamento lógico, quer dizer, conceitual? Definição do conceito: 
não se confunde com a idéia geral; caracteriza-se por sua impessoalidade, sua comunicabilidade. — Ele tem 
uma origem coletiva. — A análise de seu conteúdo testemunha no mesmo sentido. — As representações 
coletivas como noções-tipos das quais os indivíduos participam. — Sobre a objeção segundo a qual elas não 
seriam impessoais, senão sob condição de serem verdadeiras. — O pensamento conceitual é contemporâneo 
à humanidade. 


Mas se as noções fundamentais da ciência são de origem religiosa, como a religião 
pode engendrá-las? Não se percebe à primeira vista que relações pode haver aqui entre 
a lógica e a religião. Mesmo porque a realidade que exprime o pensamento religioso é a 
sociedade, a questão pode colocar-se nos termos seguintes, que fazem aparecer melhor 
ainda toda a dificuldade: o que pode fazer da vida social uma fonte tão importante da 
vida lógica? Nada, ao que parece, a predestinava a este papel; pois não foi evidentemente 
para satisfazer necessidades especulativas que os homens se associaram. 

Talvez se terá por temerário abordar aqui um problema de tal complexidade. Para 
poder tratá-lo como convém, seria preciso que as condições sociológicas do conheci- 
mento fossem mais bem conhecidas; nós apenas começamos a entrever algumas delas. 
Entretanto, a questão é tão grave e está tão diretamente implicada por tudo o que prece- 
de, que nós devemos fazer esforço para não deixá-la sem resposta. Talvez, aliás, não seja 
impossível colocar desde agora alguns princípios gerais que podem, pelo menos, iluminar 
a solução. 

A matéria do pensamento lógico está feita de conceitos. Procurar como a sociedade 
pode ter desempenhado um papel da gênese do pensamento lógico significa, portanto, 
perguntar-se como ela pode ter tomado parte na formação dos conceitos. 

Se, como acontece ordinariamente, não se vê no conceito senão uma idéia geral, o 
problema parece insolúvel. O indivíduo, com efeito, pode, por seus próprios meios, com- 
parar suas percepções ou suas imagens, separar o que elas têm de comum, numa palavra, 
generalizar. Portanto, seria difícil perceber por que a generalização seria possível somen- 
te na e pela sociedade. Mas, primeiramente, é inadmissível que o pensamento lógico se 
caracterize exclusivamente pela maior extensão das representações que o constituem. Se 
as idéias particulares não têm nada de lógico, por que seria diferente em relação às idéias 
gerais? O geral não existe senão no particular, ele é o particular simplificado e empobre- 
cido. Portanto, o primeiro não poderia ter virtudes e privilégios que o segundo não tem. 
Inversamente, se o pensamento conceitual pode aplicar-se ao gênero, à espécie, à varie- 
dade. por mais restrito que ele possa ser, por que ele não poderia se estender ao indivíduo, 
isto é, ao limite para o qual tende a representação na medida em que sua extensão dimi- 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA De 


nui? De fato, existem vários conceitos que têm indivíduos por objetos. Em toda espécie 
de religião, os deuses são individualidades distintas umas das outras; entretanto, eles são 
concebidos, não percebidos. Cada povo representa-se de uma certa maneira. variável 
segundo os tempos. seus heróis históricos ou legendários:; estas representações são 
conceituais. Enfim, cada um de nós elabora uma certa noção dos individuos com os 
quais estã em relação, de seu caráter, de sua fisionomia, dos traços distintivos de scu 
temperamento físico e moral: estas noções são verdadeiros conceitos. Sem dúvida. são. 
em geral, formados bem grosseiramente; mas, mesmo entre os conceitos científicos. exis- 
tem muitos que sejam perfeitamente adequados ao seu objeto? Sob este aspecto existem, 
entre uns e outros, apenas diferenças de graus. 

Portanto, é preciso definir o conceito por outras características. Ele se opõe às 
representações sensíveis de toda ordem — sensações, percepções ou imagens — pelas 
propriedades seguintes: 

As representações sensíveis estão em perpétuo fluxo; impelem-se umas às outras 
como as ondas de um rio e, mesmo durante o tempo que elas duram, não permanecem 
semelhantes a si mesmas. Cada uma delas é função do instante preciso em que surgiu. 
Não estamos jamais seguros de reencontrar uma percepção tal como a provamos na pri- 
meira vez; pois, se a coisa percebida não mudou, nós não somos mais os mesmos 
homens. O conceito, ao contrário, está como que fora do tempo e do devir; está imune a 
toda agitação; dir-se-ia que está situado numa região diferente do espírito. mais serena e 
mais calma. Ele não se move por si mesmo, por uma evolução interna e espontânea; ao 
contrário, resiste à mudança. É uma maneira de pensar que, em cada momento do tempo. 
está fixada e cristalizada. º? Na medida em que ele é o que deve ser, é imutável. Se muda, 
não é que esteja em sua natureza mudar; é que nós descobrimos nele alguma imperfei- 
ção; é que tem necessidade de ser retificado. O sistema de conceitos com o qual pensa- 
mos na vida corrente é aquele que exprime o vocabulário de nossa língua materna, pois 
cada palavra traduz um conceito. Ora, a língua é fixa; ela não muda senão muito lenta- 
mente e, por conseguinte, acontece o mesmo com a organização conceitual que ela expri- 
me. O sábio encontra-se na mesma situação frente à terminologia especial que emprega 
a ciência à qual ele se consagra e, por conseguinte, frente ao sistema especial de concei- 
tos ao qual esta terminologia corresponde. Sem dúvida, ele pode inovar, mas suas inova- 
ções são sempre um tipo de violências feitas as maneiras de pensar instituídas. 

Ao mesmo tempo que é relativamente imutável, o conceito é, senão universal, pelo 
menos universalizável. Um conceito não é meu conceito; ele me é comum com outros ho- 
mens ou, em todo caso, ele pode ser-lhes comunicado. É-me impossível fazer passar uma 
sensação de minha consciência para a consciência de outro; ela pertence estritamente ao 
meu organismo e à minha personalidade, deles não podendo ser destacada. Tudo o que 
posso fazer é convidar o outro a pór-se em face do mesmo objeto que eu e a abrir-se à sua 
ação. Ao contrário, a conversação, o comércio intelectual entre os homens consiste 
numa troca de conceitos. O conceito é uma representação essencialmente impessoal: e 
por ele que as inteligências humanas se comunicam. *? 


32 William James, The Principles of Psychology, I. p. 464. (N. do A.) 

33 Esta universalidade do conceito não deve ser confundida com sua generalidade: são coisas muito diferen- 
tes. O que chamamos universalidade é a propriedade que tem o conceito de ser comunicado a uma plurali- 
dade de espíritos e mesmo, em princípio, a todos os espiritos; ora, esta comunicabilidade é completamente 
independente de seu grau de extensão. Um conceito que não se aplique senão a um único objeto. cuja exten- 
são, por conseguinte, é mínima, pode ser universal neste sentido em que ele é o mesmo para todos os entendi- 
mentos: tal o conceito de uma divindade. (N. do A.) 


538 DURKHEIM 


A natureza do conceito, assim definido, traduz suas origens. Se ele é comum a 
todos, é porque é obra da comunidade. Porque ele não traz a marca de nenhuma inteli- 
gência particular, pois é elaborado por uma inteligência única, onde todas as outras se 
encontram e de alguma maneira vêm alimentar-se. Se ele tem mais estabilidade que as 
sensações ou as imagens, é porque as representações coletivas são mais estáveis que as 
individuais; pois, enquanto o indivíduo é sensível mesmo a fracas mudanças que se pro- 
duzem em seu meio interno ou externo, apenas acontecimentos de uma suficiente gravi- 
dade podem conseguir afetar o acervo mental da sociedade. Todas as vezes que estamos 
em presença de um tipo? * de pensamento ou de ação que se impõe uniformemente às 
vontades ou às inteligências particulares, esta pressão exercida sobre o indivíduo revela 
a intervenção da coletividade. Por outro lado, diziamos precedentemente que os concei- 
tos com os quais pensamos correntemente estão consignados no vocabulário. Ora, não é 
duvidoso que a linguagem e, por conseguinte, o sistema de conceitos que ela exprime seja 
o produto de uma elaboração coletiva. O que ela exprime é a maneira pela qual a socie- 
dade em seu conjunto se representa os objetos da experiência. As noções que corres- 
pondem aos diversos elementos da língua são pois representações coletivas. 

O próprio conteúdo destas noções testemunha neste sentido. Não existe quase 
nenhuma palavra, com efeito, mesmo entre aquelas que empregamos usualmente, cuja 
acepção não ultrapasse mais ou menos largamente os limites de nossa experiência pes- 
soal. Fregiientemente um termo exprime coisas que nós jamais percebemos, experiências 
que jamais fizemos ou das quais jamais fomos testemunhas. Mesmo quando conhecemos 
alguns dos objetos aos quais ele se relaciona, não é senão a título de exemplos particu- 
lares que vêm ilustrar a idéia, mas que, apenas por eles, não seriam jamais suficientes 
para constituí-la. Encontra-se portanto condensada na palavra toda uma ciência com a 
qual eu não colaborei, uma ciência mais do que individual; e ela me ultrapassa a tal 
ponto que não posso nem mesmo apropriar-me completamente de todos os seus resulta- 
dos. Quem de nós conhece todas as palavras da língua que fala e a significação integral 
de cada uma delas? 

Esta observação permite determinar em que sentido pretendemos dizer que os con- 
ceitos são representações coletivas. Se eles são comuns a um grupo social inteiro. não é 
que eles representem uma simples média entre as representações individuais correspon- 
dentes; pois então eles seriam mais pobres que estas últimas em conteúdo intelectual, 
enquanto que em realidade eles são prenhes de um saber que ultrapassa o de um indiví- 
duo médio. Eles não são abstratos que só teriam realidade nas consciências particulares, 
mas representações tão concretas quanto aquelas que o indivíduo pode fazer-se de seu 
meio pessoal: correspondem à maneira pela qual este ser especial que é a sociedade 
pensa as coisas de sua experiência própria. Se de fato os conceitos são o mais freglente- 
mente idéias gerais, se eles exprimem antes categorias e classes do que objetos particula- 
res. é porque os caracteres variáveis e singulares dos seres só raramente interessam à 
sociedade; em razão de sua própria extensão, ela quase não pode ser afetada senão por 
suas propriedades gerais e permanentes. É portanto para este lado que se dirige sua aten- 
ção: está em sua natureza ver o mais frequentemente as coisas por grandes massas e sob 


34 Objetar-se-á que frequentemente, no indivíduo, apenas pelo efeito da repetição, maneiras de agir ou de 
pensar fixam-se e cristalizam-se sob forma de hábitos que resistem à mudança. Mas o hábito não é senão 
uma tendência a repetir automaticamente um ato ou uma idéia, todas as vezes em que as mesmas circuns- 
tâncias os despertam; ele não implica que a idéia ou o ato estejam constituídos como tipos exemplares, pro- 
postos ou impostos ao espírito ou à vontade. É apenas quando um tipo deste gênero está preestabelecido, isto 
é, quando uma regra, uma norma está instituída, que a ação social pode e deve ser presumida. (N. do A.) 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 539 


o aspecto que elas têm mais geralmente. Mas disso não existe necessidade; e, em todo 
caso, mesmo quando estas representações têm o caráter genérico que lhes é o mais habi- 
tual, elas são a obra da sociedade e estão ricas de sua experiência. 

É isso, aliás, que faz o valor que o pensamento conceitual tem para nós. Se os con- 
ceitos fossem apenas idéias gerais, eles não enriqueceriam muito o conhecimento; pois o 
geral, como já dissemos, não contém nada mais que o particular. Mas se eles são, antes 
de tudo, representações coletivas, acrescentam ao que pode nos ensinar nossa experiência 
pessoal tudo o que a coletividade acumulou de sabedoria e de ciência no decorrer dos sé- 
culos. Pensar por conceitos não é simplesmente ver o real pelo lado mais geral; é projetar 
sobre a sensação uma luz que a ilumina, a penetra e a transforma. Conceber uma coisa 
é, ao mesmo tempo, apreender seus elementos essenciais, situá-la em um conjunto; pois 
cada civilização tem seu sistema organizado de conceitos que a caracteriza. Face a este 
sistema de noções, o espírito individual está na mesma situação que o noús de Platão 
face ao mundo das Idéias. Ele se esforça por assimilá-las, pois tem necessidade delas 
para poder comerciar com seus semelhantes; mas a assimilação é sempre imperfeita. 
Cada um de nós as vê à sua maneira. Existem algumas que nos escapam completamente, 
que permanecem fora do nosso círculo de visão; outras, das quais não percebemos senão 
certos aspectos. Existem mesmo muitas que desnaturamos ao pensá-las; pois, como elas 
são coletivas por natureza, não podem se individualizar sem ser retocadas, modificadas 
e, por conseguinte, falsificadas. Daí decorre que tenhamos tanta dificuldade em nos 
entender e que até. frequentemente, nós mintamos, sem o querer, uns aos outros: é que 
todos empregamos as mesmas palavras sem lhes dar o mesmo sentido. 

Agora pode-se entrever qual é a parte da sociedade na gênese do pensamento lógico. 
Este não é possível senão a partir do momento em que, acima das representações fugidias 
que ele deve à experiência sensível, o homem chegou a conceber todo um mundo de 
ideais estáveis, lugar-comum das inteligências. Com efeito. pensar logicamente é sempre, 
em alguma medida, pensar de maneira impessoal; é também pensar sub specie aeternita- 
tis.3 º Impessoalidade, estabilidade, eis as duas características da verdade. Ora, a vida ló- 
gica supõe evidentemente que o homem sabe, pelo menos confusamente, que existe uma 
verdade distinta das aparências sensíveis. Mas como pode ele chegar a esta concepção? 
Raciocina-se frequentemente como se ela devesse apresentar-se espontaneamente desde 
que o homem abriu os olhos para o mundo. Todavia, não há nada na experiência ime- 
diata que possa sugeri-la, tudo chega mesmo a contradizê-la. Igualmente, a criança e o 
animal nem mesmo a presumem. A história mostra, aliás, que ela precisou de séculos 
para se depreender e se constituir. Em nosso mundo ocidental, foi com os grandes pensa- 
dores gregos que ela tomou, pela primeira vez, uma clara consciência de si mesma e das 
consequências que ela implica. E quando a descoberta se fez, este fato foi um encanta- 
mento que Platão traduziu em linguagem magnífica. Mas, se foi somente nesta época que 
a idéia se exprimiu em fórmulas filosóficas, ela necessariamente preexistia no estado de 
sentimento obscuro. Este sentimento os filósofos procuraram elucidar; não o criaram. 
Para que eles pudessem refletir sobre ele e analisá-lo, era preciso que ele lhes fosse dado 
e tratava-se de saber de onde vinha, isto é, em que experiência estava fundado. Era na 
experiência coletiva. Foi sob a forma do pensamento coletivo que o pensamento impes- 
soal se revelou pela primeira vez à humanidade; e não se vê por que outra via se poderia 
fazer tal revelação. Apenas porque a sociedade existe, também existe, fora das sensações 
e das imagens individuais, todo um sistema de representações coletivas que gozam de 


35 Sob a forma de eternidade. (N. do E.) 


540 DURKHEIM 


propriedades maravilhosas. Por elas os homens se compreendem, as inteligências pene- 
tram umas nas outras. Elas têm em si um tipo de força, de ascendência moral em virtude 
da qual se impõem aos espíritos particulares. Desde então o indivíduo se dá conta, pelo 
menos obscuramente, que acima de suas representações privadas existe um mundo de 
noções-tipos, segundo as quais ele é obrigado a regular suas idéias; entrevê todo um 
reino intelectual de que ele participa, mas que o ultrapassa. É uma primeira intuição do 
reino da verdade. Sem dúvida, a partir do momento em que ele teve assim consciência 
desta mais alta intelectualidade, aplicou-se em pesquisar sua natureza; ele procurou a 
partir de onde estas representações eminentes mantinham suas prerrogativas e, na medi- 
da em que ele acreditou ter descoberto suas causas, empreendeu colocar ele mesmo estas 
causas em ação para delas tirar, por suas próprias forças, os efeitos que elas implicam; 
é dizer que ele se deu a si mesmo o direito de fazer conceitos. Assim, a faculdade de con- 
ceber se individualizou. Mas, para compreender bem as origens da função, é preciso rela- 
cioná-la às condições sociais de que depende. 


Objetar-se-á que não apresentamos o conceito senão por um de seus aspectos, que 
ele não tem unicamente por missão assegurar o acordo dos espíritos uns com os outros 
mas também, e mais ainda, seu acordo com a natureza das coisas. Parece que ele tem 
toda a sua razão de ser unicamente sob condição de ser verdadeiro, isto é, objetivo, e que 
sua impessoalidade só pode ser consegiiência de sua objetividade. É pelas coisas pensa- 
das tão adequadamente quanto possível que os espíritos deveriam se comunicar. Não 
negamos que a evolução conceitual em parte se faça neste sentido. O conceito que, primi- 
tivamente, é tido por verdadeiro porque é coletivo, tende a não vir a ser coletivo senão 
sob condição de ser tido por verdadeiro: nós lhe pedimos seus títulos antes de atribuir-lhe 
nosso crédito. Mas, primeiramente, não se pode perder de vista que ainda hoje a grande 
maioria dos conceitos dos quais nós nos servimos não são metodicamente constituídos; 
nós os possuímos na linguagem, isto é, na experiência comum, sem que eles tenham sido 
submetidos a nenhuma crítica prévia. Os conceitos cientificamente elaborados e critica- 
dos estão sempre em minoria muito pequena. Além do mais; entre estes e os que têm sua 
autoridade pelo único fato de serem coletivos, existem apenas diferenças de graus. Uma 
representação coletiva, porque coletiva já apresenta garantias de objetividade; pois não 
é sem razão que ela pode se generalizar e se manter com uma suficiente persistência. Se 
ela estivesse em desacordo com a natureza das coisas, não teria podido adquirir um 
império extenso e prolongado sobre os espíritos. No fundo, o que forma a confiança que 
inspiram os conceitos científicos é que eles são suscetíveis de ser metodicamente contro- 
lados. Ora, uma representação coletiva está necessariamente submetida a um controle 
indefinidamente repetido: os homens que a ela aderem verificam-na por sua experiência 
própria. Portanto, ela não poderia ser completamente inadequada ao seu objeto. Pode, 
sem dúvida, exprimi-lo com o auxílio de símbolos imperfeitos; mas os próprios símbolos 
científicos jamais deixam de ser apenas símbolos aproximados. É precisamente este prin- 
cipio que está na base do método que seguimos no estudo dos fenômenos religiosos: nós 
vemos como um axioma que as crenças religiosas, por mais estranhas que algumas vezes 
possam parecer, têm sua verdade que é preciso descobrir. * 

Inversamente, é preciso que os conceitos, mesmo quando são construídos segundo 
todas as regras da ciência, tirem autoridade unicamente de seu valor objetivo. Não é sufi- 
ciente que eles sejam verdadeiros para serem acreditados. Se não estão em harmonia com 


38 Vê-se o quanto falta para que uma representação careça de valor objetivo apenas pelo fato de ter uma 
origem social. (N. do A.) 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 541 


as outras crenças, as outras opiniões, em uma palavra, com o conjunto das representa- 
ções coletivas, eles serão negados; os espíritos lhes estarão fechados; eles serão, por 
conseguinte, como se não existissem. Se, hoje, é suficiente em geral que eles tragam o 
selo da ciência para encontrar um tipo de crédito privilegiado, é porque nós temos fé na 
ciência. Mas esta fé difere essencialmente da fé religiosa. O valor que nós atribuímos à 
ciência depende, em suma, da idéia que fazemos coletivamente de sua natureza e de seu 
papel na vida; é dizer que ela exprime um estado de opinião. Com efeito, tudo na vida 
social, inclusive a própria ciência, repousa sobre a opinião. Sem dúvida, pode-se tomar 
a opinião como objeto de estudo e dela fazer a ciência; é nisto que consiste principal- 
mente a sociologia. Mas a ciência da opinião não faz a opinião; ela não pode senão 
iluminá-la, torná-la mais consciente de si. Através disto, é verdade, a ciência pode levá-la 
a mudar; mas a ciência continua a depender da opinião no momento em que ela parece 
legislá-la; pois, como nós o mostramos, é da opinião que ela tem a força necessária para 
agir sobre a opinião. 

Dizer que os conceitos exprimem a maneira pela qual a sociedade se representa as 
coisas é dizer também que o pensamento conceitual é contemporâneo à humanidade. 
Recusamo-nos, portanto, a ver aqui o produto de uma cultura mais ou menos tardia. Um 
homem que não pensasse por conceitos não seria homem, pois não seria um ser social. 
Reduzido apenas às percepções individuais, ele seria indistinto do animal. Se a tese con- 
trária pôde ser sustentada, foi porque se definiu o conceito por caracteres que não lhe são 
essenciais. Foi identificado com a idéia geral *? e com uma idéia geral perfeitamente 
delimitada e circunscrita. *º Nestas condições, pode parecer que as sociedades inferiores 
não conheciam o conceito propriamente dito: pois elas têm apenas processos rudimen- 
tares de generalização e as noções de que se servem geralmente não são definidas. Mas 
a maior parte de nossos conceitos atuais tem a mesma indeterminação; nós nos esforça- 
mos um pouco por defini-los somente nas discussões e quando fazemos trabalho de sá- 
bios. Por outro lado, vimos que conceber não é generalizar. Pensar conceitualmente não 
é simplesmente isolar e agrupar em conjunto os caracteres comuns a um certo número de 
objetos; é subsumir o variável sob o permanente, o individual sob o social. E porque o 
pensamento lógico começa com o conceito, segue-se que ele existiu sempre; não houve 
período histórico durante o qual os homens teriam vivido, de uma maneira crônica, na 
confusão e na contradição. Certamente, não se poderia insistir muito sobre os caracteres 
diferenciais que apresenta a lógica nos diversos momentos da história; ela evolui como 
a própria sociedade. Mas, por mais reais que sejam as diferenças, elas não devem levar 
a desconhecer as similitudes que não são menos essenciais. 


37 As Funções Mentais nas Sociedades Inferiores, pp. 131-138.(N. do A.) 
38 Ihid., p. 446. (N. do A.) 


DURKHEIM 


IV 
Como as categorias exprimem coisas sociais. — A categoria por excelência & o conceito de totalidade, que 
não pode ser sugerido senão pela sociedade. — Por que as relações que exprimem as categorias não po- 
diam tornar-se conscientes senão na sociedade. — A sociedade não é um ser alógico. — Como as categorias 
tendem a se destacar dos agrupamentos geográficos determinados. Unidade da ciência, por um lado, da moral 
e da religião, por outro. — Como a sociedade se dá conta desta unidade. — Explicação do papel atribuído 
à sociedade: sua potência criadora. — Repercussões da sociologia sobre a ciência do homem. 


Podemos agora abordar uma última questão apresentada já em nossa introdução e 
que permaneceu como que subentendida em toda a segtência desta obra. Vimos que pelo 
menos algumas das categorias são coisas sociais. Trata-se de saber de onde lhes vem esta 
característica. 

Sem dúvida, porque elas próprias são conceitos, compreende-se sem esforço que 
sejam obra da coletividade. Não existem conceitos que apresentem no mesmo grau os 
signos aos quais se reconhece uma representação coletiva. Com efeito, sua estabilidade 
e sua impessoalidade são tais que elas frequentemente passaram por ser absolutamente 
universais e imutáveis. Aliás, como elas exprimem as condições fundamentais do enten- 
dimento entre os espiritos, parece evidente que não puderam ser elaboradas senão pela 
sociedade. 

Mas no que as concerne o problema é mais complexo; pois elas são sociais num 
outro sentido e como que à segunda potência. Não apenas elas vêm da sociedade, mas as 
próprias coisas que elas exprimem são sociais. Não apenas foi a sociedade que as insti- 
tuiu, como também são aspectos diferentes do ser social que lhes servem de conteúdo; a 
categoria de gênero começou por ser indistinta do conceito de grupo humano; é o ritmo 
da vida social que está na base da categoria de tempo; o espaço ocupado pela sociedade 
forneceu a matéria da categoria de espaço; a força coletiva foi o protótipo do conceito de 
força eficaz, elemento essencial da categoria de causalidade. Todavia, as categorias não 
são feitas para aplicar-se unicamente ao reino social; estendem-se à realidade inteira. 
Como, portanto, foram tomados da sociedade os modeios sobre os quais elas foram 
construídas? 

É porque são conceitos eminentes que desempenham no conhecimento um papel 
preponderante. Com efeito, as categorias têm por função dominar e envolver todos os ou- 
tros conceitos: são os quadros permanentes da vida mental. Ora, para que elas possam 
abraçar um tal objeto, é preciso que se tenham formado sobre uma realidade de igual 
amplidão. 

Sem dúvida, as relações que elas exprimem existem, de uma maneira implícita, nas 
consciências individuais. O indivíduo vive no tempo e tem, como o dissemos, um certo 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 543 


sentido da orientação temporal. Ele está situado num ponto determinado do espaço e 
pode-se sustentar, com boas razões, que todas as suas sensações têm algo de espacial.*º 
Ele tem o sentimento das semelhanças; nele, as representações similares chamam-se, 
relacionam-se e a representação nova, formada pelo seu relacionamento, já tem algum 
caráter genérico. Igualmente, nós temos a sensação de uma certa regularidade na ordem 
de sucessão dos fenômenos; disto o próprio animal é capaz. Apenas, todas estas relações 
são pessoais, do indivíduo que nelas está engajado, e, por conseguinte, a noção que ele 
disto adquire não pode, em nenhum caso, estender-se além de seu estreito horizonte. As 
imagens genéricas que se formam em minha consciência pela fusão de imagens similares 
não representam senão os objetos que percebi diretamente; aí não há nada que possa me 
dar a idéia de uma classe, isto é, de um quadro capaz de compreender o grupo total de 
todos os objetos possíveis que satisfazem à mesma condição. Seria preciso ainda ter 
previamente a idéia de grupo. que apenas o espetáculo de nossa vida interior não seria 
suficiente para despertar em nós. Mas sobretudo não há experiência individual, por mais 
extensa e prolongada que ela seja, que possa nos fazer presumir a existência de um gêne- 
ro total que envolveria a universalidade dos seres e do qual os outros gêneros seriam ape- 
nas espécies coordenadas entre elas ou subordinadas umas às outras. Esta noção do 
todo, que estã na base das classificações que mencionamos, não nos pode vir do indivi- 
duo, que não passa de uma parte em relação ao todo e que atinge unicamente uma fração 
ínfima da realidade. E, entretanto, talvez não exista categoria mais essencial; pois. como 
o papel das categorias é o de envolver todos os outros conceitos, a categoria por exce- 
lência parece dever ser o próprio conceito de totalidade. Os teóricos do conhecimento o 
postulam ordinariamente como se ele não apresentasse problemas, sendo que ele ultra- 
passa infinitamente o conteúdo de cada consciência individual tomada à parte. 

Pelas mesmas razões, o espaço que conheço pelos meus sentidos, do qual eu sou o 
centro e onde tudo está disposto em relação a mim, não poderia ser o espaço total, que 
contém todas as extensões particulares e onde, além do mais, elas estão coordenadas em 
relação a pontos de referência impessoais, comuns a todos os indivíduos. Igualmente, a 
duração concreta que sinto escoar em mim e comigo não poderia dar-me a idéia do 
tempo total: a primeira não exprime senão o ritmo de minha vida individual, o segundo 
deve corresponder ao ritmo de uma vida que não é a de nenhum indivíduo em particular. 
mas da qual todos participam. *º Da mesma forma, enfim, as regularidades que posso 
perceber na maneira pela qual as representações sucedem-se podem ter valor para mim; 
elas explicam como, quando me é dado o antecedente de um par de fenômenos dos quais 
experimentei a constância, tendo a esperar o consegliente. Mas este estado de espera pes- 
soal não poderia ser confundido com a concepção de uma ordem universal de sucessão 
que se impõe à totalidade dos espíritos e dos acontecimentos. 

Porque o mundo que exprime o sistema total dos conceitos é aquele que a sociedade 
se representa. apenas a sociedade pode fornecer-nos as noções mais gerais. segundo as 
quais deve ele ser representado. Apenas um sujeito que envolve todos os sujeitos particu- 
lares é capaz de abraçar um tal objeto. Porque o universo não existe senão enquanto é 
pensado e porque ele não é pensado totalmente senão pela sociedade, o universo toma 
lugar nela; ele torna-se um elemento de sua vida interior e assim a sociedade é ela mesma 


3º William James, Principles of Psychology, I,p. 134.(N. do A) 

*º Fala-se frequentemente do espaço e do tempo como se eles não fossem senão a extensão e a duração con- 
cretas, tais como pode senti-las a consciência individual, mas empobrecidos pela abstração. Na realidade, 
eles são representações de um gênero completamente diferente, construídas com outros elementos, segundo 
um plano muito diferente e em vista de fins igualmente diferentes. (N. do A.) 


544 DURK HEIM 


o gênero total fora do qual nada existe. O conceito de totalidade não é senão a forma 
abstrata do conceito de sociedade: ela é o todo que compreende todas as coisas, a classe 
suprema que encerra todas as classes. Tal é o princípio profundo sobre o qual repousam 
todas estas classificações primitivas, onde os seres de todos os reinos estão situados e 
classificados nos quadros sociais, com as mesmas prerrogativas que os homens. *" Mas, 
se o mundo está na sociedade, o espaço que ela ocupa confunde-se com o espaço total. 
Com efeito, vimos como cada coisa tem seu lugar determinado sobre o espaço social; e 
o que mostra bem a que ponto este espaço total difere das extensões concretas que nos 
fazem perceber os sentidos é que esta localização é completamente ideal e não se asseme- 
lha em nada àquela que seria se ela nos fosse ditada apenas pela experiência sensível. *? 
Pela mesma razão, o ritmo da vida coletiva domina e abarca os ritmos variados de todas 
as vidas elementares das quais ele resulta; por conseguinte, o tempo que o exprime domi- 
na e abarca todas as durações particulares. É o tempo total. A história do mundo não foi 
durante muito tempo senão um outro aspecto da história da sociedade. Uma começa 
com a outra; os períodos da primeira são determinados pelos períodos da segunda. O que 
mede esta duração impessoal e global, o que fixa os pontos de referência em relação aos 
quais ela está dividida e organizada são os movimentos de concentração ou de dispersão 
da sociedade; mais geralmente, são as necessidades periódicas da refeição coletiva. Se 
estes instantes críticos se ligam mais frequentemente a algum fenômeno material, como 
a recorrência regular de tal astro ou a alternância das estações, é porque são necessários 
signos objetivos para tornar sensível a todos esta organização essencialmente social. 
Igualmente, enfim, a relação causal, no momento em que é posta coletivamente pelo 
grupo, encontra-se independente de toda consciência individual; ela plana acima de 
todos os espíritos e de todos os acontecimentos particulares. É uma lei de valor impes- 
soal. Mostramos que foi exatamente assim que ela parece ter nascido. 


Uma outra razão explica que os elementos constitutivos das categorias deveriam ser 
tomados emprestados da vida social: é que as relações que elas exprimem não podiam vir 
a ser conscientes senão na e pela sociedade. Se, em um sentido, elas são imanentes à vida 
do indivíduo, este não tinha nenhuma razão nem nenhum meio de apreendê-las, refleti- 
las, explicitá-las e erigi-las em noções distintas. Para orientar-se pessoalmente na exten- 
são, para saber em que momentos ele devia satisfazer às diferentes necessidades orgâni- 
cas, ele não tinha nenhuma necessidade de fazer para si, de uma vez para todas, uma 
representação conceitual do tempo e do espaço. Muitos animais sabem encontrar o cami- 
nho que os leva aos lugares que lhes são familiares; os animais retornam a eles no 
momento conveniente, sem que tenham entretanto nenhuma categoria; sensações são 
suficientes para dirigillos automaticamente. Elas seriam igualmente suficientes ao 
homem se seus movimentos não tivessem que satisfazer senão a necessidades individuais. 
Para reconhecer que uma coisa se assemelha a outras das quais já tivemos experiência 
não é de forma alguma necessário que disponhamos umas e outras em gêneros e espé- 
cies: a maneira pela qual imagens semelhantes atraem-se e fundem-se é suficiente para 
dar o sentimento da semelhança. A impressão do já visto, do já provado, não implica 
nenhuma classificação. Para distinguir as coisas que devemos procurar daquelas das 
quais devemos fugir não precisamos ligar os efeitos de umas e de outras às suas causas 
por um elo lógico, quando apenas conveniências individuais estão em jogo. Consecuções 


*' No fundo, o conceito de totalidade, o conceito de sociedade e o conceito de divindade são, ao que parece, 


apenas aspectos diferentes de uma única e mesma noção. (N. do A.) 
42 v. Classificações Primitivas, loc. cit., p. 40 e seguintes. (N. do A.) 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 545 


puramente empíricas, fortes conexões entre representações concretas são, para a vontade, 
guias igualmente seguros. Não apenas o animal não tem outros, mas também frequente- 
mente nossa prática privada não supõe nada a mais. O homem prevenido é aquele que 
tem uma sensação bem clara do que é preciso fazer mas que fregientemente seria inca- 
paz de traduzi-la em lei. 

Acontece de outra maneira na sociedade. Esta só é possível se os indivíduos e as 
coisas que a compõem são repartidos entre diferentes grupos, isto é, classificados, e se 
estes grupos são classificados uns em relação aos outros. Portanto, a sociedade supõe 
uma organização consciente de si que não é outra coisa que uma classificação. Esta 
organização da sociedade comunica-se naturalmente ao espaço que ela ocupa. Para pre- 
venir todo choque, é preciso que a cada grupo particular uma porção determinada de es- 
paço seja destinada: em outros termos, é preciso que o espaço total seja dividido, diferen- 
ciado, orientado e que estas divisões e estas orientações sejam conhecidas de todos os 
espíritos. Por outro lado, toda convocação para uma festa, para uma caçada, para uma 
expedição militar implica que datas sejam fixadas, combinadas e, por conseguinte, que 
um tempo comum seja estabelecido, tal que todo mundo o conceba da mesma maneira. 
Enfim, o concurso de vários para a consecução do mesmo fim comum só é possível 
quando se compreende a relação que existe entre este fim e os meios que permitem atin- 
gi-lo, isto é, se a mesma relação causal é admitida por todos os cooperadores do mesmo 
empreendimento. Portanto, não é espantoso que o tempo social, o espaço social, as clas- 
ses sociais, a causalidade coletiva estejam na base das categorias correspondentes, por- 
que é sob suas formas sociais que diferentes relações foram, pela primeira vez, apreen- 
didas com uma certa claridade pela consciência humana. 


Em resumo, a sociedade não é de maneira alguma o ser ilógico ou alógico, incoe- 
rente e caprichoso que frequentemente se vê nela com prazer. Contrariamente, a cons- 
ciência coletiva é a mais alta forma da vida psíquica, porque é uma consciência de 
consciências. Colocada fora e acima das contingências individuais e locais, ela vê as coi- 
sas unicamente pelo seu aspecto permanente e essencial que ela fixa em noções comuni- 
cáveis. Ao mesmo tempo que ela vê do alto, vê ao longe; a cada momento do tempo ela 
abraça toda a realidade conhecida; por isso, apenas ela pode fornecer ao espírito quadros 
que se apliquem à totalidade dos seres e que permitem pensá-los. Estes quadros, ela não 
os cria artificialmente; encontra-os em si mesma; apenas toma consciência deles. Eles 
traduzem maneiras de ser que se encontram em todos os graus do real, mas que não sur- 
gem em plena claridade senão no ponto culminante, porque a extrema complexidade da 
vida psíquica que aqui se desenrola necessita de um maior desenvolvimento da consciên- 
cia. Atribuir ao pensamento lógico origens sociais não é rebaixá-lo, diminuir seu valor, 
reduzi-lo a apenas um sistema de combinações artificiais; ao contrário, é relacioná-lo a 
uma causa que o implica naturalmente. Isto não é dizer, seguramente, que noções elabo- 
radas desta maneira possam ser imediatamente adequadas ao seu objeto. Se a sociedade 
é algo de universal em relação ao indivíduo, não deixa de ser ela mesma uma individua- 
lidade que tem sua fisionomia pessoal, sua idiossincrasia; ela é um sujeito particular que, 
por conseguinte, particulariza o que pensa. Portanto, as representações coletivas contêm 
elementos subjetivos e é necessário que eles sejam progressivamente depurados para se 
tornarem mais próximos das coisas. Mas, por mais grosseiras que elas possam ser na ori- 
gem, ficou demonstrado que com elas foi lançado o germe de uma mentalidade nova, à 
qual o indivíduo jamais poderia elevar-se apenas pelas suas forças: desde então, a via es- 
tava aberta para um pensamento estável, impessoal e organizado, bastando-lhe, em 
seguida, desenvolver sua natureza. 


546 DURKHEIM 


Por outro lado, as causas que determinaram este desenvolvimento parecem não 
diferir especificamente daquelas que suscitaram o germe inicial. Se o pensamento lógico 
tende cada vez mais a desembaraçar-se dos elementos subjetivos e pessoais que ele ainda 
carrega nas origens, não é porque fatores extra-sociais intervieram; é muito antes porque 
uma vida social de um gênero novo se desenvolveu cada vez mais. Trata-se desta vida 
internacional que tem já por efeito universalizar as crenças religiosas. Na medida em que 
ela se estende o horizonte coletivo alarga-se; a sociedade cessa de aparecer como o todo 
por excelência, para vir a ser a parte de um todo muito mais vasto, com fronteira indeter- 
minadas e suscetíveis de recuar indefinidamente. Por conseguinte, as coisas não podem 
mais manter-se nos quadros sociais em que estavam primitivamente classificadas; elas 
precisam ser organizadas segundo princípios que lhes sejam próprios e, assim, a organi- 
zação lógica diferencia-se da organização social e torna-se autônoma. Eis aí, ao que 
parece, como o eilo que ligava primeiramente o pensamento a individualidades coletivas 
determinadas desprende-se cada vez mais; como, por conseguinte, ele se torna sempre 
mais impessoal e se universaliza. O pensamento verdadeira e propriamente humano não 
é um dado primitivo: ele é um produto da história. Ele é um limite ideal de que nós nos 
aproximamos cada vez mais e que, pelo que parece, não chegaremos jamais a atingir. 

Assim, longe de existir entre a ciência, por um lado, a moral e a religião, por outro, 
a espécie de antinomia que frequentemente se admitiu, estes diferentes modos da ativi- 
dade humana derivam, na realidade, de uma única e mesma fonte. É o que Kant tinha 
compreendido bem, e foi por que ele fez da razão especulativa e da razão prática dois 
aspectos diferentes da mesma faculdade. O que, segundo ele, faz sua unidade é que 
ambas são orientadas para o universal. Pensar racionalmente é pensar segundo leis que 
se impõem à universalidade dos seres racionais; agir moralmente é conduzir-se segundo 
máximas que possam, sem contradição, ser estendidas à universalidade das vontades. 
Em outros termos, a ciência e a moral implicam que o indivíduo seja capaz de elevar-se 
acima de seu próprio ponto de vista e de viver uma vida impessoal. Com efeito, é certo 
que isto é um traço comum a todas as formas superiores do pensamento e da ação. O que 
o kantismo não explica é apenas de onde vem a espécie de contradição que o homem ter- 
mina assim por realizar. Por que ele é forçado a fazer-se violência para ultrapassar sua 
natureza de indivíduo e, inversamente, por que a lei impessoal é obrigada a decair encar- 
nando-se nos indivíduos? Dir-se-á que existem dois mundos antagônicos dos quais parti- 
cipamos igualmente; o mundo da matéria e dos sentidos, por um lado, o mundo da razão 
pura e impessoal, por outro? Mas é repetir a questão em termos apenas diferentes; pois 
trata-se precisamente de saber por que ele nos faz levar concorrentemente estas duas 
existências. Por que estes dois mundos, que parecem contradizer-se, não permanecem 
fora um do outro, o que é que os obriga a penetrarem-se mutuamente a despeito de seu 
antagonismo? A única explicação que foi dada desta singuiar necessidade foi a hipótese 
da queda, com todas as dificuldades que ela implica e que é inútil lembrar aqui. Ao 
contrário, todo mistério desaparece no momento em que se reconheceu que a razão 
impessoal não é senão um outro nome dado ao pensamento coletivo. Pois este só é possi- 
vel pelo agrupamento dos indivíduos; ele os supõe, portanto e, por sua vez, estes o 
supõem porque não podem manter-se senão agrupando-se. O reino dos fins e das verda- 
des impessoais não pode realizar-se senão pelo concurso das vontades c das sensibili- 
dades particulares; e as razões pelas quais estas aqui participam são as mesmas razões 
pelas quais elas concorrem. Em uma palavra, existe o impessoal em nós porque existe o 
social em nós e, como a vida social compreende simultaneamente representações e práti- 
cas, esta impessoalidade estende-se naturalmente tanto às idéias quanto aos atos. 


AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA 547 


Causará talvez espanto o ver-nos relacionar à sociedade as formas mais elevadas da 
mentalidade humana: a causa parece bem humilde em relação ao valor que damos ao 
efeito. Entre o mundo dos sentidos e dos apetites, por um lado, e aquele da razão e da 
moral, por outro, a distância é tão considerável que o segundo parece não ter jamais po- 
dido somar-se ao primeiro senão por um ato criador. — Mas atribuir à sociedade este 
papel preponderante na gênese de nossa natureza não é negar esta criação: pois a socie- 
dade dispõe precisamente de uma potência criadora que nenhum ser observável pode 
igualar. Toda criação, com efeito, a menos que seja uma operação mística que escape à 
ciência e à inteligência, é o produto de uma síntese. Ora, se as sínteses de representações 
particulares que se produzem no seio de cada consciência individual já são, por si mes- 
mas, produtoras de novidades, quanto mais eficazes serão estas vastas sínteses de cons- 
ciências completas como as sociedades! Uma sociedade é o mais potente feixe de forças 
físicas e morais de que a natureza nos oferece o espetáculo. Em parte alguma se encontra 
tal riqueza de materiais diversos, levados a um tal grau de concentração. Portanto, não 
é surpreendente que uma vida mais alta dela se depreenda que, reagindo sobre os elemen- 
tos dos quais ela resulta, eleva-os a uma forma superior de existência e os transforma. 

Assim, a sociologia parece destinada a abrir uma nova via à ciência do homem. Até 
agora, estava-se colocado face a esta alternativa: ou explicar as faculdades superiores e 
específicas do homem ligando-as às formas inferiores do ser, a razão aos sentidos, o espi- 
rito à matéria, o que implicava negar a sua especificidade; ou ligá-las a alguma realidade 
supra-experimental que se postulava, mas da qual nenhuma observação pode estabelecer 
a existência. O que colocava o espírito neste embaraço era que o indivíduo passava por 
ser finis naturae: parecia que além não haveria mais nada, pelo menos nada que a ciência 
pudesse atingir. Mas, a partir do momento em que se reconheceu que acima do indivíduo 
existe a sociedade e que esta não é um ser nominal e de razão, mas um sistema de forças 
atuantes, uma nova maneira de explicar o homem tornou-se possível. Para conservar-lhe 
seus atributos distintivos, não é mais necessário colocá-los fora da experiência. Pelo 
menos, antes de chegar a este extremo, convém investigar se o que no indivíduo ultra- 
passa o individuo não lhe viria desta realidade supra-individual, mas dada na experiên- 
cia, que é a sociedade. Certamente, não se poderia dizer desde agora até onde estas expli- 
cações podem estender-se e se elas são de natureza a suprimir todos os problemas. Mas 
é igualmente impossível marcar previamente um limite que elas não poderiam ultrapas- 
sar. O que é preciso é testar a hipótese, submetê-la tão metodicamente quanto possível ao 
controle dos fatos. Foi o que tentamos realizar. 


s 


ga aa a RL dE cem 


549 


Indice 
AUGUSTE COMTE 
CURSO DE FILOSOPIA POSTE A eo ab a MA A e Rs 7 
PRIMEIRA LIÇÃO — Exposição da finalidade deste curso, ou considerações sobre a 
natureza e a importância da filosofia positiva ......cccccccccciccccicc 9 
SEGUNDA LIÇÃO — Exposição do plano deste curso, ou considerações gerais sobre 
a hierarquia das ciências positivas using EE RE E e E A a 2 
DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO .......ccccccicicici 47 
PRIMEIRA PARTE — O espírito positivo é mais apto para organizar a harmonia 
mental do que o espírito teológico-metafísico .......ccccicicciccctc 49 
SEGUNDA PARTE — O espírito positivo é mais apto que o espírito teológico-meta- 
físico para organizar a sociedade e sistematizar a moral ......ccccccccc.. E 
TERCEIRA PARTE — Condições do estabelecimento do regime positivo ......... 83 
CATECISMO POSITIVIS PA: cuca alem da E RR Ds 101 
Pref CLOUA Be EI PR siroço 00 nro a A EN a A USE SR RR DAE RR do a 103 
Biblioteca positivano-seculo XIX renais EA ARA E RE TARA BOLA LR 117 
TRIO QUEDOS | sema Hart id Re SS a AD nO e O a RR AD pp 121 
PRIMEIRA CONFERENCIA — Teoria geral da religião .....ccccccccccc 123 
SEGUNDA CONFERENCIA — Teoria da humanidade ....ccccccciccccc 133 
PRIMEIRA PARTE — EXPLICAÇÃO DO CULTO 
TERCEIRA CONFERENCIA — Conjunto do culto ....ccccccccccsccc 141 
QUARTA CONFERENCIA — Culto privado ....ccccccicccclc 157 
QUINTA CONFERENCIA — Cuito público ....cccccccccicccn 171 
SEGUNDA PARTE — EXPLICAÇÃO DO DOGMA 
SEXTA CONFERENCIA — Conjunto do dogma ....cccccccicci 189 
SETIMA CONFERENCIA — Ordem exterior — primeiro material, depois vital. .... 207 
OITAVA CONFERENCIA — Ordem humana — primeiro social, depois moral ..... 219 
TERCEIRA PARTE — EXPLICAÇÃO DO REGIME 
Nona CONFERENCIA — Conjunto do regime ......ccccccccccccc a 237 
Décima CONFERENCIA — Regime privado ....cccccccccil 251 
UNDECIMA CONFERENCIA — Regime público .....ccccciiccccisiscc o 263 
CONCLUSAO:-— Estória peralida Felipião A quien ADO sedes e MeaA DE aeb Red a E 279 


550 


DuopEciMa CONFERENCIA -—— Passado fetíchico e teocrático comum a 
LOdOS OS POVOS Gare d a A Lo ie RR OO DO DEAL E Rd DURAR A ED DU 281 
DEciMAa TERCEIRA CONFERENCIA — Transição peculiar do Ocidente .......... 289 
ÊMILE DURKHEIM 
DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ........ciciciiiicicc 303 
Prejdero da Sorinda EUiEdo AE dec squdo o sara EANES PAS STR dE UDOP ERR 305 
LIVRO I— 4 FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 
Car. 1 — Método para determinar esta função ......ccccicccccicciccca 325 
Cap. II — Solidariedade mecânica ou por similitudes ....ccccccccccciciis 357 
Car. HI — A solidariedade orgânica ou devida à divisão do trabalho .......... 361 
AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO ....ccccicccc 373 
Prelacio aa prinera edição ua near a e Ara as ÃO dpi e ES 0 28 ED PU 375 
Prefácio na Serum edicao: a a maria A danado Rins da RD dn Ng ER 377 
MERO IÇÃO aci gerir TR a Se EAN fo Ud RO ER A O RÃ DO Ra DS ND a 387 


Estado rudimentar da metodologia nas ciências sociais ..........cccccc. 
Objetodaro bras ser o O a CADA O ORE ADA JADE E RA 


(Capeto O que eum fato social? sul ama DE raro pi nad a DS RR 389 
Cap. II — Regras relativas à observação dos fatos sociais ........c.ccccccc. 398 
Car. HI — Regras relativas à distinção entre o normal eo patológico ......... 412 
Cap. IV — Regras relativas à constituição dos tipos sociais .............c... 427 
Cap. V — Regras relativas à explicação dos fatos sociais ........iccicccic. 434 
Cap. VI — Regras relativas ao estabelecimento das provas ........cccccccc.. 452 
CONCLUSÃO q Luna Do DD MR e Sa De MD RR 461 
O SUICÍDIO: mA ue ias ia Ro GR CR RA a Ra Spa NA 465 
IninOdUÇd Os ruas Da Ra A a pie RE a E na CAN PU e o UR E 467 
LIVRO H — CAUSAS SOCIAIS E TIPOS SOCIAIS 
Cap. T--Métódo para os determinar. sida seinsap sa pasa 4 SEDE Dae a 479 
LIVRO HI — DO SUICÍDIO COMO FENOMENO SOCIAL EM GERAL 
CAP T-= O elemento sócialido SUICIdÃO Lies a ea DRA RSRS 485 
AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA .....c.cccccc... 505 
TRIBO QUQUO = norte ação 8 jao dp qa DOS AGR VE tao RR, E op US UR O DES O A RS 507 
Objeto de investigação — sociologia religiosa e teoria do Ronnie cento REA NE 507 
Carl Obicio principal do vio” Ja au se eo SAE NR VE E E 507 
Car. II -— Objeto secundário da investigação .....ccccccccccccccccca 513 


CONCEUSAÃO! Debe Sao DOS AR o SA So Tea RE NS RR Re A RO E A a 523 


Este livro integra a coleção 
OS PENSADORES — HISTÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL 
Composto e impresso nas oficinas da 
Abril S.A. Cultural e Industrial, caixa postal 2732, São Paulo